AVALIAÇÃO DO EFEITO DO PRÉ-TRAMENTO TÉRMICO E ÁCIDO DO INÓCULO NA PRODUÇÃO DE HIDROGÊNIO

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Transcrição:

23 AVALIAÇÃO DO EFEITO DO PRÉ-TRAMENTO TÉRMICO E ÁCIDO DO INÓCULO NA PRODUÇÃO DE HIDROGÊNIO EVALUATION OF THE THERMIC AND ACID INOCULUM PRE-TREATMENT FOR HYDROGEN PRODUCTION Felipe Santos Moreira (1) Rafaela Gonçalves Machado (2) Marília da Silva Rodrigues (3) Fabiana Regina Xavier Batista (4) Juliana de Souza Ferreira (5) Vicelma Luiz Cardoso (6) Resumo O hidrogênio é considerado uma fonte de energia viável visto que é um combustível não poluente e potencialmente obtido por recursos renováveis. A produção de hidrogênio pode ocorrer biologicamente por fermentação a partir de resíduos agroindustriais, se tornando uma alternativa promissora devido aos baixos impactos ambientais. No presente trabalho, o objetivo foi estudar a potencialidade de diferentes pré-tratamentos de inóculo na promoção da inativação de bactérias consumidoras de hidrogênio durante a fermentação escura. O processo fermentativo foi realizado em condições anaeróbias, utilizando um consórcio microbiano que foi submetido aos pré-tratamentos térmico e ácido, na ausência de luz. Os resultados mostraram que o choque térmico a 100 C durante 30 minutos proporcionou uma maior produtividade de hidrogênio (14,13 mmol H 2/L.dia). Palavras-chave: Fermentação escura. Hidrogênio. Substrato. Abstract Hydrogen is considered a viable energy source for being a not polluting fuel that may be obtained by renewable resources. It may be produced biologically by fermentation from agroindustrial residues being an alternative due to reduce environmental impacts. In the current work, the potentially of different types of inoculum pretreatments promoting the inactivation of hydrogen consuming bacteria in the dark fermentation was studied. The fermentative process under anaerobic conditions, using a microbial consortium pretreated 1 (Mestre em Engenharia Química pela Universidade Federal de Uberlândia. Eng. químico. Endereço eletrônico: felipemoreiraufvjm@gmail.com. 2 (Mestre em Engenharia Química pela Universidade Federal de Uberlândia. Química Industrial. Endereço eletrônico: rafaela_machado08@hotmail.com. 3 (Mestre em Engenharia Química pela Universidade Federal de Uberlândia. Eng. química. Endereço eletrônico: mariliasr@gmail.com. 4 Federal de Uberlândia. Eng. química. Endereço eletrônico: frxbatista@ufu.br. 5 Federal de Uberlândia. Eng. química. Endereço eletrônico: julianasf@ufu.br. 6 Federal de Uberlândia. Eng. química. Endereço eletrônico: vicelma@ufu.br.

24 with heat and/or acid shock, without light, was performed. The finding showed the heat-shock at 100 C for 30 min resulted in the higher hydrogen productivity (14.13 mmol H2/L.day). Keywords: Dark fermentation. Hydrogen. Substrate. 1 Introdução O uso de fontes renováveis de energia é de suma importância ao combate do aquecimento do planeta. Neste contexto, o hidrogênio tem sido considerado uma alternativa de energia limpa quando deriva de matéria-prima renovável. Além disso, este biocombustível possui uma elevada eficiência de conversão, sendo reciclável e não poluente (DAS; VEZIROGLU, 2001; MOHAN; MOHANAKRISHNA, SARMA, 2008). Vários métodos podem ser utilizados na produção de hidrogênio, dentre eles, pode-se citar: a partir dos combustíveis fósseis, da água e da produção biológica. Os processos biológicos podem ser mais vantajosos, uma vez que são realizados em temperatura e pressão ambiente e não gerarem gases poluentes (DAS; VERZIROGLU, 2001). A fermentação escura é obtida por bactérias fermentativas em que o hidrogênio é formado pela ação de hidrogenases como meio de eliminar os elétrons gerados durante a degradação de carboidratos. Ela é considerada mais vantajosa na produção de hidrogênio, quando comparada a processos fotossintéticos, uma vez que não necessita da luz, dispensando configurações mais complexas de biorreatores (DAS; VERZIROGLU, 2001; GUO et al., 2014). Com o intuito de atingir uma alta produção de hidrogênio, uma consideração fundamental é inativar os microrganismos metanogênicos consumidores de hidrogênio, presentes no consórcio microbiano. Os principais métodos para enriquecer as culturas produtoras de hidrogênio são o tratamento térmico, ácido e alcalino que inativam as bactérias não formadoras de esporos, tais como as metanogênicas. Os tratamentos térmico e ácido são os mais relatados na literatura por resultarem em incrementos de H 2 (LUO et al., 2010). Diante deste contexto esse trabalho teve como objetivo avaliar o efeito do prétratamento do inóculo da fermentação escura com o intuito de promover a inativação de bactérias consumidoras de hidrogênio. A lactose, proveniente do permeado de soro de leite em pó, foi utilizada como a principal fonte de carbono. 2 Material e Métodos A cultura mista utilizada foi proveniente do laboratório Núcleo de Processos Biotecnológicos da Faculdade de Engenharia Química da UFU e consistiu em um consórcio

