Apresentação. Simone Gonçalves de Assis



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Transcrição:

Apresentação Simone Gonçalves de Assis SciELO Books / SciELO Livros / SciELO Libros ASSIS, SG. Traçando caminhos em uma sociedade violenta: a vida de jovens infratores e de seus irmãos não-infratores [online]. Rio de Janeiro: Editora FIOCRUZ, 1999. 236 p. ISBN 85-85239-18-2. Available from SciELO Books <http://books.scielo.org>. All the contents of this work, except where otherwise noted, is licensed under a Creative Commons Attribution-Non Commercial-ShareAlike 3.0 Unported. Todo o conteúdo deste trabalho, exceto quando houver ressalva, é publicado sob a licença Creative Commons Atribuição - Uso Não Comercial - Partilha nos Mesmos Termos 3.0 Não adaptada. Todo el contenido de esta obra, excepto donde se indique lo contrario, está bajo licencia de la licencia Creative Commons Reconocimento-NoComercial-CompartirIgual 3.0 Unported.

APRESENTAÇÃO A violência praticada por jovens é um tema cada vez mais presente e assustador na vida cotidiana e nos meios de comunicação de muitos países. No Brasil, o grave momento de crise social alimenta ainda mais o temor que a população vivência, em meio a múltiplas formas de violência, especialmente nos centros urbanos. Neste contexto, o crescente número de infratores juvenis gera um movimento de solicitação de medidas repressivas por parte da população, que desconhece as raízes do problema, as formas de atenção e de prevenção necessárias para o enfrentamento da questão. Enquanto isto, em alguns países desenvolvidos, esforços têm sido feitos no sentido de prevenção, desde a primeira infância. Para tanto, enfatizam a mobilização comunitária, criando uma rede de suporte calcada na família, escola, treinamento para o trabalho, atividades recreacionais e mudanças comunitárias. Sugerem, também, um olhar especial para as características individuais em que devem ser reforçadas atitudes positivas e direcionados os comportamentos de crianças e adolescentes, estimulando a resolução de conflitos interindivíduos. A capacitação profissional para aqueles trabalhadores sociais que atuam diretamente com os jovens em risco para a delinqüência é atividade prioritária, além de ênfase nas estratégias legais que visam a reforçar a segurança pública. A articulação de todas essas atividades e o maior número de pessoas e instituições envolvidas são responsáveis pelo sucesso ou fracasso das tentativas de solução para a delinqüência juvenil. Para entender melhor essa realidade no País e subsidiar um conhecimento que possa efetivamente suscitar estratégias de prevenção ao problema, realizamos a pesquisa que deu origem a este livro. Nosso principal objetivo foi investigar a trajetória de vida de jovens que cometeram atos infracionais graves e de seus irmãos/primos não-infratores, buscando conhecer os fatores de risco e de proteção para a delinqüência. Tentamos, também, aprofundar o conhecimento sobre a realidade familiar, comunitária e social desses jovens como fatores importantes para se compreender o direcionamento de alguns para o caminho da infração; enfatizar a pes

