Acessibilidade, um tema em destaque Marília Claret Geraes Duran Resenha do livro: ORNSTEIN, Sheila Walbe; ALMEIDA PRADO, Adriana Romeiro de; LOPES, Maria Elisabete (orgs.). Desenho universal: caminhos da acessibilidade no Brasil. - São Paulo: Annablume, 2010.(306p.) São 22 artigos, organizados em quatro capítulos, problematizando questões relacionadas à trajetória da acessibilidade no Brasil: das políticas públicas à prática profissional e à pesquisa de avaliação de desempenho voltadas para o desenho universal. Os autores profissionais, pesquisadores e professores de todo o Brasil sob diferentes perspectivas, discutem o surgimento no Brasil de leis, normas técnicas, definições de conceitos, nomenclaturas e diversas pesquisas relacionadas ao tema da acessibilidade. As organizadoras da obra buscaram a diversidade de temas e de enfoques, o que significou considerar um amplo espectro de informações sobre o que vem sendo desenvolvido sobre o tema em diferentes regiões do Brasil. Vale ressaltar, também, o cuidadoso prefácio do Prof. Dr. Wolfgang F. E. Preiser, trazendo uma perspectiva internacional no tratamento do tema, apontando direções futuras no campo da avaliação do desenho universal, de sua incorporação nas profissões relacionadas ao planejamento, ao projeto e à construção de edifícios, e evidenciando a importância da sua filosofia ser entendida e aceita. O capítulo 1, Conceituação e procedimentos metodológicos, organiza-se em oito artigos, trazendo uma retrospectiva histórica, resgatando o desenho industrial, falando da acessibilidade e chegando no significado do desenho universal. Traz, ainda, o histórico da normatização da acessibilidade no Brasil. O artigo de Gildo Magalhães dos Santos Filho, com o título Construindo um itinerário histórico do desenho universal: a normatização nacional e internacional da acessibilidade traz uma retrospectiva histórica do desenho
REVISTAMÚLTIPLASLEITURAS [Digitetexto] industrial, apresenta o histórico da normatização da acessibilidade no Brasil. Já o trabalho de Marcelo Pinto Guimarães, O ensino de design universal nas universidades, apresenta um posicionamento crítico do tema. Adriana Romeiro de Almeida Prado, Juçara Morelli Terra Rodrigues e Vera Lúcia Valsecchi de Almeida, no artigo Cidade e Velhice desafios e possibilidades problematizam um tema ainda pouco explorado, relacionado aos cuidados com o envelhecimento da população. Afirmam ser este um tema que só aparece em discussões acadêmicas e em programas de políticas públicas, mas com pouca repercussão em termos da obrigatoriedade legal para com o cumprimento das normas de acessibilidade. O capítulo apresenta outros temas importantes: Acessibilidade Psicológica: eliminar barreiras físicas não é suficiente, de Gleide Azambuja Elali, Rosineide Gomes de Araujo e José Q. Pinheiro com uma discussão da relação das pessoas com os ambientes e dos ambientes com as pessoas, em suas relações com os conceitos de mobilidade e acessibilidade, suas dimensões físicas e psico-sócio-ambiental. Percepção e análise dos espaços desenho universal, de Antônio Tarcísio da Luz Reis e Maria Cristina Dias Lay, é outro artigo que aproxima os temas percepção e cognição ambiental. O artigo Como criar espaços mais acessíveis para pessoas com deficiência visual a partir das reflexões sobre nossas práticas projetuais?, de Marta Dischinger e Vera Helena Moro Bins Ely, discute conceitos gerais e introduz o que as autoras chama um terceiro piso tátil o chamado piso decisão, proposta inovadora com o objetivo de facilitar a circulação de pessoas com deficiência visual. O capítulo traz ainda uma discussão sobre Ergonomia e Acessibilidade contribuição de Maria Elisabete Lopes e Ana Lúcia Pinto de Faria Burjato, um texto que faz refletir sobre sua interação com o desenho universal, por serem indissociáveis para a obtenção de parâmetros e indicadores técnicos de acessibilidade. 237
REVISTAMÚLTIPLASLEITURAS [Digitetexto] O segundo capítulo compõe-se de seis artigos na perspectiva de problematizar ambientes para Moradia e para a Educação, referindo-se à acessibilidade em edificações talvez o capítulo mais diretamente relacionado às questões da educação num sentido estrito, ou seja, tendo seu foco na escola. O primeiro artigo do bloco Moradias inclusivas no mercado habitacional brasileiro, de Sandra Perito Carli, apresenta sugestões de projeto. Os cinco textos seguintes trazem experiências sobre acessibilidade nas escolas, com vistas à garantia de uma educação inclusiva. Acessibilidade em escolas experiências no Ceará, de Zilda Maria Pinto Santiago e Cibele Haddad Taralli, focaliza, justamente, a situação em Fortaleza, chamando a atenção para a importância de dotar os edifícios de rampas e sanitários acessíveis, e também de salas de apoio que garantam uma escola inclusiva. Adequação nas escolas do Rio Grande do Norte: projetando ambientes escolares como fator de inclusão social, de Maria Bernardete Lula de Menezes Cruz e Tereza Cristina Vieira Pires, discute condições para uma arquitetura inclusiva e a situação das escolas naquele estado brasileiro. Acessibilidade na rede física de escolas públicas do Estado de São Paulo: condições atuais e desafios futuros, de Nanci Saraiva Moreira e Sheila Walbe Ornstein, traz uma discussão a respeito das condições atuais e desafios futuros para um Estado com aproximadamente cinco milhões de alunos estudando em 5200 edifícios escolares. Destaca, então, possibilidades de adaptação a pessoas com deficiência, dos edifícios escolares já existentes e de que modo considerando a legislação pertinente em termos de planejamento estratégico, estão sendo implementadas tais ações. Ações integradas para acessibilidade em escolas: um caminho para a inclusão, de Mônica Geraes Duran e Ricardo Grisolia Esteves, apresenta o conjunto aluno acessível (cadeira e mesa) no contexto de diferentes salas de aula e em diferentes atividades, atendendo os princípios do desenho universal 238
