1. A RECUPERAÇÃO SOVIÉTICA

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Transcrição:

Ao criar o primeiro Estado socialista da história, a revolução bolchevique de 1917, na Rússia, significou para muitos a esperança de um novo mundo, sem grandes desigualdades sociais. Terminada a Segunda Guerra Mundial, esse desejo parecia cada vez mais próximo de se realizar. Em diversos países da Europa, os movimentos socialistas cresciam e ameaçavam os governos estabelecidos. No Leste europeu, a União Soviética ajudava grupos de orientação comunista a tomar o poder. O mesmo movimento podia ser observado na Ásia, em especial na China, país com a maior população do mundo. No fim da década de 1950, o comunismo chegaria à América Latina, na pequena ilha de Cuba, provocando o temor nos norte-americanos de perderem aliados territorialmente próximos. O avanço do comunismo não por acaso amedrontava os Estados Unidos e todos os defensores do capitalismo. 1. A RECUPERAÇÃO SOVIÉTICA Apesar dos terríveis danos causados pela ocupação nazista, a URSS encontrava-se, em 1945, em melhor situação do que a verificada no fim da Primeira Guerra Mundial. Contava, por exemplo, com grande número de profissionais qualificados, com uma política econômica baseada na planificação e tinha direito às indenizações pagas pelos países vencidos. Isso favoreceu a reconstrução do país em apenas quatro anos e sem ajuda externa, ao contrário da Europa ocidental, que recebeu auxílio norte-americano. A rivalidade com as nações capitalistas levou a URSS a manter um exército numeroso com um efetivo de 5,5 milhões de homens em 1950, a desenvolver a indústria bélica e a investir na produção de novas armas (os soviéticos detonaram sua primeira bomba atômica em agosto de 1949). Na área econômica, o governo priorizou a indústria de base, setor em que investiu grandes recursos, em detrimento da agricultura e da produção de bens de consumo. Essa política mudaria em 1953, com a morte de Stálin, quando então foram feitas algumas reformas na política agrária e adotaram-se medidas que rompiam com a centralização administrativa, imposta pela planificação central. Entre 1953 e 1958, a agricultura chegou a bons resultados. Mudanças de rumo nos planos quinquenais Na agricultura, a coletivização das aldeias russas, que sofrera certa interrupção durante a guerra, foi acelerada novamente depois de 1948. Mas, ao mesmo tempo, fizeram-se concessões à predileção do camponês pela propriedade privada. Deu-se a cada integrante de fazenda coletiva o controle individual de um hectare de terra, além da sua participação na propriedade conjunta dos campos comuns. Na indústria, foi mantido o princípio das recompensas individuais. A elite dos trabalhadores desfrutou um padrão de vida mais elevado, enquanto os membros do setor administrativo (a burocracia) receberam privilégios especiais. As medidas surtiriam efeito até 1959, ano em que a situação da agricultura começou a se deteriorar rapidamente: em 1961, a produção de cereais, por exemplo, ficou 11% abaixo do planejado. O governo atribuiu o mau desempenho à descentralização introduzida em 1953, o que levou à restauração dos métodos de controle administrativo. Nos sete anos que se seguiram ao fim da Segunda Guerra Mundial, a indústria soviética apresentou elevados índices de crescimento. Em média, 17,5%, enquanto a indústria norte-americana crescia 4,5% e a francesa, apenas 2%. E preciso observar, porém, que a URSS partia de baixos níveis de produção. Por isso, o volume total de produção no país era bem inferior aos números obtidos nos Estados Unidos. O sucesso alcançado pela URSS acabou levando vários países que se tornaram independentes no pós-guerra a optar por regimes inspirados no modelo soviético, na esperança de acelerar seu desenvolvimento econômico. A segunda morte de Stálin As instituições soviéticas sofreram profundas mudanças após a morte de Stálin e principalmente após a realização do XX Congresso do Partido Comunista da URSS, em fevereiro de 1956. Na ocasião, Nikita Kruchev, o novo líder do governo, denunciou os crimes de Stálin. Iniciava-se, então, o processo que ficou conhecido como desestalinização. Kruchev adotou medidas de liberalização do regime, e algumas vítimas das perseguições políticas de Stálin foram reabilitadas.

