PARLAMENTO EUROPEU 2009-2014 Comissão dos Transportes e do Turismo 26.3.2013 DOCUMENTO DE TRABALHO sobre uma proposta de regulamento do Parlamento Europeu e do Conselho relativo à comunicação de ocorrências na aviação civil, que altera o Regulamento (UE) n.º 996/2010 e revoga a Diretiva 2003/42/CE, o Regulamento (CE) n.º 1321/2007 da Comissão e o Regulamento (CE) n.º 1330/2007 da Comissão Comissão dos Transportes e do Turismo Relatora: Christine De Veyrac DT\929703.doc PE506.242v01-00 Tradução externa Unida na diversidade
Contexto Num momento em que as previsões apontam para um forte crescimento do tráfego aéreo até 2030, será conveniente reforçar os dispositivos preventivos de segurança da aviação, a fim de evitar um cenário no qual o número de acidentes aéreos acompanhe a tendência de aumento do tráfego. Se é verdade que, atualmente, podemos regozijar-nos com a eficácia dos sistemas de investigação de acidentes instituídos na União Europeia 1, não é menos verdade que chegou a altura de envidar esforços consideráveis na recolha e análise proativa das ocorrências. Enquanto que as investigações de acidentes consistem em analisar as causas dos mesmos, o sistema de comunicação de ocorrências visa identificar os incidentes que podem conduzir a uma catástrofe, caso não sejam conhecidos e corrigidos. A Diretiva 2003/42/CE e os respetivos regulamentos de execução 2 estabeleceram os princípios de uma recolha de ocorrências e as bases de um intercâmbio regional de dados relativos às ocorrências, como recomendado pela OACI 3. Reconhece-se agora que a legislação europeia em causa evidenciou as suas limitações, nomeadamente devido a uma apreciação e aplicação diferentes dentro da União. A proposta de regulamento da Comissão visa reforçar e aprofundar o sistema proativo de prevenção dos acidentes através da análise e do intercâmbio rápido de informações, contribuindo assim para a concretização dos objetivos estabelecidos no Livro Branco dos Transportes de 2011 4. O reforço da segurança só será possível com um sistema capaz de identificar claramente potenciais falhas e de adotar rapidamente medidas corretivas. Tendo em conta que todo este sistema proativo assenta na comunicação espontânea de ocorrências por parte dos trabalhadores do setor da aviação, é indispensável garantir a criação de um ambiente de confiança, pautado pela chamada «Cultura Justa». Observações preliminares (1) Âmbito de aplicação do regulamento Atendendo ao objetivo do regulamento em apreço, que consiste em reforçar a segurança da aviação mediante a clarificação e melhoria dos sistemas de recolha e análise das ocorrências, a relatora defende que a aplicação das presentes medidas deve abranger toda a aviação civil comercial e toda a aviação geral. 1 Regulamento (UE) n.º 996/2010. 2 Regulamento (CE) n.º 1321/2007 e Regulamento (CE) n.º 1330/2007. 3 Recomendações 8.5 - nota 2/ 8.9, anexo 13 da Convenção relativa à Aviação Civil Internacional. 4 Objetivo 17 - COM(2011)144, março de 2011. PE506.242v01-00 2/5 DT\929703.doc
(2) Garantir a criação efetiva de um ambiente de «Cultura Justa» O estudo encomendado pela Comissão Parlamentar dos Transportes e do Turismo em 2010 1 concluiu que «algumas autoridades consideram que o atual nível de proteção das pessoas que comunicam ocorrências é baixo, especialmente no que diz respeito à proteção dos membros do pessoal contra os prejuízos que estes últimos podem sofrer no seio da sua organização». Atualmente, os trabalhadores do setor da aviação continuam a temer a instauração de processos judiciais ou de sanções por parte dos seus empregadores em determinados Estados-Membros, nos quais ainda existem lacunas em termos de proteção do autor da comunicação. Dado que o sistema de comunicação, quer seja obrigatório ou voluntário, assenta integralmente na confiança do autor da comunicação, o regulamento deve prever, ao nível da União, a criação efetiva de um ambiente não sancionatório, pautado pela chamada «Cultura Justa», respondendo assim às preocupações relacionadas com a autoincriminação. Com o intuito de reforçar essa confiança, a relatora questiona-se sobre a possibilidade de alargar a proteção reservada ao autor da comunicação a qualquer pessoa envolvida na ocorrência comunicada e não apenas a esse autor. A relatora manifesta-se igualmente convicta de que as aparentes discrepâncias na interpretação da terminologia estão, em parte, na origem do défice de comunicação de ocorrências verificado em determinados Estados-Membros. Neste sentido, a relatora congratula-se com a introdução do conceito de «negligência grave» mas sublinha a necessidade de clarificar esta definição, especificando, nomeadamente, o conceito de «comportamento doloso». Afigura-se essencial que os trabalhadores do setor da aviação possam invocar uma interpretação uniformizada perante os vários órgãos jurisdicionais nacionais competentes para poderem beneficiar do mesmo nível de proteção dentro da União. A relatora considera oportuno abrir aos Estados-Membros que o desejem a possibilidade de consolidar este ambiente de confiança mediante a aplicação de um limiar de impunidade superior. Na sua proposta de regulamento 2, a Comissão sugere a criação de um mecanismo de recurso que permita ao autor da comunicação denunciar as infrações às regras relativas à proteção das fontes. A relatora congratula-se com o dispositivo proposto e sugere a exploração de novas formas de promover o seu reforço, no sentido de garantir uma proteção suficiente aos trabalhadores. (3) Rumo a um sistema mais proativo e a uma melhor colaboração Para evitar novos acidentes, os Estados-Membros da União devem agora definir as ações prioritárias e instaurar medidas que respondam às necessidades identificadas. Através de um 1 IP/B/TRAN/IC/2009/024, ponto 2.5.1, página 71. 2 Artigo 16.º, n.º 6 DT\929703.doc 3/5 PE506.242v01-00
