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Transcrição:

Pessoas amadas, livres,libertadoras

EXPEDIENTE Cáritas Brasileira Endereço: SGAN Av. L2 Norte, Quadra 601 Módulo F CEP: 70830-010 / Brasília (DF) Site: www.caritas.org.br Email: caritas@caritas.org.br Fone: +55-61-3521-0350 Fax:+55-61 -3521-0377 Diretoria Presidente: Dom Luís Demétrio Valentini Vice-Presidente: Anadete Gonçalves Reis Diretora Secretária: Ir. Francisca Erbênia de Sousa Diretor Tesoureiro: Pe. Evaldo Praça Ferreira Coordenação Colegiada Diretora executiva nacional: Maria Cristina dos Anjos da Conceição Coordenador: Ademar Bertucci Coordenador: Luiz Cláudio Mandela Texto: Ivo Poletto Revisão: Ida Boing Magalhães de Sousa Comunicação: Ricardo Piantino/Thays Puzzi/Fernanda Nalon Secretariado Nacional comunicacao@caritas.org.br 2

Introdução O semeador saiu a semear. Parte das sementes caiu em terra fértil... (Mt 13,1-9) O que é mesmo mística e espiritualidade? A pergunta volta sempre porque não dá mesmo para definir o que seja de uma vez por todas. É como o caminho, na educação popular: é caminhando que se faz caminho. O entendimento do que sejam e de quais as diferenças e relações entre mística e espiritualidade vai ficando mais claro nas práticas de busca dessas qualidades do ser humano. Trata-se de qualidades do ser humano, mulher e homem. Sua vida tem origem num sopro divino, num desejo de Deus de que a mulher e o homem sejam imagem dele, criadores amorosos como ele. Todo ser humano é espiritual; manifesta-se, relaciona-se espiritualmente. Mas suas práticas mostram espíritos diferentes : convicções, motivações, valores que levam a viver de modo diferente. Por ser livre como Deus, pode fazer escolhas, e elas marcam o seu espírito: fazem que cada pessoa tenha um bom espírito, ou que tenha espírito de porco, no dizer popular. A parábola do semeador, criada por Jesus, pode nos ajudar na busca do que sejam a mística e a espiritualidade. A semente é o convite, a boa proposta de vida apresentada por Jesus; é ele próprio, que já nos diz: amemse uns aos outros como eu amei vocês. Mas ela cai em terrenos diferentes. Se entendermos os terrenos como sendo as pessoas, os diferentes tipos de terreno indicam diferentes tipos de espírito delas: algumas são como o terreno pisado e duro das estradas; outras, como o terreno pedregoso; outras, como um terreno infestado de espinhos; outras, enfim, como o terreno fértil, que acolhe e faz germinar a semente; mesmo assim, algumas fazem produzir pouco, outras um pouco mais, e em outras a semente se multiplica ao máximo. 3

Toda pessoa, antes do encontro com Jesus, ou com a gente, já tem suas motivações, suas ideias e escolhas em relação a valores, seu modo de viver e de conviver com as pessoas e com a terra; toda pessoa tem sua mística, e a tem como fruto do que Deus semeou nela e do que ela própria semeou em si; isto é, do interesse, da busca, maior ou menor, do que a ajudaria a ser melhor. Essa semeadura, essa busca, realizada por meio de diferentes práticas é o seu cuidado com seu espírito, o cuidado para ser um terreno fértil, em que novas sementes podem germinar: é a sua espiritualidade. Voltemos à parábola. O semeador joga uma boa semente, que cai em diferentes terrenos. Trata-se de uma boa proposta de vida, uma proposta de ser e de ter um bom espírito: de ser e agir como Jesus. É uma excelente proposta de espiritualidade, que pode ser acolhida ou não, que pode produzir poucos ou muitos frutos. Em outras palavras, a semente, por melhor que seja, depende dos cuidados que a gente teve com o espírito antes da semeadura para que possa ser acolhida ou não, e para que possa germinar, multiplicandose em novas sementes. Nem Deus pode e quer substituir a liberdade, a ação livre de cada pessoa na construção de si própria. Por outro lado, o terreno é um espaço em que são jogadas muitas sementes. Pode, então, ser entendido como a família, a comunidade, a sociedade em que cada pessoa vive. A gente sabe que tanto a coletividade pode ajudar ou atrapalhar o crescimento das qualidades de cada pessoa, como as pessoas podem ajudar a coletividade a ter determinadas qualidades. Por isso, vale a mesma dinâmica, na relação com o semeador e com a semente jogada, agora, nesse terreno coletivo : a depender das escolhas, individuais e coletivas, as sementes terão diferentes chances de germinar, multiplicar-se, produzir frutos. 4