Na política externa soviética também houve várias mudanças. Kruchev pretendia diminuir os gastos militares e aumentar os investimentos na agricultura e na produção de bens de consumo. Para que essa redução fosse possível, procurou melhorar as relações com o mundo capitalista, defendendo a teoria da coexistência pacífica e abandonando a ideia de que seria inevitável uma guerra com o capitalismo. O esforço de Kruchev para reduzir as tensões esbarrou em grandes dificuldades. Uma delas foi a revolta ocorrida na Hungria, em junho de 1956, contra o domínio soviético. Nas ruas, os manifestantes pediam liberdade de expressão, a retirada das tropas soviéticas do país e eleições diretas. A revolta acabou sendo esmagada por tanques soviéticos. Logo surgiriam outros impasses, como os conflitos decorrentes da construção do Muro de Berlim (1961) e a Crise dos Mísseis, em Cuba (1962). Kruchev foi afastado do poder em 1964 e Leonid Brejnev assumiu o governo até 1982. Durante quase duas décadas, sua política se caracterizou pelo conservadorismo e pela progressiva paralisação das inovações tecnológicas. 2. O LESTE EUROPEU Em 1945, sete países do Leste europeu encontravam-se na zona de influência da URSS: Bulgária, Romênia, Polônia, Iugoslávia, Tchecoslováquia, Hungria e Albânia, e mais a parte oriental da Alemanha. Toda essa região havia sofrido duramente com a ocupação nazista e, por isso, precisava ser recuperada. Logo depois da guerra, em vários desses países foram constituídos governos de coalizão, reunindo setores da sociedade que haviam participado dos movimentos de resistência à ocupação nazista. Os governos conseguiram superar as divergências internas e elaborar um programa mínimo para a reconstrução de seus países. Em geral, os programas previam a nacionalização de setores da economia e a redistribuição das terras ocupadas pelos nazistas e seus colaboradores, além daquelas pertencentes aos proprietários que haviam abandonado o país. Os governos de coalizão, no entanto, não duraram muito tempo, pois alguns setores discordavam das reformas e se opuseram às propostas de inspiração comunista. As diferenças se acentuariam ainda mais com o advento da guerra fria, a partir de 1947. Os comunistas, sob influência da URSS, promoveram então a depuração dos governos de coalizão, afastando as pessoas contrárias às mudanças que estavam sendo implementadas. De 1948 em diante, foi proibida, no Leste europeu, qualquer forma de oposição aos governos comunistas, que assim se consolidaram no poder. A formação do Comecon O Plano Marshall, formulado pelos EUA para socorrer economicamente os países europeus, não tardou a mostrar resultados. Logo nos primeiros anos do pós-guerra era visível o crescimento da economia e a melhoria das condições de vida nesses países. Já os governos do Leste europeu, sob influência soviética e sem contar com a ajuda norte-americana, apresentavam grandes dificuldades. Diante desse quadro, a URSS percebeu a necessidade de dar maior assistência a seus aliados, e propôs acordos comerciais, concessão de créditos e envio de apoio técnico para contornar os problemas. A ajuda se intensificou, sobretudo a partir de 1949, com a criação do Conselho de Assistência Econômica Mútua (Comecon), organismo responsável por coordenar as políticas econômicas dos países membros. Como estratégia econômica, os países do Leste europeu adotaram também o modelo soviético, priorizando a produção de bens de capital em detrimento da produção de bens de consumo e de investimentos na agricultura. Essa escolha impunha muitos sacrifícios à população, levando-a a manifestar nas ruas sua insatisfação, mesmo sob risco de represálias. Assim, em 1953 greves e manifestações operárias eclodiram na Alemanha Oriental. Três anos depois, irrompeu violenta revolta na Polônia contra a presença das tropas soviéticas no país. O caso da Iugoslávia A Iugoslávia constituiu um caso à parte no Leste europeu. A expulsão dos nazistas foi obra dos próprios iugoslavos, comandados por seu maior líder, Josip Broz Tito, o marechal