São Bernardo Graciliano Ramos
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- Mirella Freire Godoi
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1 São Bernardo Graciliano Ramos São Bernardo é um romance de confissão, aparentado com Dom Casmurro. Narrado em primeira pessoa, é curto, direto e bruto. Poucos, como ele, serão tão honestos nos meios empregados e tão despidos de recursos; e esta força parece provir da sólida unidade que o autor lhe imprimiu. As personagens e as coisas surgem como meras modalidades do narrador, Paulo Honório cuja à personalidade dominadora se amesquinham, frágeis e distantes. Mas Paulo Honório, por sua vez, é modalidade duma força que o transcende e em função da qual vive: o sentimento de propriedade. E o romance é mais que um estudo analítico, verdadeira patogênese desse sentimento. De guia de cego, filho de pais incógnitos, criado pela preta Margarida, Paulo Honório se elevou a grande fazendeiro, respeitado e temido, graças à tenacidade infatigável com que manobrou a vida, ignorando escrúpulos e visando atingir o seu alvo por todos os meios. Para alcançar sua ascensão social, o narrador paga um preço altíssimo, que é a destruição do seu caráter afetivo. Na verdade, a perda de sua humanidade pode ser entendida como fruto do meio em que vivia. Massacrado por seu mundo, acaba tornando-se um herói problemático, defeituoso (parece haver aqui um certo determinismo, na medida em que o homem seria apresentado como fruto e prisioneiro das condições mesológicas). Há um aspecto que atenta contra a sua verossimilhança, que é um célebre problema de incoerência: como um romance tão bem escrito pode ter sido produzido por um semianalfabeto como Paulo Honório. É uma narrativa muito sofisticada para um narrador de caráter tão tosco. Quando se menciona que a narrativa é sofisticada, não se quer dizer que haja rebuscamento. A linguagem do romance, seguindo o estilo de Graciliano Ramos, é extremamente econômica, enxuta, mas densa de beleza. Outra beleza pode ser percebida pela maneira como o tempo é trabalhado. Há o tempo do enunciado (a história em si, os fatos narrados) e o tempo da enunciação (o ato de narrar, de contar a história). O primeiro é pretérito. O segundo é presente. Mas há momentos magistrais,
2 como os capítulos 19 e 36, em que, em meio à perturbação psicológica em que se encontra o narrador, os dois acabam-se misturando. Todos esses elementos, portanto, fazem de São Bernardo uma obra do mais alto quilate, facilmente colocada entre os cinco melhores romances de nossa literatura. ATIVIDADE 1 ATIVIDADES QUESTÃO 01 Assinale com V (Verdadeiro) ou com F (Falso) as afirmações abaixo sobre o romance São Bernardo, de Graciliano Ramos: ( ) O projeto de escrever um livro em conjunto, pela divisão do trabalho, não tem êxito. Paulo Honório critica os padrões quinhentistas seguidos por João Nogueira e a linguagem empolada de Azevedo Gondim, mas acaba adotando a mesma forma de escrever. ( ) Embora pretenda reproduzir fielmente os fatos de sua vida, Paulo Honório desrespeita os acontecimentos, introduzindo personagens que de fato não existiram. ( ) Paulo Honório seleciona os episódios mais significativos de sua vida, centrando-se nas circunstâncias que levam ao desenlace do drama sobre o qual se interroga. ( ) Paulo Honório, em várias ocasiões, interrompe o relato para discutir as regras que presidem a sua escrita ou para confessar suas dificuldades de expressão. ( ) Através do relato, Paulo Honório tem oportunidade de reavaliar sua vida, refletindo sobre seus atos e vendo a esposa sob uma nova perspectiva. A sequência correta de preenchimento dos parênteses, de cima para baixo, é: A) F F V F V B) V F V F V C) V F F V F D) F F V V V E) V V F V V QUESTÃO 03 Em São Bernardo, a velhice é o momento em que o narrador-protagonista Paulo Honório A) aproveita, apesar dos problemas cotidianos, toda a riqueza e prestígio que conseguiu durante sua vida de sacrifícios.
