Documentos sobre o diálogo inter-religioso

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1 Documentos sobre o diálogo inter-religioso D. Miguel Ángel Ayuso Guixot, MCCJ Secretário do Pontifício Conselho para o Diálogo Inter-religioso Caros irmãos no episcopado, Agradeço a oportunidade que me foi oferecida para compartilhar com os senhores algumas reflexões sobre o diálogo inter-religioso. Desejo agradecer a Sua Eminência o cardeal Orani Tempesta e sua Excia. D. Karl Josef Romer por me terem dirigido o convite para participar nesta maravilhosa iniciativa à qual espero dar a minha contribuição. Vou abordar três questões diferentes. A primeira é um excurso sobre os documentos a respeito do diálogo inter-religioso e algumas reflexões sobre o papel dos bispos na promoção do encontro entre crentes de diferentes religiões. O segundo tema abordará o diálogo islâmico-cristão. Vou terminar a minha contribuição com um relatório sobre o diálogo interreligioso a serviço da paz no ensinamento do Papa Francisco. 1. Princípios e orientações Desejo, em primeiro lugar, começar por recordar o que é conhecido como a Carta Magna do diálogo inter-religioso, a Declaração Nostra Aetate do Concílio, a qual, em 28 de outubro de 2015, celebrou seu 50º aniversário. Esta Declaração inspirou os membros da Igreja Católica em vários níveis no sentido de promover relações de respeito e diálogo com pessoas de outras religiões, e continua a ser um ponto fixo de referência para estas relações. Como afirma a Declaração, ainda hoje somos exortados a reconhecer, preservar e promover todos os fatores espirituais, morais e sócio-culturais que são encontrados nas religiões. A mensagem de Nostra Aetate é sempre atual. Aqui estão alguns pontos: - a crescente interdependência dos povos (cfr nº. 1); - a busca humana de sentido para a vida, o sofrimento, a morte; se trata, portanto, de interrogações sempre válidas porque são perguntas permanentes (ver nº 1..); - A origem comum e o único destino da humanidade (cf. nº 1); - A unicidade da família humana (. cfr nº. 1); - 1 -

2 - As religiões como uma busca de Deus ou do Absoluto, dentro das várias etnias e culturas (cfr nº. 1); - O olhar benevolente e atento da Igreja sobre as religiões: ela não rejeita tudo o que é belo e verdadeiro nelas; (cfr n 2..) -a Igreja olha também com estima os crentes de todas as religiões, apreciando seu compromisso religioso e moral como tal (cfr n 3..); (NB: a referência é para os muçulmanos, no entanto, também pode ser estendido para os crentes de outras religiões) Podemos, portanto, dizer, reconhecendo ainda hoje a validade dos princípios enunciados na Nostra Aetate, que a Igreja, aberta ao diálogo com todos, é, ao mesmo tempo, fiel às verdades nas quais crê, a começar por crer que a salvação oferecida a todos tem sua origem em Jesus, único salvador, e que o Espírito Santo permanece atuando como fonte de paz e amor. O Concílio, deste modo, ofereceu uma avaliação positiva das outras religiões, deu validade às novas iniciativas pastorais, criou bases sólidas para o diálogo inter-religioso e para a teologia católica das religiões. Desejo, portanto, passar rapidamente em resenha os documentos publicados pelo Pontifício Conselho para o Diálogo Inter-religioso (PCDI) Documentos do Pontifício Conselho para o Diálogo Inter-Religioso (PCDI) A reflexão encontrou sua expressão no primeiro documento oficial publicado por esse Dicastério: A atitude da Igreja para com os seguidores de outras religiões. Reflexões e orientações sobre diálogo e missão (1984), conhecido como Diálogo e Missão. O documento, que coloca o diálogo inter-religioso no contexto da mais vasta missão da Igreja, inspirando-se nos fundamentos teológicos do Concílio Vaticano II, é dividido em três partes: 1) Reflexão sobre a missão da Igreja; 2) motivações para o diálogo (nos números 29-35, se distinguem várias formas de diálogo); 3) reflexões sobre a relação entre diálogo e missão evangelizadora da Igreja. Ao mesmo tempo, as Igrejas locais foram encorajadas a instituir estruturas adequadas ao diálogo. Em conjunto com a Congregação para a Evangelização dos Povos, o PCDI publicou o segundo documento: Diálogo e Anúncio (1991), no qual se tenta esclarecer a relação entre o anúncio da salvação em Cristo e o diálogo com pessoas de outras religiões. O documento está dividido em três partes: a primeira centra-se no tema do diálogo inter-religioso e reflete sobre a leitura que o Concílio Vaticano II fez das tradições religiosas; a segunda enfatiza a prioridade também do anúncio de Jesus Cristo; a terceira diz respeito ao anúncio e ao diálogo, dois aspectos da missão evangelizadora da Igreja, aspectos correlacionados, mas não intercambiáveis. No nº. 43, recordando as quatro formas de diálogo já mencionadas no documento de 1984, isto é, o diálogo da vida, o diálogo de ação, o diálogo de intercâmbio teológico e aquele da experiência religiosa, onde se lê: - 2 -

