SELEÇÃO DE ARTIGOS DO PROFESSOR



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SELEÇÃO DE ARTIGOS DO PROFESSOR

Página 1 ARTIGOS DO PROFESSOR Artigo 1 Língua Culta O que existe e o que não existe em Língua Portuguesa... Artigo 2 Normas Gerais da Língua Culta... Artigo 3 Problemas Gerais da Língua Culta... Artigo 4 Que língua! Tantos quês... por quê?... Artigo 5 O resgate do pronome cujo... Artigo 6 Onde o onde não é correto... Artigo 7 Remição ou Remissão? Eis a questão.... Artigo 8 Hífen e o Acordo... Artigo 9 As encruzilhadas do Acordo Ortográfico... Artigo 10 A queda do circunflexo em creem, deem, leem e veem... Artigo 11 As Dez Estranhezas do Acordo Ortográfico... Artigo 12 Reforma Ortográfica: o que parece ter mudado, mas não mudou.... Página 01 Página 02 Página 03 Página 05 Página 07 Página 09 Página 11 Página 13 Página 14 Página 16 Página 18 Página 21 Artigo 1 Língua culta O que existe e o que não existe em Língua Portuguesa Há erros que se cristalizam no dia a dia da comunicação oral. Isso se evidencia em coletividades que utilizam idiomas complexos, como o nosso, a par das demais nações lusófonas. O eminente lexicógrafo Houaiss define Barbarismo como o uso sistemático de formas vocabulares inexistentes na norma culta da língua, por parte de falantes que não a dominam inteiramente. Os exemplos abaixo citados enquadram-se no conceito descrito. É comum a indicação da ocorrência de festas beneficientes. Trata-se de um evento inexistente. A razão? A festa só poderá ser beneficente. A beneficência ou filantropia é a atividade criativa ou que traz benefício. A pronúncia equivocada beneficiente -, por certo, não trará nenhum. É de todo recomendável ajudar quem necessita...e por que não fazer com gramaticalidade? Em outro giro, quando se quer dar um tratamento vago e indeterminado, referindo-se a outrem, usa-se a forma estereotipada, fulano, beltrano e.... As reticências indicam que faltou a terceira referência, não é mesmo? Digamos que o suspense é propositado. A razão? Fala-se e grafa-se com imprecisão o termo omitido. Assimilemos: fulano, beltrano e sicrano esta última com s e sílaba cra (não -cla ). Não há dúvida que a sonoridade da forma correta é estranha. Todavia, não se trata de boa ou má sonoridade, mas de correção ortográfica, e dela não podemos prescindir. É sabido que as palavras têm força demasiada. Assemelham-se ao pássaro que foge da gaiola, não mais retornando ao local de onde partiu. Há de haver cautela na anunciação dos termos. Nesse passo, tem-se ouvido a expressão no que pertine.... Muita calma! Trata-se de menção a verbo inexistente em nosso léxico. Encontram-se, sim, dicionarizados os termos pertinente e pertinência, porém o verbo não foi previsto. Assim, seu uso deriva da imaginação. Deve-se evitar a forma, substituindo-a por no que concerne..., no que tange... ou, ainda, no que se refere.... Se as palavras são como pássaros que fogem da gaiola, certamente, muitos deles encontram-se soltos por aí.... Note mais um barbarismo: os gramáticos e os dicionaristas não registram o uso vernáculo da locução a teor de, ocupando o lugar das corriqueiras conjunções conformativas conforme, como, consoante, nos termos de, de conformidade com. Estas expressões

Página 2 são válidas; aquela, não. Portanto, há erronia quando se diz a extinção do feito se deu a teor do art. 267 do CPC. Prefira a extinção do feito se deu conforme o art. 267 do CPC (ou com as outras locuções sugeridas). De fato, os equívocos mencionados são deveras curiosos. Não menos intrigante é a disseminação deles no falar diário. Situações há em que a forma correta - por ser tão rara diante do uso interativo da expressão condenável -, pode causar estranheza e ser tida como a inválida, a incorreta. Note o caso de aficionado. O adjetivo deve ser assim grafado e pronunciado. Não existe a forma aficcionado, com dois cês. Assim, memorize: quem é entusiasta ou nutre simpatia por algo é um aficionado e ponto final. Talvez o dislate derive da falsa correlação com o termo ficção, porém não deve haver similitude entre as formas. Os ingleses têm uma emblemática máxima: A imaginação é a inteligência se divertindo. De fato, não há nada mais fértil que nosso poder de criar, de imaginar. Entretanto, a comunicação deve se dar com o rigor das normas cultas. A inteligência pode se divertir, porém a diversão não deve provocar irritabilidade a quem se dirige tornando o ouvinte irascível aliás, um termo normal pronunciado por aí. Deve-se falar assim, e não como dois erres irrascível um vocábulo inexistente. Nosso dia a dia apresenta-se repleto de encruzilhadas linguísticas. Entre o que existe e o que não existe em Língua portuguesa está a chave do uso escorreito do idioma. Talvez a chave da gaiola daqueles pássaros que voam por aí... Artigo 2 Normas gerais da língua culta Há poucos dias, chegou ao meu conhecimento que, em um concurso da área jurídica, teria sido solicitada, como questão de língua portuguesa, a elaboração de uma dissertação sobre o verbo haver. Não me causou estranheza, haja vista se tratar de verbo corriqueiro em nossa linguagem cotidiana. Com efeito, uma olhadela no parágrafo anterior indicará a presença do verbo em dois momentos: há poucos dias..., logo no início;...haja vista se tratar de..., ao término do articulado. O verbo haver possui inúmeras acepções: seu significado vai de um simples existir (Houve um incêndio) até um curioso sentido de conseguir (Houve do poder público a comutação da pena). Nesse multifacetado contexto significativo, requer-se cautela. A propósito, o sentido mais usual, designativo de existir, mostra a forma impessoal do verbo haver. Assim, não se podem pluralizar as formas, como se nota nos exemplos a seguir: Há cinema na cidade Há cinemas na cidade; Houve briga no estádio Houve brigas no estádio. Nesse passo, diga-se que as locuções verbais manter-se-ão, igualmente, inalteradas. Observe: Deve haver cinema na cidade Deve haver cinemas na cidade; Há de haver disputa violenta Há de haver disputas violentas. Não menos usual, com ênfase na redação forense, desponta a locução haja vista, na acepção de tendo em vista. Trata-se de expressão fossilizada, isto é, grafa-se haja vista, e não haja visto um produto da mirabolante imaginação humana. A ressalva existe para caso distinto: haja visto como locução verbal indicativa de tenha visto. Exemplo: Espero que haja visto a comédia. Nesse caso, não há problemas... há de haver tolerância! Tolerância deve-se ter com outras locuções compostas pelo verbo em análise: bem haja, na acepção de seja feliz (Exemplo: Bom hajam os que veem hoje como o amanhã de ontem); haver mister, no sentido de necessitar (Exemplo: Haver mister de comprovar o dolo; Todos os envolvidos haviam mister de defesa nos autos). Não perca de vista que em tais locuções o verbo se torna pessoal, podendo variar.

Página 3 Ademais, não é raro encontrar em petições e sentenças a locução Haver por bem, no sentido de vir a propósito uma bemsonante expressão, também variável, no plural Exemplo: Os desembargadores houveram por bem em acolher o pedido da parte. Nesse ínterim, insta mencionar que o verbo pode assumir a forma pronominal: haver-se - uma formação com mais de um sentido: como sinônimo de portar-se : Os alunos não se houveram bem na festa: foi um deus nos acuda! ; ainda, no sentido de acertar contas : Ele vai se haver comigo quando chegar em casa. Quantos significados! - poderá desabafar o leitor. Entretanto, não se pode desesperar recomendo. Há de haver cautela! Cautela em abundância, principalmente, para a compreensão de sentidos estranhos, como: conseguir, na frase: Eles houveram do governo as verbas pleiteadas ; e, julgar ou entender, na oração: Ele é tido e havido por negligente. Por fim, mencione-se que o verbo haver pode vir seguido de infinitivo, com a partícula não anteposta, nos seguintes casos: como o sentido de não ser possível : Não há (que) discutir o ocorrido; não há beijar sem ser beijado. - Ufa! De fato, hei de ter cautela! poderia exclamar, com razão, o nobre leitor. Aliás, a expressão utilizada no desabafo hei de indica o futuro promissivo (de promessa) do verbo. Observe os magistrais verbos da canção Eu te amo (1980), de Tom Jobim e Chico Buarque: Ah, se já perdemos a noção da hora / Se juntos já jogamos tudo fora / Me conta agora como hei de partir (...) Não, acho que estás só fazendo de conta / Te dei meus olhos para tomares conta / Agora conta como hei de partir. Tom e Chico revelaram nos versos acima compostos em 1980 a radical experiência de fusão com a pessoa amada e perplexidade diante do fim da relação. O curioso é perceber que, em 1984, Caetano Veloso, valendo-se do verbo em análise, na bela canção Quereres, pareceu explicar a celeuma da relação amorosa: O quereres e o estares sempre a fim / do que em mim é de mim tão desigual (...) E, querendo-te, aprender o total / do querer que há e do que não há em mim. Talvez o amor seja assim: complexo e intrigantemente convidativo, como o verbo haver. Houve por bem Gilberto Gil, nos magistrais versos da canção Estrela, quando nos remeteu a essa estranha e convidativa complexidade : Há de surgir / uma estrela no céu cada vez que ocê sorrir / Há de apagar / uma estrela no céu cada vez que ocê chorar (...). De fato, o verbo haver e o amor podem nos ensinar: há de haver compreensão... Artigo 3 Problemas gerais da língua culta Em certa ocasião, um Aluno me procurou e fez o seguinte pedido: - Professor Sabbag, poderia me dar algumas dicas de português? É que vou fazer uma prova dissertativa, em concurso da área jurídica, e não poderei cometer erros. Estou desesperado... Recordo-me de ter respondido ao aflito Aluno: - Meu caro amigo, nossa língua não se resume a meras dicas, porém anote aí algumas observações...e não se desespere...

