CAPÍTULO 3 CORTE DE CIPÓS
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- Malu Diana Arruda Rocha
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1 CAPÍTULO 3 CORTE DE CIPÓS
2 Corte de Cipós 37 APRESENTAÇÃO Os cipós são plantas trepadeiras que se desenvolvem sobre os troncos e copas de outras árvores. Os cipós ocorrem em toda a Floresta Amazônica, sendo abundantes nas florestas de terra firme da Amazônia Oriental. Por exemplo, em uma área de floresta de 210 hectares, os pesquisadores do Imazon identificaram cerca de 70 espécies, sendo as mais freqüentes o cipó estrela (Memora schomburg kii) e o cipó roxo (Connarus sp.). Os cipós têm funções ecológicas essenciais para o ecossistema florestal como a ciclagem de água e nutrientes, fonte de alimento para diversas espécies de animais e como meio de transporte para os macacos. Além disso, algumas espécies de cipós produzem frutos de valor medicinal. Entretanto, essas florestas ricas em cipós, quando sujeitas à exploração madeireira não manejada, podem sofrer danos elevados. Os cipós dificultam as operações de corte e aumentam os riscos de acidentes durante a exploração. As medidas para diminuir os problemas causados pelos cipós devem ser seletivas (atuar somente onde existe o problema), a fim de prevenir ou reduzir os possíveis impactos negativos desse controle, bem como diminuir os custos desta prática. É importante enfatizar que as sugestões de manejo de cipós apresentadas neste capítulo estão sujeitas a revisões na medida em que novas informações sobre a ecologia e uso dos cipós sejam produzidas. PROBLEMAS ASSOCIADOS À PRESENÇA DE CIPÓS Aumento de danos durante o corte das árvores Quando a árvore a ser extraída está interligada a outras árvores vizinhas através de cipós (Figura 1a), o corte dessa árvore provoca danos (quebra da copa ou galhos) ou até mesmo a queda das árvores vizinhas (Figura 1b). Aumento dos riscos de acidentes A presença de cipós interligando as copas das árvores dificulta o direcionamento de queda da árvore a ser extraída. Assim, a possibilidade de essa árvore cair em qualquer direção, arrastando consigo as outras, aumenta as situações de risco de acidentes para a equipe de corte (Figura 2).
3 38 Manual para Produção de Madeira na Amazônia Figura 1a. Interligação das árvores pelos cipós. Figura 1b. Danos após o corte de uma árvore com cipós. Figura 2. Riscos de acidentes.
4 Corte de Cipós 39 Deformação do tronco A presença de cipós em uma árvore pode ocasionar a deformação do seu tronco durante o crescimento, reduzindo o seu valor comercial. Competição por luz e nutrientes Os cipós competem com as espécies florestais de valor comercial por luz e nutrientes. Tal competição reduz as chances de estabelecimento e crescimento de muitas plântulas e arvoretas de espécies madeireiras. BENEFÍCIOS DO CORTE DE CIPÓS O corte de cipós é uma forma de diminuir os problemas relacionados à exploração madeireira. Os cipós devem ser cortados somente na área onde as árvores serão extraídas, ou ainda em áreas de floresta juvenil, onde não existem árvores maduras. O corte de cipós nessas áreas resulta nos seguintes benefícios: Redução de danos Associado a outras técnicas de manejo, o corte de cipós reduz o número de árvores danificadas, bem como o tamanho da clareira formada pela queda da árvore (Tabela 1). Redução de riscos de acidentes Comparado à exploração não manejada, o corte de cipós, associado a outras técnicas de manejo, reduz os riscos de acidentes em até 20 vezes (Tabela 1). Tabela 1. Efeito comparativo do corte de cipós. Fatores de comparação Com corte Sem corte Volume de madeira danificada (m 3 /ha) 1,3 2,7 Área afetada (m 2 /ha) 2,4 4,6 Nº de árvores danificadas/ha (DAP maior que 10 cm) 21,0 29,0 Situações de risco de acidentes/dia 3,0 72,0
5 40 Manual para Produção de Madeira na Amazônia Aumento na capacidade de regeneração da floresta Os cipós competem por luz e nutrientes com as árvores. Nas áreas exploradas pela atividade madeireira onde não foi feito o corte de cipós, estes tendem a se restabelecer primeiro, dificultando a regeneração e o crescimento da floresta. Por outro lado, as árvores que tiverem os cipós cortados podem ter um crescimento maior. Nas áreas de exploração ONDE E COMO CORTAR CIPÓS Somente os cipós que entrelaçam as árvores a serem extraídas devem ser cortados. Os cortadores procuram e cortam os cipós usando como guia o mapa do censo e as trilhas de orientação. Em áreas onde a densidade de cipós é muito alta, são necessários dois cortadores, enquanto em áreas com baixo número de cipós apenas um cortador é suficiente. Técnicas para cortar cipós 1. Cortar os cipós que estão entrelaçados às árvores que serão extraídas. 2. Cortar os cipós aproximadamente a 1 metro do solo. Para isso, utiliza-se uma foice. 3. Cortar todos os pontos de ligação dos cipós com o solo. 4. Cortar apenas os cipós com diâmetro maior que 2 cm. Acredita-se que os cipós mais finos não contribuam para os danos às árvores vizinhas. Figura 3. Como cortar cipós. O corte de cipós deve ser feito no mínimo um ano e meio antes da exploração, para garantir que os cipós mais resistentes aprodeçam e se desprendam das árvores. É importante notar que, embora as folhas dos cipós caiam duas a três semanas após o corte, o apodrecimento e queda dos seus caules têm início somente depois de seis meses, sendo que os mais resistentes só caem um ano após o corte.
6 Corte de Cipós 41 Nas áreas de floresta juvenil Existem áreas de floresta ocupadas por árvores jovens que serão exploradas no futuro. O corte de cipós nessas áreas pode ajudar a aumentar o crescimento das árvores, reduzindo o ciclo de corte. Além disso, também pode diminuir os danos aos troncos. O corte de cipós nas áreas de floresta juvenil deve ser feito apenas ao redor das árvores selecionadas como potenciais para o corte futuro, podendo ser efetuado na época do desbaste das árvores sem valor comercial (Capítulo 10). O corte localizado é preferível a um corte generalizado, porque reduz custos e possíveis impactos ambientais negativos (por exemplo, redução de alimento para a fauna). É preciso acompanhar o crescimento das árvores de interesse para avaliar se a competição com os cipós está interferindo no desenvolvimento. Caso haja uma interferência elevada, é necessário repetir o corte de cipós. CONCLUSÃO Cipós são comuns nas florestas de terra firme e podem dificultar a exploração e inibir a regeneração e o crescimento das árvores de valor comercial. As medidas para controlar os cipós devem ser seletivas, para evitar impactos ambientais negativos e reduzir os custos. O corte de cipós entrelaçados às árvores que serão exploradas ajuda a reduzir danos à floresta remanescente, diminui os riscos de acidentes, e cria melhores condições para a regeneração nos espaços abertos.
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