Mesmo sendo difícil, como nadar contra a correnteza, é possível que pessoas, no bom uso de sua liberdade, cuidem de si para terem fundamentos, motivações e espírito aberto para boas sementes. Esse cuidado pode seguir diferentes caminhos, diferentes tradições espirituais; cada um deles serve de alimento ao espírito, às motivações profundas, à mística. A espiritualidade é um conjunto de práticas que caracterizam cada um desses caminhos; cada pessoa, ao vivenciá-las, introduz algo original, transformando-o em seu caminho. Até aqui, contudo, procurou-se compreender a ação humana na construção de suas motivações, de sua mística, e de seu cuidado permanente do seu espírito. Mas não se pode esquecer que Deus age na vida de suas filhas e filhos mesmo quando eles não o acolhem ou não são fiéis à aliança feita com ele. Ele fica chamando, fica criando oportunidades para que voltem ao primeiro amor. Mesmo sendo como um/a prostituto/a, Deus continua amando com toda paixão; ele é fiel, e quer, sempre, refazer a aliança. Por isso, espiritualidade é também a ação amorosa de Deus em cada pessoa. E no caso de haver acolhimento desse amor, é também a presença e ação de Deus na pessoa amada e, da parte da pessoa, é o escutar o que Deus lhe sugere para ser melhor, para agir com sua inspiração. Este novo livro sobre espiritualidade e mística da Cáritas quer aprofundar estes e outros pontos, muitos deles já presentes nos livros e textos anteriores. O que importa, mesmo, é que seja mais um ponto de apoio, um estímulo novo para a renovação da mística e o crescimento da espiritualidade de cada agente da Cáritas. Este é o motivo para que cada capítulo seja, ao mesmo tempo, um roteiro de um possível encontro de diálogo e de prece e o aprofundamento de alguma dimensão da mística e da espiritualidade da Cáritas. 5

1. Ele nos amou primeiro Partilhando a vida Cada agente da Cáritas experimenta todo o tempo situações em que alguma ou muitas pessoas estão em necessidade e sofrimento. E o mesmo pode-se dizer da Mãe Terra, rasgada em propriedades privadas, cercada, agredida, explorada para gerar mercadorias e riqueza. Ao mesmo tempo, contudo, acontecem também situações em que as pessoas e comunidades se sentem profundamente felizes por causa da experiência de que Deus as ama. Por que não relembrar e colocar em comum alguma dessas situações? Vale começar pelas descobertas do amor de Deus, do amor gratuito, situações em que as pessoas declaram, encantadas: Deus me ou nos amou primeiro; não foi por nossos méritos ou por nossos pedidos; ele nos acompanha, cuida de nós. Por que não lembrar também situações em que este amor gratuito de Deus se manifesta em fenômenos acontecidos no meio ambiente, no espaço da Terra, no bioma, no berço que foi dado a todos os seres vivos dessa parte do Planeta para conviver e bem-viver? Iluminando a vida com a Palavra É ainda da vida de cada um/a da comunidade que se vai falar. Só que, agora, a fala será provocada por uma reflexão de Jesus, que estava ligado à realidade do seu tempo; a ligação com a realidade de hoje é feita por nós. A comunidade de Mateus guardou, entre as Boas Notícias, esta que hoje ilumina nossa reflexão: 6 Olhai os pássaros do céu: não semeiam, não colhem, nem guardam em celeiros. No entanto, o vosso Pai celeste os alimenta. Será que vós não valeis mais do que eles? Quem de vós pode, com sua preocupação, acrescentar um só minuto à duração de sua vida? E por que ficar tão preocupados com a roupa? Olhai como crescem os lírios do campo. Não trabalham nem fiam. No entanto, eu vos digo, nem Salomão, em toda a sua glória, jamais se vestiu como um dentre eles. Ora, se Deus veste assim a erva do campo, que hoje está aí e amanhã é lançada ao forno, não fará ele muito mais por vós, gente de pouca fé?... Buscai em primeiro lugar o Reino de Deus e a sua justiça, e todas essas coisas vos serão dadas por acréscimo. (Mt 6,26-33)

Desejando uma meditação criativa, seguem algumas provocações. Como os pássaros e os lírios do campo, as pessoas não são filhos/as de ninguém. Tudo e todos/as são amados com um cuidado paterno/materno por Deus. Por isso, a gente pode confiar-se a ele, dedicando-se aos cuidados das outras pessoas e dos outros seres vivos que, contra a vontade amorosa de Deus, já não se encontram em boas condições de vida. Não se trata de encostar-se nas cordas, acomodando-se; como lembra o apóstolo João, nisto consiste o amor: não fomos nós que amamos a Deus, mas foi ele que nos amou e enviou seu Filho... Nisto sabemos o que é o amor: Jesus deu a sua vida por nós. Portanto, também nós devemos dar a vida pelos irmãos. (1Jo 4,10;3,16) Deus ama primeiro, a cada pessoa, aos seres vivos todos e a tudo que está ligado é ambiente favorável à vida, à beleza, ao amor. Por isso, a prática humana do amor é resposta, é ser e agir como Deus; isso humaniza e diviniza, ao mesmo tempo: é o mistério de Jesus, e o mistério humano. Ama-se a Deus no amor aos irmãos: quem não ama ao irmão está nas trevas... e mente quando diz que ama a Deus, a quem não vê. (1Jo 2,9; 4,20) O mundo atual está cheio de sinais do amor de Deus e, ao mesmo tempo, de sinais de que existem seres humanos que não amam como ele. Pelo contrário: achando, egoisticamente, que amam a si mesmos buscando riqueza sem descanso, junto com muitas pessoas sem lugar e oportunidades de vida digna, o próprio Planeta Terra está sendo aquecido pelo tipo de progresso e consumismo que domina o mundo. Sabe-se que a produção de alimentos é suficiente para mais de nove bilhões de pessoas. Por isso, a fome que atinge mais de um bilhão de pessoas não é uma fatalidade, e muito menos vontade de Deus. Ela é vontade humana, pois são seres humanos, dominados pelo espírito capitalista, os que impedem sua distribuição. Mas o pior é que, para produzir esses alimentos feitos mercadorias, fonte de enriquecimento de poucos, a Terra tem sido e continua agredida de forma irresponsável, seja pelo desmatamento, seja pelo uso de máquinas, seja pelo uso de agroquímicos que envenenam o solo. 7

