Crime ou Castigo! !!!!!! por Sílvio de Salvo Venosa!



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Transcrição:

! Crime ou Castigo!!!!!!! por Sílvio de Salvo Venosa!! Fui nomeado muito jovem para o cargo de juiz. Na época a idade mínima para ingresso era vinte e cinco anos. Essa a minha idade. Início dos anos setenta. Enquanto os demais colegas de concurso esforçavam-se para serem designados para comarcas próximas de seus domicílios, a maioria da capital de São Paulo, eu não me preocupei. Deixei a coisa correr, após um concurso exaustivo, tendo vivido sempre no asfalto da metrópole, queria mesmo conhecer a vida numa comunidade do interior.! Naquela época, após a nomeação, assumia-se imediatamente o cargo de juiz substituto. Não havia, como hoje, um período de treinamento e estágio. Para quem acabava de sair da faculdade, o choque era grande. No entanto, estávamos, sem dúvida, melhor preparados que as gerações atuais ao concluir o curso de bacharelado.! Na primeira Comarca em que judiquei, conheci o meu tipo inesquecível. O promotor local, o famoso Acácio. Acacinho, como sua família carinhosamente o chamava. Já estava nesse cargo há alguns anos. Não tinha muito interesse em ser promovido para cidade maior. Uma grande pessoa na sua pouca altura. Enquanto o juiz titular, a quem de certa forma eu devia um certo temor reverencial, mostrava-se distante e inodoro, Acácio atraiu minha admiração e amizade de pronto. Já fora ele mais de uma vez advertido pela corregedoria do Ministério Público por ter redigido denúncias em versos. Na verdade, a lei não proíbe os versos se a peça processual contiver todos os requisitos legais, mas... Agora, após as reprimendas e várias convocações para encontrar o Procurador Geral na capital, não mais redigia as peças em verso, mas sempre colocava antes da redação uma estrofe de um poeta ou de uma canção, com íntima relação com o fato narrado.! Recordo que em um dos primeiros dias na Comarca, passei por sua sala e para saudá-lo de forma coloquial disse: Bom dia, Dr. Acácio. Estamos aí para o que der e vier. Pois é, respondeu, Estamos aqui para o que der e vier e para quem vier e der!. Quebrara-se definitivamente a formalidade e uma grande amizade começava.! Eu iniciava minha carreira e minha longa série na presidência de audiências. Tratava de instruir naquele dia, poucos dias após ter tomado posse, um processo por crime de estupro. Tentado e consumado, o que a técnica do direito penal denomina concurso de crimes. Audiência para começar às 13 horas. Réu preso. Calor brasileiro de janeiro. Férias forenses; sou o único juiz na Comarca e na circunscrição judiciária, isto é, nas cidades próximas. Leio de novo a denúncia. Acácio colocara no início, próximo ao local de despacho do juiz, o início da poesia de Bilac... ora direis ouvir estrelas. Que diacho tem a ver esse verso num caso de estupro?, pensei.! O réu, motorista de caminhão de bóias-frias e agenciador, levava os trabalhadores pela manhã bem cedo para a colheita de café e os trazia de volta para a cidade à tarde. Hoje não mais se permite o transporte em carroçarias de caminhão, tantos foram os acidentes fatais no passado. Somente em ônibus, mas os atuais coletivos são na maioria veículos velhos e decrépitos; a segurança, na realidade, não melhorou tanto.! O fato é que o réu era acusado de ter tentado com violência manter relações com a vítima, uma garota de 16 anos, no intervalo para o almoço, no meio do cafezal. Não consumara o fato porque a menina gritara por socorro e com a chegada de outros bóias-frias a vítima teria saído correndo. Dias depois, o réu convencera a vítima a acompanhá-lo a local ermo, atrás da estação ferroviária, após tê-la encontrado em uma quermesse, onde o ato carnal se