SÃO PAULO E A SUA GUERRA DE SECCESSÃO



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Transcrição:

SÃO PAULO E A SUA GUERRA DE SECCESSÃO PEDBO LESSA. Outro grande mal brasileiro é a politiquice ou politicagem. Desde que a maioria dos políticos se compõe de exploradores da carreira politica, sem preparo, sem predicados pessoaes, e sem disposições para o trabalho esforçado, que lhes garantam em qualquer profissão honesta os meios de subsistência ou (o que é muito frequente) a posição social que a politica lhes dft, nada mais natural do que a sua exclusiva preoccupação com os assumptos e negócios politicos de interesse meramente individual. A CAUSA IMMEDIATA As proporções que, logo de começo, apresentou o movimento armado pelos politicos de São Paulo contra o Governo Provisório, indicam uma obra longamente premeditada, visando fins mais definitivos do que uma simples reclamação contra o retardamento da constitucionalisação do Paiz. O profissionalismo dos politicos paulistas, agindo reaccionariamente contra o governo qu pôz um termo definitivo á sua preponderância na vida nacional, trabalhou, calculadamente, aos poucos, obstan do o desenvolvimento da progressista acção revoluciona-

128 Almachio Diniz SÃO PAULO E ria, coroada de um primeiro êxito, não só na administração geral do Estado, como também nas diversas administrações das vinte unidades, que compõem a Republica Federativa. As pequenas phrases attribuidas aos seus intellectuaes, as opposições systematicas aos actos governamentaes, a repulsa intransigente aos representantes do governo da União, vinham demonstrando a granau conspiração contra a obra revolucionaria, explodida em 9 de Julho de 1932. O reaceionarismo das depostas loiças politicas, com o prestigio malíasejo de um veneno corrosivo, veiu aos poucos ganhando impetuosidade. Começou com a fácil allegação de que São Paulo ficava amesquinhado, entregando-se, aliás como todos os Estados da federação, a governos estranhos aos (extremados partidarismos locaes. Mas, quase todos os Estados, tinham interventores alheios ás velhas competições do lugar. Não valia a regra geral, porque os reaccionários paulistas não se conformavam com a perda do poder, e, vigilantes, abusando da tolerância com que foram tratados, vieram aos poucos alastrando o seu ódio, pela contaminação de um preconceito bairrista, que, não sendo de agora, a vingar, seria a annullação da integridade nacional do Brasil, indispondo elementos resabiados contra o Governo da Republica. Ardilosamente, a reacção da velha politica mascarou-se com a rejeição dos mandatários do poder, quando, no intimo, era a explosão do ódio contra a Revolução de 1930. Davam-se todos os recursos, para que, conservando as suas tradições de hegemonia na vida republicana, São Paulo entrasse com os seus irmãos do Norte e do Sul, na prosperidade social,

A SUA GUERRA DE SECCESSÃO 129 que a Revolução lhes outorgou, pela egualdade das atten coes e equivalência dos favores. Os antigos dominadores viam nessa eguai repartição, o seu afastamento peremptório das posições, com que individualmente se engrandeceram, e socialmente destacaram o seu Estado, deixando os demais em humilhante inferioridade do apoio geral da União. O que se tramava não era em lavor do grande Estado, mas era contra a Revolução, a que, victima dos seus despeitos de depostos, atacavam sorrateiramente, como enxames ferroadores, assanhados pela fome d» mando perdido. A todos os nomes apresentados para a interventoria no Estado, criavam-se obstáculos. E quando um delles medrava, porque a obra da insânia politica, nào tinha razões de primeira mão para recusai-, as lufadas do ódio percuciente começavam de soprar, instigando astuciosamente indisposições sem bases, até que se fortaleciam as manhas da politicagem com os fermentos do velho ódio, e o meio artificiosamente repellia os elementos de ordem e de progresso, com que se mimoseavam São Paulo. O reaceionarismo foi trazendo, assim, a conjuração contra a Revolução de 1930, num pleito de duas «indignidades nacionaes ou a reconquista de domínio de todo o Brasil, como no passado, pelos mesmos elementos de arrumação, ou a separação do Estado, que passaria a mandar-se a si mesmo. A obra do movimento armado com que os politicos de São Paulo provocaram os sentimentos de solidariedade nacional de todo o Brasil, foi longamente premeditada pelo reaceionarismo dos seus politicos decahidos. E, a esta hora, já está desmoronada dentro de seu próprio impoderio.

130 Almachio Diniz SÃO PAULO E Teve esse movimento uma alavanca prestigiosa no verbo enganoso de JOÃO NEVES DA FONTOURA, que, ainda nas vésperas de declarar-se a guerra, penetrava, á meianoit e embora não no palácio do Governo, no Guanabara, mas, no rescesso do lar do presidente GETULIO VARGAS na intimidade do chefe da Dictadura, quando já tinha firmado o seu pacto com os paulistas para a declaração da guerra civil. O velho politico, como outros muitos, deputado e vice-presidente de seu Estado que foi, profissional da Republica deposta em 1930, extremara a campanha constitucionalista. Envenenara, porém, a sua acção, que seria proba com outras ligações, intromettendo-se com os elementos contrariados da Republica inaugurada com a Revolução, como também com os próprios elementos depostos. Os reaccionários de todos os Estados, exactamente os mais temerosos de que se procedessem a devassas no passado politico do Brasil e se perquirissem as origens de suas fortunas particulares, certos de que a Republica teria de confiscal-as, compuzeram a caravana de JOÃO NEVES. Engrossaram a caudal do constitucionalismo desfraldado ha perto de um anno, não com o fito de reconduzir o Paiz a um regimen de lei constitucional, mas com a objectiva de retiral-o das mãos dos que venceram na Revolução de 1930. Era que o reaceionarismo de BORGES DE MEDEIROS, no Rio Grande do Sul, de ARTHUR BERNARDES, em Minas Geraes, de EURICO DE Í SOUZA LEÃO, em Pernambuco, de MARCELLINO MACHADO, no Maranhão, bem como o interesseirismo de WENCESLAU BRAZ e THEODOMIRO SANTIAGO, em Minas Geraes, de BA PTISTA LUZARDO e de LINDOLPHO COLLOR, no Rio Grande

A SUA GUERRA DE SECCESSÃO 131 do Sul, de ADOLVHO BERGAMINI, no Districto Federal, e de outros que tiveram os seus falsos valores repellidos pela Republica de 1930, não tinham idéas, mas gasturas, não tinham cérebro, para pensar, mas mucosas, para apprehenderem... Não teve, por esta razão, idealistas a revolução de São Paulo, proclamada com proporções de guerra civil. Só teve ideólogos e aproveitadores. Dahi o seu primeiro fracasso, logo de entrada, no terreno das ideas, todos comprehendendo, logo, que, embora conglomerados figurantes de todos os Estados, predominava a finalidade seccessionista do grande Estado de São Paulo sobre toda e qualquer ideologia de politicos de outro Estado. Sem sinceridade de ideal, o que, na pratica, equivale a uma falta de programma, o movimento teve 1<>^<> a feição criminosa de uma sedição, e, assim, moralmente fracassou, pelo seu caracter de franco reaceionarismo. Mas, a agitação revolucionaria revestiu-se de um caracter victorioso, com a primeira investida das forças minadas por São 1'aulo. Km horas, essas forças adredemente preparadas, ultrapassaram os limites de São Paulo, invadindo os Estados, adormecidos tia confiança do êxito da Revolução de 1930, de Minas Geraes e d" Bio de Janeiro. O ímpeto foi tal que seria d: 1 crer-se em unia victoria completa, dentro de dias. Entretanto, por falta de cominando para a offensiva, (pie é a força dos triumphos nas guerras, também fracassou logo militarmente a guerra civil. Tudo ficou reduzido, ou simplificado, a operações de investida, por parte das forças do Governo e de recuo, por parte das de São Paulo, que só contou com o apoio immediato de parte de Matto

132 Almachio Diniz SÃO PAULO E Grosso, conservando-se fieis á Dictadura as autorid estaduaes, chefiadas pelo interventor federal. Das forças paulistas estavam alheiados os elementos que provinham da Revolução de 1930. Noticiava-se a prisão do general MIGUEL COSTA, verdadeiro amigo de São Paulo, a cuja causa politica dedicou todas as suas liberdades e a sua vida. Houve companheiros seus que tiveram de, com riscos e disfarces, abandonar o seu Estado (1), e dentro des te, as prisões encheram-se de revolucionários de 1930 (2). E os reaccionários eram generaes da contrarevolução, perdida já a funcção separatista do movimento. O reaceionarismo esteve em plena acção de commando, conhecendo-se desenvolvimentos feitos pelos seus vultos de maior destaque. Assim, com a noticia divulgada da chegada do Batalhão d'oeste á capital paulista (3), a I o de Agosto, revelando a tendência separatista do movimento belicoso a que levaram o grande Estado, contra a União, os politicos reaccionários, pela exhibição da bandeira de São Paulo, á testa da tropa, com exclusão absoluta da bandeira nacional, veiu uma outra revelação não menos importante: foi a de que ALTINO ARANTES, velho politico reaccionário, foi quem, como improvisado general, sem botas e sem esporas, passou revista ao garboso batalhão da mocidade paulistaua. Argumentar-se que a revolução de São Paulo não estava sendo dirigida pelos politicos reaccionários, com o fito de deixar-se sobresahir um falso caracter constitucionalista, que se lhe queria emprestar, e apresentar-se como um general, para a revista de (1) Entre estes MAURÍCIO GOULART. (2> Depoimento de WALTER PQMFÍTO a imprensa do Rio. (3) Diário de São Paulo, de 3 de Agosto de 1932.

A SUA GUERRA DE SECCESSÃO 133 tropas novas, um politico decahido, daquelles de quem São Paulo menos saudades terá, foi incidir em verdadeira contradição. O politico ALTINO ARANTES foi elemento sempre de grande evidencia no Partido Republicano Paulista, virus politico que levou o paiz intoxicado ao desabafo revolucionário de Outubro de 1930. Como presidente do Estado não desmentiu as credenciaes de reaceionarismo de seu partido. Transmittiu, por herança, ao substituto, que aquelle partido escolheu, a presidência da Republica. Não é, pois, persona grata para uma libertação de São Paulo. Ao contrario, aos bons paulistas, aos paulistas patrióticos, seu generalato, para a revista de tropas frescas, deve ter irritado como uma nefasta sobrevivência do perrepismo. Outra significação que o facto da presença do ex-presidente de São Paulo indicou, á comprehensão de todo o mundo, foi o consorcio estabelecido, si não o detestável conubio, para grandes males, entre o separatismo e o perrepismo, que é a exponencia real do reaceionarismo paulista. Não ha como se poderem distinguir os três flagellos de São Paulo: o perrepismo, que foi o profissionalismo politico em sua quintessência ; o reaceionarismo, que é a contrarevolução, para derrocar a obra patriótica de Outubro de 1930; e o separatismo, que é a única possibilidade de, entregando-se São Paulo a sua própria sorte, recuperar o P.R.P. seu terroristico domínio. O comparecimento de ALTINO ARANTES, para receber, como general, o Batalhão d'oe8te, iudica a collaboração predominante do perrepisnio no separatismo. Os homens mascaram-se, aparentam patriotismos novos. Mas a soberba da ambição não os deixa

134 Almachio Diniz SÃO PAULO E bem escondidos. O acaso é o grande avisador dos fact sociaes, que não são susceptíveis de previsão. Assim foi que o acaso da chegada de um jornal paulista, com a noticia da entrada ali do Batalhão ã'oestc, composto com a fina flor das cidades de Batataes, Cajurtí, Ituve rava, Ribeirão Preto e Bebedouro, desvendou, claramente, a interferência generalesca de ALTINO ARANTES no estado maior das forças reaccionárias de São Paulo. O acaso é um curso de força. Suas revelações destemperam os homens em suas manobras occultas. Quando pensou o politico ALTINO ARANTES, que, antes de encerrada a revolução em que se tem tornado, como reaccionário, uma magna pars, viesse a ser conhecida, fora da capital paulista, além dos limites de seu Estado, sua acção de general revolucionário? Todos os impulsos do acaso são lições sociológicas: não os contemplemos, pois, desprevenidamente, Ao lado do separatismo, que exconjurou a bandeira nacional, desvendou-se o reaceionarismo, que graduou AL TINO ARANTES no posto de general, para passar revista ás tropas contrarevolucionarias. A este tempo, emquanto os politicos forçavam a violência armada do movimento eminentemente revolucionário, os seus dois generaes maiores BERTHOLDO KLINGER e IsinoRo DIAS LOPES assumiam desconcertantes attitudes. A I o de Agosto já elles sentiam o fragoroso desastre da guerra civil, pelos recuos constantes das suas forças, sem nenhuma reconquista ou conquista nova. E, relembrando a conspiração da paz (1) em que se envolveram, (1) Lê-se em A Batalha, de Rio, 24 de Outubro de 1932, sob o titulo de * Uma restricção a victoria dos verdadeiros ideaes re

A SUA GUERRA DE SECCESSÃO 135 com o então coronel BERTHOLDO KLINOEK os generaes que, assim, em 1930, trahiram o presidente WASHINGTON Lrnz, e afamaram a farça de 24 de Outubro, nas ruas desta capital, resolvendo-se em uma junta governativa, composta cos generaes TASSO FRAGOSO e MENNA BARRETTO, e almirante ISAÍAS OE NORONHA, O governo de transição para a Dictadura ainda victoriosa em 1932, recorreram a uma reprise da enscenação burlesca, com os seguintes telegrammas, que se têm divulgado já agora, para instru eçâo do historiador futuro: "Sr. GETULIO VAEOAS Kio Os milhões de habitante* de Suo Paulo e Matto Grosso, sublevados em armas e em espirito, e os milhões de habitantes de todas as outras regiões de todo o Brasil, não menos sublevados em espíritos contra a dictadura, qne nominalmente presidis, dão» VOBS8 iinpatriotica e immoral permanência apparente á testa do governo do paiz o cunho duma Impa trio tica e Immoral usurpação, duma absoluta usurpação ao suffragio nacional. Mn bilisae as ultimas reservas de vosso patriotismo de brasileiro, de vosso pundonor de creatura humana e cumpri o único dever que nesta hora a Pátria espera de vos: rompei o dominós Como se manifesta numa palestra vigorosa o (ir. Almachio Diniz:" "O professor Almachio Diniz, combatente resoluto, foi um dos revolucionários impenitentes e ardorosos com a sua fé de officio cheia de serviços & causa triumphante em 24 de Outubro. Jurista de renome ido em todo o paiz; polemista brilhantíssimo, foi um dos elemento! mus destacados entre quantos, pela palavra e pela RCÇfi.0, collaboraram no movimento revolucionário. natural que ao Ulustre professor abordássemos, como o fizemos hontem, pedindo-lhe impressões sobre os factos da actualidade e sobre a data que se commemora bojo. O dr. Almachio Diniz, falando com franqueza, resumiu assim, em vigorosa palestra, a sua opinião: A data de boje n&o tem nenhuma significação histórica, ao meu sentir de antigo revolucionário, Tive na tarde daquelle dia 24 de Outubro de 193o, a sensação de desanimo, experimentada, em 1922, em 1924, e em 1926, quando os presidentes Epltacio Pessoa e Artluir Bernardes BUffocaram as primeiras sortidas do espirito revolucionário. que, na data, cujo primeiro anniversario hoje se commemora a

136 Almachio Diniz SAO PAULO E cerco em que vos prendem falsos amigos, meros aproveitadores pessoaes do prolongamento do flagello nacional que representa o vosso perdurar no poder, restitui esse poder aos chefes militares terra e mar de quem o recebestes, generaes TASSO FBAGOSO, MENNA BARRETO e ISAÍAS DE NORONHA, que o entregarão á suprema direcção do movimento constitucionalista, o qual responde aos universaes anseios do Brasil pe'a sua prompta volta ao regimen da Ordem e da Justiça (Assignados) General ISIDORO DIAS LOPES e general BEB- THOLDO KLINQEB." Nos termos desse despacho, foi também transmittido aos três membros da junta governativa de 24 de Outubro, este outro: "Generaes TASSO FRAGOSO, MENNA BARRETO e ISAÍAS NO RONHA Rio Urgente Em nome suprema direcção movimento constitucionalista, solicitamos vossencias recebam do Dr. GETULIO VARGAS o governo, conforme appello ao mesmo dirigido e do qual recebereis copia. São Paulo, 3-8-1932 General ISIDORO DIAS LOPES General BERTHOLDO KLINGER." Foram as primeiras manifestações do desespero da Revolução, patrioticamente inaugurada, a 3 de Outubro, pelos três Estados Parahyba, ao Norte, Minas, ao Centro e Rio Grande, ao Sul se desvirtuou de seus fins, abafada que foi, sem ser victoriosa, pela conspiração da Paz, empreendida pelos que não quizeram enfrentar a acção guerreira dos revolucionários. O facto de fazer-se acabar pela bandeira branca de uma pacificação, sem se definirem vencidos e vencedores, foi de grande importância para o rumo que a reorganização politica do nosso paiz teve de seguir. Si os revolucionários aqui tivessem tomado pelas armas com o tirocínio sangrento que vinham trazendo gloriosamente, as posições da victoria, outro êxito teria tido o movimento. Mas aos que vinham lutando do Rio Grande, de Minas e da Parahyba, foi imposta de longe dos campos da luta uma paz, que não foi assim conquistada pela derrota do adversário, mas, apenas, pela intervenção, para evitar o sangue neceessario, de militares que teriam de sacrificar-se contra a Revolução. E esta fracassou portanto, porque não havendo nem vencedores neem

A SUA GUERRA DE SECCESSÃO 137 causa. As:dm reconheciam os dois generaes o fracasso militar da guerra civil, appellando, em conjuncto, para uma nova intervenção traiçoeira da "conspiração da paz", de que BERTHOLDO KLINGER foi um dos protagonistas. Mas, já faltavam os outros generaes da proclamação de 24 de Outubro: FIRMINO BORBA, preso, quando seduzia os seus camaradas, em Juiz de Fora, contra o governo, que, nas vésperas lhe entregara um commando de confiança, e, por isto, também, reformado administrativamente; PANTALEÃO TELLES, preso e reformado administrativamente, deante de provas esmagadoras de seu entendimento com KLINGER para a guerra civil de São Paulo, e LEITE DE CASTRO, impossibilitado, por seu caracter digno, de envolver-se contra o governo, ao qual servira intelligentemente como seu primeiro ministro da guerra. E, assim, ficou o appello dos generaes KLINGER e ISIDORO voando eternamente nas ondas hertzeanas... Por sobre os escombros dos campos da lueta, proseguia, porém, z. obra reaccionária. E' que o reaceionarismo do P.it.P. foi um dos symptomas positivos do vencidos desde que um terceiro elemento, aproveitando-s,e do desarrolo dos factos favorável ao êxito das armas revolucionarias, Impôz a pacificação, serri que se tivesse dado uma decisão guerreira definitiva, ;> obra que se pretendeu teve de ceder aos embates das conveniências pacificadoras. 13. assim, em 24 de Outubro do anno passado, ao cair da tarde, jã eu tinha a impressão desoladora de annos anteriores: a Revolução, mais uma vez, estava abafada, sem que os seus Ideaes tivessem trlumphndo pelo embate das armas. Effectlvamente foi o que se verificou. Os generaes revolucionários tiveram de ceder a muitos compromissos forçados pela conspiração da Paz. De sorte que por força dessa conclusão inesperada, extingulndo-so a luta, não pela fumaça dos canhões e pelo silvo das balas mas polo ensarilhamento das armas e congraçamento dos antagonistas, figuras, para as quaes estiveram, muito.1tistr\mente, afiados ns cutelos revolucionários se conservaram em postos avançados, si não conquistaram novos, na verdade, como premio as suas acções de deslealdade para com o governo a que, contra os combatentes pelos ideaes revolucionários juraram em começo de Outubro, fideli-

138 Almachio Diniz SÃO PAULO E movimento armado de 9 de Julho de 1932. O celebre partido que dominou o Brasil, pondo á testa de seu governo, si não sempre paulistas, no maior numero de casos pessoas que serviam a São Paulo, com desinteresse por todo o resto da Nação, não quiz admittir sua deposição das eminências politicas de nossa pátria. E muito menos admittiu a reprovação categórica que lhe decretou a Revolução de 1930. Descobrindo seus intentos reaccionários, elle confessou, audaciosamente, as saudades que ficou tendo inextinguíveis do governo, quando, em janeiro de 1932, assanhando-se com a tolerância governamental, deitou manifesto, em preparo da agitação armada em que o Estado de São Paulo esteve debatendo-se. Suas palavras iniciaes caracterizam perfeitamente bem as convicções de que, no regimen de saneamento moral instituído pela victoria da Revolução, a degradada potencia partidária, que toldou a existência constitucional da Repu blica até á dictadura deposta em 24 de Outubro de 1930, poderia sobreviver. Era uma falsa suspeita de que não valeria a excommunhâo nacional a que foi votado. Assim, dade e para com os revolucionários, a que vieram suffragar quando tiveram certeza da victoria forçando a paz. Não me envolvo, pois, nas commemorações do dia de hoje. Muito justas foram as de 3 de Outubro celebrando-se o começo de uma grande revolução, que, se infelizmente, teve, a 24 de Outubro, os seus ideaes envoltos na mortalha branca da paz, envés de sobrepujados ás bandeiras rubras da guerra. E a peor consequência de tudo isto, ahi está: o governo revolucionário controlado pelos inimigos da Revolução, os quaes á ultima hora, estorvando a victoria das armas revolucionarias, criaram-se direitos para substituírem a sua voz de fogo que deram contra as forças libertadoras, pela de commando, que usurparam aos verrt arteiros generaes da Revolução. A esta hora, de jubilo fingido eu lhe transmuto, meu caro amigo, correspondendo á sua fidalga attenção de ouvir-me a respeito, a minha impressão de revolucionário radical: o dia de hoje deve ser de concentrações tristes, para os que vinham querendo. trabalhados por grandes Ideaes, um paiz renovado por uma Revolução victoriosa pelaa armas e não rendida pela conspiração da Paz.

A SUA GUERRA DE SECCESSÃO 139 turbilhando audácias e restnigindo empaphias, foi nest lermos, que começou o Manifesto do Partido Republicano de São Paulo, datado de 19 de Janeiro de l!jo_': "O movimento revolucionário de Outubro, destruindo, no paiz, o regimen constituído, interrompeu a actividade politica de todos os partidos, que se conservaram extranhos com o ensejo a seu pronunciamento. Mas não os dissolveu. Não poderia fazel-o. Pode a força julgar-se, ás vezes, omnipotente; pôde ainda, em suas demasias, arrebatar aos homens todos os direitos e até a vida. Mas não consegue desunir as consciências, que a mesma fé patriótica irmanou, nem logra dispersar aquelles que, iullainmados por ideaes de pura abnegação e lidimo civismo, nobre mente se aggregaram para o trabalho coninium em beneficio da Pátria". Foi com essas palavras iniciaes, que, de sua excommunhâo nacional, o P.R.P. ousou falar, pela primeira vez, em manifesto dirigido ao indignado povo de sua terra. E' de salientar o arrojo com que os politicos excommuugados investiam para retomar sua presa, retirada de suas garras aduncas no momento de eatertoração geral. Elles mencionaram ali que o movimento revolucionário de Outubro destruiu, no paiz, o regimen constituído. E' uma propositada obliteração da verdade. O regimen constituído foi aquelle que levou o paiz á revolução armada, obtendo rapidamente uma estrondosa victoria, contra a qual se revolucionam agora os desprestigiados profissionaes da politica paulistana..mas esse regimen, que, audaciosamente, foi reputado constituído pelo P.R.P., incontinente na sua vesgueira, ficou estigmatizado pelas palavras de fogo dos chefes re-

140 Almachio Diniz SÃO PAULO E volucionarios de 1930. Foram do general TASSO FRAGOSO, passando o governo da Revolução ao presidente OETULIO VARGAS, as seguintes affirmativas: "Durante o governo do L>r. WASHINGTON LUIZ, a violação dos princípios íundamentaes do regimen republicano e os attentados contra a liberdade, subiram ao auge. Vimos com magua sua intervenção desabusada em todos os assumptos, a imposição de sua vontade exclusiva como suprema iei do paiz, a lei a que todos deviam submetter-se incondicionalmente, e, o que é mais contristador, mnumeros políticos que se prestavam obedientes a essa escravidão moral, de que resultava a ruiua da JNaçáo e seu progressivo descrédito". -Não fez o chefe da junta governativa de 1930 uma descripçáo somente do regimen anarchicó em que se debatia o paiz sob o guante do P.R.P. Mas uma photographia rigorosa do momento decadente da Republica de 1«69. Pois é a esse regimen de anarchia, de despotismo, de absolutismo, que o P.R.P., em seu manifesto de 19 de Janeiro, já em preparo da irrupção bellica posterior, chamava de regimen constituído. Pois é a essa acção fora da lei e da liberdade que elle attribuiu uma origem em inflammados ideaes de pura abnegação e lídimo civismo, nobremente se aggregando para o trabalho commuin em beneficio da pátria. A revivescência que o P.R.P. se attribuiu foi puramente reaccionária emprehendendo uma contrarevolução para separar São Paulo da collectividade nacional. De impatriotica, como reaccionária, a obra de resurreição do P.R.P. se tornou em sanguinária, como contrarevolução. A ella, pois, a re-

A SUA GUERRA DE SECCESSÃO 141 provação pelas armas, que todo o Brasil lhe foi ministrando victoriosamente. Como sempre aconteceu em suas grandes empreitadas politicas do regimen passado, os reaccionários paulistas não pesaram suas responsabilidades, lançando o operoso e progressista Estado de São Paulo nesta dolorosa aventura de seccessionismo e de contrarevolução. A vida humana jamais foi objecto de cogitação para os desmontados dominadores de São Paulo. Em qualquer pleito eleitoral, as arruaças eram de praxe, chegando, não raro, ás eliminações de vidas, nos collegios em que o partidarinmo do governo do Estado só poderia vencer pelo abuso da força e pelo império da fraude. Os representantes do Partido Democrático foram, não poucas vezes, chegando a uma exclusão completa no pleito de 1 de Março de 1930, prejudicados pelos processos fraudulentos e faceio sos do Partido Republicano Paulista. Entretanto, esquecidos aquelles das indignas preterições soffridas, não ha muito colligaram-se com seus adversários do passado, e formaram uma frente única, a cujo inexpressivo estandarte de união heterogénea, si não de frueto hybrido, pudessem conduzir o grandioso São Paulo, de formosa cultura iutellectual e de grandioso desenvolvimento económico, a essa aventura ingratíssima e ímpatriotica de restaurar o reaceionarismo decahido, embora com a separação do Estado, em desprestigio da união perpetua e indissolúvel formada desde os tempos monarchicos, pelas unidades federativas do Brasil de hoje, e pelas províncias unidas de hontem. Pouco interessou aos paulistas o sangue brasileiro que teria de correr com o desenvol-

142 Almachio Diniz SÃO PAULO E vimento da campanha guerreira em que se empenharam. Houve uma única determinante para o sangrento empre hendimento: a ambição de mando. jtfunca os reaccionários olharam os interesses económicos e sociaes de São Paulo, por outro prisma que não o de sua convergência para o êxito de um profissionalismo incondicional nas representações do Estado. Tornou-se invencível a insatisfação trazida pela ausência do poder. O iucontentamento solapou o animo inexperto das ciasses conservadoras. E vaiendo-se do mal, que elles próprios semearam durante quatro décadas de annos, si não se levarem em conta tempos outros da monarchia, intoxicaram a alma paulista para o desatino em que a nata de sua juventude, o escol de suas forças sociaes, e o melhor de suas energias se foram exgotando em morticínios, que deshonram a civilização brasileira pelo apagamento de suas causas... Os reaccionários paulistas, propelindo seus conterrâneos liara essa lueta sem glorias, não pesaram suas Responsabilidades. Lançaram mais uma cartada, com a mesma displicência com que, em outros tempos, mandavam typos arruaceiros e motineiros contumazes arrebatar urnas, em que vacilava ou não havia o prestigio de seus cabos eleitoraes. Pelas continuas noticias recebidas, a lição que a União Brasileira foi inflingindo á unidade, desgarrada pela orientação impatriotica de seus contrarevolucionarios, foi sempre coroando-se do mais completo êxito. De todo o paiz, de norte a sul, os olhos lacrimosos de pães, de filhos, de esposos, de irmãos, de noivas, estiveram voltados para os campos sangrentos de São Paulo, onde explodiam carniceiramente as granadas da ambição

A SUA GUERRA DE SECCESSÃO 143 reaccionária, onde caiam as bombas do seccessionismo cobiçoso de São Paulo, desencaminhado de sua gloriosa senda de progresso, e onde trabalharam as metralhas do profissionalismo politico, cioso da reconquista de posições, que o sanaemento moral do Brasil lhes retirou da occupação improfícua e prejudicial. De todo o paiz, de norte a sul, vozes unisonas não cessaram de clamar a maldição para a politicagem que nos seus últimos escabujos, ainda infelicitou São Paulo e ensanguentou o Brasil. Foi preciso que São Paulo recorresse a outros meios para continuar em sua funcção de illudir ao seu povo, sobre as suas condições de Iriuinpho. Da correspondência de JOÃO NEVKS OA FONTOURA, surprehendida, segundo informações officiaes, em Minas Geraes, deprehendeu-se que, conhecido o desastre da campanha militar, estava sendo preciso distrahir as attenções do Governo Provisório, para outros focos revolucionários que se criassem. Na immiuencia das quedas de Cruzeiro, de Tunnel e de Campinas, por um lado, e de Itapetininga, pelo sul, seria asphyxiante o momento guerreiro dos paulistas. Paia evitar as aperturas do estrangulamento, vieram os casos da Bahia, do Amazonas, do Pará o de Minas Geraes, referidos como os mais importantes entre outros de menor vulto. Considerável, ainda mais, era a escassez das munições, não obstante a providencia geral do Departamento Central de Munições (1), prohibindo, terminante- (1) Na Integra, como foi publicado, o edital foi este: "EDITAL Departamento Central de JfuniçSe» (Creado pelo decreto n. 5.G18, de > de Agosto de 1932). faço srlente a todos a rjucm possa interessar 'inr ficirn terminantemente piohibidas as vendas, transferenciai ou quaebquer outras transações de metaes, como sejam cobre, estanho, zinco, latão, nlckel,

