Lyssandro Norton Siqueira1
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- David Geovane Molinari Bastos
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1 155 OBRIGATORIEDADE DO ESTUDO DE IMPACTO AMBIENTAL ATIVIDADES LISTADAS NA RESOLUÇÃO CONAMA N. 01/86: UM DOGMA? THE OBLIGATORINESS OF THE ENVIRONMENTAL IMPACT ASSESSMENT ACTIVITIES LISTED ON CONAMA S RESOLUTION N. 01/86: A DOGMA? Lyssandro Norton Siqueira1 RESUMO O Estudo de Impacto Ambiental - EIA é um dos instrumentos de avaliação do impacto ambiental de atividades efetiva ou potencialmente poluidoras, previsto na Política Nacional de Meio Ambiente e pela Constituição da República de As hipóteses normativas de obrigatoriedade de sua exigência serão objeto do presente trabalho. PALAVRAS-CHAVE Estudo de Impacto Ambiental. Exigibilidade. ABSTRACT The Environmental Impact Assessment - EIA is one of the tools to assess the environmental impact of actually or potentially polluting activities, provided for in the National Environmental Policy and the Constitution of The normative assumptions of obligation to your requirement will be object of this work. KEYWORDS Environmental Impact Assessment. Liability. 1 Procurador do Estado de Minas Gerais, Procurador-Chefe da Procuradoria de Patrimônio Imobiliário e Meio Ambiente, Doutorando em Teoria do Estado e Direito Constitucional pela PUC/RIO, Professor dos cursos de Direito do UNIBH, da UNA e da Escola Superior Dom Helder Câmara, Conselheiro da OAB/MG, Membro da Câmara Técnica de Assuntos Jurídicos do CONAMA, Coordenador em Minas Gerais da APRODAB (Associação dos Professores de Direito Ambiental do Brasil), Coordenador em Minas Gerais do IBAP (Instituto Brasileiro de Advocacia Pública).
2 156 1 INTRODUÇÃO A evolução do direito no tempo é a linha condutora dos trabalhos reunidos na Revista Jurídica Tempus. O convite para participar desta obra possibilitou-me revisar meu posicionamento quanto a alguns institutos jurídicos do Direito Ambiental, como, por exemplo, a Avaliação de Impacto Ambiental. As nuances jurídicas para a exigência do Estudo de Impacto Ambiental e Relatório de Impacto ao Meio Ambiente - EIA/RIMA são objeto de constante reflexão. No ano de 2009, como resultado de minha participação como palestrante no I Simpósio Nacional de Direito Ambiental da Associação dos Professores de Direito Ambiental do Brasil - APRODAB 2, publiquei o artigo intitulado "Obrigatoriedade do estudo de impacto ambiental como instrumento efetivador dos princípios da prevenção e da precaução" 3. Naquele artigo, afirmei que "os órgãos ambientais deverão exigir a elaboração do Estudo de Impacto Ambiental para o licenciamento de empreendimentos e atividades potencialmente poluidoras" e que "caso tais atividades estejam listadas na Resolução CONAMA nº 01/86, haverá sobre elas uma presunção absoluta acerca da obrigatoriedade de exigência do Estudo de Impacto Ambiental, o que implica no impedimento de que os órgãos públicos ambientais dispensem, nestes casos, tal exigência". As reflexões sobre o tema, ao longo do tempo, a partir do exame de situações concretas, obrigam-me a rever esse entendimento. 2 DO ESTUDO DE IMPACTO AMBIENTAL - EIA COMO INSTRUMENTO DA POLÍTICA NACIONAL DO MEIO AMBIENTE 2 Evento realizado no Centro Universitário Padre Anchieta - UNIANCHIETA entre 27 e 28 de novembro de Simpósio Nacional de Direito Ambiental da APRODAB, organização Luciana Cordeiro de Souza, Flávio Lopes Liquenvis, Jundiaí, SP: Editora In House, 2009, p. 129/156.
