RECURSO ESPECIAL Nº 1.115.046 - RJ (2009/0073870-3) RELATORA : MINISTRA ELIANA CALMON EMENTA PROCESSO CIVIL - RECURSO ESPECIAL - SENTENÇA DE INDEFERIMENTO DA INICIAL - NECESSIDADE DE INTIMAÇÃO DA PARTE RÉ - INEXISTÊNCIA - ART. 296, PARÁGRAFO ÚNICO DO CPC - VIOLAÇÃO AO ART. 535, II DO CPC - NÃO-OCORRÊNCIA. 1. Não ocorre ofensa ao art. 535, II, do CPC, se o Tribunal de origem decide, fundamentadamente, as questões essenciais ao julgamento da lide. 2. Inexiste obrigatoriedade de intimação da parte ré para contrarrazoar apelação de sentença que indeferiu liminarmente a petição inicial, extinguindo o processo sem julgamento de mérito. Precedentes. 3. Recurso especial não provido. ACÓRDÃO Vistos, relatados e discutidos os autos em que são partes as acima indicadas, acordam os Ministros da Segunda Turma do Superior Tribunal de Justiça "A Turma, por unanimidade, negou provimento ao recurso, nos termos do voto do(a) Sr(a). Ministro(a)-Relator(a)." Os Srs. Ministros Castro Meira, Humberto Martins, Herman Benjamin e Mauro Campbell Marques votaram com a Sra. Ministra Relatora. Brasília-DF, 13 de outubro de 2009(Data do Julgamento) MINISTRA ELIANA CALMON Relatora Documento: 919530 - Inteiro Teor do Acórdão - Site certificado - DJe: 28/10/2009 Página 1 de 6
RECURSO ESPECIAL Nº 1.115.046 - RJ (2009/0073870-3) RELATÓRIO A EXMA. SRA. MINISTRA ELIANA CALMON: - Cuida-se de recurso especial interposto com fundamento na alínea "a" do permissivo constitucional contra acórdão proferido pelo Tribunal Regional Federal da 2ª Região assim ementado: No recurso especial aponta-se violação dos arts. 125, I; 518, caput e 535, II do CPC, sustentando que: a) houve violação ao princípio da igualdade de tratamento das partes, que impõe a necessidade de observância da abertura de vista aos réus para oferecer contrarrazões ao apelo; e b) o acórdão recorrido omitiu-se quanto à esta relevante questão jurídica aduzida em preliminar. (fls. 285/294) Contrarrazões às fls. 301/311 nas quais a União informa que sofreu invasão no imóvel situado na Rua Nestor Moreira, n. 11, Botafogo, nesta cidade, pela Prefeitura Municipal do Rio de Janeiro que vem cedendo a ocupação do mesmo a terceiros indevidamente; defende a inexistência de violação aos princípios do contraditório e da ampla defesa pois o Município do Rio de Janeiro e o Bar e Restaurante Clube do Empresário Ltda não foram citados na demanda quando o juízo de primeiro grau extinguiu o feito sem resolução do mérito, nos termos do art. 296 do CPC e salienta a existência de prequestionamento implícito da questão federal no acórdão recorrido. O recurso especial foi admitido na origem (fls. 315/316). É o relatório. Documento: 919530 - Inteiro Teor do Acórdão - Site certificado - DJe: 28/10/2009 Página 2 de 6
RECURSO ESPECIAL Nº 1.115.046 - RJ (2009/0073870-3) RELATORA : MINISTRA ELIANA CALMON VOTO A EXMA. SRA. MINISTRA ELIANA CALMON (Relatora): - A tese objeto da irresignação foi devidamente prequestionada na origem quando se discutiu a necessidade de intimação do Município do Rio de Janeiro e do Bar e Restaurante Clube do Empresário Ltda. para contrarrazoarem o recurso de apelação da União, interposto contra sentença que extinguiu o feito sem julgamento de mérito. O acórdão que julgou a questão assim se pronunciou: Conforme relatado, trata-se de embargos de declaração opostos em face do v. acórdão de fl. 225, em que esta 6ª Turma Especializada, por unanimidade, deu provimento aos recursos de embargos de declaração