consumara, segundo a terminologia jurídica.! Eu nunca advogara no crime, não tinha a menor experiência nessa área, nem mesmo no tempo de solicitador-acadêmico, figura posteriormente substituída pela do estagiário. Meus colegas de magistratura mais experientes sempre diziam que a instrução em processos de crimes sexuais é custosa, complicada, principalmente com o pessoal da roça, e que precisávamos estar preparados para isso. Não imaginava na verdade o quanto devíamos estar preparados e o quanto eu seria surpreendido. Estávamos na década de setenta, a TV ainda não disseminara suas novelas, ainda porque até então sofria severa censura dos órgãos oficiais, e os costumes eram muito mais reprimidos. Nós vínhamos de uma geração reprimida. Oportuno salientar que até

então não havia mulher alguma na magistratura paulista; o ingresso das primeiras juízas apenas ocorreria alguns anos depois.! Pouco antes da audiência, no tradicional cafezinho na sala do Acácio, observara ele que eu tivesse o cuidado com o linguajar do pessoal do campo. Ele via em mim um garoto da cidade grande que não tinha como esconder.! Eles têm uma linguagem que pode chocar quem não está acostumado, mas não é chula, é própria do meio e você vai ter que fazer perguntas diretas na instrução da audiência de hoje, senão eles se fecham e não respondem nada. Eu fui o primeiro a ouvir a queixa da vítima e depois requisitei inquérito. Denunciei porque havia elementos, mas vamos ter que constatar os fatos na instrução. A moça fez as declarações na frente da mãe e certamente escondeu detalhes. O réu nega a violência. As demais testemunhas apresentam indícios. Nunca há prova presencial nesses casos. Desejo-lhe bom trabalho, excelência!!! Quis ser juiz né??? Vi um certo prazer sarcástico na última observação...! E saímos todos em direção à sala de audiências, terminado o café, Acácio, o escrevente e o advogado de defesa do caso, que também aparecera por lá e, para variar, se dava muito bem com o promotor. Notei um indefectível meio sorriso em Acácio... Ou estaria enganado? O advogado era também radicado na cidade. Em pequenas comunidades o advogado atua em todas as áreas. O Dr. Lincoln, segundo me informava Acácio, era um dos mais requisitados, muito ético e excelente pessoa, mas meio neurastênico. Fora contratado pelo réu.! Aproveitei o tempo de preparo da sala, lendo mais uma vez o interrogatório do réu. Negava ele peremptoriamente o uso da violência. Disse que a vítima vinha insistentemente se oferecendo a ele. No intervalo do rancho, hora do almoço, ela se afastou do grupo e fizera um sinal com a cabeça para que ele a seguisse. Foi seguindo-a até um local onde o cafezal faz uma curva de nível. Lá chegando deparou-se com a garota com a saia levantada acima da cintura... Antes que pudesse se aproximar, a garota começou a gritar por socorro e saiu correndo. Logo chegaram outros rurícolas e encontraram a vítima correndo com o vestido na cintura... e nada por baixo. As testemunhas ouvidas na Delegacia relataram essa cena. No fato seguinte, o acusado se encontrara com a garota numa quermesse em sua vila... Ela o procurou e disse que queria esclarecer tudo. Acabaram indo para a antiga estação ferroviária no carro dele e ela teria se oferecido a ele. O ato ocorrera por iniciativa da garota, sem resistência ou violência... Bem, era hora de tomar as declarações da vítima e três testemunhas, uma delas sua mãe...! O réu finalmente ali está, sentado no final da longa mesa, local destinados aos acusados. Chegara com a escolta de dois policiais militares. Mandei que lhe retirassem as algemas. Não era o caso com esse tipo de réu. Nos tempos atuais o cuidado é outro. Não tinha mais de trinta anos e nem mais de um metro e sessenta de altura. Tipo pequeno. Baixo