3 157 A Política Nacional do Meio Ambiente, estabelecida no Brasil pela Lei nº 6.938, de 31 de agosto de 1981, relacionou, em seu art. 9º, entre os instrumentos para sua efetivação, a avaliação de impactos ambientais 4. A Avaliação de Impacto Ambiental é, hoje, adotada como instrumento voltado à efetividade do direito ao meio ambiente ecologicamente equilibrado, em diversos outros países. Considerando que a competência legislativa em matéria ambiental é concorrente, na forma do disposto no art. 24, VI, da Constituição da República de 1988, e que o art. 8º, I, da Lei nº 6.938/81, atribuiu ao Conselho Nacional de Meio Ambiente CONAMA a competência para estabelecer normas e critérios para o licenciamento de atividades efetiva ou potencialmente poluidoras, aquele Conselho resolveu, através da Resolução nº 01/1986, estabelecer definições, responsabilidades, critérios básicos e diretrizes gerais para uso e implementação da Avaliação de Impacto Ambiental como um dos instrumentos da Política Nacional do Meio Ambiente. O termo Avaliação de Impacto Ambiental, na Resolução CONAMA nº 01/86, limitou-se ao Estudo de Impacto Ambiental - EIA e Relatório de Impacto ao Meio Ambiente - RIMA, expressão que, para Paulo de Bessa Antunes 5, "acabou se popularizando de tal maneira que se inseriu na própria Constituição": Art º. Para assegurar a efetividade desse direito, incumbe ao Poder Público: [...] IV - exigir, na forma da lei, para instalação de obra ou atividade potencialmente causadora de significativa degradação do meio ambiente, estudo prévio de impacto ambiental, a que se dará publicidade; A consagração do EIA como instrumento da Política Nacional do Meio Ambiente no texto constitucional dá a medida de sua importância. 4 Art. 9º, III, da Lei nº 6.938/81. 5 ANTUNES, Paulo de Bessa. Direito Ambiental. 11ª edição. Rio de Janeiro: Lúmen Júris. 2008, p. 283.
4 158 O EIA, de acordo com o artigo 5º da Resolução CONAMA nº 01/86, deverá: contemplar todas as alternativas tecnológicas e de localização do projeto, confrontando-as com a hipótese de não execução do projeto; identificar e avaliar sistematicamente os impactos ambientais gerados nas fases de implantação e operação da atividade; definir os limites da área geográfica a ser direta ou indiretamente afetada pelos impactos, denominada área de influência do projeto, considerando, em todos os casos, a bacia hidrográfica na qual se localiza e considerar os planos e programas governamentais, propostos e em implantação na área de influência do projeto, e sua compatibilidade. Tais diretrizes visam à prévia identificação de todos os possíveis impactos de empreendimentos ou atividades ao meio ambiente, verificando a sua tolerabilidade e já informando as medidas mitigatórias e compensatórias adequadas, consagrando, assim, o princípio da prevenção. Não se obtendo segurança quanto aos efeitos do empreendimento a ser licenciado, o EIA autorizará a conclusão pela inviabilidade de seu licenciamento, o que implica na materialização do princípio da precaução. Posto isso, o desafio é identificar em quais situações esse complexo estudo deverá ser obrigatoriamente exigido. 3 DA OBRIGATORIEDADE DO EIA O CONAMA, na mesma Resolução nº 01/86, em que regulamentou o EIA, tratou de listar atividades 6 para as quais seria indicada a sua exigência. A expressão 6 Art. 2º Dependerá de elaboração de estudo de impacto ambiental e respectivo relatório de impacto ambiental - RIMA, a serem submetidos à aprovação do órgão estadual competente, e da Secretaria Especial do Meio Ambiente - SEMA em caráter supletivo, o licenciamento de atividades modificadoras do meio ambiente, tais como: I - Estradas de rodagem com duas ou mais faixas de rolamento; II - Ferrovias; III - Portos e terminais de minério, petróleo e produtos químicos; IV - Aeroportos, conforme definidos pelo inciso 1, artigo 48, do Decreto-Lei nº 32, de 18 de setembro de 1966; V - Oleodutos, gasodutos, minerodutos, troncos coletores e emissários de esgotos sanitários; VI - Linhas de transmissão de energia elétrica, acima de 230KV;
