Desenho de uma poiesis

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1 PONTIFÍCIA UNIVERSIDADE CATÓLICA DE SÃO PAULO PUC-SP Desenho de uma poiesis comunicação de um processo coletivo de criação na arquitetura Daniel Ribeiro Cardoso DOUTORADO EM COMUNICAÇÃO E SEMIÓTICA Tese apresentada à Banca Examinadora como exigência parcial para obtenção do título de Doutor em Comunicação e Semiótica pela Pontifícia Universidade Católica de São Paulo. Área de concentração: Signo e significação nas mídias Linha de pesquisa: Processo de criação nas mídias Orientadora: Profa. Dra. Cecilia Almeida Salles Coorientador: Prof. Dr. Jorge de Albuquerque Vieira São Paulo 2008

2 Autorizo a reprodução e divulgação total ou parcial do corpo da tese, por qualquer meio seja convencional ou eletrônico, para fins de estudo e pesquisa, desde que citada a fonte. Daniel Cardoso São Paulo, de maio 2008.

3 Banca Examinadora São Paulo, de maio 2008

4 de meu pai... ao José

5 AGRADECIMENTOS Aos professores do Curso de Pós-graduação em Comunicação e Semiótica da PUC-SP pelos encontros que resultaram na formação da pesquisa. Sou especialmente grato ao Prof. Jorge Vieira e à Prof a. Cecília Salles pelo acolhimento, conversas e correções no processo de desenvolvimento. Sou grato ao Grupo de Pesquisa em Processos da Criação PUC-SP, ao Núcleo de Estudos de Semiótica e Complexidade PUC-SP pelas leituras e discussões. Agradeço aos professores do Departamento do de Arquitetura e Urbanismo da Universidade Federal do Ceará, Prof. Ricardo Bezerra pelo acolhimento no Grupo de Pesquisa em Arquitetura, Urbanismo e Desenvolvimento, ao Prof. Roberto Castelo e Prof. Clovis Jucá Neto abertos e generosos no compartilhamento do conhecimento. Aos alunos de arquitetura: Francisco Jeffeson, Lucy Donegan, Hector Rocha, Jean Marcell Parente pela disposição, rapidez e eficiência em alguns dos levantamentos arquitetônicos. Ao Prof. Almir Leal de Oliveira do Departamento de História da Universidade do Ceará, pelos esclarecimentos sobre a formação da região estudada. Ao mestre Luiz de Meu Chico pela generosidade em partilhar sua memória e conhecimento do processo de formação das casas. Às arquitetas e agora pesquisadoras Adriana Gurgel e Larissa Menescal pelo envolvimento inicial na pesquisa. Sou também grato ao Filipe Cruz e Deweyne da Silva pelo apoio nos levantamentos arquitetônicos e pesquisas de campo. Ao CNPq pela bolsa concedida para realização da pesquisa. Ao André Paes pelas conversas, dedicação e presença fundamental no desenvolvimento, implementação, testes e correções do sistema. Agradeço ao Grupo de Redes de Computadores, Engenharia de Software e Sistemas da Universidade Federal do Ceará (GREat.UFC) pelo acolhimento através do Projeto de Pesquisa LG coordenado pela prof. Dra Rossana Maria de Castro Andrade, a quem especialmente sou grato. Ao Saulo Passos e Ronaldo Mota que, apesar dos contra-tempos na esteriolitografia, sempre os encontrei cedo e já entusiasmados na produção dos protótipos. Ao Sr. José, Sr a Rita, Sr a. Anaides, Sr a. Gerarda, Sr. João Borges, Sr. Joaquim, Sr. Paulo, Sr a. Francisca Bezerra, Sr a. Ivanilde, Sr a. Francisca Holanda, Sr. Jerônimo e todos os proprietários que cuidam de suas casas e da identidade da região. Sou grato ao Marcos e Patrícia Naspolini por terem continuado a expressar uma possível atualização do tipo da região. À Christine Mello, desde o princípio. Agradeço à Andréia Moassab pelas objeções. À Aléxia Brasil firme e serena. À Vivi e Regina pelo apoio incondicional e paciência.

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7 Résumé/Resumo/Abstract

8 RÉSUMÉ CARDOSO, Daniel R. Dessin d'une poiesis: la communication d un processus collective de création dans la architecture f. Thèse (Doctoral) - Universidade Pontifícia Católica de São Paulo, Dessin d'une poiesis: la communication d un processus de création dans la architecture est assignée comme un domaine de recherche de la Visualité. Étant donné que c est un travail lié à la visualisation scientifique, les recherches seront orientées vers la représentation et la communication au moyen d'images graphiques visuels. L objectif de cette thèse est de réfléchir sur des questions concernant les processus de génération et sur la forme appropriée de les représenter. Le processus de formation de la typologie dans l'architecture est adopté comme l objet de la recherche. Objet propre d'une culture, le type est considéré comme un élément qui sert de principe général de formation, un mécanisme supra-individuel nécessaire à la construction de sens et de l identité d'une société. Dans ce sens, les maisons, instantiation de la même logique de création, sont des voies qui expriment une intelligence collective. Etant donné l importance de la grandeur de l'échelle à la perception de son évolution, l'objet a été considéré dans l'architecture formée entre 1890 et 1980, dans la région de Cajuais et de Mutamba, du littoral sud du Ceará. Dans ce contexte, se posent quelques questions clés liées à la problématique de la thèse: Comment préserver des processus de génération d'un objet culturel? Comment garder quelque chose qui est par nature en état de fonctionnement et informationnel? Ou mieux encore, comment représenter convenablement une poiesis? Dans les possibles réponses à ces questionnements, se trouve le fondement de l'hypothèse de la thèse qui considère la grammaire de génération de la forme comme le signe le plus approprié à la représentation d'une poiesis. Les théories articulées pour supporter le développement de la recherche sont distinctes. Néanmoins, le réseau tissé se trouve dans un espace commun, dans un environnement où les théoriciens règlent les questions du signe et de la signification selon la pensée de Charles S. Peirce. Le fondement théorique se constitue à partir de trois axes majeurs: la Théorie Générale des Systèmes, au sens de Bunge et Vieira, dans laquelle se cherchent des concepts et des méthodologies en les justifiant à la seconde ligne la Critique Génétique telle que proposée par Salles qui recherche des principes généraux de la création; et la Sémiotique comme base pour les questions de la représentation et de la communication de processus. En outre, des auteurs tels que Chomsky, Prusinkiewics, Stiny, Duarte, pour ne citer que ceux-là désignent également la grammaire comme représentation du processus dans des systèmes de sémiotique. À la fin, est proposé un système générateur de formes comme un signe ajusté à la poiesis qui fonctionne avec la logique évolutive trouvée dans l'objet. Par conséquent, le résultat de la recherche est non seulement un outil qui spécule sur la génération et la visualisation de formes futures, mais également c est une voie d'accès pour le développement de la critique génétique. Mots-clés: communication visuelle, critique génétique, représentation des processus, poiesis, morphogenèse, grammaire.

9 RESUMO CARDOSO, Daniel R. Desenho de uma poiesis: comunicação de um processo coletivo de criação na arquitetura f. Tese (Doutorado) - Universidade Pontifícia Católica de São Paulo, Desenho de uma poiesis: comunicação de um processo coletivo de criação na arquitetura insere-se no domínio das pesquisas da visualidade. Como um trabalho ligado à visualização científica, equipara-se às investigações sobre representação e comunicação por meio de imagens gráfico-visuais. O propósito da tese é refletir sobre questões relativas aos processos de geração e à forma adequada de representá-los. Adota-se como objeto da pesquisa o processo de formação de uma tipologia na arquitetura. Objeto próprio de uma cultura, o tipo é entendido como um elemento que serve como princípio geral de formação, um mecanismo supra-individual necessário à construção de sentido e identidade de uma sociedade. Nessa acepção, as casas, instanciações de uma mesma lógica de formação, são meios que expressam uma inteligência coletiva. Dada a escala necessária à percepção de sua evolução, o objeto foi considerado na arquitetura formada entre 1890 e 1980, na região de Cajuais e Mutamba, litoral sul do Ceará. Nesse contexto, apresentam-se algumas das questões constituintes da problemática da tese: Como preservar processos de geração de um objeto cultural? Como guardar alguma coisa que é por natureza operativa e informacional? Ou, ainda, como representar adequadamente uma poiesis? Nas possíveis repostas a esses questionamentos está o cerne da hipótese da tese que considera a gramática de geração da forma o signo mais adequado à representação de uma poiesis. São linhas distintas as teorias articuladas para apoiar o desenvolvimento da pesquisa. Contudo, a rede tecida encontra-se num espaço comum, num ambiente onde teóricos concertam questões do signo e da significação em coerência com pensamento de Charles S. Peirce. A fundamentação teórica se constitui a partir de três linhas: a Teoria Geral dos Sistemas, na acepção de Bunge e Vieira, nos quais se buscam conceitos e metodologias ajustando-as à segunda linha; a Crítica Genética, precisamente na forma proposta por Salles, que busca por princípios gerais dos processos de formação; e a Semiótica, como fundamento para as questões da representação e comunicação de processos. Aqui, especificamente, são considerados autores como Chomsky, Prusinkiewicz, Stiny, Duarte, entre outros que também apontam para a gramática como representação de processo em sistemas semióticos. Ao fim, propõe-se como um signo adequado à poiesis um sistema gerador de formas que opera com a lógica evolutiva encontrada no objeto. Deste modo, tem-se como resultado da pesquisa não só uma ferramenta que especula sobre geração e visualização de formas futuras, como também um caminho para o desenvolvimento da Crítica Genética. Palavras-chave: comunicação visual, crítica genética, representação de processo, morfogênese, poiesis, gramática.

10 ABSTRACT CARDOSO, Daniel R. Drawing a poiesis: communication of a collective process of creation in architecture f. Thesis (Doctoral) - Universidade Pontifícia Católica de São Paulo, Drawing of the poiesis: communication of a collective process of creation in architecture is assigned as a domain of the visuality research. As a work related to scientific visualization, it can be compared to the investigations on representation and communication through visual graphic images. The purpose of this thesis is to reflect on issues concerning the processes of generation and the adequate way to represent them. The process of the form development tipology in architecture is adopted as the object of the research. As a proper object of a culture, the type is perceived as an element that serves as a general principle of creation, a supraindividual mechanism needed for the construction of meaning and identity of a society. In that sense, the houses, instantiation of the same logic of creation, are ways that express a collective intelligence. Given the necessary scale for the perception of its evolution, the object was found in the architecture formed between 1890 and 1980, in the region of Cajuais and Mutamba, southern coast of Ceará. In that context, there are some issues concerning the problematic of the thesis to be considered: How to preserve the processes of generation of cultural object? How to apprehend something that is by its nature operative and informative? Moreover, how to represent adequately a poiesis? The answers to these questions are the hypothesis crux of the thesis that considers the grammar of the form development most appropriate sign to represent for the representation of a poiesis. The articulated theories to support the development of the research are distinct. However, the composed network is in a common area in a environment where theoreticians settle the issues of sign and meaning according to the thinking of Charles S Peirce. The theoretical foundation is based on three views: the new General Theory of Systems as defined by Bunge and Vieira, in which it seeks concepts and methodologies adjusting them to the second view; the Genetic Criticism as proposed by Salles that searches general principles of the creation processes; and Semiotic as a basis for the issues of representation and communication processes. Furthermore, it will be considered authors like Chomsky, Prusinkiewics, Stiny, Duarte, among others that point out the grammar as a representation of process in semiotics systems. Finally, it is proposed a sign poiesis appropriate to a system generator of forms that operates with the evolutionary logic found in the object. Therefore, the result of the research is not only a tool that speculates the generation and the visualization of future forms, but it is also a path for the development of Genetic Criticism. Keywords: visual communication, genetic criticism, representation of morphogenesis, grammar. process, poiesis,

11 LISTA DE ILUSTRAÇÕES Figura 001: Distribuição da amostra de casas no tempo Fonte: Diagrama elaborado pelo autor a partir de pesquisa de campo Figura 002: A terra vista de cima e por dentro Fonte: Ilustração elaborada pelo autor a partir de imagem fornecida pelo Instituto de Ciência do Mar (LABOMAR - UFC) e foto do autor Figura 003: Foto justapostas de casas de Mutamba e Cajuais Fonte: Acervo do autor Figura 004: Partes da casa Fonte: Ilustração elaborada pelo autor a partir da casa 005 Figura 005: Fotos da explicação de Luiz de Meu Chico sobre o processo de marcação do corpo da casa. Na última foto, com destaque da marcação Fonte: Acervo do autor Figura 006: Figura 006. Gráfico de participação da Agropecuária, Indústria e Serviços no PIB Municipal Fonte: Diagramas elaborados pelo autor a partir de base de dados do IBGE Figura 007: Identificação e referências geográficas das 27 casas sobre imagem de satélite da região de Mutamba e Cajuais Fonte: Mapa do autor realizado a partir de pesquisa de campo e imagem fornecida pelo Instituto de Ciência do Mar (LABOMAR - UFC) Figura 008: Identificação, proprietário e características de 3 das 12 casas referentes ao grupo 2 da região de Mutamba e Cajuais Fonte: Mapa do autor elaborado a partir do acervo do autor e pesquisa de campo Figura Identificação, proprietário e características de 9 das 12 casas referentes ao grupo 2 da região de Mutamba e Cajuais Fonte: Mapa do autor elaborado a partir do acervo do autor e pesquisa de campo Figura 010. Formulário de pesquisa de campo (inicial) Fonte: Formulário elaborado pelo autor Figura 011. Identificação do corpo, alpendre e expansão Fonte: Ilustração elaborada pelo autor a partir da planta baixa da casa 005

12 Figura 012. Formulário para levantamento arquitetônico preliminar Fonte: Formulário elaborado pelo autor Figura 013. Gráfico de inclinações Fonte: Gráfico elaborado pelo autor a partir de dados da pesquisa de campo Figura 014. Regressão linear do ângulo de inclinação no tempo Fonte: Diagrama elaborado pelo autor a partir de dados da pesquisa de campo Figura 015. Orientação do corpo da casa com referência à via de acesso Fonte: Diagrama elaborado pelo autor a partir de dados da pesquisa de campo Figura 016. Relação L t /F t - ocorrência individuais Fonte: Diagrama elaborado pelo autor a partir de dados da pesquisa de campo Figura 017. Foto da casa geminada ID: Fonte: Acervo do autor Figura 018. Diagrama de aproximações da relação L t /F t Fonte: Diagrama elaborado pelo autor a partir de dados da pesquisa de campo Figura 019. Diagrama área do corpo - ocorrência individuais Fonte: Diagrama elaborado pelo autor a partir de dados da pesquisa de campo Figura 020. Diagrama de aproximações da variável área do corpo Fonte: Diagrama elaborado pelo autor a partir de dados da pesquisa de campo Figura 021. Diagrama de aproximações da variável F t - frente do corpo Fonte: Diagrama elaborado pelo autor a partir de dados da pesquisa de campo Figura 022. Diagrama de relação entre frente, proporção e área do corpo Fonte: Diagrama elaborado pelo autor a partir de dados da pesquisa de campo Figura 023. Regressão linear da frente (F t ) e altura (H i ) Fonte: Diagrama elaborado pelo autor a partir de dados da pesquisa de campo Figura 024. Proporção dos retângulos e retângulo médio Fonte: Diagrama elaborado pelo autor a partir de dados da pesquisa de campo Figura 025. Reconstrução individual dos perfis em escala e sem escala, justos na base Fonte: Diagrama elaborado pelo autor a partir de dados da pesquisa de campo Figura 026. Linhas gerais de formação da casa de Mutamba e Cajuais Fonte: Diagrama elaborado pelo autor a partir de dados da pesquisa de campo Figura 027. Reconstrução da casa a partir das diretrizes de formação encontrada... 61

13 Fonte: Ilustração elaborada pelo autor a partir de índices encontrados na pesquisa Figura 028. Foto da casa Id.: Fonte: Acervo do autor Figura 029. Foto Sr. José Oceliano de Oliveira Fonte: Acervo do autor Figura 030. Foto da casa Id.: Fonte: Acervo do autor Figura 031. Foto Sr. Paulo Simão da Costa Fonte: Acervo do autor Figura 032. Foto da casa Id: Fonte: Acervo do autor Figura 033. Foto Sra. Francisca Bezerra Fonte: Acervo do autor Figura 034.Foto da casa Id.: Fonte: Acervo do autor Figura 035. Foto Sra. Maria Rita dos Reis Fonte: Acervo do autor Figura 036. Foto da casa Id: Fonte: Acervo do autor Figura 037. Foto Sra. Ivanilde Maria da Costa Fonte: Acervo do autor Figura 038. Foto da casa Id.: Fonte: Acervo do autor Figura 039. Foto Sr. Joaquim Lourenço Soares Fonte: Acervo do autor Figura 040. Foto da casa Id.: Fonte: Acervo do autor Figura 041. Foto Sra. Anaides Borges de Carvalho Fonte: Acervo do autor Figura 042. Foto da casa Id.: Fonte: Acervo do autor

14 Figura 043. Sr. João Borges Neto Fonte: Acervo do autor Figura 044. Foto da casa Id.: Fonte: Acervo do autor Figura 045. Foto Sra. Maria Borges do Nascimento Fonte: Acervo do autor Figura 046. Foto da casa Id.: Fonte: Acervo do autor Figura 047. Foto Sr. José Jerônimo Reis de Souza Fonte: Acervo do autor Figura 048. Foto da casa Id.: Fonte: Acervo do autor Figura 049. Foto Sra. Gerarda Costa Borges Fonte: Acervo do autor Figura 050. Foto da casa Id.: Fonte: Acervo do autor Figura 051. Foto Sra. Francisca Holanda Rebouças Fonte: Acervo do autor Figura 052. Desenho de levantamento referente à casa Fonte: Desenho do autor Figura 053. Grafo valorado dos ambientes Fonte: Diagrama elaborado pelo autor a partir do levantamento dos usos da casa Id.:005 Figura 054. Grafos Fonte: Diagramas elaborados pelo autor a partir do levantamento arquitetônico, através do sistema Agna 2.1 Figura 055. Grafos Fonte: Diagramas elaborados pelo autor a partir do levantamento arquitetônico, através do sistema Agna 2.1 Figura 056. Estados de formação da casa Fonte: Ilustração elaborada pelo autor Figura 057. Estados de formação da casa Fonte: Ilustração elaborada pelo autor

15 Figura 058. Especialização, pesos e regras de divisão de zc!zd Fonte: Ilustração elaborada pelo autor Figura 059. Especialização, pesos e regras de divisão de ze Fonte: Ilustração elaborada pelo autor Figura 060. Especialização, pesos e regras de divisão de za!zp Fonte: Ilustração elaborada pelo autor Figura 061. Estados da forma assumida por zp, a partir dos três estados iniciais Fonte: Ilustração elaborada pelo autor a partir de pesquisa de campo Figura 062. Relação do ambiente na formação da casa Fonte: Ilustração elaborada pelo autor Figura 063. Relação do ambiente na formação da casa Fonte: Ilustração elaborada pelo autor Figura 064. Quadro etimológico da palavra gênese Fonte: Quadro elaborado pelo autor a partir dos dicionários de Isidro Pereira, Ermout e Hauaiss Figura 065. Diagrama de estados finitos dos ambientes da Zona de Corpo Fonte: Ilustração elaborada pelo autor Figura 066. Tipos de linguagens formais e de gramáticas de Chomsky Fonte: Diagrama elaborado pelo autor a partir de Kelley. Figura 067. Tipos de linguagens formais e classes de L-system Fonte: Diagrama elaborado pelo autor a partir de Prusinkiewicz. Figura 068. Desenvolvimento do fractal de Koch Fonte: Ilustração elaborada pelo autor a partir de Prusinkiewicz. Figura 069. Visualização gráfica da Anabaena Catenula Fonte: Ilustração elaborada pelo autor a partir de testes de implementação em JAVA 3D. Figura 070. Fragmento da Carta da Capitania do Ceará de 1818 com indicação do Povoado de Motamba Fonte: Carta da Capitania do Ceará 1818 / levantada por ordem do Governador Manoel Ignacio de Sampaio por seu ajudante e ordens Antonio José de S. Paulet. Biblioteca Nacional (Brasil) / Arch. Militar/ Cartografia ARC.008,01,030. Figura 071. Carta da Capitania do Ceará Fonte: Carta da Capitania do Ceará 1818 / levantada por ordem do Governador Manoel Ignacio

16 de Sampaio por seu ajudante e ordens Antonio José de S. Paulet. Biblioteca Nacional (Brasil) / Arch. Militar/ Cartografia ARC.008,01,030. Figura 072. Estradas Coloniais no Ceará Fonte: Mapa elaborado pelo autor a partir da Carta da Capitania do Ceará 1818 / levantada por ordem do Governador Manoel Ignacio de Sampaio por seu ajudante e ordens Antonio José de S. Paulet. Biblioteca Nacional (Brasil) / Arch. Militar/ Cartografia ARC.008,01,030.; a partir de informações da pesquisa A urbanização do Ceará setecentista de Jucá (2007); e a partir da pesquisa Notas sobre as casas de fazenda dos Inhamuns (1984) de Bezerra. Figura 073. Fazenda Belmonte Fonte: Imagens elaboradas pelo autor a partir das informações da pesquisa Notas sobre as casas de fazenda dos Inhamuns de Bezerra (1984). Figura 074. Fazenda Trigueiro (início XIX) - médio Jaguaribe Fonte: Acervo Nicolas Gondim e Tibico Brasil. Figura 075. Fazenda Santarém (início XIX) -baixo Jaguaribe Fonte: Foto acervo de Almir Leal de Oliveira e desenhos do acervo de Clóvis Jucá Figura 076. Forma inicial e parâmetros para desenvolvimento da gramática dos mestres 126 Fonte: Ilustração elaborada pelo autor, gerada em Blender 4.5 a partir da implementação inicial, em Python, da gramática dos mestres. Figura 077. Foto protótipo de uma casa gerada a partir da gramática dos mestres Fonte: Protótipo gerado a partir da gramática dos mestre, código disponível em < morphogenese.com.br>. Figura 078. Imagens das casas geradas a partir da gramática dos mestres Fonte: Modelos gerados pelo autor a partir da gramática dos mestres implementada em Python para Blender 4.5. Figura 079. Exemplo de L-system celular Fonte: Ilustração elaborada pelo autor a partir de Prusinkiewicz. Figura 080. Imagens das casas geradas a partir da gramática dos moradores Fonte: Modelos gerados a partir da gramática dos moradores, código disponível em < Figura 081. Fotos realizadas durante a identificação e reconhecimento dos protótipos Fonte: Acervo do autor.

17 LISTA DE TABELAS Tabela Identificação dos mestres-carpinteiros Fonte: Tabela organizada pelo autor a partir de pesquisa de campo Tabela As 27 unidades selecionadas para etapa posterior da pesquisa de campo Fonte: Tabela organizada pelo autor a partir de pesquisa de campo Tabela Dados morfologia Fonte: Tabela organizada pelo autor a partir de pesquisa de campo Tabela Índices de morfologia do corpo Fonte: Tabela organizada pelo autor a partir da Tabela 003 Tabela Freqüências Fonte: Tabelas organizadas pelo autor a partir de pesquisa de campo Tabela Ângulos de inclinação da coberta do alpendre Fonte: Tabela organizada pelo autor a partir de pesquisa de campo Tabela Ângulos de inclinação da coberta do alpendre Fonte: Tabela organizada pelo autor a partir de pesquisa de campo

18 LISTA DE SÍMBOLOS a 0.33 b representa uma regra de produção, como exemplo: S ae, lê-se S produz ae. produção com probabilidade de 33% de ocorrência. a(x): x! 10: ab produção paramétrica. opção de produção, como exemplo: E aa B a, E é substituída por aa ou por B ou por a. derivação é a substituição de uma subpalavra de acordo com a regra de produção. ε seqüência vazia. {ε} linguagem vazia, denotada também como conjunto vazio ". " cardinalidade de ", é o número de símbolos que compõe a palavra ". * + Iteração de Kleene, ou estrela de Kleene: # * = # # {ε}. # + representa o conjunto de todas, exceto a palavra vazia: # + = # * - {ε}. # complemento. {x x>1} os x tal que x maior que um. a! b a " b a ou b a e b

19 SUMÁRIO INTRODUÇÃO CAPÍTULO I ex-sist$: sair da terra; aparecer; mostrar-se; existir Objeto instanciado Processo de construção Tipo Ambiente Corpus CAPÍTULO II gen%sis: posição dos astros relativamente ao seu nascimento; estrela; sina Crítica Genética Expansão da Crítica Genética Crítica de Processo Por uma abordagem do processo de formação Sobre organização e gramática Por uma abordagem formal da gramática Idéias de Lindenmayer Visualização À montante Casa de fazenda CAPÍTULO III in futura: sobre futuros Gramática dos mestres Gramática dos moradores Considerações finais BIBLIOGRAFIA ANEXO I ANEXO II ANEXO III ANEXO IV

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21 Introdução

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23 23 Guardar uma coisa não é escondê-la ou trancá-la. Em um cofre não se guarda coisa alguma. Em cofre perde-se a coisa à vista. Guardar uma coisa é olhá-la, fitá-la, mirá-la por admirá-la, isto é, iluminá-la ou ser por ela iluminado. Antonio Cícero A s questões que motivam este trabalho advieram da pesquisa de mestrado 1, que se propôs a uma investigação sobre a poiesis, sobre o processo de geração de uma obra de arte realizada com os novos meios uma obra em arte eletrônica. Dada a complexidade do objeto estudado e a particular característica dos documentos de processo 2 encontrados, a elaboração de diagramas 3 mostrou-se útil à apreensão das relações entre os diversos índices do processo, ajudando a revelar tendências e dinâmicas de formação da obra. Não obstante o diagrama tenha se mostrado eficaz naquele momento, o problema da representação persistiu. Ou seja, questões de como representar adequadamente uma poiesis estavam abertas. Como representar algo que é de natureza operativa? Alguma coisa não tangível, que não se mostra diretamente aos sentidos? Ainda noutros termos, como representar aquilo que é aparentemente sem contorno definido, sutil, tênue? 1. A dissertação de mestrado defendida em 2003 com o título completo de [arte comunicação]: processos de criação com os novos meios, considerou especificamente os índices de processo das obras LAPIS/X e ad finem de Carlos Fadon Vicente mostradas na exposição Investigações: o trabalho do artista em 2000 no Itaú Cultural de São Paulo. 2. Termo geral proposto por Cecilia Almeida Salles, que mostrou-se mais adequado à expansão dos objetos de estudos pertinentes à Crítica de Processo. Denominação que se contrapõe a termos restritivos, específicos a cada domínio, como rascunho, manuscrito etc., pertinentes à Crítica Genética. 3. Na dissertação foi proposta a construção de Espaço de Estados que são constructos que apresentam visualmente a evolução de uma ou mais características do sistema.

24 24 Aquilo que Vincent Colapietro 4, recorrendo a uma figura, melhor traduz na questão: como propor um signo adequado ao vôo errante e encantador das borboletas sem, contudo, ter que fixá-las numa cortiça de fundo de uma caixa taxonômica? Esta foi uma das questões abertas na dissertação, reavivada com o projeto de pesquisa de doutorado e incorporada como guia deste trabalho. Questão constitutiva da problemática da tese e que parecia, à época, inserir-se num âmbito formado ainda com bordas imprecisas, numa superposição 5 de áreas como semiótica, comunicação, lingüística 6, ciência da computação, morfogênese e todas aquelas que, como a Crítica de Processo 7, interessam-se pelos processos de formação, ou seja, pela poiesis. Limites que melhor se definiriam e se configurariam quando vistos através de uma teoria geral, ou seja, de um conjunto de conceitos que vai além das particularidades fáticas do objeto, uma teoria sistêmica. Precisamente, a nova Teoria Geral dos Sistemas proposta por Mario Bunge e Jorge Vieira, como uma possível Ontologia Científica 8. Oportuno ressaltar ainda, que subjaz à pesquisa como seu substrato, as idéias fundamentais do contínuo 4. Uma das considerações propostas pelo professor Vicent M. Colapietro, em encontro de orientação de pesquisa realizado em agosto de "We shall presently introduce two specific concepts of associatioin: those of juxtaposition or physical sum, and of superposition or phisical product. Two things placed side by side add or juxtapose, while two fluids, when mixed, superposed" (BUNGE, 2004a, p.39, grifos meus). A superposição diferente portanto de uma mera justaposição de áreas estabelecidas como distintas do conhecimento, constitui-se no âmbito da transdisciplinaridade e, por isso, num espaço com limites ainda não muito claros. 6. A lingüística pode ser definida como o estudo científico da linguagem. Em meados do século XX o campo da lingüística teórica ganha força com pesquisas e trabalhos publicados por Noam Chomsky. A ele é creditado ter transformado a lingüística americana, que de um ramo da antropologia passou a ser considerada uma ciência matemática. (DEVLIN, 2002, p.74). 7.Crítica Genética fundamentada na teoria semiótica de Charles S. Peirce, como proposta pelo Centro de Estudos de Crítica Genética da Pontifícia Universidade Católica de São Paulo (CECG PUC/SP). Atualmente o grupo tem como objeto de estudo o processo de criação, tanto que se sugere a alteração do nome do centro para Grupo de Pesquisa sobre Processo de Criação. 8. Adota-se, neste trabalho, o significado de ontologia como proposto por Vieira (2007, p.30-35) em seu livro Ontologia: formas de conhecimento - arte e ciência. Sigo as palavras do autor, sem acrescentar comentários. Diz ele:... Estaremos seguindo a proposta de Bunge segundo a qual a Teoria Geral de Sistemas é uma boa candidata ao que poderíamos chamar de Ontologia Científica, uma proposta que permitiria uma maior eficiência no tratamento das ciências a partir de suas raizes ontológicas. [...] A Ontologia pode ser definida como outro nome da Metafísica, o estudo do ser enquanto ser, com independência de suas determinações particulares. Embora, a rigor, haja diferenças entre as duas áreas, é nesse sentido que estamos adotando aqui uma certa identificação entre uma Teoria da Realidade (Metafísica) com uma Teoria do Ser ou dos Objetos (Ontologia). Mais ainda, toda ciência será uma Ontologia Regional, na medida em que trabalha com tipos de objetos específicos. Estaremos seguindo ainda aproximadamente a proposta de Bunge (1977, p.5) como sendo a Ontologia (ou Metafísica) uma Cosmologia Geral ou Ciência Geral: como a ciência concernente à totalidade da realidade - o que não é o mesmo que a realidade como um todo. Nesse sentido, ainda segundo Bunge, a Ontologia/ Metafísica estuda os traços genéricos de todo modo de ser e vir-a-ser, assim como as características peculiares da maior parte dos existentes.