e meio atarracado. Parecia tranqüilo, ao lado do dr. Lincoln. Os dois soldados da escolta, radicados também fazia tempo na cidade, estavam com seu característico ar de enfado.! Já me acostumara ao estilo do Acácio. Raramente ficava em sua cadeira. Andava pela sala, fixava-se algum tempo numa estante de livros que ali havia, com Revistas dos Tribunais de vinte ou trinta anos passados; olhava pela janela como se estivesse distraído ou lia um livro de poesias ou romance que sempre carregava. Mas estava sempre ligado a tudo que ocorria. Um incauto diria que não estava prestando atenção nos depoimentos.! Finalmente foi apregoada a vítima. Ouço o Seu Adolfo, oficial de justiça com mais de trinta anos de serviço na Comarca, já próximo de sua aposentadoria compulsória, esbravejar: Janemara da Silva!!!!!!!!!!! Janemara da Silva!!!!!. Ele bem sabia que a moça estava do seu lado. Não havia quem não o conhecesse na cidade e quem ele não conhecesse... Mas tenho que apregoar não é doutor, porque dá nulidade. Sábias palavras do mestre Adolfo. Óculos grossos, nariz largo, cabelos inexistentes. Sotaque típico da região. Não havia história no presente ou no passado da cidade de que não fizesse um relato completo, não fosse ele mesmo um dos seus personagens. Oficial de Justiça da velha guarda, daqueles capazes de dar a vida pelo juiz, tamanha a sua lealdade. Outros tempos. Outros tempos. Localizava qualquer réu para citar na cidade ou indicava onde encontrá-lo em outra Comarca, se o juiz assim quisesse realmente. Seu nome é o primeiro a ser lembrado com saudade por todos os juízes, e foram muitos, que passaram pela Comarca.! Eis que finalmente surge Janemara. Ninguém diria que tinha somente dezesseis anos. Morena de cor brasileira. Pele que prematuramente começava a cansar pelo trabalho sob sol

diário. Semblante agradável. Blusa de linha que realçava a protuberância dos seios bem formados. Viera de calças. Percebiam-se as pernas esguias com quadris proporcionais. Cabelos ondulados bem negros. Olhos claros entre o castanho e o mel. Olhar ativo. Uma morena que se o destino lhe desse melhor sorte seria considerada muito bela. Definitivamente não mais uma adolescente, mas uma mulher. No meio rural a fase adulta e a conseqüente iniciação sexual chegava muito cedo para as meninas. Hoje o mesmo ocorre nas áreas urbanas.! E chegava a hora de iniciar a tomada de suas declarações. Poderia optar por dar a palavra imediatamente ao Promotor para suas perguntas, mas isso poderia ser tomado como um sinal de fraqueza ou insegurança do jovem juiz... Em poucas horas esse comentário correria a cidade. Era verdadeiramente a primeira audiência de alguma importância que faria, nessa terceira semana de jurisdição, pois eram raras no período de férias forenses: somente réus presos no âmbito criminal, algumas medidas urgentes e alguns processos que por lei tinham andamento nas férias na esfera civil, mas que, de fato, ficavam paralisados até o retorno do juiz titular em fevereiro.! E em frente ao edifício do fórum, um prédio que fora imponente na década de 50, mas já perdera a majestade, havia muitas pessoas, curiosos de toda natureza. Até o seu Timbó, famoso pipoqueiro e vendedor de churros e outras guloseimas da cidade estava presente com seu carrinho amarelo, na esquina. Não perdia mesmo um evento em que pudesse vender alguma coisa. Onde o Timbó aparece vai ter festa ou enterro, sentenciava o velho Adolfo.! O processo chamava a atenção: réu preso. Estupro. Comentários em todos os botecos e em todos os cantos da cidade. Não havia tantas notícias assim por aqueles lados. Embaixo da janela da sala de audiências, que ficava no andar superior do prédio, já havia muita gente. O Adolfo já berrara duas vezes para o pessoal