5 159 "tais como" ao anunciar o rol, no final do caput, não deixa dúvida de que a lista é exemplificativa. A listagem não é exaustiva, razão pela qual poderá o órgão licenciador exigir a realização do EIA para atividades não previstas na Resolução CONAMA nº 01/86, quando identificar tal necessidade em razão da potencialidade dos impactos ambientais serem significativos. A questão que se mostra controvertida é saber se, quanto às atividades enumeradas, a exigência do EIA torna-se imprescindível? Penso, atualmente, que não. A Resolução CONAMA Nº 01/86 deve ser examinada à luz do texto constitucional, que, em seu art. 225, 1º, IV, vinculou a exigibilidade do EIA à "instalação de obra ou atividade potencialmente causadora de significativa degradação do meio ambiente". Permite-se, portanto, concluir que, em consonância com a Constituição da República, a lista da Resolução CONAMA nº 01/86 traz VII - Obras hidráulicas para exploração de recursos hídricos, tais como: barragem para fins hidrelétricos, acima de 10MW, de saneamento ou de irrigação, abertura de canais para navegação, drenagem e irrigação, retificação de cursos d água, abertura de barras e embocaduras, transposição de bacias, diques; VIII - Extração de combustível fóssil (petróleo, xisto, carvão); IX - Extração de minério, inclusive os da classe II, definidas no Código de Mineração; X - Aterros sanitários, processamento e destino final de resíduos tóxicos ou perigosos; XI - Usinas de geração de eletricidade, qualquer que seja a fonte de energia primária, acima de 10MW; XII - Complexo e unidades industriais e agro-industriais (petroquímicos, siderúrgicos, cloroquímicos, destilarias de álcool, hulha, extração e cultivo de recursos hídricos); XIII - Distritos industriais e zonas estritamente industriais - ZEI; XIV - Exploração econômica de madeira ou de lenha, em áreas acima de 100 hectares ou menores, quando atingir áreas significativas em termos percentuais ou de importância do ponto de vista ambiental; XV - Projetos urbanísticos, acima de 100 ha ou em áreas consideradas de relevante interesse ambiental a critério da SEMA e dos órgãos municipais e estaduais competentes estaduais ou municipais; XVI - Qualquer atividade que utilizar carvão vegetal, em quantidade superior a dez toneladas por dia. XVI - Qualquer atividade que utilizar carvão vegetal, derivados ou produtos similares, em quantidade superior a dez toneladas por dia. (nova redação dada pela Resolução n 11/86) XVII - Projetos Agropecuários que contemplem áreas acima de ha. ou menores, neste caso, quando se tratar de áreas significativas em termos percentuais ou de importância do ponto de vista ambiental, inclusive nas áreas de proteção ambiental. (inciso acrescentado pela Resolução n 11/86) XVIII - Empreendimentos potencialmente lesivos ao patrimônio espeleológico nacional. (inciso acrescentado pela Resolução n 5/87).
6 160 atividades sobre as quais há uma presunção de que a degradação potencial seja significativa. Tal presunção, entretanto, é relativa. A Resolução CONAMA nº 01/86 é um ótimo parâmetro para a identificação de atividades cujo potencial degradador seja significativo, mas não pode ser vista como um dogma. Algumas das atividades ali listadas, há quase trinta anos, são genéricas e podem provocar um engessamento da atividade produtiva e dos órgãos ambientais, caso a presunção de degradação ambiental significativa sobre elas seja considerada absoluta. Além disso, a evolução tecnológica ao longo dos anos pode, perfeitamente, ter contribuído para a mitigação do impacto ambiental das diversas atividades relacionadas. O EIA é um estudo extremamente complexo que tem, por imposição normativa, um rol de requisitos mínimos previstos no art. 6º da Resolução em comento: I - Diagnóstico ambiental da área de influência do projeto completa descrição e análise dos recursos ambientais e suas interações, tal como existem, de modo a caracterizar a situação ambiental da área, antes da implantação do projeto, considerando: a) o meio físico - o subsolo, as águas, o ar e o clima, destacando os recursos minerais, a topografia, os tipos e aptidões do solo, os corpos d água, o regime hidrológico, as correntes marinhas, as correntes atmosféricas; b) o meio biológico e os ecossistemas naturais - a fauna e a fl ora, destacando as espécies indicadoras da qualidade ambiental, de valor científico e econômico, raras e ameaçadas de extinção e as áreas de preservação permanente; c) o meio sócioeconômico - o uso e ocupação do solo, os usos da água e a sócioeconomia, destacando os sítios e monumentos arqueológicos, históricos e culturais da comunidade, as relações de dependência entre a sociedade local, os recursos ambientais e a potencial utilização futura desses recursos. II - Análise dos impactos ambientais do projeto e de suas alternativas, através de identificação, previsão da magnitude e interpretação da importância dos prováveis impactos relevantes, discriminando: os impactos positivos e negativos (benéficos e adversos), diretos e indiretos, imediatos e a médio e longo prazos, temporários e permanentes; seu grau de reversibilidade; suas propriedades cumulativas e sinérgicas; a