quisa de fatores existenciais e emocionais presentes na gênese da infração juvenil; desenvolver uma abordagem compreensiva da violência juvenil, auxiliando o entrevistado a contar a própria história e a elaborar (para si próprio e para o entrevistador) a compreensão do ato violento cometido e das causas que o estimularam. O jovem foi chamado a pensar sobre que fatores preveniriam a violência, em seu ponto de vista; contribuindo para informar a sociedade sobre os fatores que predispõem à infração juvenil e apontando para novas formas de compreedê-la e preveni-la. O caminho percorrido para alcançar o conhecimento, os materiais e métodos utilizados, ressaltando as dificuldades encontradas em cada etapa da pesquisa, são apresentados no primeiro capítulo. Este relato contribui não apenas para fins metodológicos, mas especialmente para demarcar a realidade problemática das instituições onde os jovens infratores se encontram internados. No segundo capítulo apresentamos a percepção dos jovens sobre sua vivência na família. Sempre que possível, procuramos efetuar um diálogo entre essa percepção e a interpretação dos pesquisadores e das principais teorias existentes. No terceiro capítulo repetimos a estratégia, tratando a percepção do jovem sobre si mesmo e suas relações extrafamiliares. Incluíram-se, aí, sua vivência escolar e comunitária, seu lazer, percepção e vivência religiosa e espiritual e, finalmente, o contato com os amigos. No quarto capítulo, relatamos a inserção do jovem na vida infracional, dados sobre a medida sócioeducativa (MSE) aplicada e a opinião dos não-infratores sobre o caminho trilhado por seus irmãos ou primos. Optamos por apresentar algumas histórias de vidas discriminadas pelos tipos de atos infracionais efetuados, para ilustrar como o perfil destes jovens se distingue na medida em que se diferenciam os atos cometidos, reforçando a complexidade da questão e contrariando a idéia corrente de se reduzir o problema à questão do infrator. Tentamos, no quinto capítulo, retratar a vida institucional e sua engrenagem desumanizadora, além de captar a opinião dos familiares sobre a institucionalização. O que apresentamos aqui é muito pouco, comparado ao sofrimento e descaso perpetrado pelas instituições públicas responsáveis pelo acautelamento e custódia destes jovens. Apresentamos, ainda, as violências sofridas no aro da prisão, reveladas como momentos profundamente humilhantes para os jovens. A ineficiência das instituições na ressocialização dos jovens e as relações estabelecidas no seu interior são abordadas e completam um ciclo de estagnação do próprio sistema. No sexto capítulo, buscamos uma abordagem que busca colocar lado a lado o infraror e o não-infrator, perscrutando diferenças e similaridades. Finalmente, apresentamos as considerações finais, em que são pontuadas as reflexões que este trabalho suscitou e as principais questões relacionadas à gênese

dos atos infracionais. Procuramos apontar, ainda, as principais dificuldades do sistema de acolhimento a jovens infratores e tentar contribuir com novas propostas de compreensão e prevenção da infração juvenil. Muitas pessoas e instituições auxiliaram a realização deste livro, especialmente o Centro Latino-Americano de Estudos de Violência e Saúde Jorge Careli, unidade da Escola Nacional de Saúde Pública/Fundação Oswaldo Cruz (CLAVES/ENSP/FIOCRUZ), a Secretaria Nacional de Direitos Humanos do Ministério da Justiça e a Organização das Nações Unidas para a Educação, a Ciência e a Cultura (UNESCO). Também cooperaram a Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado do Rio de Janeiro (FAPERJ) e o Conselho Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico (CNPq). Todo o trabalho desenvolvido na cidade de Recife contou com a cooperação do Gabinete de Assessoria às Organizações Populares (GAJOP), nas pessoas de Anália B. Ribeiro, Andréa C. Lopes, Valdênia B. Monteiro, Ivens M. Gama e Vinícius C. Ferreira. Também foi importante o apoio dos juizes das varas da Infância e Juventude de Recife Dr. Bartolomeu B. F. Moraes e do Rio de Janeiro Dr. Geraldo L. M. Prado e Dr. Guaraci C. Vianna, bem como do Departamento Geral de Ações Sócio-Educativas (DEGASE), no Rio de Janeiro e da Fundação da Criança e do Adolescente (FUNDAC), de Pernambuco. O auxílio da direção, coordenação, técnicos e agentes educacionais das instituições de internamento e semiliberdade foram fundamentais para o êxito do livro. São elas a Escola João Luiz Alves (EJLA), o Instituto Padre Severino (IPS) e os Centros de Recursos Integrados de Atendimento ao Menor (CRIAM), no Rio de Janeiro, e o Presídio de Paratibe, em Recife. O apoio logístico foi dado pela Associação Brasileira de Pós-Graduação em Saúde Coletiva (ABRASCO). Um especial agradecimento às estagiárias de psicologia Fernanda C. V. Alzuguir, Joviana Q. Avanci, Francisca Luzimeire, bem como a Marcelo S. Motta, Marcelo C. Pereira e Maria Elisa Nejaim, pelo apoio técnico prestado.

Não seria justo terminarmos estes agradecimentos sem falarmos de Antonio Veronese, solidário nesta luta por justiça e dignidade. O artista cedeu as fotos da sua exposição As Faces do Medo (1998), um perfil dos meninos assassinados no Rio de Janeiro, para a capa deste livro. Agradecemos, também, à Fundação Oswaldo Cruz, mais especificamente à Vice-Presidência de Ambiente, Comunicação e Informação, que, por intermédio da Editora FIOCRUZ, viabilizou a publicação deste livro.