Acórdãos STA Processo: 0715/09 Data do Acordão: 18-11-2009 Acórdão do Supremo Tribunal Administrativo Tribunal: Relator: Descritores: Sumário: 2 SECÇÃO JORGE LINO PENHORA GARANTIA REAL REGISTO TERCEIRO I - O registo predial da penhora não é constitutivo do direito de garantia real sobre o prédio penhorado. II - Porém, a garantia real da penhora, não registada, ainda que anterior, não é oponível aos demais credores ("terceiros") com penhora, registada, sobre o mesmo prédio. Nº Convencional: JSTA000P11138 Nº do Documento: SA2200911180715 Recorrente: A... Recorrido 1: B... E FAZENDA PÚBLICA Votação: UNANIMIDADE Aditamento: Texto Integral Texto Integral: 1.1 A vem recorrer da sentença do Tribunal Tributário de Lisboa, proferida nestes autos de reclamação, verificação e graduação de créditos, a decidir que «não pode o crédito ser reconhecido ou verificado». 1.2 Em alegação, o recorrente formula as seguintes conclusões. 1. A penhora ordenada no proc. nº 108/94 não incide sobre um imóvel, mas sobre o direito à meação do executado nos bens comuns do casal - certidão junta aos autos à margem em 25.01.2007. 2. O que caducou não foi a penhora mas o registo efectuado na CR Predial - artºs 11º, nºs 1 e 2, e 12º, nº 1, do CRP. 3. As disposições do CPC aplicáveis são-no na redacção anterior às alterações introduzidas pelo Dec-Lei nº 329/95 e pelo Dec-Lei nº 180/96, atenta a data do início dos
processos em causa artº 16º do Dec-Lei 329-A/95. 4. A penhora extingue-se só pelo seu levantamento (artº 847º, nº 1 do CPC), ou pela extinção da execução (artºs 916º, nº 1, e 919º, nº 1, do CPC), pelo que a penhora ordenada no Proc. nº 108/94 não se extinguiu. 5. O direito de penhora é garantia geral das obrigações artº 601º do CC. 6. A penhora de quaisquer bens ou de direitos constitui garantia real artº 822º, nº 1, do CC. 7. A penhora ordenada no proc. nº 108/94, porque é penhora de um direito, não está sujeita a registo artº 2º, nº 1, do CRP. 8. A penhora ordenada no proc. nº 108/94, porque penhora de direito, produz efeitos independentemente de registo artº 833º, nº 3, do CPC, a contrario. Logo, constituía garantia real à data da reclamação de créditos apresentada nos autos. 9. Devia ter sido admitida a reclamação do recorrente e efectuada a graduação dos créditos em conformidade. Nestes termos, deve ser dado provimento ao presente recurso, ordenando-se a revogação da sentença, decidindose pela procedência da reclamação dos créditos do recorrente e substituindo-se a graduação efectuada. 1.3 Não houve contra-alegação. 1.4 O Ministério Público neste Tribunal emitiu o parecer de que o recurso merece provimento e que a decisão impugnada deve ser revogada e substituída por acórdão que reconheça o crédito e o gradue segundo as normas substantivas aplicáveis apresentando a seguinte fundamentação. l. A penhora da meação do executado em bens comuns do casal, efectuada noutra execução constitui garantia real, na medida em que confere ao seu titular o direito de sequela, traduzido na possibilidade de impor a terceiro a realização do seu direito, como consequência da ineficácia em relação ao credor de actos de disposição praticados sobre o objecto da penhora (art. 819º CCivil; neste sentido Jorge Lopes de Sousa CPPT anotado e comentado Volume II 2007 p.492). A penhora confere ao titular da garantia o direito de ser pago com preferência sobre qualquer outro credor que não tenha garantia real anterior (art. 822º nº 1 CCivil). 2. A caducidade do registo da penhora, pelo decurso do prazo legal, não determina a extinção da penhora, a qual apenas opera com o seu levantamento ou com a extinção
da execução (arts.11º nº 1 e 12º CRPredial; arts. 847º nº 1, 916º e 919º nº 1 CPC). 3. A penhora da meação do executado não está sujeita a registo, na medida em que não tem por objecto bens imóveis concretamente identificados, antes o direito a uma universalidade indivisa de bens que, no caso em análise, alegadamente integra bens imóveis (arts. 1º e 2º nº 1 CRPredial; José Alberto Gonçalves CRPredial anotado 3ª edição p.58). A anterioridade da garantia para determinação da preferência na satisfação do crédito garantido deve reportar-se à data do despacho que ordenou a penhora, proferido em 22.02.1996 (doc. fls. 62) e não à data de um registo juridicamente inexigível. 