DO CÉU À TERRA É UM SALTO



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DO CÉU À TERRA É UM SALTO O mito de Dédalo e de Ícaro na poesia Portuguesa contemporânea José Ribeiro Ferreira Universidade de Coimbra O mito de Dédalo e Ícaro em José Augusto Seabra (1937-2004), um poeta que aprecia e compreende bem a Grécia, onde passava regularmente férias. Várias das suas obras publicadas o revelam 1 : Tempo táctil (p. 118), glosa o epíteto homérico da Aurora, «dedos róseos»; Desmemória contém um poema ao rio do esquecimento, Letes (p. 21), e uma possível alusão à teia de Penélope (p. 32); Fragmentos do Delírio fazem referência a Édipo (p. 55) e a Orfeu (p. 61). Mas é sobretudo em Gramática grega (1985) um título bem elucidativo e A Luz de Creta (2000). E especifico em especial estas duas colectâneas poéticas por ser nelas que as duas figuras míticas que nos ocupam. Na última obra referida, logo na introdução que apelida Da ilha (pp. 19-23), confessa o seu fascínio pela ilha de Creta que ao longo dos tempos foi povoando de figuras e fantasmas, como «o Rei Minos, confidente de Zeus e talassocrata poderoso» que «mandara construir o célebre labirinto, para aí encerrar o Minotauro», o «Touro emergindo das vagas enlaçado com Pasífae», «Teseu e Ariadne no rasto do fio mágico»; refere que o mito o fascinara e perturbara, «passando a acompanhar-me nos meus sonhos e nas minhas vigílias»; e revela que se revia na figura de Teseu ou de Ícaro ou seja, «no papel de herói cívico e libertador, quando não no de um Ícaro temerário, deixando derreter ao sol as asas de cera, na ânsia de uma transcendência do fatídico Dédalo paterno» (pp. 19 e 20). E foi o desejo de seguir o «rasto de Teseu e Ariadna» 1 - As citações são feitas pelas edições seguintes: Tempo táctil (Portugália, 1972), Desmemória (Porto, Brasília Editora, 1977), Gramática grega (Porto, Nova Renascença, 1985), Fragmentos do delírio (Signo, 1990); A Luz de Creta. Diário poético (Lisboa, Cosmos, 2000). 1

refere a concluir a introdução (p. 23) «ou correndo o risco de Ícaro, ao rasar com as asas a luz solar» que o levou a marcar férias e a embarcar no avião com destino a Creta. Observa António Ramos Rosa que a poesia de José Augusto Seabra é «a formulação de um instante minucioso, subtil, frágil e fugidio, sempre ameaçado pelo tempo, pelo vazio, pela ausência, pelo nada», e que o espaço dessa poesia é «o do corpo ferido limitado cerradamente pelo nada» 2. E o livro Gramática grega apresenta um bom exemplo destas características. Constituído por três partes, vive da emoção que a Hélade motiva, sobretudo a Grécia clássica nas suas manifestações culturais. Na primeira dessas partes dominam os sítios arqueológicos, em especial Atenas e Delfos, com todo o seu peso cultural e histórico; essas ruínas surgem como sinais de um alfabeto que, apreendido e interpretado por uma alma sensível, se vai revelando em novos sentidos e modelações. Mas nunca se atinge o âmago do signo; o sentido continua inapreensível. Tudo ia deslizando para o nada, enquanto as cigarras nas espaldas da Acrópole (p. 16)...repetiam as sílabas roídas por séculos de nada. Constituem o fulcro da terceira parte do livro o mar, com o seu azul profundo o único que permanece, no meio de tanta ruína, e de onde nasce a beleza e a deusa da sedução, Afrodite, a água, o sol e a luz. Tanto mar e a água tão escassa, a ponto de serem sentidos um e outra como uma dádivas da divindade (p. 51): Azular o silêncio da luz, ó rumorosa sombra de água e de sol, acordando radiosa num perfume de incenso, num espasmo de rosa. Interessa mais para o nosso objectivo a segunda parte de Gramática Grega, formada por uma série de dezasseis sonetos em verso curto de quatro sílabas, que têm 2 - respectivamente, Parede azul. Estudos sobre poesia e artes plásticas (Lisboa, Caminho, 1991), p. 71 e Incisões oblíquas. Estudos sobre poesia portuguesa contemporânea (Lisboa, Caminho, 1987), p. 101. 2