Por isso, a provocação de Jesus nos indica dois caminhos: o de que, pela vontade e iniciativa de Deus, todos os seres vivos teriam um bem-viver na Terra; e o de que, para ligar-se com esta vontade de Deus, os seres humanos precisam abandonar o desvio em que entraram, e mudar sua relação com a Terra como forma de amar aos irmãos e irmãs, isto é, a todos os seres vivos e os seres dos quais a vida depende. Renovando a aliança O que esta meditação tem a ver com a Mística e Espiritualidade da Cáritas? É bom trocar ideias sobre isso. Seguem algumas pistas, sem pretensão de fechar o assunto. Caritas caridade é uma palavra que se refere ao amor de Deus, um amor que revela Deus, já que ele é Amor. Ele toma a iniciativa, e o faz com gratuidade. A sugestão que faz aos seres que criou à sua imagem e semelhança é que amem como ele; esse amar como ele é o que foi denominado virtude da caridade a força que está no interior de cada pessoa e a leva a amar, a ser capaz de amar com gratuidade. Por ser uma virtude, pode e deve ser alimentada. É um dom de Deus, uma qualidade, uma marca divina que caracteriza o ser humano, e é tão maravilhosa como a beleza dos pássaros e dos lírios do campo. Mas ela é, igualmente, uma qualidade que se aperfeiçoa livremente, por escolha. É por isso que, na história, este dom de Deus e esta resposta livre do ser humano tomam a forma de aliança. Individualmente ou como povo, o ser humano topa a parada e se compromete a amar como Deus, sendo seu povo. Uma das marcas da mística de cada agente da Cáritas é saber-se amado por Deus, vivendo a alegria de saber que ele tomou a dianteira, gratuitamente, apenas porque gosta da gente. Por outro lado, é motivo de alegria também o fato de ser membro do Povo de Deus, do povo que fez Aliança com ele. 8 Assim como são maravilhosos os pássaros e os lírios do campo porque Deus cuida deles, que alegria saber que ele cuida com ainda maior cuidado amoroso de cada pessoa e de todo o seu povo! É fundamental ficar encantado/a, contemplar e agradecer por tanto amor. E sentir-se fortificado/a, confirmando a decisão de amar como Deus ama.

Como se trata de uma Aliança, entretanto, o agente Cáritas precisa de uma espiritualidade que o leve a avaliar se, da sua parte, está havendo fidelidade; que o leve a retomar o caminho, toda vez que seja necessário; que lhe possibilite ser membro atuante da parte do povo de Deus em que está inserido; que busque, individualmente e com sua comunidade, alimentar sua opção por meio da Leitura Orante da Palavra, da vivência da Eucaristia e da oração ligada à vida. 8 9

2. Um amor apaixonado Partilhando a vida Quem não conhece casais e mesmo pessoas amigas que sofreram ou sofrem por causa da infidelidade? E de pessoas e/ou comunidades que se sentem abandonadas por políticos que prometeram mundos e fundos antes de serem eleitos? É muito provável, também, que se conheçam situações em que houve reconciliação por força da capacidade de perdoar que só um amor apaixonado tem. Vale a pena recordar, lembrando também como isso repercutiu entre as pessoas. As sociedades atuais, estruturalmente organizadas a partir do modo de ser capitalista, são marcadas pelos contratos. Ninguém confia em ninguém, justamente 8 porque as pessoas, para enriquecer, precisam concorrer com as demais. Quem garante que não está a caminho algum tombo, alguma derrota? Até mesmo as relações afetivas são marcadas por essa desconfiança: não estará em andamento algum golpe do baú? Nesse mundo que favorece a superficialidade, até mesmo as relações religiosas são tentadas a assumir a forma comercial, em que o dinheiro garante a atenção de Deus, garante até a felicidade, que viria da riqueza. São práticas religiosas que se adaptaram ao modo de ser capitalista, e que, por isso, desenvolvem espiritualidades individualistas e instrumentais. A fidelidade ou infidelidade não está mais na aliança, no compromisso de vida para ser povo de Deus. E no mundo bem próximo das relações da gente, em que se assenta e como se valoriza a fidelidade? Pode-se dizer que a Cáritas é fiel à sua missão? Iluminando a vida com a Palavra 10 Deus só tem uma palavra. Uma vez feito à sua imagem e semelhança, o ser humano tornou-se responsável por sua liberdade, e Deus a respeita, mesmo quando é usada para afastar-se e colocar-se contra ele. Uma vez assumida a aliança, ele é fiel a ela, mesmo quando o povo se deixa atrair por ídolos, se afasta, é infiel; mesmo quando, usando uma comparação, ele se prostitui. É isso que nos revela o profeta Oséias, falando simbolicamente do seu amor à esposa que se prostituiu: 8