144 Almachio Diniz SÃO PAULO E mente, as vendas, transferencias, ou quaesquer outras transacções, de metaes, como fossem, cobre, estanho, zinco, latão, nickel, mailchort, ou outra liga qualquer, sem a previa autorisação. A alimentação ia soffrendo desfalques sensíveis, com a diminuição de stock da farinha de trigo, pelo que se viram as autoridades do Estado na contingência de decretar o pão de guerra (1). Mas, as falsidades corriam em affirmativas de victorias e de acontecimentos de grande tomo, prejudiciaes á causa nacional, e isto dos primeiros aos últimos dias, durante os quaes a vida de São Paulo, por sequestrada da verdade da vida do Brasil, artificialisou-ae na convicção de mailchort ou outra liga qualquer, sem a previa autorização deste Departamento. Todas as pessoas ou firmas commerciaes ou industriaes que possuam taes artigos deverão enviar dentro de 24 horas, a partir da data de publicação deste edital, uma relação minuciosa e completa indicando a espécie, a quantidade assim como o local onde se encontram, ficando os infractores sujeitos ás penalidades militares previstas. Os interessados que, porventura, já tenham feito tal communicação á Federação das Industrias, deverão ractificar junto a este Departamento as informações já prestadas, indicando rigorosamente a situação actual dos referidos artigos. Todas as communicações deverão ser feitas para a rua Barão de Paranaplacaba, numero 1, 4.o andar. São Paulo, 4 de Agosto de 1932. Major Carlos Abreu, chefe do Material Bélico da 2.a Região Militar." (1) Houve providencias egualmente sobre o consumo da gazolina como so vê do edital abaixo: PREFEITURA DO MTJNCIPIO DE SAO PAULO INTEN DÊNCIA GERAL DOS MERCADOS AOS PROPRIETÁRIOS DE AUTOMÓVEIS. A Intendência Geral dos Mercados solicita dos proprietários de automóveis da Capital e do Interior do Estado, a máxima economia no consumo de gazolina, com o que se poderão evitar providencias de limitação nos fornecimentos. O estoque existente é sufficiente para o consumo normal de longo tempo; entretanto, tratando-se de combustível essencial para as organizações dos serviços militares, é dever patriótico a cooperação de cada um para afastar a hypothese de vir a faltar São Paulo, 14 de Julho de 1932. O intendente,' (a) José Vergueiro Stetdel, '

A SUA GUERRA DE SECCESSÃO 145 victorias fictícias. Era, entretanto, JOÃO NEVES quem se apavorava com o "prussianismo" do general BERTHOLOO KLINOKR e denunciava o seccessionismo paulista, motivado pelo seu descabido bairrismo. Como remediação, appellava para movimentos solidários de Minas Geraes e do Rio Grande do Sul contra os voos largos do bairrismo incontentado do paulistano em geral. Sob essa influencia do leadei- verboso da guerra civil, o furúnculo contaminou certas zouas do organismo e manifestou-se a furunculose: a loucura epidemica de São Paulo foi contagiosa e conseguiu pequenas repetições logo dominadas, conforme logo se foi sabendo. Em Santa Cathariua, a paz foi restabelecida de prompto, segundo um commnnicado official, de incontestada veracidade: "De Florianópolis,!i No dia fí. nn florescente villa Cruzeiro, onde ultimava a sua organização, afiiu de seguir para a frente de operações, o 3 o B.R., com o effecttvo de 330 homens, foi sublevado, pelo capitfio-commandante da 8" companhia, num golpe audacioso e traidor, combinado com reaccionários, entre os quaes Wonceslau Breves, Manoel Maia, José Rupp e Ivo Aquino. Presos: o prefeito João Fontoura, o commandante do batalhão, major António de Lara Ribas, e vários de seus officiaes. Manoel Maia, (ex-prefeito, condemuado pela Junta de Saneções a restituir aos cofres do Estado mais de cem contos por desvios, durante a sua gestão), assumiu a direcoiío do movimento. No mesmo diaíl noite, Ivo Aquino, ex-secretario do governo deposto, oceupa, a villa de Campos Novos, vizinha de Cruzeiro. O major Lara Ribas. contando com alguns officiaes fieis, entre os rebeldes, ejíi com a confiança de todas as praças, embora recrutas, poude, mesmo da prisfío, na parte superior do prédio que servia de Quartel General dos rebeldes, planejar um eontra-golpe. para 0 dia seguinte. Este, vibrado impetuosamente, libertou o com-

146 Almachio Diniz SÃO PAULO E mandante Lara, após tiroteio cerrado, assirn como os seus companheiros, reassumindo elle o commando do batalhão e prendendo Manoel Maia, Custodio Campos, capitão Aldo Fernandes e outros. Weneeslau Breves, com 10 homens, foi preso em Perdizes, pelas forças do commandante Eliziario Paim. Conseguiram fugir Ivo Aquino e José Rupp, que estão sendo perseguidos. Está, portanto, restabelecida a paz no Estado. As tropas governistas, em elevado numero já se haviam deslocado e hoje esmagariam os rebeldes. Cordiaes saudações. (a) P. Assis, interventor federal." Do que houve no Pará, o conhecimento foi tomado atravéz da seguinte nota, feita publicar pelo interventor MAGALHÃES BARATA: "AO POVO PARAENSE Todos vós, paraeuses ou não. que viveis comnosco, aqui, no Pará, sois testemunhas de que, tanto quanto pôde o esforço humano, venho fazendo sempre como indica a sincera vontade de acertar, para o engrandecimento desta querida terra. Sois também testemunhas de que meus rancorosos inimigos puzeram em pratica a maior das vilanias de que já se usou no Brasil, no terreno das luctas politico-sociaes-: armaram e sacudiram contra mim, contra o meu governo e meus auxiliares, a classe estudantina, desde a juventude do Gymnasio â mocidade académica, afim de que, na dolorosa, mas indeclinável contingência de manter a ordem, chamássemos para nós a odiosidade publica. Esses jovens, esses moços bravos mas inexperientes, constituiram a vanguarda dos amotinados da noite de 6 para 1 do corrente. Que fazer? Cruzar os braços diante do ataque? Que respondam os homens de bem, com toda a autoridade zelosa do seu brio! Os responsáveis pela morte de Paulo Cicero de Azevedo Teixeira e pelos ferimentos em outros estudantes, são aquelles que atiraram esses jovens á lueta que um único objectivo teve: malquistar o governo com o povo e com as dignas e respeitáveis familías paraenses.

A SUA GUERRA DE SECCKSSÃO 147 Sobre a consciência dos autores inter-estaduaes do malvado motim, caia o sangue dessas victimas. O governo foi provocado, foi aggredido e os meus auxiliares usaram do direito de defesa no cumprimento de um sagrado dever. De todo o meu coração de paraense e com toda a vehemencla do meu patriotismo, chamo á razão esses mfios patrícios, a quem cabe a autoria inlellectual do perverso motim. Kxhorto os pães a aconsellmrem seus 1'ilbos á repulsa de tão demoniosos inspiradores. Embora muito me custe, cumprirei, como sempre, o meu dever e, emquanto me restar atento de vida, lactarei pela defesa do posto que o (loverno Provisório me confiou, não recuando nem mesmo diante dessa táctica covarde, miserável e viliã de que estupidamente se serviram os meus adversários, sacrificando a flor da mocidade da nossa terra. Aos meus conterrâneos, aos meus patrícios, com um appello sincero, franco e leal, offereço a segurança da minha fraterna e desinteressada uniisade e a certeza de que preferiria morrer muitas vezes a me ver de leve humilhado, que* como homem, quer como governo. Major MAQALHÃKS BA- KATA, interventor federal." Não houve onde vingasse uma das sedições insinuadas por JOÃO NEVES DA FONTOURA. Assim em Santa Ca tharina e no Pará, como no Amazonas e no Rio Gran de e em Minas (ieraes. No extremo Norte, partindo da sublevação du guarnição do forte de Óbidos, o caso solucionou-se com um encontro de navios armados, uns pelos sediciosos e outros pelas autoridades da Dictadura, pela fornia de que deu noticia o seguinte despacho telegraphico Usignado pelo interventor do Amazonas: "MANAOis, 26 Connnunico á V. Exa. que, ás 19 horas do dia 24, em frente ao porto de Itacotiara, travou-se uie-

148 Almachio Diniz SÃO PAULO E moravel combate entre os vapores ".Taguaribe" e "Andyra", occupados por forças rebeldes de Óbidos, e vapores "Baependy" e "Ingá", occupados por forças do 2 B.C., sob o commando naval do capitão de fragata, Alberto Lemos Bastos. O combate durou 40 minutos de cerrado tiroteio, dispondo os rebeldes de 4 canhões Krupp, 75, e contingentes do 27 B.C. sob o commando do capitão Jonathas de Moraes Corrêa, assistente militar da Interventoria. Os navios rebeldes foram ambos postos a pique. Faltam pormenores sobre o numero de mortos e feridos rebeldes. As nossas forças illesas. Congratulo-me com V. Exa. pela victoria do governo, que restabelece a tranquillidade de espirito da população. Cordiaes saudações. WAXDEMAB PEDROSA, secretario geral do Estado, no exercido da Interventoria." A exposição das occurrencias, que se verificaram no Rio Grande do Sul, foi completa na nota que o Jornal da Noite, de Porto Alegre, sob a fiscalisação do governo, publicou: "Está frustrada a segunda tentativa de erguimento em, terras do Rio Grande do chamado "Exercito Constitucionalista". A primeira foi em Vaccaria, terminada por um accôrdo, ao qual, diga-se de passagem, faltaram os principaes cabeças, que continuaram a conspirar apezar de amnistiados, e acabaram por sair novamente a campo. A segunda nasceu em Tupaceretan, chefiada por Marcial Terra, pacifico xarqueador, que, da noite para o dia, surgiu armado em guerreiro reivindicador, sem saber talvez, elle próprio, porque cargas dagua. Durou esta segunda mais alguns dias do que a primeira, tendo a columna "constitucionalista" emprehendido uma excursão, a toque de caixa, na região missioneira, sempre perseguida por forças fieis ao governo, até que entregou, hontem, armas. Em quem ainda tivesse duvidas a respeito da inutilidade de quaesquer esforços galvanizadores da trágica aventura

A SUA GUERRA DE SECCESSÃO 149 paulista neste Estado, esta nova lição ha de calar profundamente. Está provado que os pruridos revolucionários da íallccida frente única não têm futuro no Rio Grande, cujo governo está apoiado pelas forças do Exercito Nacional, da Brigada Militar e das milícias civis, tendo á frente a figura de Flores da Cunha, vigilante, enérgico, incansável, para a manutenção da ordem e o resguardo do principio de autoridade. Effeetivamente, podem os riograndenses confiar no prestigio do governante que os dirige. O Rio Grande, activo, não tomará passagem nessa náu. Já na iinmineucia de irremediável naufrágio. Conservará intacto o património, cuja guarda lhe eoul>e, das conquistas de Outubro de 1030. De pé pelo Brasil. Como adendo, podemos ainda informar que os "valoro sos chefes" da marcha sobre Porto Alegre, Srs. LUZARDO. COLLOE, PILLA o OCTÁVIO FERNANDES caminharam em sentido contrario. Os Srs. COLLOR e FERNANDES já se encontram em território argentino; o Sr. PILLA foi desembocar em Buenos Aires, e o Sr. LUZABDO, ao que parece, tomou idêntico destino, desapparecendo além da fronteira. O Sr. BOROES DE MEDEIROS, que o boato apresentava de armas na mão, está enfermo, recolhido a uma fazenda do progenitor do Sr. SYNVAL SALDANHA. E nada mais resta dos pruridos constitucionalistas dos despeitados e ambiciosos, que queriam comprometter o Rio Grande, na louca aventura dos politicos paulistas." Da repercussão em Minas Geraes, a qual se fez sob os incitamentos de ARTIIUR BERNARDES, MÁRIO BRAXT, WENCESLAU BRAZ, THEODOMIRO SANTIAGO, DJALMA PI NHEIRO CHAGAS, e outros, alguns desses por detrás da cortina, está feito um pequeno relatório official na nota que se transcreve: "Os elementos articulados com os reaccionários paulistas

150 Almachio Diniz SÃO PAULO E preparavam, para estes dias, no Estado, um movimento de caracter sedicioso, visando depor as autoridades constituídas, franquear o território mineiro, com a invasão dos rebeldes, operando na zona da Matta, e mantendo os agentes de ligação no Rio. Esses elementos vinham sendo de ha muito observados pelas autoridades policiaes, que procuravam benevolamente reduzil-os â inactividade, sem o vexame de uma diligencia tornada publica. Não quizeram, entretanto, valer-se dessa benignidade, proseguindo na organização do plano subversivo, que consistia na irrupção simultânea de motins em vários municípios da Matta, apoderando-se das situações municipaes. Os perturbadores da ordem obrigariam o governo a destacar forças empenhadas nos diversos sectores, abrindo assim as fronteiras aos invasores paulistas. Afim de participarem dessas actividades, deixaram o Rio. nos últimos dias, alguns officiaes do Exercito e cadetes da Escola Militar, além de diversos civis, os quaes trouxeram correspondência allusiva ao plano. Outros emissários circularam nos municípios da Matta, conduzindo documentação bastante para identificar os promotores do movimento, que tinha como figura central o Sr. ARTHUB BERNARDES- Entrando em acção, a policia deteve em tempo esses emissários, e aquelles civis e officiaes, inteirando-se da intimidade de seus planos. O fazendeiro OCTÁVIO BERNARDES, do município de Ipanema, á frente de seus homens, tomaria aquella cidade, marchando em seguida sobre Vintém, Aymorés e Caratinga. Em Juiz de Fora, seria desfechado um golpe de força contra a guarnição federal e a estadual. Nos demais municípios, os chefes dissidentes locaes lutariam com os recursos de que dispusessem. Em vista dessas informações, tomaram-se providencias que a situação reclamava, e que se processaram todas sem sobresaltos, para a vida do Estado. Um contingente da força publica cercou, na manhã de hontem, a fazenda do Sr. OCTÁVIO BERNARDES, que o recebeu a tiros. Após vinte minutos de fogo, renderam-se os sitiados,

A SUA GUERRA DE SECCESSÃO 151 sendo presos, além do cabeça, o 2" tenente do Exercito, Jus TINIANO PASSOS, vários civis e um grupo de jagunços. Recolheu-se, por essa occasião, copioso material bellico, ulém de novos documentos sobre a conspiração. O annunciado movimento de Juiz de Fora reduziu-se á dynamitaçáo, na noite de hontem, da ponte de Serraria, que soffreu ligeiros estragos, já reparados. Em outros municípios, não foi além do corte de linhas telegraphlcas e telephonicas, que foram restabelecidas depois de poucas hortis. Foram presos, cm T71 >á, Carangola e Manhumirím, os officiaes do Exercito envolvidos na desordem, e, em Rio Branco, o jornalista ASÍIK ( 'IIATEAIJHRIAM>, que, usando de nome supposto, procurava pôr-se em contacto com os conspiradores. O Sr. ARTHUR BERNARDES, a quem era endereçada a correspondência apprehendida em poder dos emissários do Rio, 8 que segundo o plano nella revelado, daria ordem para o inicio do movimento, deixou, antecipadamente, sua residência em Viçosa, para refugiar-se em logar ignorado. Uma diligencia, effectuada em sua casa, deu como resultado a descoberta de armas, e prisão de outros implicados. A tentativa de desordem fracassou, pois, plenamente, achando-se todo o Estado em paz, e o governo prestigiado pela opinião e em posse dos elementos necessários para a preservação da tranquillidade da Republica." Não seriam de esperar outras soluções. Si, de facto, três quartas partes das populações do Brasil, não cultivavam sympathias pela obra contradictoria, por vezes, e condescendente, quase sempre da Dictadura, a verdade é (pie São Paulo perdeu a sua poderosa investida porque nove décimos daquellas mesmas populações não negando justiça aos merecimentos sociaes de São Paulo, não lhe reconheciam méritos na obra revolucionaria implantada pelos seus politicos reaccionários. A coparticipação

152 Almachio Diniz SÃO PAULO E de todo o Brasil na grande lueta inspirou-se numa vibrante integração na causa nacional, que foi a da defesa de sua integridade territorial, ameaçada pelo seccessionismo paulista. Em prefacio do livro As razões d Minas (1) da autoria de MÁRIO CASASANTA, conseguiu GUSTAVO CAPANEMA, cuja acção afoita e destemida em defesa da ordem federativa, o tem posto no destaque de u m dos nossos homens mais fortes na resistência do sentimento nacional ás vassalagens das ambições pessoaes, affirmar em uma só phrase a eloquência do pensamento mineiro, que foi, no passado momento, o de todo o Brasil, contra São Paulo. O denodado politico, que chefiou intellectualmente o movimento de seu Estado, expulsando os paulistas de seu território e conquistando a volta do Estado rebelde ao aprisco das unidades federadas, pela oceupação de uma larga zona no noroeste paulistano, assim, escreveu: "O que Minas sempre ambicionou foi sua perfeita integração no corpo e na alma do Brasil". Estas palavras são a sentença mais clara de condemnação do movimento de São Paulo, que, devastandose a si mesmo em retiradas infelizes, só tem procurado sua desintegração do corpo e da alma do Brasil. E o joven estadista, que, honrando o governo do grande OLE GÁRIO MACIEL, estaria honrando, como raros, o Governo Provisório, si delle fizesse parte, numa bella pagina civica, aponta, com desassombro, a collaboração de Minas Geraes, na revolução de 1930, e define, com facúndia pa triotica, o horizonte politico, que mais convém á nossa evolução social. CAPANEMA tem phrases curtas, que se (1) Bello Horizonte, 1932.

A SUA GUERRA DE SECCESSÃO 153 repetirão como verdadeira* máximas de politica nacional. Elle assignala: "Minas tez a Kevolução com a ainia. E a seu sentir, como ao de todo o brasileiro revolucionário, a Kevoiuçao é obra constructiva, é obra de aperfeiçoamento, é obra de progresso. Assim comtueula:,- E assuui a Kevoiuçao deixa de ser apenas a obra de des truiçào Uas formulas corroídas e das praticas viciosas, para tornar-se um largo emprehendimento de renovação e progresso". Emquanto seu Estado, orgulhoso de sua acção dedicada a essa patriótica realização, deu a vida de seus filho» para que o Brasil se alentasse cada voz mais, numa confraternização de laços perpétuos e indissolúveis, em cujo ambiente se fez a Kevoiuçao de 1ÍKJU, e para cuja intangibilidade se demonstrou um glorioso fervor de salvar a Pátria dos instiuctos maus de seus filhos transviados pela politiquice inficciosa, São Paulo, para o qual dera sua maguanima assistência, nas crise» difficultosas de sua existência económica e politica, repudia a federação, em que estabilizou a Kepublica e pleitea sua separação do conjuncto nacional. Dir-se-á que São Paulo não entrou na Kevolução, que seus partidos politicos, tanto o Republicano como o Democrático, negaram apoio e asphyxiaram o movimento revoluciona rio, um, pela resistência potencial de sua finalidade no governo decahido, e o outro, pelaresistência da inércia, diante da qual, ainda hoje, o Paiz estaria governado pelo desvario reaccionário dos velhos politicos paulistanos. Mas, nem por isto, nem porque tenha São Paulo creado óbices materiaes e moraes á Revolução, nem porque tenha obstruído a marcha victoriosa dos ideaes da renova

154 Almachio Diniz SÃO PAULO E ção brasileira, ficou com o direito de oppor-se tresloucadamente, servido de inédito fratricídio nos fastos de nossa historia politica, ao Brasil, para levar a effeito seu separatismo, atravéz de premeditada contrarevolução. E' contra esse gesto de felonia, com que a politica paulista surprehendeu a fraternidade dos Estados Unidos do Brasil, que melhor se exprime o vibrante prefacio de GUSTAVO CAPANEMA ao livro actualíssimo de MÁRIO CA- SASANTA. E O prefaciador das Razões de Minas expõe precisamente uma impressão nacional. ''Ora, a sedição que explodiu em São Paulo, é declaradamente um attentado contra a Revolução. Toda essa grande esperança de renovar o Brasil, arrebatando-o ás passadas desgraças que o opprimem, todo esse magnânimo fervor de construir uma nova Pátria, mais ampla e mais clara, é negado violentamente pelas armas ruidosas da rebeldia. Porque essa rebellião é, em verdade uma reacção." Todo o Paiz sentiu, como expressão da verdade, os fogosos juízos do illustre mineiro. E esse sentimento se robusteceu diante da pujança de períodos fulminantes com que CA PANEMA definiu: "A reacção é a convocação do passado". "O espirito reaccionário é o espirito do regresso". Assim reage São Paulo contra a Revolução: convocando e regressando ao passado. Contra o passado postou-se todo o Brasil, promovendo o movimento armado de 1930. E', pois, com seu espirito de regresso ao passado, neste momento, São Paulo, seccessionista ou contrarevolucionario, oppondo-se, em loucura fratricida, ao Brasil. As palavras de CAPANEMA gravaram, em nome de Minas Ge-

A 8UA GUERRA DE SECCESSÃO 155 contra a unidade re raes, o protesto de toda a Nação belada. Não discrepou a marinha de guerra, fazendo o bloqueio de São Paulo marítimo, com a mesma energia com que os exércitos da Dictadura fizeram o cerco do grande Estado, por todas as suas fronteiras. Dentro de uma calma sizuda, que a leviandade de politicos suppôz ser intencional, o almirante PROTOGENES GUIMARÃES não recuou, afinal, do acto necessário de reagir valentemente pelos seus aviões de maior adextramento bellico. E, assim, o forte de Itaípú, que zelou por Santos, como sentinella avançada dos reaccionários paulistas, foi, quando mais conveiu, bombardeado, assim descriptos os effeitos e as causas do bombardeio em nota official: "Para atlender á solicitação do embnixa lor americanoi assim como dos representantes do outras uaçses estrangeiras, O «íoverno Provisório concordou em que os navios estrangeiros, abrigados na Ponta de Palmas e nas proximidades do porto de Santos, fizessem o serviço de transporte de passageiros que se destinavam ao Estado de São Paulo, desde que a bordo dos referidos navios permanecesse um official da Marinha de Guerra, pnra elles transferido de um cios navio-» da divisão naval que mantêm o fechamento effectivo daquelle porto. Tudo vinha sendo feito normalmente, aliás, com certo constrangimento, por parte das forças navaes encarregadas daquelle serviço, obrigadas B parar sobre muchinas, ao alcance dos canhões do forte de Itaipú! Km data de 27 de Agosto, o.secretario dos Negócios da Justiça e Segurança Publica do Estado de Silo Paulo transmittiu aos cônsules estrangeiros, por copiai D officio abaixo trauseripto, pelo general KJ.INGIK :

156 Almachio Diniz SÃO PAULO E "Cópia Secretaria de Estado dos Negócios da Justiça e Segurança Publica Director Geral da Segurança Publica. Cópia. (Armas da Republica) Ministério da Guerra Commando da II Região Militar e 2 1 Divisão de Infantaria N 120 Objecto: Entrada de navios no porto de Santos. São Paulo, 27 de Agosto de 1932. O general BEETHOLDO KLINOEE, Commandante da II Região Militar ao Sr. Dr. Secretario da Justiça e Segurança Publica. Sr. Secretario: Para fixar a nossa conversação sobre a entrada de navios estrangeiros no porto de Santos, faço a presente communicação e solicito urgentes providencias decorrentes. Como é do vosso conhecimento, o Commando Militar tem adoptado sem reservas o mesmo elevado ponto de vista do Governo do Estado de facilitar, sobretudo aos estrangeiros, a entrada e a sahida pelo porto de Santos. O Governo Dictatorial, entretanto, além do abuso de fazer que os navios deixem no porto do Rio de Janeiro a carga destinada ao de Santos, realizando-se nesse unicamente o embarque de passageiros, tem feito que a bordo desses navios viajem officiaes de Marinha. Esse abuso cresce de vulto desde que se attente que estamos, para facilidade dos passageiros, deixando taes navios chegarem á Ilha das Palmas. Desse ponto aquelles officiaes fazem, em completa segurança minuciosas observações sobre a nossa defesa do porto. Reite ro-vos o pedido urgente para que os Cônsules intervenham no sentido de cessar semelhante abuso. E commuuico que a partir do próximo dia I o não mais permittiremos a entrada de navios com officiaes de Marinha a bordo. Saúde e Fraternidade, (a) Gen. KLINGER. Copiado fielmente do original por mim. (a) FAUSTO FABO, auxiliar de Gabinete." No sabbado, 3 do corrente, quando três aviões de bombardeio em vôo de vigilância do porto, voavam sobre a cidade de Santos, fazendo o serviço de distribuir jornaes, serviço que habitualmente era feito sem qualquer hostilidade, daquella praça, foram os referidos aviões hostilizados. Tendo em vista o facto que demonstra, de modo positivo, a preoccupaçâo dos revolucionários paulistas de criarem em-

A SUA GUERRA DE SECCESSÃO 157 baraços até mesmo ao desembarque de passageiros conduzidos por navios estrangeiros, com ameaças que se podem considerar como offenslvas ao pundonor militar da força naval, que fecha o porto, determinou o Governo que foabe destruído o forte de Itaipú. com as cautelas precisas para poupar a cidade de Santos. Assim, vêm sendo utilizados os aviões da Marinha no fiel cumprimento da miss5o que lhes foi attribuida." Como se vê, estabelecia-se um governo absoluto em São Paulo. Foi divulgado esse importante documento, sobre o vencido movimento revolucionário daquelle Es tado, para honra da literatura de BERTIIOLDO KLINGER, general reformado do Exercito Brasileiro, em virtude de sua insubordinação contra o governo nacional, redigido similarmente a seus éditos, quando oceupou a chefatura de Policia do Districto Federal, nos primeiros dias do regimen novo. Aquelle documento ê o escripto com que o alludido general, emphaticamente, procurou fixar sua conversação com o Secretario de Estado dos Negócios da Justiça e Segurança Publica de São Paulo, sobre a entrada de navios estrangeiros no porto de Santos. Sua forma literária é interessantíssima, e. paia que não se pudesse jamais suspeitar que não estava ella literalmente transcripta, FAUSTO FARO, auxiliar de gabinete, com real faro de homem de letras, assignalou positivamente, que a abracadabrante peça literária foi COPIADA FIELMENTE DO ORIGINAL. Não era preciso que FAUSTO FARO fizesse tal declaração. O estylo do general reformado está bem conhecido do publico brasileiro. Onde quer que uma producçao semelhante appareça, mesmo sem assignatura, não ha quem lhe recuse a paternidade: é de BERTHOLDO KLIN-

158 Almachio Diniz SÃO PAULO B GER. O que nos chamou a attenção, entretanto, não foi o estylo de gongora do documento. Está elle muito bem como sendo de quem é. O que nos interessou foi a sensacional anarchia reinante nas altas espheras da administração paulista, onde dois poderes, que se conflitam, disputam a primasia das funcções publicas: o poder militar de KLINGER, e o poder civil dos Toledos. Depois de um trecho arrevezado de introducção, a nota KLINGE- REANA dispõe: "COMO É DO VOSSO CONHECIMENTO, O COM MANDO MILITAR (não diz de quem, nem de onde) TEM ADOPTADO SEM RESERVAS O MESMO ELEVADO TONTO DE VISTA DO GOVERNO DO ESTADO, DE FACILITAR, SOBRETUDO AOS ES TRANGEIROS, A ENTRADA E A SAHIDA PELO PORTO DE SANTOS". Eram distinctos os dois poderes que desgovernavam São Paulo: o militar e o civil. Bem foi que, no caso de entrada e de sahida de estrangeiros do porto de Santos, ambos os poderes adoptaram, sem reservas, o mesmo elevado ponto de vista. Dessa declaração do general reformado são concludentes estas três soluções: o Commando Militar, como no caso vertente, adopta, SEM RESERVAS, o mesmo elevado ponto de vista do Governo do Estado; o Commando Militar adopta, COM RESERVAS, O mesmo elevado ponto de vista do Governo do Estado; e, finalmente, o Commando Militar NÃO adopta o mesmo elevado ponto de vista do Governo do Estado. Dentro da primeira solução, o mais grave é o de o Governo do Estado de São Paulo, do culto Estado de São Paulo, ter de tolerar a literatura anómala do Commando Militar exercido por BERTHOLDO. Não é pouco contar com a adopção do mesmo ponto de vista pelo Governo Militar. Mas, dentro

A SUA GUERRA DE SECCESSÃO 159 das duas ultimas soluções, a única previsão possível é a de que, por ser adoptado COM RESERVAS, OU de NÃO ser adoptado, pelo Commando Militar, o mesmo ponto de vis ta adoptado pelo Governo do Estado, a autoridade deste, não obstante se dizer proclamada pelo povo, depois de declarada a guerra civil, desapparece para que domine, com exclusividade, a militar do general KLINGER. Não é um simples caso de anarchia, porque é mais do que isto, um symptomatico caso de absolutismo militar. São Paulo, que promoveu a crudelissima guerra de seccessão, em que esteve empenhado, ailegando o falso pretexto de vir sendo desautorado por darem-se-lhe governos militares, dentro das leis geraes decretadas pela Dictadura, estere a braços, não com um simples governo militar, como o de JOÃO ALBERTO OU O de MANUEL KABELLO OU O actual de WALDOMIRO LIMA, SÓ militares porque, nas fileiras do Exercito Nacional, um era capitão, o outro coronel e o terceiro general, mas com um absolutismo militar desenvolvido pelo absoluto general BERTIIOLDO KLINGER. De sorte que o documento officialinente divulgado revela ao Brasil a inditosa sorte de São Paulo, que teve á sua frente estadistas como CAMPOS SALLES, RODRIGUES ALVES e BERNARDINO DE CAMPOS, O infortúnio doloroso de ser governado tyrannicameute por BERTHOLDO KLINGER e desgovernado morbidamente por PEDRO DE TOLEDO. Triste contingência! Era o delírio escabujante, porém, das sortidas irremediavelmente fracassadas. E, nos excessos mesmo desse delírio, desabriram se os processos de guerrear adoptados por adeptos da politica de São Paulo. Houve o arrojo,

160 Almachio IMniz SÃO PAULO E munido São Paulo de aviões comprados no extrangeiro, de uma esquadrilha de três ir ao alto mar lançar bombas sobre os navios da esquadra brasileira. Demonstrou-se o desejo de destruir preciosas partes do património nacional. Cada navio alvejado representa grossas sommas da economia brasileira. U sossobramento de cada um deiles, lançada a bomba destruidora por um avião paulista, si representa o mergulhamento de milhares do contos de réis, mais do que isco é moralmente: a consumição dos memores instrumentos de guerra, que conservamos para uso externo,fecute-se, porém, muito maior dòr quando se sabe que o serviço de destruição, si não foi confiado a aviadores do Exercito, que, desgarrados dos seus deveres, se vão esquecendo do seu juramento á bandeira, não de São Paulo, mas do Brasil, e demolem o que a Nação, de cuja defesa se incumbem, entrega á guarda do prestigio nacional, foi confiado a aviadores extrangeiros, que a cegueira reaccionária da politica paulista, açulou contra o Brasil, ou contra a sua pátria maior. Teve, portanto, uma significação muito dolorosa a investida dos aviões de São Paulo contra a esquadra naval do Brasil, seja essa investida pilotada por militares brasileiros, seja por mercenários extrangeiros. Mas, não ficou em ir uma esquadrilha ao alto mar lançai' bombas sobre os navios da armada nacional. O arrojo tem ido mais longe, porque tem ido contra as leis da guerra, contra os sentimentos de humanidade. Aviões também, sabidamente tripulados por perjuros officiaes do nosso Exercito, de que desertaram para irem combater pelo seccessionismo do Brasil pleiteado por São Paulo, têm feito