Página 4 Naquela ocasião, dei-lhe conceitos mais objetivos, pensando nas situações de dúvida que ele poderia encontrar no momento da confecção da peça dissertativa. Neste instante, rememoro alguns pontos lá enunciados, transmitindo-lhe, caro Leitor, nas linhas a seguir: 1. Evite a expressão através de usada sem adequação. Essa locução preposicional significa de um para o outro lado, na acepção de transpor obstáculo. Portanto, é erronia usar a expressão como indicadora de meio. Em português, as preposições que indicam relações de meio são: por meio de, por intermédio de, mediante, entre outras. Note o uso correto: Irei ao outro lado do rio através da ponte; A bala passou através da parede; Laços que se prolongam através das eras. (Alexandre Herculano). Observe o uso inadequado nas situações a seguir discriminadas: O Autor vem aos autos através do advogado abaixo assinado. Chegaram a um bom termo através do acordo. 2. Cuidado com a ortografia, evitando erros que podem comprometer a estética do texto. Não titubeie em vocábulos corriqueiros, como exceção, excesso ou excessivo. A grafia de tais palavras é demasiado problemática. Caso pretenda se referir, eventualmente, a um inciso inserido em um artigo, use a forma inserto, com s. Grafa-se com c (incerto), se a intenção for mostrar aquilo que não está certo. 3. Muito cuidado com o uso de expressões latinas, que devem ser grafadas com aspas, dando-lhes o destaque necessário. É oportuno lembrar que não se acentuam as palavras latinas. Portanto, grafe data venia, sem acento circunflexo, ao indicar a forma polida de manifestar seu pensamento. Entretanto, saiba que pertence a nosso idioma o termo vênia, com acento circunflexo uma paroxítona terminada em ditongo, na acepção de licença que, por deferência, pode-se a outrem. Exemplo: Com a devida vênia dos senhores, vou me retirar. 4. Tome cautela com o uso da crase. Entre as inúmeras regras, procure se lembrar de que não se usa o sinal grave (`) antes do verbo. Portanto, escreva a locução a partir de..., sem crase. Exemplo: O Direito Civil foi construído a partir da legalidade constitucional. Nesse passo, não omita o sinal nas locuções compostas de palavras femininas: à custa de, à medida que, à toa, às pressas, entre outras. Exemplo: Ele procede à feitura do projeto, à medida que se orienta melhor. 5. Outro defeito da redação forense, prejudicial à precisão do texto, consiste no abusivo emprego da locução sendo que, com valor conjuncional. Esta expressão pode ser bem empregada, quando for sinônima de uma vez que, pois etc., haja vista representar uma locução conjuntiva casual. Observe o uso inadequado, nas situações a seguir discriminadas, acompanhadas da ulterior correção: I O homem disparou quatro tiros, sendo que duas balas atingiram a vítima. Corrigindo: O homem disparou contra a vítima quatro tiros, dos quais dois a atingiram. II As duplicatas estavam em seu poder, sendo que a quitação foi dada posteriormente. Corrigindo: As duplicatas, cuja quitação foi dada posteriormente, estavam ao seu poder. III Os réus foram citados, sendo que apenas um deles contestou. Corrigindo: Os réus foram citados, mas apenas um deles confessou. 6. Não esqueça a acentuação adequada. É mister salientar que o termos Júri recebe o acento agudo - trata-se de uma paroxítona terminada em i, à semelhança de biquíni, safári, táxi, beribéri etc.

Página 5 Por outro lado, o vocábulo item não é acentuado, uma vez que não se acentuam as paroxítonas com terminação em. Por derradeiro, o termo juiz não recebe o acento agudo, enquanto o plural juízes leva o acento, por se tratar de regra afeta a hiato. 7. É importante o conhecimento do vocabulário, a fim de que se utilizem os termos com precisão, oriundos de nosso rico léxico. Nesse contexto, deve-se escrever eminente, na acepção daquilo que é nobre ou elevado, e iminente, para o que está prestes a acontecer ; é necessário, outrossim, grafar seção (para departamento : seção eletrônicos), sessão (para apresentação : sessão Júri) e cessão (para o ato de ceder : cessão de direitos). 8.A concordância adequada é fundamental. Se utilizar a forma dado o ou dado a, saiba que tais termos são regidos pelo nome a que se referem. Exemplo: Dado o documento, decidi agir. Com o substantivo no plural, ter-se-á: Dados os documentos, decidi agir. A mesma regra vale para o vocábulo feminino. Exemplo: Dada a circunstância, tomei a providência. Veja com o plural no substantivo: Dadas as circunstâncias, tomei a providência. Evite, portanto, o erro não pouco comum: Dado as circunstâncias, tomei a providência. Essas foram as ficas ofertadas àquele eminente Aluno. A você, nobre Leitor, reitero-as. Boa sorte! Artigo 4 Que língua! Tantos quês... por quê? Que língua! Tantos quês... por quê? O aluno estava ofegante. Havia subido as escadas, que levam à sala de aula, à minha procura, com uma dúvida que parecia o afligir. Tratava-se da frase que intitula o presente artigo e que fora solicitada em prova de língua portuguesa em concurso a que ele se submetera: Que língua! Tantos quês...por quê? Algo o perturbava: os acentos circunflexos (quês / quê). Além disso, não se conformava com o plural quês e desconhecia a razão da separação na forma por quê. Ao ouvir a frase, adiantei-lhe, de pronto: - Meu caro aluno, a frase está correta. Seu olhar demonstrou certa dose de espanto e decepção. Talvez tivesse, por qualquer motivo, acreditando na incorreção da frase... - Sim, há precisão na forma insisti. O tema, todavia, é bastante complexo. A palavra que, meu amigo, é uma das mais difíceis de se analisar no português. Essa palavrinha, aparentemente singela, provoca celeumas diversas, em virtude de suas múltiplas funções sintáticas. Passei, portanto, a esclarecer: - Na frase inicial Que língua!, o termo sublinhado apresenta-se como pronome indefinido, ao se ligar a um substantivo em frase exclamativa. Exemplo: Que frio terrível! Quanto à frase seguinte Tanto quês...por quê? -, é prudente lembrar a letra da canção Meu Bem Querer, do Djavan: Meu bem querer / Tem um quê de pecado... O termo aparece acentuado, pois se trada de substantivo. Nesse caso, como monossílabo tônico, receberá o acento circunflexo.

Página 6 A forma quê complementei ocorrerá em diversas hipóteses: (I) com a letra Q, que deve ser escrita com acento quê ; (II) quando se exprime sentimento ou emoção, por meio de uma interjeição: Quê! Você de novo! ; (III) quando se tratar de pronome indefinido pronunciado tonicamente, em frases interrogativas: A produto é feito de quê? ou Isso tem gosto de quê? ; (IV) com a expressão um não sei de quê : Em seu semblante, havia um não sei de quê irônico. O aluno ouvia atentamente, esperando sanar todas as dúvidas. Assim, dispus-me a elucidá-las, com paciência: - Note bem: a forma por que, separada, ocorre em virtude da junção da preposição por com o pronome interrogativo que, equivalendo a por qual motivo ou por qual razão. Nesse passo, diga-se que o fato de surgir no final da frase, imediatamente antes de um sinal de pontuação ponto de interrogação, no caso torna o termo tônico, avocando-se-lhe o acento circunflexo (quê). E perguntei ao aluno: - Você não se lembra da emblemática canção Carinhoso, de Pixinguinha e João Barro? Meu coração, não sei por quê, bate feliz quando te vê. O aluno acenou afirmativamente, demonstrando captar a explicação. Estava certo de que o tema era complexo. Resolvi, então, provocá-lo com uma indagação: - Como compreendeu algumas funções do que, deixe-me ver se supera este teste: qual a função da palavra que na frase Que vida boa que você tem!? O aluno pensou e não conseguiu responder ao teste. De fato, a pergunta era capciosa. Dei-lhe a resposta: - Partícula de Realce ou Expletiva, isto é, o termo pode ser retirado da frase sem prejuízo ao sentido. Poder-se-ia dizer, omitindose a palavra: Vida boa você tem! Aparece quase sempre na locução é que. Observe a frase elucidativa de Machado de Assis : Que suplício que foi o jantar!. O primeiro que é pronome indefinido; o segundo, por sua vez, é partícula expletiva. Na ocasião, aproveitei para enriquecer o diálogo com outro exemplo: - Veja os versos de Casimiro de Abreu, para os quais têm as mesmas classificações supramencionadas pronome indefinido e, depois, partícula expletiva: Oh! Que saudades que eu tenho / Da aurora da minha vida, / Da minha infância querida (...) O aluno, que ouvia com atenção, anunciou sua partida: - Professor, muito obrigado. Foram providenciais as explicações. Tenho que ir... Enquanto o aluno se afastava, despedi-me, sem perder a chance do complemento: - A propósito, nesta frase tenho que ir o termo que é preposição, sabia? Pode ser substituído por de, vindo ao lado dos verbos ter e haver. O aluno acolheu a regra derradeira e, valendo-se de emblemático verso da MPB, sugeriu, com pontualidade, Gilberto Gil: Se eu quiser falar com Deus, tenho que ficar a sós. Elogiei a argúcia e rebati, ratificando-o com Chico Buarque: Alguém vai ter que me ouvir / Enquanto eu puder cantar. Sorrindo, ambos exclamamos: Que língua!