Pois, agora, eu vou seduzi-la, levando-a para o deserto e falando-lhe ao coração. Ali eu lhe devolvo os vinhedos, e transformo o Vale da Desgraça em Porta de Esperança! Ali, então, me responderá como na juventude, quando escapou da terra do Egito. Naquele dia oráculo do Senhor -, ela passará a chamar-me meu marido e não mais de meu Baal. Arrancarei dos seus lábios os nomes dos Baals, que nunca mais hão de ser lembrados. Naquele dia, em favor deles, farei uma aliança com as feras, com as aves do céu e as serpentes do chão: afastarei desta terra o arco, a espada e a guerra, e todos poderão dormir em segurança. Eu me caso contigo para sempre, casamos conforme a justiça e o direito, com amor e carinho. Caso-me contigo com toda a felicidade e então conhecerás o Senhor... Naquele dia irei dizer ao Não-Meu- Povo: Tu és o meu povo! e ele responderá: Tu és o meu Deus. (Os 2,16-22 e 26) Que chuva abundante, esta Palavra! Que semente maravilhosa para o terreno fértil! O silêncio é o melhor espaço para que ressoe esta mensagem de amor... Sempre com o intuito de contribuir com a meditação, seguem alguns comentários. Já comprometidos/as com a reeducação para relações de gênero que valorizam a diversidade e a igualdade, sem discriminações nem subordinações, para a Cáritas a pessoa que Deus leva ao deserto pode ser uma mulher, um homem, ou mesmo um povo, que caiu na infidelidade. A mensagem essencial, aqui, é a fidelidade apaixonada do amor de Deus com cada pessoa e com a humanidade. Não é porque uma pessoa ou um povo tornou-se prostituto/a que Deus vai desprezar, deixar pra lá, esquecer. Sua parte na aliança permanece fiel. Se por seu amor cada pessoa é como ele, ele não é como as pessoas: a infidelidade não mora em seu coração; sua palavra não volta atrás. Não basta fazer o normal na relação com a pessoa infiel. O amor de Deus se manifesta apaixonado: ele a seduz, a leva ao deserto e fala ao seu coração. Quer estar a sós com ela e com o tempo necessário para que perceba os sinais de sua paixão, para que, seduzida, ouça suas palavras com o coração. Deus quer de volta para a aliança a pessoa inteira, com sua liberdade e razão, mas principalmente com sua inteligência cordial, como insiste Leonardo Boff em seus escritos. Ele a quer num novo ou renovado casamento, que seja para sempre, assentado na justiça e no direito, com amor e carinho. É grande o risco de projetar em Deus algum ídolo, algum Baal. Ele deseja apaixonadamente ser redescoberto como marido amoroso, ou como esposa amorosa, superando sua redução a qualquer tipo de ídolo. Em vez de um poder estranho que promete resolver os problemas no lugar da pessoa, ele prefere ser reconhecido com Amor, que tudo faz para retomar o caminho em conjunto, formando um casal. A força que liberta das ilusões dos ídolos é a relação apaixonada, que fala ao coração. 8 11

Pensando nos tempos atuais, tão diferentes dos vividos por Oséias, quanto amor apaixonado será necessário para que as pessoas possam libertar-se das tentações idolátricas! Quanto amor de Deus e quanto amor das pessoas que retomam e vivem com fidelidade a aliança com ele. Em vez de condenações e de falas dirigidas apenas à razão, gestos que seduzem, que atraem ao deserto, que falam ao coração para que a pessoa e/ou o povo perceba, à distância, as ilusões e falsas promessas dos ídolos; para que se afaste deles e tope novo casamento. Parece que o profeta fala às pessoas e povos de hoje, que se sentem sem segurança no presente, e sem segurança em relação ao futuro; uma insegurança causada seja pela situação social insustentável, gerada pela imposição do consumismo capitalista, seja pelas mudanças climáticas, geradas pelas relações predatórias com a Terra e pela emissão irresponsável de gases que causam aquecimento na atmosfera. Em sua paixão amorosa, Deus anuncia que faz aliança até com as feras, com as aves e com as serpentes para que sejam extirpados todos os tipos de armas, todas as guerras, para que todas as pessoas possam dormir em segurança. Fazem parte da aliança, para Deus, não apenas os seres humanos, mas todos os seres vivos; só haverá paz entre os seres humanos quando houver mudanças nas relações com os demais seres vivos e com toda a Terra. O conhecimento do Senhor passa pelas relações amorosas, e Deus está empenhado no resgate e retomada delas: nem mesmo a prostituição com ídolos impede que Deus deseje casar-se novamente e com felicidade. Ele o quer e o faz. E é isso que torna possível que Deus diga ao Não-Meu-Povo : tu és o meu povo! E que o povo responda: Tu és o meu Deus! Renovando a aliança A mística dos agentes da Cáritas tem este fundamento: o saber que faz parte do povo da aliança, e que Deus é absolutamente fiel na sua relação com seu povo. Deus quer cada pessoa, cada comunidade, bairro, cidade, região, povo, como participante da aliança proposta por ele. Sua fidelidade, sua renovada proposta de casamento tem como base o compromisso com a justiça e direito, com o amor e o carinho. De que mais precisa a humanidade para ser feliz? Ao entrar na Cáritas assume-se um compromisso com Deus e com o próximo: lutar pela justiça e o direito, com amor e carinho. Trata-se de ir ao encontro das pessoas que continuam fiéis à aliança libertadora com Deus, bem como das que cederam às tentações dos ídolos de hoje e que precisam ser seduzidos para retomar o caminho de felicidade para a humanidade. 12 É o compromisso de Jesus: proclamar a todos/as o ano da graça do Senhor. O ano de graça é o tempo em que o Não-Meu-Povo, seduzido e voltando a participar da aliança, diz: Tu és meu Deus! ; então Deus também diz: Tu és meu povo! Falando em linguagem popular: quando o povo está de bem com Deus, está muito bem consigo mesmo.