7 161 distribuição dos ônus e benefícios sociais. III - Definição das medidas mitigadoras dos impactos negativos, entre elas os equipamentos de controle e sistemas de tratamento de despejos, avaliando a eficiência de cada uma delas. IV - Elaboração do programa de acompanhamento e monitoramento dos impactos positivos e negativos, indicando os fatores e parâmetros a serem considerados. Parágrafo único. Ao determinar a execução do estudo de impacto ambiental, o órgão estadual competente; ou a SEMA ou quando couber, o Município fornecerá as instruções adicionais que se fizerem necessárias, pelas peculiaridades do projeto e características ambientais da área. A inafastabilidade da exigência do EIA consistiria em verdadeiro entrave burocrático em diversas situações nas quais, apesar da previsão na Resolução nº 01/86, a atividade, pelo seu porte ou localização, teria um baixo potencial degradador. Tome-se, como exemplo, o licenciamento de aeroportos, atividade prevista no inciso IV da listagem. Ora, a exigência de EIA para todo e qualquer aeroporto, sem distinção, pode implicar exigência absurda para o empreendedor e desnecessária para o licenciamento pelo órgão ambiental. Além disso, a redação lacônica da norma dá margem a interpretações distorcidas, como, por exemplo, exigir o EIA para pequenas obras de ampliação de terminais de passageiros ou manutenção de pistas. Um outro exemplo é o das "estradas de rodagem com duas ou mais faixas de rolamento", previsto no inciso I. Imagine-se que estejamos perante um pequeno trecho de uma estrada com "duas faixas" em região totalmente antropizada ou apenas fazendo a ligação entre duas movimentadas rodovias preexistentes. Ora, seria um absurdo se exigir o EIA neste caso. Como se não bastasse, a expressão "duas faixas" permite interpretações, absurdas, mas possíveis para alguns "artistas" do mundo jurídico, de que se refere a toda e qualquer estrada com uma faixa de ida e outra de volta... Ora, qual "estrada" não possuiria uma faixa de ida e outra de volta? A exigência indiscriminada e burocrática do EIA, para situações de baixo impacto ambiental, funciona como fator de sua banalização, como bem destacou Yara Gouvêa:
8 162 Daí que são as obras ou atividades que necessitam desse tipo de avaliação que se sujeitam à elaboração do ElA/RIMA que, por sua relevância e amplitude, por seu papel fundamental como um dos instrumentos mais importantes da Política Nacional do Meio Ambiente, não pode ser transformado em simples exigência burocrática, feita até mesmo quando o órgão ambiental já dispõe das informações necessárias ou quando o sistema de licenciamento se mostra suficiente no caso concreto, seja pelo porte, características ou localização da atividade, seja pelo fato dos impactos serem restritos e identificados. Aliás, o próprio Decreto nº /83 assim dispõe no parágrafo primeiro de seu artigo 17: "Parágrafo primeiro - Nas atividades de licenciamento, fiscalização e controle, deverão ser evitadas exigências burocráticas excessivas ou pedidos de informações já disponíveis." Evidentemente, Estudos de Impacto Ambiental enriqueceriam qualquer projeto, porém não é isso o que está previsto na legislação vigente. De se considerar ainda que nos termos do disposto no artigo 7º da Resolução em tela, o estudo deverá ser realizado por equipe multidisciplinar habilitada, não dependente, direta ou indiretamente do proponente do projeto. Ou seja, este não poderá ser realizado pelo proponente ou sua equipe, nem pelo órgão de meio ambiente que irá examiná-lo, devendo obrigatoriamente ser contratado com terceiros. Essa exigência, que visa garantir a imparcialidade do Estudo e a correção das informações, implica num custo, normalmente alto, a onerar o proponente. Uma despesa indiscutivelmente necessária quando a exigência do ElA/RIMA decorre das características da obra ou da atividade que se pretende implantar e até mesmo de pequena monta, face ao porte de determinadas obras. O que se aborda aqui são situações especiais, onde o Estudo de Impacto Ambiental - ElA, mesmo sendo considerado desnecessário pelo órgão competente, face às características da obra ou atividade e das informações já disponíveis seria exigido a título de mero cumprimento de uma enumeração entendida como "taxativa", onerando sensivelmente o empreendimento e podendo, inclusive, vir a inviabilizá-io ou induzi-io à clandestinidade. 7 7 GOUVÊA, Yara Maria Gomide. A interpretação do Artigo 2º da Resolução CONAMA 1/86 in Avaliação de impacto ambiental / Yara Maria Gomide Gouvêa, Francisco Thomaz Van Acker, Luis Enrique Sánchez... [et ai.] - São Paulo: Secretaria do Meio Ambiente, p. ; 30 em. (Documentos Ambientais), p. 21.