1.5 Tudo visto, cumpre decidir, em conferência. Em face do teor das conclusões da alegação, bem como da posição do Ministério Público, a questão essencial que aqui se coloca é a de saber se o ora recorrente deve, na circunstância, ver reconhecido e graduado o crédito por si reclamado. 2.1 Em matéria de facto, a sentença recorrida, embora sem enfileiramento formal, considerou mormente o que segue (que aqui subordinamos a alíneas). a) Por despacho proferido no processo n 108/94, da 1.ª Secção do 15 Juízo Cível de Lisboa, foi determinada a penhora do direito à meação do executado B, nos bens comuns do casal que alegadamente integram imóveis com a observação, de que efectuada a penhora por notificação ao executado, o cumprimento só é exigível depois de dissolvido, declarado nulo ou anulado o casamento ou decretada a separação judicial de pessoas e bens ou a simples separação judicial de bens ( ) - cf. certidão de fls. 62. b) A penhora incidente sobre o imóvel inscrito na matriz sob o artigo U-761, e descrito na Conservatória do Registo Predial de Odivelas sob o n 01253/161286, foi efectuada em 29/2/96 - cf. documento de fls. 32 do PA. c) A referida penhora caducou cf. anotação de 20/9/2004 na certidão da CRP de Odivelas a fls., 29 do PA. d) Nos autos de execução, em 6/12/2004, foi penhorado o imóvel inscrito na matriz sob o artigo U-761, e descrito na Conservatória do Registo Predial de Odivelas sob o nº 01253/161286 cf. fls. 15 do processo de execução fiscal. e) A referida penhora foi registada em 10/12/2004 cf. fls. 29 do processo de execução fiscal.
2.2 De harmonia com o disposto no n.º 2 do artigo 873.º do Código de Processo Civil, «O credor reclamante só pode ser pago na execução pelos bens sobre que tiver garantia ( )», e «Só o credor que goze de garantia real sobre os bens penhorados pode reclamar, pelo produto destes, o pagamento dos respectivos créditos», nos termos do disposto no n.º 1 do artigo 865.º do Código de Processo Civil. Nos termos do n.º 1 do artigo 822.º do Código Civil ( Preferência resultante da penhora ), «( ) o exequente adquire pela penhora o direito de ser pago com preferência a qualquer outro credor que não tenha garantia real anterior». Esta regra prevê a hipótese de existirem, além do exequente, outros credores com garantias reais sobre os bens e destina-se a hierarquizar o crédito de exequente na sua relação com os créditos que beneficiam dessas garantias ou daquela penhora. A penhora, desde logo, desempenha uma função individualizadora dos bens que irão ser submetidos ao poder de execução do credor, do mesmo passo que constitui uma garantia real sobre o bem penhorado. Efectivamente, enquanto que o credor, antes da penhora, dispõe apenas da garantia geral incidente sobre o património do devedor (artigo 601.º do Código Civil), após a penhora adquire uma garantia especial incidente sobre bens determinados. Muito embora «O direito inscrito em primeiro lugar prevalece sobre os que se lhe seguirem relativamente aos mesmos bens, por ordem da data dos registos e, dentro da mesma data, pela ordem temporal das apresentações correspondentes», nos termos do n.º 1 do artigo 6.º do Código do Registo Predial, a penhora existe independentemente de ter sido levada, ou não, ao registo predial. Com efeito, a simples análise dos artigos 4.º e 5.º do Código do Registo Predial, articulada com o artigo 687.º do Código Civil «A hipoteca deve ser registada, sob pena de não produzir efeitos, mesmo em relação às partes», permite afirmar uma característica fundamental do registo predial no sistema jurídico português: o registo predial, em regra, não tem efeito constitutivo (nem aquisitivo, de resto). Ou seja: em princípio, o registo não dá nem tira direitos. Na verdade, de acordo com o artigo 1.º do Código do Registo Predial ( Fins do registo ), «O registo predial
destina-se essencialmente a dar publicidade à situação jurídica dos prédios, tendo em vista a segurança do comércio jurídico imobiliário». É, assim, através da informação disponibilizada pelo registo público que poderá ficar a saber-se qual a composição de determinado prédio, a quem pertence e que tipo de encargos (hipotecas, penhoras, etc.) sobre ele incidem. Mas a publicidade registral, que tem em vista a segurança do comércio jurídico imobiliário, é ainda condição de eficácia perante terceiros dos actos sujeitos a registo. Se é certo que, excepção feita aos «factos constitutivos de hipoteca cuja eficácia, entre as próprias partes, depende da realização do registo», «os factos sujeitos a registo, ainda que não registados, podem ser invocados entre as próprias partes ou seus herdeiros», de acordo com o artigo 4.