A SUA GUERRA DE SECCESSÃO 161 0 bombardeio das composições hospitalares, assignalãdaa por grandes cruzes vermelhas, e das cidades, onde se têm recollocado as populações civis, sob a garantia das forças do Governo Provisório. São cidades abertas que a sede de mesquinhas vindictas fizeram alvo de projecteis poderosos para grandes derrocamentos. As bombas deflagram B fazem victimas os próprios irmãos paulistas cm Amparo, em Cachoeira, em Capão Bonito. Também ha mais de dois séculos as forças francesas bombardearam as cidades abertas de Bodograve e de Suanmerdan, para gáudio de LUIZ XIV, na Hollanda. Os estragos foram feitos, mas os hollandêses, como acontecerá com os paulistas civis relativamente ao prussianismo de BERTHOLDO KLINQBB c ao separatismo de PEDRO DE TOLEDO, nunca puderam abafar a sua irritação contra a crueldade manifesta das tropas de França. VOLTAIRE, tempos depois, assim exprimia a impressão dolorosa dos hollandêses: "lista pilhagem deixou uma emoção tão profunda, que, mais de quarenta annos depois, eu vi livros escolares hollandêses BOB quaes se rememorava a aventura, inspirando ás novas gerações ódio contra os franceses". A' civilisação repugna os processos de que se soccorreu o general prussianista, que infestou a guerra civil por São Paulo declarada ao Brasil. Tempos virão em que os paulistas, como os hollandezes contra as tropas de Luiz XIV, hão de lançai- estygma contra as forças de BERTHOLDO KLINGER. O Brasil, com especialidade, tem tido uma politica internacional e intima contra o desrespeito as cidades abertas, (1) por meio de bombardeio. Em 1911, o pranteado (1) Fazendo i> bombardeio do cidades abertas, os soldados de

162 Almachio Diniz SÃO PAULO E ehanceller Kio BRANCO protestou contra o que se fez em Assumpção, no Paraguay, e em 1912 morria apaixonado contra o que SOTERO DE MENEZES fez na Bahia, ao serviço de uma nova politicagem, acarretando a demissão do almirante MARQUES DE LEÃO, com um brilhante documento histórico, de ministro da Marinha, no governo de HERMES DA FONSECA. OS processos de que se soccorreu São Paulo estão contra as leis da humanidade e os principios escriptos do direito de guerra. De recuo em recuo, as tropas paulistas cederam Cruzeiro, depois Lorena, depois Cunha, e estavam na immiuencia de cahir Itapetininga, Campinas e Guaratinguetá. Tudo isto era ignorado em São Paulo, mesmo entre os professores de Direito e artistas e intellectuaes. Mas, as ultimas conquistas de terreno feitas pelas forças que KLINGER attribuiam-no dentro de São Paulo, aos soldados do Governo Provisório, os quaes absolutamente, nunca o fizeram. Deu isto lugar a vehementes protestos dos professores da antiga e prestigiosa Faculdade de Direito de São Paulo, que é uma túnica de condemnado para ser vestida pelo próprio exercito paulista. Está em termos aggressivos, o que levamos ao desespero da agonia de sua idéa emancipadora. Este foi o protesto, de que me valho, escripte por professores paulistas de direito contra os responsáveis por bombardeios aéreos, e como os responsáveis foram os próprios paulistas que estes vistam a túnica de condemnados talhada pela sua própria Faculdade de Direito. Eis o protesto em todos os seus termos: "A Congregação da Faculdade de Direito de São Paulo118,0 pode calar a sua indignação, diante dos attentados que, acintosamente, repetidamente, systematicamente, vem commettendo a aviação dictatorial. Silveiras, Cruzeiro. Casa Branca, Mogy-Mirim, Jundiahy, Campinas, Guaratinguetá e outras localidades têm sido victimas dsssa infracção clamorosa das leis de guerra, dessa violação affrontosa dos principios de humanidade, consistente no bombardeio aéreo de cidades que se não defendem. Em sua faina criminosa, os que assim deslustram o exercito brasileiro não hesitam em metralhar as ruas centraes, nas horas de maior movimento, como suecedeu em Campinas; nao vacillam em bombardear egrejas e perseguir comboios de retirantes, como se deu em Silveiras; não se envergonham de Jaguary atacar Far-se-á e hospitaes outros preciso pontos de lembrar sangue do nosso que, e ambulâncias, de território. accôrdo com como a se Declaração verificou an- em

A SUA GUERRA DE SECCESSÃO 163 operavam sobre a capital de São Paulo, acompanhando o leito da Estrada de Ferro Central do Brasil, justificam as exclamações, que se attribuem, até prova em contrario, a JOÃO NEVES DA FONTOURA. Effectivamente, a causa paulista esteve sempre em grave perigo. A segnir-se aos fracassos moraes do seccessionismo, que se mudou em contrarevolução, por sua vez mascarada em constitucionalismo, está o fracasso material da estratégia espherica do general KLINGER, ao tempo em que mereceu a admiração dos technicos a estratégia pratica, sem farromas, do illustre general GÓES MONTKIRO, alvo da gratidão nacional, pelo acerto com que foi dominando, sob o critério ponderável de poupança máxima de vidas, a ferrenha resistência das forças exploradas pelo perrepismo reaccionário. Fortalecidos pelos accidentes naturaes do vasto terior de Bruxellas, o regulamento de Haya, de 19o7, a que adheriram as nações mais cultas do mundo, prohibe terminantemente, em seu art. 25, "atacar ou bombardear, por qualquer meio, cidades, povoações, habitações ou edifícios, que não estejam defendidos." E accentuar que, mais rigorosos do que o regulamento de ll:iy:i, são os oostumes seguidos pelos povos civtlisados e a doutrina dos mais notáveis internacionalistas? E demonstrar que, além de contrarias a todas as bis humanas e divinas, são contra-producentes, no ponto de vista bellico, taes operações militares? A tristíssima experiência da conflagração mundial (quem o diz é Alberto Rollm, em "O Direito Moderno da Guerra") ensina que o resultado único do bombardeio aéreo de cidades abertas é atear alguns incêndios, destruir alguns edifícios, massacrar algumas criaturas inoffensivas: e. como oontra-golpe, exasperar os espíritos, acirrar os ódios, multiplicar a de vingança, justificar as represálias, fortalecer grandemente a resistência, e retardar o advento da paz. Contra os delictos inexpia \ eis. com que a dictadura, por seus (entes, está compromettendo os foros de nossa cultura e faltando lavra empenhada em convenções Internacionaes, aqui deixamos o nosso protesto de brasileiros e de homens da lei. Aqui deixamos, ao mesmo tempo, a expressão de nossa com- Bovlda sympathia pelas cidades paulistas, em cujos brazões a posteridade vera entrelaçada para sempre, ás ameias da coroa mural, a coroa de espinhos do martyrio. São Paulo, 2o de Setembro de 1932. <aa.) Alcântara Machado, M. P. Villaboim. Cândido Motta, Reynaldo Porchat, João Arruda, Gama Cerqueira, Raphael Sampaio, M. Pacheco Prates. Cardoso de Mello Netto, Francisco Morato,

164 Almachio Diniz SÃO PAULO E valle do Parahyba, os soldados paulistanos conseguiram uma resistência maior neste primeiro lance da guerra. A cada passo os soldados do Brasil encontravam os soldados de São Paulo entrincheirados em defesas naturaes, formadas pelas elevações de montes, por escarpas, por lapas e por grotas espessas. O convite que os accidentes do terreno da lueta faziam para resistir, tinha toda razão de ser. Houve situações verdadeiramente inexpugnáveis. Mas os soldados do general GÓES MONTEIRO foram aos poucos, aos palmos, ás pollegadas, talvez, avançando desde as primeiras posições em terras fluminenses de onde foram desalojados os mais audazes até aos reduetos formidáveis de Queluz, de Silveira, de Lavrinhas e de Cruzeiro. A essa hora, a capital do Estado estava descobrindo-se á offensiva segura das tropas legaes. Seria Waldemar Ferreira, Braz Arruda, Sampaio Dória, Laurentino Azevedo, Hermes Lima, A. F. de Almeira Júnior, Lino de Moraes Leme, Mário Masagão, Noé Azevedo, Jorge Americano, Honório Monteiro, M. F. Pinto Pereira." Para o mesmo effeito appareceu um manifesto dos artistas e intellectuaes, que tanto quanto o precedente foi traçado mediante informações falsas dos empreiteiros da guerra. Este é o referido manifesto : "O Estado de São Paulo, que se tornou, pelas suas forças culturaes e económicas, a mais importante unidade da federação brasilaira levantou-se em peso, na perfeita cohesão e absoluta unanimidade de todos os seus elementos, contra uma dictadura que não correspondia ao elevado nível daquella civilisação e que, rotulada de "governo provisório," ia sendo apenas uma "anarchia definitiva." Ao ímpeto paulista contra o regimen illegal outros Estados se juntaram. O golpe do direito contra o arbítrio é, pois certeiro, decisivo, infallivel. Diante delle, já não lia, para a tyrannia, senão recuar. Isso está claro, innegavel, imperativo. O bem pouco de discernimento que ainda resta aos homens da dictadura bastou para fazel-os comprehender a situação e prever a sua derrota: e por isso, desesperados de si mesmos, desacreditados aos olhos estranhos, vendo-se irremediavelmente perdidos, entraram de lançar mão de armas prohibidas, de meios de guerra condemnados pelas convenções internacionaes, no intuito único de lançar o terror ás populações civis. Dentre esses attentados, avulta o bombardeamento de cidades abertas. E, victima principal de tal crime, está Campinas. Relíquia inestimável da grande família paulista, que ahi retemperou o seu caracter e as suas energias, Campinas é, como sempre o foi,

A SUA GUERRA DE SECCESSÃO 165 deshuinana qualquer resolução de resistência para vencer ou morrer. O sacrifício da resistência seria de todo inútil. Afundado o separatismo, naufragada a contrarevolução, desmascarado o falso constitucionalismo e derrotados em suas trincheiras, os paulistas persistiram num erro, que foi o da resistência inglória. Já então São 1'aulo não podia ter mais phantasias para encobrir a eertesa da derrota. Não conseguiria separar-se do Brasil. Não o deixariam os exércitos brasileiros. Não lograria victoriar a contrarevolução. Não o deixou o patriotismo dos revolucionários de 1930, acorrendo todos ao chamamento da Nação ameaçada em sua integridade federativa. Não triumpharia o ardil da constitucionalisação precipitada. Não o deixou o Governo Provisório, lançando as centro formador e irradiador do nosso saber e da nossa acção. A cidade é toda ella, uma palpitante synthese do muito que temos realisado nas sciencias, nas artes, no commercio, na lavoura, na industiiu. Ahi se encontram obras de arte tradicional de raro valor, como seja a cathedral, com seus lavores de entalhe em madeira; grandcn reniras de pesquisas scientificas, como o Instituto Agronómico, universalmente conhecido; núcleos intellectuaes de alta representação, K>mo o "Centro de Sciencias, Letras e Artes" e a Sociedade de Cultura Artística; estabelecimentos de ensino, como a Escola Normal, o Oymnaslo do Estado, o Lyceu de Artes e Officios e a Escola Profissional Bento Quirino; laboratórios, bibliothecas, emfim, todas aquellas instituições que caracterisam as civilisações requintadas. Pois bem, sobre aquelles tectos preciosos e contra aquella gente laboriosa, diariamente vêm os aviões da dictadura lançar suas bomsua metralha. Não ha, nesse ataque, vislumbre Qualquer no Objectivo militar, nem mesmd o pânico lntençfi.0 única provável do aggressor consegue isso provocar; a população civil, consciente do seu valor e segura da victoria da causa sagrada que ataafiou, não se abate. Varias casas, edifícios, residências particulares, hotéis, etc, ja foram attingidos e damnificados. Morreram crianinulheres e velhos operários, alguns estrangeiros. Esse è o muito de infâmia que tem conseguido e o muito de ameaça que continuam a offerecer contra Campinas as baixas armas inim Artistas e intellectuaes brasileiros, de São Paulo, na dupla revelia,io sentimento e da intelligencia, protestam energicamente contra o attentado degradante e denunciam ao mundo culto o crime nefando friamente perpetrado, em desespero de causa, contra a civiio universal. São Paulo, 21 de Setembro do 1982.

166 Almachio Diniz SÃO PAULO E bases para a dotação ao Paiz de uma Constituição, antes do mascaramento da causa intima da rebellião de 9 de Julho. Appellou-se para a distração de forças, por meio de focos revolucionários em outras unidades da Republica. Foi u m plano. Mas não foi o da advocacia satânica de JOÃO NEVES DA FONTOURA. Elle propoz, contra a victoria seguida das forças do Governo, uma repartição da fabulosa victoria de São Paulo com Minas e Bio Grande, separados, a titulo de resistir o Brasil ao seccessionismo dos politicos e ao prussianismo do general KLINGER, da conjugação das forças brasileiras em prol da causa nacional, que é a integridade do paiz. Seria dividir para vencer. Seria disseminar o mal para conjugar elementos. Seria obra de advogado do demo, por detraz da qual mal se escondeu a denuncia de que São Paulo sozinho não venceria, precisando dos recursos de Minas Geraes e do Rio Grande do Sul, e no âmago da qual se concentrou a conveniência de enfraquecer o Brasil pela dispersão de seus elementos maiores da resistência actual. Com as ultimas conquistas dos exércitos do general GÓES MONTEIRO, accentuaram-se as razões do demonismo de JOÃO NEVES DA FONTOURA. Mas, o prestigio, que a natureza do vãlle do Parahyba do Sul, deu á resistência de São Paulo, em seus intentos separatistas, derrocou-se, finalmente, e deixou de ser crivei que, falhando os recursos naturaes dos morros, das gargantas, das escarpas, dos tunneis, das grotas, a estratégia dos generaes das forças paulistas pudesse crear mais, do que já tinha creado, embaraços á offensiva victoriosa dos soldados brasileiros. O heroísmo desses de

A SUA GUERRA DE SECCESSÃO 167 fensores da unidade nacional foi posto á prova logo na primeira penetração do Estado separatista. 0 que foi essa lueta de titans, com que o Exercito nacional fez uma dolorosa experimentação para poder proseguir em sua marcha sobre a cidade de São Paulo, está ardoro lamente descripto na vibrante proclamação, com que o Ulustre general GÓES MONTEIRO solemnisou a occupação de Lorena, em a noite de 17 de Setembro de 1932. E' um relatório synthetico este, fragmento eloquente da voz com que o arguto general se dirigiu, na hora de mais uma victoria, a seus e aos soldados de São Paulo: "<) poderoso systema defensivo organizado i>ara formar barreira & vossa passagem atravéz do soturno valle do Parahyba do Sul, erguendo-se como um symbolo do seccessionismo» nuo pôde resistir a vossos golpes repelidos, o, de escalada em escalada, soffreudo todas as privações e agruras, supportaudo a aspereza de uma lueta sem descanso, travada sobre um terreno que desafia a robustez e o engenho de organismos privilegiados fostes vencendo todos os obstáculos que a natureza e o homem depuzeram sobre a trilha que seguíeis e seguireis o caminho do dever, pela união do Brasil!" A causa sagrada da integridade brasileira, desafiou e dominou aos próprios espigões das montanhas paulistas e ultrapassou-os como a claridade do sol, fazendo raiar um dia atravéz das nuvens mais espessas da tempestade nocturna. Mais forte do que a ambição seceessionista de São Paulo foi o sentimento de pátria do brasileiro. Na altivez do surto, por entre as maiores escabrosidades dos terrenos, aproveitadas pelo génio do mal que armou os paulistanos contra seus irmãos brasileiros, estes foram

168 Almachio Diniz SÃO PAULO E bastantemente decididos para desassombrar, com sua coragem, o valle apavorante, com que São Paulo, naturalmente, procurou reservar-se contra a defesa da unidade nacional, que todo o Brasil ali foi exercer. Foi a visão querida da Pátria una e indivisivel, que se perpetuou no oriente de nossos soldados, emquanto os filhos de São Paulo só podiam contemplar a figura ensanguentada de sua terra, abysmando, em cada sepulchro de soldado seu, um mundo de illusões ou uma cohorte de esperanças mallogradas. Sahiram elles, provocando os nossos, em arrancadas vertiginosas, nas quaes, quando deram fé de si mesmos, já estavam, desrespeitosamente, em terras fluminenses e mineiras. Era o irresistível de uma ambição mystificada, que fazia pequeno o território paulista, para contel-os naquelle momento de cegueira, causada pela luz da illusão, com que os políticos fascinadores, reduziram a incommensurabilidade das terras, avizinhando-as do firmamento, em que situaram o facho de sua fatuidade patriótica. E, uada mais fátuo do que esse patriotismo gerado por ambições que se enramalham entre florescencias de um egoísmo trucidante. Foi á custa desse amesquinhado sentimento de pátria, que a politica tomou pela mão a mocidade paulista e abriu-lhe a farda ao peito para a bala certeira, porque é da causa nacional, na hora em que o futuro brasileiro tudo esperava delia. Para subirem os politicos reaccionários, só por meio da seccessão ou da contrarevolução. Assim se instrumentou a politicalha, abusando da credulidade de um povo que sempre viveu na grandeza de seu trabalho e na opulência de suas forças naturaes. A formosa pagina do general

A SUA CUERRA DE SECCESSÃO 169 GÓKS MONTEIRO assignala, sobretudo, a victoria do sentimento da unidade nacional sobre o seccessionismo paulista. Devemos regosijar-nos todos nós brasileiros, inflam mados pelo mais vibrante patriotismo, com a efficiencia do Exercito Nacional, em sua acção guerreira contra as foiças sublevadas de São Paulo. Não se comprehendeu nessa acção guerreira uma acção demolidora. A demolição, que as conveniências da guerra, muitas vezes, propelem,é, funcção de reconstrucção nacional, pois refaz ella, mesmo quando demole as posições do inimigo, a integridade da Nação. Quizeramos não dar aos soldados da contrarevolução paulista essa nomeação de inimigos. Mas não é lógico definir de outro modo os agentes da crude lissima guerra civil, com que São Paulo, usando de todos os recursos da violência, se isolou, para uma emancipação politica, contra o Brasil, envolvendo, em sua faina carniceira, seus denodados filhos, em verdadeiros duellos de morte com seus irmãos brasileiros. Si o inimigo é aquella tropa ou nação, com que se anda em guerra, é também aquelle que milita em campo ou partido opposto ao de outrem. Ora, São Paulo armou gente, fez tropa, e quiz por* seu seccessionismo, ser nação paia andar em guerra com o Brasil. Logo, São Paulo foi, na força signi ficativa do vocábulo, inimigo do Brasil. Por outro lado, tendo o Brasil um partido revolucionário em que militavam todas as expressões sociaes, São Paulo teve um partido contrarevolucionario, embora de idéas bastardas, com que levantou suas laboriosas populações, desviando-as da bravaria do trabalho engrandecedor, para exterminal-as

170 Almachio Diniz SÃO PAULO E na sangueira dos combates inglórios. Logo, assim, também, São Paulo, dentro da significação do próprio vocábulo, foi inimigo do Brasil. Quizeramos, pois, não tratar irmãos, e irmãos queridíssimos, para cuja hegemonia os demais nunca negaram, nem fizeram cara feia, os mais valiosos recursos pedidos, de inimigos. Mas, na verdade, o Exercito Nacional combateu, ou andou em guerra, com uma tropa numerosa, para a qual nada mereceu a vida humana e de nada valeram as riquezas materiaes da Nação. Dentro nas devidas proporções históricas, o cavallo de ATTILA, que, symbolicamente, até queimava as gramas pisadas por suas patas de fogo, reproduzido volumosamente na invasão, que a Allemanha, em 1914, executou na Bélgica e no norte da França, crestando a natureza viva e arruinando as realizações do homem sobre aquella natureza, reviveu na passagem das tropas paulistas como é doloroso dizel-o! pelas cidades e núcleos estaduaes, sob o influxo do prussianismo de BERTHOLDO KLINGER. A historia geral regista a acção demolidora dos exércitos em terras extranhas. Nossa historia, entretanto, vae registar, de futuro, que, na guerra civil, São Paulo não foi maltratado em suas riquezas, de povo civilizado, pelos exércitos invasores, que reconquistaram para o Brasil o Estado que tentou desaggregar-se, mas pelos próprios soldados paulistas, que, abandonando-se á victoria do Governo Provisório, que representou a vontade solida da integridade nacional, despojaram as zonas reentregues á Nação, de tudo quanto assignala sua riqueza económica e material, como obra do bicanço dos milhafres, que escarnam uma presa appetecida. E, apparecendo nessa hora

A SUA GUERRA DE SECCESSÃO 171 de depredação, em Areias, em Queluz, em Cruzeiro, em Silveiras, em Cachoeira, em Lorena, em Mogy-Mirim e em qualquer parte, as tropas brasileiras ali foram chegando como mensageiras da civilização, para amparo das populações depauperadas e para reconstrucção dos centros retirados ás garras dos gaviões, que os mantinham como feitorias, contra a integridade do Brasil. Desde as reposições dos trilhos suspensos e do soerguimento das pontes dynamitadas, até á reorganização social das cidades restituídas ao governo nacional, o Exercito brasi leiro não fez sinão reconstruir em São Paulo o que os próprios paulistas, em acção de guerra, demoliram. Registe se, sob este sentimento, o jubilo da população de Lorena, quando ali chegaram os soldados do Brasil!

SÃO PAULO E A SUA GUERRA DE SECCESSÃO Entram muito na gloria immortal de Gambetta os planos estratégicos d,. Moltke. EUCLYDES OA Cl MIA. A CAUSA REMOTA Toda a agitação da politica paulista, desenvolveu se no sentido de realisar-se, ou a volta do passado, ou a emancipação nacional do Estado. Pesados <> apoio e os recursos de São Paulo, com que a Revolução de IW.W ponde contar, a verdade é que nada ficou essa devendo, absolutamente nada. ao concurso dos politicos situadonistas, como também á collaboração dos sectários do Partido Democrático. Entretanto, victoriosa a acção militar (lo Rio Grande do Sul, de Minas Geraes e da Parahyba, antes mesmo do chefe do movimento, (pie eia o presidente GKTULIO VARGAS, chegar ao intimo da grande província brasileira, já soffria o assedio dos politicos estaduaes, para a posse do governo local, creando-se na verdade, difficuldades, que só puderam sei- resolvidas pela nomeação de um interventor de todo extranho ás competições dos filhos da terra. Os primeiros historiadores da Revolução prestaram seus depoimentos, quando ainda

174 Almachio Diniz SÃO PAULO E* não tinham a isenção de animo bastante para dar seu testemunho sobre a primeira lueta pelo governo de São Paulo... A negação cia conveniência revolucionaria, generalizada entre os paulistas, punha-se de lado, e estes pleiteavam os proventos, allegando direitos que não poderiam ter. Mas a Revolução transigia, só não podendo estear attitudes pessoaes, contrarias ao desenvolvimento normal do programma revolucionário. PAULO DUARTE re conhece a ausência de São Paulo nos momentos capitães da Revolução. "Verdade também que São Paulo, nos últimos tempos, se alheou um pouco da conspiração" (1). Nos últimos tempos da conspiração, foi quando mais necessária se fez a solidariedade dos partidários. Foi, pois, nesse momento que São Paulo, na phrase clara de PAULO DUARTE, se alheou um pouco da conspiração. E foi essa gente, assim confessadamente alheada da revolução, a que, victoriosa esta, disputou a posse do governo do Estado, desrespeitando as conveniências normalizadoras do poder revolucionário. Ao lado desse conflicto de velhas ambições, que vinham causando o movimento revolucionário, porque, si não fora a intransigência dos politicos para se perpetuarem na presidência da Republica, a serie de desatinos e* crimes, que promoveram a Revolução, não se teria manifestado, houve sempre o critério, sobrepondo-se São Paulo ao resto da Nação, de, ou esta annullarse por aquelle, ou realizar-se a emancipação politica do Estado, pela separação do Brasil. As imagens figuradas dos escriptores foram esclarecendo o pensamento intimo (1) Que é que haf, São Paulo, 1931, pag. 87.

A SUA GUERRA DE SECCESSÃO 175 da revolta pela egualdade de São Paulo com os demais Estados da União. O que se perpetrava, cm todasr.s unidades, como conveniência harmonisadora de interesses, os politicos do grande e futuroso Estado recebiam como propósito de desprestigio paulista. PAULO DUARTE, ao findar seu livro alludido, expressou o pensamento geral da politica paulista, insatisfeita por ter perdido a falsa hegemonia com que governava e desgovernava o Brasil: "São Paulo não se conforma com a situação de vitelo amarrado ás pernas de uma vacca, emquanto o pojo é chupado pelos bezerros de outros curraes!" (1). O (pue não era possível era tratar desit inãmente irmãos egnaes. Dahi o [dano separatista, encerrado em todas as propagandas literárias, ou seja no paulistismo de PAULO DUARTE OU no Terra Conquistada de LEVEN VAMPRÉ, que exclama: "São Paulo é ainda 70 % do Brasil. Vinte Estados no famoso comboio conduzem 30 % da riqueza do paiz. Sozinho, São Paulo faz o comboio immenso, em que marcham para a grandeza de uma nação os destinos de nossa terra" (2). E um pouco antes: "O São Paulo de hoje não é mais a terra da unanimidade e do adhesisino. Sentinella vigilante da nacionalidade em todas as épocas de nossa historia, a força politica de sua organização e riqueza ainda lhe dá o relevo orographico de um Jaguará solitário na planície da quadra contemporânea''. A hegemonia económica e social do futuroso Estado, poderia ser apregoada por seus politicos e por seus filhos, não com o intuito manifesto de accentuar uma (1) Op. cit., pag. 308. (L'i São Paulo, terra conquistada. São Paulo, 1932, pag. 266.