3 B) se vê falido economicamente e se conscientiza de que sua vida foi consumida inutilmente na posse da fazenda S. Bemardo. C) reconhece a forma desumana como tratou Madalena e as demais pessoas, mas não é capaz de reconstruir novo projeto de vida. D) se sente contrariado, pois, apesar de saudável física e emocionalmente, constata que viveu apenas em função dos outros. E) avalia o passado positivamente, contrastando-o com a solidão do presente e a incerteza do futuro. QUESTÃO 04 O diálogo a seguir é entre Paulo Honório, narrador, e Gondim, jornalista contratado inicialmente por Paulo para escrever o romance: Vá para o inferno, Gondim. Você acanalhou o troço. Está pernóstico, está safado, está idiota. Há lá ninguém que fale dessa forma! Azevedo Gondim apagou o sorriso, engoliu em seco, apanhou os cacos da sua pequenina vaidade e replicou amuado que um artista não pode escrever como fala. Não pode? Perguntei com assombro. E porquê? Azevedo Gondim respondeu que não pode porque não pode. Foi assim que sempre se fez. A literatura é a literatura, seu Paulo. A gente discute, briga, trata de negócios naturalmente, mas arranjar palavras com tinta é outra coisa. Se eu fosse escrever como falo, ninguém me lia. (Graciliano Ramos: São Bernardo, cap. 1) Com base no texto, pode-se afirmar que: A) a concepção de literatura da 1ª fase do modernismo expressa-se na opinião de Gondim. B) as ideias de Paulo aplicam-se à obra de Graciliano, não a outros autores modernos. D) as buscas da prosa da 2ª fase do modernismo não aparecem no ponto de vista de Paulo. E) a divergência entre Gondim e Paulo é antes temática que estilística. E) a concepção de literatura da 1ª e 2ª fases do modernismo está no parecer de Paulo. QUESTÃO 05 Em São Bernardo, a velhice é o momento em que o narrador-protagonista Paulo Honório A) aproveita, apesar dos problemas cotidianos, toda a riqueza e prestígio que conseguiu durante sua vida de sacrifícios. B) se vê falido economicamente e se conscientiza de que sua vida foi consumida inutilmente na posse da fazenda S. Bernardo. C) reconhece a forma desumana como tratou Madalena e as demais pessoas, mas não é capaz de reconstruir novo projeto de vida. D) se sente contrariado, pois, apesar de saudável física e emocionalmente, constata que viveu apenas em função dos outros. E) avalia o passado positivamente, contrastando-o com a solidão do presente e a incerteza do futuro.
4 QUESTÃO 06 O romance São Bernardo, de Graciliano Ramos, publicado em 1934, é narrado em primeira pessoa pelo narrador-personagem Paulo Honório, que decide escrever o livro em determinada altura da sua vida. O principal motivo que levou Paulo Honório a escrever a sua história foi: A) o desejo de mostrar como ele conseguiu, com enorme esforço, tornar-se um proprietário rural bem sucedido, apesar de sua origem extremamente humilde. B) o desejo de mostrar como se formavam os conflitos políticos e sociais no interior do Nordeste brasileiro, tema recorrente na ficção da chamada Geração de 30. C) a tristeza que toma conta dele depois que a fazenda São Bernardo deixa de ser produtiva, o que ela tinha sido graças ao seu empenho. D) tentar compreender o que teria levado Madalena ao fim trágico da sua existência, bem como as razões de a vida conjugal deles não ter se realizado como gostaria. E) revelar quais foram os motivos pelos quais Madalena se matou, visto que ela se sentia culpada por ter traído o marido com Padilha, antigo proprietário da São Bernardo. QUESTÃO 07 A respeito da obra São Bernardo, de Graciliano Ramos, o crítico literário e professor João Luiz Lafetá afirma: Todo valor se transforma ilusoriamente em valor-de-troca. E toda relação humana se transforma destruidoramente numa relação entre coisas, entre possuído e possuidor. Tal é a relação estabelecida entre Paulo Honório e o mundo. Seu desenvolvido sentimento de propriedade leva-o a considerar todos que o cercam como coisas que se manipulam à vontade e se possui. A seguir leia trechos extraídos da obra em questão: I. Bichos. As criaturas que me serviram durante anos eram bichos. Havia bichos domésticos, como o Padilha, bichos do mato, como Casimiro Lopes, e muitos bichos para o serviço do campo, bois mansos. II. Fiz coisas boas que me trouxeram prejuízo; fiz coisas ruins que me deram lucro. E como sempre tive a intenção de possuir as terras de S. Bernardo, considerei legítimas as ações que me levaram a obtê-las. III. Com efeito, se me escapa o retrato moral de minha mulher, para que serve esta narrativa? Para nada, mas sou forçado a escrever. O(s) trecho(s) de São Bernardo que exemplifica(m) a análise do crítico literário é (são): A) I e II; B) II e III; C) I e III; D) Somente I; E) Somente II. QUESTÃO 08 Considere as afirmativas abaixo em relação ao romance São Bernardo, de Graciliano Ramos e, a seguir, marque a alternativa CORRETA.
5 I. A distância que há entre a brutalidade do narrador-personagem e a sofisticação da narrativa dificulta a verossimilhança da composição da obra. II. A obra narra a ascensão de Paulo Honório, proprietário da fazenda São Bernardo, cujo único objetivo é lucrar com tudo e todos, vendo-os como objetos. III. Nesta obra, o autor faz o balanço trágico da vida de um homem que se desumaniza para viver, abordando a problemática da coisificação dos indivíduos. IV. Abandonado pela esposa, Madalena, Paulo Honório "despe-se" de seu orgulho e tenta uma reconciliação, já que vive momentos de angústia e solidão. A) Apenas as afirmações I e II estão corretas. B) Apenas as afirmações II, III e IV estão corretas. C) Apenas as afirmações I, II e III estão corretas. D) Apenas as afirmações I e IV estão corretas. E) Apenas as afirmações II e III estão corretas.
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