Página 7 Artigo 5 O RESGATE DO PRONOME CUJO Há poucos dias, um aluno me perguntou: - Professor, o pronome cujo deixou de existir? Categoricamente, respondi: - Claro que não! A indagação, por ser bastante pertinente, merece uma reflexão, o que me levou a elaborar este artigo. O uso do pronome relativo cujo tem se tornado bastante raro na escrita. Qual seria o motivo de tal isolamento? Talvez seja a sua engenhosa aplicação, que demanda certa desenvoltura no tema gramatical afeto ao uso dos pronomes relativos. Por outro lado, há os que o condenam por ser ele pouco eufônico. Existem, ainda, muitos que afirmam viver muito bem sem ele... De uma maneira ou de outra, é possível resgatá-lo do ostracismo com bons argumentos. Em primeiro lugar, devemos entender que o pronome relativo cumpre importante função nas orações: designa uma relação de posse entre o termo que ele antecede e o outro a que sucede. Verifique: Homem cujo terno (...) A frase indica que o terno pertence ao homem, e o pronome cujo veio intermediar o elemento possuidor (homem) e o elemento possuído (terno). Por essa razão, meus alunos têm assimilado em sala de aula um recurso mnemônico importante para a aplicação desse pronome: Possuidor CUJO Possuído Vamos treinar com outro exemplo: Com os termos árvore e frutos, pode-se dizer árvore cujos frutos, pois se destacam o elemento possuidor (árvore) e o elemento possuído (frutos). Portanto: ÁRVORE CUJOS FRUTOS = POSSUIDOR CUJO POSSUÍDO No exemplo acima, aliás, foi possível notar algo importante: o pronome relativo cujo deverá concordar em gênero e número com o termo que a ele sucede, ou seja, com o termo seguinte. Note que se disse árvore cujos frutos. Da mesma forma, teremos que estabelecer a concordância em homens cujas esposas ; pássaros cujos cantos ; leis cujos artigos ; Constituição cujo preâmbulo etc. Evidencia-se, desse modo, que o formato da estrutura pronominal acima demonstrado não tende a ofertar grandes problemas ao estudioso da gramática. Aliás, as Bancas de concurso preferem apimentar os testes sobre o tema, trazendo situações em que o pronome relativo cujo aparece ao lado de preposições, como nas formas para cujo, de cujo, ante cujo, sobre cujo, a cujo, entre outras. Como isso ocorre?

Página 8 Vou demonstrar a situação por meio da seguinte frase: Esta é a árvore DE cujos frutos DEPENDO. Note que o período trouxe a preposição de, própria do verbo transitivo indireto depender ( quem depende, depende de algo ou de alguém ), tendo sido inserida antes do pronome ( de cujos ). Daí se falar que, nos casos de verbos transitivos indiretos, que trazem a reboque a preposição, passaremos a ter uma fórmula mnemônica um pouco mais sofisticada: Possuidor PREP. CUJO Possuído * PREP.: significa preposição, ocorrendo a abreviatura na fórmula para facilitar a pronunciação do macete. Vamos reforçar com outro exemplo: Com os termos pessoas e palavras, no contexto do verbo acreditar, pode-se dizer pessoas EM CUJAS palavras eu ACREDITO, destacando-se o elemento possuidor (pessoas), o elemento possuído (palavras), o pronome relativo em adequada concordância (cujas) e, finalmente, a preposição (em), inserida antes do pronome relativo. Portanto: PESSOAS EM CUJAS PALAVRAS (...) = POSSUIDOR PREP. CUJO POSSUÍDO Vamos, agora, apreciar algumas elucidativas frases, com o formato acima destacado: 1. CONTRA CUJA: Foi o paciente absolvido em revisão criminal do crime contra cuja condenação é impetrado o "writ. 2. SOBRE CUJO: Apreciei muito o discurso sobre cujo estilo vou escrever. 3. A CUJA: O concurso a cuja premiação eu me referi aceita inscrições até amanhã. 4. COM CUJO: A Renascença, com cujo advento a nossa civilização começou, teve origem em diversos elementos. 5. DE CUJAS: Comprei o disco do compositor de cujas músicas você sempre fala. 6. PARA CUJAS: A instituição de caridade para cujas obras você contribuiu espontaneamente fez bom uso da doação. 7. POR CUJO: O jogo por cujo resultado ansiamos está na iminência de acabar. Diante do exposto, é indubitável admitir que o bom uso do pronome relativo traz elegância ao texto, além de exprimir a precisão da ideia a ser transmitida. Sua relevância no plano gramatical, a propósito, pôde ser ratificada, no último dia 22, quando o maior vestibular do Brasil o da FUVEST exigiu dos candidatos a uma vaga na USP o bom uso do pronome relativo cujo, em uma das duas questões de gramática, formuladas na prova. Observe a frase considerada correta no indigitado teste: A janela propiciava uma vista para cuja beleza muito contribuía a mata no alto do morro. Com os termos vista e beleza, no contexto do verbo contribuir, diz-se vista PARA CUJA beleza muito CONTRIBUÍA, destacando-se o elemento possuidor (vista), o elemento possuído (beleza), o pronome relativo em adequada concordância (cuja) e, finalmente, a preposição (para), inserida antes do pronome relativo.

Página 9 Assim, para aquele aluno que me questionou, disse algo mais: - Meu caro amigo, não há nenhuma dúvida que o pronome relativo cujo continua existindo. E, complementei, em trocadilho, afirmando: - Na batalha dos pronomes relativos, já é hora de fazermos o resgate do pronome cujo... Artigo 6 Onde o onde não é correto... É muito comum, na formação de períodos sintáticos, o uso inadequado do termo onde. Costumo dizer que se coloca o onde onde não se deve.... Daí a utilização das palavras em trocadilho, no título deste artigo (Onde o onde não é correto...), que, à primeira vista, pode não soar tão bem, entretanto serve propositadamente para chamar a atenção do leitor a um problema crônico na sintaxe. Como classe morfológica, onde pode ser um advérbio interrogativo ( Onde está o homem? ) e pronome relativo ( Esta é a cidade onde nasci. ) o que nos interessa diretamente neste artigo, equivalente a em que, no qual, na qual, nos quais, nas quais ( Esta é a cidade EM QUE / NA QUAL nasci. ). ` O pronome relativo retoma um termo expresso anteriormente (antecedente) e introduz uma oração dependente, adjetiva. Assim, na análise sintática, o termo onde será identificado como um adjunto adverbial de lugar. A propósito, deve referir-se sempre a lugar físico, espacial ou geográfico, sendo inadequado seu uso quando atrelado a situações diversas. Os exemplos são esclarecedores: 1. A estrada onde ocorreu o acidente. 2. O prédio onde ele trabalha. Nas duas frases acima, nota-se que o pronome se liga a referentes que designam um lugar determinado, a saber, a estrada e o prédio. Nessa medida, houve adequação na construção dos períodos, que poderiam ser também escritos: 1. A estrada EM QUE / NA QUAL ocorreu o acidente. 2. O prédio EM QUE / NO QUAL ele trabalha. Como recurso mnemônico, pode-se tirar a prova do bom uso em dois passos simples: 1º. Substitua o pronome pela expressão o lugar em que ; e 2º. Elimine o elemento antecedente. Exemplo: Situação: A estrada onde ocorreu o acidente. 1º. A estrada [O LUGAR EM QUE] ocorreu o acidente. 2º. A estrada [O LUGAR EM QUE] ocorreu o acidente. Resultado: O lugar em que ocorreu o acidente. Gonçalves Dias, na clássica Canção do Exílio, deixou-nos a lição no verso Minha terra tem palmeiras onde canta o sabiá. É fácil perceber que as palmeiras indicam o lugar em que o sabiá vai fazer a sua cantoria. Por outro lado, existe um costume condenável de se usar a forma onde em excesso nos textos escritos. Costumamos denominar o fenômeno de ondismo, no qual se associa o pronome a situações que não indicam valor circunstancial de lugar. Observe as situações abaixo, em que o erro se torna patente: 1. Nos autos, foram colhidos depoimentos onde ficou evidente a culpa do réu.

