NORMAS CONSTITUCIONAIS INCONSTITUCIONAIS

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1 NORMAS CONSTITUCIONAIS INCONSTITUCIONAIS Túlio Augusto Tayano Afonso 1 INTRODUÇÃO O presente trabalho caminha no sentido de abordar a teoria das normas constitucionais inconstitucionais consoante construída por Otto Bachof e enquanto sua possibilidade de ser inserida na leitura da legislação e da jurisprudência brasileira, como a nossa posição em face da unicidade sindical e do caso já julgado pelo Supremo Tribunal Federal da inconstitucionalidade da prisão do depositário infiel, mesmo estando prevista na Constituição Federal de Tomaremos esses dois exemplos para aprofundar nossos estudos. Tratamos, ainda, como não podia deixar de ser, da noção de Constituição material, a fim de esclarecer os ditames de Otto Bachof no que diz respeito à possibilidade de existência de normas constitucionais inconstitucionais. Ao mesmo tempo em que verificaremos o respeito à formalidade (Constituição Formal), demonstraremos a violação à Constituição Material. Em outras palavras, temos que formalmente não há inconstitucionalidade alguma; mas em razão da matéria, o Texto pode sim tratar de preceito 1 Doutor em Direito das Relações Econômicas Internacionais pela Pontifícia Universidade Católica de São Paulo PUC/SP. Mestre em Direito Político e Econômico e Especialista em Direito e Processo do Trabalho pela Universidade Presbiteriana Mackenzie. Professor das Faculdades Alves Faria ALFA Goiânia/GO Professor da Graduação e Pós-graduação do Curso de Direito da Universidade Presbiteriana Mackenzie de São Paulo. Advogado.

2 incompatível com a unidade do Documento e se mostrar incongruente e inconstitucional. que: O Texto Constitucional brasileiro (de 1988), em seu artigo 8º, II aduz é vedada a criação de mais de uma organização sindical, em qualquer grau, representativa de categoria profissional ou econômica, na mesma base territorial, que será definida pelos trabalhadores ou empregadores interessados, não podendo ser inferior à área de um Município. Tal enunciado proclama, afinal, que o sistema sindical brasileiro é de unicidade, e não de pluralidade. Inferimos que, por esse motivo, qual seja, da unicidade sindical ser matéria de previsão constitucional, o país não tenha até o presente momento ratificado a Convenção nº 87 da Organização Internacional do Trabalho. Dito documento, denominado Convenção sobre a Liberdade Sindical e a Proteção do Direito Sindical, traz, em seu artigo 2º, que: os trabalhadores e as entidades patronais, sem distinção de qualquer espécie, têm o direito, sem autorização prévia, de constituírem organizações da sua escolha, assim como o de se filiarem nessas organizações, com a única condição de se conformarem com os estatutos destas últimas. A unicidade sindical é uma característica da organização trabalhadora brasileira desde a Constituição de Observamos que, na atualidade, dita unicidade encontra-se em situação de incompatibilidade em face dos princípios contidos no caput e no inc. I do art. 8º da Constituição Federal, que garantem a liberdade sindical, e o princípio da liberdade de associação, previsto no inc. XVII, do art. 5º, do mesmo Documento. Diante de intenso debate jurídico-acadêmico em torno dessa questão, há um claro destoamento do enunciado do artigo 8º, II, da Constituição (unicidade sindical) em face dos princípios ademais por ela ditados e que, mormente a liberdade de associação sindical, também são matéria de diplomas internacionais como o Pacto Internacional dos Direitos Econômicos Sociais e Culturais e a Carta de Direitos Humanos da Organização das Nações Unidas. Em face disso, nos alinhamos com a lição de Otto Bachof, para quem há a possibilidade de existência de normas constitucionais inconstitucionais, no sentido de que a unicidade sindical contraria princípios constitutivos da própria Constituição Federal. Esses princípios, como o da liberdade associativa e, o seu decorrente, da liberdade sindical, são aqueles dos quais