REVISTAMÚLTIPLASLEITURAS [Digitetexto] um exemplo a ser seguido, para que a escola inclusiva se estabeleça. Isto porque, segundo os autores, o conceito de desenho universal é ainda mal difundido e pouco compreendido tanto pela indústria como pelas empresas e profissionais de serviços, não tendo sido incorporado ainda no processo projetual de muitos designers, engenheiros, arquitetos (p.162). Desafiando a indústria para o investimento em pesquisa, em produtos na vertente do desenho universal e da acessibilidade, apontam o fato de que o pequeno interesse da indústria pelo desenvolvimento e pela pesquisa em produtos na vertente do desenho universal e da acessibilidade torna o segmento alijado da velocidade da transformação que tem permeado outros segmentos, como, por exemplo, o da sustentabilidade (p.163). O capítulo 3 Políticas de Acessibilidade: edifícias, urbanísticas, de transportes e de turismo, organiza-se em quatro artigos: O de José Antônio Lanchoti e Gilda Collet Bruna, com o tema Desempenho da mobilidade no espaço urbano construído na cidade de Ribeirão Preto-SP uma proposta de avaliação. O segundo, de autoria de Verônica Camissão Desenho Universal e turismo inclusivo: o valor desse vínculo, de Verônica Camisão. Transportes para todos como planejar, de Ângela Costa Werneck de Carvalho. Acessibilidade e desenho universal: implementação na cidade de Passo Fundo, RS, de Rosa Maria Locatelli e Adriana Gelpi. Os artigos organizam-se na perspectiva de problematizar aspectos da acessibilidade em suas relações com as cidades: propostas de avaliação que mostram dificuldades de o poder público transformar áreas urbanas em espaços acessíveis, em curto prazo. Estudos da legislação sobre acessibilidade e sua aplicabilidade, apontando recomendações sobre acessibilidade. Relações entre desenho universal e turismo inclusivo, o valor desse vínculo, apresentando o turismo como promotor da acessibilidade e do desenvolvimento econômico, com sugestões sobre como criar ambientes receptivos para um acolhimento inclusivo. O último capítulo de número 4 apresenta três artigos sobre Gestão no Processo de Projeto: Acessibilidade física, segurança contra incêndio e 239
REVISTAMÚLTIPLASLEITURAS [Digitetexto] segurança patrimonial a importância da compatibilidade entre projetos, escrito por Rosário Ono e Kátia Beatris Rovaron Moreira, aborda a questão da segurança das pessoas com deficiência em situação de incêndio, uma perspectiva pouco explorada nas normas técnicas, bem como a garantia de acesso (e de evasão) das pessoas com deficiência aos edifícios mantendo a segurança patrimonial. Um artigo para pensar, um artigo que se apresenta quase como um grito de clamor, como um grito de socorro! O artigo de Rosália Holzschuh Fresteiro, A influência da iluminação nos ambientes acessíveis identificando barreiras, apresenta a correta iluminação dos ambientes como facilitador da inclusão das pessoas com deficiência. Eu diria, que também facilitador da inclusão das pessoas que não apresentam nenhuma deficiência. Maria Beatriz Barbosa e Roberta de Medeiros Arruda Albuquerque escrevem sobre Comunicação, sinalização e acessibilidade apresentando as inovações tecnológicas em recursos da comunicação, especialmente associados às diferentes deficiências. Na verdade, esta foi a idéia que perpassou a leitura que fiz dos quatro capítulos deste importante livro: considerando aspectos dos conceitos do desenho universal para muito além da acessibilidade física para a psicologia ambiental, para a sociologia urbana seus autores chamam a atenção do leitor que, como eu, não é uma leitor da área urbanística e arquitetônica, para a interação do cidadão com a cidade e os serviços por ela oferecidos. Ainda que traga uma preocupação para com as pessoas com limitações físicas ou cognitivas, é a interação do cidadão com a cidade o foco de toda a discussão. E é nessa perspectiva que recomendo a leitura deste livro por todos os educadores, por todos os professores, e assino esta resenha, colada à própria apresentação das organizadoras: Adriana Romeiro de Almeida Prado, Maria Elisabete Lopes, Sheila Walbe Ornstein. Entendo ser este um livro também da área da Educação, dirigido aos cidadãos usuários da cidade e que nos ensina a ver melhor o desenho da cidade e sua arquitetura. 240
REVISTAMÚLTIPLASLEITURAS [Digitetexto] Referência Bibliográfica: ORNSTEIN, Sheila Walbe; ALMEIDA PRADO, Adriana Romeiro de; LOPES, Maria Elisabete (orgs.). Desenho universal: caminhos da acessibilidade no Brasil. - São Paulo: Annablume, 2010 (306p.). 241