176 Almachio Diniz SÃO PAULO E desegualdade, que não existe, nem com a pretensão de isolal-o, por essa desegualdade, do resto de nosso grande Brasil. Na verdade, o espirito de separatismo, nos últimos tempos de São Paulo, não tinha mais reservas absolutamente. Cedendo a sua influenciação, quando se teve de organizar, em o anno passado, o governo do interventor LAUDO DE CAMARGO, na lista das autoridades escolhidas figuravam dois conhecidos separatistas. Para a direcção da guarda-civil, por ter pedido demissão PEDROSO D'HOR- TA, o Secretario da Justiça convidou ANTÓNIO PEREIRA LIMA, e, para director do Departamento de Imprensa e Publicidade, LEVEN VAMPRÉ, assim como já estava convidado, para Chefe de Policia, EURICO SODRÉ. Pois bem. As nomeações de EURICO SODRÉ e PEREIRA LIMA foram censuradas, nas rodas verdadeiramente revolucionarias, e impugnadas mesmo, por serem fundamentalmente separatistas. Aliás, si tivesse de prevalecer a causa da impugnação, só por falta de exteriorização, outros muitos separatistas não teriam de ser impugnados. O pensamento anti-separatista foi expresso por uma alta patente do Exercito: "A revolução tem um cunho nacionalista. 0 papel do Exercito é manter a unidade nacional. Por isso, uós, militares, não toleramos separatistas." Assim sendo, o que representam os militares não é uma opinião de classe, mas uma opinião nacional. Todo o Brasil, como esteve acontecendo, daria sua ultima gotta de sangue pela sua unidade, contra qualquer manifestação separatista. E o certo é que a impugnação á nomeação das autoridades paulistas, devido a suas inclinações pela desaggre-

A SUA GUERRA DE SECCESSÃO 177 gação do Estado de São Paulo, não prevaleceu, formando-se o governo com os francos separatistas, que eram ANTÓNIO PEREIRA LIMA e EURICO SODRÉ. Effectivamente, o Chefe de Policia, EURICO SODRÉ, do governo de LAUDO BK CAMARGO, não occultava sua fé de officio separatista e nem serviu ella para que elle não superintendesse a policia paulista. Em artigo, que a censura, aliás, não deixou ser publicado, mas que LEVEN YAMPUÉ inseriu em seu livro São Paulo, terra conquistada (ás paginas 283-865) foi assim exaltado o separatismo por EURICO SO DRÉ: "As causas da grandeza de São Paulo são facilmente comprehensiveis por quem conhece a geographia económica e a historia contemporânea do Brasil. Sugiro, porem, do fundo de minha modéstia, uma êolução definitiva para o problema a separação de São Paulo". Foi com essas palavras categóricas que EURICO Soimú affinnou, antes de ser elevado a chefe de policia, seu separatismo: "Sugiro... a separação de São Paulo". A opinião impatriotica, para constituir regra de acção, foi assim sustentada longamente no artigo que a censura velou, mas que LEVEN VAMPRÉ transcreveu em seu referido livro: "Segundo opinião geral. São Paulo está minado de vicios, imbuído de um egoismo exclusivista, é uma terra de carthagineses sem ideal, metalizado em um pragmatismo inconveniente, é pesado ao thesouro da Nação, suffoca o desenvolvimento do resto do Brasil, entrava o progresso uniforme do paiz. Si assim é, não ha si/não abandonar São Paulo aos seus próprios destinos, aproveitando-se, em beneficio dos demais Estados, o esforço hercúleo ora dispendido em regenerai o." Ora, Eu-

178 Almachio Diniz SÃO PAULO E RICO SODRÉ escreveu: não lia sinão abandonar São Paul aos seus próprios destinos... Não pôde haver pregaçã mais franca do separatismo de São Paulo. Mas, o chefe de policia do governo de LAUDO DE CAMARGO, proseguiu em sua propaganda separatista, accrescentando: "Entregue-se São Paulo a si mesmo. Passe a ter vida independente, formando uma republica ou um impéri estabelecendo, porém, em suas fronteiras, o necessário cordão de isolamento, afim de não continuar a prejudicar ao Brasil..." E, depois de outras considerações, EU RICO SODRÉ, que foi depois de censurado, o chefe de policia de São Paulo, terminava: "Cerquem-na pelos seus limites e abandonem-na a si mesma, fugindo a sua vizinhança, evitando, sobretudo, a sua influencia... Transformem-na os paulistas, si quizerem, em uma pátria nora. Mas n-ão queiram os outros transformal-a em um tumulo." Foi, portanto, de vigorosa expressão o apregoado separatismo de EURICO SODRÉ. Por elle, sua nomeação foi impugnada ao Secretario da Justiça. Sentiu-se fervilhar officialmente o separatismo do grande Estado. Conta-se, como passagem verdadeira que foi, que o prestigioso general G Ó E S M O N T E I R O se referiu ao governo paulista de então, dizendo que realmente havia gente de todas as cores politicas auxiliando o governo estadual, o que provava sua imparcialidade. Mas, que, alguém perguntando "como?"' o bravo general brasileiro respondeu referindo-se a um membro separatista: "Ha até separatistas. Nesse caso está o Sr. LIMA. director da Guarda Civil". Aos factos repetidos, procuravam-se oppor contesta-

A SUA GUERRA DE SECCESSÃO 179 ções verbaes e verbosas. Mas, essas contestações, no sentido de que São Paulo não movimentou suas forças em favor de sua separação do Brasil, esboroam se diante de certas verdades colhidas na verdade dos factos. Tem sido imparcialmente revelada a acção intellectual de escriptores, jornalistas e politicos, para o êxito da causa separatista, sendo de registar-se o livro ultimo de ALFREDO Eias, no qual elle expõe as conveniências de seu Estado, estabelecendo a alternativa de confederação ou geparmção. Agora vem apoiar a accusação separatista o testemunho das photographias. Contra as praxes coustitucionaes de nossa existência republicana, São Paulo tinha um pavilhão próprio. A bandeira paulista não tem somente a funcção de indicar o rincão futuroso da terra de PRU DENTE DE MORAES. Ella representa egualmente, e com exlranho vigor, o fomento da desagregação nacional. Nos dias revolucionários, a bandeira brasileira foi riscada dos actos públicos de São Paulo. Murmurou-se, sem confirmação positiva, que nos estabelecimentos públicos da capital paulista, conforme reconhecimento feito por um aviador do governo nacional, só estava desfraldada a bandeira paulistana, não se vendo em nenhum mastro a brasileira. A noticia, não ganhando asseverações, ficou uni JKUICO esquecida. Chega a ser, porém, si não uma reaffirmação, pelo menos o indicio do desprezo a que foi relegado o pavilhão nacional do Brasil. Foi reproduzida, pelo O Radical, desta cidade, a noticia da chegada de alguns voluntários á estação da Luz, lá em São Paulo, idos de Batataes, Ituverava, Ribeirão Preto e Bebedouro, formados no "Batalhão d'oeste". A noticia colhida na

180 Almachio Diniz SÃO PAULO E edição de 2 de Agosto do Diário de São Paulo, foi precedida de todos os aspectos da chegada e desfile do "Batalhão d'oeste" pelas ruas da cidade. Nada teria de importante essa reproducção photographica, si não trouxesse ella a affirmativa de que, no batalhão paulista pomposamente recebido pelos politicos FRANCISCO secretario da Agricultura, e ALTINO JUNQUEIRA, ARANTES, ex-presidente do Estado, não se fez o culto da bandeira nacional brasileira, porque, sem nenhum disfarce, o que infestou o "Batalhão d'oeste" foi tão somente o pavilhão paulista. Por elle, e não pelo brasileiro, por São Paulo, e não pelo Brasil, foi que se desencadeou a lueta fratricida! Doloroso foi o flagrante dos instinctos separatistas de São Paulo, cujos batalhões pelejaram á sombra do estandarte do Estado e não ao enthusiasmo do lábaro nacional! São Paulo tem sua bandeira. São Paulo esquece a bandeira do Brasil. São Paulo instiga a que seus filhos opponham seu pavilhão ao da nacionalidade, de que se quer desligar. São Paulo foi flagrantemente separatista. Mas, o separatismo é a negação do Brasil, deste Brasil grande e forte, pela união perpetua e indissolúvel de suas províncias. Logo, São Paulo nega o Brasil, e este, por suas tradições, por sua integridade, por sen sentimento de Pátria, não consente a expatriação de uma de suas unidades. Foi sob a grandeza do pavilhão brasileiro que o paulista conquistou civilização e tradições. No coração dos filhos de São Paulo, malguiados por seus politicos de campanário, ha de vibrar um sentimento mais grave do que o do bairrismo: é o da grande Pátria que todo o Brasil formou sempre. E esta Pátria tem uma

A SUA GUERRA DE SECCESSÃO 181 bandeira secular em suas cores, secular em seu prestigio, secular em sua grandeza. Diante delia é que desfilam, não o "Batalhão d'oeste", mas os batalhões do Sul, heróicos em seus feitos de defesa republicana, os batalhões do Norte, bravos em seus tirocínios guerreiros, os batalhões de Minas Geraes, de Goyaz, de Matto Grosso, imperterritos em seu amor ao Brasil. Tudo seja feito, agora e sempre, pela nossa integridade nacional! Ora, pequenos nadas, na vida dos JKIVOS, conquistam proeminências, por vezes, inequívocas. Assim, as bandeiras nacionaes. Materialmente, como tecido mais ou menos colorido, a tremular ao sopro das brisas, ou a enrolar-se, em momentos de calmaria, sobre as hastes dos próprios mastros, nada significaria o pavilhão de um paiz. Mas, moralmente, considerado como o estandarte que symbo lisa uma nacionalidade, a bandeira nacional é a força cohosiva dos homens, que se colligam, para a vida e para a morte, por um sentimento de pátria. Onde quer que se desfralde, o paiz ahi está representado, exigindo o respeito de todos, em torno do symbolo invicto para a admiração patriótica. Nas guerras, os hymnos das grandes e pequenas victorias, são entoados á sombra dos pavilhões desfraldados, ou á presença da Pátria, ali assim invocada, para a gloria dos filhos seus. E, nos dias de paz, são as conquistas da civilização que se celebram á vista das bandeiras illuminadas pela forte luz de um amor de Pátria vibrante e reanimador para o progresso, que é a finalidade social do homem. O Brasil tem uma bandeira gloriosa, porque é o laço fulgurante que sempre uniu, para a guerra e para a paz, as 21 unidades da

182 Almachio Diniz SÃO PAULO E Pátria. Ella não representa um só Estado, mas a união perpetua e indissolúvel de todos elles. E' a vibração da fé nacional. O limite material de um Estado não annulla sua energia motriz no congraçamento de todas as unidades da união brasileira. Bem pôde São Paulo, como a Bahia ou o Kio Grande do Sul, ter um lábaro próprio para seus sentimentos bairristas. Mas, acima desse lábaro territorial, tremula, invicto, o pavilhão brasileiro, em cuja figuração todos os Estados estão estellarmente representados. Quando o Brasil desperta aos sons de seus hymnos, já a luz de sua maravilhosa bandeira illuminou suas serras, seus valles, suas florestas, seus pampas, suas caatingas, suas cidades, e todos os filhos desta prodigiosa natureza pulsam por um só coração, pensam por um só cérebro, agem por uma só vontade e vencem por um só sentimento o brasileiro. O bahiano é, antes de filho da Bahia, filho do Brasil. O gaúcho tem sido bra sileiro primeiramente, para depois ser riograndense. 0 montanhez descobre-se diante da grande Pátria, por ella e por sua integridade dando o melhor de sua vida: está o soldado mineiro sempre prompto aos chamados nacionaes. Mas, São Paulo desfraldou, na guerra civil que precipitou sobre a unidade brasileira, um pavilhão seu, sem a companhia, pelo menos, do nacional. Não veiu noticia de um aprisionamento de bandeira em que esta deixasse de ser a paulista. A nacional seria um pavilhão estrangeiro para São Paulo, e para os seus soldados, a esta hora pelas explorações do reaceionarismo restaurador, um pavilhão inimigo. A ultima noticia da apprehensão de uma trincheira mencionou uma bandeira paulista. E' o

A SUA GUERRA DE SECCESSÃO 183 lábaro do inimigo do Brasil na presente guerra, porque agentes do mesmo sentimento patriótico, sob a mesma bandeira nacional, não se podem empenhar em carniceiras luctas de extermínio. O espirito separatista de São Paulo, em boa hora, não levou aos campos da guerra civil o pendão remansoso da nação brasileira. Os soldados da seccessão combateram, como inimigos do Brasil. Elles não receberam estimulos da formosa bandeira que, desfraldada nas trincheiras dos Estados Unidos do Brasil, evocasse a integridade da Republica, pela união perpetua e indissolúvel de suas unidades. Elles carregaram armas e dispararam canhões guiados por outro estandarte. E é dolorosa a verdade de que, si lograram um avanço, onde sorria, na mais aguda dõr de um combate incruento, a bandeira brasileira, elles implantaram o pavilhão de São Paulo. Também, quando derrotados, evacuavam uma trincheira e desappareciam em uma retirada, o soldado do Brasil unido ali não encontrou derrotado o pavilhão nacional, mas a bandeira paulista. O espirito de seccessão ergueu o filho querido do Brasil á condição de inimigo de sua grande Pátria! E' a obra nefasta da contrarevolução, com que a cegueira politica dos homens de partido buscou devorar o laço fraternal de nossa nacionalidade! Deviamos resistir, e resistimos, ao separatismo de São Paulo, muito embora reconheça eu, nas minhas elocubrações de estudioso da sciencia social, que, pelo principio biológico da reproducção dos organismos, applicado ás sociedades (1), attingindo estas a um grau maior de (1) ALMACHIO DINIZ. Qeneae hereditária do direito, Bahia,, 1903; QucstCics actuacs de }'hilosoi>hia c Direito, Rio, 19o9.

184 Almachio Diniz SÃO PAULO E desenvolvimento, têm a funcção de emancipar-se, tal como um dia succederá ao annel de Saturno, e é legitimo que aconteça a São Paulo, si o Brasil não se confederar, afim de manter a cohesão nacional pela similaridade dos seus organismos confederados. Mas, nos termos da Constituição Federal de 24 de Fevereiro de 1891, figurou muito bem, em seu art. I o, a fórmula da união perpetua e indissolúvel das antigas províncias, constituída em Re blica dos Estados Unidos do Brasil. Desde que passámos do regimen colonial para o de paiz independente, é assim que tem sido. A alliança das antigas capitanias em províncias e das províncias, como Estados, numa união perpetua e indissolúvel, importou sempre na renuncia de todas as unidades á liberdade de se retirarem da união pactuada. Assim como os indivíduos se atêm aos preceitos constitucionaes, e, por isto, se dá o nome de pacto fundamental á Constituição Politica de um Estado, assim os Estados, como somma de indivíduos, num dado território, se afincam na observância de seus dispositivos. Sendo a união perpetua e indissolúvel dos Estados um compromisso nacional, tendo consentido elles expressamente na união, quando o paiz passou de colónia á nação livre e de monarchia á Republica, é evidente, como diz STORT, relativamente á egual união dos Estados norteamericanos, que todos perderam a faculdade de romper o pacto de solidariedade unionista, a que deram seu apoio. Como num feixe de varas, onde cada uma destas se annulla individualmente para só se mostrar a resistência do conjuncto, em nossa federação de Estados, em que, com a mesma sinceridade dos demais, formou o de

A SUA GUERRA DE SECCESSÃO 185 Kão Paulo, as unidades estaduaes desapparecem na força colligada do conjuncto. CHASE, um magistrado de grande renome na justiça da grande nação norte-americana, tendo em vista a expressiva fórmula da Constituição de 17 de Setembro de 1787 in order to form a more perfect utiion de modo que forme uma união mais perfeita em tudo similar a nossa, embora que mais fraca em seu poder de solidariedade, assim commentou claramente: "E' inútil discutir, afinal, si o direito de um Estado retirar se, por alguma causa da União... é compatível com a Constituição dos Estados Unidos. A união dos Estados nunca constituiu uma relação puramente artifioial e arbitraria. Ella começou entre as colónias e nasceu de origem commum, mutuas sympathias, principios affins, interesses semelhantes e relações geographicas". As palavras do illustre CHASE, escriptas sobre a Constituição norte-americana, podem ser interpretativas de nosso texto constitucional, applicando-se exactamente no caso de qualquer Estado da união brasileira, como o de!são Paulo, pretender romper o pacto e separar-se da união nacional. Neste momento, pretendendo separar-se do Brasil, São Paulo promoveu seus meios, entregandose a unia violenta lueta fratricida, porque, como ficou demonstrado, pelo combate que lhe estiveram dando as vinte outras unidades da federação nacional, ellas não lhe dariam jamais seu consentimento. Um escriptor, deante de nosso texto constitucional, affirmou o direito da União manter se integra é um direito inilludivel em cujo exercido deve forçar qualquer Estado, que tente romper o supremo compromisso, a conservar-se dentro nelle.

186 Almachio Diniz SÃO PAULO E São Paulo promoveu a separação a mão armada. Não a conseguiria jamais está provado solemnemente pelo combate armado que lhe deram seus comparsas por consentimento. Elle manobrou astuciosamente, querendo, de modo evidente, mas negando, para illudir, que o queria. Si victorioso, elle só, contra o Brasil, que lhe deu combate, não haveria força que lhe cohibisse as ambições, porque, omnipoderoso que se tivesse tornado com seus successos na guerra civil, ou proclamaria sua independência, separando-se do Brasil, ou... quem sabe?... desfaria a federação, annexando os demais vinte Estados á sua entidade estadual, e, assim, absorvendo o Brasil, de pleno direito de conquista. Foi por instincto de conservação que o Brasil se defendeu, heroicamente, das ambições de São Paulo, mal conduzido pelas sobrevivencias do reaceionarismo do P.R.P., que a Revolução de 1930 apeou do poder, por sua condemnação de principal responsável pelas desgraças nacionaes. Noticias que mereceriam, pelo menos, certa consideração, nos affirmaram, ou, quando nada, nos informaram de que, em São Paulo, apesar de haver um governador civil, que, interventor feito pelo Governo Provisório, trahiu a confiança deste, pondo o Estado, que lhe estava confiado, contra a autoridade que lh'o confiou, o chefe dos rebeldes militares, general BERTHOLDO KLINGER, em simples ordem do dia, decretara a lei marcial, pretextando sua decretação com a asseveração de que se fazia necessária, para garantir o Estado contra movimentos armados de operários. Não valeria ao general insurrecto a serenidade do Governo da Republica, recusando a pena

A SUA GUERRA DE SECCESSÃO 187 de morte, para casos semelhantes, quando se tratou de regulamentar a punição de rebelliões no território nacional. Não se olharia devidamente o general rebelde, para vêr que a extrema punição, si fosse de nosso instincto adoptal-a, muito mais se lhe applicaria, como causador da maior traição ao governo constituído da Republica, proporcionando ensejo a que, pela anarchia reinante na grandiosa capital paulistana, se insurgisse, coagido por varias causas, o operariado, que foi sempre a alavanca de maior progresso do grande Estado, do que aos infelizes proletários, que se sentissem a braços com esta nova hydra, que foi a plutocracia dos reaccionários decahidos. Aos olhos do governo brasileiro, o general revoltado, no uso de funcções publicas inherentes a seu cargo, teria maiores responsabilidades e culpas, do que o operariado, que, valendo-se da opportunidade propicia, se rebelasse contra as oppressões maiores, motivadas pela indisciplina do general. De sorte que, si ao governo se permittisse decretar a lei marcial, ella, antes de ir attingir os pequenos revolucionários dos bairros do Braz e da Moóca, na capital paulista, attingiria o grande responsável pela borrasca sangrenta, que tem enlutado a alma nacional. Mas, onde seria encontrado fundamento, mesmo no direito de guerra, para a decretação que se disse feita pelo chefe dos rebeldes, afim de applicar-se a pena ultima, summariamente, a homens que, não sendo militares revolucionários, não estariam sob sua jurisdicção de chefe dos insurrectos, principalmente, havendo em São Paulo, uma autoridade civil, que se dizia na direcção do Estado? Ora, o direito penal é de privativa decretação

188 Almachio Diniz SÃO PAULO E da autoridade federal, segundo a letra da Constituiç ponto não revogado pelo decreto n. 19.398, de 11 de Novembro de 1930 (art. 4 o combinado com o art. I o ). Não seria possível, sem que estivesse São Paulo na realização de seu pensamento de achar-se separado da União Brasileira, admittir-se competência a outra autoridade, que não a do Governo Provisório, para decretar uma lei penal. De sorte que a decretação da lei marcial, para São Paulo, não tendo sido, aliás, necessária para outros trucidamentos anteriores, como era voz corrente, ou seria um a cambar camento de funcções privativas do Governo Provisório, ou seria uma demonstração de que São Paulo, já separado do Brasil, poderia ter uma legislação penal differente da deste. Em qualquer caso destes, porém, a applicação da lei marcial, estando ella fora da legislação brasileira, seria a pratica repellente de homicidios, pelos quaes responderia, como seu responsável, perante a consciência da Nação Brasileira, o órgão civil do Estado de São Paulo, que permittisse o lamentável excesso de ser decretada uma lei penal, embora sob a forma de ordem do dia, por autoridade incompetente, emquanto aquelle grandioso Estado estiver dentro do quadro das unidades, que constituem a federação nacional. Nos crimes politicos, a criminalidade, tanto se caracterisa pela acção, como pela omissão. No que está occorrendo em São Paulo, si o general reformado BERTHOLDO KLINGER, fosse o responsável pelos propalados crimes de homicídio praticados contra os operários dos bairros do Braz e da Moóca, por sua acção de decretação da lei marcial, o governador civil do Estado, em movimentos de guerra civil, seria

A SUA GUERRA DE SECCESSÃO 189 egualmente responsável por sua omissão de não vetar a funcção legislativa de que se investiu o chefe dos rebeldes, tanto mais gravemente quanto pelas Leis vigentes no Brasil, nem ao governador referido, seria permit lido, ou facultado, pior ser privativo do Governo Provisório, legislar sobre direito penal. Neste gravíssimo acontecimento, cabendo a maior somma de responsabilidades ao exinterventor PEDRO DE TOLEDO, que teria de responder á Nação Brasileira, afinal, por todos os actos criminosos decorrentes, por todas as vidas eliminadas com fundamento na lei illegal, haveria uma vista de Importante consideração: seria o desembaraço com que São Paulo praticara seu seccessionismo, arvorando-se OS detentores de seus poderes públicos em legisladores ile direito penal, contra as vigentes leis da Republica. Mas, assim, pelo menos officialmente, não aconteceu. Parece que, applicada a pena capital em qualquer prisioneiro (1), não foi absolutamente em virtude da lei mar ciai decretada pelo chefe civil da Revolução, ou de determinação do ebefe militar, em alguma de suas funam bulescas ordens do dia. O Brasil, com a guerra civil, contaminou-se de um mal, como si se contaminasse de uma enfermidade: a radiomania. Assim, o impatriotismo dos politicos paulistas, maior mal fazendo a seu próprio Estado do que á Nação Brasileira, acabou por ser, deante do seu desatino de falsear, ferreteado em brasa, segundo noticias officialmente divulgadas pelo Serviço de Publicidade da Imprensa Nacional e nunca desmentidas. Na faina de fa- (1) Dlvulgou-se que fora fusilado o capitão ÍNDIO DO BRASIL.

190 Almachio Diniz SÃO PAULO E zer-se victorioso, ao separatismo da terra dos ANDRADAS, cubicado pela politicagem decahida, que, só por esse acontecimento, teria probabilidades de resurgir de suas cinzas espalhadas pelo vendaval da tormenta, não bastou a mendacidade para uso interno do Brasil. O que, altas horas da madrugada, pelos microphones paulistas, era mentido aos fanáticos da causa separatista, e propagado, como boatos desmoralizados nos cafés e orlas de passeios da Avenida Rio Branco, si não também nos boletins clandestinos, que se passavam, de mão em mão, para não serem fanados pela luz solar da verdade, tomou destino, por ondas curtas, da Republica Argentina, de onde envenenou a opinião publica do Paiz e do Extrangeiro. Entregou-se a mendacidade forasteira aos microphones platinos e estes, colhidos em boa fé, propalaram as inconveniências paulistas, segundo as quaes o bravo general WALDOMIRO fora envolvido algumas vezes, e morto outras tantas, resurgindo mortos para falarem em seus rádios, e aprisionados e eliminados tantos soldados nacionaes, quantos, com essa eliminação, teriam despovoado o Brasil de homens. As bravatas separatistas foram, porém, tão escandalosas, que causaram suspeitas ás autoridades buenáirenses. Pelo que se communicou, assim, a esta hora São Paulo já teria absorvido o Brasil, e sua separação, dominando toda a união brasileira, seria um facto consummado. O escrupuloso governo da nação amiga interveiu para investigar, por meio de agentes próprios, a veracidade das novas propaladas, ou que se queriam propalar. E o que se apurou foi a deslealdade dos informantes paulistas, pretendendo explorar os microphones platinos com as mesmas

A SUA GUERRA DE SECCESSÃO 191 bdecorosidades com que tinham sido explorados os crédulos brasileiros. Estivemos observando, que numerosas pessoas, na maioria dos casos, prejudicadas em seus interesses pessoaes, de perto ou de longe, pela obra saneadora da Revolução de 1930, passavam as madrugadas inteiras, regulando rádios na esperança de intoxicarem-se com as noticias paulistanas. O radio paulista era como a morphina. Elle proporcionava uma horinha de esperança, assim como o toxico dá momentos de illusorio prazer. O viciado do radio, como o do alcalóide, conhecia que estava fazendo mal a si mesmo engainbelando se com as falsas novidades aventadas pelos microphones insinceros, assim como o outro percebe que a substancia venenosa Lhe vae corroendo as resistências orgânicas. Não se lhe davam os effeitos corruptores da audição malfazeja. Muitas vezes a mentira irradiada chegava depois da realização em comtrario do facto que ella procurava deturpai- ou aunullar. A primeira impressão do radiophilo paulista era a de que o facto não foi provavelmente real, sendo effectiva mente real a falsidade que acabava de ouvir. ES, assim, estabelecida a confusão no espirito publico, O effeito principal das invencionices caprichosas dos rádios era dilatar a indecisão, por uma suspeita, ou ]>or uma duvida, entre as noticias officiaes, segundo as quaes o separatismo de São Paulo se mallograva, desta vez, e a sagacidade estratégica do general reformado estava recuando, diariamen te, em todos os pontos, onde não era a accidentação natural das regiões fortificadas, que determinava o heroismo das resistências. Esta perversão do uso do grande invento, que, pela voz, reduziu a segundos as distancias

192 Almachio Diniz SÃO PAULO E maiores de todo o globo terrestre, queria romper as fronteiras brasileiras, e, com impatriotismo ainda maior, installar-se nos microphones buenairenses. Não se conseguiu o assalto á credulidade universal, que pretendera. E, com as providencias que foram admittidas pelo governo de Buenos Aires, a irradiação paulistana tomou um golpe, que foi assim como a mortalha de sua causa separatista ou o epitaphio dos sete palmos de terra, onde se encovou a pretensão emancipadora, que, victoriosa, seria o desmoronamento da tradicional união perpetua e indissolúvel dos Estados Brasileiros. De então por diante, a mendacidade dos microphones paulistas serviu apenas para as infelizes victimas de sua loucura epidemica, na expressão technica do saudoso professor NINA RODRIGUES, sobre os fanáticos de Canudos, dentro do território brasileiro, as quaes passavam a deixar seus leitos, entre 2 e 4 horas da manhã, para se contaminarem da referida mendacidade de taes microphones... Ainda bem!... Com tudo isto, entretanto, a empreza militar estava morta. A empreza civil fallecia, de momento a momento. Os seus últimos estertores mostraram-se com as prisões de BORGES DE MEDEIROS, no Rio Grande do Sul, e ARTHUR BERNARDES, em Minas Geraes, remettidos presos para esta capital, um, o primeiro, como se affirmou, surprehendido com as esporas que immortalisara as cavalgatas de BEN TO RIBEIRO, e o outro, numa choupana, occulta nas selvas, com um cavallo arreiado á porta, mas ambos recolhidos á Ilha do Rijo, transformada em prisão privilegiada... Assim, militar e politicamente, escabujava a guerra civil. Estava, como o leão da fabula, a esperar a hora

A SUA GUERRA DE SECCESSÃO 193 do tiro de misericórdia, que lhe deu o coronel HERCULANO DE CARVALHO, com a attitude que assumiu e está publicada, com as suas razões, em manifesto, que é significaliva pagina de psychologia humana e... muito humana (1). Conheceu o general <lói:s MONTEIRO a approximação de um desfecho, não porque tivesse mandado o capitão OTHELO FRANCO, que foi de seu estado-maior, afim de, passando se, com salvo conducto, para as forças paulistas, negocial-o com os chefes militares de São Paulo, mas pelo estrangulamento, em todas as frentes, dos exércitos do general BERTHOLDO KLINGER. E, sete dias antes da rendição dos rebeldes, quando as impressões geraes, no Rio e em São Paulo, eram de que, embora enfraquecendo-se, as forças contrarevolucionarias, na razão directa do fortalecimento das Forças nacionaes, a lueta (1> De facto, nesse vasto documento, o coronel HBRCIILANO, expondo.-ni povo de São Paulo as raaões de sua attitude pormenoriza a marcha do grande movimento desde,, u inicio. Não se podi prescindir da sua leitura, quar 'o se que > escrever pelo lado Ana operações guerreiras de São Paulo, a historia do vertiginoso acontecimento: "Demonstra com sensacional pratica, a Impossibilidade em que se viram os chefes militares do movimento para prosegulr na luta. constatada, sobretudo, pela falta de armamento, inferioridade de material belllco e tíe effectivos, por isso que as forcas combatentes, disseminadas nos sectores que compunham as frentes paulistas, não iam nlím de.in.ooo homens. Alonga-se em precisas considerações, demonstrando cine o material belllco de que dispunham as forcas paulistas Ira deffíciente, encontrando-se grande parte das armas descallbradas. Aliudiu A actuação da Imprensa paulista durante es dias do movimento, reconhecendo embora as ciroumstancias em que se encontrava a mesma para que tivesse agido de maneira por que se conduziu. Não exime das suas observações o papel preponderante que Uerceram no animo do povo os iornnes e as estações de radio, raantendo-se permanentemente llludldo quanto á realidade dos aconleclmentos, principalmente quanto as victorias das armas paulistas. "ae nunca se verificaram, Adoenta que era tido e havido entre os membros do governo de São Paulo como responsável pelo que occorria, Principalmente com o seu afastamento do commando do destacamento impinas, levado a. effeito por portaria especial, á revelia do commandante em chefe das tropa, constitucionalistas e Força Publica. Conclue demonstrando que a sua attitude visou tão somente nencia 'vitar a de derrocada ser sacrificado completa se do proseguisse património a luta." de São Paulo, na ímmi-

194 Almachio Diniz SÃO PAULO E perduraria aos revezes de Campinas, de Itapetininga e de Guaratinguetá, o general GÓES MONTEIRO reproduzia, em entrevista ao Correio da Manhan, a visão de paz com que o presidente GETTJMO VARGAS, considerando esmagadas as allucinações separatistas, as fantasias contrarevolucionarias e as tabulações constitucionalistas de São Paulo, illuminou um manifesto lançado sobre a capital do Estado revolucionado. A psycbologia do fim da guerra, para um bom SIGHELE OU LICHTENBERGER, para um arguto LE BOM OU FERRERO, está em linhas precisas nas promessas e nas conclusões daquelles dois documentos, aqui reproduzidos: "AO POVO PAULISTA Já decorreram dois mezes de lueta fratricida e inglória. São Paulo sangra-se nas suas energias e destrôe as suas riquezas. Mais que ninguém, sabem os promotores e directos responsáveis pela rebeldia, que nenhum objectivo superior determinou o doloroso sacrifício imposto ao grande Estado e á Nação. Dirijo-me ao povo laborioso de São Paulo. Quero mostrar-lhe a illegitimidade do movimento em que o atiraram e as intenções subalternas dos seus falsos mentores. Que bandeira desfraldaram e que pleiteiam? Sob o aspecto dos interesses geraes do paiz, reclamam a sua volta immediata ao regimen constitucional. Motivo ideológico para uma revolução, este é inteiramente falho e inopportuno, porque o retorno da Nação á legalidade já fora iniciado, e com data prefixada. Com effeito, decretára-se o código eleitoral, marcãra-se dia para a eleição dos constituintes, organiza ram-se os tribunaes eleitoraes e suas secretarias, autorizaram-se as despesas necessárias e adoptaram-se todas as providencias indispensáveis á execução rápida do

A SUA GUERRA DE SECCESSÃO 195 alistamento. Deante disso, para alcançar o regimen constitucional, só um procedimento se impunha aos leaders politicos: aggremiarem suas hostes, prepararem seus eleitores e acorrerem aos alistamento, confiado á independência e á integridade da magistratura. Sob o aspecto dos interesses civis de São Paulo, que pleiteiam? A autonomia do Estado, o direito de governar-se pelos seus próprios filhos? Mas, tudo isso já estava alcançado. Governava-os um Interventor civil e paulista, um Secretariado escolhido pela própria frente-unica, dispunham livremente de uma força publica de elevado effectivo e notável efficiencia bellica, sob commando autónomo. Para inteira segurança dessa situação, pediram, por ultimo, novo Commandante para a Região Militar e o afastamento de vários officiaes, que taxavam de suspeitos á ordem estal>elecida em São Paulo. Em tudo, foram attendidos. Através de declarações verbaes e escriptas, os membros do governo paulista fizeram, pessoalmente ou por intermédio de seus delegados ao Chefe do Governo, ao Ministro da Fazenda e ao General GÓES MON TEIRO, reiteradas affirinações de seus desejos de cooperação, de solidariedade e de protestos de paz com o Governo Federal. Nada mais tinham a reclamar, nem reclamaram. Marcado o prazo para a Constituinte, as aspirações de ordem nacional estavam satisfeitas: e as de ordem local implicitamente já o estavam com a formação de um governo civil e paulista, tão conforme ft vontade de todos que, deflagrada a sedição, foi mantido integralmente. Não é só. O Governo da União não alimentava, como ainda não alimenta, quaesquer prevenções contra São Paulo. Quando viu abalada a economia do grande Estado, As portas de uma crise que se avizinhava de bancarrota, procedeu como nenhum outro, a começar pelo do próprio Sr. WASHINGTON LUIZ. Para salvar a riqueza de São Paulo e o património dos seus filhos, ameaçados pela retenção de uni stock de café, de cerca de 20 milhões de saccas, frueto das valorizações artificiaes das administrações passadas, o Governo Federal lançou mão de recursos excepcionaes. e, directamente, primeiro, depois por

196 Almachio Diniz SÃO PAULO E intermédio do Conselho Nacional do Café, incorporou á economia paulista nada menos de um milhão e duzentos mil contos! Os benefícios prestados a São Paulo na ordem administrativa também são assignalados. Comprimiram-se as despezas sumptuárias dos orçamentos do Estado e as administrações inunicipaes, egualmente arrazadas pelo desperdício, com deficits alarmantes, sob controle de um departamento especial, foram corrigidas e saneadas e quase todas já encerravam, com saldos, os exercicios financeiros. Criou-se uma apparelhagem apropriada com o fim de attender á circulação de sua rede bancaria, paralysada pelo excesso de congelados e immobilizações de toda natureza, que ameaçavam a estabilidade commercial de São Paulo, principal beneficiário e causa da medida. Si todos os motivos apontados e analysados improcedem ante a realidade dos acontecimentos, como se explica a revolta de São Paulo? Só uma explicação é possível. A ambição do poder, caracterizada por um movimento de revanche contra o de 1930, visando restaurar o passado, recuperar posições e rehaver as prerogativas que lhes permittiam delapidar o erário do povo brasileiro, mediante todas as formas de corrupção administrativa imagináveis. Mas, si tentaram articular um movimento generalizado e fulminante e esse movimento falhou, por falta de elementos decisivos e pela prompta reacção de todo paiz contra propósitos francamente reaccionários, mascarados numa falsa campanha constitucionalista, por que insistiram na lueta? Por que não depuzeram as armas? Por que persistem no derramamento e inútil sacrifício do sangue irmão? Só duas alternativas lhes restam ou ambicionam impor o predomínio de um Estado sobre todos os outros do Brasil, ou querem chegar ao separatismo. Custa acceitar a evidencia de semelhantes intenções, qualquer delias, crime de lesa Pátria, attentado aos próprios laços da fraternidade nacional! Eis a que se reduzem os ideaes dos pseudos regeneradores chefes da sedição desencadeada em nome de São Paulo.