25 25 peirceano 9. Estas que trazem em seu cerne, uma oposição radical àquelas que apartam as coisas do mundo em duas Em mente/matéria, espírito/natureza, idéia/objeto. O trabalho define tardiamente seu corpus, ou melhor, a tese redefine aquilo que assumirá o papel de objetar 11, de corrigir e de direcionar sua elaboração, concertando conceitos e teorias para a comprovação da hipótese. Admite, para esse fim, uma série de casas de taipa de pau-a-pique, de coberta em quatro aguadas com empena, de alpendre e copiar. Uma pluralidade de individuais que portam traços claros de um pensamento formador comum. São casas que, a partir do ponto de vista assumido pela tese, subsumem-se à cultura da região. São memórias, parte de um processo contínuo ainda em formação. Portanto, trata-se de um objeto que, por se inserir no âmbito da arquitetura, deve ser considerado em sua complexidade, em seu ambiente e em sua dinâmica de formação. Em vista disto, a uma abordagem adequada a tal objeto, imperativo é percebê-lo não só em sua condição de edifício construído, em sua existência 12 particular. Efetivamente, há de se partir da experiência possível e acessível a qualquer pessoa para então buscar por uma forma comum, geral. Segue-se relacionando essa forma que se delineia e se mostra em seus vários estados de desenvolvimento. É na mudança de estado, no processo, que se revelam as diretrizes gerais, hábitos, regras ou as leis de formação, que se constituíram na cultura e dela são constituidoras. Trazendo em outras palavras, parte-se daquilo que existe, das construções que lá se encontram; busca-se por recorrências da forma, estas percebidas em cada edifício; através das mudanças e evolução da forma encontrada, deve-se infe- 9. Para denominar o princípio da continuidade Peirce utiliza o termo Synechism, ou sinechismo, na forma traduzida para o português como proposta por Rosa (2003, p.270) e adotada na tese. 10. O princípio de continuidade supõe que deve existir um contínuo entre caracteres da mente e da matéria, tal que, segundo seu autor, a matéria nada seria senão mente que teve seus hábitos cristalizados, ou seja, que a faz agir em um grau peculiar de regularidade ou rotina. Em vista disto, mostra-se uma afinidade entre espírito e natureza que faz do mundo inteligível (PEIRCE apud IBRI, 1992, p.62). 11. Papel atribuído de certa forma, logo nos primeiros anos, a um dos objetos de pesquisa ligada ao projeto COGNITUS coordenado durante o período de 2004 e 2005 por Dr. Fernando Pellon de Miranda, prof a Dr a Maria Lúcia Santaella Braga e José Wagner Garcia, abrigando àquela época pesquisas com foco na região do Médio Solimões entre a cidade de Coari e Manaus e que consideravam sobre vários enfoques as dinâmicas de formação daquele ambiente. Com apoio da Petrobrás e Finep, tinham o propósito de servir de base para ações mitigadoras do impacto da construção do gasoduto de Coari até Manaus, na região do médio Solimões. O objeto específico de interesse eram as habitações ribeirinhas e seu processo de formação. 12. O que quer que exista ex-sists, isto é, realmente age sobre outros existentes, obtém, assim, uma auto-identidade e é definidamente individual (PEIRCE, apud IBRI, 1992, p.28). Ainda, o vocábulo existência, enquanto derivado do termo latino existentia, significa "o que está aí", o que "está fora" (exsistit). Algo existe porque a coisa está, in re (MORA, 2004, p. 954).

26 26 rir sobre as regras, sobre a gramática de desenvolvimento. Nela, deve-se revelar o tipo 13 arquitetônico próprio à região de interesse. Assim, não obstante as diferenças apresentadas entre as unidades encontradas, uma forma comum e geral se mostra. Com efeito, nas particularidades deve-se perceber a dinâmica de atualização e evolução da idéia da casa alpendrada. Enfim, conhecer adequadamente o tipo e sua poiesis, ou seja aquilo que se constituiu o objeto da pesquisa. As habitações de maior interesse para a pesquisa, restringem-se àquelas localizadas na região baixo Jaguaribe, litoral sul do Ceará próximo à divisa com o Rio Grande do Norte. São casas construídas, em sua maioria, nos anos finais do século XIX e no século passado. Entretanto, a origem desta arquitetura se supõe assentada nas casas de fazenda do gado. Fazendas distribuídas ao longo de todo o rio Jaguaribe, da foz à nascente região dos Inhamuns. A distribuição das construções elementos da série no intervalo de tempo analisado, não é homogênea, pois são poucas as casas encontradas com mais de 100 anos 14. Informação que aponta para, entre outras coisas, a condição efêmera do sistema construtivo adotado, no caso taipa de mão 15. XIX XX Figura 001. Distribuição da amostra de casas no tempo Fonte: Diagrama elaborado pelo autor a partir de pesquisa de campo Neste contexto, formam-se algumas das questões constituidoras da problemática da tese. Dado o reconhecido valor histórico e cultural do conjunto existente 16, assim como a condição efêmera das casas, em vista do sistema construtivo adotado, o que preservar em 13. Ora, entende-se por tipo o sentido construído por Quincy em 1825 na Encyclopédie Methodique, Architecture vol. 3, pt. II e recuperado por Argan. Para estes autores, tipo é algo que deve conferir menos a imagem de uma coisa a ser copiada imediata e completamente, do que a idéia de um elemento que deve servir de princípio geral. O modelo, como entendido pela prática artística, é um objeto que pode ser repetido tal como ele é; o tipo, ao contrário, é um objeto pelo qual cada artista pode conceber trabalhos de arte que não tenham semelhança. Tudo é preciso e determinado no modelo; tudo é mais ou menos vago no tipo (QUINCY, 1998, p.618, grifos meus). Questão será retomada no primeiro capítulo desta tese. 14. Do universo de 115 casas cadastradas, apenas 4 casas têm sua data de construção atribuída ao século XIX, 21 estão sem suas datas de construção especificadas. 15. Denominada ainda como taipa de pau-a-pique, ou sebe ou ainda taipa de sopapo. 16. Cf. nota 4 do Capítulo I desta tese.

27 tal arquitetura? Ou ainda, como preservar tal objeto cultural? Como guardar alguma coisa que é por natureza operativa e informacional? O desenvolvimento deste trabalho pauta-se no argumento de que é na poiesis, no processo de geração, o ponto a ser considerado. Mas como representar uma poiesis? Como guardar alguma coisa que é por natureza dinâmica, operativa e informacional? Admite que qualquer objeto cultural é parte de uma realidade legaliforme, relacional e em assim sendo a hipótese adotada considera o conjunto de regras que governam a formação de unidades básicas num sistema semiótico, ou seja a gramática, o signo mais adequado à representação de uma poiesis. São de linhas distintas as teorias articuladas para apoiar o desenvolvimento da pesquisa. Contudo, a rede tecida encontra-se num espaço comum, num ambiente onde teóricos concertam questões do signo e da significação em coerência com pensamento de Charles S. Peirce. A fundamentação teórica se constitui sobretudo a partir de três linhas: a nova Teoria Geral dos Sistemas (TGS) com base na acepção de Mario Bunge. Com efeito, este trabalho funda-se nas idéias sistematizadas por Jorge Vieira, em que se desenvolvem e se precisam os conceitos da TGS a partir de autores como A. Uyemov, Kenneth Denbigh, entre outros; a Crítica Genética, precisamente na forma proposta por Cecilia Salles, em que se busca por princípios gerais dos processos de formação a partir dos documentos de processo ajuntados no dossiê da obra; a Semiótica peirceana, a doutrina do signos, base a um pensamento científico, imprescindível à abordagem de processo de formação. São consideradas, ainda, as contribuições de autores como Noam Chomsky 17, Solomon Marcus 18 para possíveis formalizações, assim como as idéias de Lindenmayer 19, Prusinkiewicz 20, Stiny 21, Duarte 22, entre outros que propõem a abordagem a partir das regras de formação como base para a representação de processo de geração da forma Cf. CHOMSKY, 2006; CHOMSKY; RUWET, Cf. VIEIRA, Cf. PRUSINKIEWICZ; LINDENMAYER, Cf. PRUSINKIEWICZ, 1996, p Cf. STINY, Cf. DUARTE, 2007.

28 28 O primeiro capítulo é ex-sist$. Trata do que está, do que se mostra, do que objeta. Casas existem, afirma sua matéria. São formadas em conjunto por compartilharem características, repertório de materiais, recorrência de elementos, padrões na proporção. Dar a conhecer a pouco e pouco o corpus, o coletivo de casas desde sua impressão imediata até os índices de uma mesma lógica de formação é o que compete ao primeiro capítulo. Gen%sis é o segundo capítulo. Trata do percurso da pesquisa no que se refere às ramificações teóricas. Dessa abordagem, se define o objeto da pesquisa como o tipo e seu processo de formação. Sina, das casas de taipa alpendradas de Cajuais e Mutamba, o tipo como um metadesign irá encontrar uma possível matriz rio acima. Sobre futuros, o terceiro capítulo, aponta para a gramática de desenvolvimento como representação do processo. Dos índices recolhidos no primeiro capítulo chega-se à gramática dos mestres e dos moradores. Implementada num sistema de outra natureza, opera e especula sobre formas possíveis de casas.

29 Capítulo I ex-sist! sair da terra; aparecer; mostrar-se; existir

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31 31 Abençoada sejas matéria poderosa, desenvolvimento irrefreável, realidade sempre em gestação! Teilhard de Chardin V isitar Icapuí é experiência acessível e aconselhável a qualquer pessoa de bom espírito. Como primeira experiência, sugere-se que se chegue pela serra 1, pois de lá, da parte alta, avista-se um mar de coqueiros e descendo rumo à praia, mergulha-se naquele verde, entremeio do azul e do amarelo... Mas, não passa muito tempo para se perceber o terracota, o vermelho forte da terra das falésias, a cor da argila que constitui as paredes das casas que formam o espaço da cidade. Figura 002. A terra vista de cima e vista por dentro Ilustração elaborada pelo autor a partir de imagem fornecida pelo Instituto de Ciência do Mar (LABOMAR - UFC) e foto do autor 1. Moradores da praia designam serra a parte alta, as terras que ficam sobre as falésias. Atualmente, em algumas das praias que compõem o Município de Icapuí é considerado valoroso morar na praia e trabalhar na serra, ou seja, morar na parte baixa, próximo à praia e possuir algum comércio da serra.

32 32 Objeto Instanciado As habitações aparecem organizadas às margens da estrada principal de acesso. Alinham-se dum lado e doutro do eixo que vai do poente para o nascente, no fluxo de quem chega à cidade. No entanto, não se precisa ter formação em arquitetura para notar, logo de início, que são construções com características formais simples, bem definidas, constantes e comuns àquela sociedade. Parece ser, portanto, uma manifestação cultural de natureza arquitetônica coletiva. Confirma-se, com um pouco mais de tempo, que se trata de fato de um conjunto formalmente coerente. Um conjunto que se mostrará próprio à região. Percebe-se que são construções com telhado em quatro aguadas com empena, alpendre e copiar 2 e em duas inclinações, uma para o corpo central da casa e outra para os alpendres. Porém, quando estendidas aos copiares seguem com uma pequena diferença de inclinção. Ainda observando as casas, agora com o olhar mais atento, desconfia-se pelas espessuras das paredes externas, que são casas construídas em taipa. Vê-se que se adota a taipa de pau-a-pique 3 como sistema construtivo, esta que lança mão de uma estrutura autônoma de madeira e vedação com uma parede de varal cujos os vazios são fechados por várias camadas de barro. Um sistema designado também por taipa de mão, mas no entanto, conhecido na região apenas como taipa 4 por não se usar outro e adotado por sua leveza, rapidez, economia e adequação ao ambiente. Figura 003. Fotos justapostas de casas de Mutamba e Cajuais Fonte: Acervo do autor 2. Não obstante, a identidade atribuída por alguns autores entre o copiar e o alpendre, será dito copiar as extensões da coberta do alpendre dos fundos da casa. Estas puxadas, à guisa de um quebra-sol, tem uso freqüente no dia-a-dia como área para serviços pesados de apoio à cozinha, ou lavanderia e guarda de ferramentas. 3. Consiste em paus colocados perpendicularmente e amarradas horizontalmente a eles, com palha de carnaubeira e outros gêneros de cordas, varas (Cf. VASCONCELOS, 1970, f ). Não faremos aqui, porém, nenhuma distinção entre taipa de sopapo e pau-a-pique, como propõem alguns autores com o argumento de ser esta mais elaborada, menos rústica do que aquela. A despeito dessa opinião o sistema é o mesmo. 4. Há ainda a taipa de pilão, talvez, merecedora de tal simplificação, pois neste sistema a parede de barro desempenha a função não só de vedação, mas de estrutura, de suportar o peso da coberta. A taipa de pilão é aquele sistema em que as paredes são maciças, constituídas apenas por barro socado (Ibid., f. 6).

33 Quanto ao programa de função e uso, parece haver, naquela região, um único a ser seguido para a formação da casa. Determinação que deve ser lida como um indicador da existência de uma solução otimizada, adequada e adaptada às condições culturais e ambientais. Percebe-se ainda como propriedades 5 recorrentes àquelas construções: O corpo principal da casa em forma de um retângulo; O alpendre circunda o corpo da casa, com copiar freqüente aos fundos; A frente da casa, dimensão menor do retângulo, parece pouco variar; As casas são normalmente caiadas, compostas com uma barra que vai do piso ao peitoril, em cor forte de tinta a base de óleo; A pintura adotada nas casas lembra as pinturas dos barcos da região apontam alguns; Forma verticalmente alongadas das janelas, normalmente duas folhas; Portas partidas ao meio, designadas portas roladas; Esquadrias com folhas cegas de tábuas de umburana 6, quase sempre pintadas na mesma cor da barra inferior da pintura das casas; Paredes espessas com cerca de um palmo ou mais, característica que pode ser notada nos quadros das aberturas para esquadrias; As casas estão locadas de forma paralela ou perpendicular à via (CE-261) de acesso ao centro da cidade; Todo objeto tem propriedade. Se os objetos são conceituais ou formais, suas propriedades serão denominadas propriedades formais, ou atributos ou simplesmente predicados. Se os objetos são indivíduos substanciais, suas propriedades serão denominadas de propriedades substanciais, ou simplesmente propriedade. Porque cada modelo de um indivíduo substancial é construído por conceitos, este contém atributos ou predicados; ademais como os modelos representam uma substância individual, alguns desses atributos ou predicados representam propriedades substanciais. Uma propriedade substancial é uma característica que alguns indivíduos substanciais possuem mesmo se somos ignorantes deste fato. Por outro lado um atributo ou predicado é uma característica associada ou atribuída por nós a algum objeto: é um conceito. Um predicado pode representar ou conceitualizar uma propriedade substancial; mas o fará de modo falível, i.e. com uma larga margem de erro. Por outro lado a posse de uma propriedade não é matéria de verdade ou falsidade; apenas nosso conhecimento de propriedade pode ser mais ou menos verdadeiro ou adequado. Por esta razão distinguimos: 'indivíduo substancial b possui a propriedade P' de 'atributo A representa b' ou 'A é verdade de b', ou V (Ab) = 1 onde A é tomado como representando P. Novamente: a posse (ou aquisição ou perda) por um indivíduo substancial de uma propriedade é um fato além do nosso escopo; em contraste, nosso ato de atribuir uma propriedade conceitual (via algum predicado) é um ato cognitivo. Noutras palavras, controlamos todos os predicados porque nós os fazemos; em contraste, controlamos apenas algumas propriedades. Desnecessário dizer, nenhuma diferença entre atributos e propriedades substanciais é feita pelos idealistas: em tal filosofia a aquisição de propriedades coincide com seus atributos. Estranho é o realismo ingênuo que enquanto reconhece a diferença entre atributos e propriedades substanciais, afirma sua correspondência um-a-um. BUNGE, 2004b, p.59-60, grifos meus. 6. Árvore de porte médio, cresce em média até 6 metros, de madeira clara e rija. Também designada amburana (Amburana cearensis) ou emburana ou imburana (Bursera leptophloeos).

34 34 Casas locadas normalmente sem o recuo de frente, ou seja, o limite da frente do terreno alinha-se com a parede mais externa da casa, configuração que lança parte da varanda para fora do terreno chegando a confundir-se com a calçada; As casas locadas em terrenos mais largos, em sua maioria, encontram-se pa- ralelas à via, o que proporciona uma maior superfície de contato com a área pública; Pilares de madeira, propriamente lavrados e pintados nas cores das esquadrias; Estrutura da coberta, de solução simples, utiliza madeiras da região. São utili- zados troncos de carnaubeira, em sua grande maioria, para confecção de linha, frechal, terça e cumeeira além de caibros, para estes utiliza-se a quarta parte da seção do tronco. Nota-se que não há ripas; Telhado em quatro águas e em duas fases com inclinações diferentes, uma no corpo central da casa mais acentuada e outra para varanda mais leve; Cumeeira alta de modo a formar empena própria da casa da região; Empenas nos lados menores do retângulo, ou seja a cumeeira sempre no senti- do maior do corpo da casa; Percebe-se a construção de adendos na varanda, provavelmente como adequa- ção ao programa de uso. Ocupação ocorre principalmente nas áreas de fundo. empena coberta do corpo da casa copiar coberta do alpendre frente (Ft) da casa lateral (Lt) da casa privado público limite de frente do terreno Figura 004. Partes da casa Fonte: Ilustração elaborada pelo autor a partir da casa 005 alpendre-passeio

35 35 As casas que estão em pé, de um modo geral, encontram-se em bom estado de conservação. Percebe-se ainda que, à exemplo do que descreveu Lúcio Costa sobre arquitetura vernacular, são construções simples, bem formadas, de elementos comuns à arquitetura civil, desprovidas de "make up", sem o ar afetado e por vezes pedante 7, constituindo sua maior riqueza a proporção 8... Estética que lhe é própria. As casas de tal região, em sua grande maioria, trazem propriedades e apresentam atributos comuns, formando, em vista disto, um todo coerente. Na realidade, um conjunto arquitetônico de interesse do IPHAN 9, que o aponta como um dos mais significativos conjuntos da arquitetura vernacular. Ora, entende-se por vernacular àquela arquitetura cultivada, que se forma a partir de dentro de uma cultura, num movimento de baixo para cima. Neste sentido, Lucio Costa 10 melhor apresenta a imagem das casas próprias ao universo de uma arquitetura vernacular. É sair da cidade e logo surgem à beira da estrada, mesmo ao lado de vivendas de verão de aspecto cinematográfico [...]. Feitas de "pau" do mato próximo e da terra do chão, como casas de bicho, servem de abrigo para toda a família [...]. Ninguém liga de tão habituado que [se] está, pois "aquilo" faz mesmo parte da terra como formigueiro, figueira-brava e pé de milho é chão que continua... Mas justamente por isto, por ser coisa legítima da terra tem para nós, arquitetos, uma significação respeitável e digna; enquanto que o "pseudo-missões, normando ou colonial", ao lado, não passa de um arremedo sem compostura. Com efeito, é na recorrência de características dessa arquitetura que emerge, quase espontânea, onde se indicia o objeto de uma atividade cultural 11, constituidor da sociedade. 7. Cf. COSTA, 1937, p Cf. BEZERRA, 1984, p O Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional, através da 4 a Superintendência Regional (4 a SR/IPHAN), com sede em Fortaleza, por indicar como um dos mais significativos conjuntos da cultura regional se propôs, em parceria com Universidade Federal do Ceará e Prefeitura Municipal de Icapuí, iniciar o processo para inventário de arquitetura tradicional da sede municipal de Icapuí, pelo Ofício Circular IPHAN/4 a SR/GAB/N o 014/0, do dia 12 de maio de Cf. COSTA, op. cit., p Entende-se por atividades culturais, como aquelas atividades sociais realizadas por indivíduos sozinhos, ou, mais freqüentemente, em relação e cooperação com outros. A cultura constitui então um subsistema da sociedade, na qual se devem levar em conta igualmente os subsistemas da economia e da política. O fato de que nenhuma atividade social seja puramente econômica ou puramente política ou puramente cultural não impede que se introduzam as distinções necessárias destinadas a evidenciar a relação entre o subsistema chamado cultura e o sistema chamado sociedade. O subsistema denominado cultura não é autônomo; ele está integrado aos outros sistemas indicados, mas pode distinguirse deles e constituir por sua vez outros subsistemas (como arte, a tecnologia, a matemática etc.). BUNGE apud MORA, 2004, p

36 36 Trata-se de algo percebido na identidade 12 dos elementos que formam o universo da pesquisa. Posto noutros termos, é algo da natureza de um hábito ou de uma lei que pode ser visto, em alguns casos, como uma gramática 13, um teorema ou um enunciado 14. Porém uma diferença, pelo menos, mostra-se entre os hábitos de uma cultura e uma lei universal. Nesta última, ao signo que se venha a propor, cabe apenas o papel de representá-la de algum modo. No entanto, o objeto permanece inabalável e pacientemente corrige o que se possa a vir a dele falar. De outro modo, um objeto de uma atividade cultural não só se propõe à representação como também é constituído por este signo. Enfim, ora se mostra o corpus de interesse para a investigação. Um objeto cultural, eidético 15, a ser considerado em seu processo de formação. Não se trata pois de se ter em conta como objeto a casa em si. Também não o é só o conjunto das casas, como o são as características formais que lhe são próprias. Efetivamente, estas determinam a formação do universo de interesse. Mas o objeto da pesquisa também não está só nas partes, nos elementos que formam a habitação, como também não está só nas relações entre esses, que resulta no conjunto de proporções que atribuem identidade às casas. 12. En el mundo real la identidad es siempre parcial, y nuestro principio de unicidad de todo existente sólo admite la identidad parcial, la en un respecto al menos, y la identidad aproximada, que es la identidad en todos los respectos menos uno. La identidad parcial es la base de las classificaciones, las generalizaciones e las leys que expresam los esquemas, estruturas o invariantes de las cosas y los acontecimientos, precindiendo de la variedad y el cambio. La identidad estricta es una ficción indispensable. Cf. BUNGE, 2002, p Dito de uma forma rápida, diz-se gramática um conjunto de regras de formação e combinação de unidades básicas num sistema semiótico. Cf. COLAPIETRO, 1993, p Como exemplo, o teorema de Pitágoras, que se evidencia em cada triângulo retângulo desenhado ou ainda o enunciado sobre a força de atração entre dois corpos que afirma estar essa numa relação inversa ao quadrado da distância dos corpos, e ser diretamente proporcional às suas massas. 15. O termo eidético pode ser entendido no sentido construído por Platão. Para ele, o εἶδος das coisas é a imagem que estas oferecem quando são contempladas na visão, e ἰδέα a imagem do que são verdadeiramente, o caráter eidético será próprio das essências. Husserl reafirmou, embora com pressupostos diferentes, esse caráter das essências e opôs o eidético ao fático, não enquanto mera contraposição do formal e do material, mas como diferença entre as essências (formais e materiais) e os fatos. A chamada redução eidética é precisamente o resultado de pôr entre parênteses, de excluir ou suspender as existências com o fim de chegar à intuição essencial. Com base nisso pode-se falar de juízos eidéticos e também de necessidades eidéticas. As ciências das essências são, desse modo, ciências eidéticas nas quais estão fundadas as ciências dos fatos ou ciências fáticas, em virtude da necessária participação de todo fato em sua essência. Portanto a qualificação de eidético convém apenas às essências e as ciências que se ocupam delas, sem que com isso seja pré-julgado o caráter formal ou material das próprias essências, que não abandonam em momento algum sua universalidade e aprioridade. Com uma significação distinta, mas aparentada à husserliana, Joseph Geyser emprega a noção de eidos como conteúdo de uma eidologia ou filosofia enquanto conhecimento da forma (MORA, 2004, p. 806, grifos meus). Ainda, para melhor entendimento do termo, faz-se adequado também definir o termo 'fato', em coerência com os autores acima apresentados. Husserl estabeleceu uma distinção entre fato e essência, mas também enfatizou a inseparabilidade de ambos. Segundo este autor, as ciências empíricas são ciências de fatos ou ciências fáticas. Todo fato é contingente, ou seja, todo fato poderia ser "essencialmente" algo distinto do que é. Mas isso indica que a significação de cada fato pertence justamente a uma essência, isto é, a um eidos, que deve ser apreendido em sua pureza. As verdades fáticas caem, desse modo, sob as verdades essenciais ou verdades eidéticas (MORA, 2004, p. 1001, grifos meus).

37 37 Portanto, o objeto é percebido na recorrência de algumas propriedades comuns a uma cultura, esta que, por sua vez, se afirma e se atualiza em cada nova casa construída. Por outros termos, trata-se de um objeto de natureza abstrata e de caráter geral que ao se instanciar, busca permanecer e para isso se renova. Assim, define-se o objeto para pesquisa, o tipo arquitetônico e sua poiesis. Processo de construção As casas existentes que compõem o conjunto de interesse foram, em sua maioria, realizadas nos últimos anos do século XIX e os primeiros quartéis do século XX. Os relatos orais 16 apontam, à época, a presença dos mestres-carpinteiros dentro da organização de produção. Fazedores de barcos que eram, sempre participavam do grupo que se formava para construção de uma casa. Como os únicos a receber algum pagamento, a eles era atribuída a responsabilidade das primeiras etapas: a de marcar na areia, em tamanho real, as paredes externas; de fincar os esteios ou forquilhas como lá se denomina por sua forma. As forquilhas eram normalmente de pau-ferro, aroeira ou pereiro 17 tiradas do mato pelo mestre-carpinteiro, um hábito do processo de construção para garantir o prumo da casa. Às vezes, dependendo da dimensão da casa, eram necessárias forquilhas para suporte das terças. Fincadas as forquilhas iniciava-se a preparação para a coberta. Colocavam-se as Figura 005. Fotos da explicação de Luiz de Meu Chico sobre o processo de marcação do corpo da casa. Na última foto, com destaque da marcação. Fonte: Acervo do autor linhas de carnaúba, para em seguida entrarem os caibros de quartos da seção do tronco de carnaubeira, às vezes quando a solução era com caibros e ripas utilizava-se madeiras diver- 16. Cf. Anexo II. 17. As espécies citadas referem-se, provavelmente a: Chamaecrista ensiformis (pau-ferro), Schinus terebenthifolius (aroeira) e Aspidosperma pyrifolium (pereiro);

38 38 sas encontradas na região. Por fim, na última tarefa que tem à disposição o mestre, colocavam-se as telhas de barro. Todo o resto do processo de construção, que corria na sombra da coberta, contava com o grupo doméstico e não raramente dispõe da ajuda de outras pessoas vizinhos, familiares, amigos etc. sendo a ajuda recompensada com favores. A fase de construção das paredes internas que se seguia à coberta, consistia na colocação de paus denominados enxemeios 18 fincados em pé entre a linha de carnaúba e o piso de terra batida, fixados por meio de pregos no frechal e enterrados a cerca de um palmo e meio a dois palmos na terra. Paus linheiros, em média com dez centímetros de diâmetro, considerados com casca para uso e espaçados à distância de não mais que vinte centímetros uns dos outros. A eles eram amarradas, com palha carnaúba ou barbante de algodão, varas de um lado de outro, normalmente no mesmo nível. Utilizava-se o mameleiro, pau-ferro, angelca, canela de veado, cipó branco e outras madeiras encontradas na região 19. Extraídas com cerca de dois metros de comprimento, usadas também sem tirar a casca, eram amarradas inteiras em intervalos aproximados de vinte centímetros. A etapa do enchimento da trama (20cm x 20cm) formada pelos enxemeios e varas, contava com um grupo ainda maior de pessoas, sendo o trabalho acompanhado por festejo durante todos os dias. O barro utilizado, em geral de boa qualidade, era facilmente encontrado nas proximidades região de Barreiras e Olho d'água sendo extraído e transportado pelos futuros moradores. Um barro forte, tendo que ser misturado com areia, segundo Luiz de Meu Chico, numa relação de três de areia para um de barro. Mas a liga, acrescenta o mestre 20, é vista na enxada, no ferro "a gente pega assim, e demora a cair TABELA MESTRES MESTRE Antônio Felipe dos Reis Aniceto Raimundo Gama Chico Bernardo Chico Teófilo Dionísio Francisco Aniceto de Carvalho João Borges dos Reis João Ferreira da Silva Lacerda Luiz de Meu Chico Liberato Varanda da Silva Manuel Evaristo Reis Neo Pijuca Raimundo Carlos dos Reis Ricardo Gonçalves dos Reis Rufino Raimundo Venseslau Zé de Lúcia AF id AR CB CT DI FA JB JF LA LMC LV ME NP RC RG RU RV ZL Tabela 001. Identificação dos mestrescarpinteiros. Fonte: Tabela organizada pelo autor a partir de pesquisa de campo 18. Provável corruptela do verbo enxamear que no sentido figurado ganha o sentido de mostrar-se em grande quantidade; ser em grande número. 19. Nesse caso duas denominações populares citadas devem ser corruptelas dos seguintes nomes: mameleiro = marmeleiro e angelca = angélica. Aceitando-se esta premissa as denominações científicas prováveis para as espécies citadas seriam: Croton sp (marmeleiro), Chamaecrista ensiformis (pau-ferro), Guettarda angelica (angélica), e Remirea marítima (cipó branco). A denominação vulgar canela de veado não foi encontrada nas fontes de taxonomia disponíveis. 20. Cf. Anexo II.

