Gregório Assagra de Almeida



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Transcrição:

O Ministério Público resolutivo é um canal fundamental para o acesso a uma ordem jurídica realmente legítima e justa. Os membros dessa instituição democrática devem encarar suas atribuições como verdadeiros trabalhadores sociais, cuja missão é o resgate da cidadania e a efetivação dos valores democráticos. Gregório Assagra de Almeida

Agenda 1. Introdução 1.1. Interlocução entre Academia e Ministério Público. 1.2. Bem-estar animal 1.3. Proteção do Estado aos animais no Brasil 1.4. Diretriz da atuação do Ministério Público 2. O MP Curador dos Animais: Tutela Difusa da Fauna brasileira 2.1. Ministério Público brasileiro - Desenho Institucional 2.2. Instrumentos legais e administrativos 2.3. A busca por efetividade das suas ações: O Ministério Público Resolutivo 3. Fauna Silvestre: Bem de Uso Comum 4. O Ministério Público e a proteção da fauna no Brasil 5. Resolutividade das Ações do MP 6. Conclusão

Ao lado do desenvolvimento da ciência do bem-estar animal, mostra desse Congresso, a proteção do Estado aos animais no Brasil decorre da própria Constituição Federal quando preconiza que todos tem direito a um meio ambiente ecologicamente equilibrado, devendo este ser preservado para as atuais e futuras gerações (art. 225, CF): proteger a fauna e a flora, vedadas na forma da lei, as práticas que coloquem em risco a sua função ecológica, provoquem a extinção de espécies ou submetam os animais à crueldade. ( 1º, VII); As condutas e atividades lesivas ao meio ambiente sujeitarão as pessoas físicas e jurídicas a sanções penais e administrativas, independentemente da obrigação de reparar os danos causados ( 3º); Também as leis ordinárias federais, estaduais ou municipais, preconizam essa proteção, com destaque para a Lei dos Crimes Ambientais (Lei nº9605/98);

Diretriz - Toda a atuação do Ministério Público deve se orientar pelo princípio de tutela difusa do meio ambiente, preconizado na CF, e pela diretriz da ciência do bem-estar animal moderna que se traduz em promover uma melhor qualidade de vida aos animais, viabiliza a vida aos animais, o crescimento sustentável e agrega o valor econômico.

2. O MP Curador dos Animais: Tutela Difusa da Fauna brasileira O Ministério Público, pelo seu desenho institucional traçado na CF, tem papel fundamental nas demandas ambientais. Funções institucionais Art. 129 I ação penal pública III promover o inquérito civil e a ação civil pública para a proteção do meio ambiente e de outros interesses difusos e coletivos. O Ministério Público é um grande interlocutor entre a sociedade civil organizada e o Estado na defesa de um meio ambiente sadio e ecologicamente equilibrado.

Participação da sociedade na formulação, planejamento e execução da política pública ambiental conselhos; Cabe ao Ministério Público a fiscalização de todo ciclo da política pública, desde o planejamento, orçamento, elaboração e execução, podendo intervir em quaisquer etapas, para corrigir cursos, inclusive; O MP surge sob o signo da legitimidade democrática ampliaram-se-lhe as atribuições e reformularam-se-lhe os meios necessários ao alcance da sua destinação constitucional; O Ministério Público é instituição permanente, essencial à função jurisdicional do Estado, incumbindo-lhe a defesa da ordem jurídica, do regime democrático e dos interesses sociais e individuais indisponíveis (art. 127, CF)

Instrumentos judiciais de proteção da fauna Ação civil pública, prevista no art. 129, III da CF ( Lei 7.347/85), face ao princípio da precaução e visando à obrigação de fazer ou de não fazer para a reparação ambiental ou a condenação pecuniária (legitimidade não exclusiva do Ministério Público concorrente com União e entes federados, autarquias, empresas públicas, sociedade de economia mista e associações); Ação Penal Pública, art. 129, I da CF (crimes ambientais contra a fauna); Todas as medidas processuais acautelatórias e recursais.

Instrumentos extrajudiciais para a solução dos conflitos ambientais : Acompanhamento legislativo; Audiências públicas interlocução social; Inquérito Civil Público investigação; Termo de ajustamento de conduta; Recomendação LC. 75/93. art. 6, XX; Requisições no bojo do Inquérito Civil Público; Requisições de Inquérito Policial e de TCO.