A SUA GUERRA DE SECCESSÃO 197 O povo paulista deve, porém, procurar ver a situação real. Não lhe custará enxergar, então, entre os mais exaltados apóstolos improvisados de seus brios, os mesmos dominadores decahidos que lhes enxovalharam impunemente as tradições de pundonor e altivez. Preconccbidamente, calculadamente, começaram por incital-o a vindictas de offensas imaginarias e prepararam ambiente propicio de excitação collectiva; tudo para que, chegado o momento, se servissem das raras e notáveis energias de Sâo Paulo, atirando-as ao incêndio de uma guerra entre irmãos, a beneficio exclusivo de ambições e despeitos pessoaes. Reaccionários, não perceberam que despeitos e ambições passarão e o Brasil continuará a ascender aos seus destinos, impellido pela energia renovadora da revolução triuinphante em 1930. No Brasil renascente, esta revolta constitue a derradeira investida para a restauração da velha mentalidade olygar- Chlca, siistentacnulo dos clans familiares, cujos reprováveis processos politicos se traduziam em conchavos e accordos clandestinos, feitos ao sabor dos appetites e segundo a conveniência dos poderosos do momento processos que inutilizaram os esforços construetores de varias gerações de brasileiros. As predicas e formulas palavrosas das chamadas frentes únicas apenas mascaravam o anseio de restabelecer, pela força material ou pela imposição de ajustes partidários. o predomínio perdido. Os elementos lnadaptavels ao novo estado de cousas, postos á margem da situação pela incoberencla das attitudes e dubiedade de propósitos, congregaram-se, dominados pelo afan interesseiro de reconquistarem a antiga ascendência, para se perpetuarem nas posições de mando. Explica-se, assim, a razão de suas exigências suecessivas e crescentes. Obtida uma concessão, logo pleiteavam outra e outra, julgando talvez o Governo fraco, quando era somente tolerante e apaziguador. Ninguém melhor que o General FLORES DA CUNHA, mais de unia vez delegado das frentes uniras, ponde apreciar as disposições harmonizadoras

198 Almachio Diniz SÃO PAULO E do Governo Provisório e a sua attitude conciliatória ante as exigências intermináveis dos politicos. Homem de honra, por isso mesmo, ao comprehender quanto se tramara occulta e excusamente em nome do Rio Grande, que não fora ouvido, tomou elle a única attitude que a dignidade do próprio Rio Grande lhe impunha, reagindo contra a insidia premeditada e transformando a sua bravura e lealdade no anteparo invulnerável, em que se apoiou a resistência da nação, para enfrentar a torrente reaccionária e anarchica. O Governo Federal sente-se militarmente forte e prestigiado pela solidariedade do resto do paiz. Neste transe decisivo, representando os principios vitaes da nacionalidade, Exercito e Marinha, patrioticamente, attenderam ao appello da Nação, ameaçada na sua estabilidade orgânica por mal inspiradas tendências de um regionalismo exaltado. A' Marinha coube a missão árdua e exhaustiva de assegurar as vias de communicações litoreanas, de fazer respeitada a nossa soberania marítima e manter o fechamento dos portos, impossibilitando aos rebeldes o contacto com o extrangeiro e, consequentemente, a acquisição de armas e apparelhos de guerra. O que representa de esforço, de abnegação, de tenacidade, de bravura, em summa, a vigilância ininterrupta e activa das nossas unidades navaes, nestes dois mezes de lueta, vencendo a carência de material envelhecido e gasto, enaltece e patenteia o valor da Armada Nacional. Por sua vez, a espontaneidade com que as forças de terra se mobilizaram, afim de atacar os rebeldes nos seus reduetos, sobrepondo-se, pelos seus melhores elementos, á propaganda subterrânea e dissolvente dos empreiteiros da desordem, evidencia a alta e nitida comprehensão dos deveres que lhes assistem, na defesa, dos magnos interesses da Pátria. Combatendo intrepidamente, com admirável denodo e exemplar devotamento, o Exercito está solidificando, nas agruras da lueta, a sua estruetura technica e moral. Força eohesiva da Federação, esqueceu dissenções e rivalidades intimas, e permaneceu leal ao Governo, batendo-se para salvar o Brasil da preponderância de uma politica nefasta i que poderia leval-o

A SUA GUERRA DE SECCESSÃO 199 ao desmembramento. Dos combates, a melhor escola do soldado, sahirá rejuvenescido e homogéneo, pelas próprias imposições da guerra, que seleccionam as vocações e competências militares. Os benefícios que lhe advirão dessa prova de resistência á desordem serão incalculáveis. Integrado na disciplina e no respeito hierarchico, afastar-se-á naturalmente das competições politicas para se aperfeiçoar e cumprir a sua nobre e elevada missão de garantia da paz interna e da dignidade nacional. Secundando as forças armadas, todo o resto do paiz unificado por idênticos sentimentos de civismo, apressou-se a trazer ao Governo o valioso concurso dos seus contingentes militares, rapidamente improvisados, por tal forma espontâneos e abundantes que excluiu desde logo, a necessidade de convocar reservas, limitundo a Incorporação ao voluntariado. Atravéz desse movimento admirável da vontade nacional, reage o Brasil, coheso e consciente dos seus destinos, sobranceiro aos sacrifícios e ao choque das ambições sem freios, cada vez mais fortalecido na sua unidade e soberania. São Paulo está isolado. Fracassaram todas as tentativas feitas para articular a sedição em outros Estados. Os exércitos federaes fecham, cada dia mais, o cerco da sua offensiva dentro do território paulista. E, precisamente, a realidade da situação não n'a dizem os interessados em sacrifical-o. Os destacamentos federaes já ultrapassaram, no valle do Parahyba, as linhas de Piquete e Lorena, na frente mineira penetraram até Amparo, ameaçando Campinas, e ao sul, estão ás portas de Itapetininga. Toda resistência contraria á ordem ideal da Republica Nova, visando a nacionalidade, continuará inútil o não Impedirá que, dentro de poucos dias, avançando, por dever, as tropas legaes oceupem novas posições, decisivas para a ultiniação da lueta. Apesar entretanto de qualquer preponderância militar, IneontrastaveL o Governo Federal, longe de pretender anniquillar ou humilhar são Paulo, aspira. com todos os Estados da União, trazei-o de novo ao convivio da communbão nacional. Pessoalmente, como Chefe do Governo não me animam.

200 Almachio Diniz SÃO PAULO E na lueta que nos foi imposta, paixões ou propósitos vingativos. A' frente do Governo Provisório, instituído pela revolução de 1930, não defendo posições mas o património ideológico do irresistível movimento contra o qual se levanta o reaceionarismo em armas, tentando galgar o poder, sob o pretexto de um falso programma constitucionalista, condemnado pela opinião publica, segundo proclamavam os próprios agitadores que se fazem agora seus arautos e paladinos. Quando candidato da Alliança Liberal, para salvaguardar a paz da Nação, momento houve em que cheguei a offerecer a desistência da minha candidatura em troca da realização do programma mínimo das reivindicações pleiteadas, amnistia e reforma eleitoral. Encontrada uma resistência impermeável a toda idéa generosa, deeidiu-se, então, pela lueta armada, o dissídio irremediável aberto entre a Nação e os seus governantes. Desencadeou-se o movimento nacional, cujo Governo me coube chefiar, sobranceiro aos embates politicos. Hoje, no exercício de tão alto posto nacional, diante de uma reacção rebelde que apresenta, como razão precípua, a volta rápida do paiz ao regimen constitucional, aspiração a realizar-se pelas opportunas determinações do Governo, a breve termo, não hesitei afim de assegurar a pacificação da família brasileira, em offerecer uma Constituição immediata, a vigorar provisoriamente até que a futura Constituinte promulgasse o definitivo estatuto político do paiz. Pois bem, os pseudos constitucionalistas recusaram a solução pacifica que se lhes offerecia, preferindo insistir na lueta inglória e impatriotica, provocada e assistida, sem símile, nos annaes da nacionalidade. Semelhante recusa equivale a confessar tacitamente que o objectivo do movimento não ê implantar a Constituição e, sim, outro oceulto, disfarçado a posse do poder. O sangue generoso dos brasileiros continua a correr, immolado aos propósitos dos homens que, falando em ideal, a elle não quizeram submetter-se, fazendo questão de permanecer nas posições que oceupam, depois de haverem trahido a confiança de quem lh'as entregou. O Governo Provisório

A SUA GUERRA DE SECCESSÃO 201 tem dado abundantes provas de suas dlaposiçõee pacificas. Nunca se chegou a ouvir os appellos da paz. Forte, porém, generoso, aos intermediários que lhe pediram condições, declarou sempre! com franqueza, que depostas as armas pelos rebeldes além da concessão de uma Constituição provisória e da manutenção de um governo civil e paulista, ao nível da cultura e das aspirações do Estado, a todos trataria com benignidade, de sorte que ninguém soffresse constrangimento e os brasileiros, sem excepções, voltassem a viver fraternalmente, num ambiente de ordem e segurança. Os chefes da revolta civis ou militares por ella responsáveis, preferiram Sempre ft realização dos apregoados imperativos do movimento, manter-se no poder que haviam deshonrado pela felonia e pela trahlçâo. A única preoecupação orientadora desta attitude serena e conciliatória consiste em evitar o derramamento do sangue de irmãos e os sacrifícios niateriaes exigidos pela lueta armada. Toda politica financeira de severa poupança, estabelecida pelo Governo Provisório, ficou ameaçada pela rebellião. Klla consumirá, também, a fortuna particular e lavrará profundas cicatrizes na alma da nacionalidade. Contrasta com esta maneira patriótica e superior de encarar os acontecimentos a duplicidade de attitudes dos chefes sediciosos - duplicidade que bem demonstra a fé púnica com que corresponderam á confiança nelles depositada. Kmquanto, recebiam e enviavam emissários de paz, autorizavam outros a agir junto aos elementos de prestigio, solidários com o (íoverno Federal, tentando desvial-os do caminho do dever mediante promessas falazes, e até offertas de lhes entregar o Governo do paiz, como si este estivesse a leilão. Com gente do tal estofo moral não é mais possível entendimento. Os processos de insidia e fraude de que tém utilizado não cabe dcscrevel-os, aqui, em suas minúcias. Para preparar a lueta e sustental-a, todos os meios de felonia e corrupção foram esgotados. A propaganda pela imprensa e pelo radio visando impressionar e captar sympathias, obedece ao critério da mentira systeinutlca da exaltação demagógica. Esque-

202 Almachio Diniz SÃO PAULO E eidos de que o meio apropriado para conseguir a harmonia nacional consiste, sobretudo, em trabalhar pela ordem negando apoio aos que a perturbam, audaciosamente instituíram, sob novos moldes, a offensiva da paz, com caracter francamente derrotista á retaguarda dos nossos Exércitos, com o fito apenas de lhes enfraquecer a efficiencia belliea e diminuir o seu ardor combativo. Para movimentar e manter tão impatriotica campanha, o desperdício do dinheiro de São Paulo, suor de seu povo laborioso e honesto, vae aos extremos do suborno e da compra de consciências, a ponto de tornar suspeita toda e qualquer solidariedade manifestada fora das fronteiras paulistas. Mercantilizou-se tudo, inclusive as convicções. Este movimento, inspirado em propósitos reprováveis, com o caracter de uma contrarevolução, havia, fatalmente, de fracassar. Não pôde vencer quem para fazer vingar objectivos excusos não hesita em ameaçar a própria unidade da Pátria. Mas, felizmente ainda, a sedição não partiu do povo varonil, ordeiro e honesto de São Paulo. Audaz syndicato politico-militar usurpou-lhe a vontade, jogando o Estado numa aventura sinistra e, receioso de receber pelo ludibrio praticado, o merecido e inevitável castigo, tudo fará agora para lhe oceultar a verdade. O Governo Federal não considera o povo paulista culpado. Elle é, apenas, a maior victima. Os verdadeiros responsáveis hão de encontrar nelle, á hora precisa, o juiz inflexível, capaz de ditar e executar a sentença que lhe terá de ser imposta. São Paulo, illudido na sua boa fé, ludibriado, arrastado ã ruina e á perda de vidas preciosas, precisa e deve reagir em defesa dos seus sagrados interesses para evitar maiores e irreparáveis males, erguendo-se e oppondo-se á sanha dos seus algozes, que não trepidaram em atirar á morte as novas gerações bandeirantes, e enlutar e reduzir â miséria lares onde imperava a alegria e reinava a abundância. Do Governo Federal não receie o laborioso povo paulista qualquer acto de humilhação e hostilidade. Como até aqui. elle continuará a proceder sobranceiro a ódios e com alto

A SUA GUERRA DE SECCESSÃO 203 espirito de magnanimidade. O seu poder de assistência, mesmo no decorrer da lueta, far-se-á sentir, acolhendo fraternalmente aquelles que abandonarem as armas e não permittindo que as populações pacificas soffram as vicissitudes communs á guerra. Ainda agora, informado da escassez de trigo em São Paulo e da consequente falta de pão, está disposto o Governo a autorizar a remessa do stock desse cereal existente nesta capital, e que lhe era destinado. O povo pau lista não soffrerá necessidades. O Governo Provisório tudo facilitará para que os géneros de alimentação lhe não faltem. Os embates da lueta fratricida vão se tornando cada dia mais ásperos e de maiores sacrifícios. E' tempo, ainda, de São Paulo recuperar a posse de si mesmo, sem consentir no desbarato das suas fontes de vida e das suas riquezas, accnmuladas em séculos de trabalho fecundo e modelar. Retorne, pois, ás lides pacificas e ao convívio fraternal dos demais Estados, que sempre se orgulharam do seu progresso e civilização! Rio de Janeiro, 20 de Setembro de 1932. GETUIJO VAURAS." Sente-se no longo escripto do presidente GKTULIO urna nitida repercussão do anseio nacional pelo fim da lueta. E elle, sem comprometter comtudo, a chefia do Governo Provisório, de que não tinha o direito de abrir ruão, esboçou um tratado de paz, com que, possivelmente, se realisaria, não a rendição dos rebeldes, mas a finali- Mção da lueta. Urdida com as mesmas objectivas, em sua entrevista, a pacificação foi dita, como seria possível, pelo general GÓES MONTEIRO, dando a impressão, que se desfaz, i>ela antecedência do manifesto do chefe do Governo Provisório, de que ao commandante militar de um dos sectores da frente dictatorial. cabia a funcção,

204 Almachio Diniz SÃO PAULO E egualmente nobre, de chefe das forças politicas em jogo na grande rebellião. Disse o general, portanto, secundando as palavras do manifesto do presidente GETULIO VARGAS : "A paz é, de facto, incontestável anceio de toda a nacionalidade, mas não deve visar unicamente a cessação das hostilidades militares, desencadeadas, voluntariamente, por São Paulo contra a União, sob o falso presupposto da constitucionalisação do paiz. Ella, também, não deverá assentar sobre bases movediças, como seja a restauração disfarçada do predomínio dos politicos decahidos e da plutocracia. Deve visar a verdadeira união entre os brasileiros, pelo estabelecimento de uma nova ordem de cousas, de modo a evitar a reproducção dos erros do passado, a fortalecer os laços federativos, a apagar as dissenções, a castigar os réprobos e a dar o bem estar ao povo brasileiro, creando a estructura da ossatura das novas instituições do Estado brasileiro, sob a condição precípua da cooperação efficaz de todas as classes e profissões, melhor distribuição das riquezas, encaminhando a solução dos problemas politicos, sociaes e económicos, não como era feito no passado: para satisfação de interesses oligarchicos, plutocraticos, particularistas, facciosos, regionalistas e até personalistas; mas, sim, sob o prisma do nacionalismo, creando a mentalidade própria para esse fim. Dessa paz deverá sahir a convicção de que "o Brasil deve estar acima de tudo" e, portanto, tudo quanto sirva para fortalecer essa idêa deve ser aproveitado; tudo quanto fôr contra, mesmo implicitamente, deve ser combatido. Após tantos sacrifícios, não se pôde admittir uma paz gerada e negociada á rectaguarda por personagens duvidosos, sem a preliminar "deposição das armas pelos paulistas!" Não se trata de humilhar São Paulo. As armas pertencem á União, única entidade juridico-politica com competência para possuir armas, na accepção bellica, porque lhe pertence fazer ou deixar de fazer a guerra.

A SUA GUERRA DE SECCESSÃO 205 A União (Brasil) delega ás partes componentes (Estados federados) e ás instituições próprias (Exercito, Armada, ec.i, para a sua segurança, a posse de instrumentos de guerra, e a qualquer tempo pôde retomal-os, pois si ella é soberana as unidades são simplesmente autónomas. Mesmo o armamento de guerra adquirido licita ou illicitamente pelas unidades federativas, pelos particulares, pelas instituições, etc, pertencem, de direito, á União, pois esse armamento sô poderá ser destinado á defesa interna do paiz, 0 que é da exclusiva competência do governo nacional. A distribuição, uso e posse desse armamento por qualquer organisação militar, estão subordinados ás normas e regras que a União fixar. Nos casos, como 0 actua], em que foi posta 6 prova a segurança nacional, é illogico pretender limitar ou recusar essa competência sob qualquer pretexto ou sophisma. A União, para restaljelecer as garantias de ordem militai e estas só podem consistir na entrega das armas e demais materiaes bellicos dos revoltosos, porque incontestavelmente pertencem á mesma União. Depois, ella fornecerá a São Pau lo o que for imprescindível, permittindo-lhe a posse e o uso de armamento para as organisações militares que o Estado deva e possa manter. De outro modo, é reconhecer uma soberania doutro da soberania nacional, é alimentar precedentes seccessionistas. Uma vez regulada a questão da deposição das armas e RUbmissKo ao poder federal, representado pelo governo ludo deve ser feito para completar a paz material com a paz moral, afim de cicatrizar as feridas abertas no organismo da Nação, enfrentar os terríveis problemas de ordem economico-social de após-guerra, com o completo apaziguamento dos espíritos." Nesta altura, o general GÓES MONTEIRO teve que suspender a redacção desta declaração, para ouvir o major JUABEZ TÁVORA, que acabava de chegar do Rio de Janeiro, em missão especial. Uma hora depois, retomando a escripta, assim concluiu a sua declaração:

206 Almachio Diniz SÃO PAULO E "Como medidas de matéria politica immediatas, podem ser aconselhadas as seguintes: Amnistia, menos para os que evidentemente provocaram a lueta em satisfação de appetites e despeitos pessoaes e facciosos ; novo governo de São Paulo, attendendo ás aspirações das principaes correntes de opinião; lei orgânica das forças militares do paiz, sob bases modernas, impedindo a intromissão de militares da activa na politica, e expurgando os incapazes; promulgação de uma constituição provisória, ad referendum da Assemblêa Constituinte, tratando da organização da producção nacional e do trabalho, creando novas instituições e poderes do Estado brasileiro, etc. ; governo de união nacional; lei do enriquecimento illieito e outras medidas de saneamento e de protecção contra as fraudes e fraudadores. Estabelecidas estas medidas básicas, as circumstancias determinarão as necessidades e possibilidades de acção do governo, para reorganizar a Nação e restaural-a da grave crise que a avassalla. Um passo inicial que pôde conduzir a um resultado pratico no campo politico é a organização da opinião publica, sob o influxo do espirito social-nacionalista. Nas suas linhas mestras, é este o pensamento dos que combatem pela integridade do Brasil!" Entretanto, si a 20 de Setembro lançava o chefe do Governo Provisório o manifesto seduetor para uma pacificação, a 29 do mesmo mês, quando já vinha em alta madrugada o dia da deposição das armas paulistas, não esteve laçado para, com liberdade, assignar um decreto, dispondo sobre o processo de julgamento de crimes militares praticados nas zonas de operações de guerra ou

A SUA GUERRA DE SECCESSÃO 207 território militarmente occupado (1). O crime politico, verdadeiramente, não ficou punido, em suas principaes características, pelos termos da lei publicada, senão em seus aspectos jmilitares. A tendência hodierna, entretanto, seja dito de passagem, é para enquadrar o mais possível, contrariamente ao que está feito no dito Decrete, n 21.886, de 29 de Setembro de 1932, o crime militar no foro civil; na verdade essa ultima lei brasileira transfere a acção penal, contra todos os civis, do foro comunioi para o foro militar, ou de excepção, quando se trate de crimes militares, ou previstos no Código de Justiça Militar (Arts. 349 a 353 e 359), approvado pelo Decreto, n 17.231 A de 26 de Fevereiro de 1926. O Governo orientou-se, para tal medida tomar, com o facto (1) Decreto, n. 21.886, de 29 de Setembro.le 1932. Dispõe sobre o processo de julgamento de crimes militares praticados nas zonas de operações militares ou território militarmente occupado e dl outras providencias. O chefe do Governo 1'rovisorlo dos Estados Unidos do Brasil no uso de attribuições que lhe confere o decreto n. 1!». 398, de 11 de Novembro de 193o decreta: Artigo 1. Na rigencla do actual estado de commoç&o Intestina, serão observados no processo de julgamento dos crimes militares, os Artigos 349 a 168 e :i ṛ >!i do Código de Justiça Militar, approvado Pelo decreto n. 17.231-A, de 26 de Fevereiro de 1926, Artigo 2.» Os Conselhos de Justiça, a que os mesmos Artigos se referem, appllearao as penas de legislação em tempo «le guerra, COM exclusão da pena de morte, que será convertida na de prisão com trabalho por trinta.-umes. Artigo :!." Pica sujeito ao foro Instituído pelo presente decreto todo individuo, militar ou civil, que tenha praticado ou pratique, nas zonas de operações militares OU em território militarmente occupado, qualquer crime previsto naquella legislação. Artigo 4. Sao creadas, de accordo com o Artigo 352 do Código ou Justiça Militar, os Conselhos Superiores de Justiça, que funeeionarao como tribunal de segunda Instancia, ou, junto ao Destacamento do Exercito de Leste e outro lunto ao Destacamento do Exercito do Sul. Artigo 6."> Os Conselhos Superiores de Justiça reger-se-ão pelas normas de processo estabelecidas no Código da Justiça Militar e no nento Interno do Supremo Tribunal Militar no que lhes for «rei. Artigo 8." Revogam-se as disposições em contrario. Rio de Janeiro, 29 de Setembro de 1932, 111 da Independência e- 44- da Republica. (aa) OetuHo Var.ias. Augusto Ignmeio do Espirito Santo Cardoso"

208 Almachio Diniz SÃO PAULO E de enveredarem os paulistas pela pratica de actos contra as leis de guerra universalmente consagradas. Em qualquer phase da lueta, foi uma sede de sangue, que perturbou os espíritos dos chefes militares do seccessionismo paulista, para lhes armar a aviação com bombas que se despejavam sobre os próprios lares de famílias paulistanas, restabelecidas nas cidades apresadas pelas forças do Governo Provisório. Não foi, por certo, uma determinante de vencer, mas foi uma obsecação de matar, contra todas as leis de humanidade, e contra todas as leis de guerra, assentadas, ainda agora, sob o prestigio dos canhões, pelos povos cultos. Duas autoridades militares, de pontos diversos do "front" dos combates, annunciaram as múltiplas violências dos aviões de São Paulo, mostrando que os bombardeios aceusados, por sua repetição em pontos diversos, não foram obra do excesso de partidarismo de um ou outro sectário do prussianismo de BERTHOLDO KLINGER, mas acção provinda de deliberações superiores, executadas, sem remissão, por quem obedecia, não tendo iniciativas próprias. Os bombardeios visavam pontos, por sua própria natureza, ditos neutros, pela sciencia do Direito Internacional, em suas tentativas de codificação, pelos chamados signaes da convenção de Genebra. Em Capão Bonito, localidade oceupada pelas forças da Dictadura, foi o Hospital de Sangue o alvo preferido, fazendo os aviadores carniceiros o esforço de lançarem os prejectis exactamente sobre a grande cruz vermelha, que assignalava aquelle lugar sagrado pelas próprias leis da guerra, resultando desse attentado a morte de um soldado que ali trabalhava como padioleiro

A SUA GUERRA DE SECCESSÃO 209 e o ferimento de diversos auxiliares do serviço hospitalar. Em Bury, eguaes desenvolvimentos da aviação militar das forças de KLINGER victimaram, por lançadas bombas, sem o devido respeito aos principios comezinhos do direito de guerra, em sitios inatacáveis por sua pro pria condição, uma mulher e uma criança. Foi a loucura infernal de matar, sem objectivo de victoria. Os emprehendimentos, em que a deshumanidade do prussianisnm reinante preponderou, iteraram-se em diversas localidades já pacificadas, e onde as famílias paulistas tornavam a seus labores, confiantes na grandeza de amparo que lhes davam as tropas do general Góus MONTEIRO, ma.- já então, receosas do ataque fratricida de seus próprios irmãos paulistas. Assim, veiu acontecendo em Cachoeira, Amparo, Lorena, Itapira, Mogy-Mirim e Pedreiras, "onde já estavam em seus lares muitas famílias que escaparam ao desespero exigido pelas tropas paulistas". A carniceria descobria se em attentados consecutivos. Para os soldados de KLINGER, montados em aviões e incumbidos lo bombardeio, os paulistas não mereciam o respeito de vida, porque foram reconquistados pela civilização bra ileira. A vindicta que se exerceu, desproporcionando os processos da guerra universalmente admittidos, não teve precedentes em actos das forças governistas, das verdadeiras forças revolucionarias, porque faziam a defesa do movimento victorioso em Outubro de 1930. Foram praticas sem paridade em outras das tropas do Governo Provisório. O espectáculo foi inédito nos campos da lueta paulistana, não podendo representar um direito de represália em exercício. Entretanto, caberia exercer esse

210 Aimachio Diniz SÃO PAULO E direito ás forças nacionaes, como represália á indi do bombardeio constatado em diversos lugares, onde reingressaram famílias e famílias paulistanas. O Estado Maior do Exercito de Leste affirmou, então, com a respeitabilidade de sua palavra nunca desmentida, que, "apesar das constantes communicações mentirosas das estações radiotelegraphicas, de São Paulo, ainda não bombardeáramos uma cidade ou um objectivo que não tivesse clara significação militar." Não era, pois, o que estavam praticando criminosamente os soldados aviadores e bombardeadores de PEDRO DE TOLEDO, que, por vezes, ha de ter remoido, em silencioso remorso, suas traições aos revolucionários de 1924-1926, e de BERTHOLDO KLINGER, que commandon prussianicamente um exercito para o qual não houve leis de guerra. O commando das forças nacionaes não prometteu pena de Talião: bem merecida seria ella. Mas advertiu o inimigo de que "lhe ficava a responsabilidade pelas medidas, que seriamos forçados, na defesa da communhão brasileira, contra o seccessionismo paulista, e, mais do que isto, NA DEFESA DOS PRÓPRIOS PAU LISTAS, a tomar em represália aos bombardeamentos de cidades da retaguarda do exercito nacionalista, nas quaes já se repatriaram famílias de paulistas e de outros brasileiros, bem como de extrangeiros, que collaboram no engrandecimento de São Paulo." Houve uma legitima prevenção de que, si os attentados proseguissem, si cidades já pacificadas e nacionalizadas, fossem de novo attingidas pelos bombardeamentos dos rebeldes, faríamos bombardear as cidades do valle do Parahyba e mesmo a de São Paulo. Foi ao que deu lugar o prussianismo do general

A SUA GUERRA DE SECCESSÃO 211 BERTHOLDO KLINGER. E O desenvolvimento da lueta, dadas as circumstancias com que ella se vinha revestindo, teve uma objectiva eminentemente piedosa: foi libertar São Paulo das garras aduncas dessa águia insaciável de sangue e inconsciente de suas deliberações. Fez-se meritória a acção de tomar São Paulo da insanie de BEI:- THOLDO KLINGER. As noticias, que, aos poucos, sempre chegaram de São Paulo, exhuberaram-se nas provas de que o seccessionismo paulista já deixava de ser, em relação a certos acontecimentos, uma simples ambição a realisar-se, para ser um facto, sob vários aspectos consummado. Relacio narei o que, aos poucos, vinha sendo divulgado, com certa segurança, em todos os tempos da guerra, por meio de jornaes de lá e por intermédio de testemunhos pessoao aqui chegados. Não foi pouco significativa a noticia, com o flagrante de uma photographia, da chegada A cidade paulistana, de um " Batalhão d'oeste", sem ser desfral dada, em sua formatura, a bandeira nacional do Brasil, mas, apenas, a bandeira... nacional, de São Paulo. Parecia, assim, que o pensamento de São Paulo separatista. cia o de que seria usar uma bandeira extrangeira usar a da federação nacional a que elle pertencia, e a que ha de pertencer, serenados os ânimos, quando nada confe deradamente, e emquanto, numa instinctiva defesa de conservação nacional, forças tiveram todos os outros Estados para abafar, desde que extinguir não possam, o emancipacionismo reaccionário da terra dos ANDRADAS, No topo desses batalhões, nos mastros dos seus edifícios ptiblicos, por toda a parte, foi condemnada a bandeira

212 Almachio Diniz SÃO PAULO E brasileira, para só tremular, fanaticamente, a de São Paulo separatista. Depois desse feito da applicação exclusiva da bandeira paulista um triste pavilhão com a côr do lucto em abundância, como que a symbolisar o pesar da alma de seus filhos pelos erros de seus homerus públicos não era menos significativa, como expressão de seu separatismo impatriotico, a emissão de dinheiro próprio, de vários valores, com o qual procurou oppôr uma economia estadual, puramente local, a uma economia de todo o Brasil. Dentro de nossa organização federativa, conservada pela lei orgânica do Governo Provisório, a faculdade de emissão de dinheiro, mesmo sob o caracter especial de bónus, é privativa do governo da Republica, excluídos os Estados preliminarmente dessa faculdade. Só por considerar-se separado do Brasil, ou, pelo menos, libertado de sua disciplina orgânica em face do poder central da Nação, o Estado de São Paulo, explorado por seus politicos reaccionários, como uma presa de guerra. emittiu dinheiro próprio, deixando de ser uma ideologia seu seccessionismo para se tornar, na matéria uma das mais graves e importantes no apparelho das relações dos Estados com a União uma realidade, que já tem custado muitos sacrifícios ao Paiz, e muitos outros ainda, porque tudo o Brasil ha de fazer para manter sua integridade nacional. Separado pela bandeira e pelo dinheiro, factos consummados ao conhecimentos de todos, o Estado de São Paulo praticou outros actos, que definem materialmente sua separação: sendo faculdade egualmente privativa da União legislar sobre o direito penal brasileiro, foi propalado que, sob o pretexto de carecer de

A SUA GUERRA DE SECCESSÃO 213 meios enérgicos para dominar movimentos, o governo paulista decretara, ou deixara decretar, unia lei, sem fórmula legal ou na de simples "ordem do dia", estabelecendo a pena de morte contra os proletários, de nacionalidade extrangeira, principalmente, que mourejam a vida nos bairros do Braz e da Moóca. Avocando, portanto, mais ma attribuição privativa do Governo Federal, o Estado de São Paulo, ter-se-ia desligado da União, de quem, formando-se brilhantemente, recebeu todos os necessários recursos e applausos para conquistar o brilho impar, em que, incontestavelmente, se collocou na civilização brasileira. Por tudo isto, reconheça-se que o seccessionismo de São Paulo baixou de uma pura ideologia para uma inequívoca realidade. O Brasil unido defendeu se, porém, de São Paulo seccessionista! Prevaleceu o instincto de conservação do lodo nacional contra a possível deserção de uma d«suas partes mais importantes, o que, evitado por agora, proseguindo I marcha evolutiva de sua organisação social, nem sempre será evitado. Foi talvez antecipado o movimento separatista de agora, e, por isto, foi São Paulo carente de empregar falsas allegações seccessionistas, Effectiva mente, no pedido de reconhecimento de belligerancia, com que São Paulo se dirigiu ás potencias estrangeiras, einbora não affirmaudo um governo nacional, que. de facto e de direito, não podia ter, houve uma assignalação que revelou a preoccupação separatista que orientava a revolução, a mão armada, em que se empenhou. Essa assignalação consistiu, simplesmente, na pretendida annexação do Estado de Matto Grosso ao Estado de São Paulo.

