5º Domingo do Tempo Comum

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Transcrição:

5º Domingo do Tempo Comum Homilia meditada para a Família Salesiana P. J. Rocha Monteiro, sdb Sofrimento humano como lugar de aprendizagem da esperança (Bento XVI) Mc 1,29-39 1. Três quadros Hoje temos a continuação do Evangelho do domingo passado. É um dia que vai de madrugada a madrugada. São três ocupações preferidas de Jesus: misturar-se com a multidão e curar, devolver a saúde; ir à nascente secreta da força, a oração; regressar cheio de Deus e anunciá-lo. Três verbos que definem a ação: curar, rezar e anunciar. 2. Cura da sogra de Pedro que estava com febre Há várias mulheres que servem Jesus. Há três gestos a destacar da parte de Jesus, todos eles a definir o grande amor que tem por aquela doente: Jesus aproxima-se da sogra de Pedro. Toda a sua vida será aproximar-se de quem está prisioneiro do sofrimento, da opressão, do mal físico ou moral. É Ele que toma a iniciativa de ir ao encontro; esta é a missão que Seu Pai lhe deu.

Em seguida, tomou a doente pela mão e levantou-a. É o mesmo verbo para expressar a ressurreição. Ela está prisioneira dum sofrimento que lhe rouba a vida. Jesus é o libertador. Em terceiro lugar apresenta-a já a servi-los. A casa de Simão Pedro representa a Igreja, a comunidade com quem celebramos os mistérios da salvação. É esta igreja a quem será entregue o anúncio do reino. 3. Cena do fim da tarde À tardinha toda a cidade de Cafarnaum está ali, diante da casa de Pedro. Todos queriam receber o dom inestimável do amor de Jesus pela palavra e pelas curas. Esse estar com o Senhor e ser curado será o gerador da fé. Os demónios continuavam impedidos de falar. 4. Jesus vai rezar de manhã cedo Jesus levantou-se, ainda estava escuro, e procurou um lugar deserto para rezar. O texto alude à intimidade que Jesus tem com Seu Pai. Este gesto de retirar-se para rezar vai acompanhar todo o Seu ministério. Eis como também nós podemos passar da vida dispersa à vida reunida à volta de um eixo, de um centro: inventando espaços de oração. A união com o Pai torna-se mais viva e forte na oração. Nela Jesus encontra o estímulo e a clarividência para pôr em ação a vontade do Pai: que os homens descubram em Jesus o verdadeiro Messias e aceitem a Sua Palavra.

5. Vamos para outro lugar Por fim, chegam os discípulos: «Mestre, que fazes aqui? Todos te procuram!» Jesus não procura o banho da multidão. Procura outras aldeias onde possa ser, na vida, dador de vida, procura outros lugares, outros homens a quem ajudar a estar bem, a viver melhor. Deus e Homem, de mãos dadas, o infinito e o meu nada, e agarrar-me com força: é este, para mim, o ícone manso e potente da boa-nova. 1 Cor 9,16-19.22-23 6. Lei da caridade Paulo tem presente o princípio da liberdade, adquirida em Jesus Cristo, que deve ser pautada pela lei da caridade (cfr. vv. 11-13), dom de si, despojamento total para bem dos irmãos. A sua vocação é uma tarefa. Não a escolheu, pois foi chamado para o serviço de um Mestre que lhe impôs essa missão, de acordo com a sua consciência. A expressão ai de mim se não anunciar o Evangelho traduz a atitude de quem descobriu Jesus Cristo e a sua proposta e sente a responsabilidade de O anunciar. Salmo 146 (147) 7. O Salmo 147 põe-nos a cantar as obras de Deus. Que salmo encorajador! Deus, que chamou as estrelas à existência, deu um nome a cada uma no vasto universo. Ele é Aquele que nos ajuda e cura; Aquele que atende a todas as nossas necessidades; Aquele que nos dá a Sua Palavra.