Página 10 Ora, o referente depoimentos indica um domínio não geográfico. A frase deve ser assim corrigida: Nos autos, foram colhidos depoimentos EM QUE / NOS QUAIS ficou evidente a culpa do réu. Daí se dizer que onde sempre equivalerá a EM QUE, mas a recíproca pode não ser verdadeira, motivo por que se têm construído, a torto e a direito, muitos períodos de forma errônea. Observe mais exemplos de incorreção: 2. O candidato prestou o concurso onde questões de provas foram anuladas. Correção: O candidato prestou o concurso EM QUE / NO QUAL questões de provas foram anuladas. 3. Esta é a família onde há violência doméstica. Correção: Esta é a família EM QUE / NA QUAL há violência doméstica. Da mesma forma, tem sido muito comum o errôneo emprego de onde como antecedente de tempo. Observe o problema: 1. Este é o ano onde tudo melhorará. O antecedente ano designa uma referência temporal, devendo afastar o pronome onde. Substitua-o, assim: Este é o ano EM QUE / NO QUAL tudo melhorará. De modo semelhante, outras frases podem ilustrar a aplicação imprópria do pronome quando os referentes forem temporais: 2. Esta é a época onde as flores nascem. Correção: Esta é a época EM QUE / NA QUAL as flores nascem. 3. O dia onde a guerra começou. Correção: O dia EM QUE / NO QUAL a guerra começou. 4. O século onde tudo se explica. Correção: O século EM QUE / NO QUAL tudo se explica. A propósito, em junho de 2011, a Fundação Getúlio Vargas elaborou importante questão no vestibular para os candidatos pretendentes ao curso de Administração de Empresas. No caso, o candidato teve que identificar a inadequação do uso de onde na frase Uma noite onde ninguém é o que parece ser. Com efeito, o referente noite não designa lugar, mas tempo. Assim, poderíamos corrigir a frase por: Uma noite EM QUE / NA QUAL ninguém é o que parece ser. Por tudo isso, devemos evitar o uso indiscriminado do pronome relativo onde. A cautela, aqui, não será algo excessivo, mas imprescindível. Aliás, o cauteloso terá o domínio da boa aplicação do pronome relativo e... a chave dos lugares onde o onde é adequado. É só entrar e bem aplicar!

Página 11 ARTIGO 7 REMIÇÃO OU REMISSÃO? EIS A QUESTÃO. A dúvida é frequente: escreve-se o substantivo com ss ou com cê-cedilha? E mais: o verbo remir está para remição ou para remissão?. Há tempos venho verificando que o uso (ou mau uso ) dos substantivos REMIÇÃO E REMISSÃO não chega a ser caótico, mas, certamente, aproxima-se da desordem e da incoerência. O Código Civil, por exemplo, na redação anterior (Lei 3.071/1916), estampava quase uma dezena de equívocos, trazendo remissão nos lugares que avocavam o termo REMIÇÃO. Com a Lei 10.406/2002, o legislador se redimiu, ou melhor, nem tanto... Corrigiu a maioria dos dispositivos, mas esqueceu de retificar alguns (veja os arts. 1436, V, e 1481, 2º, que permaneceram ainda com o atrapalhado termo remissão ). Isso sem contar o fato de que convivemos com idêntica gafe, até hoje, na Lei de Falências (DL 7.661/45), em seu art. 120, 2º. É evidente que faltou cautela ao legislador. Passemos, então, à análise dos verbos: O verbo REMIR, indicando o ato de REMIÇÃO (com cê-cedilha), possui inúmeras acepções resgatar, pagar, liberar, livrar, todas elas nos levando à ideia de redenção. No âmbito jurídico, o verbo transita com frequência no dia a dia: 1. O ato de depositar em juízo o valor do débito, extinguindo a execução indica que alguém irá REMIR A EXECUÇÃO. Daí, teremos EXECUÇÃO REMIDA (quitada) e REMIÇÃO DA EXECUÇÃO; 2. O ato de desoneração do bem constritado da penhora mediante o depósito do valor da avaliação indica que alguém irá REMIR O BEM DO EXECUTADO. Assim, teremos BEM REMIDO (desobrigado) e REMIÇÃO DO BEM. Aliás, em oportuna aproximação, temos aqui a figura do sócio remido, ou seja, desobrigado do compromisso de arcar com as mensalidades. No plano da conjugação verbal, REMIR oferece alguns desafios. O verbo é defectivo, isto é, não comporta flexões em certas formas. Não obstante, há registros na gramática e até na literatura do abono da conjugação regular do verbo. Nessa linha minoritária, entende-se que se digo eu agrido (para agredir), direi eu rimo (para remir). Observe a conjugação, por exemplo, no presente do indicativo: Eu ; Tu ; Ele ; Nós remimos; Vós remis; Eles. Caso se adote uma distinta solução na linha daqueles que consideram o verbo como sendo de conjugação regular poderá evidenciar, exoticamente, flexões que não pertencem ao verbo REMIR, mas, sim, ao verbo rimar : eu rimo, tu rimas, ele rima, nós rimamos, vós rimais, eles rimam. Frise-se, todavia, que tem prevalecido o entendimento favorável à sua defectividade. Sendo assim, só se admitem as formas verbais em que ao m do radical se segue a vogal i. O que faltar no conjunto de flexões poderá ser suprido com o verbo sinônimo redimir, que, aliás, é conjugado em todas as formas. Tanto REMIR quanto REMITIR derivam da mesma base latina redimere. Observe nossa sugestão de conjugação completa: Eu REDIMO; Tu REDIMES; Ele REDIME; Nós REMIMOS; Vós REMIS; Eles REDIMEM. (redimir) (redimir) (redimir) (remir) (remir) (redimir) No confronto do verbo REMIR e os adjetivos, teremos REMÍVEL ( aquilo que pode ser remido ) e REMIDOR ( aquele que irá remir ou redimir ; o resgatador, o redentor). Por fim, é importante realçar que, em visão mais abrangente, o verbo REMIR pode ainda estar ligado ao sentido de:

Página 12 1. reaquisição a título oneroso: Remiu a vítima do cativeiro com um vultoso resgate. (vítima remida, ou seja, libertada com ônus) 2. libertar da condenação (do inferno); salvar dos pecados pela expiação: Cristo remiu os pecadores da culpa. (pecadores remidos, ou seja, libertados ou salvos); 3. indenizar; ressarcir: Pretendo remir o desfalque que lhe causei. (desfalque remido, ou seja, indenizado); 4. reparar a falta; expiar: O homem irá remir sua infidelidade com grande dedicação. (infidelidade remida, ou seja, reparada); 5. recuperar-se, reabilitar-se (forma pronominal remir-se ): Eu me remi ontem de um erro cometido há alguns anos. (erro do qual me remi, ou seja, do qual me recuperei). Vamos, agora, ao verbo REMITIR: O verbo REMITIR, indicando o ato de REMISSÃO (com ss ), também possui inúmeras acepções, ligadas, em princípio, à ideia de perdão, renúncia, desistência, absolvição. Na órbita jurídica, aparece frequentemente com o sentido de perdão ou liberação graciosa de uma dívida. Exemplo: O credor irá remitir a dívida do cidadão. (dívida remitida, ou seja, perdoada) A propósito, em Direito Processual Penal, diz-se remissão da pena (pena remitida, ou seja, perdoada), ao se estudarem os institutos jurídicos da graça e do indulto. Em tempo, lembre-se que remissão pode ser a fórmula com que se remete o leitor a outro ponto. Exemplo: Vamos fazer remissões aos vocábulos do dicionário. (vocábulos remitidos, ou seja, apontados). O verbo REMITIR comporta outras acepções menos conhecidas, podendo estar ligado ao sentido de: 1. entregar algo ou fazer a cessão de : O diretor remitiu o cargo de chefia a outro funcionário. (cargo remitido, ou seja, entregue a,,,) 2. devolver, restituir: O Estado deve remitir o valor que foi confiscado. (valor remitido, ou seja, restituído); 3. perder a intensidade, afrouxar(-se), enfraquecer: A falta de vitaminas remite o corpo. (corpo remitido, ou seja, enfraquecido); 4. aliviar, consolar: Houve a remissão da saudade que sentia. (saudade remitida, ou seja, aliviada). Quanto à conjugação verbal, o verbo REMITIR não apresenta problemas, pois se flexiona em todas as pessoas, tempos e modos. No confronto do verbo REMITIR e os adjetivos, temos REMISSÍVEL, na acepção daquilo que pode ser remitido, perdoado. Despontam, ainda, como adjetivos: REMISSÓRIO, REMISSOR e REMITENTE. Este último, aliás, também indicando um substantivo. Portanto, aquele que remite será considerado O/A REMITENTE, formando o substantivo REMITÊNCIA. A propósito, o art. 262 do Novo Código Civil (Lei 10.406/2002) chancelou as formas em epígrafe, ao dispor: Se um dos credores REMITIR a dívida, a obrigação não ficará extinta para com os outros; mas estes só a poderão exigir, descontada a quota do credor REMITENTE. (grifos nossos) De modo oposto, o art. 131, I, do Código Tributário Nacional veicula um equívoco quando prevê: São pessoalmente responsáveis: I o adquirente ou REMITENTE, pelos tributos relativos aos bens adquiridos ou REMIDOS. (grifos nossos)