214 Almachio Diniz SÃO PAULO E Foi um inqualificável desatino em que afundaram os r accionários da Paulicéa. A incorporação, que se disse estar feita, foi de todo improcedente e irrealizável. Improcedente, porque foi irrealizável e irrealizável, porque foi improcedente. Não procedeu, Matto Grosso não se incorporou a São Paulo, nem por vontade própria, nem por conquista paulistana. O Estado de Matto Grosso, com um governo próprio, dominando em toda sua vastidão ter ritorial, manteve em perfeita actividade sua soberania de unidade da federação nacional. Lá esteve sempre regularmente installada a interventoria federal, exercida por um interventor de nomeação e de confiança do Governo Provisório. Lá esteve em perfeito funccionamento o serviço publico. A justiça funccionou com entendimentos directos com o interventor federal. O exercito, que lá pugnava pela soberania brasileira, foi mantido e admi nistrado pelo governo da Republica. E todas suas autoridades se corresponderam unicamente com o Governo Provisório. Por consequência, a incorporação do Estado de Matto Grosso ao Estado de São Paulo foi de todo improcedente. E si houvesse, por acaso, alguma potencia extrangeira que julgasse o pedido dos rebeldes de São Paulo objecto de deliberação, ao investigar a veracidade de suas allegações, haveria de surprehender o governo local de São Paulo numa abominável mendacidade, affirmando uma incorporação que não existia absolutamente. Improcedente, assim, essa incorporação foi egualmente irrealisavel, não se poderia jamais realisar, o que só poderia acontecer, numa das hypotheses, ou de conquista feita pelo Estado de São Paulo, ou de vontade expressa

A SUA GUERRA DE SECCESSÃO 215 do Estado de Matto Grosso. Mas, nem São Paulo tinha elementos materiaes para conquistar, e, muito menos ter conquistado Matto Grosso, nem Matto Grosso, pelo propósito, que veiu demonstrando, respeitando o interventor que lá estava, como delegado do Governo Provisório, abriu mão de sua soberania de unidade constitutiva da federação brasileira. Foi publico, assim como tem sido efficiente, o combate que, ao lado do Governo Provisório, as forças estaduaes de Matto Grosso vieram dando resolutamente a escassas hostes revoltosas, que se encontraram nos limites de seu território com o Estado de São Paulo. Emquanto o altivo povo mattogrossense, infestado pelas autoridades constituídas, sob a égide do Governo Provisório, não abrisse mão de seus direitos estaduaes, a incorporação, a que alludiu o pedido de São Paulo seria de todo irrealisavel. Seria também o que, á menor investigação, verificaria a potencia extrangeira que se propusesse a um inquérito sobre as bases articuladas pelo governo local de São Paulo, para o reconhecimento de sua belligerancia (1). A um Brasil extenso, composto de mais de 20 unidades federadas perpetua e indissoluvelmente, o governo de São Paulo, pbantasiando uma incorporação, que não existiu e não existiria nunca, porque a União Brasileira não deixaria, empregando neste sen tido, efficientemente, seus numerosos exércitos para combate dos insurrectos, que desfraldaram o sangrento lábaro da seccessão, opporia, como oppóz, não só a falsidade de sua integridade territorial, na medida que nossa confiei) ALMACHIO DINIZ, DO reconhecimento da belligerancia, terceiro manifesto scientifico, Rio, 1983.

216 Almachio Diniz SÃO PAULO E guração geographica lhe permittia, pois, as tropas do governo nacional occupavam vastas zonas do sul até Bury e ao norte até Silveira, como também a mentira da incorporação do Estado de Matto Grosso. Sem forças para realisar sua separação, muito menos teria o reaccionariosmo paulistano, sob um criminoso aspecto imperialista, forças para incorporar Matto Grosso a São Paulo. Tudo indicava, portanto, que o Brasil, na defesa de sua federação, teria de reconquistar, como reconquistou, mais depressa do que se esperava, São Paulo das mãos de alucinados impatriotas. A seccessão projectada foi embargada por toda a nação brasileira. As forças rebeldes recuavam sempre. E á medida que esse recuo se verificava, era a victoriação do grande Brasil unido que se fazia! Mas, assim preparado soturnamente para a grande guerra civil, que fez irromper com a occupação de cidades do Estado do Rio de Janeiro e de Minas Geraes, a 9 de Julho de 1932, São Paulo lançou, por obra nefasta dé seus politicos contrarevolucionarios, um cartel de desafio ao Brasil, á Republica e á Federação. Ao Brasil, porque. unidade de uma organisação federativa, cuidou de, pelas armas, proclamar sua independência, sob a ameaça de esmagamento de quem não o seguisse na aventura sangrenta. A' Republica, porque esta se constituiu sob a expressiva modalidade de Estados Unidos do Brasil, fazendo-se perpetua e indissolúvel a união dos Estados. provindos das antigas províncias, com a mesma physionomia social, com a mesma estructura territorial, com o mesmo fácies provinciano. E á Federação, porque, se

A SUA GUERRA DE SECCESSÃO 217 do esta a forma eleita para a unidade nacional, querer quebrar esta, seria, num gesto só, fragmentar a Federação, com que, fortes e identificados, vinte e uma unidades que sempre fomos, occupamos saliente lugar na politica internacional da America. Mas, bem cedo, o povo paulistano, engodado pelos cantos das sereias politicas, deveu ter cahido na mais dolorosa das desillusões. Sitiado e bloqueado, seu torrão foi sempre a camiuho de privações, que nunca soffrera, pois se annunciava a falta de elementos de vida, que jamais ali escassearam. E, invasoras de territórios vizinhos, suas tropas armadas para a sangrenta lueta fratricida, foram sendo, aos poucos reebassadas e expulsas completamente das terras mineiras e fluminenses, cujas cidades, inicialmente oceupadas, numa investida célere, foram retomadas, reintegrando se em seus conjunctos estaduaes. Não se queira ver nas agressões feitas ás integridades territoriaes de Minas (ieraes e do líio de Janeiro uma providencia effectivamente imperialista, ao serviço do reaceionarismo ou do separatismo paulistano. Foram apenas medidas de estratégia militar. muito rudimentares, no pensamento de estabelecer trincheiras muito além das fronteiras paulistas, com esta pratica, difficultando, na verdade, a invasão das tropas adversarias, que se empenhavam na restauração da integridade nacional. A offensiva inicial esbarrou logo nos primeiros dias da lueta. O separatismo paulista não IKiude ir além de onde foi nos primeiros momentos da peleja. Dahi para cá, começou de effectivar-se o recuo. E m pouco tempo, todo o território fluminense ficou libertado das tropas fratricidas de São Paulo. E o recuo

218 Almachio Diniz SÃO PAULO E continuou progressivamente, pela occupação militar, depois de renhidos combates, de numerosas posições e cidades e também villas paulistanas. Do lado de Minas Geraes, a resistência foi, entretanto, mais forte. Mas, nos seus últimos dias, o seccessionismo de São Paulo soffreu mais um golpe de real importância. As forças nacionaes, agindo em collaboração com os soldados mineiros, expulsaram de seus limites os últimos fratricidas. Nas terras de Minas não permaneceu mais nenhum soldado paulista. Investindo, porém, as tropas mineiras, na defesa da união nacional, que o separatismo de São Paulo, explorado por seus politicos reaccionários, tentou fraccionar, perseguiram os inimigos da federação brasileira, indo até á occupação de Júlio Tavares, já em território paulista, e, em pouco tempo, até ás visinhanças de Campinas, que seria, finalmente, tomada em horas. Esteve de todo fracassado o cartel de desafio que São Paulo atirou ao Brasil, á Republica e á Federação. A sua persistência no mal lançado, foi uma dolorosa resolução suicida. De dia a dia, a linha do cerco se foi estreitando e não estaria longe a hora de ser atacado o coração paulista, no que elle tem de mais caro suas bellas cidades, que formam, o diadema de sua encantadora capital. Era um separatismo restaurador também, e principalmente, do predomínio e mando do reaceionarismo. Então, a seccessão por que se bateu São Paulo, sob a mascara de conquistar a constitucionalisação precipitada do Brasil, fragmentaria a estruetura geral de nosso paiz, affectando profundamente mais sua estruetura politica, do que a geographica ou territorial, si se tornasse victo-

A SUA GUERRA DE SECCESSÃO 219 riosa, pelo êxito das armas paulistanas. A organisação federativa comprehende a autonomia e a egualdade politica dos Estados. Obedece a uma união perpetua e indissolúvel de todos elles. Não se permitte a nenhum que se organize de modo que offenda os direitos e as facul dades da União. Diz-se mesmo que houve excesso de cautelas, quando se crearam restricções ao poder de organisação dos Estados. NINA RIBEIRO assignalou mesmo que houve certo medo de enfrentar-se a Republica federativa em sua mais vasta concepção, conservando se, de um lado, um excessivo amor ao predomínio da União, e, de outro, fazendo-se a medo pequenas concessões aos Estados. Este regimen, calculado, estreitou os laços, fazendo-os indissolúveis na Federação, que decorria evolutivamente do unitarismo da monarchia. Houve a pretensão de tornar-se una e immodificavel a physionomia politica do Brasil, riscando-se todas as possibilidades de uma seccessão estadual, proveniente de um apparelhameuto em divergência com as leis prescriptivas da União. De sorte que, si um cataclisma, cósmico ou politico, um maremoto ou terremoto, uma guerra civil ou um imperialismo, conseguisse desarticular um dos Estados, por seu desapparecimento, ou por sua desaggregação do todo, o attentado á nossa geographia physica seria menos importante do que o attentado feito pela mesma forma, á nossa geographia politica. Na seccessão de um Estado soffreria a alma nacional um despedaçamento contrario a todas as prescripções de nossa integridade moral. O Estado de São Paulo, promovendo sua separação, atacou em sua.s forças vitaes a alma uacional como ella estava instituída

220 Almachio Diniz SÃO PAULO E na mentalidade dos homens: a integridade brasileira, dentro da forma republicana federativa. Não foi uma attitude politica aquella que tomou o reaceionarismo paulista contra a Unifo brasileira. Foi a degeneração da arte de governar os povos, segundo principios definidos, regras moraes, leis escriptas ou tradições respeitáveis (Ruv BAR BOSA), em politicalha, a industria de explorar o Estado a beneficio de interesses pessoaes. A politicagem, a po litiquice, o politiquismo, a politicaria (RXJY BARBOSA) avassalando a terra dos primeiros ANDRADAS, armou o Estado contra a Federação, instrumentou São Paulo contra o Brasil, fascinou o povo contra a Revolução de 1930, capacitando-o de que, por um derramamento de sangue, dentro em uma loucura por um bairrismo vilmente explorado, seria possível restaurar a éra dos opprobrios, o tempo das fraudes, a época das desgraças económicas e das trapaças politicas, que desprestigiavam o Brasil, em seu semi-governo dos representantes paulistas. Dentro da unidade nacional, ao lado dos demais Estados, seus ir mãos, São Paulo não soffreria a diminuição de voltar aos tempos idos, o retrocesso de escravizar-se ao reaceionarismo fatal, o algemamento aos grilhões da politicagem insaciável, e o envenenamento pela contaminação do pavasitismo, a que se dedicavam seus politicos profissionaes. Dentro da estruetura politica, que lhe destinou a Revolução de 1930, pelo exercício normal, como dizia Ruv BARBOSA, das forças de uma nação consciente e senhora de si mesma, São Paulo não voltaria a ser uma presa do perrepismo, engrandecido com a falsa solidariedade, em frente única, do Partido Democrático. Foi preciso in-

\ SUA GUERRA DE SECCESSÃO 221 ventar um constitucionalismo inconsequente, para exerci tar o plano restaurador. A seccessão occultou-se, por isto. para viçar, em tempo próprio, nas dobras da puantasia encharcada com o sangue dos irmãos brasileiros. E' certo, porém, dentro dos principios geraes da so cíologia, que se aproveita, normalmente, das verdades expressas pela biologia, que o seccessionismo é puramente t scissiparidade, forma de reproducção orgânica, das sociedades animaes, entre as quaes se mettem, em ultimo grau, as dos homens. São 1'aulo, por ser o Estado bra BÍleiro mais avantajado em cultura e em forças orgânicas, mais cedo ou mais tarde terá de emaucipar-se do Brasil, e este, de repartir-se em vários organismos autónomos, soberanos e independentes. E' possível que isto, entretanto, não venha de um só golpe. E não deve vir, porque. si já se vai mostrando em tempo para São Paulo, constituiria ainda um desfalque para o Brasil, cujas outras unidades não se encontram ainda apparelhadas para o grande golpe. Uma reorganisação nacional, estabelecendo unia confederação de Estados manterá, pela cohe sao que a similaridade produza com direitos e deveres e representações eguaes para unidades politicamente eguaes uma união mais forte do que a federação instituiu com o conjuncto de Estados politicamente eguaes, mas em direitos e deveres e representações claramente des eguaes. Os homens reunem-se em sociedade sem nenhum laço material que os approxinie. Si não é o laço intelle Ctua] da consciência, a que GIOINGS deu o nome de consciência' das espécies ou o laço funceional da cooperação - assignalado por SPBNCBR é a identidade

222 Almachio Diniz SÃO PAULO E de organisação e de funcção, que os mantém cohesamente em sociedade. Os Estados brasileiros, como as colónias relativamente ás suas metrópoles, ou como as nações que se multiplicaram a Rússia e a Áustria formando numerosos Estados novos não poderão fugir a esta lei fatal da biologia social: a reproducção dos Estados pela seccessão, que é a expressão sociológica da scissiparidade. São Paulo apenas precipitou o seu futuro, e precipitou porque a sua seccessão obedeceu a falsas causas, ou a enganosas objectivas, como foi a da restauração do domínio do reaceionarismo deposto pela Revolução de 1930, o que importaria no império victorioso de uma contrarevolução. Mas, isolado, ainda, no conjuncto de onde se terá de destacar, por uma espécie de abrolhamento [bourgeonnement), encontrou a resistência de todas as demais unidades do grande todo. Foi militarmente derrotado. Foi civilmente derrotado. Foi politicamente derrotado. Mas, não o foi organicamente. O seu futuro é o de sua emancipação fatal. Por emquanto, foi possível sustal-a. Tempo virá em que não o será. Todavia, a sua rendição veiu também antecipadamente. Obra de traições oceultas que a historia do porvir ha de minuciosamente desvendar. Depois de uma resistência de mezes, por diversas vezes trahido, São Paulo, por si mesmo, ainda se appare- Ihava para luetar, e, talvez, vencer depois de muita lueta, pelo cansaço, quando nada, dos seus adversários, que, assim, quebrariam a cohesão de sua resistência. O fortalecimento de seu poder aéreo, com acerescimo de uni-

A SUA GUERRA DE SECCESSÃO 223 dados, nos últimos dias, é disto prova (1). Outros rumos teriam tido os acontecimentos si, por ventura, São Paulo estivesse de começo armado com uma frota aérea, que tentou conseguir, sem possibilidades até pouco antes de ser levado a uma capitulação, em plena pujança de von- (1) O Correio da Manhã, de Rio, conseguiu historiar a contri bulcão do avião na marcha dos acontecimentos guerreiros, pela seguinte forma: Sfui Paulo, 12 (Do enviado especial) No inicio do movimento revolucionário, oa aviões que existiam em S&o Paulo eram os seguinte»: 3 Waco, 1 FUt, 2 Potez, 1 Moth, 1 Fiat, 1 Morane, 1 Nieuportrotativo e 1 Henriol, onze ao todo. Depois, esse numero foi augmentado. Chefiaram do Kio, fugidos do "Campo dos Affonsos," um Waco, pilotado pelo tenente MOTTA (.IMA O um Nieuport-Delage, pilotado peio capitão ADHEKBAL DB OLIVEIRA, bem como o Avro, que o sr. Nicvus DA FONTOURA,."O começo de Setembro, desceram iiiris nesta capital os primeiros Curtíss-Falcon, adquiridos no Chile. A encommenda feita era de seis apparelhos. Na(piella época, checaram apenas dois e os outros quatro sô appareceram a 2o de Set ml rp em Campo Grande, Matto Grosso, onde foram entregues ficando um la, sob o commando do aviador Reynaldo Gonçalves e vindo para aqui os outros três, que aterrisaram no Campo de Marte no dia :!o de Setembro, depois de feito o armistício. O governo paulista havia feito uma compra de lo Waco nos Estados Unidos. Esses apparelhos, segundo informações que colhemos, já vinham voando para serem aqui entregues quando, por interven- IMII diplomática, tiveram a sua viagem sustada no Panamá, havendo sido devolvida a importância da sua acquisição. A ACÇÃO DA AVIAÇÃO PAULISTA Logo nos primeiros dias do movimento, os três Waco, aviões correio do Exercito e os dois Potes, também do Exercito, que estavam em Quitaúna entraram em acção, voando sobre Minas, Rio e llttoral, atirando jornaes, manifestos e proclamações. Depois da chegada dos pilotos JOSÉ GOMES RIBEIRO, LTSIAS RO- DftlSUBS e Ivo HOIÍOBS, os Waco foram apparelhados com metralhadoras e porta-bombas automáticos, datando de então o movimento guerreiro da esquadrilha. Os Waco eram os que mais trabalhavam. Um delias, porém, foi inutilisado quando o capitão ADHERBAL fazia uma série de acrobacias no Campo de Marte, em fins de Agosto. Outro, aquelle que trouxe do Rio o tenente MOTTA LIMA, não pôde..restar serviços. Deu-se um episodio curioso com esse apparelho. O aviador MOTTA UMA, ao sair nelle do Campo dos Affonsos, fora perseguido. Para se livrar da perseguição, tomou o rumo do mar. A' altura de Taubaté, porém, um avião paulista julgando tratar-se de uni inimigo. combateu-o, O avião federal que o vinha perseguindo principiou também a metralhal-o. Impossibilitado de proseguiv e querendo salvar o apparelho, o tenente MOTTA LIMA resolveu Uevrissar em Taubaté. Mas, ao descer, as forças paulistas alvejar.mi violentamente o seu avião, pensando certamente que se tratava de um apparelho adversário. Jâ em terra, o tenente MOTTA LIMO

224 Almachio Diniz SÃO PAULO E tade para combater. No entanto, forçou-se a guerra a chegar a um fim. E reputo um fim desastrado para ambos os litigantes, representando um mero adiamento da tentou convencer aos paulistas de que era necessário esconder o avião afim de evitar que o mesmo fosse destruído pelos federaes que o perseguiam. Como as providencias demorassem, não tardou que uma bomba de um avião pilotado pelo tenente MURICS", damnificasse mais ainda o apparelho, fazendo com que elle não tomasse parte na campanha. O tenente MOTTA LIMA foi trazido, então, para São Paulo, pelo aviador paulista que o combatera, num Moch, capitão ISMAEL GUILHERME, da Força Publica. Perdidos, assim, dois Waco, ficou São Paulo apenas com os outros dois, que trabalharam até o fim da guerra com intensidade e foram entregues em bom estado. Os dois Pote.z que aqui estavam, um foi bombardeado em prin- < ipio de Setembro por um federal no campo de Guaratinguetá, incendiando-se e o outro, mais ou menos no dia 15 daquelle mez, ao descer em Campinas capotou e ficou inutilisado. O Filt, no começo do movimento foi buscar o general KLINGER em Matto Grosso, mas, ao aterrissar em Campo Grande fel-o com infelicidade, ficando imprestaveel para o movimento. Os Moth, Morano, Fiat, Nicuport-rotativo e Avro impróprios para a luta, sô foram utilisados para trenamento de novos pilotos, ficando o Nienport-rotativo e o Avro em que o piloto HOLAND trouxe o sr. JOÃO NEVES, inutilisados. O Nieuport-Delage, trazido do Campo dos Affonsos pelo capitão ADHERBAL DE OLIVEIRA funecionou até o fim da luta. sô tendo tido um accidente na região de Bury, onde foi obrigado a descer, fazendo uma aterrissage forçada e quebrando uma das suas rodas. Transportado, á noite, para esta capital, foi reparado e operou até o termino da campanha, estando perfeito. Por essa época chegaram os dois primeiros Curtiss-Falcon e logo quando estavam aqui synchronisando a metralhadora do primeiro, este teve a sua hélice quebrada. Collocaram-lhe, porém, a hélice de um Waco e elle passou a trabalhar, realizando vários bombardeios até que nos últimos dias da guerra, ao descer em Itapetininga, pilotado pelo tenente MOTTA LIMA, inutilisou-se. O outro Curtiss foi sinistrado em Santos, quando tentava bombardear a esquadra, tendo morrido no sinistro, como se sabe ahi no Rio, o piloto JOSÉ GOMES RIBEIRO e o seu observador, MÁRIO BITTENCOURT, cujos corpos não foram encontrados. Foi esse o ultimo trágico episodio da aviação revolucionaria, que desde então não mais trabalhou. A esquadrilha paulista naquelle momento ficou reduzida, praticamente, a dois, Waco. Foi quando o governo local requisitou o Late 26, da Aeropostale, preso em Santos desde o inicio do movimento. Estava sendo feita a adaptação desse apparelho para a guerra no.nomento em que veiu o armistício e a cessação da luta. No dia 28, quando tudo estava terminado, chegaram mais três Curtiss-Falcon, que foram entregues novos ao Exercito. OS PILOTOS CONTRA-REVOLUCIONARIOS e do Exercito, todos brasileiros, ao que nos assegu-

A SUA GUERRA DE SECCESSÃO 225 solução ou a supremacia definitiva, isto é, por mais alguns annos, da União federal, sobre todas as unidades federativas, ou a emancipação politica de São Paulo, como nação nova e independente. Houve erro grosseiro na terminação forçada da grande guerra civil. Forças ponderosas levaram os homens de um e do outro lado, á interrupção da lueta evolutiva, da lueta pela vida, do exercício da selecção, em que se empenhou o organismo nacional brasileiro. Marcharam as negociações para a finalisação dos combates. Fpi a Força Publica do Estado a que primeiro resolveu deixar a peleja, deante da impossibilidade da continuação da lueta pela inefficiencia da actuação politica (1). Ainda em Campinas, a 27 de Setembro, era asram. Os que mais trabalharam, foram, em primeiro logar, o tenente do Exercito JOSÍJ GOMES RIBEIRO, capitães LYBIAS RODRIGUES e ADHER- BAL DB OLIVEIRA, tenente MOTTA LIMA, capitães da Força Publica RHYNALDO GONÇALVES e MACHADO e tenente também da Força Publica SÍLVIO HOLTZ e IMNIEL CAMARGO. Os aviadores que voaram sobre o Rio, distribuindo Jornaes, boletins, etc, de accordo com as informações que obtivemos, foram, primeirameste, os tenentes da Força Publica JoÀo BOUNQARTENEB e MOURÃO DB OLIVEIRA; depois, os pilotos RENATO PEDROSO e IVAHY CORRÊA, e, por ultimo, os capitães da Força Publica SEBASTIÃO MA CHADO e ALBERTO AMERICANO. O único ferido em combate foi o capitão SebasíiAo MACHADO, que recebeu uma bala na perna, em Faxina, e o único que morreu foi o tenente Josi) GOMES RIBEIRO, que aqui se diz ter sido o mais bravo. O major Ivo BOKOES nunca voou e o tenente ORSINE CORIOLANO, do Exercito, logo nos primeiros dias foi para o Chile, comprar apparelhos, por lá ficando e ainda 14 se encontrando, juntamente cora o piloto RENATO PEDROSO. (1) "Communicado do Q. G. da Força Publica ao povo Reunlram-se hoje no Q. G. da Força Publica, convocados pelo respectivo commandante, todos os commandantes de tropa, chefes de serviço e officialidade actualmente nesta Capital e representantes dos que ainda ee acham ausentes. Amplamente exposta e discutida a real situação militar em todos os sectores e verificada a impossibilidade da continuação da luta pela Inefficiencia da actuação politica, nos termos da declaração publica hontem prestada pelo coronel Herculano Carvalho da Silva na "Folha da Noite," segunda edição, e"para não acarretar ao Estado e ao paiz maiores e improfícuos sacrifícios, ficou deliberado, forças unanimemente, federaes e acceitar os emissários o accordo das forças firmado constitucionalistas, entre o commando das na

226 Almachio Diniz SÃO PAULO E sentada, preliminarmente, a proposta de um armistício para a cessação immediata da lueta, o que se reduziu a acta (1). Provideuciou-se para que fosse ordenada, na parte referente ã. Força Publica. Por elle fica a Força Publica reintegrada na sua nouilitante missão ue mantenedora da ordem e garanudora da propriedade, Seu oujecuvo, nesta emergência è evitar que elementos extremistas continuem a aproveitar instante ue confusão oriunao da cessação das nosundades e ao desconhecimento. por parte uo povo, da verdadeira situação, para satistazer seus propósitos ínipatrioticos. u noure povo paulista que, com sua Força puonoa, tanto tez pela causa, deve aguaruar, sereno, as decisões uo governo, empenhado em dar a São Paulo a paz honrosa e auxiliar por touos os meios ao seu alcance a execução daqueiia taiera, paia grandeza do Brasil. São Paulo, 2 de OutuDro de 11)32. (a) Coronel ÍUÍKCULANO C SILVA, i^uiuuia.nuaiiie ua n orça fuouoa." (1) "AOS vinte e sete dias do mez de Setembro de mil novecentos e trinta e dois, ás nove e meia horas, numa das salas do P. U. Uu commanuo ao Uestacanitiuo em Campinas, situauo no prédio do ex-campinas-hotel, convocados pelo Coronel HERCULANO DB UAIIVÍUJIIO E SILVA, tomiuiiiuante Gerai da.torça.ruoilea uo Ji/otadj, compareceram os seguintes omciaes: uoroneis HERCULANO DE CAR VALHO E SILVA, EDUARDO LEJEUNE e ALEXANDRE GAMA; Tenentes- Coroneis ALEXANDRINO <_TAIA, I/ATRICIO BAVÍ-ISI-A DA LUZ, Liuiz DS FARIA E SOUZA, VIRGÍLIO RIBEIRO DOS SANTOS, ROMÃO GOMES e MÁ RIO MANULL, e Major josb DA &IL\A. O uoronei tiuncunuo DE CAR VALHO E SILVA, fazendo uso da palavra, apresentou o valoroso official ao Ji.AercUo.Brasileiro, comuianuaiite ue um aos sectores do vaiie ao Farahyua, para expor a situação militar daquella trente e a sua projecção soure os aemais seetoies da luta. o reteriao oííicial demonstrou á evidencia que vários factores de ordem morai e material tornavam insustentável a manutenção das posições e a continuação aa guerra no vaiie Uo Parahyba, sendo inevitável o recuo progressivo uos elementos que ali combatem desue o inicio uas nostuidaues..assim pensavam todos os otticiaes que com elle cooperaram, do ilxercito e daj? orça PuDlica, unanimes em reconhecer o sacníicio immeiíso a que seriam expostos os haoitantes das cidades e villas sujeitas aos horrores da luta. A continuação da resistência corresponderia & destruição completa da prospera e rica região oceupada peias tropas. A única solução que viam para esse complexo problema era a proposta ae um aimisticio para, a cessação iinincuia.ua. ua lueta.ti,no momento, dada ainda a situação de relativa consistência dos nossos elementos, poderiamos negociar um accordo em que ficassem resalvados dois pontos importantíssimos para o bom nome e prestigio dos que se achavam a, testa do movimento. A dignidade militar e a garantia dos interesses múltiplos de ordem politica e económica, do Estado e da nação. O Coronel HERCULANO passou a lèr a seguir as cartas de apoio para essa iniciativa, que acabava de receber sem FERREIRA ctor, naquella VEIRA, dos seguintes uma fizeram THJÍOPIÍILO única DB região; SOUZA. uso commandantes excepção. Tenentes-Coroneis RAMOS palavra Assim Que inteirados e diversos de o A-NTONIO tropas que se commandantes OCTAVIANO passava INOJOSA exacta Força no situação Publica e GONÇALVES valle Major accordando do daquelle BENEDICTO Parahyba DA operam todos, SIL se