3 o poder constituído pela Constituição não pode dispor, sob o risco de mitigar o seu papel de garantir uma sociedade livre, justa e solidária (art. 3º, I). Vale salientar ainda que afirmamos a norma da unicidade sindical como materialmente, e não formalmente, inconstitucional. Essa diferenciação é premissa essencial a partir do momento em que observamos que a natureza formal de dita norma é a mesma das demais constantes naquele diploma jurídico, o que impede o exegeta de determinar qualquer ausência de formalidade em sua constituição enquanto enunciado deontológico constitucional, e nos remete a uma análise hermenêutica contextual de seu conteúdo, diante dos demais preceitos legais, para identificarmos sua inconstitucionalidade. Outro exemplo de norma constitucional inconstitucional que verificamos no sistema normativo brasileiro diz respeito à possibilidade, ditada pelo artigo 5º, LXVII, da Constituição Federal, de prisão civil por dívida do depositário infiel. Dizemos isso pois o Brasil se tornou signatário, em 1992, do Pacto de San Jose da Costa Rica, o qual determina, especialmente em seu artigo 7º, 7, que ninguém deve ser detido por dívidas. O que fundamenta a inconstitucionalidade daquela norma é justamente, com base inclusive na lição de Flavia Piovesan e de Antonio Augusto Cançado Trindade, o argumento de que os tratados de direitos humanos, quando ratificados pelo Brasil, são incorporados no denominado bloco de constitucionalidade, que seria nada mais que o conjunto de normativas materialmente constitucionais. Sendo assim, adotando a regra lex posterior derogat legi priori, vemos que estamos diante de uma norma constante no corpo formal da Constituição mas que, mesmo assim, é materialmente inconstitucional. A inconstitucionalidade de normas constitucionais, assim, apesar de em princípio parecer paradoxal, é uma realidade que pode se dar em qualquer Estado de Direito, e que sobressai-se também com a tentativa dos Estados em se adaptarem à seara internacional do Tratados de direitos humanos. Tal situação, associada à evolução e mutação intrínseca à estrutura normativa constitucional, contribui ao surgimento de antinomias no próprio diploma jurídico material neste patamar, o qual é o ponto mais alto da pirâmide da ordem jurídico-institucional da maioria dos Estados do mundo hodiernamente. Urge, assim, identificar a situações antinômicas a fim de garantir a harmonia e a segurança jurídica da estrutura normativa do Estado, o qual se encontra necessariamente vinculado a uma ordem legal em avançado panorama de globalização.

4 DESENVOLVIMENTO Inicialmente, temos que demonstrar a definição do primeiro caso concreto em que identificamos a inconstitucionalidade de uma norma constitucional, qual seja, o conceito relevante do Direito Sindical e dos direitos de primeira dimensão em relação à unicidade sindical. Em nosso ordenamento jurídico, a unicidade sindical vem prevista no art. 8, II da Constituição: É vedada a criação de mais de uma organização sindical, em qualquer grau, representativa de categoria profissional ou econômica, na mesma base territorial, que será definida pelos trabalhadores ou empregadores interessados, não podendo ser inferior à área de um Município; Trata-se de uma verdadeira vedação legal, à criação de mais de uma organização sindical, de uma mesma categoria em uma mesma base territorial. É uma limitação ao Princípio da Liberdade Sindical (coletiva). Dessa forma, após uma organização sindical ser criada, os trabalhadores e empregadores passam a se vincular automaticamente a ela, sem direito algum de escolha. Amauri Mascaro Nascimento nos ensina que, Há sistemas jurídicos nos quais em uma mesma base territorial a lei permite apenas um sindicato representativo do mesmo grupo, enquanto em outros é facultada a constituição, no mesmo grupo, de mais de um sindicato, denominando-se o primeiro sistema unicidade sindical ou sistema do sindicato único, como no Brasil, e o segundo, pluralidade ou pluralismo sindical, como na França. 2 Na mesma esteira, para Mauricio Godinho Delgado, A unicidade corresponde à previsão normativa obrigatória de existência de um único sindicato representativo dos correspondentes obreiros, seja por empresa, seja por profissão, seja por categoria profissional. Trata-se da definição legal imperativa do tipo de sindicato passível de organização na sociedade, vedando-se a existência de entidades sindicais 2 NASCIMENTO, Amauri M. Curso de Direito do Trabalho. 26ª ed. São Paulo: Saraiva, 2011, p