por tema figuras míticas, crenças e a cultura da Grécia antiga: Ulisses, figura a que significativamente é dedicado um soneto a abrir e outro a encerrar a secção (pp. 31 e 46), como já mostrei em outro trabalho 3 ; Apolo e sua instalação em Delfos (p. 32); a cosmogonia órfica (p. 33) e a ida de Orfeu ao Hades em busca de Eurídice (p. 34); Hermes, o mensageiro dos deuses (p. 35); o silêncio da noite em Delfos, onde não há omphalos nem o cantar das cigarras (p. 42); Haraclito «com voz de fogo/ pensando logos» (p. 43); a Europa que rouba a Cronos «um Zeus mortal» (p. 44); a Hélade em geral, «pátria terrestre/ Grécia divina» (p. 45). Nesta secção, o tema do Labirinto e do Minotauro tem grande relevo: casamento de Minos com Pasífae, o nascimento do Minotauro e o labirinto (p. 36); a ousadia imprudente de Ícaro (p. 37); a morte do Minotauro por Teseu com a ajuda de Ariadne, depois abandonada na ilha de Naxos, onde Dioniso a encontra e a desposa (pp. 38, 39 e 40); o suicídio de Egeu que se lança ao mar por desespero (p. 41). São seis sonetos que ocupam um lugar central, precedidos e seguidos de cinco outros. Assim, naturalmente não por mera casualidade, aparecem como o coração desta segunda parte do livro. Por inerência, é evidente, também as figuras de Dédalo, como construtor do Labirinto (p. 36 ) e de Ícaro, na sua ousadia (p. 37), são parte importante nesses sonetos, logo a abrir a sequência de seis. São esses dois poemas que vamos analisar com mais pormenor. Em todos eles se sente a presença do nada, da impossibilidade de se atingir o sentido pleno das coisas, do silêncio. Minos é o rei sem fé e do desastre, «rei da má arte» que se entrega nas mãos de Dédalo e vinga no monstro a falta da mulher, a verdadeira ré afinal um monstro que está em nós, dentro de cada um (p. 36): Por que esposaste Pasiphaé, ó rei sem fé, Rei do desastre? Por que esperaste longa a maré, sonhando até do Touro a haste? Por que vingaste 3 - «O tema de Ulisses em cinco poetas portugueses contemporâneos», Máthesis 5 (1996), pp. 3

no monstro a ré da tua casta e te entregaste nas mãos de Dédalo, Rei da má arte? O soneto implica um bom conhecimento do mito: o casamento de Minos com Pasífae, o touro branco enviado por Poséidon que o rei não sacrificou ao deus e preferiu manter vivo, dando azo aos amores monstruosos da esposa por esse magnífico animal (ou seja, esperou «longa a maré/ sonhando até/ do Touro a haste») 4, o nascimento do Minotauro que o rei encerra no labirinto, vingando «no monstro a ré» da sua casta, em vez de castigar a rainha; a confiança imprudente de Minos que, «Rei da má arte», se entrega «nas mãos de Dédalo» exímio inventor que constrói uma imagem bovina em madeira na qual a rainha se introduz, exímio arquitecto que concebe o labirinto para encerrar o monstro e que ensina a Ariadne o modo de Teseu se salvar desse lugar. O mesmo conhecimento do mito demonstra o soneto seguinte, relativo à acção ousada de Ícaro, filho de Dédalo. Os dois, pai e filho, estavam impedidos por Minos de deixar o palácio de Creta como castigo por ter ajudado Teseu ou, segundo outra versão, por ter engendrado a imagem que permitiu as relações de Pasífae com o touro de Poséidon. José Augusto Seabra parece basear-se nesta última, já que o soneto em causa segue de imediato o nascimento do Minotauro e precede os dois que aludem à morte do monstro e à ajuda de Ariadne. Dédalo e o filho conseguem fugir, munindo-se de asas, feitas de penas unidas com cera. O jovem, entusiasmado, não tem em conta o conselho do pai de se não aproximar demasiado do sol, pois recusa o «rasar cerce/ de asas» ou, para usar a expressão de Miguel Torga em poemas já analisados, o rés-do-chão da vida e o voo excede o voo, ó Ícaro, filho de Dédalo mas não do mesmo 4 - Embora outra versão do mito refira que o deus se vingou enfurecendo o touro, a ponto de mais tarde Héracles o ter de matar num dos seus doze famosos trabalhos. 4