A SUA GUERRA DE SECCESSÃO 227 tarde de 29 de Setembro, a suspensão das hostilidades para evitar derramamento inútil de sangue, por meio de um telegramma que o coronel TABORDA passou ao general WALDOMIRO LIMA(1). Já se conhecia que JOÃO NEVES DA FONTOURA fugira desde o dia 27 de Setembro da capital paulista, annunciando, por carta, como um suicida, que explicasse o fim deliberado de sua vida, que levava destiuo do Rio Grande do Sul, pois seu dever chamava-o para junto dos seus conterrâneos, mas... indo esbarrar no Paraguay (2). E um novo boletim do coronel HERCUnão era um phenomeno local e sim geral, pois nos demiis sectores a contingência era a mesma, resolvendo que diante da impossibilidade da victoria pelas armas, era um dever patriótico cessar innnedlatamente a luta para evitar novos e pesados sacrifícios ao Estado e ao Paiz, deliberando: 1. ) Ficava o Coronel HERCULANO DE CAR VALHO E SILVA, apoiado pelas forças do Exercito e da Força Publica, Indicado para entrar em entendimento immediato com as autoridades militares e civis, estadoaes e federaes, para a cessação da luta ;?. ) No caso de encontrar resistência por parte de qualquer desses elementos, ficava egualmente autorisado a agir como supremo representante das forças em armas, concertando com o adversário o accordo almejado; 3. ) Que fossem se; 'neí kndos dessa del.beraçâo es camaradas do sector sul; 4. ) Que as providencias necessárias para o Inicio das negociações tivessem execução immediata. Para Consoar foi lavrada a presente acta que, depois de lida e achada conforme vae por todos asslgnada ficando o or.gmr.l em poder do Coronel Herculano de Caivalho e Silva e uma copia devidamente authentieada no archlvo do commando do destacamento. Eu, servindo de escrivão a dactyloiiraphei, etc. Seguem-se as assignaturas." (1) "Em consequência da proposta de armistício para a CSflSaçftO da luta, o dr. Getuiio Vargas autorizou o general Góes Monteiío a receber emissário do general Klinger, declarando os generaes (iões e Waldomiro representantes do pensamento do governo nacional. Agora, o general Klinger recebeu o seguinte telegramma: "Acabo de ser informado pelo sr. Mello Franco, ministro da Justiça, que o governo está disposto a approvar o armistício entre os chefes militares e a adopção Immediata da Constituição. Saudações. (a.) General Menna Barreto." Em face desses acontecimentos, pelo ao nobre chefe e velho amigo ordenar a suspensão das hostilidades, para evitar derramamento Inútil de sangue, no momento em que estamos chegando á desejada paz da família brasileira. Já expedi daqui ordem ao meu destacamento para suspender hostilidades, guardando as posições, desde que não sejam atacados, e aguardo as vossas instrucções, para entendimento necessário. Cordiaes saudações. (a.) Coronel Taborda." (2) S. Paulo, sair 4 de (A. São B.) Paulo, São com os destino seguintes ao os Rio termos Grande, da deixo carta

228 Almachio Diniz SÃO PAULO E LANO DB CARVALHO explicava o encaminhamento das negociações, que levaram a um compromisso, pelo qual a Força Publica de São Paulo se retirou da lueta, julgando insustentável a situação do Exercito Constitucional, estando os seus chefes convencidos da derrota inevitável e acarretando para São Paulo e o Pak maiores e mais pesados sacrificios (1). Por outro lado, informa claraem suas mãos a declaração de que, estando esgotadas as possibilidades de proseguir a luta, aqui, meu dever chama-me para junto doa meus conterrâneos. Emquanto alimentei um pouco de esperanças de ver continuada a pugna aqui, fiquei. Terminada ella sahi de São Paulo como entrei, ás claras, de cabeça erguida, fiel a minha condueta rectilínea. Não tendo nem de leeve aconselhado este grande movimento, acceíto, na hora da derrota apparente, a totalidade das suas consequências. Escolho a sua pessoa illustre por tantos títulos, para depositário desta declaração, (a) João Neves." (1) "Fracassadas as negociações entaboladas pelo commando das forças constitucionalistas e o.representante do governo federal, resolveu a Força Publica, que não conhecia os termos em que eram discutidas as bases do accordo definitivo, pór-se em contacto com o general Góes Monteiro, incumbido pelo governo federal da solução do complexo problema. Foram seus representantes nessa missão os tenente-coronels Octaviano Gonçalves da Silveira e Euclydes Marques Machado, os quaes, depois de longa e exhaustiva discussão, firmaram um conv promisso, pelo qual ella se retirou da luta. Os meus camaradas que, com o seu chefe, tudo fizeram pela causa por que São Paulo tanto batalhou conhecem nos seus mais Íntimos detalhes a situação militar, infelizmente insustentável para o Exercito Constitucionalista. Persistir na guerra, convencido da derrota inevitável e acarretando para São Paulo e o paiz maiores e mais pesados sacrificios, Infligindo â laboriosa população duros castigos com a occupação e suas consequências militares, repugnava, a todos. Dahi, o anceio pela cessação da luta e por uma paz honrosa, e honrosa ella é julgada pela officlalidade em peso que, hontem, accorreu a este Q. G. para conhecer os termos do accordo. Approvado este unanimemente, nada mais restava ao commandante da Força Publica que cumprir o que nelle ficou estipulado. Não foi esquecida a situação politica do Estado, tendo os nossos representantes ouvido do delegado do governe federal a declaração de que a São Paulo seria dado um governo digno da sua tradição e que fosse a aspiração do generoso povo bandeirante. O governo do Estado, ao ter conhecimento do accordo firmado, desejou conhecer o pensamento a seu respeito, para o que foi consultado aqui Urgentíssimo Monteiro., estou. o general Foi a Góes seguinte São Monteiro. Paulo, a correspondência 2 Resolveu de Outubro, este de trocada que 1932. fosse a o respeito: General Góes mesmo

A SUA GUERRA DE SECCESSÃO 229 mente sob a pressão que se exerceu, sem mais explicações, para se encerrar a guerra civil, a carta com que PLÍNIO BARRETO se defendeu da pecha (1) de fomentador daquel- Cruzelro. Horas, 13 Sclente governo Estado compromisso Forca Publica cessar hostilidades afim de salvar património paulista manter ordem publica nosso Estado, mesmo governo deseja saber offlclalmente sua situação quanto continuação testa administração publica e quanto transmissão poderes. Attenclosamente. Herculano C. Silva, coronel." Resposta do general Góes Monteiro: "Cruzeiro, 2 de Outubro de 1932. Coronel Herculano Silva. 6âo Paulo. n. 675. Deveis assumir Immediatamente governo militar cnpltnl, depondo Interventor ou governador e fazendo directores secretários responder expediente mesmas sob vossa fiscalização. Flcaes Investido poderes necessários garantir ordem vida e propriedade população. General P. Oóes." (1) "Da exposição feita pelo commandante geral da Força Publica de São Paulo, sobre os últimos acontecimentos, resulta verse que nfio concorri, de modo algum, para a rendição das tropas como perversamente se sndou assoalhando por nhl. Procurado em minha essa por um official de minhas relações pessones e Informado por elle de que a situação militar estava perdida, levei o facto ao conhecimento do governo, para que esse tratasse da paz, não formulando nem defendendo nenhuma proposta. Pnra a situado precária a que se chegou, não concorri de maneira alguma. Nenhum contacto tive durante todo o tempo de campanha com elementos militares ou elementos políticos. Do principio ao fim mantive-me á testa dor nervlcos que me foram confiados, dnndo-lhes o máximo da minha dedicarão e tudo quanto estava em mim fazer pela victoria da causa foi feito. Vendo perdida a situação militar e perdida nfio por culpa minha, disse, francamente, no secretario da Justiça, Dr. WALDEMAR FERREIRA, meu amigo de velha data, que era preciso cuidar da paz para evitar morticínios Inúteis, multo embora a paz significasse para todos nós, que, neste ou nnquellc posto, tínhamos desempenhado papel saliente na campanha, o sacrlfieio total das nossas esperanças. Nfio Ignorava quando assim lhe falei que havia entre companheiros de Ideal muitos que desejavam a resistência até o extermínio. Parecia.me. porém, que levar a luta a esse extremo, seria erro de consequências funestas. Poderflo dizer mie foi defeituosa a minha visão politica, mas o que não permitto que digam, porque é torpeza, é que me combinei com a Força Publica para levar Sfio Paulo a uma rendlçflo. Solidário com o governo, e dessa solidariedade lhe dei testemunho depois da sua deposição, reafflrmando-a de novo neste momento, sempre estive prompto n acompanhar-lhe a sorte, fosse ella qual fosse, não podendo consentir que Inimigos gratuitos se aprovoitem das efroumsfanoías para me pintarem aos olhos do publico com a physlonomla dlfferente da real. Ha no documento em que se allude á minha pessoa a referencia ã Ida de um emissário de paz ao Rio de Janeiro. E' outro ponto que precisa ficar bera esclarecido: eu não tomei Iniciativa alguma para a celebração da paz, quer aqui. quer no Rio. Tive conhecimento de alguns passos que estavam sendo dados nesse sentido, n<ml e fora damil e dos quaes eram conhecedores também o governo do Estado e autoridades militares. E para facilitar esse trabalho, que me parecia patriótico, con- «SUi que um amigo fosse ao Rio levar a algumas pessoas a sugges-

230 Almachio Diniz SÃO PAULO E le encerramento, considerando torpeza si se tivesse combinado com a Força Publica do Estado para levar São Paulo a uma rendição. Também é de admittir-se como elemento apreciável, o ultimo boletim em que o general BERTHOLDO KLINGER, como chefe das forças paulistas, fez o histórico das "démarches" para a pacificação, accusando os militares da Força Publica (1) do Estado, de terem tão de que tudo acabaria bem se o governo da União fosse tirado do e entregue ao presidente do Supremo Tribunal Federal, e os dos Estados confiados aos presidentes dos Tribunaes estaduaes. Essa suggestão, que não foi formulada por mim, mas por distincto brasileiro que comnosco collaborava na luta contra teria, segundo informações chegadas á nossa noticia, apoio dos idealistas da Marinha e do Exercito, que não se haviam pronunciado por São Paulo receloso que o movimento paulista fosse, apenas, uma arrojada manobra de politicos ansiosos do poder A viagem desse emissário teve o assentimento do general Klinger e coronel Euclydes Figueiredo, aos quaes pareceu bôa a suggestão. Iniciativa alguma foi tomada por mim: limitei-me a coadjuvar o que havia sido lembrado por outros. Não me arrependo do que fiz. Si a suggestão houvesse encontrado bôa acolhida no Rio, São Paulo teria conseguido integralmente os objectivos pelos quaes lutava. Em resumo: scientificado de que a situação militar estava perdida, achei que o governo devia cuidar da paz. Errei? E' possivel... Mas, o erro não ê incompativel com a máxima lealdade, com o mais severo patriotismo e a mais impeccavel correcção. Contribui, de qualquer modo, para que a situação militar chegasse ao ponto que chegou? E' esta a questão principal e desafio que articulem um facto e adduzam uma prova, capazes de autorisar a resposta affirmativa." (1) "S. Paulo, 3 (Do enviado especial ã'a Noite Pela Western) O general BERTHOLDO KLINGER em seu ultimo boletim, como commandante da forças paulistas, fez o histórico das demarches relativas á pacificação, nelle transcrevendo os derradeiros rádios trocados com o general GÓES MONTEIRO. Começa assim: "Para que fique registado, em boletim desta Região, transcreve-se a proclamação hoje publicada pelo ex-governo paulista, a qual é integrante da historia do movimento paulista de 9 de Julho." Após transcrever o Manifesto, o general KLINGER prosegue: "Para completar importante esclarecimento convém também registar, conforme já opportunamente foi dito pela imprensa diária desta capital, em communicação feita ao governador, na manhã de 28 de Setembro, que este commando pretendia sem mais demora propor o armistício, que não foi surpresa para essa autoridade e sabem-no pessoas que alguns dias antes fizeram sentir ao governo a necessidade de se cuidar de um armistício. visita Dr. facto estava O WJÍIDBMAB :á que Dr. cuidando ha no PEDRO uns seu vinte FERREIRA, disso, quartel DE dias TOLEDO, que general lhes antes estava segundo respondeu o lhe general attento"á fez me que KLINGER, contou, governador, opportunidade já o no commando quando meu dissera da Q. e que militar ultima a G., esta de o

A SUA GUERRA UE SECCESSÃO 231 abandonado a causa constitucionaliata, para precipitarem a íinalisação da guerra, em que iáão Paulo tanto confiava, para victoria da contrarevolução projectada sobre a Nação. O próprio governo de íáão Paulo sentiu-s>e des- _ e depois o confirmou ao competente secretario WALDISMAR FERREIRA, que reconhecera a necessidade du propor o armistício para sureiu examinadas as condições ua paz u apenas aguaruava o momento em que eisso so tornasse ineluctavcl, inadiável para então dar caso pa^so Bob sua exclusiva rusponsaoiimade, que lhe competia como toiuiuaudante superior das torças constitucionalistas. No meu estado maior só o chute, o tenente-coronel Villa Bella, era sabedor da minha intenção. A natureza do assumpto esclarece a mais leve reflexão, os porquês do ser mantida semelhante reserva a respeito, mesmo a puuto uu nem serem consultuuus ua coiiiinaiiuautcs mais giuuuauus, yuaiiuo, na segunda viagem do meu emissário, para tratar do armistício, o coronel liurculano de Carvalho, alta noite, pulo teiepnone, pediu consentíssemos que na companhia daquelle emissário fosse um representante Ua Força Publica. Acccituinos, de bom grado, certíssimos de que tal representante iria secundar o estorço do emissário duslu coiiiiiiauuo. L^x e que su desvendou a verdade hoje esclarecida por outrem que nau cu, quo deliberadamente calava. Em vez de uin representante da i-oiçu Publica furam na companhia do tenente-coronel Viiia pciia dois emissários da Força Publica. As suas conferencias com o general Uoes Monteiro, em Cruzeiro, não foram assistiuas pelo meu emissário, nem íis deste com o mesmo sr. general assiuram aquelles. Depois de distribuído o meu boletim diário de homem, com o seu aditamento, vieram a presença deste commando ti es ouiciaes da Porca Publica du Sáo Paulo, a mando do suu commandante gerai, para dar conhecimento du dois tulugraiiiiuas: no primeiro uulles, o ooionel HERCULANO perguntava ao general GÓES MONTIÍIRO qual a situação em que ficava o governo do Estado. Issu uizia o telegramma porque esse governo, ao ter sciencia do tratado ua Força, Puoiica cuiu o general GÓES., lhe fizera aquella pergunta. No outro, o gonerai Gous me responoia que devia depor o governo, instituir sob sua chefia o governo militar, tomar a seu cargo as garantias do vidas e buns paulistas. Essa mesma commissão perguntou-me pelo general MIOUEL COSTA. Respondi que provavelmente estava preso em Campo Grande e que este cominando nao daria ordem para soltal-o. Mais tarde, outra commissão \eiu da parte do coronel Herculano de Carvalho communicar-me que jã assumira o governo militar de S. 1'aulo, se achava elle coronel ã minha disposição, cortesia que este commando agradeceu." O general Klinger transcreve, em seguida os telegrammas seguintes, dirigidos ao general Coes Monteiro: pedido conluiando "General esclarecimento que reconhecem Góes nieii Monteiro. emissário contido necessidade meu Cruzeiro. fez, 682, segundo submetter-se, baseado Dia que 2. alto forças portanto Sciente interesse, obedecem vosso mantenho jã a&sil&alel. "GKOTBAL (a.) GENERAL GÓUS. KLINOERL" Cruzeiro. Dia 2. Peço esclarecimento meu 620 antes

232 Almachio Diniz SAO PAULO B guarnecido para ordenar a continuação das hostilidades e a prosecução dos combates, deante do retralúmento imposto ao general BERTHOLDO KLINGER pela deserção dos campos da guerra, levada a effeito pelas forças consticoronel HERCULANO o faça, qual situação commando segunda região militar em face governo miutar acabaes mandar aqui instituir, (a.) GENERAL KLINGEH." O general GÓES MONTEIRO assim respondeu: "General KLINGEBL S. Paulo. Na falta forças federaes obe-i decessem espontaneamente governo federal ani centro capital paulista tive necessidade investir coronel HERCULANO governo militar dessa capital, afim salvaguardar a ordem, vidas, propriedades povo paulista. Peço vossas providencias para officiaes ahi fiquem guardando propriedades federaes militares afim entregal-as opportunamente. Como commandante 2. * Região MiUtar, nomeado desde 9 de Julho, darei ordens directas coronel HSRCULANO. Saudações, (a.) GÓES MONTEIRO." Prosegue o boletim do general KLINGER: "Em resposta afinal ao meu 583, o general GÓES determinou qua as tropas federaes e irregulares que obedeciam ao meu commando se reunam em Itapetininga, Caçapava e Jundiahy. Em consequência telegraphei a todos os commandantes de sectores nos seguintes ter-- mos: "Combinação para suspensão hostilidades fracassou motivos por ora não convém tornar públicos fizeram Impossível continuação luta com qualquer probabilidade êxito. Por isso no intento evitar calamidade publica extensão imprevisível, sobretudo consequente maior invasão Estado, communiquei general GÓES forças obedeicem meu commando reconhecem necessidade submissão governo União. Este governo mandou coronel HERCULANO, commandante geral Força Publica, que fez com general GÓES convenção em separado, depor governador e assumir governo militar. General GÓES determinou também forças federaes e irregulares obedecem meu commando esse sector se reunam para aguardar presença tropa federal que irá praucar acto official de submissão, (a.) General KLINGER." Em additamento, o general GÓES mandou que as forças de Matto Grosso se reunam em Três Lagoas. Foi transmittida ordem pelo radio n. 595 E. M. O Boletim da 2.» Região transcreve por fim os seguintes rádios trocados entre o general KLINGER e o general GÓES MONTEIRO : "General KLINGER. São Paulo. De Cruzeiro. Dia 2. Hora 20,45* Urgentíssimo. Acaba ser captado radio pelo qual se declara haver equivoco vossas declarações aqui recebidas como sinceras definitivas» Agradeceria explicação franca para evitar precauções providencias que iniciarei muito pesar e que me impedirá estender fraternalmente como desejava braços para São Paulo, (a.) General P. GÓES." Em resposta o general KLINGER enviou o seguinte radio- "General GÓES. Cruzeiro. Dia 3. Sclente vosso cabogramma referente um radio captado desconheço que se trata penso meu 583 item 20 exclue qualquer duvida. Como é fácil comprehender houve certos ligações deslocamentos. isso "General e abrir com e communicações calma novas Góes. E' o tudo ordens Cruzeiro. que clareará. refiro donde cuja no certa execução Deante E" meu mais confusão 590. vosso conveniente Uteral (a.) em 622 General demandará distribuição fico para difficuldades sem Klinger." acelerar novos íunc- ele

A SUA GUERRA DE SECCESSÃO 2S3 tucionalistas (1). Até a Milícia Civica M.M.D.C, soffreu os effeitos immediatos daquella extincção de vontades para levar a cabo o emprehendimento bellicoso de São Paulo (2). De tudo procuraram tirar partido os reção. Peco ordens meu destino officiaes me acompanham, (a.) General Klinger." "Onornl Klinger. S. Paulo. De Cruzeiro. Dia 2.. Resposta vosso 591 deveis embarcar com vossos officiaes e si qulzerem respectivas famílias. podendo trazer também outros officiaes sem funenao ahi que assim deselem com destino esta localidade onde sereis recebido. <a. ) General Oõos." O boletim concluo nos seguintes termos: "Em consequência deslfmo os Srs. capitão Lemos Bastos para ficar de permanência neste O. G., oue partam a começar de amanhã, em especial,fts7 horas, os Srs. officiaes e suas famílias. Em causa, tfts onmrmndo partirá mais tarde, (a.) Bertholdo Klinger, general commandante." (1) "Balneio do governo 11.29 Tendo o commandante do Exercito Constitucionalista, General Bertholdo Klinger, afim de não causar á Nação miis sacrifícios de vidas nem mala damnos materlaes, proposto á Dictadura a Immediata suspensão das hostilidades, afim de serem assentadas as medidas para a cessação da luta armada dirigimos a toda a populaoso paulista um anpello no sentido de confiar na actuacho das autoridades civis e militares. Conservar-sehn. o governo do Estado no seu posto até que, asslgnado o armistício, selam feitas e encerradas ns negociações para o restabelecimento da paz. Silo Pnulo. 29 de Setembro de 1932. Pedro Toledo, Governador do Estado, Wnldemar Ferreira, Secretario da Justiça, Bodrlgues Alves Sobrinho, Secretario da Educação: Fonseca Telles. Secretario dn Vlaefln: Francisco da Punha. Secretario dn Agricultura ; Paulo Moraes e Barros, Secretario da Fazenda: Gofredo da Silva, Prefeito da Capital ; Joaquim Sampaio Vidal. Director do Departamento Munlelnnl. e Coronel Basílio Taborda, Chefe de Policia." (2) Os lornnes explicam, assim o aue foi essa M. M. D. C. : "Antes de qualquer outro órgão carioca, A Noite tez o histórico da Milícia Civlcn M. M. D. C, de que tanto se tem occupado, nos últimos dias, a Imprensa de nossa cidade. M. M. D. C. quer dizer, simplesmente: Mira en la, Martins, Drauslo e Camargo. Miragaia, Martins, Drauslo P Camargo foram os quatro jovens paulistas que tombaram, locro no inicio da agitação na capital do grande Estado, em Maio ultimo findo. Irrompido, cm 9 do Julho, o movimento revolucionário, a M. M D. C, que, allfts, se organlsara secretamente, com um effectlvo de 1.R00 homens, em Junho. tomou caracter official. reconhecido pelo governo do Estado, e passou a centrallsar a assistência e a da rnoblllsactto Outubro, luta. Teve. Agora, ella um entretanto, com civil. se papel a dissolve. suspensão multo no desenrolar destacado." das hostilidades dos acontecimentos e a terminação de definitiva Maio a

234 Almachio Diniz SÃO PAULO E volucionarios de 1930 que estavam dentro do Estado revolucionado. E esteve na vanguarda desse movimento confusionista, na capital paulistana, o tenente WALTER POMPEU, que foi preso, no combate de Eleutberio, no dia 5 de Agosto, quando, como commandante da companhia de metralhadoras do 29 B.C., num dos mais sérios combates dos que se travaram no sector a que servia (1). Estando em São Paulo, á hora grave do armistício e da capitulação, estabeleceu ali um regimen de confusões como aquelle que se tentou estabelecer, com a explosão de dois petardos, nesta capital, a 22 de Agosto, com o fito de tirar proveito do terror estabelecido (2) e, (1) A prisco é assim descripta: "O tenente "WALTER estava fazendo a ligação entre o seu batalhão e a l.«companhia commandada pelo capitão PEDRO MASSENA JÚNIOR, a qual se achava engajada, fixando uma das linhas de combate, em substituição ao 4." R. C. Vinha, elle da trincheira para o P. C. daquella companhia, trazendo informações sobre a situação das tropas. Uma patrulha paulista que audaciosamente se infiltrara sob o commando do tenente SARAIVA, nas linhas governamentaes, o envolveu, prendendo-o, bem como o capitão PEDRO MASSENA, dois ordenanças, um corneteiro. um sargento, um cabo e mais um soldado e um civil, que se dizia jornalista. Tentaram reagir, mas a patrulha era de 29 homens e desde logo lhes tolheram qualquer movimento de defesa. Presos, foram transportados para Eleutherio. Ao atravessarem o rio do mesmo nome, mais uma vez procuraram reagir, sendo subiugados pela patrulha paulista, que feriu dois dos prisioneiros. Em Eleutherio foram todos recolhidos ao xadrez pelo capitão Petzch, da Forca Publica de São Paulo. Ahi foram informados de que esse official tencionava fuzilal-os. o que entretanto não os amedrontou, tanto que desafiaram o capitão a effectivar a sua ameaça." (2) Nesta cidade esse facto de 22 de Agosto, desviado de seus rumos pelas medidas enérgicas do coronel Joio ALBERTO, chefe de policia, merece registro. A grande massa de descontentados pela administração que a Dictadura. adoptou funccionarios demittidos, juizes diminuídos e ameaçados, candidatos a empregos preteridos todos, conhecedores da conspiração, valeram-sp do pco-atecirrip-nto. para perturbar a ordem da cidade. O Tribunal do Jury teve suspensa a sua sessão de julgamento de um reu, porque "acabava de declarar-se nesta capital a revolução constitucionalista." Um ministro do Supremo Tribunal Federal apossou-se de um telephono official a fazer commtmlcações repetidas, de que os dois estampidos tinham sido da fortaleza de Willegaignon, que estaria de bandeira vermelha. descendência Dezembargadores da Dictadura, da Corte abraçavam-se de Appellação no recinto não demittidos do Tribunal, por con ha-

A SUA GUERRA DE SECCESSÃO 235 propicio o ambiente, levou ao fim desejado o.seu processo tumultuarão (1). ^'uo se processou differeutemente a rendição de SSao Paulo. Faltou o exgottamento de forças de um dos lados combatentes. E, a palavra mais significativa foi dada pelo ministro MELLO FRANCO, em confirma- Vtndo um dellea que ergueu vivas á Revolução... E para as ruas uuiiiu a patulêa, que foi reprimida, ua repressão resuitanuo cinco ou seis mortes... Tudo isto indica que 6 preciso proseguir, peio menos, no saneamento da justiça local e federal... (. 1) A acção do tenente WALTER POMPEU esta assim descripta por um jurnal que o ouviu: Km Sao fauio O tenente Walter Pompeu, o capitão Massena e os seus compaulii iros toram transportados de Eleutherio para Campinas, de la paia Mogy-Mirlm e, finalmente, para Sao Paulo, sendo ahi rtooliiiuoa ao presidio politico ele iaruiso, onde permaneceram, incommumeáveis, durante 1-1 dias. for interferência do Dr. MÁRIO CABRAL, amigo particular do tenente WALTER 1-OMPKU, foi este posto em liberdade sob palavra. TCJIUO esta medida attingldo somente o tenente POMPEU, este recusuu-a, desde que não lu.sse extensiva ao capitão MASSKNA e seus companheiros. Voltou, assim, ao presidio, onde ficou mais la dias, findos os quaes foi de novo posto em liberdade, bem como os capitães imasstna O SuUZA.AUUIAlt. Livres da prisão entraram esses oficiaes, alliados a outros e a elementos civis, a tramar uni plano de contra-revolução dentro de São Paulo cuin o lito Ue apressarem a victoria do Governo Provisório. Comprehenderam elles a importância que tena neste momento um levante cum esse caracter dentro do Sao Paulo. Havia, pois, diiuo de poucos dias um entendimento perfeito entre esses olílclae» e todos os elementos compromettitíos no plano. O povo paulista, disse-nos o official, merece todos os elogios pela sua coragem cívica. A calma reinante então em São Paulo era absoluta Apenas umq parcella de paulistas e nortistas oppunham-se a continuação das hosliliumles. u entliusiasmo do povo paulista era explorado pelo radio e pelos Jornaes. Tanto assim que aquelle povo até ha pouco estava illudido ijuantu a situação exacta de Minas e itio Grande do Sul. O BOATO DO ARMISTÍCIO KM S. PAULO FALA O TENENTE WALTEK POMPEU Agora jã era o tenente Walter Pompeu quem fazia o relato doa acontecimentos a vários amigos. Antes declarara-nos este official que nao desejava dar entrevista, mas, como estávamos ali, podíamos uuvu- o seu depoimento, que era, aliás, a repetição do que prestara uo y. Q, cm Cruzeiro, ao chegar ali, ante-hontem. E, dizendo isto, começou a narrativa: ino dia ~i> do mez findo, ã noite, correu em São Paulo, causando grande sensação, que o general KJL1NQBB havia proposto armistí que cio. havíamos Sentia-se que concertado o momento um piano era de em estupefacção. São 1'aulo, Foi julgamos então que azado nós, o

236 Almachio Diniz SÃO PAULO B ção de uma entrevista do general MENNA BAREETTO, que, ministro do Supremo Tribunal Militar, onde terá de chegar o processo criminal para punição dos culpados, se correspondia, representando o pensamento, com o chefe da sedição, com o cabeça dos rebeldes, com o instigador dos criminosos contra a Dictadura. Como juiz, ó general instante para pol-o em execução. No dia seguinte, por volta das 13 horas, o general Klinger manuou que fossem postos em liberdade todos os otíiciaes presos, dizendo que a revolução estava militarmenta vencida. Foi neste momento continuou o tenente POMPEU que resolvemos desíechar o golpe preparado, afim de liquidar de vez com a revolução, lançando o pânico e a confusão em São Paulo. O capitão MÁRIO BARATA assumiu, auxiliado por nós, o commanao do 4. B. C. Em seguida, partiram de SanfAnna os capitães SOUZA CARVALHO, ARISTIDES E BICCA, e os primeiros tenen^ tes SOUZA, MbKAT UUlMARAhs, SOUZA AGUIAR, MÁRIO CINTRA, H.UUHKS DE MONTE LIMA, eu e outros, atim de executarmos o plano audacioso que havíamos concertado. Uns unham por incumbência os corpos de policia e prenaer varias personalidades fieis ã revolução. O capitão SOUZA CARVAL.HO devia assumir a chefia de policia e eu a delegacia da Ordem Politica e Social. Levando uma oruem escripta do major MÁRIO BARATA e em companhia de MÁRIO CINTRA, MONTE LIMA e outro official, cujo nome não me recordo, dirigi-me ã delegacia da Ordem Social. Lá chegando, tive conhecimento de que o Dr. XMYRSO MARTINS continuava na chefia da Policia. Subi ao 1. andar e encontrei reunidos todos os delegados. Ia eu a paisana, levando uma capa de official. Falei ao deiegaao AFFONSO CELSO e disse-lhe em alta voz: "Vim assumir a chefia da Delegacia da Ordem Social." Alinha declaração foi recebida com surpresa geral. Perguntaram-me pelas credenciaes e eu num golpe de audácia disse-ihes que o fazia por ordem do general KLINGER. O delegado pediu-me para telephonar para o Q. G. Consenti., De la responderam yue nau lura. eu ejuem uima siuo indicauo para aquelle posio. O capitão KOGERIO COIMBRA mandou-me, então, chamar ao apparelho e repetiu o que acabava de dizer e eu respondi-lhe que assumiria a chefia daquena delegacia e desliguei o telephone. Nesse momento chegava o 1.» delegado que, inteirado do que occorria, ficou indeciso. Aflirmei-lhe que o novo chefe de Policia conservaria todas as autonaaoes, com excepção da Ordem Social, que eu ia assumir. Mandei immediatamente soltar todos os presos politicos, não sô da capital como de todo o Estado, por meio de circulares. Mandei, por telegramma, soltar o major MENDONÇA LIMA, que se achava no forte de Itaipú. Os presos, saindo dos cárceres, acclamaram-me e davam vivas ao Governo Provisório. Mandei formar a guarda civil e fia-lhe ordem. cneíatura um appello Estava de no qualquer sentido eu examinando ataque de cooperar as eventual, metralhadoras, commigo quando na para vi manutenção entrar defender ali da o