anteriormente opostos, sem efeitos infringentes, para consignar no julgado o reconhecimento da violação perpetrada ao princípio constitucional do devido processo legal (art. 5º, LV, da Constituição da República). O recurso em questão é de efeito vinculado aos requisitos de admissibilidade previstos no art. 535 do CPC, quais sejam, a obscuridade, contradição ou omissão. No caso vertente, não logrou a embargante demonstrar a ocorrência de nenhuma das hipóteses de cabimento dos embargos de declaração. Com efeito, o julgado é de clareza solar ao afirmar que restou configurado o vício de omissão por eles alegado, tendo em vista a violação ao art. 5º, LV, da Constituição da República, consistente no princípio do devido processo legal, que tem a ampla defesa e o contraditório com uns dos corolários e que deverão ser assegurados aos litigantes, não havendo a necessidade de esclarecimento ou aclaração. Ressalte-se, quanto à alegada omissão referente à violação do art. 518 do CPC, segundo o qual o juiz mandará dar vista ao apelado para oferecer contra-razões ao apelo, que o acórdão embargado, a contrario sensu, rejeitou a tese da embargante ao consignar que não há falar em inaplicabilidade do art. 296 do CPC, uma vez que, determinada a citação, não foi a mesma efetivada, razão por que não houve a formação da relação processual e, ato contínuo, foi proferida a sentença de fls. 108/110. Demais disso, não está o Magistrado obrigado a fazer expressa menção a violação dos dispositivos legais invocados, pois o prequestionamento a ser buscado refere-se à matéria versada no dispositivo tido por violado, não se exigindo sua literal indicação, sendo certo que a simples afirmação da embargante de se tratar de embargos com propósito de prequestionamento não é suficiente ao acolhimento do recurso, sendo necessário se subsuma a irresignação integrativa a uma das hipóteses do art. 535 do CPC. Pelo exposto, NEGO PROVIMENTO ao recurso. É o voto. (fl. 274) Prejudicada, portanto, a alegação de violação ao art. 535, II do CPC. No mérito, o recurso não merece provimento. A questão jurídica objeto da Documento: 919530 - Inteiro Teor do Acórdão - Site certificado - DJe: 28/10/2009 Página 3 de 6
irresignação pode ser assim enunciada: há dever jurídico de se intimar a parte ré quando a demanda fora extinta sem julgamento de mérito antes da citação para o ingresso na lide? do CPC que dispõe: A solução da controvérsia passa pela interpretação do art. 296, parágrafo único Art. 296. Indeferida a petição inicial, o autor poderá apelar, facultado ao juiz, no prazo de 48 (quarenta e oito) horas, reformar sua decisão. Parágrafo único. Não sendo reformada a decisão, os autos serão imediatamente encaminhados ao tribunal competente. Pelo citado enunciado, atualmente, é desnecessária a intimação da parte ré para contrarrazoar a apelação do autor, pois provido o apelo os autos retornarão à instância inferior, quando haverá a citação do requerido com a continuidade do feito. Apenas em casos excepcionais, em que se verificará prejuízo ao direito da parte ré, é que se evidenciará a necessidade de intimação ou a nulidade nos casos em que se faria necessária. O Município do Rio de Janeiro não logrou demonstrar onde residiria o efetivo prejuízo na conclusão aventada e processualmente adequada do acórdão recorrido, razão pela qual a irresignação não merece provimento. Nesse sentido, colho alguns arestos representativos do quanto afirmado: RECURSO ESPECIAL - PROCESSO CIVIL - AÇÃO CIVIL PÚBLICA - INDEFERIMENTO LIMINAR DE PETIÇÃO INICIAL - CITAÇÃO DO RÉU PARA CONTESTAR A APELAÇÃO INTERPOSTA - DESNECESSIDADE - ART. 296, PARÁGRAFO ÚNICO, DO CÓDIGO DE PROCESSO CIVIL - NOVO ENTENDIMENTO INTRODUZIDO PELA LEI N. 8.952/94. 