5 concorrentes ou de outros tipos sindicais. É, em síntese, o sistema de sindicato único, com monopólio de representação sindical dos sujeitos trabalhistas. 3 Como vimos, tal limitação foi inserida no Texto constitucional. Dessa forma, temos que o sistema sindical brasileiro é de é de unicidade, e não de pluralidade. Inferimos que, por esse motivo, qual seja, da unicidade sindical ser matéria de previsão constitucional, o país não tenha até o presente momento ratificado a Convenção nº 87 da Organização Internacional do Trabalho. Dito documento, denominado Convenção sobre a Liberdade Sindical e a Proteção do Direito Sindical, traz, em seu artigo 2º, que, Os trabalhadores e as entidades patronais, sem distinção de qualquer espécie, têm o direito, sem autorização prévia, de constituírem organizações da sua escolha, assim como o de se filiarem nessas organizações, com a única condição de se conformarem com os estatutos destas últimas. A unicidade sindical é uma característica da organização trabalhadora brasileira, inserida em nível Constitucional desde a Constituição de Observamos que, na atualidade, dita unicidade encontra-se em situação de incompatibilidade em face dos princípios contidos no caput e no inc. I do art. 8º da Constituição Federal, que garantem a liberdade sindical, e o princípio da liberdade de associação, previsto no inc. XVII, do art. 5º, do mesmo Carta Magna, conforme dita a letra da lei: Art. 8º É livre a associação profissional ou sindical, observado o seguinte: I - a lei não poderá exigir autorização do Estado para a fundação de sindicato, ressalvado o registro no órgão competente, vedadas ao Poder Público a interferência e a intervenção na organização sindical; [...] Art. 5º Todos são iguais perante a lei, sem distinção de qualquer natureza, garantindo-se aos brasileiros e aos estrangeiros residentes no País a inviolabilidade do direito à vida, à liberdade, à igualdade, à segurança e à propriedade, nos termos seguintes: 3 DELGADO, Mauricio G. Curso de Direito do Trabalho. 11ª ed. São Paulo: LTr, 2012, p

6 [...] XVII - é plena a liberdade de associação para fins lícitos, vedada a de caráter paramilitar; Diante de intenso debate jurídico-acadêmico em torno dessa questão, há um claro destoamento do enunciado do artigo 8º, II, da Constituição (unicidade sindical) em face dos princípios ademais por ela ditados e que, mormente a liberdade de associação sindical, também são matéria de diplomas internacionais como o Pacto Internacional dos Direitos Econômicos Sociais e Culturais e a Carta de Direitos Humanos da Organização das Nações Unidas. Além disso, concordamos com Amauri Mascaro Nascimento ao afirmar que a unicidade contraria inclusive o princípio democrático, já que mais democrático é o sistema da unidade sindical, tendo em vista que significa a união dos trabalhadores não como decorrência da imposição da lei, mas como resultado da sua livre opção, como na República Federal da Alemanha e em outros países 4. Em face disso, nos alinhamos com a lição de Otto Bachof, para quem há a possibilidade de existência de normas constitucionais inconstitucionais, no sentido de que a unicidade sindical contraria princípios constitutivos da própria Constituição Federal. Nas palavras do próprio Bachof, tais princípios constitutivos [...] encontram-se na medida em que não forem expressão de direito supralegal à disposição do titular do poder constituinte. Já não estão, porém, senão muito condicionadamente se é que em alguma medida o estão ao dispor dos órgãos do poder constituído. Estes princípios não podem ser modificados à vontade, seguindo o caminho do processo de revisão regulado pela Lei constitucional: a faculdade de revisão não pode romper o quadro da regulamentação legal-constitucional em que assenta. 5 Sendo assim, princípios como o da liberdade associativa e, o seu decorrente, da liberdade sindical, são aqueles dos quais o poder constituído pela Carta Magna não pode dispor, sob o risco de mitigar o papel da Constituição em garantir uma sociedade livre, justa e solidária (art. 3º, I). 4 NASCIMENTO, Amauri M. Curso de Direito do Trabalho. 26ª ed. São Paulo: Saraiva, 2011, p BACHOF, Otto. Normas Constitucionais Inconstitucionais. Coimbra: Almedina, 2008, p. 65.