Tito. Apoiado principalmente pelo pequeno campesinato, o movimento de libertação, à medida que avançava, promovia o confisco de propriedades e a reforma agrária. Assim, o estabelecimento do Estado socialista na Iugoslávia ocorreu paralelamente à luta contra a ocupação nazista e seus colaboradores. Em janeiro de 1946, uma Assembleia Constituinte proclamou a nova forma de organização da Iugoslávia. A monarquia, abolida durante a Segunda Guerra, deu lugar a um país composto de seis repúblicas: Sérvia, Croácia, Eslovênia, Bósnia-Herzegovina, Macedônia e Montenegro. A Sérvia reunia em suas fronteiras duas províncias autônomas, sendo uma delas Kosovo, onde a maioria da população era de origem albanesa. Apoiando-se em sua enorme popularidade, Tito procurou seguir uma orientação independente de Moscou. Ao

contrário dos soviéticos, os iugoslavos promoveram a descentralização política e administrativa, dando prioridade à gestão local e reduzindo a intervenção do governo central. Com isso, Tito atraiu para si o ódio de Stálin, que não admitia dissidências nem manifestações de autonomia. Assim, em 1948 a União Soviética rompeu relações diplomáticas com a Iugoslávia. Apesar do rompimento, Tito conseguiu governar durante várias décadas, neutralizando as tensões entre as diversas etnias que compunham a população iugoslava. Depois de sua morte, as diferenças étnicas e religiosas se acirraram, desencadeando sérios confrontos. 3. O SOCIALISMO AGRÁRIO DA CHINA Apesar dos esforços norte-americanos, o mundo socialista ampliou-se enormemente nas décadas seguintes à Segunda Guerra Mundial. Em 1949, seria a vez de a China, um dos maiores países do mundo, adotar o socialismo. Com a Guerra do Ópio, entre 1840 e 1860, os chineses caíram sob o domínio dos países imperialistas europeus. Em 1911, explodiu no país uma revolução que provocou a queda da monarquia e a proclamação da República. O movimento, liderado por Sun Yat-sen, tinha caráter nacionalista e democrático. Sun Yat-sen, entretanto, permaneceu pouco tempo no poder, e o governo central não conseguiu se firmar. O poder passou a ser exercido, então, pelos chefes provinciais, que governavam como soberanos independentes. A Grande Marcha Terminada a Primeira Guerra Mundial, a China continuava sob domínio europeu. A situação fez com que surgisse o movimento "4 de maio" (1919), promovido por estudantes contra os tratados de paz assinados em Paris. O episódio marcou o início de uma revolução nacionalista, com amplo apoio popular. Nessa nova conjuntura, Sun Yat-sen retornou ao poder e tomou medidas decisivas para o país: estabeleceu sólida aliança com os comunistas e celebrou acordos com a URSS, dando início, com a ajuda de Moscou, a uma vitoriosa campanha contra os chefes provinciais, considerados um obstáculo à construção de um Estado nacional chinês. O rumo da política chinesa, porém, mudou com a morte de Sun Yat-sen em 1925. Seu substituto, Chang Kai-chek, decretou a ilegalidade do Partido Comunista e reprimiu com violência as organizações operárias. Nessa época, os comunistas foram duramente perseguidos nas cidades e se transferiram para o campo. Distantes do foco da repressão política, receberam o apoio de camponeses e militares contrários ao regime. Sob a liderança de Mao Tsetung, esse grupo constituiu o Exército Vermelho. Em 1931, os comunistas proclamaram, na área sob seu controle, a República do Jiangxi, no sul da China. Mas, em 1934, para escapar dos constantes ataques que sofriam das forças de Chang Kai-chek, 100 mil deles abandonaram a região e iniciaram uma jornada de 10 mil quilômetros, que passaria à história como A Grande Marcha. Primeiramente, eles seguiram para o oeste e, depois, tomaram a direção norte, para chegar, um ano depois, a Ienan, onde já existia uma base comunista. Um fato, entretanto, seria determinante para a mudança do cenário político na China: a invasão do país pelos japoneses, que desde 1931 ocupavam a Manchúria. Os comunistas chineses logo perceberam que era grande a oportunidade de converter a luta contra o invasor