º do Código do Registo Predial, o que é verdade também é que «Os factos sujeitos a registo só produzem efeitos contra terceiros depois da data do respectivo registo», nos termos do n.º 1 do artigo 5.º do Código do Registo Predial, ( Oponibilidade a terceiros ). E a penhora de imóveis é indiscutivelmente um facto sujeito a registo, por força da alínea n) do n.º 1 do artigo 2.º do Código do Registo Predial. Assim, se a penhora deve ser registada (como deve a penhora de imóveis), depende de tal registo a sua eficácia em relação a terceiros. Quer dizer: o registo da penhora de imóveis não é constitutivo, mas como o acto está legalmente sujeito a registo, se não estiver registado, não é oponível a terceiros, nomeadamente aos demais credores do executado. Importa, neste passo, deixar claro que, nos termos do n.º 4 do citado artigo 5.º do Código do Registo Predial, «Terceiros, para efeitos de registo, são aqueles que tenham adquirido de um autor comum direitos incompatíveis entre si». E afigura-se evidente que o credor reclamante de créditos e o seu devedor, executado em processo de execução fiscal, não se acham entre si numa relação afim daqueloutros que «tenham adquirido de um autor comum direitos incompatíveis entre si», pelo que, credor reclamante e executado, para efeitos de registo predial, não serão terceiros entre si. O credor reclamante de créditos terá numa relação de terceiros os demais credores do mesmo executado, reclamantes de créditos, uma vez que a todos o executado terá transmitido «direitos
incompatíveis» mas não o próprio devedor executado. O credor reclamante de créditos e o próprio executado, devedor, estarão, entre si, não numa relação de terceiros, mas numa relação linear e directa. 2.3 No caso sub judicio, a sentença recorrida expende que «Considerando, conforme decorre do estatuído no artigo 865, n 1 do CPC, que só o credor que goze de garantia real sobre os bens penhorados pode reclamar, pelo produto destes o pagamento dos respectivos créditos, a reclamação apresentada por A terá de improceder»; pois, «Nos termos do disposto no artigo 2º, nº 1, alínea a) do CRP, os factos jurídicos que determinem a constituição, reconhecimento ou aquisição ou modificação de direitos de propriedade, usufruto etc. estão sujeitos a registo»; e, assim, «A penhora decretada incidindo sobre imóveis, teria de ser registada sob pena de ineficácia, razão pela qual foi registada em 29/2/96 na Conservatória do Registo Predial de Odivelas»; pelo que, «Considerando que o registo da penhora foi efectuado em 29/2/96, a sua caducidade operou-se em 29/2/2006, em conformidade aliás com o que consta da respectiva certidão do registo predial supra indicada»; e que, «Assim sendo, à data da apresentação da reclamação, 21/6/2006 (cf. carimbo aposto a fls. 3), já o reclamante não dispunha de garantia real a seu favor sobre o bem penhorado na execução fiscal». Mas, por nós, julgamos que o reclamante, ora recorrente, ao contrário, dispõe de garantia real a seu favor sobre o bem penhorado na execução fiscal. Com efeito, o reclamante, ora recorrente consoante se colhe dos elementos dos autos reclamou a quantia de 17 578,77, que consubstancia a quantia exequenda nos autos de execução que instaurou no 15 Juízo Cível de Lisboa, a que foi atribuído o nº 108/94, quantia essa que inclui juros vencidos e vincendos até integral pagamento; e, no âmbito de tal acção executiva, foi efectuada a penhora e respectivo registo em 29-2-1996, incidente sobre o prédio urbano inscrita na matriz predial da freguesia de Odivelas, sob o n.º U-761 e descrita na Conservatória do Registo Predial de Odivelas, sob n.º 01253/Odivelas cf. especialmente a certidão constante de fls. 46 a 62 dos presentes autos de reclamação de créditos. Na verdade, e conforme, se deixou consignado supra, nas alínea a) e b) do probatório, em 29-2-1996, foi efectuada