raso destino. E Ícaro ultrapassa, por ousadia, «o raso destino», anseia pelo azul, aproxima-se do sol e o fogo que o incendeia «derrete a cera/ de cada asa/ fundindo a Ideia» (p. 37): Que rasar cerce de asas declinas, se o sol declina e o voo excede o voo, ó Ícaro, filho de Dédalo mas não do mesmo raso destino? Um pouco menos de azul e a brasa que te incendeia derrete a cera de cada asa fundindo a Ideia. Herói da hybris, Ícaro simboliza o esforço inglório de se libertar do peso das peias que o ligam à terra, o esforço do espírito para deixar o «raso destino». Nesse esforço em busca de mais luz e mais azul, derrete a cera de cada asa fundindo a Ideia. E assim Ícaro, no seu deslumbramento, aproxima-se demasiado e funde a Ideia. E de Ideia falam outros sonetos desta segunda parte de Gramática Grega: por exemplo, o primeiro e o último que estudei em outro trabalho, os dois referidos a Ulisses, referem que em Ítaca «as águas/ tecem a Ideia» (p. 31) e que Ulisses aporta «ao cais do mito», no qual «o infinito/ se tece, enquanto» «em nada a deia/ destece o manto/ da pura Ideia» 5

(p. 46) 5. Precisamente o que não conseguem atingir Teseu e Ariadne, no soneto da p. 38, e por isso erram ainda, não pelo mar, como no mito, mas «de signo em signo». Os dois sonetos que tratam de Dédalo e Ícaro e aqui nos ocupam integram-se, como vimos, num conjunto de seis que abordam o mito do Labirinto e do Minotauro, e todos eles, significativamente, partindo de diversos elementos do mito, concluem de forma negativa: é Minos, «Rei da má arte», que se entrega «nas mãos de Dédalo» (p. 36); Ícaro que derrete a cera das asas «fundindo a Ideia» (p. 37); Teseu que ainda erra «com Ariadna/ de signo em signo» (p. 38); a princesa apaixonada que não consegue vencer «o amante lesto» das suas penas (p. 39); Cronos que destrona a «triste filha/ do Rei maldito» (p. 40); é o mergulho de Egeu que tem «alvo nulo» e é «salto puro/ de prumo em prumo» (p. 41). Por outro lado, todos eles, com excepção do que se refere a Ícaro (p. 37), terminam em interrogação, transmitindo a ideia de impossibilidade de obtenção de certezas, de conseguir saídas, de se atingir o verdadeiro sentido das coisas ou dos mitos que da Grécia herdámos. A própria disposição formal do poema na página, na primeira e terceira partes de Gramática Grega começo de modo geral por versos mais longos que se reduzem sucessivamente até versos de uma curta palavra apenas, sublinha essa tendência ou noção de aniquilamento, perda de sentido, nada. Cito, como exemplo, um poema que nos fala do «fulgor dos sons» que da Grécia nos chegou, mas de que só nos restam «as cinzas do sentido», sobre as quais se estende o silêncio (p. 63): Entenda-se: o fulgor dos sons, as cinzas do sentido. Entenda-se: o silêncio ferido. As figuras de Dédalo e Ícaro não têm menor relevo em A Luz de Creta, como seria natural numa pessoa que anualmente passava férias em Creta, que desde a adolescência sente fascínio por Minos, por Teseu e Ariadne, como vimos, e que desses dias de férias resolve escrever um Diário Poético que plasmou em A Luz de Creta e respeita a seis anos, embora não contínuos 6. Pelo que se acaba de dizer, é natural que as referência ao mito do Labirinto e do Minotauro sejam constantes, e não é estranho também que não 5 - «O tema de Ulisses em cinco poetas portugueses contemporâneos», Máthesis 5 (1996), pp. 6 - Os anos 1986, 1988, 1989, 1991, 1994 e 1997. 6