Página 13 Ora, o dispositivo do CTN se refere à REMIÇÃO, na acepção de resgate do bem mediante pagamento da dívida, a ser feito por aquele que irá REMIR O BEM. Não é à toa que, na parte final do inciso, desponta a expressão (...) bens adquiridos ou remidos. Desse modo, concluímos que o substantivo correlato não poderia ser remitente, como entendeu o legislador porquanto este designa o que remite algo ou alguém, mas REMIDOR, como o resgatador do bem. Há que se refletir, nesse aspecto, sobre uma necessária alteração legislativa do CTN. Diante de todo o exposto, já temos condições de enfrentar as encruzilhadas semânticas dos termos ora estudados. Eu diria que podemos até mesmo nos desafiar: REMIÇÃO OU REMISSÃO? CADA QUAL, UMA SOLUÇÃO. ARTIGO 8 O HÍFEN E O ACORDO Desde o dia 1 de janeiro deste ano, estão valendo as novas regras de acentuação e ortografia impostas pelo Novo Acordo Ortográfico da Língua Portuguesa. Sabe-se que o período de transição para o uso das mudanças em nosso dia-a-dia é longo quatro anos, porém se faz necessário, desde já, enfrentar os pontos mais delicados das novas regras. Um deles refere-se ao uso do hífen, considerado um dos vilões do Acordo. O motivo é simples: antes das mudanças, o uso do hífen já se mostrava deveras complicado. Após o acordo, espera-se que o usuário da língua se mostre mais disposto a assimilálo. Sendo assim, antes que este sinalzinho venha recriar problemas entre nós, vamos tratar dele com a merecida atenção: Com boa parte dos prefixos (proto-, extra-, pseudo-, semi-, infra-, e outros), o hífen sempre foi utilizado antes de palavras que se iniciavam por H, R, S e vogal. Agora a regra mudou. Após o Acordo, o hífen só será utilizado se o segundo elemento iniciar-se por H ou por vogal idêntica àquela do final de certos prefixos. Traduzindo: 1. Se antes o hífen era obrigatório em auto-escola, agora se escreve autoescola, pois escola se inicia pela vogal e, que não é idêntica à vogal final o do prefixo auto ; 2. Se antes o hífen era obrigatório em contra-indicação, agora se escreve contraindicação, pois indicação se inicia pela vogal i, que não é idêntica à vogal final a do prefixo contra. Em sala de aula, tenho usado um lúdico recurso para que os alunos memorizem a regra, principalmente para concursos públicos. Refere-se à analogia da regra com a canção de roda, de nossa infância, Atirei o Pau no Gato. Observe o quadro comparativo e tente entoar a canção, aplicando-a à regra do hífen: Cantiga de Roda Atirei o pau no gato (tô tô) Mas o gato (tô tô) Não morreu (reu reu) Dona Chica (cá) Admirou-se (se) Do berro, do berrô que o gato deu Miau!!! Regra do Hífen PROTO, EXTRA, PSEUDO, SEMI, (mi) INFRA, SUPRA, (prá) INTRA, NEO, ULTRA CONTRA, AUTO, (tô) Levam hífen, (fén) Antes de H E idêntica vogal!!!

Página 14 Nota-se que o recurso musical é meramente subsidiário, em homenagem à melhor didática. Isso porque, como se pôde notar, a adaptação não é de todo simétrica, todavia é mais uma forma de se assimilar uma regra pouco convidativa, ainda mais em razão do extenso rol de prefixos a ela associados. Buscando-se, ainda, auxiliar a memorização, demonstramos abaixo algumas palavras que sofreram modificações com o Acordo, a fim de que o leitor possa visualizar a mudança e ratificar a grafia à luz do recurso musical acima sugerido: Grafia anterior ao Acordo Extra-escolar Contra-oferta Contra-indicação Intra-ocular Auto-estima Auto-ajuda Extra-oficial Semi-aberto Como ficou... Extraescolar Contraoferta Contraindicação Intraocular Autoestima Autoajuda Extraoficial Semiaberto Por fim, registre-se que o hífen deverá ocorrer nas palavras em que o segundo elemento iniciar-se por idêntica vogal, o que se dava, normalmente, antes do Acordo. Note os exemplos: Anti-ibérico Arqui-irmandade Semi-interno Contra-almirante Auto-observação Supra-auricular Da mesma forma, o hífen aparecerá nas palavras em que o segundo elemento iniciar-se pela consoante h, o que também ocorria, antes do Acordo. Observe os exemplos: Extra-humano Ultra-hiperbólico Semi-hospitalar Semi-histórico Essas são algumas regrinhas para o hífen. Tenho dito que o tempo será o responsável pela nossa adequada assimilação do Acordo. Enquanto isso, não devemos adotar a postura comodista de dar tempo ao tempo. É hoje o tempo da assimilação, do estudo, da aprendizagem. Que venha o Acordo! Ele é bem-vindo! Aliás, mais uma palavra que continua hifenizada após o Acordo... Boa sorte a todos nós! ARTIGO 9 As encruzilhadas do Acordo Ortográfico (Autópsia / Necrópsia ou Autopsia / Necropsia? Tão-somente ou Tão somente? Dia-a-dia ou dia a dia? À-toa ou À toa?) A 5ª edição do Vocabulário Ortográfico da Língua Portuguesa (VOLP), lançado pela Academia Brasileira de Letras (ABL), em março deste ano, provocou importantes modificações na grafia de certos termos. Neste artigo, serão expostas as alterações nos vocábulos e expressões que constam do título em epígrafe. Vamos a elas: 1. Qual a forma correta: autópsia ou autopsia? E quanto à outra: necrópsia ou necropsia? A acentuação do substantivo feminino autópsia sempre gerou grande polêmica: seria autópsia, com acento agudo e sílaba tônica em -tóp (au-tóp-sia: paroxítona acentuada, com terminação por ditongo) ou autopsia, sem acento agudo, na forma polissílaba (au-top-si-a: paroxítona, não acentuada graficamente)?

Página 15 A par da discussão, a propósito, outro termo designativo do exame cadavérico necropsia (ou seria necropsia?) sempre se mostrou propenso a gerar dúvidas nos falantes. Já tive oportunidade de escrever aos amigos leitores sobre este tema. Entendo pertinente retomá-lo, uma vez que a nova edição do VOLP trouxe interessante possibilidade. Vamos recordar: A trilha da lexicografia do Aurélio registrava, antes do Acordo, autopsia ou autópsia. Para o Houaiss, entretanto, a única forma aceitável seria autópsia, com acento agudo. O VOLP (4ª edição, de 2004) abonava este último entendimento. Não é demasiado ressaltar que, à luz da etimologia, são eles termos insuficientes e inadequados para exprimirem o exame médico-legal, pois indicam o ato de ver a si próprio, o que não ocorre de fato. Essa é a razão pela qual sempre recomendei a forma necropsia (ne-crop-si-a: sem acento, para o VOLP/2004 e dicionários em geral). O outro termo necrópsia não era vernáculo. Diante desse quadro, seguindo a recomendação da Academia Brasileira de Letras, recomendava em sala de aula que se adotasse a grafia oficial: autópsia ou necropsia, com preferência para esta última. Ocorre que a 5ª edição do VOLP, lançada em março deste ano, chancelou também as formas que até então não eram aceitas pela ABL: autopsia e necrópsia. Dessa forma, os substantivos femininos passaram a ser de dupla prosódia : autópsia ou autopsia e necropsia ou necropsia. Portanto, ao se fazer menção ao exame médico-legal, que implica a visão pormenorizada do morto, podem ser utilizadas, na dupla prosódia, autópsia e autopsia * ou necrópsia e necropsia ** * LETRAS, Academia Brasileira de Letras. Vocabulário Ortográfico da Língua Portuguesa. 5. ed., São Paulo: Global, 2009, p. 93.** LETRAS, Academia Brasileira de Letras. Vocabulário Ortográfico da Língua Portuguesa. 5. ed., São Paulo: Global, 2009, p. 577. 2. Qual a forma correta: tão-somente ou tão somente? Até o Acordo Ortográfico, admitia-se a forma hifenizada, para indicar o advérbio: tão-somente. Como sinônima, aparecia a outra expressão, igualmente com hífen, tão-só. Com a 5ª edição, as duas formas adverbializadas perderam o hífen, passando a ser tão somente e tão só*. * LETRAS, Academia Brasileira de Letras. Vocabulário Ortográfico da Língua Portuguesa. 5. ed., São Paulo: Global, 2009, p. 781. 3. Qual a forma correta: dia-a-dia ou dia a dia? Antes do Acordo, as duas formas eram vernáculas. A primeira ( dia-a-dia ), com hífen, indicava o substantivo masculino ( O dia-a-dia do atleta é disciplinado ). A outra expressão dia a dia (sem hífen) representava a locução adverbial, sinônima de diariamente ( O atleta se esforça dia a dia ). Aliás, não raras vezes, o uso inadequado das expressões se dava, aqui e acolá, exteriorizando o pouco cuidado do escritor com a ortografia. Com o Acordo Ortográfico, passamos a ter, com exclusivismo, a expressão dia a dia*, sem hífen e válida para as duas possibilidades morfológicas (substantivo e locução adverbial). * LETRAS, Academia Brasileira de Letras. Vocabulário Ortográfico da Língua Portuguesa. 5. ed., São Paulo: Global, 2009, p. 280. 4. Qual a forma correta: à-toa ou à toa? À semelhança do confronto dia-a-dia versus dia a dia, as expressões à-toa e à toa eram plenamente aceitas e dicionarizadas, antes do Acordo. A primeira ( à-toa ), com hífen e acento grave, indicava a locução adjetiva ( O homem foi tachado de à-toa ). A outra expressão à toa (sem hífen e com acento grave) representava a locução adverbial ( O homem, tachado de à-toa, não se ofendeu à toa ). Com o Acordo Ortográfico, passamos a ter, com exclusivismo, a expressão à toa*, sem hífen e válida para as duas possibilidades morfológicas (locução adjetiva e locução adverbial). * LETRAS, Academia Brasileira de Letras. Vocabulário Ortográfico da Língua Portuguesa. 5. ed., São Paulo: Global, 2009, p. 89.