39 39 [...] ele demora a cair". O barro é aplicado em três etapas, sendo a última camada, a de regularização, uma argamassa composta com cal e areia. Os relatos colhidos contam de uma atividade realizada por um grupo familiar numa relação de cooperação com outras pessoas, uma atividade cultural, nos termos de Bunge. Mostra-se uma arquitetura como algo que emerge de uma organização social. Um objeto de uma cultura. Uma arquitetura que segue um tipo, e para se realizar responde a uma série de constrições sociais, econômicas, tecnológicas, políticas e de território. Em vista disto, faz-se necessária uma abordagem que aponte para uma apreensão que vá além de um único edifício, ou de edifícios isolados. É necessário mostrar a lógica de formação de todo o conjunto de casas. Tipo Adotar-se-á por tipo o sentido apontado por Argan em seu texto Sobre o conceito de tipologia arquitetônica 21, em que a palavra se diferencia do termo modelo, em concordância com o significado proposto por Quatremère de Quincy 22. Deve-se entender por tipo como algo que confere menos a imagem de uma coisa a ser copiada imediata e completamente, do que a idéia de um elemento que deve servir de princípio geral. O modelo, assim como também entendido pela prática artística, é um objeto que pode ser copiado, repetido tal como ele é; o tipo, ao contrário, é um objeto pelo qual cada artista pode conceber trabalhos de arte que não tenham semelhança. Tudo é preciso e determinado no modelo; tudo é mais ou menos vago no tipo. A criação de uma tipologia na arquitetura, conforme Argan 23, depende da existência de uma série de construções que tenham entre si uma evidente analogia formal e funcional. Efetivamente, quando um tipo é definido pela prática ou pela teoria da arquitetura, ele já existia na realidade como resposta, como um conjunto de soluções bem adaptadas a um complexo de demandas ligadas a uma determinada situação histórica em qualquer cultura. 21. Cf. ARGAN. 2000, p Cf. QUINCY, 1998, p Cf. ARGAN, op. cit., p

40 40 Numa rápida digressão etimológica, descobre-se que o termo tipo, na acepção até agora adotada, assemelha-se à verdade da palavra 24 design. Uma palavra composta pelo sufixo grego de- (derivação, dedução ou inferência) e a palavra latina signare (signo, marca). Assim, nesta análise inicial o termo ganha o significado de: inferência a partir de um signo. Com efeito, em grego, design é σχέδιο 'skejo$l. Seguindo de volta à sua origem, ora pelos passos do autor grego Kostas Terzidis 25, vê-se que tem raiz em σχέδιόν 'skedän que significa "proximidade", "quase", "perto" ou ainda "aproximadamente". A partir disso pretende-se enfatizar o significado de incompletude, de vagueza ou de imperfeição; sem no entanto deixar de explicitar também o sentido de antecipação ou de expectativa. Ainda mais à montante, encontra-se σχέδιόν como derivada de έσχειν 'esk&n, "esquema", "projeto", "programa", que por sua vez se funda na forma pretérita do verbo έχω 'ekõ, que significa "ter", "segurar" ou "possuir". Assim design se refere, na língua grega, a algo que se tinha e não se tem mais. Está conectado ao passado, numa aparente contradição ao que ora se tem como senso comum ao termo, ou seja, hoje design somente se associa ao novo, à novidade, ao futuro. Ademais, o sentido grego parece lembrar, ou pelo menos parece não deixar esquecer, por remeter-se ao passado, que o novo não existe per se. Oportuno ainda, para melhor entendimento do sentido do termo tipo aqui adotado, é mostrá-lo à luz da classificação dos signos proposta por Peirce. Para o autor da ciência dos signos, há três classes de signo quando relacionado a si próprio 26, a saber: tone, token e type. Tone ou qualissigno é aquele signo que se refere ao modo de ser dos objetos do Universo 27 das coisas ; o token ou sinsigno são os signos ao modo de ser daqueles objetos do Universo dos existentes, das coisas individuais, fácticas; type ou legissigno é a denominação dada por Peirce para aqueles signos ao modo de ser dos objetos necessários, ou formais. 24. Adoto o sentido do termo como designado por Flávio Motta em uma de nossas visitas-aula à sua casa. Para o professor-aprendiz etimologia "é a verdade da palavra". 25.Cf. TERZIDIS, 2006, p Cf. QUEIROZ, 2004, p Peirce reconhece três Universos que se distinguem pelas Modalidades de Ser. Há o Universo das coisas em si, não postas em nenhuma relação, são puras qualidades, idéias ou possibilidades; há o Universo cujo o modo de ser dos objetos que a ele se inserem são reações brutas, são coisas fácticas, denomiados Existents; o terceiro Universo consiste de hábitos, de leis, ou qualquer coisa expressa em uma proposição universal. Os objetos deste universo são denominado pelo autor como Necessitants. Cf. PEIRCE, 1998, p

41 41 Type é considerado uma entidade, ou função, que pode ser replicada ou instanciada indefinidamente 28. Diferencia-se portanto de token por ser este uma única instância, ou seja, podem existir vários tokens de um mesmo type. Em vista disso, mostra-se modelo associado à natureza de um token, ou seja, refere-se a individuais. Enquanto tipo por ter a forma de um hábito, de um predicado geral, associa-se a classe de um legissigno ou type. Findas as digressões, etimológicas e cotárias, verifica-se o tipo como uma forma de design. Mas não um programa ou um projeto imposto e determinado por alguém. Está mais próximo de algo cultivado, daquilo emerge, do vernacular, do que é próprio. Está mais próximo de um conhecimento vivo. Daquele saber que foi trazido pelos antigos mestres e pedreiros "incultos" 29 e adaptado ao novo ambiente de além-mar. Quanto a estes mestres, na realidade, foram meios à extensão de um tipo, de uma gramática de formação, enfim, foram veículos de uma Forma 30 que se incorpora num objeto próprio de uma cultura. Portanto, o tipo não se trata de um plano a ser seguido rigidamente para a concretização de uma ou mais casas. Mas se traduz em princípios gerais conhecidos por todos, como no exemplo da região de Icapuí um conhecimento partilhado por mestres-carpinteiros e proprietários e seus familiares e seus vizinhos, pessoas que efetivamente trabalhavam na realização da casa alpendrada. Trata-se assim de uma produção coletiva, de um conhecimento compartilhado. Trata-se de um pensamento que segue seu fluxo, encontrando em cada morador um meio e agente de expansão. Portanto, seguindo nas palavras de Peirce 31, assim se mostra que do mesmo modo como se diz que um corpo está em movimento, e não que o movimento está num corpo, deve-se dizer que se está em pensamento e não que pensamentos estão em nós. As casas são modos, são a expressão de um tipo. Este que é sobretudo a capacidade de formá-las, de erguê-las sem um projeto técnico, ou ainda noutros modos, é como um metadesign, uma gramática constituidora de uma linguagem própria a uma região. 28. Cf. COLAPIETRO, 1993, p Cf. COSTA, 1937, p Segue-se o argumento construído por Peirce para os processos semióticos, em que o Signo é definido como veículo da Forma, levando-a do Objeto ao Interpretante. Ainda, segundo este autor: in order that a Form may be extended or communicated, is necessary that it should have been really embodied in a Subject independently of the communication; and it is necessary that there should be another Subject in which the same Form is embodied only in consequence of communication (EP2:477). 31. Collected Papers Sugere-se ainda, como aprofundamento adequado ao tema, o texto Pensar é estar em pensamento do professor Lauro F. B. da Silveira, bem como Kósmos No'tós do professor Ivo Assad Ibri. Cf. SILVEIRA, 1999, 51-66; IBRI, 1992.

42 42 Ambiente A região onde hoje é Icapuí tem sua economia não mais vinculada ao ciclo do gado, nem tampouco ao algodão. Emancipada a menos de meio século, a cidade ainda não tem plano diretor constituído, portanto não há lei Municipal que regulamente o uso e ocupação do território, assim como a construção de casas 32. Atualmente, com cerca de habitantes 33, tem sua maior renda advinda do setor primário de produção. Neste destaca-se a exploração em terra de petróleo, a pesca da lagosta e a agricultura 34. Enquanto nos últimos 5 anos a participação da produção industrial no Produto Interno Bruto (PIB) do Município vem caindo, constata-se o crescimento da produção de frutas, porém sem repor, pelo menos ainda, as perdas da indústria. O setor de serviços também começa, aos poucos, a ganhar relevância no PIB Municipal. Contudo, o crescimento deste setor se vincula, em grande parte, ao aumento da participação da administração pública. Com efeito, verifica-se neste século o empobrecimento contínuo do Município 35, estando a grande maioria de sua população mais de 80% hoje vivendo com menos de dois salários mínimos AGROPECUARIA INDÚSTRIA SERVIÇO Figura 006. Gráfico de participação da Agropecuária, Indústria e Serviços no PIB Municipal Fonte: Diagramas elaborados pelo autor a partir de base de dados do IBGE Em sua conformação territorial, Icapuí é constituída fundada como num alargamento da Rodovia CE-261, uma das vias de ligação entre Aracati e Mossoró 36. Aquela que 32. No entanto, como sustenta esta tese, por algum tempo, houve uma regra não escrita. Hábitos de construção, de divisão dos espaços, de ocupação e divisão dos terrenos, de repertório (elementos construtivos) e de relação entre as medidas. 33. Número que tem se mantido constante desde o último senso. 34. Observa-se uma queda contínua na produção industrial entre os anos 1999 e 2004, informações disponíveis no Banco Multidimensional de Estatística (IBGE-BME) < 35. Dados disponíveis em : <ftp://ftp.ibge.gov.br/pib_municipios/2004> e <ftp://ftp.ibge.gov.br/pibmunicipios/2003>. 36. Apesar de não ser possível assegurar a correspondência entre a hoje CE-261 e as primeiras veredas de ligação, a afirmação parece razoável posto que se encontra referência nos relatos do viajante inglês, H. Koster; a carta da Capitania do Ceará levantada em 1818 por ordem do Governador Manoel Ignacio, em que se verifica a indicação de uma estrada que passa por Montamba (supõe-se ser hoje Mutamba) e Cajuais; a existência ainda hoje de casas do final do século XIX alinhadas à via. Cf. Capítulo II desta tese.

43 04º º ID.028 ID º º º º ID º º ID º º ID.063 casas grupo 1 casas grupo 2 ID º º ID º º ID º º ID º º ID º º ID º º ID º º ID º º ID º º ID º º ID º º ID º º ID º º ID º º ID º º ID º º ID º º ID º º ID º º ID º º ID º º Rodovia CE 261 estrada local terrenos de mar a centro Figura 007. Identificação e referências geográficas das 27 casas sobre imagem de satélite da região de Mutamba e Cajuais. Fonte: Mapa do autor realizado a partir de pesquisa de campo e imagem fornecida pelo Instituto de Ciência do Mar (LABOMAR - UFC) 04º º ID.005

44 N ID. 028 área: 66 m2 Ft: 6,20 m Lt: 10,70 m He: 3,94 m Casa de1970, de Ivanilde Mª da Costa (68 anos). Aposentada. LMC ID.028 ID.079 RV 27 casas ID.087 RG 12 casas selecionadas estada principal terrenos de mar a centro ID.096 DI Mestres AF CB DI JB Antônio Felipe dos Reis Chico Bernardo Dionísio João Borges dos Reis ID.098 ID.099 ID.101 ME CT LV LA Lacerda LMC Luís de Meu Chico LV Liberato Varanda da Silva ME NP RC Manuel Evaristo Reis Neo Pijuca Raimundo Carlos dos Reis Casa de1946, de Mª Amélia Borges Reis (78 anos). Aposentada. Casa de1946, de Mª Amélia Borges Reis (78 anos). Aposentada. ZL ZL NP CB ID.077 ID.075 ID.076 LA RG Ricardo Gonçalves dos Reis RU Rufino RV Raimundo Venceslau ZL - Zé de Lúcia não informado ID. 063 área: 74 m2 Ft: 7,60 m Lt: 9,70 m He: 5,25 m Casa de1890, de José Jerônimo Reis de Sousa (47 anos) comerciante. AF ID.063 ID.067 ID.064 ID.062 ID.059 ID.056 AF NP JB LMC NP ID ID.050 NP Ambientes alpendre varanda sala estar ID.049 ID.042 FA NP - quarto transição refeição preparo banheiro depósito copiar Figura 008. Identificação, proprietário e características de 3 das 12 casas da região de Mutamba e Cajuais. Fonte: Mapa do autor elaborado a partir do acervo do autor e pesquisa de campo ID.041 ID.010 ID.004 ID RC - - ID. 005 área: 51 m2 Ft: 6,50 m Lt: 7,80 m He: 4,40 m ID.053 ID.001 LMC CT Casa de1953, de Francisca Bezerra (84 anos). Aposentada. RU ID.005

45 Casa de1946, de Alfredo Pereira Lima (66 anos) que vive da cultura do côco. Figura 009. Identificação, proprietário e características de 9 das 12 casas da região de Mutamba e Cajuais. Fonte: Mapa do autor elaborado a partir do acervo do autor e pesquisa de campo Casa de1931, de Gerôncio Carlos dos Reis (70 anos) que é serralheiro. Casa de1955, de Manuel Cunha Filho (81 anos).aposentado, tem um comércio. Casa de1956, de Manuel Bezerra Filho (64 anos), aposentado. ID. 076 área: 71 m2 Ft: 7,70 m Lt: 9,20 m He: 4,68 m Casa de1950, de Maria Valdelucia dos Reis. Vive do cultivo de cana e coco. Casa de1896, de Pedro Paulo (59 anos) que vive de pesca e agricultura. ID. 064 área: 59 m2 Ft: 6,80 m Lt: 8,70 m He: 4,53 m Casa de1898, de Francisca Holanda Rebouças (69 anos) aposentada. ID. 062 área: 71 m2 Ft: 7,60 m Lt: 9,40 m He: 5,00 m Casa de1906, de Fca. Borges de Souza (80 anos) casada com comerciante. ID. 059 área: 72 m2 Ft: 6,60 m Lt: 10,90 m He: 4.20 m Casa de1960, de Gerarda Costa Borges (76 anos). Aposentada. Casa de1934, de Maria Borges do Nascimento (72 anos). Aposentada, agricultura. Casa de1970, de João Borges Neto (77 anos). Aposentado, agricultura. Casa de1925, de Raimundo Maciel da Costa (54 anos). Casa de1956, de João Alexandre da Costa, funcionário público municipal. ID. 042 área: 108 m2 Ft: 7,47 m Lt: 14,50 m He: 4.75 m Casa de1950, de Mª Valentina da Costa (59 anos). Vive de pesca e agricultura. Casa de1945, de Edite Borges dos Reis que vive do cultivo de cana e coco. ID. 041 área: 108 m2 Ft: 7,70 m Lt: 14,00 m He: 5.00 m Casa de1925, de Anaídes Borges de Carvalho (74 anos) aposentada. Casa de1926, de Joaquim Lourenço Soares (77 anos) Casa de1975, de Maria Rita dos Reis (??anos). Vive de agricultura e comércio. ID. 010 área: 40 m2 Ft: 5,50 m Lt: 7,30 m He: 3,77 m Casa de1975, de Paulo Simão da Costa (36 anos). Casa de1926, de Dona Audésia (64 anos) aposentada. ID. 004 área: 88 m2 Ft: 7,80 m Lt: 11,30 m He: 4,90 m Casa de1966, de Chiquinho de Abel (60 anos) comerciante. Casa de1905, de José Oceliano de Oliveira. Vive da pecuária. ID. 001 área: 80 m2 Ft: 8,20 m Lt: 9,20 m He: 5,10 m

46 46 se estende paralela e próxima à praia. De forma alongada, com cerca de 65km de costa, Icapuí possui pouco menos do que 430km2, configuração retilínea que se vê refletida no modo de ocupação e crescimento da cidade. Os terrenos são alongados e postos perpendiculares à vereda. Designados de terrenos de mar-ao-centro 37, ainda hoje adequam-se à agricultura familiar. Em vista disso, quando divididos, em geral para atender ao crescimento e ao desdobramento do núcleo da família, mantêm essa característica alongada. Contudo, uma mudança na ocupação se mostra com o tempo. Onde antes não havia limites definidos aos fundos hoje os terrenos esbarram em terras para o cultivo do caju e exploração de petróleo, agora terras bem cercadas e vigiadas. Mesmo assim, a organização territorial da região ainda é formada por grandes faixas de terra cortadas pela estrada que leva à praça central da cidade. O ponto de interseção do terreno com a via constitui-se, ainda hoje, numa zona normal para a implantação das casas, uma área natural de contato e troca com a cidade. As terras ao fundo ficam para o plantio de cana-de-açúcar, milho, feijão etc. e para pequenas criações. Em vista disso, imagina-se o terreno dividido em dois espaços com usos distintos: a área da frente do lote, que corresponde a uma faixa com cerca de trinta metros de terreiro bem varrido onde se implanta a casa, e as terras ao fundo, onde se planta e cria. Corpus As habitações de maior interesse que formam o corpus da pesquisa restringem-se àquelas localizadas nas regiões de Mutamba e Cajuais, área que se apresenta como a mais antiga e com o maior número de casas de taipa revestida. No litoral entre o Ceará e Rio Grande do Norte, encontram-se casas construídas, em sua maioria, entre os anos finais do século XIX e os últimos quartéis do século passado. Precisamente, define-se o período entre os anos de 1890 e de 1980, datas respectivas à construção da casa mais antiga e mais recente cadastrada 38 na região de interesse. No ano de 2005, nessa região de interesse da 37. "Até uns 30 anos atrás, esta estrada era só areia, os carros chegavam pela praia. Os terrenos são de mar-ao-centro" segundo José Jerônimo dos Reis, neto do mestre-carpinteiro Antônio Felipe dos Reis. 38. De acordo com pesquisa de campo iniciada em 2005, estas são datas de construção atribuídas pelos atuais moradores, portanto datas estimadas.

47 47 tese, registram-se casas de taipa revestida, sendo em todo o Município de Icapuí cadastradas pelos agentes de saúde 959 casas de mesmo sistema construtivo. A pesquisa de campo da tese inicia com a identificação das casas alpendradas. Buscou-se, nessa fase, determinar a referência geográfica, assim como fazer registros fotográficos pelo menos duas imagens externas da cada casa e uma do proprietário ou morador daquelas que pareciam ser as mais significativas 40, ou seja, aquelas que não só traziam os mesmos elementos arquitetônicos, mas que pareciam seguir uma mesma regra de formação. Assim, chegou-se a identificar 115 casas de uma área mais extensa do que aquela que se havia estabelecido como foco inicial. A área de interesse foi estendida para se conhecer o limite espacial do tipo. Foram identificadas algumas habitações em localidades vizinhas à Mutamba e Cajuais. Ao norte, percorreu-se Barra Grande, Barreiras e Peroba, onde foram encontradas um bom número de unidades com as características procuradas; já mais ao sul, chegou-se à Areias, Melancias e Peixe Gordo, onde foram vistas poucas, no entanto em Gravié 41, Mata Fresca, Tanque de Lima e Cacimba Funda estavam em maior quantidade, porém, pareciam seguir variações 42 do padrão formal percebido. Figura 010. Formulário para pesquisa de campo (inicial) Fonte: Formulário elaborado pelo autor 39. Segundo o relatório do Sistema de Informação de Atenção Básica (SIAB) da Secretaria Municipal de Saúde de Icapuí do ano de Critérios adotados relacionavam-se com as características formais recorrentes em acordo com o padrão que se mostrava. São elas: forma da empena acentuada, pintura com barra, alpendres, locação próxima à via principal de acesso à cidade e estado de conservação da construção. 41. Gravié ou Curral Grande, segundo denominação de Pedro Fernandes Marques proprietário da casa identificada como a de número 109 no banco de dados. 42. Apesar de semelhantes as casas, algumas características se mostram diferentes, na forma e no uso, por exemplo a localização da casa mais afastada da estrada e profundidade do alpendre, este que se estima em cerca de dois metros e meio. Desse modo, na região mais ao sul de Mutamba e Cajuais, as varandas são mais profundas. Mostra-se, a partir dessas duas variáveis o uso distinto dado ao alpendre, ou seja, constitui-se um espaço com um tempo diferente. Deixa de ser uma membrana, uma área de troca, para se tornar uma espaço efetivamente de abrigo e acolhimento.

48 48 Durante a fase de identificação realizou-se o preenchimento do primeiro formulário de pesquisa de campo, Figura 010, onde se atribuía um número de identificação. Anotava-se o nome do atual proprietário ou morador e sua relação com a construção da casa; registrava-se a data provável de construção; mestre-carpinteiro participante da construção; e a fonte de renda familiar. Enquanto se procedia ao preenchimento do formulário, procurou-se realizar breves entrevistas com os moradores, com a intenção de perceber o valor atribuído por eles às casas de taipa. Essa primeira aproximação finda, em dezembro de 2006, com a elaboração de um banco de dados contendo as referência geográficas, imagens externas e do proprietário/morador de cada casa e ainda algumas informações advindas das entrevistas com proprietários. Assim, formou-se o dossiê inicial com a série de 115 casas representativas daquilo que começava a se configurar como um tipo. Com um banco de dados inicial constituído, através de comparação dos registros das datas de construção, verificou-se que a distribuição dos elementos da série no intervalo de tempo estabelecido para pesquisa não era homogênea. Constatou-se ainda que são poucas as casas registradas com mais de 100 anos. Informação que aponta também para a impermanência do sistema construtivo adotado, no caso taipa de mão. Verificou-se ainda na análise dos dados que tanto a casa mais antiga quanto a mais recente com as características procuradas encontram-se localizadas na região delimitada inicialmente. Com efeito, pelo menos aos propósitos desta tese, o universo de estudo pode estar restrito às localidades de Mutamba e Cajuais. Ainda a partir da leitura do banco de dados, uma nova seleção foi proposta para se realizar uma segunda aproximação do corpus. Estabeleceu-se que do total das casas registradas, a princípio 115, algumas seriam desconsideradas por não indicar a possibilidade de recuperação 43 do processo da construção e das reformas a que a unidade fora submetida. Ainda nesse momento, volta-se novamente a restringir o universo à área estrita, aquela definida no início da pesquisa de campo. Definem-se 85 casas 44 como o universo 43. Raros foram os casos em que o proprietário se negou a dar informação, mas houve. Noutras situações as casas já se encontravam muito alteradas internamente e completamente descarterizadas; em algumas casas se encontravam alugadas e os atuais moradores pouco sabiam sobre a história da casa. 44. Cf.Anexo I.

49 49 para o trabalho. Nessa fase, volta-se à campo revisitando as casas, com o propósito de incrementar o banco de dados e fazer a verificação 45 das informações já compiladas. Ainda com o intuito de uma maior aproximação do corpus, buscou-se por documentos oficiais e fontes secundárias que contribuíssem para conhecimento do ambiente em que se insere. IDENTIFICAÇÃO ID Coleta Latitude Longitude data Proprietário Idade Fonte de Renda Mestres OBS.: nov.05 04º º José Pereira de Oliveira >80 Pecuária CT ruína nov.05 04º º Paulo Simão da Costa decadente dez.05 04º º Francisca Bezerra 84 Aposentadoria RU bom estado dez.05 04º º Maria Zumira dos Reis 63 Agricultura/Comércio RC ótimo estado jan.06 04º º Ivanilde Ma. da Costa 68 Aposentadoria LMC ótimo estado jan.06 04º º Joaquim Lourenço Soares ótimo estado jan.06 04º º Anaides Borges de Carvalho 74 Aposentadoria - ótimo estado fev.06 04º º João Borges Neto 77 Aposentadoria/Agricultura LMC bom estado fev.06 04º º Maria Borges do Nascimento 72 Aposentadoria/Agricultura JB bom estado fev.06 04º º José Jerônimo Reis de Sousa 47 Comércio/Confecção AF decadente fev.06 04º º Gerarda da Costa Borges 76 Aposentadoria NP bom estado fev.06 04º º João Eleutério Rebouças 78 Aposentadoria LA bom estado nov.05 04º º Dona Audésia 64 Aposentadoria - decadente jan.06 04º º Edite Borges dos Reis - Agricultura (cana, coco) FA NP bom estado jan.06 04º º Maria Valentina da Costa 59 Pesca, agricultura JF DI CT decadente jan.06 04º º João Alexandre da Costa - Secretaria de Saúde - bom estado fev.06 04º º Chiquinho de Abel 60 Padaria LMC decadente fev.06 04º º Raimundo Maciel da Costa bom estado fev.06 04º º Francisca Borges de Sousa 80 Marido - negociante AF decadente fev.06 04º º Maria Amelia Borges Reis 78 Aposentadoria ZL CB ruína fev.06 04º º Maria Amelia Borges Reis 78 Aposentadoria NP ZL bom estado mar.06 04º º Alfredo Pereira Lima 66 Coco RV bom estado mar.06 04º º Gerôncio Carlos dos Reis 70 Metalúrgica RG bom estado mar.06 04º º Manuel Cunha Filho 81 Comércio/Aposentadoria DI bom estado mar.06 04º º Manuel Bezerra Filho 64 Aposentadoria ME bom estado mar.06 04º º Maria Valdelucia dos Reis - Agricultura (cana, coco) CT bom estado mar.06 04º º Pedro Paulo 59 Pesca, agricultura LV decadente Tabela 002. As 27 unidades selecionadas para etapa posterior da pesquisa de campo Fonte: Tabela organizada pelo autor a partir de pesquisa de campo Na etapa subseqüente, dentre as 85 casas, selecionam-se 46 algumas das unidades com características formais recorrentes, índice de uma alta integralidade 47, ou seja, índice de uma mesma gramática de formação. Escolhem-se 27 para se fazer uma aproximação 45. Como são poucos os registros textuais do processo de construção das casas, quase inexistentes, adotou-se como estratégia de certificação das informações a recorrência das questões do primeiro formulário. Recolocando-as em datas diferentes para a mesma pessoa entrevistada, ou buscando em outras fontes. Assim, corrigiu-se discrepâncias percebidas na primeira entrevista. Por exemplo, a casa identificada no dossiê com o número 042, da senhora Anaides Borges de Carvalho, tinha-se a princípio atribuído uma data de meados do século XIX, e com a recorrência das questões e cruzamento da informação, verificou-se que a casa fora construída na realidade nas proximidades do ano de Assim, de um modo geral, buscou-se na memória coletiva por uma história não escrita. 46. Em estudos dessa natureza, ideal seria contar com uma maior amostragem, mas diante das restrições de recursos para pesquisa de campo, optou-se por selecionar aquelas unidades que apresentavam uma maior coerência formal. 47. O parâmetro sistêmico evolutivo integralidade é na verdade concebido por Denbigh, e por esse autor considerado como grau de organização. A idéia é que a integralidade pode ser escrita: ( = f ( n, c, xi ) ou seja, a integralidade seria uma função da quantidade n de subsistemas que compõe o sistema, das conexões efetivas c entre eles e de uma coleção de pêsos xi que indicam quantitativamente a importância relativa tanto dos subsistemas quanto das conexões. Em alguns casos mais simples, seria possível escrever: ( = nc g ( xi ), tal que a integralidade seria o produto do número de subsistemas e das conexões: esse produto multiplicando uma nova função só dependente das importâncias dessas entidades. Cf. VIEIRA, 2008, p

50 50 à morfologia do edifício. Em uma análise inicial da forma, verifica-se que todas as casas se compõem de duas partes fundamentais: o corpo - parte central do edifício coberto pelo telhado em duas aguadas com forte inclinação; e o alpendre que circunda todo o corpo e é coberto por telhado em quatro águas e com inclinações suaves. Sobre o alpendre, acontecem as expansões do corpo da casa. corpo expansão estrada Para uma nova visita à região, definem-se algumas variáveis da forma a serem coletadas. São elas: a frente (F t ) do corpo da casa, trata-se da dimensão horizontal onde se encontra a empena, normalmente o lado menor do retângulo; a lateral (L t ) do corpo da casa, o lado maior; largura do alpendre (A l ), menor distância tomada do eixo de qualquer pilar do alpendre à parede do corpo da casa; altura da empena (H e ), medida tomada do piso ao fundo da cumeeira; altura da terça (H t ), altura registrada do piso ao fundo da terça; altura interna do alpendre (H i ), corresponde à altura de L t ; altura do alpendre (H a ) distância vertical do piso ao fundo da linha da coberta da varanda. Também foram registrados os diâmetros das linhas. Efetivamente, o trabalho consistiu no preenchimento do segundo formulário (Figura 12) composto por três campos: alpendre Figura 011. Identificação do corpo, alpendre e expansão Fonte: Ilustração elaborada pelo autor a partir da planta baixa da casa Diagrama de Ambiente e Uso: espaço para desenho esquemático da planta da casa com as dimensões aproximadas dos ambientes e os seus usos, explicitando também áreas construídas posteriormente usualmente com tijolo; 2. Tabela Características Formais: consiste na área para registro das dimensões do corpo da casa - F t e L t, do alpendre A l e das alturas H e, H t, H i, H a ; 3. Tabela de Verificação: basicamente área constituída pelo primeiro formulário de campo, já preenchido, com o propósito de uma nova verificação e complemento de dados.

51 Figura 012. Formulário para levantamento arquitetônico preliminar Fonte: Formulário elaborado pelo autor DADOS MORFOLOGIA ID data Dimensão Posição Pilares Zonas Funcionais Ft Lt Al He Ha Hi loc lado Ft Lt Corpo Adendo ,20 9,70 1,50 5,10 2,46 2,85 \\ centro 4 5 ze zd zp zx ,80 11,30 1,53 4,90 2,53 2,89 \\ centro 5 6 ze zd zp zx ,50 7,80 1,50 4,40 2,37 2,76 \\ mar 3 5 ze zd zp zx ,50 7,30 1,24 3,77 2,30 2,56 L centro 4 5 ze zd zp zx ,20 10,70 1,45 3,94 2,12 2,46 L mar 4 5 ze zd zp zx ,70 14,00 1,55 5,00 2,48 2,89 \\ centro 5 6 ze zd zp zx ,47 14,50 1,68 4,75 2,30 2,75 \\ centro 4 6 ze zd zp zx ,60 10,90 1,30 4,20 2,30 2,64 L centro 4 3 ze zd zp zx ,60 9,40 1,65 5,00 2,62 3,05 L centro 5 5 ze zd zp zx ,60 9,70 1,58 5,25 2,68 3,15 \\ mar 4 5 ze zd zp zx ,80 8,70 1,45 4,53 2,38 2,86 L centro 4 3 ze zd zp zx ,70 9,20 1,63 4,68 2,36 2,75 \\ centro 5 5 ze zd zp zx ,62 9,21 1,88 5,17 2,54 3,30 \\ centro 4 5 ze zd zp zx ,50 9,11 2,07 4,80 2,37 3,00 \\ centro 4 5 ze zd zp zx ,86 10,07 1,22 4,17 2,27 2,67 L centro 4 5 ze zd zp zx ,58 9,80 1,24 3,80 2,15 2,46 L centro 4 5 ze zd zp zx ,55 8,31 1,25 4,20 2,28 2,60 L centro 4 5 ze zd zp zx ,80 9,75 1,65 4,90 2,40 2,88 \\ centro 4 5 ze zd zp zx ,85 16,83 1,46 4,55 2,40 2,77 \\ centro 4 8 ze zd zp zx ,09 8,60 1,62 4,97 2,55 3,25 L mar ,60 16,00 1,57 5,52 2,85 3,30 L mar - 6 ze zd zp zx ,12 8,17 1,46 4,52 2,33 2,71 L centro 4 5 ze zd zp zp zx ,93 10,27 1,65 5,26 2,80 3,22 \\ centro 4 5 ze zd zp zx ,20 11,17 1,45 4,64 2,40 2,87 L centro 5 5 ze zd zp zx ,52 8,45 1,10 4,14 2,25 2,56 L centro ,05 8,45 1,49 4,63 2,30 2,85 \\ centro 5 6 ze zd zp zx ,83 6,57 1,07 3,80 1,85 2,20 L centro med 7,07 9,98 1,48 4,56 2,39 2,82 min 5,50 6,57 1,07 3,77 1,85 2,20 max 8,60 16,83 2,07 5,26 2,85 3,30 Tabela 003. Dados para análise de morfologia Fonte: Tabela organizada pelo autor a partir de pesquisa de campo

52 52 Com os dados compilados Tabela 003, a primeira aproximação para estudo da forma se fez. Contudo, de todos os atributos da casa de taipa alpendrada, o mais evidente ao visitante, de fato, é a existência da empena formada por uma inclinação incomum do telhado. Atrás dessa característica, ainda a partir dos meses finais de 2005, em conversas com o mestre Luiz de Meu Chico, questionou-se se havia algum motivo para tal forma e como essa regra se constituía. Na entrevista 48, o mestre-carpinteiro dizia ser a altura da empena igual "a metade da quarta parte da frente da casa". Mas assim descrita, a regra parecia não corresponder a forma que se apresentava nas casas. Questionado novamente, agora sobre tal diferença, seu Luiz explica que isso vale para hoje, nas casas mais antigas, a altura da empena "é a quarta parte da frente da casa, menos 11 centímetros" 49. Perguntado ainda se havia um motivo para tal mudança, o mestre-carpinteiro afirma ser a não mais existência de telhas grandes, estas com peso aproximado a três quilos e três quilos e cem gramas 50. Com as novas telhas produzidas industrialmente - ditas cerâmicas, menores, leves e mais bem acabadas -, tornou-se impossível manter a inclinação mais acentuada. "Essas telhas correm nessa inclinação... tem que ser tudo amarrado", sugere o mestre 51. A partir da Tabela 003, uma nova planilha foi gerada Tabela 004 para se verificar as informações, trazidas por seu Luiz, sobre as regras de constituição da coberta. Algumas CORPO ID Data i Telhado Dim Bd % Lt/Ft área Emp/Ft , % , % , % , % , % , % , % , % , % , % , % , % , % , % , % , % , % , % , % , % , % , % , % , % , % , % , % med , % min , % max , % Tabela 004. Índices de morfologia do corpo Fonte: Tabela organizada pelo autor a partir da Tabela Entrevista concedida ao autor em janeiro de 2006, porém outros encontros e conversas ocorreram, sendo gravadas duas outras no início do ano de Imagina-se que o valor subtraído seja uma compensação referente à diferença de diâmetro dos troncos de carnaubeiras usados como linhas usadas no frechal ( diâmetro 10cm) e as de cumeeiras (diâmetro 20cm). 50. Cf. Anexo II. Durante a pesquisa de campo, teve-se ainda a oportunidade de verificar, a partir de uma pequena amostra 10 unidades da casa Id.:063, que o peso das telhas variam entre 3Kg e 3,25Kg. 51. Luiz de Meu Chico.