Tão mais relevante que a utilização da ação civil pública são a formulação e acompanhamento de projeto legislativos, o controle do exercício do poder de polícia pelos órgãos ambientais (em especial a expedição de licenças e a própria atividade de prevenção como um todo) Ministro Herman Benjamim - STJ

3. Fauna Silvestre: Bem de Uso Comum A fauna era tida há bem pouco tempo como bem patrimonial, algo para ter e dispor: usar, desfrutar e gozar. Assim, os animais silvestres eram tidos como coisas sem dono podia o homem usar indiscriminadamente coisas de todos e de cada um. Hoje, a fauna, como recurso natural é um elemento do ambiente, o animal é um ser vivo que não pode ser tratado com crueldade e a fauna silvestre, um recurso ambiental de extrema valia à biodiversidade e à vida no Planeta Terra bem comum de uso comum do povo.

Lei da Fauna (Lei 5.197/67, art. 1 ) Os animais de quaisquer espécies, em qualquer fase do seu desenvolvimento e que vivem naturalmente fora do cativeiro, constituindo a fauna silvestre, bem como seus ninhos, abrigos e criadouros naturais, são de propriedade do Estado, sendo proibida a sua utilização, perseguição, destruição, caça ou apanha. Exposição de Motivos: A fauna silvestre é mais que um bem do Estado: é um fator de bem-estar do homem na biosfera. O que levou a União a tornar-se proprietária da fauna silvestre foram razões de proteção do equilíbrio ecológico, tanto o domínio não se restringe aos animais, mas abarca o seu habitat.

Conceito legal de Fauna Silvestre Conjunto de animais de quaisquer espécies que vivem naturalmente fora do cativeiro. A qualidade silvestre da fauna não quer dizer exclusivamente a encontrada na selva, mas a fauna não domesticada Paulo Afonso Leme Machado

O Decreto 24.645/34 previa que os animais serão assistidos em juízo pelos representantes do Ministério Público. Dispomos de rico e consistente instrumental jurídico para atuar na tutela ambiental. O MP é o destinatário constitucional da missão de protetor da fauna como bem de uso comum e direito difuso, pertencente à coletividade. A Lei de Proteção à Fauna dispôs que os animais silvestres seriam de propriedade do Estado. Com o advento da CF, a fauna passou a ser bem ambiental difuso. Tutela jurídica dos animais como seres sensíveis, individualmente considerados, e não somente recursos da natureza.

Casos mais frequentes de maus-tratos a animais no Brasil e a a atuação do Ministério Público caça predatória combate- controle- permissão para fins científicos, esportivos e de subsistência; comercialização da Fauna Silvestre e de seus produtos/ vedação exceção proveniência de criadouros artificiais; crueldade e maus tratos contra animais (art. 3 Decreto Lei 24.645/1934) abuso ou crueldade (art. 32, Lei 9.605/98) crime ambiental.

Temas controversos Recolhimento de animais de rua sacrifício; Farra do boi, tourada, rodeio, vaguejada e rinha Aspectos culturais e configuração de maus tratos; Farra do boi Decisão do STF : Alegação de que se trata de manifestação cultural - Inadmissibilidade. Aplicação do art. 225, 1, VII da CF. A obrigação de o Estado garantir a todos o pleno exercício de direitos culturais, incentivando a valorização e a difusão das manifestações, não prescinde da observância da norma do 225, 1, VII da CF, que veda a prática que acabe por submeter os animais à crueldade, como é o caso da conhecida farra do boi.

Toda manifestação popular que submeta os animais à crueldade desnecessária deve ser combatida Artigo 32, Lei 9.605/98 - Constitui crime Praticar ato de abuso, maustratos, ferir ou mutilar animais silvestres, domésticos ou domesticados, nativos ou exóticos: Pena - detenção, de três meses a um ano, e multa.

Animais em circo - retirada dos animais do seu convívio natural - confinamento estresse pela perda do habitat e pelas longas viagens acorrentamento; Declaração Universal dos direitos dos Animais 27/01/1978 (Bruxelas), art. 10 nenhum animal deve ser explorado por divertimento do homem, pois as exibições de animais e os espetáculos que utilizem animais são incompatíveis, com a dignidade do animal. Rinhas de galo Aguarda decisão do STF Ação Direta de Inconstitucionalidade proposta pelo MPRJ face a lei 2.845/98 que autorizava a competição entre galos. A PGR ajuizou cautelar incidental à ADIN, julgada procedente para proibir as brigas de galo até que seja julgada a respectiva ADIN.