Página 16 Essas são algumas das encruzilhadas com as quais deparamos quando nos inteiramos das novidades do Acordo Ortográfico. A título de revisão, memorize as novidades: 1. Autópsia ou Autopsia (palavras de dupla prosódia); e Necrópsia ou Necropsia (palavras de dupla prosódia); 2. Tão somente e Tão só (sem hífen); 3. Dia a dia (sem hífen); 4. À toa (sem hífen). Em sala de aula, tenho dito a seguinte frase mnemônica para reforço das palavras que perderam o hífen: Não erre à toa: agora escreva, tão somente, dia a dia! ARTIGO 10 A queda do circunflexo em CREEM, DEEM, LEEM E VEEM O Acordo Ortográfico determinou a supressão do acento circunflexo nas formas verbais dissílabas terminadas por "-eem". Antes da medida unificadora, convivíamos com as formas acentuadas crêem, dêem, lêem e vêem. Tais palavras, ditas paroxítonas, isto é, aquelas cuja sílaba tônica é a penúltima, circulavam por aí com o acento circunflexo um sinal gráfico dispensável, até certo ponto, em tais palavras. Após o Acordo, tudo mudou: passamos a escrever as formas verbais sem o acento gráfico ( creem, deem, leem e veem ). No estudo dos verbos, quando conjugávamos os verbos "crer", "ler" e "ver" na terceira pessoa do plural do presente do indicativo, obtínhamos as formas acentuadas: Após o acordo, passamos a ter: Eu creio, tu crês, ele crê, nos cremos, vós credes, eles crêem. Eu leio, tu lês, ele lê, nos lemos, vós ledes, eles lêem. Eu vejo, tu vês, ele vê, nos vemos, vós vedes, eles vêem. Eu creio, tu crês, ele crê, nos cremos, vós credes, eles creem (sem acento). Eu leio, tu lês, ele lê, nos lemos, vós ledes, eles leem (sem acento). Eu vejo, tu vês, ele vê, nos vemos, vós vedes, eles veem (sem acento). Nesse passo, quando conjugávamos o verbo "dar" na terceira pessoa do plural do presente do subjuntivo, obtínhamos a forma acentuada: Após o acordo, passamos a ter: (Que) eu dê, (que) tu dês, (que) ele dê, (que) nós demos, (que) vós deis, (que) eles dêem. (Que) eu dê, (que) tu dês, (que) ele dê, (que) nós demos, (que) vós deis, (que) eles deem (sem acento). Curiosamente, deve-se notar que tal regra, após o Acordo Ortográfico, será estendida aos verbos derivados dos acima destacados. Observe: Se agora escrevemos creem, deve-se grafar descreem, ambas sem o acento gráfico; Se agora escrevemos leem, deve-se grafar releem, ambas sem o acento gráfico; Se agora escrevemos veem, deve-se grafar reveem, ambas sem o acento gráfico.

Página 17 Aliás, por analogia ao verbo ver, sobressai o verbo prover, na acepção de suprir, abastecer, avocando a mesma regra: Ele provê a casa de alimentos. Eles proveem a casa de alimentos (sem acento) Recomenda-se, todavia, muita cautela com um verbo similar a ver, mas que com este não se confunde: o verbo vir. Trata-se de verbo que, ao lado dos seus derivados (convir, provir etc.), permaneceu com o chamado acento diferencial. Assim, vamos continuar usando "ele vem" / eles vêm". Da mesma forma, o acento diferencial permanece incólume nas oxítonas "ele intervém" / "eles intervêm" e ele convém / eles convêm. Como forma de memorização, sugiro alguns trechos colhidos da literatura e da música popular brasileira, demonstrando-se a forma que assumiriam se fossem hoje escritos em consonância com a nova regra de acentuação: Antes do Acordo Ortográfico Tudo isto é enredo grande, / e, por todos os lados, / falsidades se vêem. (Excerto de Romance 52 ou Do Carcereiro Romanceiro da Inconfidência, Cecília Meireles). Antes do Acordo Ortográfico Via o que é visível, via o que não via / O que a poesia e a profecia não vêem mas vêem, vêem, vêem, vêem, vêem... ( Eu sou neguinha? Caetano Veloso) Antes do Acordo Ortográfico Eles têm certeza do bem e do mal / Falam com franqueza do bem e do mal / Crêem na existência do bem e do mal / O florão da América, o bem e o mal. ( Eles Gilberto Gil) Antes do Acordo Ortográfico Uns, com os olhos postos no passado, / Vêem o que não vêem: outros, fitos / Os mesmos olhos no futuro, vêem / O que não pode ver-se. ( Uns Ricardo Reis - Fernando Pessoa) Antes do Acordo Ortográfico Dêem-lhe uma espada, constrói um reino; dêemlhe uma agulha, faz um crochê / Dêem-lhe um teclado, faz uma aurora, dêem-lhe razão, faz uma briga...! (Trecho de Elegia Lírica, retirado de Antologia Poética, Vinicius de Moraes) Após o Acordo Ortográfico Tudo isto é enredo grande, / e, por todos os lados, / falsidades se veem. Após o Acordo Ortográfico Via o que é visível, via o que não via / O que a poesia e a profecia não veem mas veem, veem, veem, veem, veem... Após o Acordo Ortográfico Eles têm certeza do bem e do mal / Falam com franqueza do bem e do mal / Creem na existência do bem e do mal / O florão da América, o bem e o mal. Após o Acordo Ortográfico Uns, com os olhos postos no passado, / Veem o que não veem: outros, fitos / Os mesmos olhos no futuro, veem / O que não pode ver-se. Após o Acordo Ortográfico Deem-lhe uma espada, constrói um reino; deemlhe uma agulha, faz um crochê / Deem-lhe um teclado, faz uma aurora, deem-lhe razão, faz uma briga...! Da mesma forma, seguem alguns testes de concursos e vestibulares, demonstrando-se a forma que assumiriam se fossem hoje solicitados em consonância com a nova regra de acentuação: Correto, antes do Acordo Ortográfico (Notário Registro Civil MG/2005) Os cidadãos vêm procurar o Notário e o Registrador porque crêem na prestância deles e mantêm a certeza de Correto, após o Acordo Ortográfico (Notário Registro Civil MG/2005) Os cidadãos vêm procurar o Notário e o Registrador porque creem na prestância deles e mantêm a certeza de