Por isso tudo, todo esforço para planejar bem as ações, para avaliar permanentemente, monitorando o processo implementado, bem como reconhecendo, celebrando e comunicando os bons frutos, é mais do que uma disciplina ou uma exigência institucional: é exercício de espiritualidade. Trata-se do cuidado para ser fiel à aliança, ao compromisso assumido de viver e colocar em prática o amor libertador. Também a pedagogia, isto é, o modo como se chega junto às pessoas, o tempo destinado, as palavras escolhidas, os gestos, a segurança e a paixão com que se busca seduzi-las para uma renovada aliança, faz parte dos exercícios da espiritualidade dos agentes da Cáritas. Espiritualidade é muito mais do que tempos e formas de oração. Eles são importantes, como as refeições o são para a saúde. Mas como a saúde se mantém e melhora com tudo que se faz ou se deixa de fazer, com os cuidados com a mente, o humor, com a motivação, com os tempos livres, com o lazer, com a contemplação do belo e do sublime, a espiritualidade é constituída por todas as práticas que cuidam e alimentam o espírito de cada pessoa, da equipe, da comunidade... 3. Amor extremo: ele decidiu ser um dos pobres Partilhando a vida De todas as manifestações da vida, o convite de hoje é para lembrar as pessoas que doam sua vida em favor dos/a outros/as. Pode-se começar lendo o que está na Agenda Latino-americana Mundial no dia de hoje. É sempre importante trazer para o meio da gente também o exemplo de pessoas conhecidas que dedicaram a vida aos pobres, à sua libertação. Muitas delas foram até o extremo: doaram sua vida, tornaram-se testemunhas, mártires; outras são sinais, testemunhas da dedicação diária, muitas vezes heróica. Quem se deseja lembrar, hoje, de maneira especial? Mas não é só quem chega como discípulo/a e missionário/a que testemunha o amor libertador. É do meio dos pobres que emerge o maior número, e provavelmente, os mais eficazes libertadores do próprio povo. Quantos/as deles tiveram sua vida cortada antes do tempo? De quem vale lembrar, hoje, com carinho? E por que ficar só no passado? De fato, é muito importante estar atentos/as às pessoas que estão dando sua vida pelos outros/as, com grande amor, gratuidade e criatividade. São luzes que iluminam os caminhos, faróis que sinalizam criticamente como superar as tentações do mundo de hoje, fermento que transforma vidas e estruturas sociopolíticas. Quais irmãos e irmãs se farão presentes por meio de nossa lembrança? 13

Iluminando a vida com a Palavra O que revela mais e melhor o amor de Jesus Cristo pela humanidade? É provável que a maioria responda logo: sua fidelidade à missão até a condenação e morte na cruz. É claro que este é um momento forte, uma prova de que ele viveu o que sugeriu como ideal: ninguém dá maior prova de amor do que aquele que dá a sua vida pelos amigos. Mas este e todos os gestos e sinais de Jesus fazem parte do mistério da própria vida de Jesus. É no seu todo que ele revela o amor de Deus pela humanidade. Sua existência se deve a uma decisão extrema do amor de Deus: fazer-se um de nós, deixando a divindade, para ser o caminho, a verdade e a vida para todas as pessoas que desejam viver em aliança com Deus. E aí que entra a primeira questão, o primeiro desafio para abrir a porta da compreensão deste mistério: por que Deus, ao decidir ser um de nós, se fez um dos pobres da terra? Seria um acaso ou uma escolha? Pelo que se encontra nos Evangelhos, trata-se de uma escolha: nascer numa família simples de uma região pouco valorizada. O Cântico de Maria, que brotou do coração ao ser saudada pela prima Isabel, serve certamente de pista para ir aprofundando a meditação deste mistério: ela se percebe parte da história de salvação e louva o Senhor por ter escolhido o caminho da libertação dos humilhados: A minha alma engrandece ao Senhor, e meu espírito se alegra em Deus, meu Salvador, porque ele olhou para a humildade de sua serva. Todas as gerações, de agora em diante, me chamarão feliz, porque o Todo-Poderoso fez em mim coisas grandiosas. O seu nome é Santo, e sua misericórdia se estende de geração em geração sobre aqueles que o temem. Ele mostrou a força de seu braço: dispersou os que têm planos orgulhosos no coração. Derrubou os poderosos de seus tronos e exaltou os humildes. Encheu de bens os famintos e mandou embora os ricos de mãos vazias. Acolheu Israel, seu servo, lembrando de sua misericórdia, conforme prometera a nossos pais, em favor de Abraão e de sua descendência, para sempre. (Lc 1,47-55) 14 Ela percebeu que Deus, que se fazia um de nós em seu útero, sempre se colocou do lado dos empobrecidos; tomou o partido dos pobres, e de duas formas: dispersando os orgulhosos, derrubando os poderosos e mandando embora os ricos de mãos vazias; e elevando os humildes, enchendo de bens os famintos. Em outras palavras: assim como em sua vida, Deus faz coisas grandiosas na vida dos empobrecidos.