9 163 No mesmo sentido a lição de Édis Milaré: Destarte, com base em todos esses atos normativos e ideias que referendam a tese da relatividade da presunção de significativo impacto ambiental das atividades relacionadas no art. 2º da Res. Conama 1/1986, é possível concluir que o órgão de controle mantém certa dose de liberdade para avaliar dito pressuposto do EIA/RIMA, isto é, o significativo impacto ambiental. Evidenciada, porém, por regular prova técnica, a insignificância do impacto, torna-se inviável a exigência do estudo. Com isso, obvia-se a transformação de um instrumento tão importante como o EIA em mera exigência formal, imposto sem critério, e que, muitas vezes, pode inviabilizar obras necessárias - pense-se, por exemplo, num pequeno aterro sanitário, em área desprovida de especial interesse para o meio ambiente -, em razão dos altos custos a serem incorridos com a sua contratação.8 Caberia, assim, ao órgão ambiental a identificação de situações em que, apesar da menção expressa na referida norma, os impactos ambientais seriam comprovadamente não significativos. No âmbito da atuação administrativa ambiental, cumpre aos órgãos ambientais, nos limites da lei e da competência administrativa comum que lhes foi outorgada pelo disposto no art. 23 da Constituição da República, exercer o poder de polícia. A definição do tipo de avaliação dos impactos ao meio ambiente, como exercício do poder de polícia, é um dos instrumentos de que o órgão ambiental dispõe para implementar sua política de meio ambiente. Trata-se efetivamente de ato discricionário, pertinente à esfera de valoração exclusiva do administrador, a quem incumbe praticar os atos pertinentes a sua função, atendo-se aos critérios de oportunidade e conveniência para a Administração, tendo sempre presente o interesse público. Tal discricionariedade, entretanto, não implica em ampla e 8 MILARÉ, Édis. Direito do Ambiente 0 10 ed. rev., atual. e ampl. - São Paulo: Editora Revista dos Tribunais, 2015, p. 767/768.