melhor intercâmbio de informações entre os Estados-Membros sobre os dados recolhidos a nível nacional será possível garantir que as tendências observadas pelas organizações ou pelos Estados se verifiquem a nível europeu. Todos os intervenientes salientaram a necessidade de melhorar a qualidade dos dados recolhidos e de assegurar a sua compreensão por todas as autoridades competentes. Nesse sentido, a relatora defende a proposta legislativa com vista a desenvolver um sistema comum de classificação de dados, indo assim ao encontro quer desta necessidade, quer das recomendações da OACI 1. Uma recolha otimizada das ocorrências permitirá reforçar a pertinência das análises. Nesse sentido, a relatora insiste na importância de assegurar que os dispositivos de análise implementados ao nível das organizações e dos Estados-Membros permitam identificar corretamente os problemas aos quais pode e deve ser dada uma resposta no sentido de reforçar a segurança dos utilizadores. Perante este cenário, as modalidades de análise poderão ser objeto de uma precisão no futuro regulamento. A relatora saúda a criação de uma rede de analistas responsável por analisar os dados a nível europeu e coloca a possibilidade de permitir que este grupo de especialistas, quando necessário, possa convidar representantes dos operadores e/ou dos autores das comunicações a participar nos seus trabalhos, sem com isso colocar em causa a proteção da identidade dos intervenientes. A melhoria do intercâmbio de informações entre os Estados-Membros afigura-se essencial para garantir que todos tenham conhecimento dos incidentes ocorridos no seu espaço aéreo nacional. De facto, a legislação atual não permite que as autoridades nacionais de segurança sejam alertadas e conheçam com exatidão as condições de um incidente ocorrido no espaço aéreo nacional se a empresa estiver certificada por outro Estado-Membro da União. Dado que uma empresa se pode tornar o principal operador num Estado-Membro ao qual não faz comunicações, é importante que as autoridades desse país possam ter conhecimento das ocorrências registadas no seu espaço aéreo. É impreterível que o futuro regulamento responda a essa lacuna e permita um intercâmbio transparente das informações relativas à segurança entre os diferentes Estados-Membros. (4) Papel dos intervenientes no esquema de comunicação de ocorrências Os diferentes estudos e consultas realizados sobre o sistema atual realçam a necessidade de colocar os autores das comunicações e os operadores no centro do sistema. É importante permitir que todos os intervenientes, incluindo os autores das comunicações, retirem ensinamentos adequados, a fim de poderem aferir com mais rigor o impacto positivo da comunicação de uma ocorrência na segurança aérea e na sua própria segurança. A relatora questiona-se sobre a possibilidade de instar as organizações e os Estados-Membros 1 Recomendações 8.5 e 8.9 - nota, anexo 13 da Convenção relativa à Aviação Civil Internacional. PE506.242v01-00 4/5 DT\929703.doc
a comunicarem melhor as medidas adotadas aos trabalhadores do setor da aviação. A par dos Estados-Membros, a Agência Europeia para a Segurança da Aviação (AESA) deve desempenhar um papel central na coordenação da análise e da implementação efetiva das medidas corretivas adotadas pelos diferentes intervenientes. Como tal, afigura-se essencial conceder à AESA um acesso pleno ao repositório central europeu, com vista a facilitar o intercâmbio de informações na Europa. A relatora entende que o legislador deve fornecer à AESA todos os instrumentos necessários para a concretização dos objetivos definidos pelo direito europeu. É necessário assegurar que a AESA disponha dos recursos adequados para atender aos dispositivos previstos na presente proposta. Nesse sentido, a relatora questiona-se sobre a necessidade de alterar, em conformidade, a ficha financeira legislativa que acompanha o futuro regulamento em apreço. (5) Lista de incidentes a comunicar no âmbito do sistema de comunicações de ocorrências obrigatórias Os estudos demonstraram que atualmente grande parte das ocorrências não é comunicada devido a uma aplicação diferente nos Estados-Membros. Convém, por isso, enunciar claramente no regulamento em apreço as ocorrências que devem ser comunicadas pelo sistema obrigatório. Importa salientar a pertinência do recurso aos atos delegados para dar a flexibilidade necessária à preservação em anexo no futuro regulamento da lista de ocorrências que devem ser obrigatoriamente comunicadas. A relatora sugere que a rede de analistas seja consultada sobre cada proposta de ato delegado que tenha como objetivo uma alteração dos anexos. A instauração obrigatória de um sistema de comunicações voluntárias, acompanhada de uma divulgação de todas as informações no repositório central europeu, deve permitir à rede de analistas identificar claramente as ocorrências que devem ser adicionadas à lista. (6) Forma jurídica do ato A Diretiva 2003/42/CE (artigos 4.º e 5.º) prevê que os Estados-Membros são obrigados a comunicar as ocorrências que, caso não sejam corrigidas, ponham em perigo uma aeronave, os seus ocupantes e qualquer outra pessoa. No entanto, embora esses objetivos sejam transversais a todos os intervenientes, a ausência de harmonização na instauração do sistema de comunicação de ocorrências debilita consideravelmente a sua eficácia. Assim, o recurso a um regulamento aparenta ser a opção mais adequada para dar resposta às limitações evidenciadas pelos vários estudos e à necessidade de reforçar a segurança da aviação na União, além de observar o princípio da subsidiariedade e das competências dos Estados. DT\929703.doc 5/5 PE506.242v01-00