3 "Nunca deveremos perder de vista esta variedade de formas de diálogo. Se fosse reduzido a um intercâmbio teológico, o diálogo poderia facilmente ser considerado uma espécie de âmbito privilegiado na missão da igreja, um espaço, um domínio reservado aos especialistas. Pelo contrário, todas as igrejas locais, todos os seus membros - guiados pelo Papa e seus bispos - são chamados ao diálogo, embora não todos da mesma forma. Pode-se notar também que as diferentes formas de diálogo estão interligadas entre si. Os contatos no cotidiano da vida e o compromisso comum à ação abrem naturalmente portas para colaborar na promoção dos valores humanos e espirituais; os contatos e o compromisso conjunto também podem, ainda que eventualmente, levar ao diálogo da experiência religiosa em resposta às grandes questões que as circunstâncias da vida não deixam de dar lugar nas mentes dos homens (cf. NA 2). As trocas em nível de experiência religiosa podem dar mais vida às discussões teológicas, e esta última, em troca, pode iluminar experiências e encorajar contatos mais estreitos "(DA nº. 43). Quanto à relação entre diálogo e anúncio, a Exortação Apostólica Evangelii Gaudium, do Papa Francisco, destaca que: "Neste diálogo, sempre gentil e cordial, não se deve nunca negligenciar o vínculo essencial entre diálogo e anúncio, o que leva a Igreja a manter e intensificar relações com os não-cristãos (...) A verdadeira abertura implica permanecer firme nas próprias convicções mais profundas, com uma identidade clara e alegre, mas abertos a compreender as convicções dos outros, sabendo que o diálogo pode enriquecer a cada um "(EG, nº. 251). Sabemos que o anúncio e o diálogo são dois aspectos da missão evangelizadora da Igreja, correlacionados, mas não intercambiáveis. Ambos são atividades da Igreja a serem perseguidos em obediência às instruções do Espírito Santo. O diálogo inter-religioso tem o seu próprio valor intrínseco. Não se origina de interesses táticos ou ocultos. Ele não deve ser considerado como uma mera preparação para a tarefa de anunciar ou proclamar Jesus Cristo e convidar as pessoas a tornarem-se membros da Igreja através do batismo. Tem o seu principal objetivo no garantir que as pessoas de diferentes religiões possam viver em harmonia e paz, que elas possam se entender melhor, trabalhar em conjunto para o benefício da humanidade e ajudar uns aos outros a responder ao chamado de Deus. O diálogo e o anúncio não se contrapõem. O diálogo por si mesmo contém um elemento de anúncio, na medida em que implica o testemunho da própria fé, enquanto que o anúncio nunca pode ser uma imposição da verdade, mas deve ser sempre conduzido num espírito de diálogo. Finalmente, em 2014, por ocasião do 50º aniversário do Pontifício Conselho para o Diálogo Interreligioso, foi publicado o documento Diálogo na verdade e na caridade. Orientações pastorais para o diálogo inter-religioso", o qual, considerando as muitas iniciativas inter-religiosas de diversas naturezas, que estão sendo promovidas hoje, convida a realizar um discernimento adequado para o qual são necessárias uma sólida formação e informação teológica. É claro que ao interno da Igreja, embora todos os fiéis sejam chamados a dialogar, existem diferentes funções - 3 -