A SUA GUERRA DE SECCESSÃO 237 M E N N A BAKUKTTO inutilisou a sua funcção pela parcialidade de que revelou em grau de intimidade, durante a pratica do crime, com o menew dos delinquentes militares. A coucatenação de factos que faz o ministro MELLO FRANCO, esclarece bastante que se negociou um fim para o movimento, não tendo havido nem vencidos, nem vencedores, porque os representantes do Governo Provisório, general Klinger, acompanhado de seu Estado Maior e do coronel TABORDA. l<ui ctiamauo a presença uo general e uísae-ine que assumiria aquelle cargo por estar acephalo. O general JÁLINGUR exoi tuu-me, a passar a chefia de Policia ao coronel TAROUCA. Não dispondo de elementos para me oppôr, concordei. O mesmo general declarou-me, então, que eu continuaria como delegado da Ordem Social. Acceltcl a nomeação na esperança de poder dar novo golpe no momento opportuno. itocebendo ordem de recolher presos alguns dos officiaes que tinham sido postos em libei dade, fiz justamente o contrario, soltando todos os que ainda se encontravam nos cárceres e demittindo todos os carcereiros. O INÍCIO DA CONFUSÃO Nesse momento, os presos soltos por mim continuou o tenente WALTER POMPEU entraram na Chefatura de Policia, íazendo-iuo manifestações de solidariedade e dundu vivas ao Governo Provisório. A's 10 horas de 2y, appareceu-me o capitão SOUZA CARVALHO, qoe se achava detido num quartel de policia, quando ia assumir a chefia de policia. Passei-lhe, então, a delegacia da Ordem Social, ficando eu como seu auxiliar. Dahi por deante, toda a maciuna policial de São Paulo ficou sob o nosso controle, inclusive os actos do próprio coronel TABORUA. Começara, ahi, o povo a inquietar-se desconfiando de tudo e de todos. A REACÇÃO POPULAR A nota do general KLINOER sobre o armistício provocou as primeiras reacções populares. Reinava um mal-entendido geral. Os officiaes que estiveram presos, obedecendo a nosso plano, tentaram,atacar varias repartições publicas, inclusive a Estação Norte, sem resultados, devido ã falta de armas e munições. Aproveitei a confusão e mandei oceupar a sede do M. M. D. C, por 18 praças de cavailaria, desarmando os que ali se achavam e apoderando-me das armas guardadas naquelle centro. A M. M. D. Ci, entretanto, iniciava um contra-golpe. O coramerclo fechara as portas. Conflictos e tiros se verificaram em vários pontos da cidade. Choques entre grupos. Patrulhas atiravam a esmo, desorientadas no meio daquella balbúrdia infernal. Assim amanhecera o dia 30 de Setembro. Os estudantes espalharam, profusamente, boletins, chamando o

238 Almachio Diniz SÃO PAULO E em torno do manifesto deste, distribuido sobre a cidade de São Paulo, concluiram, com pressa, um entendimento geral com os contra revolucionários em armas, abandonando os civis e politicos, que se ficaram reagindo. São Paulo não ficou um fogo extincto. E' simplesmente um brazido em cinzas, para irromper ao primeiro sopro das auras. Assim falou o ministro MELLO FRANCO, em entrevista de jornal (1) : "Li a entrevista do general MENNA BARRETO e confirmo-a, aecrescentando, apenas, alguns esclarecimentos que julgo necessários. A 22 ou a 23 de Setembro tive, effectivaniente, o prazer de receber, no palácio Itamaraty, aquelle meu eminente amigo. Expoz elle, durante a sua visita, e em traços geraes, a situação, para me declarar que estava convencido de que se poderia alcançar o restabelecimento da paz, desde que fosse possível uma suspensão das hostilidades, afim de se resolver, então, sobre a questão, em definitivo. O general MENNA BARRETO, desde logo, me affirmou que a iniciativa nesse sentido deveria partir dos revolucionários general KLINGER e ROGÉRIO COIMBRA de traidores e pregando o massacre dos officiaes que haviam sido postos em liberdade. Especialmente visado pelos reaccionários, homisiel-me na residência do Dr. SOUZA CARVALHO, professor da Faculdade de Direito de São Paulo. EM VIAGEM PARA O RIO A* tarde de 30, continuou o tenente WALTER, fui avisado de que o general KLINGER resolvera facilitar a passagem dos officiaes que quizessem vir para o Rio. Dizia-sa que a medida visava evitar o massacre dos mesmos; outros affirmavam que fora a entrega dos presos exigida pelo general GÓES MONTEIRO. Nesse momento os exaltados atacavam o Q. G. do general KLIN GER, sendo repellidos. Embarcaram para Lorena todos os prisioneiros soltos em São Paulo. A viagem foi feita de trem até ás linhas avançadas e de lá até Lorena em caminhões, onde de novo tomamos o trem até Cruzeiro. Assim finalisou a odysséa do tenente WALTER POMPEU e seus companheiros. (1) Do jornal A Noite, de Rio, 2 de Outubro de 1932.

A SUA GUERRA DE SECCESSÃO 239 de São Paulo e ser resolvida pelo Governo Provisório da Republica, ficando entendido que a solução final da trégua si) poderia ser decidida pelo chefe da Nação. E t falando-me dessa maneira, ajuntava o general MENNA BARRETO OS argumentos tochnicos, de ordem militar j que justificavam a entrega da questão propriamente da suspensão das hostilidades aos chefes militares. As condições particulares da paz, essas tfl o chefe do Governo da Republica poderia estabelecer. De sorte que a intervenção de V. Ex.......se limitou a isto: transmittir ao chefe da Nação o que ouvira do general MENNA BARRETO. ISSO foi feito por mim na sexta-feira da semana passada. No dia seguinte, o chefe dn Nação, em reunião collectiva do ministério, mandou que eu expuzesse aos meus collegas o resultado da conversa que tivera com o general MENNA BARRETO. Como não me tivesse sido declarado por esse eminente amigo, si falava ou não autorisado pelos chefes militares ou civis do Movimento Revolucionário, a impressão que ficou no seio do Governo foi a de que, sendo patriótica e louvável a attitude do general MENNA BARRETO, cuja rectidão de caracter e sinceridade de propósitos todos reconhecem, não era possível dar-se andamento ao assumpto, acreditando-so mesmo que, si estivesse agindo de moto próprio, elle talvez não viesse a ser attendldo pelos chefes revolucionários paulistas. No dia 29 ainda daquelle mez, as 2,40 horas da madrugada, o general MENNA BARRETO telephonou para minha casa e communícou-me haver recebido, minutos antes, pelo cabo submarino, um telegramma do general BERTHOLDO KLINGER concebido nos seguintes termos: "Acabo de propor armistício geral. Saudações. General KLINGER". Fiz levar, Immediatamente, essa noticia ao ministro OSWALDO AKAMIA f soube, então, que ja ali se conhecia o telegramma que o general KLINGER dirigira ao chefe do Governo Provisório, telegramma divulgado, como sabe, em comniunicados officiaes. Devo acereacentar que no dia 27, também de Setembro, eu recebera uma segunda visita, no Itamaraty, do general

240 Almachio Diniz SÂO PAULO E MENNA BARRETO. Mostrou-me, nessa occasião, o Lllustre amigo, uma carta que lhe dirigira o general KLINGEK, a 14, mas que somente lhe chega ra as mãos nesse dia 27. Na referida carta, o chefe militar das tropas rebeldes dizia estar disposto a evitar maior sacrifício de vidas e mais damnos materiaes ao paiz, e que, por isso, pedia ao general MENNA BARRETO procurasse ouvir, a respeito, o pensamento do Governo. Fiz tirar uma cópia desse documento, devidamente autorisado pelo seu destinatário, e levei-a ao chefe da Nação» para que delle se inteirasse também. A isso, e unicamente a isso, se restringiu a minha acção neste caso. Como, entretanto, se venha fazendo uma certa confusão a propósito da resposta dada pelo general MENNA BARRETO â carta e ao telegramma mencionados do general BERTHOLDO KLINGER, convém restabelecer, nessa parte, a realidade das cousas. E com isso, deve accentuar-se que, desde os primeiros dias da Revolução, o chefe do Governo Provisório, animado de elevados propósitos de pacificar o paiz, sempre affirmou que jamais fora pensamento de quem quer que seja fazer guerra ao Estado de São Paulo. O objectivo do Governo da Republica sempre foi a garantia da ordem e manutenção do prestigio da alta autoridade de que foi investido pelo movimento triumphante de 1930, e que só a um governo juridicamente organisado pela Nação. nos termos expressos da nossa grande lei eleitoral e no decreto que convocou as eleições para 3 de Maio vindouro, seria entregue o poder. Por consequência falar em constitucionalisação immediata é cousa absurda e mesmo uma contradicção dos próprios termos dessa idêa. Constitucionalisação immediata ê desideratum impossível, porque constitucionalisação nos termos technicos do direito só se poderá fazer pelo consentimento da Nação, manifestado pelos seus legítimos representantes e emquanto não houver a eleição para a Constituinte e a votação, por esta, da Constituição, não se dará a constitucionalisação do paiz. O chefe do Governo Provisório offereceu decretar uma

A SUA GUERRA DE SECCESSÃO 241 Constituição provisória, é exacto, para vigorar até á votação da Constituição definitiva. Si se quer chamar de constitucionalisação immediata a outorga dessa Constituição, então, sim, nfio tenho nada a ajuntar. E, concluindo, diz nos ainda o Sr. ministro das Relações Exteriores: As condições estabelecidas pelo chefe da Nação para o restabelecimento da paz, depois de preliminarmente depostas as armas pelos revolucionários, são do conhecimento publico. Ainda no Manifesto com que ha dias o Dr. GETUXIO VARGAS se dirigiu no povo de São Paulo, e que os jornaes de hontem divulgaram, ellas foram repetidas. Não ha, pois, que dizer de novo sobre ellas." A transacção, feita com os militares que combatiam por São Paulo, matou a revolução constitucionalista e extinguiu todas as possibilidades contrarevolucionarias (1). Mas, de pé, innegavelmente, ficou o motivo remoto da grande guerra civil, tanto mais intangível quanto com elle não transigiu o elemento pensante - os politicos paulistas nem tão pouco a população de São Paulo. E não deve ser perdida a observação dos factos tumultuosos, que se desenrolaram, post guerra, na capital paulista e em sua cidade principal a de Santos contra a conclusão da lueta. Diz-se que foi feita a paz. Mas, a paz, entre as forças nacionaes e paulistanas, que, ou por um principio de constitucionalisação do Brasil, ou por u m preceito con- (1) N&o me arreceio de registrar aqui a vers&o, n&o desmentida, de que o ex-mlnlstro FRANCISCO CAMPOS, conspirando contra o Governo, do que resultou a sua exoneraç&o, por carta propuzera ao general GÓES MONTEIRO, sendo delia portador um juiz, que se abalou até lo Q. O. de Leste, a pacificação, transigindo-se com a entrega do Governo Provisório a uma junta da qual faria parte o honrado presidente OLEGÁRIO MACIEL, a tudo extranho, Indo para o governo de Mlnas-Geraes, o dito FRANCISCO D» CAMPOS.

242 Almachio Diniz SJLO PAULO E trarevolucionario, ou por uma regra evolutiva de seccessão, se guerreiavam no território de São Paulo, na continuação da iniciada guerra civil de 1930, interrompida em meio, si não no seu principio, pela realisação da. pacificação imposta pelos generaes do Exercito, que teriam de ir guerrear, a 24 de Outubro daquelle anno, poderia ser feita, não como uma intervenção de um poder extranho, mas como, afinal, a victoria de uma das parcialidades em armas. Entretanto, si poderia ser feita, mesmo assim não devera ser, porque não passaria de um adiamento do fim revolucionário, o qual, interrompido em sua mar cha, terá de proseguir mais tarde, atacando o organismo nacional, nas más condições em que seja deixado pelos dois primeiros achaques, um terceiro, para vir, então, a verdadeira solução, demandada pelo paiz revolucionado. O primeiro problema a estudar-se, no emprehendimento de comprehender-se a actual guerra civil na sua verdadeira finalidade, é o da opportnnidade da paz. Os organismos sociaes soffrem uma lueta pela existência, em seu duplo caracter, de interna e externa, lueta de selecção dos seus próprios elementos, e do seu todo no meio das entidades internacionaes. Esta é a guerra entre as nações. A outra pratica-se pelas revoluções e pelas guerras civis. O êxito de ambas é a victoria da civilisação. Na finalidade civilisadora, os organismos sociaes crescem, vivem, sentem e evoluem, por vezes, chegando á morte. Ampliada a linguagem da velha Historia Natural, com essa ampliação significamos o enquadramento dos organismos na lueta universal, para que vençam os mais aptos (the fittest), na expressão de HTJXLEY. Em língua

A SUA GUERRA DE SECCESSÃO 243 gem corrente, portanto, os factos resultantes da adaptação assim feita, conformam a civilisação. "Sei de dois typos de civilisação escreveu GUGLIELMO FEBBDBO uma, pela violência, quando, na lueta pela vida, o poder politico e as riquezas são conquistadas pelas armas, e outra, pelo dolo, quando, na lueta pela vida, a conquista do poder politico e das riquezas, é feita pela astúcia e pelo engano" (1). Nas sociedades, em sua vida collectiva, eui sua existência individual, si não é feita pelas revoluções, a civilisação 6 rcalisada pela astúcia e pelo dolo egualmente. Esse processo entrou em pratica, de ha muito, na magna civitas, na magna societas, em substituição ao da violência, que é o da guerra. Producto evolutivo, embora, aquelle não venceu ainda a violência. O imperialismo, o que um dia conflagrou os povos, é uma consequência iminediala da civilisação por violência. A concurreucia commercial é feita pelas mais desenvolvidas marinhas e pelos mais adextrados exércitos. A expausão territorial, não obstante a organisação da Liga das Nações e dos Congressos de Desarmamento, ainda é obtida com o relanipegar das metralhas e o canto da bigorna, em que se malha o ferro dos canhões. Assim tem sido uas Philippiuus, na Nova Guiné, na China, na Maudchuria. "Hoje se combate fez ver um valente escriptor pela violência e pelo dolo; mais com este do que com aquella, porque, em geral, se combate pela violência entre as sociedades extrangeiras, e pelo dolo entre os membros de uma mesma sociedade". De onde, a guerra é a (1) Apud SCIPIO SIQHELK, Psychologie des sectes, trad. franceza, de Louis BRANDIN, Paris, 1898, pag. S7.

244 Almachio Diniz SÃO PAULO E violência; a paz é o dolo e a astúcia. Quando a civilisação se corrompe pelo dolo e pela astúcia, está chegado o momento da guerra, no mundo internacional, e o das revoluções ou guerras civis, nos organismos sociaes (1). Por consequência, as revoluções, como as guerras, por sua finalidade, se justificam dentro do principio biológico de que luctar é viver e viver é vencer. Ha um ponto em que os casos da evolução social não se resolvem, nem pelos discursos, nem pelos votos das assembléas, mas pelo ferro e pelo fogo, devendo, para essa hora necessária, estar secca a pólvora e as espadas afiadas (2). O mundo social reproduz a evolução do mundo animal. VON BERN- HARDT escreveu: "A guerra é uma necessidade biológica de alta e primordial importância, uma espécie de regulador da vida da espécie humana, sem o qual esta não pôde seguir o seu desenvolvimtnto natural, e avançar em civilisação e saúde physica" (3). De onde, a lei do mais forte se impõe por toda a parte. E, assim, o próprio direito tem seu fundamento na força e, até, a moral humana não se impõe, sinão quando é a moral da força. As guerras, mesmo quando sejam civis, não se devem estancar, embora possam ser estancadas. Foi um grave erro, em 1932, como o foi, em 1930, cortar o surto physiologico, que uma revolução armada, como a de São Paulo, forte, bem municiado e cheio de sentimento, representa. A formula synthetica de FÉLIX LE DANTEC, como ex- (1) ALMACHIO DINIZ, Curso de enoyclopedia juridica, Bahia, 1913, pags. 105 e seguintes. (2) V O N BERNHARDT, Deutschland und der Mãchstekrieg, Berlim, 1911. (3) Op. cif., pag. «8.

A SUA GUERRA DE SECCESSÃO 245 pressão de uma constante realidade cósmica, é puramente esta: "Être c'est lutter, vivre c'est vaincre" (La lutte universelle, Paris, 1906). A lueta é o processas vital de toda organisação cósmica. Lssa lueta, ou é lenta, peia realisação de constantes adaptações dos mais fones, ou dos mais aptos, ou dos mais perfeitos, ou é violenta, pelo desdobramento das revoluções e guerras civis. CLAERSS WAUNKR concretisou o facto universal nesta outra formula: "Todas as leis da natureza podem ser reduzidas á grande lei da lueta" (Apud VON BERNHARDT, op. cit., loc. cit.). Assim nos organismos animaes, como nos organismos brutos, e também nos organismos sociaes. Sempre que uma vantagem se cria uma lueta se estabelece. Por conseguinte, o propósito, em geral, de acabar com as guerras, e, em particular, de cercear-lhes, antes de sua finalidade, o seu surto, contraria as leis universaes que fomentam a vida no universo. A funcção evolutiva da guerra, tão observável no mundo social, como no internacional, foi acertadamente pronuncida por VON BERN HARDT, no seu referido livro que ALLEN H. POWLAS traduziu para o inglez, sob o titulo de Cermany and the next Word. O culto general allenião assim se externou, partindo do preceito de que a guerra é a creadora de todas as cousas: "A lueta pela existência é na natureza a base de todo o desenvolvimento sadio. Tudo que existe prova que provém de forças, que se contrariavam. Assim, na vida do homem, a guerra não é um elemento de destruição. E' um elemento, que distribue energia e vida. Dominar ou ser dominado é a essência da vida, dizia GOETHE. A lei do mais forte se impõe por toda a parte. Toda

246 Almachio Diniz SÃO PAULO E vida, na natureza, nas sociedades, está subordinada a esses principios eternos. Nas sociedades, ha diíferenças entre os indivíduos. Uns são mais intelligentes, outros mais fracos de mentalidade, uns mais enérgicos, o unos, débeis. Ninguém pôde negar que as nações feitas de indivíduos, e os Estados, de communidades, estejam sudmettidas ás mesmas influencias. Assim como os indivíduos procuram dominar uns aos outros, as nações buscam tal prestigio e expansão umas mais do que outras". E poude sabiamente concluir: "Todas as prosperidades intersociaes, todos os pensamentos, todas as invenções e instituições, são, sem duvida, o resultado da lueta intersocial, na qual uns preponderam sobre os outros. EM QUE CONSISTE A VIDA SOCIAL, SENÃO NUMA LUCTA DE PENSAMEN TOS, SENTIMENTOS, DESEJOS, SCIBNCIA E VÁRIOS RAMOS DE ACTIVIDADE? No crescimento ou na decadência, na victoria de um facto sobre outro, se resume todo o mecanismo social. Por isso, a guerra é creadora" (VON BERNHARDT, op. cit., loc. cit.). Já houve, e foi seguramente L E DA TEC, quem definisse a vida como a resistência do ser vivo ás acções destruetivas do meio, o que pôde ser dito por outras palavras, a invasão do meio pelo ser vivo (Op. cit., pag. 8). Não se podem destacar, portanto, as duas razões, que são a de lucta e a de vida. Essa lucta desdobra-se em duas acções concurrentes: o combate pela existência, em si, que se trava com o meio ambiente, e o combate pela coexistência, que se trava entre os seres de uma mesma sociedade, considerada esta como um organismo vivo. Não ha diíferenças radicaes entre o organismo individual do homem e o organismo individual da

A SUA GUERRA DE SECCESSÃO 247 sociedade, senão as estructuraes. O professor LEON DU- CUIT disse primeiramente que a sociedade é um individuo e o individuo é uma sociedade. E m vista dessa affirmativa, foi mais longe: "Os factores essenciaes que produzem os phenomenos sociaes, são exactamente os mesmos que os que produzem os phenomenos do mundo orgânico. Três factores principaes agem sobre o desenvolvimento orgânico dos indivíduos: a lucta pela vida, a adaptação ao meio e a herança. Ora, esres três factores são precisamente aquelles que têm uma acção essencial sobre o desenvolvimento social. Mais especialmente, esse órgão social, que se chama o Estado, nasce e desenvolve-se sob a influencia da lucta pela vida, da adaptação ao meio no qual está collocado, e da herança" (Le droit constitutionnel et la sociologie, Paris, 1889). A lucta pela vida não 6 senão a guerra do individuo contra a collectividade. A guerra orgânica de uma unidade contra o todo. A guerra de uma collectividade contra a outra. E' um elemento de vida. E' uma necessidade, tanto de evolução individual, quanto de evolução social. Tem o seu curso natural, obedecendo, portanto, a uma finalidade. Iniciada que seja, terá de ir a um próprio exgottamento de funcções. Si esse exgottamento se forçar, a guerra apenas terá o seu mister adiado, para se renovar noutro momento, com um flagello, talvez, de máximas proporções para uma dada estabilidade social. A evolução caracterisa-se, em principio, pela sobrevivência do mais forte. Este define-se pela lucta, da qual resulte a derrota do mais fraco. Em qualquer parte, mesmo no direito, como na moral, pois a força é o que

248 Almachio Diniz SÃO PAULO E faz, cria ou é o direito, assim como é o que faz, cria ou é a regra de conducta humana, a lucta deve ser tomada no sentido de concnrrencia vital. A primeira inducção a fazer-se desse principio genérico, é que a força é a medida do poder de vencer nas batalhas, á qual corresponde uma lógica deducção, que é a de que o direito resultante da victoria nas batalhas, é simplesmente uma liberdade material de agir (GRASSET, La science, le droi et la force, les conclusions de la hiologie hiimaine, Correspondant, de 25 de Outubro de 1914, pag. 261). A força é a origem do direito. Mas, também, como sua expressão social, o direito é o resultado uma relação de equilíbrio do embate de forças sociaes. Logo, o direito é a prerogativa do mais forte. Muito claro é que o mais forte, não é aquelle que tem mais capacidade de violência, porém o que tem mais capacidade de resistência, de solidez, pelo que mais superiormente supporta, ou as manifestações da vida cósmica, ou as realisações da vida social. O direito vem a ser a liberdade de acção na resistência a outras liberdades de egual natureza, de sorte que todas as liberdades coexistam como expressão de forças individuaes. BISMARCK, partindo da premissa de que "o direito é uma missão sagrada dos indivíduos robustos, dos povos sãos", pelo que "é a vontade, o interesse do forte", moderou-se, entretanto, quando affirmou que, assim considerando, "não se quer dizer que a força prima o direito; nem ha entre elles antagonismo; o direito é uma consequência da força; não ha direito, si não ha força, não ha força sem direito". Essa affirmativa, que colho num estudo de revista, é verdadeira.

A 8UA GUERRA DE SECCESSÃO 249 E vem provar que não se podem evitar as manifestações da foiça nos phenomenos jurídicos, entre os quaes se opera a selecção, por uma lucta, que se estadeia de um mínimo a u m máximo, das adaptações individuaes ás adaptações intersociaes, ou internacionaes. A lucta pelo direito é um principio teleológico, como esforço para perseverar no tacto, assim como, na palavra de NIETZSCHE, é principio teleológico o esforço para perseverar no ser (Par dela le Bien et le Mal, trad s L. WEISCOPF et G. ART., Paris, 1898, 13). A mesma cousa é toda lucta, de que resulta sempre uma selecção e encontra estalão na guerra, porque esta é o único meio pelo qual se pôde eiiectuar a selecção dos fortes (H. VON TREITSCHKE, Politik, vol. 2 o, pag. 552). Como cadinho para se apurar o mais forte, que é sempre aquelle que tem mais direito á vida, aquelle a quem a natureza, que quer a realisação do progresso, deixa o máximo de liberdade para existir (R. ANTHONY, La force et le droit, le prétendu droit biologique, Paris, 1917, pag. 95), uma lucta, cuja finalidade é sempre selecção, não deve ser cortada artificialmente. Si uma guerra civil, para um organismo social, é assim como uma sangria, para um organismo animal, antes de extravasar-se o liquido na medida necessária, não deve ser sustado o curso eliminatório do sangue. Si este sai em demasia, uma transfusão é o recurso próprio. Mas, si a sahida é em menos do que necessário, o operador terá de abrir novo sangradoiro para attingir o ponto qu«a primeira intervenção não attingiu. Uma lucta interrompida por uma transacção, por obstáculos impostos ao seu êxito final, é uma lucta que se terá de renovar. A

250 Almachio Diniz SÃO PAULO E paz é a negação do progresso continuo, e provem do erro de considerar-se a lucta como uma hostilidade entre indivíduos, ou entre nações, uns contra os outros, e não como um combate ás múltiplas causas que prejudicam a finalidade cósmica dos seres, ou dentro de sua espécie, ou dentro da sociedade que elles componham (LAMERRE, Les Associations biologiqaes, Bruxelles, Moreau, lyou, gon 1, I o ). Coexistência quer dizer lucta e o exercício seu é o exercício integral do direito de natureza, um estado de guerra verdadeiramente, como disse HOBBES, de guerra incessante de cada honiem contra cada homem, e no qual cada homem é para cada homem um inimigo: whete every man is ennemy to every man (Leviathan, cap. XIII). E é por isto que todos os esforços, feitos em nome da cultura juridica, não têm produzido mais do que tornar as guerras odiadas, mais humanas, talvez, em prejuízo de sua funcção histórica.. Necessidade social, a guerra civil instituída por São Paulo, obedeceu a uma funcção histórica, segundo o principio geral de que a guerra é tão necessária quanto a lucta dos elementos naturaes (VON SCHLEGEL). Havia a conveniência de levar a termo a lucta nacional inaugurada em 1930. Assim como, o que é conveniente é que se escolha com propósito o momento da guerra (VON BERN HARDT, op. cit., loc. cit.), é mais conveniente ainda qu não se estorve, pela paz, uma guerra propositadamente inaugurada. Por isto mesmo, si, em certas condições, conduzir os acontecimentos até á declaração de guerra, não é somente um direito, mas também um dever moral e politico dos verdadeiros estadistas (BETHMANN HOLLWEG,

A SUA GUERRA DE SECCESSÃO 251 Discurso de 30 de Março de 1911), manter a guerra para se attingir a sua finalidade natural, é manter a efficiencia da lucta, como expressão do progresso pela victoria do mais forte. Si as forças se contrabalançam, a necessidade da guerra permanece. A paz só serve quando ha vencidos e vencedores. Ella é uma expressão da ordem, do equilíbrio (MAX, Introduction à la science du droit, Paris, 1920, pag. 8). Si o desequilíbrio continua pelo conflicto virtual ou potencial das forças que agem em parallelogrammo na sociedade, a paz é uma intervenção, mas não é um fim. O equilíbrio da paz forçada é um equilíbrio apparente, é um falaz equilíbrio, que se compara, como exemplifica PICARD (La science modeme cl son état actuei, Paris, 1905, pag. 194), "à 1'équilibre d'un corps rugueux retenu par le frotfement sur un plan incline". As sociedades falsamente pacificadas tomam um estado de facto, de equilíbrio apparente, devido a resistencias passivas, que prestam para, durante algum tempo, manter a cohesão do aggregado, mas só durante algum tempo (ROBERTO VACCA, II diritto sperimentale, Torino, 1923, pag. 153), desde que, ao primeiro acciden<<\ podem permittir a ruptura do mesmo equilíbrio e levar o organismo respectivo á sequencia da lucta interrompida pela paz inopportuna. Em marcha a revolução de 1930, caminho de uma paz victoriosa, intervieram elementos extranhos, si não adversos, e lançaram unia paz uionientanea. O seu valor foi a de um adiamento da solução necessária. Estabeleceu-se um equilíbrio apparente, durante o qual as forças combatidas, por não totalmente derrotadas, sobreviveram, preparando se para a reabertu-

252 Almachio Diniz SÃO PAULO E ra do conflicto inevitável, que, afinal, se veiu dar com a passada guerra civil declarada por São Paulo, velho viveiro das forças demolidoras, contra o Brasil, apparentemente pacificado pela evitação da lucta, mas não pela victoriação do elemento revolucionário de renovação social. Por tudo isto, no momento actual, provocar a pacificação, como se provocou, foi de novo adiar o esmagamento das forças destruidoras. Ha uma synthese perfeita em uma expressão do presidente GETULIO VARGAS: a paz só poderá ser feita com a rendição completa dos in migos. Desapparecendo um dos elementos conflictantes, o equilíbrio se realiza. Mas, sem que esse desapparecimento se verifique, a pacificação se fará, como se fez, aliás estabelecendo-se u m equilíbrio apparente, u m falso equilíbrio, a romper-se na primeira opporturiidade. Porque a revolução de 1930 não teve uma paz victoriosa, mas uma pacificação de conveniência, teve de resurgir na lucta imposta pela contrarevolução de São Paulo. Os bons brasileiros só podem querer a paz da victoria. E esta só viria si a contrarevolução de São Paulo fosse derrotada, efficientemente, pela revolução começada em 1930 e só agora encarreirada para o triumpho, ou si, se não dando este, São Paulo conseguisse proclamar a sua emancipação. A seccessão de São Paulo está em marcha. Para evital-a, só conheço um recurso próprio: a confederação dos Estados, em que estes, por uma egualdade e por uma similaridade de organisação, se mantenham cohesos para a vida e para a morte. A victoria das idéas, ou de um lado, ou de outro, foi tão somente adiada.

ÍNDICE Ao Modo de um Prefacio 9 0 Primeiro Obuz 23 A Causa Apparente 87 A Causa Immediata 127 A Causa Remota 173

ANCIOSAMENTE ESPERADO DESTINADO A UM FRANCO SUCCESSO APPARECERA' EM MARÇO DESERTO VERDE de HENRIQUE P O N G E T T I

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ANCIOSAMENTE ESPERADO DESTINADO A UM FRANCO SUCCESSO» APPARECERA' EM MARÇO DESERTO V E RD E de HENRIQUE P O N G E T T I

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