53 53 outras características da forma do corpo da casa, como a proporção do retângulo e sua área, também foram criadas. Pela análise da Figura 013, confirma-se de certo modo a regra conhecida em entrevista. Dentre o universo das 27 casas analisadas, cerca de 1/3 apresentavam a inclinação atribuída por seu Luiz, ou seja, telhados com ângulo de inclinação próximo a 26 graus. Com efeito, pôde-se verificar uma maioria de casas mais da 24º 25º 26º 27º 28º 29º Figura 013. Gráfico de inclinações Fonte: Gráfico elaborado pelo autor a partir de dados da pesquisa de campo metade do universo analisado, cerca de 60% com inclinações superiores aos designados na entrevista. Ainda seguindo as pistas deixadas pelo mestre-carpinteiro, agora procurando saber se há, de fato, uma redução das inclinações do telhado com o passar do tempo, gerou-se um diagrama com a regressão linear, em que se assume como variável independente o tempo e como dependente a variável ângulo de inclinação. Foram consideradas, no desenvolvimento do gráfico, as datas de construção atribuídas à pelos proprietários. Assim procedendo chegou-se ao gráfico da Figura Figura 014. Regressão linear do ângulo de inclinação no tempo Fonte: Diagrama elaborado pelo autor a partir de dados da pesquisa de campo Mostra-se no diagrama a existência de uma correlação entre as duas variáveis. Buscando o coeficiente de correlação 52 entre as duas variáveis encontra-se o valor -0,78. Confirma-se com isso, de fato, a existência de uma tendência 53, de um hábito, ou melhor, da 52. O coeficiente de correlação r(x,y) entre duas variáveis x e y é um número do intervalo [-1,+1]. Se r=-1, todos os pontos (x,y) se encontrariam sobre uma linha reta descendente; se r= +1, todos os pontos se encontrariam numa linha reta ascendente; se r=0, as variáveis carecem de qualquer associação e o conjunto de pontos carece de estrutura (não há lei); em casos intermediários, os pontos se agrupariam mais ou menos próximo à reta (BUNGE, 2002, p.701). 53. Se a correlação é alta ou seja, se os dados aproximam-se de uma linha, como mostrada na figura (linha de regressão linear) pode-se justificadamente interpretar a linha como uma tendência, mas não ainda como uma lei propriamente dita (BUNGE, 2002, p ).

54 54 mudança de um hábito ao longo do tempo. Alterações ocorridas no ambiente e que se vêem internalizadas na redução da inclinação da coberta. Efetivamente, há uma mudança no processo de produção de telhas, chegando a um ponto de não se encontrar mais, na região e proximidades, quem produza telhas com a dimensão e peso adequado a grandes inclinações 54. Verificou-se, no entanto, que há o hábito de aproveitamento dos materiais advindos de demolições, seja para construção de novas casas, seja para estoque de reposição 55. Mostra-se ainda a partir das tabelas compiladas nessa fase da pesquisa de campo, que as casas mais antigas são locadas paralelas à via, bem como a grande maioria destas está localizada no lado direito de quem vai à praça central da cidade ou à igreja matriz. No diagrama abaixo Figura 015 pode-se observar uma concentração de casas perpendiculares à via de acesso, a partir de centro mar Figura Paralela 015. à Orientação via de acesso do corpo da casa com referência à via de acesso Fonte: Perpendicular Diagrama elaborado à via de acesso pelo autor a partir de dados da pesquisa de campo Informação que não pode ser lida desvinculada da estrutura fundiária e do seu desenvolvimento, ou seja, sem considerar o processo de desdobramento das terras ditas de mar-ao-centro. Com a compilação percebe-se ainda que, dentre o universo das 27 casas mais significativas, 22 encontram-se situadas no terreno do lado mais ao centro, digo, estão postas ao lado direito da via de acesso à cidade. Apenas 5 encontra-se ao lado do mar nos terrenos de mar-ao-centro. Há portanto uma tendência, mostra-se uma preferência a se implantar a casa de forma a deixar uma melhor condição para o espaço de acolhimento e troca. Posto noutras palavras, o alpendre passeio, a membrana de contato com a cidade, tende a receber uma maior área e melhor condição de implantação na organização dos ambientes da casa. Prefere-se dispor o alpendre passeio voltado mais para o mar, o que é favorável a uma melhor condição de conforto ao longo do dia. Ademais, a partir dessa configuração, 54.Cf. Anexo II. 55. Como encontrado na casa do senhor José Jerônimo Reis e Souza ID 063 um estoque de telhas antigas, advindas da demolição de uma antiga casa. Estima-se em cerca de um mil, guardadas para reposição. Ademais, desde o início (2005) da pesquisa de campo até o final (2007), registrou-se a demolição de 3 casas de mesma tipologia.

55 1.oo o oo 55 esse lado da casa recebe o sol apenas nas suas melhores horas. Favorece-se também a ventilação natural, dado que os ventos predominam, ao longo do dia, vindos do leste e nordeste. Portanto, sempre que possível, quando a dimensão do lote permite, o lado maior ficará em contato com a via, ou seja, com a cumeeira paralela à estrada por onde se chega. Observa-se ainda que o retângulo formado pela projeção do perímetro do corpo da casa, tem com freqüência uma relação entre a (L t ) lateral e a frente (F t ) próximo à 1,5; ou seja, a proporção entre os lados do retângulo tende a não ser maior que uma vez e meia. Precisamente, 73% estão numa relação até 1,5, contudo, ressalta-se a inexistência de planta-baixa quadrada justifica Luiz de Meu Chico 56, "porque a gente fazendo quadrado é muito feio, a gente fazia maior na largura, no comprimento"; 27% dos retângulos do perímetro do corpo da casa estão entre 1,5 e 2 incluído; e por fim somente uma unidade, ora desconsiderada, é formada por um retângulo com proporção entre lados, acima de dois precisamente 2,46. Figura 016. Relação L t /F t - ocorrências individuais Fonte: Diagrama elaborado pelo autor a partir de dados da pesquisa de campo Verificou-se, posteriormente, que a casa com a proporção de mais de duas vezes, tratava-se de uma casa geminada, o que se dividida ao meio a reinseriria no primeiro grupo. Porém dada a recorrência dessa solução específica 57 no universo total de casas identificadas, optou-se por desconsiderá-la, pelo menos a princípio. Uma outra opção seria classificá-la como uma variação do tipo estudo, ou mesmo considerá-la como parte de outra família, o que de fato foi feito. 56. Cf. Anexo II - Entrevista Das 85 casas registradas 4 são geminadas. São elas: 058, 067, 073 e 080. Ainda, percebe-se a solução de divisão da casa como algo comum. Do universo em questão, 8 foram dividas, de modo a sempre se ter, independentemente da orientação da casa, uma porta de acesso para o lado da estrada. São elas: 044, 056, 069, 071, 074, 085, 086 e 087. A diferença entre os dois tipos é percebida na divisão interna dos ambientes da casa. Essas ultimas se vê claramente que são desdobramentos das plantas das casas individuais, enquanto as primeiras são plantas específicas.

56 56 Figura 017. Foto da casa geminada Id.:067 Fonte: Acervo do autor Dada a concentração no primeiro intervalo (F t /L t < 1,5), foi proposto uma aproximação e então uma nova divisão das unidades em grupos. Assim, as casas foram organizadas em quatro grupos de retângulos. Aqueles com proporções com cerca de um e um quarto, os de uma vez e meia, aquelas de um e três quartos e aquelas casas com a lateral com dimensão duas vezes a sua frente. Assim procedendo, pôde-se verificar a maioria de ocorrência de casas em corpos com proporções próximas a um e um quarto, como mostrado no diagrama da Figura ,75 1.oo o 2.oo 1.75 Figura 018. Diagrama de aproximações da relação L t /F t Fonte: Diagrama elaborado pelo autor a partir de dados da pesquisa de campo Especificando as ocorrências em cada intervalo designado, tem-se: nenhuma incidência sobre o corpo quadrado; 65% sobre os de um vez e meia, ou seja 17 unidades dentre as 26 ocorrem na proporção próxima a um e um quarto; cerca de 8% ocorrem próximos a uma vez e meia; 23% acontecem no grupo dos corpos formados pelos retângulos de um e três quartos; e por fim, 1 unidade apenas, o que corresponde a 4%, têm a lateral do corpo da casa próximo à duas vezes a sua frente. 3o 4o 5o 6o 7o 8o 9o 1oo 11o 12o 13o Figura 019. Diagrama área do corpo - ocorrências individuais Fonte: Diagrama elaborado pelo autor a partir de dados da pesquisa de campo

57 1oo 6.o 11o o o 57 Na análise da área formada pelo retângulo do corpo da casa (Figura 019), foi verificado que uma pequena maioria 58 está abaixo de 70m2, sendo que a menor casa registrada tem o seu corpo com uma área igual a 38m2; 39% estão entre 70m2 e 100m2, porém com um maior adensamento de ocorrências entre 70m2 e 80m2; e apenas 3 unidades estão acima de 100m2, mas não ultrapassam 130m2. A partir dessa característica, propõe-se um agrupamento das unidades em intervalos de 10m2 para a construção simplificada de um gráfico das áreas existentes. Em assim organizando, formam-se os seguintes grupos: 4o 5o 6o 7o 8o 9o Figura 020. Diagrama de aproximações da variável área do corpo Fonte: Diagrama elaborado pelo autor a partir de dados da pesquisa de campo Prosseguindo na análise da figura formada pelo corpo da casa, foi verificado que a variável F t da casa assume valores entre 5,50m e 8,50m. Com efeito, também ocorrem de modo heterogêneo ao longo do intervalo. Há uma preponderância de ocorrências dentro do intervalo de dimensões maiores que 6,5m e menores que 8. Procedendo no agrupamento e aproximações das medidas, agora ajustando-as para intervalos de 50 em 50 centímetros, forma-se o seguinte diagrama: Figura 021. Diagrama de aproximações da variável F t - frente do corpo Fonte: Diagrama elaborado pelo autor a partir de dados da pesquisa de campo Em resumo, as três propriedades do retângulo área, frente e relação entre frente e lateral que forma o corpo da casa, características ora analisadas, ocorrem nos respectivos intervalos e com freqüências segundo tabelas organizadas abaixo: PROPORÇÃO Lt/Ft % 1, ,50 8 1, ,00 4 Tabela 005. Freqüências Fonte: Tabela organizada pelo autor a partir de pesquisa de campo ÁREA dim. (m2) % < >110 4 FRENTE dim. (m) % <6,0 15 6,0-6,5 4 6,5-7,0 19 7,0-7,5 23 7,5-8,0 31 >8, Desconsidera-se também para análise de área a casa 067 com 115m 2 geminada. Assim, chega-se a 46% de ocorrências com retângulos com áreas até 70m2.

58 6.o o o 58 Relacionando as três características do corpo, foi verificado a existência de cinco grupos de casas que têm simultaneamente as mesmas propriedades. O grupo maior é composto por seis casas, aquelas que têm a frente entre 7,5 e 8 metros e possuem o corpo com proporção próxima a 1,25 e área entre 70 e 80m 2. Observa-se que todas as casas deste grupo foram construídas até a década de trinta. Assim, dado que outras características se mantêm neste grupo, seria razoável inferir que até o início do século XX parece ter se consolidado o tipo. Atentando ainda para as datas de construção dos outros grupos e o número apresentado de variações isoladas, seria como se o pensamento constituído até 1930, fosse perdendo força ao longo dos anos seguintes. No entanto, constata-se que são derivações que mantêm alguns elementos e regras de formação estabelecidas anteriormente, mas que especulam sobre novas soluções e formas, estas que terminam por reconfigurar o tipo. Id.: Id.: Id.: Id.: Id.: Id.: Id.: Id.: Id.: Id.: Id.: Id.: Id.: Id.: Frente Lt/Ft 1.oo o oo Área 4o 5o 6o 7o 8o 9o 1oo 11o Id.: Id.: Figura 022. Diagrama relação entre frente, proporção e área do corpo Fonte: Diagrama elaborado pelo autor a partir de dados da pesquisa de campo

59 59 Ainda em busca da compreensão da forma, foi verificada uma alta correlação 59 entre área do retângulo e sua lateral, ou seja, há uma tendência em quanto maior a área mais alongado se torna o corpo da casa. É como se existisse algo, algum fator que deve restringir o crescimento da frente da casa na mesma proporção que a lateral. Seguindo na análise da forma do corpo da casa a partir de F t, agora relacionando-a com a altura interna da casa 60, constatou-se inicialmente nos relatos de Luiz de Meu Chico, que é comum 3m ou 3,20m ou 3,30m 61. Verifica-se, no entanto, após compilação de dados da pesquisa de campo, que se trata de um intervalo maior, efetivamente; vê-se essa variável flutuar num intervalo entre 2,20m (Id.:101) e 3,30m (Id.:003 e Id.:077), de maneira a se encontrar a média num valor menor que os ditos pelo mestre-carpinteiro. Relacionando em seguida os valores da frente (F t ) com a altura (Hi), mostra-se que há uma relação direta entre essas duas variáveis 62. Característica indiciada abaixo. 3.5o o o 8.5 Figura 023. Regressão linear da frente (F t ) e altura H i ) Fonte: Diagrama elaborado pelo autor a partir de dados da pesquisa de campo Traduzindo a relação de outro modo, tem-se em média a dimensão da frente da casa duas vezes e meia a altura, ou seja F t /H i varia entorno de 2,5m. Verifica-se ainda uma grande ocorrência de valores próximo à média. Recompondo geometricamente essa relação ter-se-ia a Figura 024, em que o contorno preto indica um retângulo de valor médio. Figura 024. Proporção dos retângulos e retângulo médio Fonte: Diagrama elaborado pelo autor a partir de dados da pesquisa de campo 59. A correlação entre a área e a lateral é 0,94; entre a área e a frente do retângulo é de 0,68; entre a proporção e a lateral é igual a 0,87 enquanto entre a proporção e a frente é -0, Índice identificado no dossiê como Hi, é a distância tomada do piso da casa ao topo do frechal ou gato. 61. Cf. Anexo II. 62. Coeficiente de correlação r(ft,hi) = 0,77.

60 60 Ora passando a análise das dimensões do alpendre, vê-se que de fato este fica com dimensões próximas aos sete palmos ditos por João Borges Neto 63. Os valores máximo e mínimo encontrados foram 2,07m e 1,07m, medidas tomadas da parede do corpo ao eixo do esteio do alpendre 64. Vê-se também uma relação direta entre a dimensão do alpendre e da frente do corpo da casa. Verifica-se que se mantém constante a dimensão do alpendre próxima a um quinto da frente da casa 65. Seguindo essa regularidade, a coberta do alpendre se mantém, de um modo geral, com inclinações concentradas entre os ângulos 14º e 17º, ou seja ângulos mais suaves que aqueles encontrados no corpo da casa. ialpendre α % <13 4% % % % % % % >19 8% Tabela 006. Ângulo de inclinação da coberta do alpendre Fonte: Tabela organizada pelo autor a partir de pesquisa de campo A partir da percepção de certos indicadores comuns, constrói-se com linhas gerais a forma da frente de cada casa, para em seguida deixar de lado os valores individuais e seguir na busca pelo que há de geral, aquilo que lhe confere identidade, ou seja, a proporção. Para revelar as relações entre os elementos, ignoram-se as escalas e ajusta-se cada desenho de modo a se ter uma única dimensão como largura de base. Revela-se assim a proporção das 26 casas consideradas, chegando-se à imagem da Figura 025, abaixo. Figura 025. Reconstrução individual dos perfis em escala e sem escala, justos na base Fonte: Diagrama elaborado pelo autor a partir de dados da pesquisa de campo 63. Cf. Anexo II. 64. Índice identificado no dossiê como Al 65. Verificou-se que Al/Ft mantém-se próximo a 0,2 em todas as unidades analisadas.

61 61 Sobre a imagem encontrada, constrói-se uma linha mesmo que certa maneira arbitrária que fale das características formais comuns às casas. Busca-se com isso, uma linha que se aproxime adequadamente da forma da frente das casas de taipa. Traçadas sobre aquelas mais escuras e comparando-as com os índices encontrados no dossiê vê-se assim que não são linhas tão arbitrárias chega-se às seguintes linhas de formação: linha de eixo do esteio linha de eixo do esteio 26.90º 15.50º Figura 026. Linhas gerais de formação da frente da casa de Mutamba e Cajuais Fonte: Diagrama elaborado pelo autor a partir de dados da pesquisa de campo Pode ser verificado desse modo que as outras dimensões da casa encontram-se em função de F t. Assim, como dito pelo mestre-carpinteiro em entrevista, a altura da empena é a quarta parte da frente da casa (H e = F t /4); a dimensão do alpendre é igual a quinta parte da frente (A l = F t /5) e a altura do corpo é dois quintos da frente, ou ainda pode-se também dizer que a frente é duas vezes e meia a altura da parede externa (F t =2.5Hi). Reconstruindo a partir dessas relações encontradas, assim como considerando a lateral da casa igual a frente mais um quarto (L t =1.25 F t ) e a orientação de Luiz de Meu Chico 66 para colocação dos esteios, tem-se a forma geral da casa de Mutamba e Cajuais: ia l ic p Hi He Hi Al L t =F t +F t /4 A l =F t /5 H i =F t /2.5 H e =F t /4 Ft Al Lt ic p =26.90º ia l =15.50º 3 ) D e ) 4 Figura 027. Reconstrução a partir das diretrizes de formação encontrada Fonte: Ilustração elaborada pelo autor a partir dos índices encontrados na pesquisa 66. Cf. Anexo II.

62 62 Continuando na estratégia de aproximação às casas de taipa de Mutamba e Cajuais, após a formação do dossiê, um novo recorte foi estabelecido. Selecionaram-se 12, das 26 casas até agora consideradas, para o levantamento arquitetônico. Os critérios para definição desta nova amostragem foram: estado de conservação e/ou originalidade; a data de construção; dimensão da casa; mestre-carpinteiro. Por não ser a intenção da pesquisa tratar do modo de trabalho específico de um mestre e por se pretender a uma abordagem sobre todo o período considerado na tese, procurou-se selecionar as unidades que apresentassem diferentes mestres, dimensões e idades. Assim procedendo, procurou-se definir uma amostra representativa dos vários pontos no espectro social, de períodos construtivos distintos e ainda casas que tiveram a participação de mestres diferentes. Não obstante, deu-se preferência por aquelas que os moradores fossem os proprietários, que tivessem participado da construção e pudessem informar sobre as reformas e alterações submetidas. Dessa maneira, formou-se para levantamento arquitetônico, identificação do uso e ocupação dos espaços da habitação uma amostra com quatro edificações construídas até 1930, três até 1960 e cinco nas últimas décadas do século XX. De um modo geral as casas escolhidas apresentavam um razoável estado de conservação a exceção da casa do senhor José Pereira de Oliveira (Id.:001), com data de construção atribuída à 1905 mas com boas informações sobre alterações e reformas realizadas. As casas selecionadas para este fim, foram: LEVANTAMENTO AQUITETÔNICO ID Latitude Longitude data Proprietário Idade Fonte de Renda Mestres OBS.: º º José Pereira de Oliveira >80 Pecuária - ruína º º Paulo Simão da Costa decadente º º Francisca Bezerra 84 Aposentadoria RU bom estado º º Maria Zumira dos Reis 63 Agricultura/Comércio RC ótimo estado º º Ivanilde Ma. da Costa 68 Aposentadoria LMC ótimo estado º º Joaquim Lourenço Soares ótimo estado º º Anaides Borges de Carvalho 74 Aposentadoria - ótimo estado º º João Borges Neto 77 Aposentadoria/Agricultura LMC bom estado º º Maria Borges do Nascimento 72 Aposentadoria/Agricultura JB bom estado º º José Jerônimo Reis de Sousa 47 Comércio/Confecção AF decadente º º Gerarda da Costa Borges 76 Aposentadoria NP bom estado º º João Eleutério Rebouças 78 Aposentadoria LMC bom estado Tabela 007. Unidades selecionadas para levantamento arquitetônico

63 Figura 028. Foto da casa Id.:001 Fonte: Acervo do autor Figura 029. Foto do Sr. José Oceliano de Oliveira Fonte: Acervo do autor 1926 Figura 030. Foto da casa Id.:004 Fonte: Acervo do autor Figura 031. Foto Sr. Paulo Simão da Costa Fonte: Acervo do autor 1953 Figura 032. Foto da casa Id.:005 Fonte: Acervo do autor Figura 033. Foto Sra. Francisca Bezerra Fonte: Acervo do autor

64 Figura 034. Foto da casa Id.:010 Fonte: Acervo do autor Figura 035. Foto Sra. Maria Rita dos Reis Fonte: Acervo do autor 1970 Figura 036. Foto da casa Id.:028 Fonte: Acervo do autor Figura 037. Foto Sra. Ivanilde Maria da Costa Fonte: Acervo do autor 1926 Figura 038. Foto da casa Id.:041 Fonte: Acervo do autor Figura 039. Foto Sr. Joaquim Lourenço Soares Fonte: Acervo do autor

65 Figura 040. Foto da casa Id.:042 Fonte: Acervo do autor Figura 041. Foto Sra. Anaides Borges de Carvalho Fonte: Acervo do autor 1970 Figura 042. Foto da casa Id.:059 Fonte: Acervo do autor Figura 043. Foto Sr. João Borges Neto Fonte: Acervo do autor 1926 Figura 044. Foto da casa Id.:062 Fonte: Acervo do autor Figura 045. Foto Sra. Maria Borges do Nascimento Fonte: Acervo do autor

66 Figura 046. Foto da casa Id.:063 Fonte: Acervo do autor Figura 047. Foto Sr. José Jerônimo Reis de Souza Fonte: Acervo do autor 1960 Figura 048. Foto da casa Id.:064 Fonte: Acervo do autor Figura 049. Foto Sra. Gerarda da Costa Borges Fonte: Acervo do autor 1893 Figura 050. Foto da casa Id.:076 Fonte: Acervo do autor Figura 051. Foto Sra. Francisca Holanda Rebouças Fonte: Acervo do autor

67 67 Quais são os ambientes que compõem as casas de Mutamba e Cajuais? Como os espaços se articulam em cada uma delas? Na última fase da pesquisa de campo, procurouse conhecer os usos e os modos de organização dos espaços internos à casa da região. Ao que se apresenta, essas também são características que dizem sobre o tipo da arquitetura. De modo geral, para essa aproximação foram realizados desenhos, registros fotográficos dos espaços internos, todos incorporados e organizados no dossiê 67. A partir de novas visitas e entrevistas com os moradores e proprietários, pôdese identificar os ambientes, atribuindo-lhes nomes em coerência com o uso do dia-a-dia. Tão logo foram denominados em acordo com os usos da região, buscou-se encontrar a forma como eles se inter-relacionam. Através da reprodução em uma planta-baixa foram registradas as posições e as dimensões de cada ambiente do corpo, dos alpendres, varandas e do copiar. Ainda, nos desenhos de fachadas e paredes, indicou-se a existência de aberturas, a posição e dimensões dos vãos, de portas e janelas, conforme exemplo da Figura 052, que se refere ao levantamento da casa da Sra. Francisca Bezerra (Id.:005). Figura 052. Levantamento referente à casa 005. Fonte: Desenho do autor Com as informações de campo das 12 casas, construiu-se de cada uma delas uma matriz valorada, ou seja uma matriz cuja as relações entre os ambientes têm pesos diferentes. A partir desta matriz, para melhor percepção da relação topológica dos usos, criou-se um grafo 68, conforme exemplo da Figura 053 que se refere à casa Id.: 005. No grafo despojam-se os objetos analisados os ambientes de suas características visíveis, tratandoos como pontos. A abstração exigida tem o propósito de revelar as relações entre os nós, 67.Cf. Anexo III. 68. Um grafo G=(X,E) é um objeto abstrato constituído por um conjunto X de pontos (sem propriedades), denominados nós ou vértices, e por um conjunto E de linhas entre estes pontos, denominadas arestas. Cf. ROSENSTIEHL, 1988, p.196).

68 68 representadas por linhas. A elas se atribui valor, sinal e direção. Assim se revela a estrutura, ou seja a cardinalidade das relações estabelecidas entre os ambientes. A princípio, foram representados graficamente os níveis das conexões estabelecidas através da atribuição de pesos distintos para as linhas conforme a existência ou ausência de vãos e esquadrias. valor atribuído na matriz = 0 conexão inexistente: paredes sem aberturas ou ambientes afastados. b p r d valor atribuído na matriz = 1 conexão indireta ou parcial: existência somente de janelas ou vãos. q S valor atribuído matriz = 2 conexão direta ou imediata: existência de portas, portais etc. v q s a v Figura 053. Grafo valorado dos ambientes Fonte: Diagrama elaborado pelo autor a partir do levantamento dos usos da casa Id.:005 A partir da análise dos grafos gerados, foi constatado um certo hábito no uso e na organização dos espaços internos às habitações daquela região. Em vista disso e das etapas do processo de construção, pode-se agrupar os ambientes numa classe denominada Zona Funcional e esta num macrozoneamento, aqui denominado Zona de Locação. Evidenciou-se na etapa inicial de construção, a partir dos relatos do mestre Luiz de Meu Chico, a existência de duas macrozonas que se diferenciam desde sua origem, ou seja, desde a fase da marcação da casa na terra. A Zona de Locação é constituída pela Zona do Corpo (zc) e Zona de Alpendre (za) e a Zona Funcional é composta pela Zona de Estar (ze), Zona de Dormir (zd), Zona de Preparo (zp) e Zona de Troca (zx). A primeira macrozona, a Zona do Corpo, apresenta uma certa regularidade em seu uso e modo de organizar-se, enquanto a última mostra-se à guisa de curinga, uma área voltada para a função de preparos e serviços, mas com uma variedade de usos e articulações possíveis entre os espaços. A área do corpo é destinada, normalmente, às funções de estar e dormir da moradia, porém ainda percebe-se o hábito de sempre dispor as salas na posição

69 ID ambientes 14 conexões simétricas menor caminho alpendre/preparo: s-s-r-p ID ambientes 21 conexões simétricas menor caminho alpendre/preparo: s-s-r-p ID ambientes 1 desconectado (varanda) 20 conexões simétricas Figura 054. Grafos Fonte: Diagrama elaborado pelo autor a partir do levantamento arquitetônico, através do sistema Agna 2.1 menor caminho alpendre/preparo: S-s-r-p ID ambientes 1 desconectado (varanda) 14 conexões simétricas menor caminho alpendre/preparo: S-r-p ID ambientes 16 conexões simétricas menor caminho alpendre/preparo: S-s-S-r-p ID ambientes 11 conexões simétricas menor caminho alpendre/preparo: s-s-r-p

70 ID ambientes 17 conexões simétricas menor caminho alpendre/preparo: s-t-r-p s-v-r-p ID ambientes 1 desconectado (varanda) 16 conexões simétricas menor caminho alpendre/preparo: s-t-r-p s-v2-c-p Figura 055. Grafos Fonte: Diagrama elaborado pelo autor a partir do levantamento arquitetônico, através do sistema Agna 2.1 ID ambientes 1 desconectado (depósito) 12 conexões simétricas menor caminho alpendre/preparo: S-t-r-p ID041 a 11 ambientes 13 conexões simétricas menor caminho alpendre/preparo: s-t-r-p s-v-r-p ID041 b 8 ambientes 8 conexões simétricas menor caminho alpendre/preparo: S-t-p ID ambientes 12 conexões simétricas menor caminho alpendre/preparo: s-t-r-p s-v-r-p ID ambientes 16 conexões simétricas menor caminho alpendre/preparo: s-t-r-p

71 71 mais ao nascente, enquanto os quartos localizam-se mais a poente. Colocando em outras palavras, imaginando-se um eixo que passe pelo meio do corpo da casa no sentido de mar à serra, parece sempre se encontrar disposta mais a leste a Zona de Estar e mais a oeste a Zona de Dormir. Porém, como num estado seguinte da evolução na organização e especialização dos ambientes, constata-se em algumas casas, a presença de um único quarto na Zona de Estar normalmente sendo resultado da transformação de uso e de dimensão da sala mais afastada da via. Evento que ocorre como adequação às transformações das necessidades programáticas por exemplo, como atendimento ao crescimento da família e provoca sempre o surgimento de um ambiente de transição, uma área que resguarda a privacidade do novo quarto e estabelece a ligação entre a sala e a Zona de Preparo. Trata-se de uma espécie de corredor que em situações eventuais pode ser usada como área de dormir, uso que se constata por sua dimensão e existência de armadores para rede. A Zona de Preparo, hoje uma especialização de parte da Zona de Troca, agrupa os ambientes com usos voltados para preparos leves e pesados, área de refeições, depósito e banheiro. A exceção deste último, um equipamento incorporado recentemente à casa, todos os outros usos deviam fazer parte do corpo da casa ou estar ligados ao copiar. A Zona de Alpendre, que circunda o corpo da casa, adquire vocações diferentes na região em estudo. A parte mais à frente, aquela mais próxima à rodovia, tem característica particular no modo de uso e, ainda hoje, mantem-se em muitas casas fora da caiçara 69 para fechamento do terreno. Como uma parte da casa que se deixa ao compartilhamento da cidade, ali naquela parte da Zona de Alpendre, cria-se um espaço de acolhimento e proteção a quem chega. Forma-se um espaço híbrido, de uso privado mas aberto. Com efeito, constitui-se numa área específica, uma membrana onde ocorrem as trocas entre a casa e a cidade 70. As outras partes da Zona de Alpendre podem ser divididas em acordo com modo e o uso que se viu adquirir. A faixa mais atrás destina-se normalmente à Zona de Preparo. Contudo, há uma grande diversificação na maneira de organizá-la. Vê-se que ela não se 69. Hoje percebe-se que em algumas casas a cerca de talos da palha do coqueiro e esteios de pau-ferro já foram substituídos por muros, mas estes mantêm a altura da antiga caiçara. 70. Denomina-se este espaço apenas por 'alpendre'. Aquela derivação da za interna, particular, é designada 'varanda'.