Página 18 receber orientação de profissionais qualificados. Correto, antes do Acordo Ortográfico (CESGRANRIO) Ele vê / eles vêem / Que ele dê / Que eles dêem Correto, antes do Acordo Ortográfico (ESAF) Por favor, dêem-lhe uma nova chance. Correto, antes do Acordo Ortográfico (FGV-RJ) Nestes momentos os teóricos revêem os conceitos. / Eles provêem a casa do necessário. Correto, antes do Acordo Ortográfico (OSEC) O plural de tem, dê, vê; é, respectivamente, têm, dêem, vêem. receber orientação de profissionais qualificados. Correto, após o Acordo Ortográfico (CESGRANRIO) Ele vê / eles veem / Que ele dê / Que eles deem Correto, após o Acordo Ortográfico Por favor, deem-lhe uma nova chance. Correto, após o Acordo Ortográfico Nestes momentos os teóricos reveem os conceitos. / Eles proveem a casa do necessário. Correto, após o Acordo Ortográfico O plural de tem, dê, vê; é, respectivamente, têm, deem, veem. Diante do exposto, tem-se notado que os falantes veem as novidades trazidas pelo Acordo Ortográfico, leem as manchetes escritas de acordo com o Acordo, mas não creem no alcance delas. É vital que deem atenção à nova regra. Por essa razão, tenho dito, valendo-me de trocadilho: Se apenas creem quando veem, espera-se que deem atenção ao que ora leem. Boa sorte a todos! ARTIGO 11 As Dez Estranhezas do Acordo Ortográfico As aulas de ortografia e acentuação não são as mesmas. Antes do Acordo Ortográfico, todos professores e alunos entravam em acordo. Agora, estes últimos, diante das regras que são expostas em sala de aula, mostram-se apreensivos, desconfiados e, o que é pior, mais resistentes à aprendizagem da última flor do Lácio. Diante desse cenário desafiador, cabe a nós, professores, convencê-los de que as estranhezas do Acordo Ortográfico podem se tornar algo corriqueiro. A bem da verdade, deverão assim se tornar, uma vez que não nos restaram alternativas: a partir de 1 de janeiro de 2013, o estranho passará a ser oficial. Em razão disso tudo, tenho sugerido em sala de aula uma espécie de gincana : a escolha pelos alunos das dez mais do Acordo. A expressão dez mais significa aquele rol de palavras modificadas que têm provocado maior grau de espanto; que tem levado o usuário a questionar será mesmo? ; que o tem instado, em suma, a duvidar de que tudo aquilo possa ser verdade... Deixei os alunos opinarem, o que para nós, professores, é muito importante. É claro que o recurso pedagógico tem um bom propósito: tornar mais leve, com a dose certa de comicidade, o que tem se mostrado duro... de roer : a nova ortografia imposta pela Academia Brasileira de Letras (ABL). Aproveito este momento para revelar o resultado que obtive, na última semana, em uma sala de aula de concursandos. Segue adiante a curiosa classificação, em ordem decrescente, conforme consegui apurar: 10 lugar O QUE ERA... O QUE PASSA A SER... MICROONDAS MICRO-ONDAS COMENTÁRIO: antes do Acordo, escrevia-se microondas, sem o hífen. Este sinalzinho apareceu para evitar a briga das duas vogais, separando-as, mas tem provocado maior confusão em sala de aula. Agora se escreve com hífen (MICRO-ONDAS)(1). O mesmo fenômeno ocorreu com o ultrapassado

Página 19 microônibus, que agora cede passo à forma hifenizada micro-ônibus (2). REFERÊNCIA: (1) LETRAS, Academia Brasileira de Letras. Vocabulário Ortográfico da Língua Portuguesa. 5. ed., São Paulo: Global, 2009, p. 549. (2) LETRAS, Academia Brasileira de Letras. Vocabulário Ortográfico da Língua Portuguesa. 5. ed., São Paulo: Global, 2009, p. 549. 9 lugar O QUE ERA... O QUE PASSA A SER... ELE PÁRA PARA VER. ELE PARA PARA VER. COMENTÁRIO: no campo do acento diferencial, não mais se distingue a forma verbal PARA antes, com o acento agudo da preposição PARA. Agora ambas as formas são grafadas da mesma forma, sem o acento agudo que as diferenciava. Cabe ao usuário perceber, por conta própria, a função sintática dos termos e distingui-los. Que desafio! Perceba o exotismo da forma ele para para ver! Será que vai pegar? Preferimos pagar pra ver... 8 lugar O QUE ERA... O QUE PASSA A SER... AUTO-ESCOLA AUTOESCOLA COMENTÁRIO: quem quer aprender a dirigir veículos, deve agora se guiar bem... Não mais há hífen para AUTOESCOLA (1). Tenho recomendado: tire a carteira na autoescola e aproveite para também tirar o hífen... O mesmo raciocínio se estende para INFRAESTRUTURA (2): antes, grafada com hífen, mas agora grafada dessa forma. REFERÊNCIA: (1) LETRAS, Academia Brasileira de Letras. Vocabulário Ortográfico da Língua Portuguesa. 5. ed., São Paulo: Global, 2009, p. 92. (2) LETRAS, Academia Brasileira de Letras. Vocabulário Ortográfico da Língua Portuguesa. 5. ed., São Paulo: Global, 2009, p. 457. 7 lugar O QUE ERA... O QUE PASSA A SER... PÁRA-QUEDAS PARAQUEDAS COMENTÁRIO: a curiosidade mostra sua força em PARAQUEDAS. Antes do Acordo, escrevia-se com o acento agudo no primeiro elemento ( pára- ) e com hífen ( pára-quedas ). Agora devemos suprimir o acento e unir tudo em PARAQUEDAS (1). O problema é que isso não vale para outras situações análogas, o que seria razoável: o pára-lama, o pára-choque e o pára-brisa de ontem perderam o acento no primeiro elemento, mas mantiveram o hífen em PARA-LAMA (2), PARA-CHOQUE (3) e PARA-BRISA (4). Quanta uniformidade, hein? REFERÊNCIA: (1) LETRAS, Academia Brasileira de Letras. Vocabulário Ortográfico da Língua Portuguesa. 5. ed., São Paulo: Global, 2009, p. 620. (2) LETRAS, Academia Brasileira de Letras. Vocabulário Ortográfico da Língua Portuguesa. 5. ed., São Paulo: Global, 2009, p. 619. (3) LETRAS, Academia Brasileira de Letras. Vocabulário Ortográfico da Língua Portuguesa. 5. ed., São Paulo: Global, 2009, p. 618. (4) LETRAS, Academia Brasileira de Letras. Vocabulário Ortográfico da Língua Portuguesa. 5. ed., São Paulo: Global, 2009, p. 618. 6 lugar O QUE ERA... O QUE PASSA A SER... ANTI-SOCIAL ANTISSOCIAL COMENTÁRIO: o hífen existia antes do Acordo no prefixo anti- quando a palavra posterior iniciava-se por -h, -r ou -s. Assim, escrevia-se anti-social, para indicar os seres arredios de contatos sociais. A

Página 20 nosso ver, tais pessoas, geralmente estranhas, ficarão bem mais esquisitas com a forma ANTISSOCIAL (1)... Você não acha? REFERÊNCIA: (1) LETRAS, Academia Brasileira de Letras. Vocabulário Ortográfico da Língua Portuguesa. 5. ed., São Paulo: Global, 2009, p. 65. 5 lugar O QUE ERA... O QUE PASSA A SER... CONTRA-RAZÕES CONTRARRAZÕES COMENTÁRIO: o hífen existia antes do Acordo no prefixo contra- quando a palavra posterior iniciava-se por -h, -r, -s ou vogal. Assim, escrevia-se contra-razões, ainda que se tratasse de um neológico termo jurídico, não aceito pela Academia Brasileira de Letras, no Vocabulário Ortográfico de Língua Portuguesa (4ª edição). Antes preocupávamos com o prazo delas, no ambiente forense; agora, devemos prestar atenção ao prazo e também à grafia: recomenda-se escrever CONTRARRAZÕES (1), sem o hífen e com a duplicação da letra -r. O mesmo raciocínio se estende a outros prefixos, quando antecederem as letras -s e -r. Portanto, agora se escreve semissoberania e semisselvagem (1), arquirrival (2), contrarregra e contrassenso (3), ultrassom (4), entre outros casos. REFERÊNCIA: (1) LETRAS, Academia Brasileira de Letras. Vocabulário Ortográfico da Língua Portuguesa. 5. ed., São Paulo: Global, 2009, p. 749. (2) LETRAS, Academia Brasileira de Letras. Vocabulário Ortográfico da Língua Portuguesa. 5. ed., São Paulo: Global, 2009, p. 78. (3) LETRAS, Academia Brasileira de Letras. Vocabulário Ortográfico da Língua Portuguesa. 5. ed., São Paulo: Global, 2009, p. 215. (4) LETRAS, Academia Brasileira de Letras. Vocabulário Ortográfico da Língua Portuguesa. 5. ed., São Paulo: Global, 2009, p. 823. 4 lugar O QUE ERA... O QUE PASSA A SER... CO-AUTOR e CO-AUTORA COAUTOR e COAUTORA COMENTÁRIO: as lides agora deverão ter mais unidos os integrantes do mesmo lado da relação jurídico-processual... Escrevem-se, sem hífen, COAUTOR e COAUTORA (1). Os operadores do Direito devem procurar se acostumar às formas, em plena coautoria de esforço para a assimilação da novidade... REFERÊNCIA: (1) LETRAS, Academia Brasileira de Letras. Vocabulário Ortográfico da Língua Portuguesa. 5. ed., São Paulo: Global, 2009, p. 199. 3 lugar O QUE ERA... O QUE PASSA A SER... CO-RESPONSÁVEL CORRESPONSÁVEL COMENTÁRIO: aqui apareceu a medalha de bronze. Este é mais um caso de supressão do hífen, que deu lugar a um termo de grafia pouco estética: CORRESPONSÁVEL (1). Na mesma linha, seguem os termos relacionados: corresponsabilidade, corresponsabilizar, corresponsabilizante e corresponsabilizável (2). REFERÊNCIA: (1) LETRAS, Academia Brasileira de Letras. Vocabulário Ortográfico da Língua Portuguesa. 5. ed., São Paulo: Global, 2009, p. 222. (2) LETRAS, Academia Brasileira de Letras. Vocabulário Ortográfico da Língua Portuguesa. 5. ed., São Paulo: Global, 2009, p. 222.