sejam escassos os poemas e as anotações em que Dédalo e Ícaro têm entrada. Assim, logo no primeiro registo do ano de 1986 (7 de agosto), e primeiro registo do diário (p. 27) anota a sensação da viagem aérea para Creta, com a sua mulher, Norma, «de novo, Teseu e Ariadna», embora, sorrateira, se imiscua «a imagem de Ícaro, fulgurante, que me vara, num presságio» afinal não será esse o íntimo receio que sentem muitos, ao levantarem voo num avião? E a anotação termina com este poema que, de certeza, tem subjacente a figura do filho de Dédalo a despenhar-se: Destruía os destroços do destino: desde o ventre a destempo e em descaminho. Dois anos depois, em 20 de agosto de 1988, entre referências significativas a outras figuras (como Minos, Ariadna, Europa, Zeus), é a figura de Dédalo que marca presença, de novo como inventor e construtor do Labirinto (p. 67): A imagem de Minos, mal contida na mitologia, repetida nas glosas seculares, vela no seu trono vazio, à espera que outro Dédalo reconstrua o labirinto destroçado e deserto. A alusão a Dédalo como construtor do Labirinto é frequente em José Augusto Seabra, e assim mais uma vez volta a acontecer em 10 de agosto de 1994, mas agora especificada como a prisão por si construída para encerrar o Minotauro (p. 131): Teseu, o herói libertador ateniense, guiado pelo fio de Ariadna, matando o minotauro que Minos tinha encerrado na prisão construída por Dédalo, abriu o caminho à democracia grega. A última anotação de A Luz de Creta a fazer referência a Dédalo e a Ícaro data de 16 de agosto de 1997 (p. 158) e nela escreve que não pensa «nunca no Minotauro sem que a imagem de Jorge de Sena, lendo o seu poema célebre em Santa Barbara, quase in articulo mortis, me interpele, nesta Creta mítica a que também sacrificou». Aludia ao poema Em Creta, com o Minotauro que o autor de Exorcismos publicara em 7

Paragrinatio ad Loca Infecta (1969) 7 e lera em testemunho autobiográfico, realizado em Santa Bárbara, onde vivia, pouco antes de morrer leitura que José Augusto Seabra escutara em vídeo em visita que fizera a Mécia de Sena (1979), como aliás especifica no texto introdutório Da ilha (p. 20). A anotação é significativa, porque o poema não só refere a fuga de Dédalo e de novo afirma que Ícaro funde «as asas rente ao céu», mas também porque se trata, de certo modo, de homenagem a Jorge de Sena. Transcrevo o poema: Falavas com o Touro de Minos, em que língua tão escassa de glossa que a sintaxe era à míngua de versos e de prosa? Só mugidos, mugidos dos cornos ao Egeu a ecoar no labirinto. Não chegava Teseu nem Ariadna já vinha com seu lento novelo de sangue. Bem sabias que se escapara Dédalo e Ícaro fundira as asas rente ao céu. Sem pátria e sem exílio, que saída, meu velho? Mugir, mugir ainda e tomar um café só com o Touro, em Creta. E assim em José Augusto Seabra Dédalo aparece por sistema como o construtor do Labirinto e artista inventivo, mas quase sempre associado a consequências negativas. Ícaro, por seu lado, é o jovem ousado que cai do céu onde subiu e voa ou com o pensador cuja mente na sua criação atinge a ideia, funde-a. 7 - Jorge de Sena, Poesia III (Lisboa, Moraes, 1978), pp. 76-78. 8