72 72 limita à largura normal do alpendre, habitualmente são necessárias duas ou três vezes a largura do alpendre para conformação de todas as funções do preparo. As laterais da Zona de Alpendre, tanto a poente como aquela do lado nascente, ficam em estado de latência a espera de novas solicitações internas para se especializar. Um espaço que se adequará às transformações de necessidades e se conformará às particularidades de uso de cada casa. Nota-se que elas, a princípio, ganham a função de varanda privada. Pode-se, no entanto, já se constatar algumas maneiras de ocupá-las; são modos que variam desde uma área para lavagem de roupas 71, para depósito ou uma área que se incorpora à Zona de Dormir na construção 72, ou ainda que será incorporada para a criação de um novo quarto 73, como solução encontrada na casa (Id.:059) do Sr. João Borges Neto. Pondo numa tabela as etapas da classificação, tem-se a Tabela 008. Zona Locação Zona Corpo Zona Alpendre Símbolo Cor Zona Funcional Símbolo Cor Ambientes Símbolo Cor zc Zona Estar ze Sala estar e Sala tv s Zona Dormir zd Transição t Quarto q za Zona Preparo zp Banho b Depósito d Copiar c Preparo p Refeição r Zona Troca zx Varanda v Alpendre a Tabela 008. Quadro com a classificação dos ambientes por seus usos Ressalta-se o modo de organizar os ambientes em zonas funcionais e estas em duas macrozonas como aqui proposto; é uma organização que também fala dos estados de formação da casa durante o período de construção. Com efeito, ainda se pode notar que são etapas que contam não só sobre a poiesis de uma casa, como no exemplo apresentado da casa Id.:005 na Figura 056, mas parecem falar no processo, parecem carregar, toda a história de formação da tipologia das casas alpendradas de Mutamba e Cajuais. É como se ali, durante a construção de uma única casa, seja pelas estratégias de divisão dos espaços 71. Cf. Figura Na construção da casa Id.:028 e da casa Id.:059 a varanda mais a poente fora incorporada aos quartos, por iniciativa do proprietário, em etapa posterior a marcação do corpo. 73. Parte da varanda mais ao nascente fora incorporada, em reforma, como quarto. Cf. Anexo III, p.??? (João Cambota)

73 73 internos, ou mesmo por sua geometria final, estivessem condensados no processo os vários tempos, remetendo às casas de fazenda do vale do Jaguaribe 74 formadas durante o histórico período do ciclo do couro. A exemplo de uma representação do processo de divisão e especialização dos espaços internos, propõe-se a construção gráfica que se refere a cinco estados de formação de duas casas. A casa de propriedade da Sra. Francisca Bezerra (Id.:005 ) e a de propriedade da Sra. Gerarda Borges (Id.:064). Enfatiza-se porém que como em qualquer processo de formação, nota-se uma assimetria entre o tempo processual e o cronológico, por exemplo entre os estados S 1 e S 2 pode ocorrer em apenas alguns poucos dias enquanto para mudar do estado S 4 para S 5 podem se passar muito mais que alguns meses ou anos. S1 S2 S3 S4 S5 Figura 056. Estados de formação da casa 005 Fonte: Ilustração elaborada pelo autor S1 S2 S3 S4 S5 Figura 057. Estados de formação da casa 064 Fonte: Ilustração elaborada pelo autor A partir das imagens apresentadas, pode-se perceber que do corpo derivam ze e zd, enquanto zp é função do alpendre. Da zd, que na maioria dos casos forma-se a partir da divisão ao meio de zc, derivam os quartos em número de 2 ou 3, ou seja, cada quarto ocupa de 1/4 a 1/6 da zc 75. Nota-se, com efeito, uma área média de 12,8m 2 no universo analisado. Importante ainda perceber que pelo menos uma das dimensões do quarto deve ficar próximo à 3,6m 76. Da ze advêm as salas que ainda podem se especializar em sala de estar e 74. Cf. Capítulo II desta tese. 75. Cf. Anexo IV. 76. Cf. Anexo IV.

74 74 sala da televisão, esta última atualização ocorre na maioria das vezes na sala mais próxima à rua. Vê-se ainda, em algumas casas, a sala mais interna transformando-se em quarto e transição. Efetivamente, em metade das casas analisadas havia ocorrido essa transformação da sala em quarto e transição. Em vista disso, faz-se necessário a inserção de um estado intermediário na especialização de ze. Um estado S que carregue a condição S!qt e. zd [005,064] FtLt/2 100% qq [005,064] zd/2 zc FtLt 17% 25% zd [010,028,059] 3(FtLt)/5 33% 67% qq [010] qqq [028,059] zd/2 zd/3 33% zd 100% qq zd/2 FtLt/3 [001,062,063,076] [001,062,063,076] 25% zd [004,041,042] 2(FtLt)/3 67% 33% qqqq [004,041] qqqq [042] zd/4 zd/4 Figura 058. Especialização, pesos e regras de divisão de zc!zd Fonte: Ilustração elaborada pelo autor Através das análises e índices encontrados, como se verifica nas tabelas do Anexo IV deste trabalho 77, pôde-se inferir sobre algumas regras nos modos de especialização e de divisão do corpo aos quartos (zc!zd!qq...). Numa representação geral do processo de geração dos quartos a partir dos corpos das 12 unidades, como se pode ver na Figura 058, zc se especializa em zd seguindo as regras de divisão de sua área aqui expressada pelo produto da frente pela lateral (F t L t ) ao meio, em um terço e dois terços. Verifica-se nos corpos, cuja a dimensão F t está próxima a seis metros (Id.:010, Id.:028, Id.:059), a incorporação da área lateral de zx imediata à zd, como parte do corpo a ser considerada na divisão. Ressalta-se que a largura de zx é com freqüência próximo a 1/5 de F t. Em vista disso, pode-se concluir que a especialização de zc!zd ocorrerá sobre uma área correspondente a 3/5 de zc. De zd aos quartos as restrições fundamentais de divisão são duas: - deverá sempre existir uma medida interna ao quarto próxima a 3,6m; 77.Cf. Anexo IV.

75 75 - a área do quarto deve ficar próximo à média (12,8m 2 ), respeitando os limites máximo e mínimo, respectivamente 16,7m 2 e 9,9m 2. Ademais, pode-se ainda verificar através das divisões apresentadas na Figura 058, que estas ocorrem no mínimo em duas (zd!qq), o que constitui a grande maioria próximo a 60% dos casos e no máximo dividem-se em quatro (zc!qqqq). De modo complementar à parte do corpo na divisão zc!zd, num processo paralelo de produção à especialização de zd ocorre a de ze 78. Desta última, normalmente desdobram-se as salas. Segue-se com o uso a especialização em sala de estar e a outra sala como da televisão. Verifica-se, também com o tempo, em alguns casos a transformação de uma das salas em quarto e transição (S!qt). Em vista disso, por questão de convenção formal, adotar-se-á para identificação de tal sala a letra maiúscula S, representando com isso o ambiente que ainda poderá se diferenciar. Assim, como exemplo de uma notação para a primeira especialização ocorrida com ze, tem-se ze!ss. Onde S pode em seu estado terminal especializar-se em e ou em qt, posto de outra forma, após a produção ze! ss segue-se a produção na forma S! e qt. Com efeito, essa última especialização deve estar conformada às duas restrições de dimensão para a formação dos quartos. Assim, a partir de ze, pode formar-se a sala onde existe a televisão, o quarto e a área de transição entre a sala e a zona de preparo organização freqüente. ss [059] 2(#zD)/3 sqt [059] #zd/3 #zd 8% 84% 8% ss #zd/2 [001,004] [005,010] [041,042] [062,063] [064,076] 50% 50% sqt #zd/2 [001] [041,062] [063,076] se #zd/2 [004,005] [010,042] [064] ess [028] #zd/3 Figura 059. Especialização, pesos e regras de divisão de ze Fonte: Ilustração elaborada pelo autor 78. O símbolo #, representa o "não em" e será usado para simplificar a especificação celular. Assim, #zd significa que a célula considerada é complemento da célula zd. Segue-se a notação adotada em < library/ pdf >.

76 76 A zp ocupa a parte aos fundos da za, área que corresponde a toda a extensão da frente ou lateral, a depender da orientação da casa. Às vezes a Zona de Preparo se espraia em uma ou nas duas laterais da Zona de Alpendre, ocupando neste caso o total correspondente a extensão da casa aos fundos mais duas vezes a dimensão do alpendre, posto de outra forma, a extensão zp corresponde a F t +2Al. Contam-se seis do primeiro caso e cinco do último. A ocupação total das laterais verifica-se apenas nas casas menores. Aquelas com área de corpo não inferior a 40m 2 e não maiores que 72m 2. A ocupação parcial é observada nas casas maiores, com área de corpo acima de 71m 2. Contudo, uma exceção foi notada. A casa Id.:041 do Sr. Joaquim Soares, após levantamento arquitetônico, mostrou-se uma casa que não se espraiou em nenhuma das laterais da Zona de Alpendre. De um modo geral, verifica-se que a área total da Zona de Preparo corresponde a duas ou três vezes a área da faixa de za aos fundos mais os respectivos avanços laterais 79. zp Al(Lt+2Al) 20% zp [005] 2(Al(Lt+2Al)) [005,010] 80% 45% [028,059] [064] [010,028,059,064] 3(Al(Lt+2Al)) zp za 55% zp Al(LtAl) [001,004] [042,062] [063,076] 16% 84% zp 2(Al(Lt+Al)) [063] [042] [062,076] [001,004,062] 3(Al(Lt+Al)) zp Figura 060. Especialização, pesos e regras de divisão de za!zp Fonte: Ilustração elaborada pelo autor Da zp pode, como já apresentado, derivar organizações compostas por uma combinação de ambientes como refeição, preparo, depósito, banheiro e copiar. Assim, uma geração como zp!drpb é exemplo encontrado na região esta refere-se precisamente à casa 005. No entanto, observam-se condições diversas nas regras de formação. Mostra-se regular na formação da refeição e preparo, enquanto para os banheiros e depósitos, mostra- 79.Cf. Anexo IV.

77 77 se num jogo de composição mais livre. Porém esses jogos ocorrem sempre nas extremidades de zp, enquanto a formação de refeição e preparo restringe-se à parte interna da Zona de Produção. [042] [041] [001] TEMPO DO PROCESSO Si [010] [076] Sn [028] TEMPO DO PROCESSO Si [004] [062] Sn [059] [005] Sn TEMPO DO PROCESSO Si [064] Figura 061. Estados da forma assumida por zp, a partir dos três estados iniciais. Fonte: Ilustração elaborada pelo autor a partir de pesquisa de campo. Com efeito, estes dois últimos ambientes dividem o espaço que corresponde à projeção do corpo da casa em zp. A refeição, articulada com a sala ou com a transição, sempre se forma no lado mais à nascente. Posto noutros termos, a refeição ocupa o lado correspondente de ze, enquanto o preparo segue se desenvolvendo em zp na orientação

78 78 correspondente à zd, como se mostra nas Figuras 062 e 063. Verificou-se que a divisão entre refeição e preparo se constitui através de uma parede com portal ou uma meia parede. Porém, como é mais frequente, a diferenciação dos ambientes ocorre apenas nos equipamentos e mobiliários 80, o que torna difícil precisar um limite entre uma e outra área. Mesmo nesta configuração, vê-se a mesma forma em que o ambiente refeição e preparo derivam de zp. Através da comparação entre as 12 Zonas de Preparo, bem como através dos relatos dos proprietários e moradores sobre as transformações ocorridas, percebem-se três modos iniciais para o que hoje lá se vê. A primeira, e mais antiga, constitui-se na geração apenas da refeição e do preparo, zp!rp. Não havendo copiar, depósito e nem banheiro incorporado. Como esclarece o Sr. João Borges Neto, o banheiro era de palha de coqueiro e construído fora. A segunda e terceira forma encontrada já incorporam o depósito à zp, porém em uma das soluções o depósito aparece contíguo ao preparo enquanto na outra está ao lado da refeição. Através da Figura 061, página anterior, procurou-se ordenar os vários estados da forma em seus respectivos níveis do processo de formação. Como exemplo, vê-se nas casas 059, 064 e 005, respectivamente casas construídas em 1970, 1960 e São casas que partem da mesma forma de organizar a zp mas diferenciam-se nos modos de evoluir. Cronologicamente, são transformações que se ordenam em datas diferentes. Contudo, processualmente as casas do 064 e 059 ocupam o mesmo nível de formação. Posto noutros termos, a casa do Sr. João Borges Neto parte da organização depósito, refeição e preparo (dpr), acrescenta um banheiro e o copiar (dpr!dprbc) para noutro tempo incorporar outro banheiro (dpr!dprbc!dprbcb). Na casa 064, da Sra. Gerarda Borges, ocorre primeiro o acréscimo do copiar para em seguida ocorrer a divisão do depósito em depósito e banheiro, ou seja dpr!dprc!dprbc. Ressalta-se ainda que a casa 005, mais antiga, ocupa um nível anterior ao das duas mais recentes, ou seja ocorreu apenas uma transformação na composição e estrutura de zp. Ainda na especialização de zp, o copiar surge sempre como uma faixa mais afastada do corpo, podendo ser formado mesmo depois num etapa posterior do processo. No copiar acontecem todos os preparos pesados da casa. Contíguo a ele pode ainda se ver um 80. Cf. Anexo III,

79 79 banheiro. Construídos normalmente com paredes de tijolos, os banheiros são os últimos a se formar. Os banheiros com área média de 3,8m 2 são os menores de zp, representando cerca de 10% da área total da Zona de Preparo. Observa-se que, a exceção das casas 004 e 063, ao menos uma das dimensões do banheiro corresponde à Al. Vê-se que ele surge como especialização de zx ou, como ocorrido na casa 064, deriva do depósito. A parte da za que não se transforma em preparo, especializa-se na denominada Zona de Troca. Esta, identificada como zx, pode se modificar em alpendre, varanda 81, ou simplesmente alterar seu estado para zp ou zd. Das doze unidades analisadas, seis hoje ocupam a lateral de zx modificando-a para zd e zp. As quatro casas em que zx transforma-se em zd são pequenas, têm área de corpo abaixo de 65m 2. Nas duas outras maiores, zx transformase em zp, que em seguida se especializa em depósito. Observa-se que em todas as unidades com a dimensão F t próxima a 6m, ocorre a modificação de zx em zd e esta em quartos. Uma especialização necessária para que a metade de F t fique próximo aos 3,6m. Na maioria dos casos vê-se primeiro a divisão ao meio de F t para depois haver a incorporação de zx à zd, resultando em quartos com uma das dimensões igual a F t /2 + A l. Contudo, ocorre que quando muito pequena, como se verifica na casa 010 com a frente próximo a 5,5m, primeiro ocorre a incorporação da parte lateral de za por zc para só então haver a divisão do corpo ao meio. De outro modo, primeiro ocorre a especialização para só então haver a divisão, ou seja F t +A l /2. Contudo, é importante notar que não se trata de um processo de geração num sistema isolado; vê-se que o ambiente age sobre o seu desenvolvimento interno. Com efeito, mostram-se algumas das características próprias ao ambiente como fortes condicionantes do processo de formação. Duas são efetivamente direcionadoras: o percurso do sol e a via que leva à cidade. Para melhor ilustrar como o sistema em formação reage ou é afetado pelas condições do ambiente, incorpora-se aos diagramas de evolução das casas 005 e 064 apresentados nas Figuras 056 e 057 as respectivas implantações das referidas unidades. No entanto apresenta-se apenas em três estados do processo: os estados S 1,S 3 e S 5. Justifica- 81. Importante ressaltar a diferenciação feita na designação das duas especializações. Como 'alpendre' entende-se na tese apenas aquela área fora do limite da frente do terreno, um espaço ao mesmo tempo público e privado. A outra área derivada do zx mas interna ao terreno, para uso privado, denominou-se varanda.

80 80 se a escolha destas casas por terem características internas semelhantes, mas diferirem quanto à orientação e posição relativa à via, se em terras mais ao mar ou mais ao centro. N N N Figura 062. Relação do ambiente na formação da casa 005 Fonte: Ilustração elaborada pelo autor N N N Figura 063. Relação do ambiente na formação da casa 064 Fonte: Ilustração elaborada pelo autor São duas casas pequenas, em média com zc de extensão próxima a 60m 2 e formada por dois quartos e duas salas. A zp ocupa completamente a za ao fundo. No entanto, estão orientadas e posicionadas de modo distinto uma da outra. A casa 005 se encontra posicionada ao lado esquerdo da via, no sentido de quem vai ao centro da cidade, enquanto a 064 se localiza à direita. Quanto ao eixo principal da casa, aquele que se confunde com a cumeeria e orienta a empena, na primeira encontra-se paralela à via, enquanto na 064 é perpendicular. São de fácil percepção, a partir da comparação das duas ilustrações, os estímulos advindos do ambiente para formação dos espaços da casa. As divisões inicias e as especializações que seguem o corpo zc e o alpendre za respondem à condição de insolação e vento, assim como a proximidade à via, antiga vereda. As principais reações, algo como um arquitropismo, podem ser acompanhadas a partir da evolução representada nas referi-

81 81 das figuras. Nelas, vê-se que sempre as horas iniciais de luz do dia orientam a divisão do corpo (zc! zdze) atraindo a ze, equanto as horas finais definem zd. As divisões e especializações primeiras da za (za! a zxzp) seguem orientadas pela via. No movimento de diferenciação da za a via atrai para si, força em seu sentido o movimento de formação de za em alpendre; e num sentido contrário, a condição de proximidade da via, inibe, afasta o surgimento da zp. Em vista disso, a via de acesso (Rodovia CE 261) e o eixo norte-sul são acrescentadas às restrições externas, aquelas apresentadas como a redução da dimensão da frente do terreno e como algoritmo de formação trazido pelo mestre-carpinteiro. Em resumo, com a organização do dossiê, composto por registros fotográficos, desenhos, tabelas, grafos e registros audiovisuais, muito se pôde conhecer sobre o edifício e sobre o tipo arquitetônico. Nas entrevistas com os proprietários foram revelados os modos de organização de produção, os festejos e dificuldades enfrentadas na formação da parte interna. Ainda com os proprietários e moradores pode-se identificar os usos atribuídos aos ambientes da casa. Com os mestres-carpinteiros descobriu-se o processo de construção das casas, os termos e denominações dos elementos construtivos, algumas lógicas e diretrizes adotadas. Assim através das análises e comparações morfológicas se comprova a existência de regras gerais de formação. Desvela-se através das recorrências e das singularidades, o tipo e seu processo de transformação. Mas como representar adequadamente uma poiesis?

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83 Capítulo II gen"sis posição dos astros relativamente ao seu nascimento; estrela; sina

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85 85 S empre tive, assim como muitas pessoas, mais interesse por processo do que pelas coisas em si. A princípio, costumava desmontar coisas, comparava as partes procurando entender como essas se relacionavam para fazer tudo funcionar. Durante a graduação, em arquitetura, interessavam-me os croquis e rascunhos dos arquitetos urbanistas. Percebia mais qualidade naqueles do que nos desenhos da etapa final de projeto, pois traziam mais informação, falavam mais sobre o pensamento e valores dos autores. Ali era possível estar perto novamente do momento de elaboração e criação do projeto. Percebiam-se as dúvidas e as determinações que iam sendo estabelecidas para o desenvolvimento da idéia de uma casa, de uma praça ou para proposta de intervenção em dinâmicas evolucionárias de uma cidade. De uma certa forma também, era uma maneira de responder à pergunta de um dos nossos professores 1 da graduação: qual o pensamento que há por detrás do traço? 1. Questão usualmente colocada na disciplina de Projeto Arquitetônico, pelo professor Roberto Castelo do Departamento de Arquitetura e Urbanismo da Universidade Federal do Ceará, com o propósito de apontar para a "responsabilidade do traço", ou seja, de atribuir ao autor do projeto uma responsabilidade com a história, cultura e sociedade ao tratar das questões suscitadas pela problemática do projeto.

86 86 Hoje, de fato, percebo que o que mais me fascinava não era só a qualidade gráfica dos traços do grafite 6B sobre o papel-manteiga, mas a possível aproximação à experiência criadora. Interessava-me o jogo de conexões e hipóteses que aqueles diversos desenhos à mão possibilitavam. Para mim, era uma maneira de estar mais próximo do ato de projetar, um modo de refazer o percurso de criação, trazendo à tona algo que havia ficado oculto. Naqueles traços à lápis era possível encontrar algumas das várias soluções abandonadas durante o processo de formação da idéia. Ao compará-las com a solução do projeto final entregue ao contratante, mostravam-se claramente as intenções e restrições estabelecidas e encontradas. Ali, estavam à vista os critérios de escolha, os valores, a lógica de formação estabelecida, enfim revelava-se o pensamento que havia por detrás do traço dos autores. Vejo que não estou só. Ora, percebo que não são poucas as pessoas que se interessam pelo processo de formação. Com efeito, o interesse é secular e pode ser visto nos vários domínios do conhecimento, desde a arte 2, a biologia 3 até a engenharia. Ademais, ao que se mostra, com a efetiva incorporação dos novos meios à vida contemporânea, a abordagem processual se torna quase que necessária. Refiro-me não só aos desdobramentos que os novos meios vêm provocando no âmbito da crítica de arte ao qual, de certa forma, também me insiro, mas principalmente no modo de ver e produzir imagens. Pesquisadores vinculados a grupos como Aesthetics + Computation 4 ligado ao Massachusetts Institute of Tecnology (MIT), ou mesmo pesquisadores independentes, como George Stiny, William Mitchell, George Hersey, Richard Freedman 5, José P. Duarte 6, ou ainda José Wagner Garcia, Luciano Silva, Fábio Miranda 7, têm apontado para o processo de formação que há por trás daquilo que aparece. Adotam como objeto de suas pesquisas as lógicas, os algoritmos, que 2. A temporalidade e processualidade são características próprias a algumas obras, grupos, movimentos ou correntes artísticas. O Grupo Fluxus que segundo Walter Zanini (2004, p.11-15) tem esse nome de origem latina por querer dizer "mudança contínua", "estado não determinado", "flutuante". O Grupo Fluxus configurou-se como uma comunidade informal. Preconfigurou-se no final dos anos 50, com um período de maior proeminência na contribuição às grandes transformações da arte ocorrem nos anos 60. Fluxus rejeitava o "objeto de arte [...] como um bem não-funcional a ser vendido", declarando em 1966, através de manifesto Maciunas declararia que Fluxus "abandonava a distinção entre arte e não-arte". O grupo incluía como meios de expressão concertos, happenings, performances etc. 3. Cf. THOMPSON, 2005; PRUSINKIEWICZ, 1996; STEIGERWALD, Cf. GREENBERG, 2007; REAS, 2007; MAEDA, Todos vinculados com o MIT. 6. Professor associado à Universidade Técnica de Lisboa, desenvolveu uma tese sobre a gramática de formação das casas da vila de Malagueira, projeto do arquiteto português Alvaro Siza Vieira. 7. Estes últimos são pesquisadores integrantes do Grupo Cognitus, < >.

87 subjazem à morfogênese, traduzindo-os para linguagens próprias à computação. De um modo geral, o algoritmo pode ser entendido como representação de um processo, ou ainda, posto em termos próprios à ciência da computação, uma descrição passo a passo de um procedimento onde há a transformação dos valores de entrada (input) em valores de saída (output) 8. Portanto, para esses investigadores a beleza do algoritmo é um padrão matemático que pode estar tanto num trecho de uma música, num cristal, ou simplesmente como numa estranha coincidência de eventos 9. Nos meses finais de 2000, encontro 10 um grupo de pesquisadores que se volta para o processo de criação na literatura e nas artes em geral. Um grupo que intencionava a uma crítica mais objetiva através de estudos sobre o processo de formação. Formado por pesquisadores da Pós-Graduação em Comunicação e Semiótica da PUC-SP, este grupo vinculavase 11 a outro na Faculdade de Filosofia, Letras e Ciências Humanas da USP. Dois grupos com mesma denominação no princípio e que se propõem a uma abordagem processual sobre a obra, porém o primeiro mantém algumas diferenças em relação ao segundo: não se restringe à literatura, estende suas pesquisas às artes, à arquitetura, à ciência, ao design, a qualquer campo que envolva processo de criação; não se limita a obras de algum autor; tem como base a semiótica; considera a obra como parte de um processo inacabado, ainda em formação. 87 É nesse grupo que encontro a possibilidade para aprofundar, de maneira sistemática e organizada, o meu interesse sobre o processo de geração. De certo modo, também era uma maneira de responder à questão colocada na graduação pelo professor de projeto de arquitetura. 8. Cf. CORMEN. et al., 2001, p GRENNBERG, 2007, p O encontro se efetiva com a pesquisa realizada, entre 2001 e 2003, na PUC de São Paulo sobre processos de criação com os novos meios. O trabalho rendeu, entre artigos publicados e apresentação em congressos, a dissertação. Cf. CAR- DOSO, Apesar das diferenças constituídas ao longo do tempo, ainda hoje os dois grupos mantêm reuniões regulares como parte das atividades do Núcleo de Apoio à Pesquisas em Crítica Genética da USP, NAPCG-USP. Este mantém vínculo com o Institut des Textes et Manuscrits Modernes (ITEM).

88 88 Crítica Genética A Crítica Genética (CG) é uma linha que se define quando um grupo franco-germânico de pesquisadores é formado, em meados dos anos 60, para organizar os manuscritos literários do poeta e prosador alemão Heinrich Heine, que haviam chegado à Biblioteca Nacional da França (BNF). Esses pesquisadores enfrentaram problemas metodológicos ao lidarem com tais manuscritos 12, sem no entanto, deixarem de perceber nesta operação, a importância do processo formador, do fazer, assim como de atentar para as inúmeras obras possíveis que lá se encontravam. Desse modo, quase de uma maneira espontânea, surge a CG como uma abordagem, que ocupa durante os anos 70, um novo lugar na pesquisa literária na França. Assim a CG aparece e ganha força como uma opção à fixidez e fechamento textual do estruturalismo, dessacralizando e desmistificando o texto dito definitivo. Insere-se, afirma Almuth Grésillon 13, como um novo olhar que, implica, se não uma escolha, pelo menos prioridades: as da produção sobre o produto, da escrita sobre o escrito, da textualização sobre o texto, do múltiplo sobre o único, do possível sobre o finito, do virtual sobre o ne varietur, do dinâmico sobre o estático, da operação sobre o opus, da gênese sobre a estrutura, da enunciação sobre o enunciado, da força da manuscrição sobre a forma do impresso. Com esse propósito, a CG adota como objeto: os manuscritos, rascunhos, esboços, ou quaisquer outras marcas de uma poiesis sobre a matéria, índices de uma dinâmica de um texto em evolução. Lança um olhar que permite perceber o texto inserido em um tecido 14 mais amplo. Uma pequena rede complexa e dinâmica de relações sígnicas imersa em uma consciência. Um texto tencionado como um possível necessário 15, algo que tenderá a existir, para depois novamente vir-a-ser. 12. SALLES, 2000, p GRÉSILLON, 2002, p Texto com acepção de tecido tal como textus - usado com este sentido na Idade Média. Cf. HAY, 2002, p Ibid., p. 32.

89 89 O crítico genético adota, de modo geral, como etapas de seu método: a descrição, a interpretação, a classificação e inter-relação dos índices do processo. Nesta operação procura recorrências, hábitos do processo, para sobre esses encontrar as singularidades, a informação, o que aparece como novo. Busca reconhecer padrões e identificar diferenças na reconstituição do percurso da criação de uma obra. Procura recuperar conexões estabelecidas durante o processo de construção do texto comparando uma versão com as versões anteriores. Em assim procedendo, afirma Grésillon 16, o crítico propõe, no desnudamento do corpo e do curso da escrita, a construção de uma série de hipóteses sobre as operações de escrita. Entendem-se como índices aqueles signos que carregam a memória de um gesto, signos que representam a ação de um pensamento. Numa definição sistêmica, o processo pode ser entendido como uma série de eventos no tempo. Eventos são mudanças de estados de um texto por exemplo percebidas discretamente, pelo crítico genético, através dos documentos de processo e recuperados para análise e interpretação. O pesquisador genético estabelece nexos entre os vestígios encontrados, e entre estes, nas suas várias versões, e o texto entregue ao público com a intenção de reconstruir a história do percurso de criação da obra. O pensamento genético define seu espaço na literatura e consolida-se na França com a criação do Institut des Textes et Manuscrits Modernes (ITEM) como laboratório ligado ao Centre National de Recherche Scientifique (CNRS) e mais recentemente à Ecole Normale Supérieure (ENS). Vai além, extrapola muros e chega ao Brasil em 1985 trazido por Philippe Willemart por ocasião do I Colóquio de Crítica Textual: o manuscrito moderno e edições realizado pela Faculdade de Filosofia, Letras e Ciências Humanas da Universidade de São Paulo (FFLCH-USP). Consolida-se no Brasil com a formação, no mesmo ano, da Associação de Pesquisadores dos Manuscritos Literários 17 (APML) e através das inúmeras pesquisas de CG que começam, a partir daquela data, a serem desenvolvidas na Universidade de São Paulo. 16. GRÉSILLON, 2002, p Denominação que perde sentido, dada às inúmeras áreas, não só literatura, em que a abordagem genética se efetivou. Outras denominações já foram propostas nas reuniões regulares do Núcleo de Apoio a Pesquisa em Crítica Genética da USP (NAPCG-USP), sendo efetivada a mudança em 2007 para Associação dos pesquisadores em Crítica Genética.