25 microbiano, o qual foi adaptado em um meio sintético com a seguinte composição: 3 g/l de KH2PO4, 7g/L de K2HPO4, 1 g/l de MgSO4, 3g/L de extrato de levedura, 1 g/l de extrato de carne, 1 g/l de (NH4)2SO4 e 20 g/l de lactose oriunda do permeado do soro de leite em pó. Nitrogênio foi borbulhado por 3 min no inóculo com o objetivo de manter o ambiente anaeróbio. Através da técnica de isolamento foi possível identificar três gêneros presentes: Clostridium sp., Lactobacillus sp. e Enterobacter sp. (ROMÃO et al., 2014). Foram realizados ensaios para verificar a produção de biogás com a cultura mista após o pré-tratamento do inóculo. Nos ensaios 1 e 2 testou-se dois tipos de pré-tratamento: ácido e o choque térmico. No pré-tratamento ácido, adicionou-se ácido clorídrico (1 M) até ph igual 3,0 e aguardou-se 24 horas. Em seguida, o ph do meio foi ajustado para 6,8 com NaOH (1 M). O segundo pré-tratamento consistiu no choque térmico no qual o inóculo foi mantido a 100 ºC por 30 min e, posteriormente colocado banho de gelo. Os dois inóculos tratados foram utilizados nos ensaios de fermentação escura usando a lactose proveniente do permeado do soro de leite em pó como substrato. Utilizou-se uma porcentagem de inóculo de 1,6 % v/v. Os testes foram realizados em triplicata em biorreatores de 50 ml, volume reacional de 37,5 ml, e 12,5 ml de headspace. As fermentações foram conduzidas em batelada, à temperatura ambiente, sem controle de ph e em anaerobiose, por um período de cinco dias e na ausência de luz com o ph inicial de 7,0. O gás produzido foi coletado em seringas graduadas e sua composição determinada através de cromatografia gasosa (Cromatógrafo Shimadzu modelo GC 17A). A quantificação da lactose e dos metabólitos formados (etanol e ácidos orgânicos) foi realizada por cromatografia líquida de alto desempenho, marca Shimadzu modelo LC-20A Prominence. A determinação do crescimento celular foi feita por análise de absorbância do meio fermentativo em espectrofotômetro (Shimadzu UVmini-1240) a um comprimento de onda de 650 nm. 3 Resultados e Discussão Nos ensaios 1 e 2 da fermentação escura o consórcio microbiano foi submetido previamente ao pré-tratamento de choque térmico ou pré-tratamento ácido e, em seguida, a cultura mista foi empregada no ensaio utilizando a lactose proveniente do permeado do soro de leite em pó como substrato com concentração de 10 g/l. Os resultados dos testes estão apresentados na Tabela 1.