Jesus, depois de enfrentar as propostas tentadoras de seguir pelos caminhos 1 do poder e dos poderosos, apresentadas pelo tentador, o diabo, deixou claro que pobres/empobrecidos são os primeiros destinatários de suas Boas Notícias e o Reino é algo próprio deles: felizes os pobres porque é deles o Reino dos Céus.(Mt 5, É importante lembrar que a missão de Jesus - o anúncio e construção do Reino - implica mudanças profundas na vida da humanidade, tão profundas que façam a humanidade ser o povo de Deus. Mudanças a serem realizadas na história, pois se não fosse assim, por que Deus teria decidido ser um de nós? Às vezes, parece que há pessoas que se colocam na direção contrária à de Deus mesmo que seja em nome dele. Afinal, se Deus se faz um de nós, e dá sua vida pela humanidade, não se justifica que se queira sair daqui, ir para fora do mundo, para ir ao encontro com Deus. A prática e a palavra de Jesus indicam claramente que se ama a Deus amando o próximo. Todo tipo de louvor, sacrifício e oração, se não estiver ligado ao amor ao próximo, não agrada a Deus; é inútil, então. Jesus é um mistério que revela o valor divino do humano. Um mistério que tem como porta de entrada sua vida concreta, histórica, no meio de um povo, num tempo determinado. E esta vida revela: ele, de fato, amou a humanidade, nas pessoas muito concretas com quem conviveu, e amou-as até o fim (Jo 13,1), com amor extremo. Jogou-se, doou-se totalmente, ao ponto de mais mistério lavar os pés dos discípulos e discípulas e fazer-se presente sacramentalmente, em memória dele (Lc 2 22,19), entre os comensais do pão e vinho consagrados. 1 Cf. Lc 4,1-13 2 É interessante que o amor até o fim, referido pelo evangelho de João, está, de fato, ligado ao gesto surpreendente do lava-pés, já que a instituição da eucaristia nem é referida por ele. Ele apenas faz memória de que isso ocorreu durante a ceia. Pode-se dizer que a eucaristia sem o lava-pés não celebra a memória desejada e o legado de Jesus? Cf Jo 13,20. 15

Renovando a aliança Esta meditação está ligada e ilumina pelo menos dois grandes desafios enfrentados pelos agentes militantes da Cáritas e pastorais sociais. O primeiro tem a ver com a transformação que deve ocorrer em sua vida para amar como Jesus amou, indo até o fim. É complicado dizer isso, mas é a vida concreta destas pessoas que revela a presença de Jesus em cada uma em diferentes realidades do mundo de hoje. Ele mesmo disse: quem vos recebe, é a mim que está recebendo; e quem me recebe, está recebendo aquele que me enviou (Mt 12,40). É fundamental, então, ir fundo na contemplação da vida de Jesus. Não apenas no conhecimento, mesmo sendo absolutamente necessário. A contemplação possibilita a memória da vida de Jesus e sua interiorização no coração do discípulo e da discípula. Esse é o caminho para ir fazendo que a vida concreta seja iluminada e, mais ainda, mergulhada no mistério que é Jesus. É isso que tornará possível perceber e cantar as maravilhas que Deus faz na vida das pessoas, como fez em Maria. É um caminho sem limites: seja para viver a alegria de saber que quem me ama guardará minhas palavras, e meu Pai o/a amará, e nós viremos e faremos nele/a a nossa morada (Jo 14,23); seja porque, para Jesus, cada pessoa pode ser perfeito como o Pai é perfeito (...). O segundo desafio está na responsabilidade de ler bem os sinais do tempo atual para ser fiel ao seguimento de Jesus e revelá-lo por meio da prática. Não basta boa vontade. Faz parte desse seguimento a busca das melhores mediações, sociológicas, antropológicas etc., como esforço necessário para fazer o melhor possível em cada tempo e em cada lugar. Ao buscar o possível, será indispensável estar atentos/as às melhores formas de agir que ajudem as pessoas e a história da humanidade a caminhar no rumo de sua libertação. E para isso, é fundamental abrir-se para os passos dados por outros grupos sociais, bem como por outros povos, pois sua prática pode sugerir formas de ação mais eficazes. 16 Nessa abertura para as práticas dos outros/as é bom fazer como Jesus: reconhecer a fé já presente em suas ações, em sua teimosa esperança. Jesus surpreendia ao descobrir fé e amor onde os demais, mesmo discípulos/as, só viam estrangeiros/as, cobrador de imposto curioso, mulher, samaritano/a pecador/a e infiel. Ele não tinha preconceitos. Pôde, por isso, dizer aos discípulos/as, quando lhe perguntaram se ele queria que voltassem para proibir os que não eram do seu grupo e faziam a mesma coisa que eles/as: se eles/as fazem as mesmas coisas é porque já são movidos/as pelo Pai; e não estão contra nós (...).