90 90 A CG ganha amplitude teórica, em 1990, com a abordagem semiótica proposta por Cecilia Salles na tese Uma criação em processo: Ignácio de Loyola Brandão e não verás país nenhum, apresentada na Pontifícia Universidade Católica de São Paulo (PUC-SP). Com este trabalho a CG se abre para a necessária condição transdisciplinar, transartística e transemiótica preconizada por Daniel Ferrer 18. Neste vetor expansivo, ampliam-se as áreas de pesquisas, atravessando fronteiras da literatura para o domínio das artes 19 e assim a abordagem genética, que iniciara com autores ligados à literatura 20, segue para as artes em geral 21. Expansão da Crítica Genética Admitindo que já sejam grandes as contribuições trazidas pela CG, principalmente ao domínio da crítica de arte, por sua abordagem em favor de uma crítica mais objetiva, qual será o seu futuro? Em que sentido os limites de tal área de pesquisa ainda devem ser ampliados? Problemática que matiza o desenvolvimento desta tese e que a orienta em direção ao passo seguinte do sentido à transdisciplinaridade 22. Posto noutros termos, o trabalho considera que o futuro da CG não será somente de continuar expandindo para outros domínios 23 com olhar que parte da obra e aponta para trás mas considera que, uma vez apreendida a lógica do processo de formação, seja o momento de lançá-la para frente e especular sobre os futuros possíveis em coerência com o pensamento encontrado. Postura admitida nesta pesquisa e que a coloca no âmbito daquelas que tratam de questões de representação e fundamentalmente de semiótica. É pois tempo de aproximar efetivamente a CG à ciência. Não simplesmente transpondo questões de maneira direta, ponto a ponto, mas concertar, harmonizar metodologias 18. Cf. FERRER, 2002, p Cf. SALLES, Cf. HAY, 2002, p Cf. SALLES, 2002, p SALLES, op. cit., p Pesquisas com abordagem genética e processual devem ter continuidade, como de fato se vem realizando no Centro de Estudos de Crítica Genética (CECG) da PUC-SP, com trabalhos que lidam com documentos de processo de cientistas, filósofos, arquitetos, jornalistas, entre outras atividades. Apesar do acervo já desatualizado, estão disponíveis algumas das pesquisas já realizadas pelo CECG em:

91 91 e conceitos de uma área à outra. Observar atentamente, perscrutar métodos, soluções de representação, de modelagem e de visualização na ciência, considerando sua adequação à CG. Em uma acepção geral, seria adotar um estilo de pensamento e ação 24 próprio à ciência. Contudo para se exaurir tal concerto, seria necessário uma pesquisa que tome para si este propósito como principal. Um trabalho a ser realizado cuidadosamente por um grupo multidisciplinar de pesquisadores, que procure estabelecer semelhanças e singularidades dos objetos e teorias de cada domínio buscando constituir uma nova área. No entanto, sem ser esta intenção da tese, mas não podendo prescindir de tal acordo por se admitir a sua ausência, procura-se fundamentar o trabalho que ora se desenvolve nas teorias e conceitos da TGS 25, por buscar ser esta uma Ontologia Geral. Recolocando as questões apresentadas no início desse tópico, mas agora recolocando-as numa outra forma, o que se configuraria como uma CG expandida? Apresentando de um modo sucinto, deve se delinear como uma pesquisa que se volta objetivamente para os processos de formação, para os processos de geração da forma, ou ainda numa acepção própria à TGS, para a formação de um sistema 26. Deve ter como foco questões concernentes à adequada representação de tais processos, encontrando meios apropriados para representar uma morfogênese. Ora, entende-se por adequada representação a proposição de um signo que carregue não só a adequação lógica ao objeto mas também a mesma qualidade operativa de um processo. 24. BUNGE, 2002, p Cf. nota 8 da Introdução deste trabalho. 26. Define-se sistema, a princípio, conforme a escola russa. Para Avanir Uyemov (1975, p. 96) sistema é definido como uma multitude de elementos (m) em que a relação (R) é autorizada com a prévia determinação da propriedade (P). A fórmula é como segue: (m) S = d f [R(m)] P. Jorge Vieira chama a atenção que o autor propõe a definição, a princípio, para sistemas artificiais, dado que as propriedades são previamente determinadas. Porém, a definição e formalização proposta por Uyemov se adequada aos sistemas naturais, onde muitas vezes propriedade emergem sem sua prévia determinação. Assim sendo, proponho seguir a leitura clara que Jorge Vieira (2007a, p.88, 2007b, p.31-34, 2006, p.2) traz para definição de Uyemov. Vejamos: dado um agregado (m) de coisas (qualquer que seja sua natureza, idéias, notas musicais, estrelas, pessoas etc.) será um sistema S quando por definição existir um conjunto de relações R entre os elementos do agregado de tal forma que venham a partilhar propriedades P. A vantagem dessa definição é que nos permite uma leitura direta da noção de sistema a partir de um de seus parâmetros mais simples, a idéia de composição, como expressa pela notação (m), o agregado que formará o sistema. De forma compatível com a formulação de Bunge, essa definição permite raciocinar em termos de Teoria dos Conjuntos. Um outro aspecto positivo da definição de Uyemov e que não comparece nas definições normalmente encontradas na literatura, é o fato explicitado por P, a ou as propriedades partilhadas, o que permite conectar a visão do Atomismo com a do Holismo, gerando o Sistemismo (BUNGE, 1979:39-43). Ou seja, a transição de um agregado de elementos ou mesmo de sistemas para um sistema de nível mais alto é obtida a partir da emergência de propriedades que desaparecem se o novo sistema for deixado em seus componentes disassociados.

92 92 Qual seria então o seu objeto de estudo? Certamente o objeto de tal área, não mais devem ser só os manuscritos literários, rascunhos, croquis, copiões ou quaisquer que seja a natureza do vestígio do processo de criação. Se assim for considerado, não haverá em um curto espaço de tempo impedimento algum a uma valorização demasiada de tais documentos. O que representaria o retorno a um fetichismo, agora não mais à obra mas aos manuscritos. O objeto de pesquisa para uma CG expandida não seria a volta à obra em si, acabada e entregue ao público, mesmo que esta traga traços ou referências explícitas ao processo, como aqueles filmes metacinematográficos, que mostram uma câmera e um ator ensaiando, ou a pintura que constrói um quadro dentro do quadro como coloca Jean-Claude Bernardet 27. Também não estaria só na estrutura de relação que se pode perceber e até representar através de grafos relacionais entre os diversos elementos do processo, encontrando índices estatísticos 28 referente às conexões estabelecidas entre os elementos da rede analisada. Agindo deste modo chegar-se-ia próximo à fixidez dos estruturalistas. Mas então, o que deverá ser conhecido? Aquilo que deve objetar não está acessível de maneira direta e imediata à experiência da percepção, pois o objeto, como um sistema, tem a qualidade de um pensamento. Não é tangível, mas se indicia através da forma 29 e nela aos poucos se mostra. Com efeito, pode ser encontrado na história do sistema, na memória de sua formação, posto ainda noutras palavras, pode-se ver nos índices do processo de internalização das relações do sistema com o ambiente. Aquilo que se deve conhecer é visto na série de configurações da estrutura 30 que o sistema assumiu ao longo do tempo. Assim, o objeto é encontrado não só no agregado, nos elementos básicos de formação, mas também nas relações que se estabelecem entre estes. É visto nas regras, na 27. BERNARDET, 2003, p Cf. WASSERMAN, Forma será também entendida como uma memória de um sistema, ou ainda como resultante do processo de adaptação desse em busca de sua permanência com seu ambiente físico, cultural, social etc. A forma, em outras palavras, é um parâmetro sistêmico que deve estar relacionado à história do sistema, ao seu processo de internalização das relações com o ambiente e outros sistemas Cf. capítulo III desta Tese. 30. Na TGS, segundo Vieira (2003, p.347; 2006, p ; 2007, p.43-50) a estrutura é um dos parâmetros evolutivos, e significa simplesmente o número de relações estabelecidas no sistema até um determinado instante de tempo. Ou seja, se fotografarmos o sistema nesse instante e contarmos as relações vigentes, independentes de seu grau de intensidade ou coesão, teremos a estrutura. É comum, na literatura e no chamado senso comum atribuir à estrutura propriedades e características de forma, além da cardinalidade. Muitas vezes o termo também é confundido com organização. O que é observado na natureza é que a estrutura não surge como o mero enlaçado, sem nenhum critério.

93 sintaxe para a geração. Efetivamente é encontrado na gramática 31 gerativa de forma, ou seja, constitui-se como parte da linguagem 32. Em assim se conformando, seria ainda adequado denominar tal linha de estudo como Crítica Genética mesmo que expandindo-a? Pode ainda ser identificada com a crítica? O que é mesmo crítica 33? Vejamos, numa passagem rápida pelo dicionário de grego-português 34, pretendendo uma busca etimológica do termo, de seus correlatos de origem grega e de suas variações, encontra-se: Como verbo κρίνω kr&'no ganha o sentido de: discernir, distinguir; julgar; apreciar, avaliar; julgar, acusar, condenar; Como substantivo tem o significado de: a arte de julgar obras κριτικὴ 'kritik ; juízo sobre uma obra κρίσις 'kr&sis ; Como adjetivo κριτικός 'kritikos tem o sentido de: capaz de julgar; crítico, decisivo. 93 Vê-se primitivamente na sua forma verbal (κρίνω) a idéia de escolha, avaliação e julgamento. Significados estes que apontam para o sentido atribuído ao substantivo (κρίσις): juizo sobre uma obra. Mas sobre quais critérios se avalia ou se julga uma obra de arte? A história mostra que os critérios adotados para juízo da obra de arte evoluem da opinião de peritos a critérios de valor mais objetivos. Neste percurso busca reconfigurar o 31. Segundo Vieira, as linguagens naturais constituem uma classe dos chamados processos estocásticos, ou seja, processos naturais onde a evolução dos seus estados no tempo ocorre regida por uma distribuição de probabilidades. Para o desenvolvimento deste conceito, recorrere-se a elaborações formais como encontradas nos estudos em Lingüística Matemática (MARCUS, 1978, p.561). Seja uma gramática G definida a partir do par ordenado G = < A,R> onde A é um conjunto de signos geralmente tomado como finito, o alfabeto, e R uma relação definida sobre ele, a sintaxe. A aplicação da sintaxe sobre o alfabeto engendra subsistemas de signos, chamados mensagens, M. Uma linguagem é então definida como sendo um novo par ordenado formado pela gramática e pelas mensagens que esta possibilita, tal que L = < G,M>. As linguagens naturais apresentam as várias probabilidades variando de signo a signo, sempre com algum grau de heterogeneidade na distribuição destas probabilidades. Assim, na língua do portuguesa, a probabilidade pa da letra 'A' vir a ocorrer é diferente daquela da letra 'B' etc. (VIEIRA, 2006, p.2-3). Ainda, numa outra definição, entende-se gramática como um conjunto de regras que governam a formação e a combinação de unidades básicas em um sistema semiótico (COLAPIETRO, 1993, p.107, grifos meus). 32. Em algumas linguagens artificiais, segundo Kelley (1995, p.22-24) linguagem é qualquer coleção de palavras. Por palavra o autor entende uma seqüência de símbolos de um alfabeto é algumas vezes definida como palavra sobre um alfabeto. Por alfabeto alguma coleção finita de símbolos, um conjunto não vazio de símbolos. Importante notar que nesta definição qualquer seqüência de símbolos é uma palavra, faça sentido ou não. A definição também não faz referência às regras de relação entre os elementos e à mensagem. Cf. também nota 24 deste capítulo. 33. Questão frequentemente surgida nas reuniões regulares do Centro de Estudos de Crítica Genética da PUC-SP, a partir de meados de 2005, mas ainda não esgotada. 34. Cf. ISIDRO PEREIRA, 1990, p , 638, 808, 918.

94 94 seu objeto de interesse. É consenso, entre críticos e historiadores, que objeto de arte ou fato artístico é aquele que possui autenticidade, ou seja a qualidade ao qual se pode perceber e atribuir valor na relação com obras e movimentos. Segundo Argan 35, o valor artístico de um objecto é aquele que se evidencia na sua configuração visível ou como vulgarmente se diz, na forma, o que está em relação com a maior ou menor importância atribuída à experiência do real, conseguida mediante a percepção e a representação [...] uma forma é sempre qualquer coisa que é dada a perceber, uma mensagem comunicada por meio da percepção. As formas valem como significantes somente na medida que uma consciência lhes colhe o significado; uma obra é uma obra de arte apenas na medida que a consciência que a recebe julga como tal. Portanto, a história da arte não é uma história de coisas como uma história de juízos de valor. Mostra-se, neste momento, uma mudança fundamental na crítica de arte. Argan aponta para o viés semiótico comunicativo da arte, configurando-se campo que subjaz e fundamenta à caracterização do fato artístico. Portanto, o objeto a ser conhecido pelos estudiosos da crítica de arte não são as coisas em si como são os juízos de valor 36. O crítico considera a construção da obra, tanto no momento ideativo como executivo, a relação que ela estabelece com a produção cultural, assim como as contribuições e desenvolvimentos suscitados a partir dela à produção artística futura. É no confronto da obra estudada com a produção atual e passada que se atribui o seu valor, a sua autenticidade 37. A história, assim como a crítica, da arte é processo. Tudo aquilo que marca passo e não faz avançar o processo, nem modifica a situação é isento de autenticidade 38. A crítica move-se na direção do entendimento e avaliação da qualidade de uma obra de arte através da relação com outras produções. Parece razoável então que o termo permaneça na nova denominação proposta para uma CG expandida. Mas quanto ao termo 'genética'? 35. ARGAN, 1994, p.16, grifos meus. 36. ARGAN, 1994, p Cf. ARGAN, 1995, p Será importante e adequado verificar que o significado considerado por Argan para autenticidade não ganha o sentido de assinatura, de autografia. Na verdade se identifica com a qualidade da obra. Tem o significado mais amplo, como trazido por W. Horgan, qualidade que se contrapõe à cópia, à repetição, aos modelos. Noutros termos, tudo que é contra o trabalho estritamente ligado ao momento executivo. Aquilo que não contribui para o desenvolvimento da cultura artística, da produção cultural de uma época. 38. ARGAN, op. cit., p

95 95 Ora voltando à abordagem etimológica, busca-se reencontrar os significados dos termos que chamam atenção por sua importância ou ainda pelo ruído que podem causar quando se tenta expandir os limites de uma área de pesquisa. Na CG considero além do termo crítica, como já justificado acima, as palavras 'gênese' e 'genética' parecem ser as que carregam essas duas considerações iniciais. GÊNESE, s.f. o mesmo que gênesis GÊNESIS, s.f. Gr. génesis. A geração sucessão dos sêres; sistema cosmogênico. 2. Conjunto dos fatos ou elementos que concorreram para a formação de alguma cousa. GÊNESIS, s.m. Primeira parte do Antigo Testamento, em que se descreve a criação do mundo e a sucessão dos primeiros homens. GENÉTICA, s.f. Teoria de explicar a origem ou a produção., s.f.( ) génesis causa, princípio, origem da vida produção, geração, criação nascimento, origem ação de tornar-se, por oposição a ser conjunto dos seres criados, a criação raça espécie geração, idade. GENÈSE, n.f. _ v. 1119; lat. d'o. gr. genesis. naissance, génération. 1. La Genèse: premier livre de la Bible qui contient le récit de la Creation. PAR EXT. cosmogonie. 2. (av. 1865) Ensemble des formes ou des éléments qui ont contribué à produire qqch.; manière dont une chose s'est formée. élaboration, formulation gestation. Figura 064. Quadro etimológico da palavra gênese. Fonte: Quadro elaborado pelo autor a partir dos dicionários de Isidro Pereira, Ermout e Hauaiss. Há também no senso comum dois sentidos para palavra gênese: um deles ligado a um ponto específico de origem, de princípio, o momento de nascimento; o outro, talvez mais coerente e adequado ao objeto da CG, refere-se aos elementos que contribuem para a criação, para a produção, para o processo de criação. São significados não muito distintos dos trazidos pelos dicionários. A idéia da existência de uma origem onde lá se encontrará os elementos da gênese de uma obra, estabelece um sentido para o crítico genético. Partese da foz segue-se a montante, num movimento inverso a do processo de criação do autor. Esquece-se o crítico da impermanência do rio. Este já passou, não passará novamente pela mesma calha e não há como saber ao certo qual das fontes encontradas, talvez algumas já secas, seria a origem de tudo.

96 96 No entanto, existe algo de válido nesse movimento empreendido pelo crítico genético. Na leitura dos índices do processo de criação do autor estudado, mesmo que ele siga nessa busca assintótica a montante, o crítico conjetura sobre as relações construídas. Assim, ele levanta hipóteses e cria uma rede de conexões possíveis entre os rascunhos deixados pelo autor e a obra. Em assim procedendo aproxima-se, chega mesmo a tocar naquilo que se deve estabelecer como o objeto de uma CG expandida. O objeto de uma tal CG é o processo de formação, é a poiesis. É tudo que remete e fala da criação, mesmo que não haja um autor definido. Em vista disso, como guia para as pesquisas de uma crítica de processo, torna-se imperativo diluir as linhas que separam o produto e a produção 39, não havendo mais sentido caracterizar tal objeto na dualidade de natureza até então considerada, nas palavras de Louis Hay 40 "dado material enquanto documento observado, e construção intelectual enquanto prototexto". Isto posto, assim como admitindo a definição sistêmica de processo, opta-se pela denominação de Crítica de Processo. Crítica de Processo Efetivamente, a Crítica de Processo 41 surge como uma vertente quase necessária à CG. Verte limites teóricos 42 estabelecidos pelas críticas de arte, tecendo, tramando para si uma metodologia que se adeqüe não só aos novos modos da produção cultural contemporânea, como também aos interesses próprios à linha de pesquisa. O movimento de alargamento que se impõe à CG tem origem aqui no Brasil, ganha lugar, funda-se no Centro de Estudos de Crítica Genética da Pontifícia Universidade Católica de São Paulo (CECG PUC-SP) e se constitui com as dissertações e teses desenvolvidas 43 e em desenvolvimento pelos pesquisadores ligados ao grupo. 39. Cf. HAY, 2002, p Ibid., p Crítica Genética como linha proposta pelo Centro de Estudos de Crítica Genética da Pontifícia Universidade Católica de São Paulo, atualmente denominado Grupo de Pesquisa em Processo de Criação. 42. O movimento de expansão da CG ganha amplitude teórica com abordagem semiótica proposta por Cecilia Salles em sua tese de doutoramento Uma criação em processo: Ignácio de Loyola Brandão e não verás país nenhum, defendida em Vários são os autores estudados a partir da viés genético. Autores como Lina Bo Barde, Daniel Senise, Hans Koellreuter, Carlos Fadon, Lucas Bambozzi, Peter Eisenman, entre outros. Para maiores referências conferir < br/buscaoperacional/detalhegrupo.jsp?grupo= jcea4t9>.

97 97 O movimento no rumo de uma ampliação de horizonte da CG se estabelece em dois momentos. O primeiro aponta para o alargamento do domínio dos objetos estudados pela CG, este se apresenta não mais restritos à literatura e aos autores reconhecidos. Nesse momento se põe à prova as teorias e metodologias adotadas pela critique génétique. Um segundo passo é dado quando, através de comparações, percebem-se recorrências de procedimentos criativos, levando à hipótese da existência de princípios gerais da criação 44. No primeiro momento do movimento expansivo são feitos vários ajustes. São adequações que vão desde termos próprios e caros à CG como manuscritos 45, sendo substituídos por documentos de processo 46, ao questionamento do uso da palavra 'genética' como há pouco trazido. Propõe-se desse modo que se adote 'processo' para a designação das pesquisas que abordam o processo de criação. Postura admitida em coerência com a tendência expansiva e de generalização de tal área de estudo. Apesar da palavra processo, no senso comum, remeter às diversas áreas como direito, engenharia, física etc. Optou-se por adotá-la por estar em acordo com questões do movimento de formação e significação, pontos de interesse das pesquisa desenvolvidas pelo CECG e do Núcleo de Estudos de Semiótica e Complexidade (NESC PUC-SP), ambos ligados à Pós-graduação de Comunicação e Semiótica da PUC-SP. Torna-se condição básica, fulcral, enfatizar a definição do termo 'processo'. Buscou-se o conceito como colimado pela atual Teoria Geral dos Sistemas, onde 'processo' ganha sentido de uma série de eventos no tempo, estes legalmente conectados. Evento é, por sua vez, definido como uma mudança de estado de um sistema. Fenômeno que é então comunicado ao ambiente e assim percebido e interpretado por algum outro sistema, seja ele de qualquer natureza. Noutras palavras, o fenômeno chega até uma mente que o percebe, o interpreta e o faz agir diante da mudança. Destaca-se com isso o caráter sígnico-comunicacional-pragmático do termo designador da pesquisa. 44. Cf. SALLES, O segundo passo no sentido da expansão dos horizontes da CG só é possível quando, após vários anos, consolidam-se os estudos de caso em várias áreas da produção artística, o que possibilita a verificação de recorrências de procedimentos ligados aos processos de criação. 45. Várias são as denominações dos materiais de interesse da CG. São termos como rascunhos, manuscritos, croquis, marginálias, esboços etc. etc. que falam do processo de criação. Porém todos estão carregados de significados próprios à cada área. 46. Cf. SALLES, 2000.

98 98 A partir disso, portanto, ajustam-se as pesquisas que têm interesse no processo de formação e aquelas que tratam de questões do signo e da significação. Por certo, ainda é oportuno enfatizar o caráter temporal e legaliforme que subjaz ao processo, tornando assim a abordagem processual adequada a qualquer sistema, seja ele conceitual, substancial ou híbrido 47. A natureza temporal do processo aponta para a característica transitória do corpus em estudo, mas no entanto é na sua condição legal, na lei de formação que se deve objetivar as pesquisas da CP. Posto de outro modo, é na inferência sobre a história, reconstituída através da série dos estados assumidos pelo sistema, que se busca, através de recorrências, conhecer os hábitos e as leis de formação. Ainda com outras palavras, a CP busca mostrar a partir da comparação das formas assumidas pelo sistema 48, a gramática de formação. Trata-se assim de conhecer o sistema através de sua memória, ou melhor através do processo de formação da memória, ou seja através dos índices, das marcas das relações internalizadas pelo sistema. Mas como saber quais relações da rede de formação foram efetivas na constituição do sistema? Como então valorá-las? Parece razoável a estratégia adotada pela CP de alinhar-se às críticas, pois como crítica é na relação de uma obra de arte com ela mesma ao longo de seus vários estados na criação, ou ainda em compará-la com a produção de outros autores, que se atribui autenticidade. Demonstra-se, portanto, a inserção da CP no rol das críticas. Ademais, recorrer à TGS para ajustar o significado de 'processo', é não só restituir ao termo o seu sentido ontológico, estabelecer um campo comum, um domínio geral que perpassa todas as áreas do conhecimento. Em assim sendo, deve este se constituir como um espaço para comunicação, um campo próprio ao compartilhamento de metodologias. Dessa forma, pretende-se justificar a adoção da Ontologia Geral como domínio próprio para ajustes de conceitos e teorias necessários a uma abordagem processual. Atualiza-se, com a inserção da TGS como pedra basilar à CP, a transdiciplinaridade preconizada por Daniel Ferrer 49, dita como oportuna à CG, para não falar necessária. 47. Cf. BUNGE, 2004 p Percebida como um índice das relações estabelecidas com o ambiente e internalizadas pelo sistema. 49.Cf. FERRER, 2002, p

99 99 Percebe-se que, no âmbito das pesquisas que se desenvolvem sobre o processo de criação na PUC-SP, aquelas mais avançadas buscam o projeto poético 50. Buscam por princípios gerais de criação. Procuram por princípios operativos que se estabeleceram no processo para a formação de uma obra ou uma série 51. Mas, como representar adequadamente uma poiesis... Este é o ponto de interesse da pesquisa. Por uma abordagem do processo de formação Propor uma conduta de abordagem 52 pronta para ser seguida em todos os estudos do processo de formação, seria tarefa árdua, para não falar impossível e desaconselhável. Não obstante, algumas diretrizes e fundamentos gerais para esse propósito possam e devam ser trazidos à luz. Com efeito, sejam quais forem as linhas a serem sugeridas, elas devem estar fundamentadas na experiência, no pensamento científico. Devem conferir à matéria, em sua fisicalidade, o estatuto de documento de processo, ou seja, memória de uma poiesis. De tal modo, que assim procedendo, restitui-se o papel heurístico do objeto. Portanto, para uma abordagem do processo, como em qualquer construção de conhecimento científico, deve-se basear num número finito de observações, procurando descrever e relacionar os fenômenos observados, para que através da construção de leis gerais se possa prever então novos fenômenos. Em vista disso, admite-se o fenômeno como base à construção do conhecimento científico. Portanto, é razoável não deixar esquecer as faculdades necessárias ao pesquisador para o estudo dos fenômenos 53. São elas 54 : 50. Não se trata portanto, nas pesquisas de CP, simplesmente de descrever os procedimentos de formação da obra ou quão o autor foi criativo em determinado momento. Não seria esse o propósito da CP. 51. O corpus desta pesquisa por se tratar de um conjunto de casas vernaculares, de um mesmo tipo, fica mais próximo deste último caso. 52. Por não ter sido encontrado uma metodologia única adotada entre os críticos, assim como se admitindo também a impossibilidade de tal proposição, isento-me dessa pretensão. Mas impossível não estabelecer um paralelo entre algumas abordagens encontradas em autores da CG e da crítica de arte que de alguma forma trazem sistematizadas as etapas do trabalho do crítico. Com a intenção de explicitar as etapas tal como apresentadas por Louis Hay e Giulio C. Argan as denominações para as quatro etapas foram mantidas. Para Hay as etapas são: definição, decifração, datação e interpretação como designadas no texto "Criação em Processo". Para Argan há de certo forma etapas correspondentes, porém com uma diferença na última etapa, sendo ela denominada como atribuição de autenticidade. Cf. ARGAN; FAGIOLO, Segundo Charles S. Peirce o estudo do fenômeno ou como ele a designou Phaneroscopy é a descrição do phaneron; e por phaneron [ou fenômeno] se entende o coletivo total de tudo que de alguma forma ou sentido está presente à mente, não considerando se corresponde a qualquer coisa real ou não (Collected Papers 1.284). 54. Cf. PEIRCE, Collected Pappers 5.42.

100 100 A primeira e mais importante é a rara faculdade de ver o que está em frente, simplesmente como se apresenta em si, não substituída por qualquer interpretação, despida de qualquer comparação com esta ou aquela suposta modificação de circunstância. Essa é a faculdade do artista que vê, por exemplo, aparência das cores na natureza como elas se mostram; A segunda faculdade que temos de nos armar, é a resoluta discriminação de uma característica particular encontrada [...]. Procurando por onde quer que ela possa esconder-se e detectando-a sob todos seus disfarces; A terceira faculdade que deveremos precisar é o poder de generalização do matemático que produz a fórmula abstrata que compreende cada essência da característica em exame, purificada de todos os acessórios estranhos e irrelevantes ao acompanhamento. Mas como uma pré-ciência a fenomenologia pode da realidade afirmar algo? Seguindo em coerência com a arquitetura da ciência proposta por Peirce, é no domínio da Semiótica, parte terceira da Ciência Normativa, que se encontrará a correta conduta para construção do signo que representará adequadamente o objeto em estudo. Para uma sucinta, rigorosa e esclarecedora abordagem da Semiótica, propõe-se seguir a explicação apresentada por Lauro da Silveira 55, em que inicia seu curso com o conceito para ciência dos signos retirado dos escritos de Peirce 56. Em seu sentido geral, a lógica é, como acredito ter mostrado, apenas um outro nome para semiótica, a quasi-necessária, ou formal, doutrina dos signos. Descrevendo a doutrina como quasi-necessária ou formal, quero dizer que observamos os caracteres de tais signos e, a partir dessa observação, por um processo que não objetarei denominar Abstração, somos levados a afirmações, eminentemente falíveis e por isso, num certo sentido, de modo algum necessárias, a respeito do que devem ser os caracteres de todos os signos utilizados por uma inteligência científica, isto é, por uma inteligência capaz de aprender através da experiência. O primeiro ponto a ser observado é a relação de identidade estabelecida pelo autor da citação entre lógica e Semiótica. A lógica, em sentido geral, insere-se à arte de raciocinar, como um operador para assegurar a posse completa e o poder de realizar inferência. Ressalta-se, também na definição apresentada, a característica de ser "quasi-necessária, ou 55. Dos textos para o Curso de Introdução de Semiótica Geral para a Pós-graduação da UNESP de Marília. Segundo o autor, estes textos propositadamente não assumem a forma de um livro ou mesmo de um artigo. Têm por finalidade precípua facilitar aos alunos o acesso à teoria semiótica proposta por Charles Sanders Peirce ( ). 56. Cf. Collected Papers 2.227, grifos são meus.

101 101 formal" a doutrina peirceana dos signos. A lógica, no sistema de classificação para ciência, elaborado por Peirce, encontra-se ora como uma parte da Matemática, ora identificada como Semiótica. A Matemática é caracterizada como a prática do pensamento necessário e a lógica como o estudo e a análise do pensamento necessário 57. Desse modo, através da lógica, Peirce estabelece a coerência entre os vários níveis de sua arquitetura científica 58. Importante ressaltar que para o autor da ciência dos signos, todo pensamento está atrelado ao uso da observação e por isso de um modo geral, ligado a percepção. Assim, todo processo reflexivo inicia-se e tem continuidade através da experiência com objetos de natureza diversa. Na Matemática, trata-se da "observação de objetos artificiais [...] como Gauss tem afirmado, a álgebra é a ciência do olho" 59. No entanto, já na Filosofia, trata-se de objetos constituídos principalmente da experiência com o real. O objeto matemático proporciona um exercício intelectual que se justifica por si, puramente formal, não constituindo assim envolvimento necessário com a experiência. No domínio da Matemática, a lógica nominada lógica dedutiva ou álgebra lógica opera na construção de formas puras, enquanto que identificada como a Semiótica operará de forma falível, assim de modo algum necessária. Dessa maneira, clara fica, a condição de ser "quasi-necessária" 60 da doutrina dos signos, pois a natureza da necessidade estrita é do domínio da matemática, como esclarece Lauro da Silveira. Devendo operar a Lógica suis generis ou Semiótica ao modo da necessidade, à maneira de qualquer procedimento formal, ou seja "quasi-necessária". O autor das idéias para uma Filosofia Científica, em um outro momento, por rigor ou hábito na construção do pensamento científico, afirma que "qualquer teoria do conhecimento que não se ajusta a esse fato deve ser abandonada" 61. Entretanto, há ainda outros pontos que devem ser enfatizados na citação, tais como o caráter abstrato da semiose 62 base para o entendimento de um pensamento diagramático 57. Cf. ROBERTS, 1973, p Cf. CARDOSO, p PEIRCE apud ROBERTS, 1973, p Sufixo modelizante quasi-, do latim ao modo de. 61. Cf. PEIRCE, Collected Papers Semiose é um termo originalmente usado por Peirce para designar qualquer ação do signo ou processo sígnico; em geral a atividade do signo. [...] Para Peirce, semiose é irredutivelmente um processo triádico no qual um objeto gera um signo e que por sua vez gera um interpretante, que gera futuros interpretantes, ad infinitum. COLAPIETRO, 1993, p.178.