fazer silêncio porque o juiz ia mandar todo mundo embora... Eu na verdade não estava ouvindo grande coisa e não dissera coisa alguma. Hi doutor, dizia o Tonico, o escrevente, daqui a pouco o Adolfinho sai e vai lá embaixo contar tudo que está acontecendo aqui. Como era bom estar no interior.! O réu fora preso em flagrante, não muito bem caracterizado. Haveria eu de decidir sobre o seu relaxamento nessa audiência, conforme fora requerido pelo defensor. Ia esperar a prova. Só havia três presos na Carceragem da Delegacia. Bons tempos aqueles. Soube que todos perambulavam pela delegacia, faziam café, limpavam o recinto e até lavavam o carro do delegado. Hoje até os presos são muito diferentes.! Vítima qualificada. No sistema brasileiro o réu e a vítima não prestam compromisso, isto é, não podem ser punidos por não falar a verdade por falso testemunho.! Janemara, diga exatamente o que aconteceu no cafezal, no intervalo para o almoço, naquele dia em que se encontrou com o Manuel, iniciei com a maior escolha das palavras.! Você quer dizer o Mané das Égua? (O você teria chocado mais se eu já não tivesse sido alertado. E sei que muitos colegas iriam exigir da menina o pernóstico excelência, para inibi-la mais ainda, sem dúvida. Mane das Éguas, esse o apelido do gaiato. Não ia perguntar a razão dessa alcunha, mas podia imaginar).! É. Esse mesmo.! Nós tava trabaiando na colheita dos café, na fazenda do Coronel Prestes. O Mané era o fiscal e levava a gente lá.! Desde que nos idos de 50/60 acabaram os colonatos nas propriedades rurais, os fazendeiros não tinham mais trabalhadores fixos. Surgiram os chamados bóias-frias, que começavam a receber parcos direitos trabalhistas na época.! Vocês eram muitos, mulheres e homens?! Nóis era uns trinta cada dia, mais muié que home. Eu tinha cinco prima e duas irmã que tava junto.! O Manuel ficava junto a vocês ou só voltava para apanhar a turma à tarde?! As veis ele ia e vortava depois. As veis ficava na tuia dormindo, mas gostava mesmo é de vê as menina trabaiá. É um tarado, dotô.! Protesto excelência, já veio prontamente o famoso Lincoln. A opinião da declarante não é relevante, requeiro que não conste essa observação. (Começou, pensei).! O depoimento de testemunhas não é apreendido diretamente no nosso sistema. Houve várias tentativas na justiça paulista para que isso fosse feito com máquinas de estenografia, mas, por várias razões, principalmente burocráticas e resistência dos tradicionalistas, não deram certo. O juiz ouve o depoimento e depois deve ditar, tão próximo quanto possível da realidade, ao

escrevente. É um processo demorado e sumamente desgastante para o juiz e para as partes, que devem permanentemente estar atentas à transcrição.! Tudo que a declarante disser deve constar, doutor. O mais será de nossa interpretação, não achara coisa melhor para dizer.! E o que aconteceu naquele dia?! Eu saí para um lado pra comê o rancho e descansá, seu dotô. Posso contar tudo mesmo?! Deve contar tudo (aí morava o perigo).! O Mané chegou sem eu percebê, já com a calça aberta e o tarugo de fora. Já foi levantando minha saia e segurando minha bunda... Saí correndo e gritando feito doida, seu dotô.! Olhei para Acácio: estava com a cabeça enfiada num processo. Imagino seu sorriso. O defensor Lincoln, impassível, como uma estátua, olhando fixamente para mim. O réu balançando a cabeça em sinal negativo. O escrevente com o nariz enfiado na máquina de escrever. Tinha que reduzir a termo essas palavras antes de prosseguir: que o acusado chegou sorrateiramente junto à declarante com o pênis à mostra...! Excelência, pela ordem, lá veio o Acácio. Requeiro que constem exatamente as palavras da declarante que são muito importantes para a instrução. (é ia ter que ditar tudo aquilo mesmo). Tentei não demonstrar que estava desconfortável. O escrevente Tonico, um garoto muito novo, me olhava fixamente esperando o ditado. Só restava encarar.! E depois, o que aconteceu?! Gritei, gritei. Ele se assustô quando começou a chegá os colega.! Você saiu correndo logo que viu o Manoel?! Corri na hora, dotô. Aquele tarugo é enorme. Qualquer um ia corrê, até o senhô, doto! (hum...o que eu faço agora? Teria que ditar isso?)