no âmbito do processo n.º 108/94, da 1.ª Secção do 15.º Juízo Cível de Lisboa, em que é exequente o ora recorrente, «A penhora incidente sobre o imóvel inscrito na matriz sob o artigo U-761, e descrito na Conservatória do Registo Predial de Odivelas sob o n 01253/161286». E este identificado imóvel é o mesmo que se encontra penhorado nos autos de execução fiscal a que respeita a presente reclamação de créditos conforme ao que se acha consignado supra na alínea d) do probatório. Ora, o que é certo é que a penhora realizada no âmbito do processo n.º 108/94, da 1.ª Secção do 15.º Juízo Cível de Lisboa sobre o identificado imóvel (bem corpóreo, concreto e especificado) constitui, nos presentes autos de reclamação de créditos, garantia real do crédito reclamado pelo ora recorrente o que confere a este, e nos termos do n.º 1 do artigo 822.º do Código Civil, «o direito de ser pago com preferência a qualquer outro credor que não tenha garantia real anterior». Ou seja: a penhora, dita em a), b) e c) do probatório, constitui a garantia real a atender, por força da lei, na reclamação de créditos apensa à execução fiscal dita em d) e e) do mesmo probatório. E, assim sendo, não pode deixar de concluir-se que o reclamante, ora recorrente uma vez que é credor com garantia real sobre o dito imóvel, penhorado na execução fiscal, de que esta reclamação de créditos constitui apenso, pode reclamar, pelo produto da venda de tal imóvel, o pagamento dos «respectivos créditos», nos termos do disposto no n.º 1 do artigo 865.º do Código de Processo Civil. Pelo que devemos concluir, e em resposta à questão decidenda, que, na circunstância, deve ser reconhecido e graduado o crédito reclamado pelo ora recorrente. A sentença recorrida graduou do seguinte modo os créditos que reconheceu: 1º O crédito reclamado pela fazenda Pública relativo a CA de 2002 e IMI relativo a 2003 e 2004, e respectivos juros; 2º O crédito reclamado pela fazenda Pública relativa a IRS relativo a 2001 e acrescido; 3º O crédito exequendo de IRS e respectivos juros; 4º A quantia exequenda, proveniente de IVA e respectivos juros. Ora à parte os créditos anteriormente ditos em 1.º e 2.º, que gozam de privilégio creditório legal, os créditos exequendos, ditos em 3.º 4.º, gozam da garantia da
penhora efectuada, em 6-12-2004, no processo de execução fiscal [conforme o que se deixou consignado na alínea d) do probatório]. Por seu lado, o crédito reclamado pelo ora recorrente nos presentes autos de reclamação de créditos goza da garantia de penhora anterior sobre o mesmo imóvel, realizada em 29-2-1996, em processo de execução comum [conforme o que se deixou consignado na alínea b) do probatório]. A penhora de que goza o crédito reclamado pelo ora recorrente, porém, não se encontra registada, consoante se retira do que se deixou consignado em c) do probatório. Como assim, o crédito reclamado pelo ora recorrente, por um lado, não pode ser graduado à frente dos créditos que a sentença recorrida graduou em 1.º e 2.º, pois estes gozam de privilégio creditório legal. Nem pode, por outro lado, ser graduado à frente dos créditos exequendos, que a sentença recorrida graduou em 3.º e 4.º lugar, porque, muito embora estes créditos gozem (apenas) da garantia da penhora, e esta seja de data posterior àquela que o reclamante, ora recorrente, constituiu no processo de execução comum, o certo é que a penhora de que goza o reclamante, ora recorrente, pela razão de não se encontrar registada, não é oponível ao credor Estado com créditos graduados em 3.º e 4.º lugar na sentença recorrida, já que o Estado credor é terceiro em relação ao credor ora recorrente, por isso que lhe é inoponível a penhora não registada de que o ora recorrente goza. Mas, por gozar da garantia real da penhora (em execução comum) sobre o prédio penhorado na execução fiscal, o crédito reclamado pelo ora recorrente não pode deixar de ser reconhecido e graduado nos presentes autos de reclamação de créditos, se bem que atrás de todos os outros créditos reconhecidos e graduados pela sentença recorrida: em 5.º lugar, portanto. Assim se conclui que a sentença recorrida tem de ser revogada no ponto em que não reconhece nem gradua o crédito do ora recorrente, devendo manter-se no demais. E, então, a terminar, havemos de convir, em síntese, que o registo predial da penhora não é constitutivo do direito de garantia real sobre o prédio penhorado. Porém, a garantia real da penhora, não registada, ainda que anterior, não é oponível aos demais credores ( terceiros ) com penhora, registada, sobre o mesmo prédio.
3. Termos em que se acorda conceder provimento ao recurso, revogando-se a parte impugnada da sentença recorrida, e reconhecendo-se e graduando-se, pelo sobredito modo, o crédito do ora recorrente. Sem custas. Lisboa, 18 de Novembro de 2009. Jorge Lino (relator) Casimiro Gonçalves Lúcio Barbosa.