10 164 irrestrita liberdade administrativa do órgão público ambiental, que deverá rigorosamente obedecer à lei e aos princípios de direito. A relativização da lista prevista na Resolução nº 01/86 não teria, entretanto, o condão de autorizar o órgão ambiental a, indiscriminadamente, conceder licenças ambientais sem exigência de estudos ou amparado em estudos falhos. Não poderá o órgão ambiental simplesmente dispensar a apresentação do EIA de atividades ali elencadas, sob pena de se caracterizar verdadeira improbidade ambiental. Nesse sentido, mostra-se o entendimento esposado por Andreas Krell, que defende a discricionariedade da Administração na exigibilidade do EIA, que será maior ou menor de acordo com a presença da atividade na listagem da Resolução CONAMA nº 01/86: A decisão da Administração - se exige ou não o EIA é discricionária, pois envolve o exercício de um juízo técnico-valorativo a respeito da questão: se a possível degradação causada pela atividade é significativa ou não. No entanto, esta decisão deve ser norteada pela Resolução nº 01/86 do CONAMA, que prevê uma lista exemplificativa de obras e empreendimentos para os quais se presume que o seu potencial de impacto seja significativo. Ao mesmo tempo, o órgão ambiental pode determinar a realização de um EIA para qualquer obra ou atividade, pública ou particular. O fato que esta não conste do referido rol normativo faz com que aumente a margem discricionária de decisão administrativa. Não se pode dizer, no entanto, que a exigência do EIA seja sempre um ato plenamente vinculado, visto que o enquadramento dos fatos reais na hipótese da norma em questão constitui um ato de interpretação/aplicação do Direito. Assim, é possível que uma atividade, apesar de fazer parte da lista do art. 2º da Res. nº 01/86, no caso concreto, não seja capaz de causar significativos impactos, como, v.g., pequenas obras hidráulicas de irrigação ou a abertura de canais menores de drenagem (inciso VII). Como sempre, haverá aqui casos situados na zona de certeza positiva, na zona de certeza negativa e aqueles duvidosos, na zona da penumbra ( candidatos neutros ), que permitem mais que a solução correta. Naturalmente, aumenta o dever de motivação da decisão administrativa nos casos em que se pretende contrariar a presunção do referido dispositivo. Verificando que o impacto a se esperar do projeto não é significativo, o órgão ambiental definirá os estudos ambientais pertinentes ao respectivo processo de licenciamento (cf. art. 3º, parágrafo único da Res. nº 237/97 CONAMA).9 9 KRELL, Andreas J. Discricionariedade Administrativa e Proteção Ambiental. O CONTROLE DOS CONCEITOS JURÍDICOS INDETERMINADOS E A COMPETÊNCIA DOS ÓRGAOS AMBIENTAIS. Um estudo comparativo.livraria do Advogado / Porto Alegre 2004.Página 119, 120 e 121.
11 165 Parece-me ser essa a melhor solução, no sentido de que a presunção da referida listagem seria relativa, demandando um aumento no dever de motivação das decisões que venham a dispensar o EIA para os empreendimentos ou atividades relacionados. 4 CONCLUSÃO Conclui-se, assim, ser possível a dispensa do EIA de atividades listadas na Resolução CONAMA nº 01/86. A dispensa do EIA, entretanto, deverá ser amparada em outros estudos técnicos, que concluam, de forma segura, pela ausência de significativos impactos ao meio ambiente. Como alternativa, poderá o Poder Público identificar previamente tipos específicos de empreendimentos, para os quais não haja comprovadamente significativo impacto, considerando o porte e o potencial poluidor e os relacionar em norma própria a orientar a decisão dos órgãos ambientais. Caso contrário, a dispensa imotivada do EIA para o licenciamento de empreendimentos e atividades devidamente listados na referida norma, poderá consistir na prática de ato de improbidade pela autoridade ambiental, em razão da gravidade dos fatos que denotam a violação de seus deveres funcionais. REFERÊNCIAS - ANTUNES, Paulo de Bessa. Direito Ambiental. 11ª edição. Rio de Janeiro: Lúmen Júris GOUVÊA, Yara Maria Gomide. A interpretação do Artigo 2º da Resolução CONAMA 1/86 in Avaliação de impacto ambiental / Yara Maria Gomide Gouvêa, Francisco Thomaz Van Acker, Luis Enrique Sánchez... [et ai.] - São Paulo: Secretaria do Meio Ambiente, p. ; 30 em. (Documentos Ambientais). - KRELL, Andreas J. Discricionariedade Administrativa e Proteção Ambiental. O CONTROLE DOS CONCEITOS JURÍDICOS INDETERMINADOS E A COMPETÊNCIA DOS ÓRGAOS AMBIENTAIS. Um estudo comparativo.livraria do Advogado / Porto Alegre MILARÉ, Édis. Direito do Ambiente 0 10 ed. rev., atual. e ampl. - São Paulo: Editora Revista dos Tribunais, SIQUEIRA, Lyssandro Norton. Simpósio Nacional de Direito Ambiental da APRODAB, organização Luciana Cordeiro de Souza, Flávio Lopes Liquenvis, Jundiaí, SP: Editora In House, 2009.
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