! Olhei para o Acácio. O bandido me fitava impassível nos olhos. Eu não sabia se podia rir ou se devia mesmo advertir a declarante. Acho que seria pior... Mordi a língua, assim não faria nem uma coisa nem outra. O Dr. Lincoln não disfarçara o sorriso. Fingi que não percebi... Aí lembrei das palavras de Acácio alguns minutos atrás: quis ser juiz né? O seu Adolfo, junto à porta de entrada, balançava a cabeça em sinal de reprovação e resmungava. Imagino que estava doido para dizer alguma coisa.! E então estava reduzindo a termo:...aquele tarugo é enorme.! Então depois o que houve?.! Excelência, não quero ser muito insistente (lá vinha o Acácio de novo), mas requeiro que conste a observação final da declarante (não me dava moleza mesmo, ia ter que ditar).! Tonico, me dirigi ao escrevente que, salvo engano, estava se divertindo muito com minha situação. Anos depois tornou-se juiz e disse que de fato nunca se divertira tanto com minha falta de jeito naquele dia. Abre aspas: qualquer um ia correr, até o senhor doutor. Fecha aspas. Bem, agora ia ditar tudo mesmo.! E na noite da quermesse, o que houve?! Excelência, com o maior respeito, mas para melhor esclarecimento, talvez seja oportuno perguntar à declarante se o denunciado tinha algum outro apelido entre as amigas. O Acácio estava demais. Fez essa observação lá no final da sala, segurando uma das velhas Revista dos Tribunais.! O Lincoln não conseguiu segurar um sorriso...por que seria? Deveria ter impugnado essa intervenção fora de ordem do promotor. Mas, vamos lá!! O Manoel tinha outro apelido entre vocês?.! Tinha sim dotô. As menina chamava ele de TRIPÉ.! Deixei cair um peso de papel que tinha nas mãos e me abaixei para pegá-lo. Assim não teria que encarar o Acácio e os demais. Levei um tempo para me levantar e sentar de novo. Imaginava o baixinho, troncudinho, com tarugo de fora... um tripé! Minha nossa. Apesar dos dois barulhentos ventiladores da sala, eu já tinha molhado de suor a camisa e o paletó. Esperava que não me fizessem perguntar a razão do apelido. Esta história bem poderia terminar aqui, mas certamente o leitor está curioso sobre o que teria ocorrido após. Afinal, há detalhes que devem ser esclarecidos quanto ao estupro consumado.! E na noite da quermesse, o que houve?!!

Eu tava com as amiga na barraca da pamonha e o Mané apareceu e pagou pamonha pra todas nóis. Aí ele disse que queria falar só comigo para esclarecer umas coisa. A minha prima Cacilda falou pra ele largá do meu pé porque já tinha feito mal pra muita moça na vila. Disse que era um sem-vergonha, mas ele disse que estava numa boa, que queria só conversá. Sentamo num banco da praça mas ele disse que tinha muita gente conhecida lá e nós fomo no carro dele pra perto da estação, que ficava lá perto.! Pararam por lá?! Fomos pra perto do pátio que não funcionava mais. Ele começou com papo de desculpa, mas foi me agarrando toda, dotô.! Ele bateu em você? No laudo médico consta que você teve hematomas no pescoço, no colo e... nas nádegas!!! (Hum...). Você tentou escapar?! Não adiantava escapá, ele me segurava. É um baixinho forte como um cavalo (um jumento seria comparação mais apropriada, pensei) e lá tava muito escuro. Só tinha luar mesmo. Era difícil correr.! E esses machucados? Como foram?! Ele me mordia toda, seu dotô, até me derrubô, me deixou de barriga no chão, e me mordeu a bunda!!! (Que cena!)