O exemplo de Doroty Stang é valioso. Ela não estava apenas no interior do Pará, junto com o povo abandonado e ameaçado pela grilagem de terras. Ela estava lá também porque havia percebido que, no tempo atual, era necessário e possível construir um novo modo de se relacionar com a floresta amazônica, produzindo boas condições de vida sem destruí-la. Combinando as duas dimensões de sua presença, pode-se concluir que ela amou aquele seu povo até o extremo. 4. Amados/as pela Terra que Deus ama Partilhando a vida Ao falar que a Terra ama os seres vivos, de que cada um/a se lembra? Como a maioria das pessoas vive em cidades, o exercício de lembrar de que formas a Terra ama é muito educativo; e necessário, para que não se caia no mau uso de achar que chuva atrapalha. Por isso, é bom ir a detalhes e não achar que se perde tempo ao redescobrir e contemplar o amor da Terra. Por outro lado, vale também a pergunta: e os seres humanos correspondem a este amor? Num primeiro exercício, é bom evitar a lembrança de práticas que revelam a falta de amor, e do desamor, quando não, do uso irresponsável e predador da Terra. É importante fazer memória das práticas de amor verdadeiro, que acontecem perto ou longe; hoje em dia, praticamente tudo está muito próximo, seja por meio da TV, seja especialmente pela Internet. Quais os povos que mais amam a Terra? Como expressam esse amor? E as pessoas que vivem nas cidades, que gestos de amor à Terra conseguem manifestar? E se, dentre todas as pessoas e comunidades, forem examinadas as comunidades religiosas, e especialmente as comunidades cristãs, como elas expressam seu amor pela Terra? Tendo presente que a Terra ama com total gratuidade, vale perguntar-se como as pessoas especialistas em gratuidade, que são as crianças, estão amando a Terra? Quais mediações são oferecidas a elas para que se descubram, com encantamento, amadas pela Terra? E que mediações existem para que elas, em resposta, a amem? 17

Iluminando a vida com a Palavra De onde terá vindo inspiração para que São Francisco cantasse a Terra com estas palavras? Sejas louvado pela irmã terra, Mãe que sustenta e nos governa, Produz frutos, nos dá o pão, Com flores e ervas sorri o chão (S. Francisco de Assis Cântico das Criaturas) Da parte de Jesus, temos sua declaração de amor pelos lírios do campo, mais belos que as vestimentas de Salomão, e pelos pássaros, mantidos pelo Pai sem que plantem e colham. Temos sua capacidade de falar com autoridade por meio de parábolas muitas vezes inspiradas nos movimentos geradores de vida da Terra: a dinâmica da semente, que precisa morrer para que germine mais vida; a semente que cai em diferentes terrenos, podendo não germinar, germinar sem frutificar ou germinar com diferente frutificação; a presença do joio em meio ao trigo; a grandeza do pequeno grão de mostarda; o tesouro, descoberto num terreno; os espinheiros e as árvores frutíferas; a figueira; o comer espigas de trigo em dia de sábado; a força do fermento; a vinha e o que convida os desocupados a trabalhar em diferentes horas do dia e paga a todos/as igualmente; a luz; as trevas; a vinha e os empregados gananciosos, que matam para apropriar-se dela; a videira e seus ramos, e o Pai agricultor; o óleo e as lamparinas; o vinho, para a festa de casamento em Cana, e o que é novo, que não se dá bem com odres velhos ; o ramo de oliveira; a ovelha, o pastor; o ser humano, capaz de admirar e amar, de servir, de ser luz... Nos movimentos da Terra há sinais do Reino. Sempre em acordo com o amor do Pai, ela provê alimento e beleza para suas criaturas. E quanto mais para os filhos e filhas, que não devem preocupar-se demais com o que irão comer ou vestir... de modo especial os que vão tomando consciência da presença de Deus em toda esta longa e maravilhosa história da vida. Nessa direção, vale retomar, e com a sensibilidade e inteligência do coração, o começo do evangelho da comunidade de João: No princípio era a Palavra. E a Palavra estava junto de Deus, e a Palavra era Deus... Tudo foi feito por meio ela, e sem ela nada foi feito de tudo o que existe. Nela estava a vida, e a vida era a luz dos homens e mulheres. E a luz brilha nas trevas, e as trevas não conseguiram dominá-la... E a Palavra se fez carne e veio morar entre nós... (Jo 1,1-14) 18