numa luta pela transformação da China em um país democrático e independente, com a ajuda sobretudo da população camponesa. Assim, quando em 1937 o Japão lançou sua ofensiva militar sobre a China, os comunistas e Chang Kai-chek se uniram e concordaram em lutar contra o invasor. Quando os japoneses foram expulsos, em 1945, o país voltou a ficar politicamente dividido: de um lado os adeptos do Partido Comunista Chinês (PCC), liderado por Mao Tse-tung, e de outro o governo, dirigido por Chang Kaichek. A guerra civil (1946-1949) Chang Kai-chek contava com a ajuda econômica e militar dos EUA, mas, mesmo assim, não conseguia evitar os problemas em sua administração. Dominado pela corrupção, pela violência interna e pelos altos índices de inflação, o governo chinês se tornou cada vez mais impopular. Os problemas internos facilitavam a luta pelo controle do país por parte dos comunistas, que, desde 1946, organizados no Exército de Libertação Nacional (ELP), conclamavam a população a derrubar o governo. Bem comandadas e disciplinadas, armadas com o equipamento bélico tomado dos japoneses e do próprio exército do governo, as tropas comunistas empreenderam grandes operações, apesar de lutar contra um exército que as superava em número e em armamentos. Em junho de 1949, os comunistas já reuniam um exército de 3 milhões de soldados. Avançando rapidamente do norte para o sul, conquistaram sucessivamente Pequim, Nanquim, Shangai e Cantão. Em outubro, os comunistas proclamaram a República Popular da China. A Chang Kai-chek restava apenas o governo na ilha de Formosa

(Taiwan), sob a proteção dos EUA. O grande salto da China O país que Mao Tse-tung iria governar contava com cerca de 600 milhões de habitantes, aproximadamente um quarto da população mundial. Nove em cada dez chineses viviam no campo. Nessa conjuntura, a reforma agrária era vital, mas já vinha sendo feita pelos comunistas mesmo antes da tomada do poder. Dessa forma, cerca de 47 milhões de hectares de terras agricultáveis foram expropriados e distribuídos entre 70 milhões de famílias camponesas. Pouco depois, teria início o processo de coletivização da agricultura, reunindo os camponeses em cooperativas. Para impedir um boicote ao governo, adotaram-se várias medidas contra as antigas elites. Muitos dos grandes proprietários de terras, por exemplo, foram a julgamento e acabaram executados ou condenados a trabalhos forçados. Realizou-se intensa campanha para combater a corrupção, a ação das missões religiosas estrangeiras e o imperialismo norte-americano. A recuperação econômica do país, devastado por anos de guerra, era outro objetivo dos comunistas. Em busca de ajuda, eles assinaram vários tratados de cooperação com o bloco soviético, que forneceu empréstimos e técnicos ao país. Em 1953, entrou em vigor o primeiro plano quinquenal, com o objetivo de transformar um país de características rurais em uma nação industrializada. Como resultado, houve rápido crescimento econômico, com aumento dos índices de produtividade. Apesar disso, os salários dos operários continuavam baixos, havia resistência à coletivização da terra e os estudantes criticavam os privilégios da crescente burocracia estatal. Nesse período, as críticas eram reprimidas pelo governo com violência. Em 1958, o governo lançou o Grande Salto para a Frente, programa que pretendia aumentar a produção agrícola e industrial, mas que, ao contrário, acabou provocando escassez de alimentos e fome entre a população. Enfraquecido, Mao Tse-tung deflagrou a Revolução Cultural, mobilizando a juventude contra seus adversários no Partido Comunista Chinês. Mao Tse-tung manteve-se no poder até sua morte, em 1976, aos 83 anos de idade. Pouco depois, a liderança do governo passou para Deng Xiaoping, que deu início à abertura comercial da China e a um programa de reformas econômicas, procurando a modernização da indústria, da agricultura, da defesa e da produção cultural. Deng Xiaoping reduziu ainda os gastos militares, aumentou os recursos destinados à produção, estimulou investimentos