102 102 e um outro o de "uma inteligência capaz de aprender com a experiência" 63. "Aprender com a experiência", trata-se de uma conduta aberta a todos os homens, seja no dia-a-dia ou num rigoroso processo de pesquisa científica. Nessa perspectiva do conhecimento formado a partir da relação com o real, Peirce restabelece o vínculo perdido, ao longo da formação do pensamento ocidental, entre filosofia e experiência. Restituída à filosofia de seu caráter científico, Peirce a constitui com a Semiótica. A ela cabe, ora nas palavras de Lauro da Silveira 64 observar o fenômeno que se deseja estudar, propor sob a forma de uma figura imaginária, denominada Diagrama, um conjunto de relações que espera melhor representar aquele fenômeno e desse modo antecipar como deverá proceder, [alcançando] efetivamente em seus exemplares concretos, a interação pretendida com o fenômeno. [Assim para Peirce,] representar o real e atuar sobre ele no futuro, quando a ocasião permitir, são dois aspectos inseparáveis do conhecimento e do pensamento. Por isso mesmo, o proceder intelectual encontra seu sentido na medida em que cria um hábito de conduta que facilita a interação com o objeto que se quer conhecer. Mostra-se em parte, a forma como o sistema filosófico organizado por Peirce coaduna percepção, pensamento e ação, reunindo na filosofia por ele elaborada conceitos inerentes, entre outras áreas, à fenomenologia, à ciência dos signos e ao pragmatismo numa relação quase necessária. Deve-se, portanto, encontrar a Semiótica no cerne daquelas pesquisas que têm como objeto a poiesis como a que ora se desenvolve. Há, no entanto, outros domínios que, em coerência com o pensamento peirceano, contribuem para a abordagem dos processos de formação. São espaços tais como organizados por Jorge Vieira a partir de conceitos e teorias da atual TGS de autores como Mario Bunge, Avenir Uyemov e Kenneth Denbigh. Ademais, traz-se algumas abordagens sobre os estudos sobre diversos tipos de gramática 65, ou seja, estudos de regras que governam a formação a partir da combinação de unidades básicas. Nessa área, apresentam-se as contribuições aos estudos da linguagem de Chomsky. Idéias como a análise da estrutura sintática, assim como aquelas da gramática gerativa e 63. SILVEIRA, 2005a, p Ibid., 2004, p Cf. DUARTE, 2007, p

103 103 a classificação hoje conhecida nos estudos das linguagens formais como Hierarquia de Chomsky 66. Ademais, sobre essa classificação, apresenta-se o sistema formal proposto por Aristid Lindenmayer 67 bem como alguns de seus desdobramentos 68. Sobre organização e gramática Admitindo-se que a tendência ao aumento da desorganização é da realidade uma hipótese razoável, os estudos dos processos de organização, ou da emergência da forma, tornam-se objetos de pesquisa ainda mais instigantes. O que seria uma tendência à desorganização? Imagine que todas as 3000 páginas do velho dicionário etimológico se desprendam no momento em que se ia guardá-lo na quinta prateleira da estante da biblioteca. A probabilidade das páginas caírem ordenadas, organizadas segundo o critério lexicográfico, de modo a ser possível encontrar rapidamente o significado da palavra 'gênese' é muito baixa, quase improvável 69. Sob esta perspectiva o problema da tendência à desorganização 70 foi tratada por pesquisadores, contemporâneos a Chomsky, no desenvolvimento da Teoria da Informação 71 (TI). A quantidade de informação segundo esta teoria, relaciona-se com a redução da incerteza de ocorrência de um determinado sinal ou evento. Assim, no contexto trazido com o exemplo do dicionário, a incerteza será maior quanto maior for o número de páginas incremento no número de arranjos possíveis pois menor será a probabilidade de obten- 66. Cf. KELLEY, 1995, p O L-systems é introduzido em 1968 como estrutura teórica para o estudo de desenvolvimento de organismos. 68. As modelagens utilizando o L-systems ocorrerem, a princípio, a partir de organismos simples, aqueles em forma de filamento como observada em algumas bactérias. Cf. PRUSINKIEWICZ, 1996, p Ressalta-se que qualquer que seja o arranjo pretendido para as 3000 páginas todos os elementos do conjunto será a função fatorial de Cf. PINEDA, 2006, p A primeira coisa a lembrar é quanto à definição de informação e entropia na Teoria Matemática da Comunicação de Shannon e Weaver. A informação pode ser definida como: I(x i ) = - log p(x i ), ou seja, a informação depende nesse caso da probabilidade de ocorrência p(x i ) de um evento x i, o que torna essa definição bem ajustada ao estudo de processos estocásticos e, no caso de linguagens naturais, quando esses últimos são também aproximadamente ergódicos. [Ressalta-se, no entanto, que] essa definição é adequada para a informação associada a um signo. A definição de entropia surge quando Shannon define informação média associada a uma mensagem enquanto sistema de signo: S(X) = - n p(x i ) log p(x i ) ou 1 seja, uma grandeza de conjunto, de ensemble, não de indivíduo, que tende a um máximo em condição de equiprobabilidade, ou seja, homogeneidade na distribuição de probabilidades p(x i ). O primeiro ponto a ser entatizado é como na literatura a entropia, grandeza coletiva, é tomada como informação, grandeza de indivíduo. Ou seja muitos autores usam o termo informação, enunciando a fórmula para S(X), sem dizer que trata-se de uma informação média.vieira, 2008, p

104 104 ção da ordem procurada. Neste tipo de evento, os arranjos das páginas observados após a fatídica ocorrência, são independentes entre si, são equiprováveis. O que o levaria ao nível de variedade máxima 72 e um nível de informação máxima de um conjunto de eventos (ou sinais). Noutro extremo, em ocorrendo o desprendimento apenas da folha com a definição da palavra 'gênese', imagina-se que por muito manuseada já se encontrasse solta do resto do caderno, as chances de se encontrar rapidamente o sentido procurado seria total. Tratariase assim de uma determinação total, ou seja, nível de informação igual a zero. Vale observar que nem no evento em que todas as folhas são consideradas, em que os arranjos são equiprováveis 73 e independentes entre si, nem tampouco a ocorrência do evento determinado, não há a emergência da forma. A possibilidade de organização, a possibilidade de formação de algo ou o surgimento de novas propriedades, ao que parece, encontra-se na realidade, entre estas duas condições. A morfogênese parece ocorrer entre excluindo-se os limites a liberdade máxima e a determinação total. Parece ser preciso considerar que haja no processo de formação uma certa interdependência entre os estados que compõem a história do sistema. Contudo, parece ainda ser preciso que também sejam de certa maneira livres, isto que seria uma razoável hipótese para o surgimento de novas características. Em sistemas naturais, processos de auto-organização parecem atender, parecem equilibrar essas condições como estratégia evolutiva e de adaptação às mudanças ambientais. De um modo geral, já se pode delinear a abordagem aos processos de organização, ou seja, para um estudo da morfogênese deve-se considerar tanto os elementos de formação como os modos em que eles podem se conectar. Posto noutros termos, deve-se, pelo menos a princípio, levar em consideração os parâmetros sistêmicos: composição, conectividade e estrutura. Ademais, nota-se que o parâmetro 74 integralidade, concebido por Denbigh 75 como 72. Cf. EPSTEIN, 1986, p Este é o estado de máxima informação e de onde não emerge nenhuma forma ou Gestalt. Cf. EPSTEIN, 1986, p Segundo Vieira os parâmetros sistêmicos podem ser classificados como básicos ou fundamentais e aqueles parâmetros designados evolutivos. Os básicos são aqueles que todo e qualquer sistema possui. São eles: permanência, ambiente e autonomia. Os evolutivos são aqueles que surgem ao longo da evolução, com o passar do tempo, podendo estar presentes em um sistema e não estar noutros. São eles: composição, conectividade, estrutura, integralidade, funcionalidade, organização e complexidade. Cf. VIEIRA, 2008, p Cf. DENBIGH, 1981 apud VIEIRA, 2008, p.45.

105 grau de organização e descrita por ele como (=f (n,c,x i ), deve também se adequar a tal estudo. Segundo Vieira 76 a integralidade 105 seria uma função da quantidade n de subsistemas que compõem o sistema, das conexões efetivas c entre eles [ou seja, sua estrutura] e de uma coleção de pesos x i que indicam quantitativamente a importância relativa tanto dos subsistemas quanto das conexões. Em alguns casos mais simples seria possível escrever: (= nc g(x i ) tal que a integralidade seria o produto dos subsistemas e das conexões, esse produto seria multiplicando uma nova função só dependente das "importâncias" dessas entidades. Assim, a partir do parâmetro evolutivo integralidade, mostra-se que para uma abordagem dos processos de formação é preciso considerar as leis, as regras e os hábitos constituídos, assim como suas transformações, seus jogos de constituição, o que remete ao surgimento de novos modos de organização, de novas formas, da morfogênese 77. Por uma abordagem formal da gramática A lingüística pode ser definida como o estudo científico da linguagem 78. Em meados do século XX o campo da lingüística teórica ganha força com pesquisas e trabalhos publicados por Noam Chomsky. A ele é creditado ter transformado a lingüística americana, que de um ramo da antropologia passou a ser considerada uma ciência matemática 79. Nessa perspectiva, a língua é tratada como um sistema comunicativo e tem seu interesse focado em estruturas abstratas, na estrutura sintática. O estudo sintático de uma língua, para Chomsky, tem como objetivo a construção de uma gramática, que pode ser definida como um mecanismo de produção de frases de uma língua em questão 80. Uma linguagem L(G) pode ser entendida, neste contexto, como um conjunto infinito ou finito de frases. Estas, por sua vez, definem-se como um conjunto de extensão finita de palavras organizadas segundo uma gramática G. Palavra ou string 81 é uma seqüência finita de símbolos advindos 76. VIEIRA, 2008, p De fato inúmeras são as teorias elaboradas que se adequam ao problema dos processos de formação. São conceitos que hoje se encontram em áreas diversas como a biologia teórica, biosemiótica, lingüística etc. 78. Cf. LYONS, 1968, p DEVLIN, 2002, p CHOMSKY, 1980, p De forma geral adotar-se-a seqüência ou cadeia de caracteres como tradução de termo string, quando designada de modo geral tanto para palavras e frases. Cf. KELLEY, 1995, p.23.

106 106 de um conjunto não vazio denominado alfabeto #. Uma aproximação sistêmico-formal proporciona o uso dos modelos matemáticos no estudo das gramáticas em linguagens formais. Chomsky 82 com base no modelo dos processos de Estado Finito de Markov 83, define o primeiro e mais elementar tipo de gramática. Uma gramática capaz de gerar seqüências pertencentes a uma língua de estado finito, ou seja, palavras aceitas por um autômato finito determinístico (afd) 84 e por um autômato não-determinísticos (afn) 85. Seguindo a explicação de Chomsky 86, suponha-se que se tenha uma máquina que pode passar por um número finito de diferentes estados internos e que transita de um estado para outro pela emissão de um determinado símbolo. Admita-se que a máquina comece no estado inicial, passe sucessivamente por uma série de estados [emitindo um símbolo em cada transição] e termine no estado final. As máquinas de estados finitos ou também designadas autômatos finitos podem ser representadas graficamente através de diagramas de estados, grafos direcionais onde cada vértice do grafo representa o estado, e as arestas definidas como transição, são marcadas com símbolos ou caracteres pertencentes ao alfabeto 87. Assim uma possível representação gráfica de uma máquina de estados finitos capaz de gerar algumas das seqüências dos símbolos que se referem aos usos dos ambientes internos à Zona do Corpo seria: q q s q q 3 - t q 0 q 1 q 2 e e q 5 q 4 Figura 065. Diagrama de estados finitos dos ambientes da Zona de Corpo Fonte: Diagrama de elaborado pelo autor. 82. Cf. CHOMSKY, 1956, p São processos em que o estado seguinte depende apenas do estado presente e independe dos estados anteriores. 84. Defini-se como uma coleção de estados Q, do # alfabeto, do s estado inicial, do F uma coleção de estados aceitos e do * uma função Q x #!Q que determina um único estado seguinte para cada par (q i, +) de um estado e uma entrada. Assim formalmente defini-se um afd M = (Q, #, s, F, *). Cf. KELLEY op. cit., p Defini-se um automato não determinístico como aquele automato que admite zero, uma ou várias transições a partir de uma mesma entrada, uma 5-tupla, ou seja, uma coleção de cinco elemento, escrita como M=(Q, #, s, F,,). No exemplo da Figura 065, o Q é o conjunto de estados Q={q 0, q 1, q 2, q 3, q 4, q 5 }, # é o alfabeto #={q,s,e,t}, s é um dos estados em Q designado como estado inicial, F é um conjunto de estados aceitos ou estado final,, é uma relação em (Qx#) x Q e é definida como relação de transição. Ibid., 1995, p CHOMSKY, 1980, p Cf. KELLEY, op. cit., p.42.

107 107 Modelos mais complexos de linguagens vão sendo tratados por Chomsky 88, chegando a gramáticas capazes de gerar palavras somente reconhecíveis por máquinas ideais mais complexas, como a Máquina de Turing 89. Chomsky classifica as gramáticas como sendo aquelas do Tipo-0, de Tipo-1, de Tipo-2 e Tipo-3. Organizadas conforme o diagrama mostrado na figura 063, são gramáticas capazes de gerar, respectivamente, linguagens formais Recursivamente Enumeráveis, Sensíveis ao Contexto, Livres de Contexto e as Regulares. Tipo-0 Tipo-3 Tipo-2 Tipo-1 Regular Livre de contexto Sensível ao contexto Enumerável Recursivamente Figura 066. Tipos de linguagens formais e de gramática de Chomsky Fonte: Diagrama elaborado pelo autor a partir de Kelley. A linguagem regular L(G) é aquela constituída de seqüências formadas a partir da gramática do Tipo-3 ou Gramática Regular G = (N, #, S, P), onde N é o conjunto finito de elementos não terminais; # é o alfabeto ou, como também se designa, o conjunto de elementos terminais; S é o elemento não-terminal inicial e P são regras, ou restrições, de produção. Numa Gramática Regular deve-se ter do lado direito da produção ao menos um elemento não-terminal; como exemplo de produção pertinente a uma Gramática Regular tem-se S aba. Ademais, como restrição de produção de uma gramática regular, deve-se ter um elemento não-terminal num dos extremos da seqüência. Formalizando, a condição deve satisfazer a P $ N. # * (N # -) 90. A linguagem L(G) será dita livre de contexto quando a regra de produção admitir também elementos não-terminais em qualquer ponto, ou seja P $ N! (N # #) *. Mostra-se portanto que toda gramática regular é uma Gramática Livre de Contexto, contudo, como 88. Cf. CHOMSKY, 1956, p Cf. KELLEY, op. cit., p Pode-se, no entanto, ter a posição do termo não-terminal localizado no lado esquerdo, ou seja P $ N (N #ε)σ*, desde que o sentido de produção estabelecido seja da direita para esquerda.

108 108 mostrado no diagrama da Figura 063, a condição inversa não é verdade. Assim como exemplo, admite-se como uma regra de produção específica de uma gramática livre de contexto a regra do modo: S abab. Uma Linguagem Livre de Contexto, menos restrita que a formada por uma Gramática Regular, é reconhecida por uma autômato de pilha 91. Uma gramática do Tipo-0 ou irrestrita é aquela que admite seqüências formadas com termos não-terminais e terminais tanto do lado esquerdo como o lado direito da regra de produção, ou seja P $ (N # #) * N (N # #) *! (N # #) *. Entre a Gramática Irrestrita e a Livre de Contexto existe a Sensível ao Contexto. Defini-se a Gramática Sensível ao Contexto como uma gramática G = (N, #, S, P) com a restrição de que a sua regra de produção seja restrita a / 0 tal que / 0. Portanto, numa gramática sensível ao contexto, a cada etapa de derivação a cadeia de caracteres do lado direito sempre será maior ou igual ao lado esquerdo da regra de produção, a exceção quando gera uma palavra vazia 92. Ao que se mostra, se há a possibilidade de formalização de um gramática do desenvolvimento esta deve estar inserida nessas últimas classes de gramática apresentadas. Importa porém, não só ressaltar a relação entre os níveis hierárquicos dos tipos de gramática e suas respectivas classes de linguagem formal, como também enfatizar os critérios para seleção e justificação de uma gramática a uma determinada língua 93. Como ressalta Chomsky 94, uma gramática da língua L é essencialmente uma teoria de L. Qualquer teoria científica se baseia num número finito de observações, procurando relacionar os fenômenos através da construção de leis gerais. [...] Estas regras exprimem relações estruturais entre as frases do corpus e o número infinito de frases, geradas pela gramática, para além do corpus. O problema consiste em desenvolver e classificar os critérios para a seleção e de uma gramática correta de cada língua. São dois tipos de critérios que a gramática terá que satisfazer: adequação às condições externas e à condição de generalidade. Em outras palavras, uma teoria geral implica 91. Automato de pilha é análogo ao autômato finito, incluindo uma pilha como memória auxiliar e a facilidade de nãodeterminismo. A pilha é independente da fita de entrada e não possui limite máximo de tamanho, o que implica uma noção de conjunto infinitamente contável. A facilidade de não-determinismo é importante e necessária, pois aumenta o poder computacional dos autômatos de pilha, permitindo reconhecer exatamente a Classe das Linguagens Livres de Contexto., MENEZES, 2005, p Ibid., 2005, p A partir de agora entenderei por língua um conjunto (finito ou infinito) de frases, todas elas de extensão finita e construídas a partir de um conjunto de elementos. CHOMSKY, 1980, p CHOMSKY, 1980, p.54.

109 109 na aceitação pelo "falante nativo" das frases geradas pela gramática, assim como não ser restrita a uma gramática particular. Enfatiza-se, seja uma gramática particular ou geral, ambas não recebe uma forma definitiva. Afirma Chomsky 95 que a descoberta de novos fatos sobre línguas particulares ou pontos de vista puramente teóricos quanto à organização de dados lingüísticos isto é novos modelos da estrutura lingüística poderá proporcionar o seu progresso ou revisão. A perspectiva adotada por Chomsky é o da avaliação da teoria. Contudo a perspectiva adotada na pesquisa para a questão da relação entre gramáticas particulares e geral, ponto fulcral, será a de admitir-se um corpus, propor a partir deste gramáticas particulares, para delas chegar a uma gramática geral e em seguida devese verificar a adequação e validade da teoria proposta, assim como se o mecanismo será capaz de prever novos fenômenos. Idéias de Lindenmayer Abordagem semelhante à teoria dos autômatos é dada por Aristid Lindenmayer 96 aos estudos dos processos de formação na biologia. No início, a teoria constituiu-se como a formalização de processos de desenvolvimento de organismos multicelulares com estruturas mais simples,, principalmente plantas e organismos que têm estrutura filamentosa. Com ênfase na topologia, nas relações de vizinhança, das células e entre estas e o organismo formado, o sistema proposto por Lindenmayer, ou L-system, constituiu-se como uma teoria matemática do desenvolvimento. O L-system, à semelhança da Gramática Generativa, tem como idéia central a reescrita. No entanto, desta diferencia-se no método de aplicar as regras de produção. Na gramática proposta por Chomsky as produções são aplicadas sucessivamente, enquanto no L-system as regras podem ser aplicadas em paralelo, o que o torna adequado a uma abordagem formal para tratamento dos processos de formação de organismos multicelulares. 95. Ibid., 1980, p Cf. LINDENMAYER, 1968, p. 280.

110 110 Como linguagem formal, o L-system com zero interação, ou OL-system, inserese na classe das linguagens livres de contexto e quando sensível ao contexto é designado como IL-system. Incorporando os tipos de L-system ao diagrama de Venn da classificação das linguagens formais proposto na Figura 066, tem-se: OL Regular Livre de contexto Sensível ao contexto IL Enumerável Recursivamente Figura 067. Tipos de linguagens formais e classes de L-system Fonte: Diagrama elaborado pelo autor a partir de Prusinkiewicz. Vale ressaltar ainda que duas características levaram à escolha dos processos de desenvolvimento das plantas como objeto inicial das pesquisas realizadas por Lindenmayer: a simplicidade relativa dos algoritmos de desenvolvimento e a característica de auto-similaridade destes. Propriedade definida por Mandelbrot como aquela característica inerente de um objeto em que a parte de sua forma é geometricamente similar ao todo; assim, ambas a forma e a sucessão das partes são definidas como auto-similar 97. Este atributo remete às estratégias de formação que têm base na reescrita. Ainda, segundo Mandelbrot 98, o sistema de reescrita é descrito como algo que começa com uma forma inicial (axioma) e um gerador. axioma gerador S0 S1 S2 Figura 068. Desenvolvimento do fractal de Koch Fonte: Diagrama elaborado pelo autor a partir de Prusinkiewicz. 97. MANDELBROT, 1982 apud PRUSINKIEWICZ, 1996, p.v. 98. Ibid., 1982, p.1.

111 111 A abordagem proposta considera os aspectos estruturais, as conexões efetivas que se estabelecem entre as partes ao longo do tempo para formar o todo. Desse modo, o constructo elaborado por Chomsky, na lingüística, e posteriormente por Lindenmayer, na biologia teórica, propõe-se a um sistema operativo, um mecanismo capaz de gerar formas que considera as espécies de células alfabeto (#) e segue as regras de formação observada no organismo a gramática (G) ou seja, trata-se dos constituintes básicos para criação de uma linguagem. Enfatiza-se ainda que a etapa de expressão gráfica do L-system tem seu desenvolvimento posterior e ganha peso com a inserção da computação gráfica às pesquisas dessa natureza. Visualização Fundamentado na abordagem adotada por Chomsky para Gramática Generativa e nas idéias e conceitos do L-system, elaborou-se um modelo computacional como teste e verificação inicial para elaboração de um sistema de representação visual dos processos de formação. A proposta inicial do modelo surge a partir da lógica de formação de uma cianobactéria, a Anabaena catenula, formalizada com regras em produções livres de contexto 99. O processo de desenvolvimento destas cianobactérias, está diretamente relacionado ao modo como elas se organizam em filamentos. Esses cianobactérias são constituídas por dois tipos de células, uma responsável pela fotossíntese e outra responsável pela fixação do nitrogênio 100. Esta divisão de atividades tem reflexo em sua estrutura. Observou-se que um dos tipos é uma célula longa L e outra pequena S. Quando S cresce, muda de estado tornando-se L. De L deriva uma pequena e uma grande. Assim as regras de produção são: p 1 : S L p 2 : S L p 3 : L LS p 4 : L SL 99. Efetivamente, fora a princípio formalizada como um DOL-system, um L-system Determinístico Livre de Contexto. Cf. PRUSINKIEWICZ, 2005, p A grande maioria das cianobactérias têm a solução para incompatibilidade do oxigênio e a ensima de fixação do nitrogênio da atmosfera (nitrogenase) no tempo, ou seja, ao longo do dia realizam fotossíntese e à noite fixam o nitrogênio. A Anabaena catenula, por outro lado, desenvolveu uma solução diferente. Através da diferenciação celular é possível processar as duas tarefas simultaneamente, fotossíntese e fixação do nitrogênio. Ibid., 2005, p

112 112 O axioma, a palavra de início do processo, é definido por ". O alfabeto defini-se como o conjunto de todas as células # =L, L, S, S} e P={p 1, p 2, p 3, p 4 } é o conjunto de regras de produção. A aplicação das regras sobre o alfabeto gera organismos segundo a gramática de desenvolvimento G = (", #, P). Como exemplo adotar-se-á " = L O L-system surge como uma teoria desenvolvida com base na topologia, em vista disso, a princípio despida de uma interpretação geométrica. Desenvolvimento posterior para uma interpretação gráfica das cadeias geradas a partir do L-system foi descrita por Prusinkiewicz e Lindenmayer 101. No entanto, hoje várias são propostas. A primeira e mais simples interpretação aplicada à computação gráfica, cria linhas e pode ser usada para representar fractais 102. Considera-se um cursor direcional, capaz de se mover através de instruções, em seu estado inicial no sistema como uma tripla (x, y, α), onde (x,y) são as coordenadas cartesianas e α o ângulo de direção a ser tomado. A idéia é mover o cursor através de incremento a sua posição inicial uma distância d qualquer, podendo ainda acrescentar ao α um ângulo qualquer Os comandos são representados por: F move-se o cursor em direção determinada por α numa distância d, desenhando assim uma linha com origem em (x,y) e fim em (x', y'); f move-se o curso sem criar uma linha; + vira o cursor para esquerda num ângulo +, assim a próxima posição do cursor será (x, y, α + +); vira o cursor para direita num ângulo +, assim a próxima posição do cursor será (x, y, α - +). Tomando como exemplo o axioma e a regra de produção da Figura 068, descrevese a partir da convenção proposta: α=90º ": F-F-F-F p: FF-F+F+FF-F-F+F 101. Cf. PRUSINKIEWICZ; LINDENMAYER, Exemplo desta aplicação pode ser encontrado em < PRUSINKIEWICZ; LINDENMAYER, op. cit., p.6-8.

113 113 A introdução de novos recursos de controle na interpretação gráfica é feita para dar conta de organismos mais complexos. Estruturas de árvores, com seus galhos e suas ramificações, são possíveis de representar com a inserção de colchetes na descrição das produções 104. Probabilidades distintas de ocorrência podem ser atribuídas às regras de produção 105. Parâmetros podem ser associados às letras do alfabeto para serem usadas durante a interpretação das frases 106. Para representação de superfícies e volumes adequados às interpretações de células desenvolveu-se o L-system de mapa 107 e o celular 108. Com o propósito a uma primeira implementação para interpretação gráfica de uma seqüência gerada a partir do L-system, foi desenvolvido durante a pesquisa um sistema em Java 3D 109. Para interpretação gráfica das cadeias, adotou-se a gramática formalizada a partir do desenvolvimento da Anabaena catenula. Adotou-se como representação da letra L um prisma de base retangular mais alongada e para S um retângulo menor. Como resultado, chegou-se a um sistema de geração de formas que se definia através do alfabeto (1), das regras de produção (2), do número de iterações a serem realizadas (3) e a do axioma(4). Figura 067. Tipos de linguagens formais e classes de L-system Fonte: Diagrama elaborado pelo autor a partir de Prusinkiewicz Ibid., 1996, p Ibid., 1996, p Ibid., 1996, p Ibid., 1996, p Ibid., 1996, p Optou-se durante a pesquisa por usar o ambiente do Blender, um sistema com ferramentas prontas para modelagem 3D. Assim a implementação desenvolveu-se em Python, linguagem própria para criação de scripts no Blender.

114 114 À montante Icapuí 110, hoje, é nome dado à região que nos séculos XVIII e XIX no Nordeste brasileiro se constituiu num entremeio a dois nós centrais da rede de elaboração e comércio da carne seca e do couro. Um espaço de passagem formado por um aglomerado de casas alpendradas entre a então Villa do Aracati e o Povoado de Santa Luzia 111. Figura 070. Fragmento da Carta da Capitania do Ceará de 1818, com indicação do Povoado de Motamba Fonte: Carta da Capitania do Ceará 1818 / levantada por ordem do Governador Manoel Ignacio de Sampaio por seu ajudante e ordens Antonio José de S. Paulet. Biblioteca Nacional (Brasil) / Arch. Militar/ Cartografia ARC.008,01,030. O viajante europeu Henry Koster 112, em relatos de suas jornadas pelo nordeste brasileiro iniciados em , ao sair do sertão potiguar pelo povoado de Santa Luzia (do Mossoró), seguindo por Tibau, alcança as terras da Capitania do Ceará. Passa a noite em Areias e põe-se, no dia seguinte, em direção à Vila do Aracati e após andar duas léguas chega a região que assim a caracteriza:...a região percorrida agora possuía um aspecto mais alegre. Encontramos trechos cultivados, a pouca distância de Areias e, passando um charco salobro, chegamos a Cajuais distante duas léguas de Areias. O lugar recebe este nome por ter um grande número de cajueiros, e possui seis ou sete casas 114. Jantamos tendo boa água e abundância de talos de milhos para os cavalos. Tudo aqui tem, relativamente, aparência de conforto e bem-estar Icapuí seria uma corruptela da expressão tupi Igara-puí Y- de rio ou água, kaá- folha, mato; puí - rápido, significando coisa ligeira. Noutro sentido, encontra-se a denominação como nome indígena formado por íca (roça), apu (farto), y (rio), com significado de rio das roças fartas. O primeiro é aceito pela comunidade e permanece na cultura com o significado "canoa veloz". Cf. BUSTAMENTE, 2005, p Atualmente, o significado de Icapuí é "canoa veloz", muito provavelmente, sentido atribuído por associação à imagem da folha que desce rápido o rio Dois dos designados portos do sertão KOSTER, 2003, p Com primeira edição publicada em 1816 como Travels in Brazil Atualmente o relatório do Sistema de Informação de Atenção Básica (SIAB) da Secretaria Municipal de Saúde de Icapuí, do ano de 2005, indica a existência de 389 casas de taipa revestida na região de Cajuais e Mutamba, sendo em todo o Município de Icapuí 959 casas de taipa revestida.

115 115 Contudo a história dessa região, de certo modo, está ligada à ocupação tardia do sertão do Nordeste da América Portuguesa, ocorrida de forma regular somente ao final do século XVII, quando a pecuária se desvincula, por determinação da Coroa, da economia canavieira, quando essa ganha relevância 115. A boiada deixa as terras plantadas no litoral e com ele se entra e ocupa o sertão. Figura 071. Carta da Capitania do Ceará Fonte: Carta da Capitania do Ceará 1818 / levantada por ordem do Governador Manoel Ignacio de Sampaio por seu ajudante e ordens Antonio José de S. Paulet. Biblioteca Nacional (Brasil) / Arch. Militar/ Cartografia ARC.008,01, Jucá afirma que o crescimento da indústria do açúcar, incrementando o desenvolvimento da pecuária, estimulou os conflitos entre os criadores e os lavradores. Exatamente porque os currais se localizavam nas áreas de cultivo da cana, em espaços relativamente exíguos, o aumento do criatório promoveu atritos motivados pelos estragos causados pelo gado na lavoura. O resultado não foi outro. Para não comprometer os rendimentos da produção do açúcar, a Coroa, no final do século XVII e início do século XVIII, estabeleceu limites territoriais para a criação, na costa leste do Nordeste brasileiro. [...]. Em 1701, a Coroa determinou mesmo um afastamento mínimo para o criatório de dez léguas a partir da área de plantio da cana. Cf. JUCÁ, 2007, p

116 116 O gado transporta o dono para o interior, onde pululam fazendas e nascem estradas, proporcionando que o processo de povoamento quase contínuo se estabeleça não mais só no litoral 116. O gado adaptou-se bem aos terrenos salitrados, às caatingas e aos agrestes, a ponto de se encontrarem registros, já em 1719, com relatos de haver fazendeiros no sertão mais precisamente na Vila de Icó que possuíam cerca de rezes; e, apenas passados alguns anos, era tamanha a produção, que, além das remessas de gado para as feiras da Bahia e Pernambuco, fundaram-se no Aracaty as afamadas officinas ou charqueadas 117. Das fazendas aos portos do sertão 118, formou-se uma rede de caminhos que seguiam as bacias dos rios rumo às feiras e oficinas. Estradas naturais que se adequaram à logística da pecuária, pois, como afirma Abreu 119, os gados não necessitam de quem os carregue; eles são os que sentem nas longas marchas todo o peso do seu corpo e apenas se faz necessário quem os encaminhe. Nessa forma, pela Estrada Geral do Jaguaribe (Figura 072), estabeleceu-se uma ligação do sertão com as outras capitanias. A montante, seguiam Villa do Aracati 3 Povoado de Sta Luzia 2 Estradas Coloniais Est. Geral do Jaguaribe Est. das Boiadas Est. Velha 1 Villa do Icó Casas de Fazenda 1 Fazenda Belmonte 2 Fazenda Trigueiro 3 Fazenda Santarém Figura 072. Estradas Coloniais no Ceará Fonte: Mapa elaborado pelo autor a partir da Carta da Capitania do Ceará 1818 / levantada por ordem do Governador Manoel Ignacio de Sampaio por seu ajudante e ordens Antonio José de S. Paulet. Biblioteca Nacional (Brasil) / Arch. Militar/ Cartografia ARC.008,01,030.; a partir de informações da pesquisa A urbanização do Ceará setecentista de Jucá (2007); e a partir da pesquisa Notas sobre as casas de fazenda dos Inhamuns (1984) de Bezerra Cf. ABREU, 1930, p BRÍGIDO, 1900, p O comércio de carne seca já havia inquietado, em 1764, os anseios lucrativos dos homens de negócio de Pernambuco, que propuseram a criação de uma Companhia de Comércio com os portos do sertão no Rio Grande do Norte e no Ceará. Destes, transportariam-se cerca de trinta mil cabeças de gado salgado para o consumo interno. Já o couro, parte seguia, já curtida, em forma de sola para metrópole e parte seguia em cabelo (JUCÁ NETO, 2007, p.180) Cf. ABREU, 1930, p.100.