4 e tarefas. Lemos, por exemplo, no nº. 25 que: "Os bispos, como mestres da fé e pastores do Povo de Deus, desempenham um papel central na educação e no estímulo do Povo de Deus em diferentes aspectos da missão evangelizadora, o que inclui o diálogo inter-religioso" (Dialogue in verdade e na caridade. Orientações pastorais para o Diálogo Inter-religioso, nº.25). 2. Papel do bispo na promoção do diálogo inter-religioso Como bem sabemos, o bispo tem de estender o seu cuidado e a sua atenção a todos os que vivem no território da sua diocese. Ele não pode simplesmente se limitar aos católicos, embora a esses deva ser reservado o direito de prioridade na ação pastoral. O ministério do bispo deverá ter uma dimensão ecumênica, no contato com outros cristãos, e uma dimensão inter-religiosa, relacionando-se com aqueles que pertencem a diferentes religiões. A presença de crentes de outras religiões, bem sabemos, é uma realidade global. Não há país algum no mundo que não seja multi religioso. O bispo é, portanto, convidado a agir pastoralmente ao encontro de todos, e ser testemunha de Cristo para todos. Os bispos, como mestres da fé e pastores do Povo de Deus, desempenham um papel central na educação e no estímulo do povo de Deus nos diferentes aspectos da missão evangelizadora, o que inclui o diálogo inter-religioso. Conhecemos os princípios e as orientações que, na Exortação Apostólica Pastores Gregis (João Paulo II, Exortação Apostólica pós-sinodal Pastores Gregis, 16 de outubro de 2003, nº. 68) se referem ao diálogo inter-religioso. Indico três elementos importantes que ali emergem: 1) O diálogo inter-religioso, como já afirmado na Redemptoris Missio, no nº 55, faz parte da missão evangelizadora da Igreja 2) Isso é exigido pela vida quotidiana, ou seja, cada membro do Povo de Deus vive, em sua realidade (trabalho, escola etc.) a dimensão do encontro inter-religioso. 3) É preciso atribuir a justa atenção à promoção do diálogo inter-religioso. Exatamente porque o bispo não pode assumir sozinho a responsabilidade de levar a cabo tudo isso, que, a esses elementos, eu gostaria de acrescentar: 1) A necessidade de criar as estruturas necessárias e identificar as pessoas que são capazes e preparadas para enfrentar essa tarefa. Assim se lê no nº 25 do já mencionado documento Diálogo na verdade e na caridade. Orientações pastorais para o Diálogo Inter-religioso: "Seria bom, a fim de que os bispos possam motivar a Igreja em nível nacional, regional e diocesano, para ter alguma estrutura permanente (por exemplo, uma comissão, ou pelo menos uma pessoa especialmente designada para esta tarefa) de promover e coordenar as relações da Igreja com pessoas de outras religiões, em resposta aos desafios do pluralismo religioso. Esta estrutura poderia servir para dar um carácter oficial e uma continuidade ao diálogo interreligioso. Ela tem se revelado muito útil quando os bispos, por meio de mensagens, homilias, encontros com o clero, contatos pastorais e outras formas públicas, dão orientações claras sobre como promover as relações inter-religiosas no contexto local, uma vez que se encontra maior - 4 -

5 coerência " (Diálogo na verdade e na caridade. Orientações pastorais para o Diálogo Interreligioso, nº.25). 2) Em um programa que leve em conta o testemunho da própria fé e a necessidade do diálogo inter-religioso, é muito importante que o bispo que envolva todo o povo de Deus. Por exemplo, penso que as famílias cristãs, que são muitas vezes as primeiras a entrar em contato, na escola, no trabalho, em vários lugares, com pessoas de outras religiões, e são elas que apresentam a primeira imagem e o primeiro testemunho da comunidade cristã. É, portanto, primordial preparar nossas famílias cristãs para o encontro com os crentes de outras religiões. Embora seja essencial que a educação religiosa tenha em vista sobretudo fazer crescer na própria identidade religiosa, é desejável que se eduque também para ouvir o outro, proporcionando apresentações adequadas e objetivas de outras tradições religiosas. 3) Uma atenção especial deve ser dada à educação dos jovens. 4) Reveste-se, portanto, de uma importância primária o aspecto da formação ao diálogo nas instituições educativas, tais como escolas, universidades, centros de estudo, mas também nos seminários e casas de formação. Como disse o Papa Bento XVI em 2008, por ocasião da Sessão Plenária do PCDI: "É importante destacar a necessidade de uma boa formação para aqueles que promovem o diálogo interreligioso, o qual, para ser autêntico, deve ser um caminho de fé. Como é necessário, portanto, para os seus promotores serem bem formados em suas próprias convicções e também a respeito das convicções dos outros! "(Discurso do Santo Padre Bento XVI aos participantes da X Assembleia Plenária do Pontifício Conselho para o Diálogo Inter-religioso, Sala do Consistório, sábado, 7 de junho de 2008). São, portanto, importantes e louváveis todas aquelas iniciativas que permitem verdadeiramente conhecer o outro e superar os preconceitos e considerações superficiais e errôneas. A Igreja Católica está consciente do valor que se reveste a promoção do diálogo inter-religioso e o respeito entre homens e mulheres de diferentes tradições religiosas. Entendemos cada vez mais a importância, seja porque o mundo está, de alguma forma, se tornando "menor", seja porque o fenômeno da migração aumenta os contatos entre pessoas e comunidades de tradições, culturas e religiões diferentes. Esta realidade interpela a nossa consciência de cristãos. É um desafio para a compreensão da fé e para a vida concreta das igrejas locais, das paróquias e de muitíssimos crentes. Em todos os lugares, os cristãos, convivem com pessoas de diferentes religiões. Devem, portanto, tentar viver em harmonia lado a lado, trabalhando em conjunto para o benefício da sociedade, esclarecendo ideias uns sobre os outros, através de intercâmbios formais, compartilhando experiências espirituais. O diálogo com pessoas de outras religiões nos ensina que, como cristãos, podemos viver a nossa fé de uma forma mais integrada e podemos ser melhores testemunhas de Cristo através da colaboração com outros crentes. Obrigado pela atenção dos senhores

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