26 Tabela 1 Resultado da fermentação escura usando a lactose proveniente do permeado do soro de leite em pó como substrato em diferentes pré-tratamentos do inóculo Pré-tratamento Produtividade (mmol H2/L.dia) Conversão (mol H2/mol de hexose) Lático Acético Propiônico Butírico 10,92 0,75 0,31 1,43 0,47 3,29 Choque térmico 14,13 0,99 0,00 1,60 0,39 4,12 Analisando os resultados observa-se que a condição que resultou em maior produtividade de hidrogênio (14,13 mmol H2/L.dia) e conversão (0,99 mol H2/mol de hexose) foi aquela em que o inóculo foi tratado termicamente. Para os pré-tratamentos de choque térmico e ácido, o consumo de açúcar na fermentação foi de 98,95% e 99,68%, respectivamente. Independente do tratamento empregado, os principais metabólitos produzidos durante o ensaio foram os ácidos butírico em maior quantidade (superior a 3 g/l) e, em seguida, o acético (cerca de 1,5 g/l), sugerindo deste modo a fermentação predominantemente do tipo butírica para os dois pré-tratamentos. Segundo Saady (2013), a formação dos ácidos acético e butírico ocorre de acordo com a estequiometria, a partir da lactose, indicada nas Equações 1 e 2. Deve-se ressaltar que as rotas metabólicas produtoras destes ácidos levam à formação de hidrogênio. C 6H 12O 6 + H 2O 2CH 3COOH +2CO 2+ 4H 2 (1) C6H12O6 + H2O CH 3CH2CH2COOH + 2CO2 + 2H2 (2) Como pode ser observado na literatura, o pré-tratamento ótimo difere para cada estudo, podendo estar associado a inúmeros fatores, tais como, tipo de inóculo, condições experimentais e a própria fermentação. Oh, Ginkel e Logan (2003) compararam os tratamentos térmico e ácido para a produção de hidrogênio e foi observado que o tratamento térmico promoveu um maior rendimento de produção de hidrogênio quando comparado ao tratamento ácido do inóculo. Estudos de Mu, Yu e Wang (2007) testaram os pré-tratamentos térmico, ácido e alcalino para a inibição da atividade metanogênica em cultura mista. Os autores observaram que o maior rendimento de H2 foi obtido para inóculo pré-tratado termicamente, enquanto o menor rendimento foi obtido para o inóculo com pré-tratamento alcalino, sendo 2 mol de H2/mol de glicose e 0,48 mol de H2/mol de glicose, respectivamente.

27 4 Conclusões A partir dos resultados foi possível observar que o tratamento de choque térmico prevaleceu frente ao ácido, com uma produtividade de 14,13 mmol H2/L.dia e conversão de 0,99 mol H2/mol de hexose. 5 Agradecimentos/ Apoio financeiro Os autores agradecem o apoio financeiro da FAPEMIG, CNPq, CAPES e Vale S.A. Referências DAS, D.; VEZIROGLU, T.N. Hydrogen production by biological processes: a survey of literature. International Journal of Hydrogen Energy, v. 26, p. 13-28, 2001. GUO, L.; ZONG, Y.; LU, M.; ZHANG, J. Effect of different substrate concentrations and salinity on hydrogen production from mariculture organic waste (MOW). International Journal of Hydrogen Energy, v. 39, p. 736-743, 2014. LUO, G.; XIE, L.; ZOU, Z.; WANG, W.; ZHOU, Q. Evaluation of pretreatment methods on mixed inoculum for both batch and continuous thermophilic biohydrogen production from cassava stillage. Bioresource Technology, v. 101, p. 959-964, 2010. MOHAN, S.V.; MOHANAKRISHNA, G.; SARMA, P.N. Integration of acidogenic and methanogenic processes for simultaneous production of biohydrogen and methane from wastewater treatment. International Journal of Hydrogen Energy, v. 33, p. 2156-2166, 2008. MU, Y.; YU, H-Q.; WANG, G. Evaluation of three methods for enriching H2-producing cultures from anaerobic sludge. Enzyme and Microbial Technology, v. 40, p. 947-953, 2007. OH, S-E.; GINKEL, S.V.; LOGAN, B.E. The relative effectiveness of ph control and heat treatment for enhancing biohydrogen gas production. Environmental Science Technology, v. 37, p. 5186-5190, 2003. ROMÃO, B.B.; BATISTA, F.R.X.; FERREIRA, J.S.; COSTA, H.C.B.; RESENDE, M.M.; CARDOSO, V.L. Biohydrogen production through dark fermentation by a microbial consortium using whey permeate as substrate. Applied Biochemistry Biotechnology, v. 172, p. 3670-3685, 2014. SAADY, N.M.C. Homoacetogenesis during hydrogen production by mixed cultures dark fermentation: Unresolved challenge. International Journal of Hydrogen Energy, v. 38, p. 13172 13191, 2013.