! Mas ele queria mesmo machucar você? (eu acho que não devia ter perguntado assim).! Queria não dotô, o senhô sabe como são essas coisa!! (Eu não sei nada minha filha, não sei nada!!!!)! O Acácio estava com um acesso de tosse e olhava pela janela. O Adolfinho saiu correndo para reportar ao populacho lá embaixo, como eu já havia sido advertido. O dr. Lincoln fazia o tipo fleumático e impassível. O Tonico colocara óculos escuros e afundava na máquina para tomar as frases que ditava. Meu paletó, de linho puro como se usava na época, todo molhado de suor, parecia ter saído de um triturador.! Mas como ele acabou tendo relação com você? (Que desajuste vocabular o meu).! A dotô, essa relação deu pra terminar porque eu dei uma mordida nos bago dele. Aí ele gemeu e disse que eu era uma filha da puta. Eu disse que a gente devia mesmo conversar.! E como continuou essa história?! Aí ele ficou calminho, calminho por um bom tempo e nóis pudemo conversá. Deitemo por ali... Ele disse que as estrela tava muito bonita no céu. E tava mesmo. E que gostava muito de mim. Eu disse que não queria nada com ele. Mas logo depois ele pulou pra cima de mim. Eu gritava, gritava, mas ele tampava minha boca.! Foi então que vocês tiveram relação?! A relação já tinha acabado naquela hora dotô. O que ele fez foi me comer mesmo!!!!!!!!!! Foi aí que ele me estrupou! E continuou me mordendo, dotô! É um tarado! (Ai minha nossa).! A tosse do Acácio recrudesceu. O Adolfo estava acabando de reentrar na sala e saiu de novo. Eu não achava mais nada para jogar no chão... Achei que o Código Penal não seria o caso. O Lincoln riu, mas logo se recompôs, afinal era advogado de defesa.! Achei que era hora de encerrar minhas perguntas. O dr. Promotor tem perguntas?! Creio que uma só excelência: gostaria de saber da declarante se ela era moça até então. (O meu sofrimento não ia mesmo terminar tão cedo...).! Não era não, dotô, já tinha namorado o primo Gervásio, mas ele é pequeno e delicado e eu continuava fechadinha!!!!! Mas o Mané é um monstro. Me arrebentou toda. (Ajude-me a terminar isto logo meu Deus).! Olhei para o Acácio: Sem mais perguntas, Excelência. (Que alívio).! A defesa tem pergunta?! Tenho sim, Excelência. A declarante não apresenta, pelo laudo, qualquer ferimento nas costas e o local é de pedregulhos, segundo eu saiba. Gostaria de saber por que ela não machucou as costas?! Olha bem, menina, este detalhe é importante. Você disse que ele pulou em cima de você. Você então estava de costas no chão, não é?! Era sim dotô, e ele fazia um peso enorme e com aquela coisa grande em mim eu não podia me mexê, o senhô imagina não é??!

(Já falei que não sei e não imagino coisa alguma, ora. Quando que isto ia terminar? Resolvi que só olharia para a declarante. Não queria ver o Acácio à esta altura porque eu iria desmoronar).! E o local lá é de pedregulho?! É sim, pedra da linha do trem.! E como você não machucou as costas?! Nóis pusemo um cobertor grosso no chão, que ele foi buscá no carro!!!!!!!!! (Estaria eu vendo estrelas? Só faltava mesmo uma orquestra para esse grand finale. Pano rápido.)! Presumo que não tenha mais perguntas, não é, doutor defensor?! Nenhuma Excelência, obrigado.! Tonico, vou ditar agora, antes de encerrar a instrução, a decisão de relaxamento de fragrante. Alguma objeção, dr. Promotor?! Deixo ao elevado e sábio critério de Vossa Excelência, responde com a maior seriedade jurídica o Acácio. Bandido. E levanta bem alto, para que eu visse a capa do livro que estava lendo: Sonetos, de Olavo Bilac...! Ora direis ouvir estrelas...!! Sobre o autor: Sílvio de Salvo Venosa é professor e autor de várias obras de Direito Civil, consultor e parecerista na área.