Tudo que a Terra faz conta com a presença da Palavra. A Palavra, que é Deus e se fez carne e veio morar entre nós, está presente na Criação desde o início. Como insistiu Teillard de Chardin, há a presença de Cristo na evolução terrestre, que chegou ao ser humano. A história da Terra e a história humana são, ao mesmo tempo, naturais, sociais e teológicas. Por isso, para Deus, a história deve chegar a bom termo, a um ômega de plenitude, a uma nova Jerusalém, ao Reino de Deus. A encarnação tem a ver com a relação de Deus com a liberdade humana: ele se fez um de nós para, como amigo, pedagogo e mestre, ser, com sua vida e com sua palavra, sugestão de caminho, de verdade e de vida. Deus ama o ser humano livre. Por isso, apresenta-se diretamente como oportunidade, como convite, como estímulo, nunca como obrigação forçada, como imposição: amem-se uns aos outros como eu amei a vocês ; quem quiser andar comigo tome sua cruz e siga-me; e tendo amado os seus, até o extremo os amou... Até mesmo para ter força e coragem para olhar criticamente a resposta dos seres humanos, como se fará no próximo capítulo, vale a pena, agora, mergulhar, sentir-se parte, curtir, o mistério em que a Terra, todas as criaturas, e particularmente as pessoas estão envolvidas. Dar-se conta do amor criador de Deus e do amor materno da Terra, que se deixa engravidar pela energia divina e gera novas e surpreendentes formas de vida. E dançar, cantando com os poetas e salmistas o Salmo 104(103): Em coro a Deus louvemos: eterno é seu amor!... Por nós fez maravilhas: eterno é seu amor! Renovando a aliança Na aliança de Deus com os seres humanos, com os/as que topam ser seu povo, entram também todas as criaturas, de modo especial as que são portadores de vida; entra toda a Terra, com sua energia materna criadora e renovadora da vida. O ser humano é capaz de cuidar e de criar, como Deus, de quem é imagem e semelhança, de quem é filho e filha. Esta meditação sobre o amor da Terra tem muito a ver com o trabalho da Cáritas e pastorais sociais. O que buscam com as pessoas é uma libertação integral, que inclui uma relação de cuidado e de cooperação com a Terra. E isso exige uma reeducação, de modo especial das pessoas criadas com educação assentada sobre as culturas europeias, que têm tudo a ver com a modernidade e com sua subordinação ao capitalismo. Nesses culturas, o centro de tudo está na razão, na capacidade humana de explicar as coisas e de fabricar instrumentos e máquinas capazes de modificá-las. Os mais afoitos, tão encantados com o poder de luz da razão que se chamam de iluministas, chegam a dizer que não se precisa mais de Deus nem de visões religiosas. A Terra passa a ser natureza, um conjunto de coisas a serem dominadas e transformadas pelo engenho humano, gerando riquezas. Foi suficiente introduzir e tornar lei a prática da propriedade para que a relação com a Terra passasse a ser um dos instrumentos essenciais do progresso capitalista. O proprietário pode fazer o que quiser com as coisas que extrai da parte da natureza controlada por ele; tudo vira mercadoria, coisa ou produto industrial que se vende no mercado. 19

Na verdade, então, esta meditação sobre o amor da Terra tem a ver com a capacidade de libertar-se da dominação da visão capitalista, que está muito mais arraigada em cada pessoa do que se pode imaginar. É aquela presença do opressor no oprimido, analisada pelo mestre Paulo Freire. Outra atitude fundamental é a abertura para a riqueza das culturas indígenas e afro-americanas. Mesmo forçadas a conviver com a cultura dominante, e sendo relativamente atingidas por ela, estas culturas resistiram e sobreviveram com muitos valores necessários para renovar a relação com a Terra. Partem da prática de ser parte da Terra, e não seres separados, que a dominam, dividem, agridem, rasgam, retiram dela tudo que consideram fonte de riqueza. A Terra é um ser vivo e cheio de espíritos, com quem o ser humano e o povo como um todo precisam viver em paz. Qualquer intervenção na mãe Terra precisa de uma licença, de uma aceitação por parte dela: para fisgar um peixe, para matar um animal ou pássaro, para cortar uma árvore, para preparar uma roça... Qualquer ação agressiva pode provocar respostas agressivas, um tipo de castigo pela falta de cuidado... Mais uma dimensão que tem a ver com vivência de uma espiritualidade que englobe a relação com a Terra: o compromisso de em todas as frentes de trabalho, no campo e na cidade, buscar não apenas o respeito ao meio ambiente, mas a implementação criativa de cuidados que melhorem as condições de vida. Isso tem a ver com o que se faz ou deixa de fazer em relação aos córregos, suas águas e suas beiras, em relação às áreas livres - praças, ruas, áreas de lazer, jardins das casas, calçadas... Quantas árvores são plantadas, e que tipo delas? E flores? E hortaliças? Na verdade, a resposta humana ao amor da Terra, amada por Deus, se dá no tipo de agricultura e, em termos mais gerais, no tipo de desenvolvimento que se implementa. Ele é planejado e implementado em conjunto com as energias da Terra? Ou isso não é levado em conta? É um desenvolvimento definido eticamente, priorizando a qualidade da vida humana e das demais formas de vida? Tudo deveria ser definido a partir do princípio: só aplicar conhecimentos prudentes para uma vida decente... 20