117 117 mercadorias vindas de Aracati e descia, por tal estrada, toda a produção do vale do Jaguaribe. Essas que consistiam quase unicamente em couros salgados e espichados, em alguma pelica das que se trabalhava em todo o sertão cearense 120, assim como nas boiadas que seriam salgadas nas oficinas de charque no litoral, para serem então transportadas em embarcações, a maioria sumacas, para Recife, Salvador e Rio de Janeiro. Pelo rio Jaguaribe, Icó e Aracati as duas principais vilas do Ceará no século XVIII manteve-se um intenso comércio, inicialmente com o gado e posteriormente, no século XIX, com o algodão 121. Ademais, ao que se verifica nas casas alpendradas de Mutamba e Cajuais, acompanhando a boiada e as águas do Jaguaribe, a jusante, seguiram também idéias, hábitos, valores e um modo de vida formado no sertão. Casa de fazenda O sertão do Ceará, não se diferenciando do interior do Nordeste, estava longe de tudo o que o aproximasse dos parâmetros de civilidade européia. Com efeito, até final do século XVII e durante boa parte do XVIII, era sinônimo de barbárie para os portugueses. Em vista disso a presença indígena caracterizou-se como outra obstáculo na ocupação, pois com o quadro de seca, os índios, resistindo como puderam à conquista, reforçavam a imagem do medo. Somente passado o receio, os primeiros desbravadores construíram suas fazendas e levaram suas famílias 122. No Ceará durante a primeira metade do século XVIII, a fazenda de gado sediou o povoamento, segundo Jucá 123 a fazenda de gado foi sede das sesmarias, da unidade familiar, da atividade produtiva e onde se encontraram as condições propícias para os primeiros sinais de acumulação de renda no sertão. Foi também sede da vida política local, de toda autarquia sertaneja e suas famílias com poderes quase que absolutos e da rede de mandos e desmandos que pautou a estruturação do território. A fazenda de gado cumpriu o papel de defesa diante da população indígena e perante outros sesmeiros na luta pela posse das terras [...] elas localizavam-se em pontos estratégicos dentro das sesmarias, muitas das vezes em locais elevados e sempre próximos de riacho ou rio STUDART FILHO, 1937 apud JUCÁ NETO, 2007, p Cf. JUCÁ NETO, 2007, p Cf. ABREU, 1998, p Cf. JUCÁ, 2007, p.206.

118 118 Sede da autoridade e poder, a Casa Grande ou casa de fazenda 124 era geralmente implantada em local elevado e sempre que necessário sobre alicerces de alvenaria de pedra. Segundo Girão 125, uma espécime arquitetural peculiar ao meio físico, construído com materiais, as conveniências e as possibilidades do meio físico. Casas sólidas e espaçosas 126 eram construídas na região do vale do Jaguaribe com paredes espessas. A princípio, em meados do século XVIII, utilizava-se a taipa de sopapo de cerca de 35cm, contudo já nas últimas décadas do século XVIII e início do XIX, adotava-se a alvenaria, segundo Bezerra 127, por três e, às vezes, quatro tijolos perfazendo até 1,20 metros as paredes externas. As internas, mais finas, eram formadas por um ou dois tijolos e sua altura nunca chegava a atingir o telhado. As casas grandes tinham poucas aberturas janelas e portas e eram cobertas por dois e quatro panos de talhado. Figura 073. Fazenda Belmonte Fonte: Imagens elaboradas pelo autor a partir das informações da pesquisa Notas sobre as casas de fazenda dos Inhamuns de Bezerra (1984). Segundo Bezerra 128, a organização dos espaços internos variava bastante, entretanto dois tipos eram possíveis de serem percebidos: o primeiro obedece a seguinte distribuição: lateralmente os quartos de dormir na parte central duas salas, uma localizada na frente da casa e a outra nos fundos; a segunda possui os quartos no núcleo central rodeado de salas que se comunicam com áreas que conformam o perímetro da habitação. As casas possuem compartimentos específico destinados às atividades de serviço. A cozinha, por exemplo, contém fogão de alvenaria no canto do compartimento [...] tais compartimentos se situam na parte posterior da casa, invariavelmente Cf. BEZERRA, 1984, p Cf. GIRÃO, 2000 apud JUCÁ 2007, p Cf. ABREU, op. cit., p Cf. BEZERRA, op. cit., Ibid., p. 55.

119 119 No médio e alto Jaguaribe, as casas de fazenda parecem seguir diretrizes gerais de formação. São casas de dimensão que pouco variam 25m x 17m. Sempre térreas eram orientadas de forma a fachada principal ficar sempre voltada para o norte. Conforme Bezerra 129, constata-se nas casas da região a inexistência de alpendres tanto à frente como aos fundos. Contudo elas apresentavam calçadas que ladeiam toda a casa e recebem parapeito dando continuidade ao baldrame. Ainda segundo Bezerra a função não seria restrita à proteção das paredes externas, mas também para receber os visitantes, em alguns casos alcançavam a largura de três metros. Figura 074. Fazenda Trigueiro (início XIX) - médio Jaguaribe. Fonte: Acervo Nicolas Gondim e Tibico Brasil. O alpendre que até as décadas iniciais do século XVIII é elemento inexistente, ou de rara presença na arquitetura civil do sertão, começa a se estabelecer nas casas de fazenda de gado do sertão nas décadas finais do XVIII e início do século XIX, com o declínio da pecuária e o início da valorização da agricultura 130 fundamentalmente a cultura do algodão. Segue-se à mudança observada na dinâmica da economia do sertão, uma relativa tranqüilidade do ambiente. Transformações que se vêem refletidas na arquitetura e no modo de vida do sertão. Um novo espaço se forma na casa do sertão, uma membrana, uma interface, um limite vivo de troca da casa com o ambiente externo imediato. Efetiva-se um espaço que ao mesmo tempo acolhe aquele que vem de fora e o protege, resguarda o que está dentro. Ademais, o alpendre tornar-se-ia também como uma área de uso múltiplo, que de pronto, adapta-se às necessidades de uma alteração programática. Como enfatizado por Bezerra 131, 129. Ibid., p O sertão da Região Nordeste foi palco de uma grande seca 1790 a que desestabilizou a economia pecuarista do Território cearense. O Governador Feo Torres, em carta para a Rainha, de 10 de outubro de 1792, a considerou como a maior de todas. JUCÁ, op. cit., p BEZERRA, op. cit., p.53.

120 120 as alterações posteriores resultam de necessidades programáticas ditadas pelo novo ciclo [...]. Ao contrário do que se afirma, as alterações não resultam da procura de melhor acondicionamento térmico. Já eram excelentemente climatizadas. A arquitetura da casa alpendrada, nesse contexto, surge e se adapta de forma gradual. Parte do interior, das nascentes do Jaguaribe sob a forma da casa de fazenda do século XVIII, escoa até as vilas para em seguida chegar aos povoados do litoral sul do Ceará. Nas imediações da Vila do Aracati porém, estabelece-se na forma da casa das fazendas que recebiam a boiada para ser negociada e encaminha às oficinas e curtumes 132. Nessas fazendas curral, mantém-se a configuração básica do corpo, mas altera-se a organização dos espaços internos e o tratamento da varanda surgem as varandas cobertas. Como exemplo de tal forma mostra-se a Fazenda Santarém, ou casa do Castelo, localizada nos arredores de Aracati, de construção estimada no início do século XIX. Figura 075. Fazenda Santarém (início XIX) - baixo Jaguaribe. Fonte: Foto do acervo de Almir Leal de Oliveira e desenhos do acervo de Clóvis Jucá. A idéia da casa flui por uma rede capilar até os povoados imediatos, onde se depara com uma nova organização social e uma configuração fundiária diferente das vilas e cidades. Na região onde hoje é Icapuí, estabelece-se a princípio em Cajuais e Mutamba. Ali, procura ajustar-se às condições locais e ao se expressar num modo de casa adaptado às novas constrições do ambiente, forma com o que lá encontra uma arquitetura com características próprias. Uma identidade percebida nas relações espaciais, nas proporções dos elementos construtivos, no uso das cores, na implantação da casa, na nova lógica de organização dos ambientes internos Cf. OLIVEIRA, 2007.

121 121 Atualmente no que se pode observar pelo menos até o momento nas casas da região de Mutamba e Cajuais, não há entre os elementos constituintes da solução arquitetônica, aquele que por si seja novo. São casas formadas por cobertas em quatro águas, com alpendres e copiar. O telhado forma empena com panos de telhado maiores e estão em duas inclinações, uma para o corpo outra para o alpendre. Todo o perímetro da casa é cercado pelo alpendre demarcado com pilares de madeira e são normalmente aroeira ou pau-ferro que suportam linhas de tronco de carnaubeira. Utiliza-se a taipa de sebe como sistema construtivo. Em vista disso, o que se atribui é próprio dessa arquitetura, ou seja, aquilo que constitui sua identidade está no modo de dispor e relacionar os elementos, está nas regras e diretrizes de formação; e, como se pôde verificar com a pesquisa, estas vêm se constituindo ao longo do tempo e se confirmando em cada casa construída. Por tudo que se mostrou, constata-se um tipo bem definido, próprio à região, uma solução que atendeu e se adequou a um modo de vida de uma cultura, de uma sociedade. Um tipo que forma cada casa e nelas se constitui e se atualiza.

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123 Capítulo III in futura sobre futuros

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125 125 Por isso melhor se guarda o vôo de um pássaro Do que um pássaro sem vôos... Antonio Cícero A través da descrição do corpus, no primeiro capítulo, duas dinâmica de desenvolvimento da forma apareceram. Uma primeira estabelecida pelos mestres e uma outra de dentro para fora, surge em seguida implementada por aqueles que serão parte da casa. Através dos relatos do Sr. João Borges Neto, viu-se que o mestre participava da marcação do corpo, fincava forquilhas, esteios de varanda e preparava a coberta. Os meios da casa, os enxemeios, o envaramento e toda a etapa do barro se desenvolvia com o grupo que se formava. Já com a casa coberta, numa mistura de festa e trabalho, em pouco tempo quase findava a nova casa do lugar. Assim existem dois vetores de formação. Aquele determinado pelo mestre, designado de fora para dentro e em sentido contrário um outro que se desenvolve a partir de dentro e organiza os espaços internos. O primeiro mostrou-se, a guisa dos algoritmos de formação dos barcos de pesca da região, uma regra determinada, pois basta se definir uma das dimensões da casa a frente para que toda a geometria externa se forme. A parte interna se desenvolve de forma mais orgânica. Uma gramática de geração mais livre se estabelece a princípio nos limites criados com as forquilhas e esteios fincados pelo mestre. Com o uso e o tempo, escapa e ocupa espaços além daqueles determinados pelo mestre-carpinteiro.

126 126 Gramática dos mestres O conjunto de regras, tabelas com limites e probabilidades de ocorrência descritas no primeiro capítulo, agora são organizadas na gramática de formação dos mestres. Do ponto de vista matemático, uma gramática dos mestres poderia ser descrita como uma seqüência ordenada de cinco elementos, ou seja uma 5-tupla G =",#,F,D,P. Onde " é a forma primordial 133 na qual a primeira regra da gramática é aplicada. # é o conjunto de todos os parâmetros utilizados para representar a casa. F é o conjunto de regras de formação, funções que condicionam a atribuição de determinados valores aos parâmetros dos elementos de ", de modo a garantir ao final do processo de desenvolvimento apenas expressões coerentes com a tipologia de Mutamba e Cajuais. D são as restrições de dimensão para cada parâmetro. P são os pesos que traduzem a probabilidade de ocorrência de uma regra. A forma primordial é observada nas casas de fazendas de gado. Nela devem estar descritos e identificados os parâmetros associados aos elementos iniciais que definem parte da forma de ": - dimensão da frente (F t ); - dimensão da lateral (L t ); - altura da empena (H e ); - largura do alpendre (A l ); - altura das paredes (H i ); H i A l H e L t F t Figura 076. Forma inicial e parâmetros para desenvolvimento da gramática dos mestres Fonte: Ilustração elaborada pelo autor, gerada em Blender 4.5 a partir da implementação inicial, em Python, da gramática dos mestres Goethe propõe a idéia de que os organismos, plantas ou animais, se desenvolvem a partir de uma forma primordial ou como por ele designado Urform. Cf. STEIGERWALD, 2002, p.296.

127 127 À forma da casa de fazenda são acrescidos elementos que definem as varandas e alpendres para então constituir " 134. São dois elementos que compõem a casa, o telhado e o esteio. A eles são atribuídos os parâmetros: - ângulo de telhado do alpendre (ia l ); - altura do esteio (H a ); - distância entre esteios (D e ). Figura 077. Foto do protótipo de uma casa gerada a partir da gramática dos mestres Fonte: Protótipo gerado a partir da gramática dos mestres implementada em Python para Blender 4.5 e produzido através de esteriolitografia (SLA) no GREat-UFC. Acervo do autor. No entanto, alguns outros parâmetros são incorporados. Dois deles referem-se a implantação da casa e têm como referência a via. Um deles é o ângulo de orientação da casa estabelecido a partir do eixo longitudinal configurado pela cumeeira e o outro é a posição da casa, ou seja se mais ao centro ou mais ao mar. Estes parâmetros são identificados como: - ângulo de orientação da casa (*); - posição da casa (P o ); Assim, define-se # = {F t,l t,h e,a l,h i,ia l,h a, D e,*,p o } como o conjunto de todos os parâmetros para a gramática dos mestres. O conjunto D é definido a partir dos valores mínimo e máximo encontrados nas 27 casas analisadas na penúltima fase da pesquisa de campo. - restrição para F t : {F t % IR 5,5 F t 8,5} ; - restrição para L t : {L t % IR 6,5 L t 16,50}; - restrição para A l : {A l % IR 1,05 A l 2,05}; 134. Os elementos de " são definidos como as paredes, piso, empena, telhado, telhado do alpendre e esteio. São elementos sem dimensão prévia sendo a eles associados parâmetros, funções que condicionam sua formação.

128 128 - restrição para H e : {H e % IR 3,75 H e 5,25}; - restrição para H i : {H i % IR 2,20 Hi 3,30}; - restrição para ia l : {ia l % IR ia l =15,5º}; - restrição para D e : {D e % IR 3 D e 4}; - restrição para * : {* % IR *= 0 *= 90}; - restrição para P o : {P o % IR P o = 1 P o = -1}. As regras da gramática de formação dos mestres são funções que operam a partir da forma inicial. F traduz, a partir do corpus, as relações que existem entre as partes dos elementos de modo a garantir a coerência entre as casas a serem geradas e as casas da região. As regras desenvolvem-se a partir do parâmetro frente da casa, como sugere o mestre quando relata que a altura da empena é 1/4 da frente. Ainda a ela relacionam-se os outros parâmetros, e assim descrevem-se as regras para a formação casa em razão de F t : - a lateral pode assumir as formas: L t = 1.25F t 1.5F t 1.75F t 2F t ; - razão para a altura da parede é descrita como: H i = 2F t /5; - a largura do alpendre é descrita como: A l = Ft/5; - a altura da empena é descrita como: H e = F t /4; - a altura de esteio é descrita como: H a = (2F t /5) - (tg(ia l ) x (F Ft/5); Após a definição da dimensão do piso, distribui-se os esteios ao longo do perímetro do alpendre sempre a criar um em cada canto e a distribuir os outros entre estes primeiros, de modo a respeitar a restrições estabelecidas. Os parâmetros de implantação, orientação e posição, devem seguir as restrições e os pesos de ocorrência estabelecidos em P. P é um conjunto de pesos atribuídos aos intervalos estabelecidos para a definição dos valores dos parâmetros, assim como também são pesos atribuídos nas derivações em F. Para a atribuição do valor a F t,na implementação do sistema, é estabelecido um sorteio 135. Os valores a serem sorteados restringem-se ao intervalo definido em D. A eles são atribuídos pesos distintos de acordo com as recorrências observadas no corpus. Assim, dentro da restrição de dimensão de F t, atribui-se probabilidades diferentes 136 para o sorteio: 135. Optou-se por estabelecer o sorteio na implementação do sistema, por ser o interesse da pesquisa restrito à representação da gramática da forma que constitui o tipo analisado. Sabe-se, no entanto, que a razão da frente é determinada principalmente pelo número de pessoas que farão parte da casa e pela dimensão necessária para armar a rede de dormir. 136.Cf. Capítulo I, Tabela 005, p. 57.

129 129 - se 5.5 F t 6.0 então terá peso 0,15; - se 6.0 < F t 6.5 então terá peso 0,04; - se 6.5 < F t 7.0 então terá peso 0,19; - se 7.0 < F t 7.5 então terá peso 0,23; - se 7.5 < F t 8.0 então terá peso 0,31; - se 8.0 < F t 8.5 então terá peso 0,08. Em F para formação de L t atribui-se pesos distintos a cada derivação. De acordo com o observado no corpus 137 tem-se: - para L t = 1.25F t peso 0,65 ; - para L t = 1.50F t peso 0,08; - para L t = 1.75F t peso 0,23; - para L t = 2F t peso 0,04. Para determinação dos parâmetros de implantação, adota-se um sorteio 138 com probabilidades iguais de ocorrência dos valores determinados. Assim nos parâmetros orientação e posição serão estabelecidos pesos iguais a 0,5 para cada uma das opções. Para verificação inicial de adequação da gramática dos mestres, realizaram-se testes através da geração de modelos 3D em ambiente Blender. Os modelos foram desenvolvidos a partir da implementação 139 realizada em Python para Blender 4.5. Um dos resultados mostra-se a seguir na Figura 78. Figura 078. Imagens das casas geradas a partir da gramática dos mestres Fonte: Modelos gerados a partir da gramática dos mestres, código disponível em < Cf. Capítulo I, Tabela 005, p É atribuído aos desdobramentos dos terrenos, tornando-os mais estritos, a mudança de orientação da casa de paralela para perpendicular. No entanto é claro a preferência pela orientação paralela, assim como a posição mais ao centro Cf. Tabela 08, p

130 130 Gramática dos moradores Segue-se à gramática dos mestres, a formalização e uma implementação inicial da gramática dos moradores de Mutamba e Cajuais. Constituída a forma externa da casa, delimita-se os usos possíveis para a Zona de Alpendre. Noutros termos, ocorre a produção zaazxzp. Após a especialização de za inicia-se o desenvolvimento da parte interna. Segue-se com a divisão e especialização da Zona do Corpo e da Zona de Preparo. Para definição da gramática dos moradores, primeiro buscaram-se as gramáticas de 6 casas, para em seguida definir-se uma gramática geral a partir das individuais. Ressalta-se que para formalização da gramática dos moradores foi utilizado o L-system. Especificamente, adotou-se uma forma simplificada do celular 140 e paramétrico 141. Dado que não foi considerado a diferença nos modos de fechamento, focando o interesse no condicionamento da aplicação das regras de divisão à função e uso, atribuiu-se um identificador constante para as paredes. O L-system celular definido como um alfabeto finito de indentificadores de arestas #: {A, B, C, D, E, F}, um conjunto finito de identificadores de superfície 1:{1, 2, 3, 4, 5, 6, 7, 8, 9, 10}, o axioma " e um conjunto finito de produções de arestas P. A sintaxe da produção é melhor explicada através de exemplo. A produção A : 1 B 2 [-D] B 3 aplica-se a aresta A somente se a ela pertencer uma superfície identificada com 1. A é então subdividida em duas arestas com identificador B determinando a superfícies, na primeira divisão 2 e na segunda 3. A 1 B B 2 3 D Figura 079. Exemplo de L-system celular Fonte: Ilustração elaborada pelo autor a partir de Prusinkiewicz Cf. PRUSINKIEWICZ; LINDENMAYER, 1996, p Ibid., 1996, p

131 131 Id.:001 C C X C C X C C X C B 1 B B A zc zdze qqss qqsqt 3 A 2 D X A Q Q 8 A 3 A X 2 2 A Q Q Q 2 9 R x Q 3 A X 2 2 A Q Q ": A 1 B 1 C 1 B 1 p 1 : A : 1 A 2 [-D] XA 3 p 2 : C : 1 C [-Q] X [-D] C Restrições de dimensão 3! Q! 4 1.2! X! 1.3 p 3 : B : 3 Q 3 [-A] Q 8 p 4 : B : 2 Q 2 [-A] Q 2 p 5 : D : 2 3 Q [-A][+A] Q p 6 : A : 8 R 2 [+Q] X 9 F K M O 4 L O 5 O 6 L C K M zp pr ": C 4 L 4 F 4 O 4 p 1 : C : 4 K 5 [+O] M 6 p 2 : F : 4 M [+O] K Restrições de dimensão Id.:005 C C C C C B 1 A B B 3 2 D A A B Q Q 3 Q 2 3 Q 2 A A Q Q zc zdze qqse ": A 1 B 1 C 1 B 1 Restrições de dimensão 3! Q! 4 p 1 : A : 1 A 2 [-D] A 3 p 2 : C : 1 C [-D] C p 3 : B : 3 Q 3 [-A] Q 3 p 4 : B : 2 Q 2 [-A] Q 2 p 5 : D : 2 3 Q [-A][+A] Q

132 132 F M K N O 4 L O 6 O 5 L 7 L C M K N zp prd ": C 4 L 4 F 4 O 4 p 1 : C : 4 M 6 [+O] K 5 [+L] N 7 p 2 : F : 4 N [+O] K [+L] M Restrições de dimensão 1.07! V! ! N! 4.14 Id.:010 C C C C C B 1 A B B 3 2 D A A B Q Q 3 Q 2 3 Q 2 A A Q Q zc zdze qqse ": A 1 B 1 C 1 B 1 p 1 : A : 1 A 2 [-D] A 3 p 2 : C : 1 C [-D] C p 3 : B : 3 Q 3 [-A] Q 3 p 4 : B : 2 Q 2 [-A] Q 2 p 5 : D : 2 3 Q [-A][+A] Q Restrições de dimensão 3! Q! 4 F K M O 4 L O 5 O 6 L C K M zp pr ": C 4 L 4 F 4 O 4 p 1 : C : 4 K 5 [+O] M 6 p 2 : F : 4 M [+O] K Restrições de dimensão

133 133 Id.:062 C C X C C X C C X C B 1 A B B 3 A 2 D X A Q Q 8 A 3 A X 2 2 A Q Q Q 2 9 R x Q 3 A X 2 2 A Q Q zc zdze qqss qqsqt ": A 1 B 1 C 1 B 1 p 1 : A : 1 A 2 [-D] XA 3 p 2 : C : 1 C [-Q] X [-D] C p 3 : B : 3 Q 3 [-A] Q 8 p 4 : B : 2 Q 2 [-A] Q 2 p 5 : D : 2 3 Q [-A][+A] Q p 6 : A : 8 R 2 [+Q] X 9 Restrições de dimensão 3! Q! 4 1.2! X! 1.3 O F K M N K 4 L O 5 O 6 O 7 L O 5 O C K M N K M 6 M V V N 10 7 N V V zp prd prdb ": C 4 L 4 F 4 O 4 Restrições de dimensão 2.14! N! 4.14 p 1 : C : 4 K 5 [+O] M 6 [+O] N 7 p 2 : F : 4 N [+O] M [+O] K p 3 : L : 7 V 7 [+N] V 10 p 4 : O : 7 V [+N] V Id.:063 C C X C C X C C X C B 1 B B A zc zdze qqss qqsqt 3 A 2 D X A Q Q 8 A 3 A X 2 2 A Q Q Q 2 9 R x Q 3 A X 2 2 A Q Q ": A 1 B 1 C 1 B 1 p 1 : A : 1 A 2 [-D] XA 3 p 2 : C : 1 C [-Q] X [-D] C Restrições de dimensão 3! Q! 4 1.2! X! 1.3 p 3 : B : 3 Q 3 [-A] Q 8 p 4 : B : 2 Q 2 [-A] Q 2 p 5 : D : 2 3 Q [-A][+A] Q p 6 : A : 8 R 2 [+Q] X 9

134 134 F K M O 4 L O 5 O 6 L C K M zp pr ": C 4 L 4 F 4 O 4 p 1 : C : 4 K 5 [+O] M 6 p 2 : F : 4 M [+O] K Restrições de dimensão Id.:064 C C C C C B 1 A B B 3 2 D A A B Q Q 3 Q 2 3 Q 2 A A Q Q zc zdze qqse ": A 1 B 1 C 1 B 1 p 1 : A : 1 A 2 [-D] A 3 p 2 : C : 1 C [-D] C Restrições de dimensão 1.07! V! ! N! 4.14 p 3 : B : 3 Q 3 [-A] Q 3 p 4 : B : 2 Q 2 [-A] Q 2 p 5 : D : 2 3 Q [-A][+A] Q O F N K M N K M 4 L O 7 L 5 O 6 L V 10 V V 7 V 5 6 L C N K M N K M zp prd prdb ": C 4 L 4 F 4 O 4 p 1 : C : 4 N 7 [+L] K 5 [+O] M 6 p 2 : F : 4 M [+O] K [+O] N p 3 : L : 7 V 7 [+N] V 10 p 4 : O : 7 V [+N] V Restrições de dimensão 1.07! V! ! N! 4.14

135 Uma gramática geral dos moradores, considerando as Zonas de Preparo e do 135 Corpo, poderia ser descrita como: zc zdze qqse qqsqt ": A 1 B 1 C 1 B 1 p 1 : A : 1 A 2 [-D] A 3 A 2 [-D] XA 3 p 2 : C : 1 C [-D] C C [-Q] X [-D] C p 3 : B : 3 Q 3 [-A] Q 3 S 3 [-A] Q 8 p 4 : B : 2 Q 2 [-A] Q 2 Q 2 [-A] Q 2 [-A] Q 2 p 5 : D : 2 3 Q [-A][+A] Q p 6 : A : 8 R 2 [+Q] X 9 Restrições de dimensão 3! Q! 4 1.2! X! 1.3 S > Q 1.07! V! ! N! 4.14 zp prd prdb ": C 4 L 4 F 4 O 4 p 1 : C : 4 N 7 [+L] K 5 [+O] M 6 K 5 [+O] M 6 [+O] N 7 K 5 [+O] M 6 p 2 : F : 4 M [+O] K [+O] N N [+O] M [+O] K M [+O] K p 3 : L : 7 V 7 [+N] V 10 p 4 : O : 7 V [+N] V Para verificação da gramática dos moradores parte-se dos modelos gerados pela gramática dos mestres. Com a definição do tamanho, orientação e posição, inicia-se o processo de formação interno. Nesta esta etapa da implementação foi considerada sempre a especialização do alpendre para todas as casas geradas. Foram considerados para processo de especialização da Zona de Preparo o depósito, refeição e preparo. Figura 080. Imagens das casas geradas a partir da gramática dos moradores Fonte: Modelos gerados a partir da gramática dos moradores, código disponível em <

136 136 O último teste foi realizado com os moradores da região de Mutamba e Cajuais. Produziram-se dois protótipos em esteriolitografia, o protótipo 064, referente à casa da Sr a. Gerarda Borges e o outro gerado através da implementação da gramática dos mestres. Os protótipos foram mostrados para três moradores e para o mestre Luiz. O teste consistia em identificar, se possível, de qual casa o primeiro modelo se referia. Em seguida procurou-se saber se o modelo gerado era reconhecido como sendo parte de uma das casas da região. Figura 081. Fotos realizadas durante identificação e reconhecimento dos protótipos Fonte: Acervo do autor. Os protótipos foram mostrados ao mestre Luiz de Meu Chico, à Sr a. Gerarda Borges, à Sr a. Rita dos Reis e à Sr a. Anaides Borges. Durante o processo de verificação pedia-se para que fosse identificado o dono das duas casas. De uma forma geral, todos conseguiram identificar o protótipo 064 como sendo a casa verde com branco da Sr a. Gerarda. Importante foi observar quais os elementos os moradores atentavam para identificação da casa. Diferenças como a composição das quatro janelas à frente e a forma particular do alpendre, foram pontos encontrados para apoiar a indicação. Quanto ao protótipo gerado com o programa dos mestres, instaurou-se a dúvida. Primeiro porque não havia janelas e portas no modelo e segundo pela ausência da extensão utilizada para Zona de Preparo. Contudo, houve o reconhecimento da forma como sendo da região. Em dois dos depoimentos chegou-se a dizer "o oitão é vê o daqui de casa", como expressou a mãe da Sr a. Rita presente durante o teste. Já o mestre Luiz chegou a identificar o modelo como sendo da casa 010. Porém os outros entrevistados, quando procuravam identificar o proprietário não conseguiam, pois ao notar a ausência da área de preparo aos fundos, desistiam do palpite.

137 137 Deste encontro concluiu-se que os acréscimos à forma primitiva extensões dos cômodos, a expansão da Zona de Preparo é constituidora do tipo. E não é sem significado que tenha justamente o mestre Luiz reconhecido a casa modelo, pois trata-se da materialização da gramática do mestre. Considerações finais O que pode uma pesquisa sobre processo de criação que considera uma dinâmica coletiva? Pode apontar para o projeto do objeto que não tem um único autor. Objeto que tem como rascunhos uma pluralidade de tentativas no tempo. Na seleção por eficiência ou coerência com o ambiente entre as tentativas, algumas soluções vêem-se recorrentes. Quando um padrão de soluções alcança uma relativa estabilidade é designado um tipo. O tipo arquitetônico tem, em consonância com Type peirceano, a propriedade de carregar a forma de modo mais adequado. O tipo entidade imaterial, um metadesign que se atualiza em cada instância. No entanto, em cada nova expressão que advém de uma mesma lógica, algo novo é proposto, é sugerido ao mesmo tempo. Nessa dinâmica o pensamento renova-se. Na representação do tipo, a formalização é etapa sem a qual não se alcançariam os modelos lógicos operativos. Ademais, na tradução do tipo em linguagem houve empenho em evitar as formas convencionais de expressão da arquitetura. Assim como não era o caso de converter espaço em literatura, pois o que se buscou foi, ao contrário, uma linguagem que resultasse em forma. Nessa busca, o recurso de diagramas foi essencial tanto no entendimento como na comunicação dos processos. Por fim, o que se buscou representar foi a linguagem dos mestres e dos moradores, e o principal balizamento dos resultados seria o reconhecimento por partes daqueles que criam e fazem parte das casas alpendradas de Cajuais e Mutamba. Quando lá estive na derradeira vez, pouco antes do fim da escrita, havia ido mostrar os modelos ao mestre e a alguns moradores. Na saída, ao subir a serra, interrompeu meu caminho uma boiada. Vi e segui na condução do rebanho com o primeiro morador entrevistado, José Oceliano, da casa da vacaria. No ofício do seu proprietário uma memória do caminho do gado por onde escorreram idéias, assim termina como começou.

138

139 Bibliografia

140

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