1. Não há de se confundir, em se tratando de comparecimento espontâneo do réu, as regras insertas no art. 214, 1º, do Código de Processo Civil com o disposto no art. 296 do mesmo código. 2. À luz do art. 296, com a redação dada pela Lei n. 8.952, o réu não é mais citado para acompanhar a apelação interposta contra sentença de indeferimento da petição inicial. Mesmo na fase recursal, o feito prossegue apenas de forma linear autor/juiz. O réu poderá intervir, mas sem necessidade de devolução de prazos recursais, porque o acórdão que reforma a sentença de indeferimento não chega a atingi-lo, pois, devolvidos os autos à origem, proceder-se-á à citação e, em resposta, poderá o réu alegar todas as defesas que entender cabíveis, inclusive a inépcia da inicial. (...) 5. Recurso especial não-conhecido. (REsp 507.301/MA, Rel. Ministro JOÃO OTÁVIO DE NORONHA, SEGUNDA TURMA, julgado em 13/03/2007, DJ 17/04/2007 p. 286) AGRAVO REGIMENTAL EM AGRAVO DE INSTRUMENTO. PROCESSO CIVIL. INDEFERIMENTO DA INICIAL. INEXISTÊNCIA DA CITAÇÃO. RELAÇÃO PROCESSUAL NÃO EFETIVADA. DESNECESSIDADE DE INTIMAÇÃO PARA APRESENTAR CONTRA-RAZÕES. 1. A jurisprudência deste Superior Tribunal de Justiça é firme no sentido de que, indeferida a petição inicial, sem que houvesse a citação do réu, desnecessária se torna a sua intimação para apresentar contra-razões, porque ainda não se encontra efetivada a relação processual. Precedentes. Documento: 919530 - Inteiro Teor do Acórdão - Site certificado - DJe: 28/10/2009 Página 4 de 6
2. Agravo regimental improvido. (AgRg no Ag 602.885/DF, Rel. Ministro HAMILTON CARVALHIDO, SEXTA TURMA, julgado em 19/04/2005, DJ 01/07/2005 p. 664) Diante do quanto exposto, observa-se que o art. 518 do CPC não tem aplicabilidade à hipótese dos autos porque a parte recorrente não integrava a lide quando se deu o indeferimento da pretensão e o art. 125 é inaplicável porque se refere ao dever de tratamento igualitário às partes, mas o município e o Clube do Empresário Ltda não eram parte na demanda. Com essas considerações, nego provimento ao recurso especial. É o voto. Documento: 919530 - Inteiro Teor do Acórdão - Site certificado - DJe: 28/10/2009 Página 5 de 6
CERTIDÃO DE JULGAMENTO SEGUNDA TURMA Número Registro: 2009/0073870-3 REsp 1115046 / RJ Número Origem: 200751010207239 PAUTA: 13/10/2009 JULGADO: 13/10/2009 Relatora Exma. Sra. Ministra ELIANA CALMON Presidente da Sessão Exmo. Sr. Ministro HUMBERTO MARTINS Subprocurador-Geral da República Exmo. Sr. Dr. EUGÊNIO JOSÉ GUILHERME DE ARAGÃO Secretária Bela. VALÉRIA ALVIM DUSI AUTUAÇÃO ASSUNTO: DIREITO ADMINISTRATIVO E OUTRAS MATÉRIAS DE DIREITO PÚBLICO - Domínio Público - Bens Públicos - Terreno de Marinha CERTIDÃO Certifico que a egrégia SEGUNDA TURMA, ao apreciar o processo em epígrafe na sessão realizada nesta data, proferiu a seguinte decisão: "A Turma, por unanimidade, negou provimento ao recurso, nos termos do voto do(a) Sr(a). Ministro(a)-Relator(a)." Os Srs. Ministros Castro Meira, Humberto Martins, Herman Benjamin e Mauro Campbell Marques votaram com a Sra. Ministra Relatora. Brasília, 13 de outubro de 2009 VALÉRIA ALVIM DUSI Secretária Documento: 919530 - Inteiro Teor do Acórdão - Site certificado - DJe: 28/10/2009 Página 6 de 6