Job 7,1-4.6-7 8. Sofrimento Temos diante de nós um texto de difícil compreensão para o homem contemporâneo. Trata do sofrimento. É um texto poético. A poesia obriga a duas coisas: por um lado, à síntese de determinada matéria e, por outro, obriga a apresentar imagens plásticas que colocam os nossos sentidos e a nossa sensibilidade em ação. Todos os grandes santos e grandes místicos expressavam a sua relação com Deus mais profunda em oração poética. Job situa o seu sofrimento no horizonte do sofrimento universal. O destino de Job é incerto e vazio. Sobre ele parecem abater-se a angústia e a morte. A história dos dramas de Job serve para introduzir uma reflexão sobre um dogma intocável da fé israelita: o dogma da retribuição. Em que consistia? Deus recompensava os bons pelas suas obras e os maus recebiam castigo. E quando os maus possuíam bens em abundância e tinham uma longa vida? E os justos, pelo contrário, eram pobres e infelizes? O herói deste livro discorda da teologia tradicional. Há quatro amigos que tentam convencê-lo de que os seus males veem pelas suas faltas. Job tenta encontrar Deus para dialogar diretamente com Ele. Só que essa procura está cheia de revolta interior. Começa a compreender que a lógica de Deus está para além da lógica humana. No seu julgamento sobre a vida do homem sente-se limitado. Vê que não pode julgar Deus.

Não pode compreendê-lo. Mais ainda: a solução é entregar-se a Ele, abandonar-se nos Seus braços. N Ele está a nossa esperança e o sentido da nossa vida. 9. Conclusão A primeira grande mensagem deste Domingo é o encontro com Jesus, uma resposta a todas as contingências humanas. Bento XVI na encíclica Deus Caritas Est diz: No início do ser cristão, não há uma decisão ética ou uma grande ideia, mas o encontro com um acontecimento, com uma Pessoa que dá à vida um novo horizonte e com isto a orientação decisiva (nº 1). Para proclamar de modo fecundo a Palavra do Evangelho, exige-se sobretudo que se viva uma profunda experiência de Deus. A segunda grande mensagem é sobre o sofrimento. Diz Bento XVI: Não é o evitar o sofrimento, a fuga diante da dor, que cura o ser humano, mas a capacidade de aceitar a tribulação e nela amadurecer, de encontrar o seu sentido através da união com Cristo, que sofreu com infinito amor. (Spe Salvi, 37) O sofrimento por amor faz crescer a nossa humanidade.

Sofrimento Aprendizagem da esperança Mc 1,29-30; Job 7,1-4.6-7 Dia soalheiro a espraiar-se no lago, Manhã de sonho e de esperança. O profeta chegou. Dizem ser Messias. Começa a curar a todos sem tardança. Rosa vermelha sofrente, sogra de Simão. Jesus dá-lhe a mão da ressurreição. Lá fora as gentes, ondas como uvas, Querem perto tocar-lhe com paixão Job inquieta e apaixona com porquês, Vidas magoadas do perfil humano. Quer saber a razão do seu sofrer. Lágrima de amor ou castigo de Deus? Clarins soam à beira rio madrugada, Desespero, amargura, homem magoado. São Miguel Arcanjo guerreiro dos céus Traz a paz, o amor, aos pensamentos meus. Só em Deus sentido tem a existência Profetas do ateísmo não faleis mais É meia noite, deixai que seja dia. Queremos Nosso Senhor por companhia. Sofrimento não tem humana resposta Amadurece em ti qual limão no limoeiro. Mãos abraçadas ao madeiro sem revolta Na cruz meu Salvador, meu Redentor. Eu Te adoro, Pai, nas pegadas da areia Dá-me a mão como se fosse Teu menino. À sombra da Tua árvore eu brincarei. Um dia partirei. Para sempre Te amarei. (J. Rocha Monteiro in Palavra ardente )