Página 21 2 lugar O QUE ERA... O QUE PASSA A SER... CO-HERDEIRO COERDEIRO COMENTÁRIO: os alunos escolheram a forma COERDEIRO, agora escrita sem o hífen e sem o -h, como a novidade merecedora da medalha de prata do exotismo... Tenho sugerido um macete: esquecendose da grafia imposta pela ABL, pense naquele carneirinho novo e tenro, chamado cordeiro. Basta escrever este nome e inserir a vogal -e entre as letras -o e -r! Descobrirá a forma recomendada: COERDEIRO (1). Que estranha herança o novo Acordo nos deixou... REFERÊNCIA: (1) LETRAS, Academia Brasileira de Letras. Vocabulário Ortográfico da Língua Portuguesa. 5. ed., São Paulo: Global, 2009, p. 201. 1 lugar O QUE ERA... O QUE PASSA A SER... CO-RÉU e CO-RÉ CORRÉU e CORRÉ COMENTÁRIO: e, como medalha de ouro, houve uma unanimidade na escolha do termo mais extravagante. Todos escolheram as novas formas CORRÉU (1) e CORRÉ (2). De tão diferentes, dispensam comentários. Merecem, sim, que se dê tempo ao tempo, a fim de que o operador do Direito possa acreditar que terá mesmo que as utilizar na lide. Paciência... Aliás, os latinos já diziam: Com tempo e perseverança, tudo se alcança. REFERÊNCIA: (1) LETRAS, Academia Brasileira de Letras. Vocabulário Ortográfico da Língua Portuguesa. 5. ed., São Paulo: Global, 2009, p. 222. (2) LETRAS, Academia Brasileira de Letras. Vocabulário Ortográfico da Língua Portuguesa. 5. ed., São Paulo: Global, 2009, p. 221. Como se notou, a divertida gincana permitiu que se escolhessem as dez mais do Acordo, como indicadoras do sério desafio que nós, professores, estamos assumindo em sala de aula para continuar a demonstrar que Olavo Bilac tinha razão: nossa língua, apesar de inculta, continua a ser bela... ARTIGO 12 REFORMA ORTOGRÁFICA: O QUE PARECE TER MUDADO, MAS NÃO MUDOU. As novidades do Acordo Ortográfico não são poucas, o que tem levado o falante, diante de certas encruzilhadas de ortografia e de acentuação, a se perguntar: Será que tal palavra foi modificada com a reforma ortográfica?. Venho percebendo que este tipo de dúvida tem se tornado recorrente. Os episódios nos quais são elas suscitadas são os mais variados. Na semana passada, em uma palestra proferida a advogados, fui chamado a dirimir uma celeuma: - A palavra PREQUESTIONAMENTO continua sem o hífen? indagou o ouvinte. - Sim respondi a ele, a palavra já era grafada sem o hífen, embora muitos operadores do Direito insistissem em usá-lo, e agora permanece grafada tudo junto. E outro ouvinte aproveitou para tirar dúvida correlata: - E as palavras PREDETERMINADO e PREEXISTENTE?

Página 22 - Também continuam intactas disse-lhe. Permanecem sem hífen. Faz poucos dias, presenciei um questionamento em sala de aula. Os alunos queriam saber se a palavra SOCIOECONÔMICO havia recebido o hífen com o Acordo? Rapidamente, intervim: - Meus caros, esta palavra permanece inalterada! Infelizes são aqueles que a hifenizam! - respondi, com certo tom de inconformismo. Com efeito, mesmo diante dos dicionários, que nos ensinam a grafia desta palavra, quantos ainda utilizam o hífen, criando a inadequada forma sócio-econômico... Em outra passagem, ao telefone, ajudei um amigo juiz de direito. - As palavras BOA-FÉ e MÁ-FÉ permanecem com o hífen? perguntou-me o magistrado. - Sim, permanecem hifenizadas. Aqui não se deu qualquer alteração no Acordo. E este diálogo ao telefone rendeu outras dúvidas pertinentes. O magistrado inquiriu-me sobre as formas CONTRAMANDADO e SUPRACITADO (ambas, sem hífen) e INFRA-ASSINADO (com hífen). Queria saber se sofreram modificações após a reforma ortográfica. Disse-lhe: - Todas permaneceram intactas após a reforma ortográfica. As palavras CONTRAMANDADO e SUPRACITADO sempre foram grafadas sem o hífen. A outra palavra INFRA-ASSINADO recebia o hífen, uma vez que a regra impunha (e continua impondo) a utilização do sinal, quando a palavra posterior iniciar-se por idêntica vogal. Todavia, foi em minha caixa de e-mails que coletei um maior número de dúvidas. Abaixo se registram algumas perguntas e as respectivas respostas: 1. Internauta: - A frase Ele pôde ter feito, mas não fez, à luz do Acordo Ortográfico, sofreu mudanças? Minha resposta: - A frase permanece inalterada. Aliás, a dúvida se refere à forma verbal pôde, que recebe o acento diferencial para se distinguir de pode. A forma acentuada indica o tempo pretérito perfeito do indicativo, enquanto a forma não acentuada designa o tempo presente do indicativo, ambas na terceira pessoa do singular. O acento diferencial permaneceu neste caso. Daí escrevermos, ainda, com correção, ele PÔDE ontem e ele PODE hoje. 2. Internauta: - Como se grafa a palavra PÔR-DO-SOL após o Acordo? Minha resposta: - O acento diferencial permaneceu em PÔR (verbo) e POR (preposição). Daí continuarmos escrevendo, com correção, vou PÔR as mãos nesse canalha! (com acento) e luto POR você (sem acento). A partir desse dado, constata-se que a palavra PÔR-DO-SOL permaneceu com o acento circunflexo, uma vez que o primeiro elemento PÔR designa uma substantivação do verbo, todavia a reforma ortográfica suprimiu os hifens que separavam os elementos. Portanto, após o Acordo, vamos grafar PÔR DO SOL (ou PÔR DE SOL), ambas com o acento circunflexo, mas sem os hifens. 3. Internauta: - A acentuação dos ditongos abertos em ANÉIS, ANZÓIS e CÉU sofreu modificação com o Acordo? Minha resposta: - Antes do Acordo, acentuavam-se todas as palavras que apresentavam ditongos abertos éu, éi e ói. Exemplos: chapéu, papéis, herói. Após a reforma ortográfica, o acento agudo desapareceu apenas no caso de paroxítonas, ou seja, aquelas palavras cuja sílaba tônica é a penúltima. Exemplos: IDEIA (antes, idéia ); PARANOIA (antes, paranóia ); HEROICO (antes, heróico ). Daí se falar que nas oxítonas, formadas pelos ditongos citados, nada mudou, permanecendo o acento. Exemplos: ANÉIS, ANZÓIS, CHAPÉU,

Página 23 PAPÉIS, HERÓI, entre outras. O mesmo se deu com os monossílabos, que permaneceram com o acento: DÓI, MÓI, RÓI, CÉU, RÉU. 4. Internauta: - A acentuação dos hiatos em JUÍZES, SAÚDE e FAÍSCA sofreu modificação com o Acordo? Minha resposta: - Antes do Acordo, acentuavam-se as vogais i e u sempre que formavam o hiato com a vogal anterior, ficando isolados na sílaba ou seguidos de -s. Exemplos: ba-ú; preju-í-zo; a-tra-í-do; fa-ís-ca. Após a reforma ortográfica, o acento agudo desapareceu apenas nas situações em que as mencionadas vogais formam hiato com um ditongo anterior. Exemplos: FEI- U-RA (ditongo ei, na sílaba fei- ); BO-CAI-U-VA (ditongo ai, na sílaba cai- ); BAI-U-CA (ditongo ai, na sílaba bai- ). Portanto, a acentuação dos hiatos em JUÍZES, SAÚDE e FAÍSCA não sofreu modificação com o Acordo. 5. Internauta: - A frase Eles têm dúvidas sobre a reforma ortográfica, à luz do Acordo, sofreu alteração? Minha resposta: - A frase não sofreu alteração. É que o acento diferencial permaneceu nas formas verbais afetas ao verbo ter : TEM (terceira pessoa do singular do presente do indicativo) e TÊM (terceira pessoa do plural do presente do indicativo). O acento diferencial se manteve neste caso. Daí escrevermos, ainda, com correção, ele TEM dúvidas e eles TÊM dúvidas. Como se notou, são inúmeras as encruzilhadas diante das quais o usuário da língua se põe quando pretende aplicar as novas diretrizes impostas pelo Acordo Ortográfico. A bem da verdade, os desafios impostos pela reforma serão bem superados, em bom trocadilho, com a superação da dúvida. Esta é sempre salutar. Como dizem os chineses, a dúvida é a antessala do conhecimento. Aliás, antessala já grafada de acordo com o Acordo, para que não pairem dúvidas...