estrangeiros e incentivou a propriedade privada no campo. Sob o impulso dessas reformas, a economia chinesa passou a apresentar elevadas taxas de crescimento econômico, mas a vida política e as instituições do Estado continuaram sob o rígido controle do Partido Comunista. A Revolução Cultural O fracasso do Grande Salto abalou a posição de Mao Tse-tung no Partido Comunista Chinês. Para recuperar o poder, Mao iniciou uma guerra aberta contra seus adversários, a quem chamou de "agentes da burguesia" infiltrados no Partido Comunista. O movimento, iniciado em 1966, ficou conhecido por Revolução Cultural. O ponto de partida consistiu na reforma do ensino. Propondo uma Campanha de Educação Socialista, Mao conclamou os estudantes a lutar contra "os velhos hábitos, as velhas ideias e a velha cultura". A resposta foi imediata: inspirados num livro que reunia os pensamentos de Mao, chamado de o Grande Timoneiro, milhões de jovens espalharam-se pelo país perseguindo os chamados "ocidentalizados", "reacionários" ou "contra-revolucionários". As principais vítimas foram intelectuais, profissionais liberais e artistas. Muitos foram ridicularizados e agredidos fisicamente em público. No final de 1967, após numerosos atos de terror e vandalismo, o Exército foi chamado para conter o movimento. A consequência mais imediata da Revolução Cultural consistiu no enfraquecimento do Partido Comunista Chinês e no fortalecimento de Mao Tse-tung. 4. A REVOLUÇÃO CUBANA Cuba tornou-se independente da Espanha em 1898, mas permaneceu sob tutela militar e econômica dos Estados Unidos. A economia cubana concentrava-se na produção de açúcar para o mercado norte-americano, sujeitandose às oscilações da política de importações desse país. Nessa época, as instituições políticas em Cuba eram instáveis, o que se traduzia em frequentes golpes de Estado e governos ditatoriais. No início da década de 1950, o país vivia em regime de relativa normalidade institucional. Em 1952, entretanto, às vésperas de uma eleição presidencial, o regime constitucional foi interrompido por um golpe de Estado comandado por Fulgêncio Batista. A situação desencadeou um movimento armado contra a ditadura de Batista, liderado por um jovem advogado, Fidel Castro. Em julho de 1953, o grupo tentou um ataque ao quartel de La Moncada, o mais importante do país. Não teve êxito, e Fidel acabou preso.

Em 1955, Batista, que se mantinha no poder, concedeu uma anistia política, que beneficiou, entre outros, Fidel Castro. Livre, o opositor foi para o México, onde reuniu um grupo de companheiros para voltar a Cuba e reiniciar a luta armada contra o governo de Batista. Ao desembarcar em Cuba, os rebeldes foram surpreendidos por tropas do governo. Os doze sobreviventes do combate travado com as tropas do governo, entre eles Fidel, seu irmão Raúl e Ernesto "Che" Guevara, um médico argentino, transferiram-se para Sierra Maestra, onde deram início à luta contra a ditadura de Batista. Com o apoio dos camponeses da região e da população urbana, o movimento liderado por Fidel se fortaleceu e conseguiu vencer a superioridade bélica das forças do governo, utilizando táticas de guerrilha. A vitória se consumou, após dois anos de luta, no dia 12 de janeiro de 1959. Sete dias depois, saudado pela multidão, Fidel assumiu o poder em Havana. Cuba e o socialismo As primeiras medidas do novo governo foram a reforma agrária e a nacionalização de empresas estrangeiras, quase todas norte-americanas. Além disso, Fidel deu início a forte repressão dos opositores, fuzilando muitos deles. Essas medidas provocaram a ira do governo dos EUA, que procuraram promover atos de sabotagem e atentados contra o novo regime cubano. As relações entre os dois países se deterioraram rapidamente, levando ao rompimento definitivo em janeiro de 1961. Ao mesmo tempo, o governo cubano assinou acordos de cooperação com a URSS, com a China e com outros países do bloco socialista. Em 1962, os EUA decretaram o bloqueio econômico e político a Cuba, que perdura, em grande parte, até os dias atuais.