Sacrifício de Animais em Rituais, Cultos e Liturgias de Religiões Afro-brasileiras: A permissão desse sacrifício foi autorizada expressamente por Lei Estadual do Rio Grande do Sul e questionada pelo MPRS, por meio da propositura de ação direta de inconstitucionalidade, indeferida para permitir o sacrifício ritual em cultos e liturgias das religiões de matriz africana, desde que sem excessos ou crueldade; Tráfico de animais Silvestres Risco à fauna brasileira deve ser combatido Crime Ambiental

Resolutividade nas ações do Ministério Público Crueldade em rodeio ACP - Promotoria de Cravinhos para impedir rodeio; Abuso em circo ACP Promotoria de São José dos Campos contra exibição pública de animais em circo; - 7ª Promotoria de Justiça de Goiânia Acompanhamento de Projeto de lei nº 2012742, que proíbe uso de animais em circos. TV Animal ACP MPF contra exibição de imagens de maus tratos à animais; Abate cruel ACP Promotoria São Bento de Sapucaí para a substituição arcaico de abate pelo método científico humanitário;

Recolhimento de animais nas ruas -TAC Promotoria de São Vicente- para proibir a morte dos animais que não estejam em fase terminal de doença ou que possam ser tratados e que não sejam nocivos à saúde e segurança do homem. - TAC Promotoria de Salvador - para melhoria das condições dos animais recolhidos e proibição do sacrifício indiscriminado destes. - ACP Promotoria de Justiça de Catalão, pleiteando programa de educação em saúde, guarda responsável e esterilização de cães e gatos.

Maus tratos a animais em zoológico Recomendação da 15ª Promotoria de Goiânia, visando à elaboração de plano de manejo do Parque Zoológico para o controle sanitário, de zoonoses e de doenças infectocontagiosas. Vivissecção ACP - 15ª Promotoria de Anápolis Obrigação de não fazer para a não utilização de animais vivos nos cursos de treinamentos em Cirurgia Videolaparoscópica e cirurgia endoscópica transluminal Existência de recursos alternativos. Mortandade de peixes ACP Promotoria de Sorocaba contra indústria local pleiteando indenização pela mortandade dos peixes no rio Sorocaba; Apreensão em circo ACP Promotoria de São Sebastião/SP pela ocorrência de maus tratos aos animais silvestres.

5. Conclusão Congregar diversos olhares sobre a proteção à fauna, sob a ótica do bem-estar animal moderno, confere a transdisciplinaridade almejada por esse evento. Para a sociedade, os resultados desse Congresso vão além: concita-a ao debate que é científico, legal, cultural e ético. O MP, após essa importante interlocução com a Academia e Comunidade científica e no cumprimento de sua missão constitucional, norteará suas ações na efetivação da tutela e proteção à fauna, preconizando a harmonia entre sua relação com o homem, a fim de garantir o meio ambiente ecologicamente equilibrado para as atuais e futuras gerações.

O Ministério Público reúne plenas condições para promover efetivamente a tutela jurídica da fauna. Nenhum outro órgão possui à sua disposição tantos instrumentos administrativos hábeis para impedir situações de maus tratos aos animais. Todos os seres que possuem interesses devem ser respeitados, e, para com eles estamos obrigados, do ponto de vista moral, a dispensar consideração. Para a ética utilitarista, a característica que distingue os seres que tem interesses dos que não tem é a capacidade de sofrimento. Peter Singer

Obrigada! ALICE DE ALMEIDA FREIRE Promotora de Justiça do MP-GO alice.freire@mp.go.gov.br

BIBLIOGRAFIA TRENNEPOHL, Curt. Infrações contra o meio ambiente: multas, sanções e processo administrativo: comentários ao Decreto nº 6.514, de 22 de julho de 2008. 2. ed. Belo Horizonte: Fórum, 2009; MILARÉ, Édis. Direito do ambiente: A Gestão Ambiental em foco: Doutrina, Jurisprudência, Glossário. 7. ed. São Paulo: Revista dos Tribunais, 2011; SIRVINSKAS, Luís Paulo. Manual de Direito Ambiental. 9. ed. São Paulo: Saraiva, 2011; FIORILLO, Celso Antonio Pacheco. Curso de Direito Ambiental Brasileiro. 11. ed. São Paulo: Saraiva. 2010; AGUIAR, Roberto Armando Ramos de Aguiar. Direito do meio ambiente e participação popular. 3. ed. Brasília: IBAMA, 2002; CHAVES, Cristiano; ALVES, Leonardo Barreto Moreira; ROSENVALD, Nelson. Temas Atuais do Ministério Público: A Atuação do Parquet nos 20 anos da Constituição Federal. Rio de Janeiro: Lumen Juris, 2008; LECEY, Eladio; CAPPELLI, Sílvia (Coord). Revista de Direito ambiental. 12 nº 48 - Out-Dez, 2007; LEVAI, Laerte Fernando. Direito dos Animais.2. ed. São Paulo: Mantiqueira, 2004.