7 Vale salientar ainda que afirmamos a norma da unicidade sindical como materialmente, e não formalmente, inconstritucional. Essa diferenciação é premissa essencial a partir do momento em que observamos que a natureza formal de dita norma é a mesma das demais constantes naquele diploma jurídico, o que impede o exegeta de determinar qualquer ausência de formalidade em sua constituição enquanto enunciado deontológico constitucional, e nos remete a uma análise hermenêutica contextual de seu conteúdo, diante dos demais preceitos legais, para identificarmos sua inconstitucionalidade. Sobre a Constituição em seu sentido material, novamente consideramos a lição de Otto Bachof, para quem esta será o sistema daquelas normas que representam componentes essenciais da tentativa jurídico-positiva de realização da tarefa posta ao povo de um Estado de edificar o seu ordenamento integrador 6. Cabe, ainda, referirmo-nos ao ensinamento de José Joaquim Gomes Canotilho, entendendo Constituição material como: [...] o conjunto de fins e valores constitutivos do princípio efectivo da unidade e permanência de um ordenamento jurídico (dimensão objectiva), e o conjunto de forças políticas e sociais (dimensão subjectiva) que exprimem esses fins ou valores, assegurando a estes a respectiva prossecução e concretização, algumas vezes para além da própria constituição escrita. [...] a constituição material não se reconduz a um simples poder de facto ( relações de poder e influência, facto político puro ), pois a constituição material tem também uma função ordenadora. 7 Para José Afonso da Silva, por sua vez, em sua lição o autor denomina a Constituição material no mesmo sentido, ou seja, sendo aquela Constituição que é formada por normas emanadas de seu próprio diploma jurídico ou de outros, podendo serem escritas ou não, mas sempre fazendo parte do corpo constitucional, fazendo ligeira diferenciação entre Constituição material em sentido amplo e em sentido estrito: A constituição material é concebida em sentido amplo e em sentido estrito. No primeiro, identifica-se com a organização total do Estado, com regime político. No segundo, designa as normas constitucionais escritas ou costumeiras, inseridas ou não num documento escrito, que regulam a estrutura do Estado, a organização de seus órgãos e os direitos fundamentais. Neste caso, 6 BACHOF, Otto. Normas Constitucionais Inconstitucionais. Coimbra: Almedina, 2008, p CANOTILHO, José Joaquim G. Direito Constitucional e Teoria da Constituição. 7ª ed. Coimbra: Almedina, 2003, p

8 constituição só se refere à matéria essencialmente constitucional; as demais, mesmo que integrem uma constituição escrita, não seriam constitucionais. 8 Continuando, outro exemplo de norma constitucional inconstitucional que verificamos no sistema normativo brasileiro diz respeito à possibilidade, ditada pelo artigo 5º, LXVII, da Constituição Federal, de prisão civil por dívida do depositário infiel. Dizemos isso pois o Brasil se tornou signatário, em 1992, do Pacto de San Jose da Costa Rica, o qual determina, especialmente em seu artigo 7º, 7, que ninguém deve ser detido por dívidas. O que fundamenta a inconstitucionalidade daquela norma é justamente, com base inclusive na lição de renomados doutrinadores como Pedro Lenza, Flavia Piovesan e de Antonio Augusto Cançado Trindade, o argumento de que os tratados de direitos humanos, quando ratificados pelo Brasil, são incorporados ao denominado bloco de constitucionalidade, que seria nada mais que o conjunto de normativas materialmente constitucionais. Lenza já salientou, neste sentido, o seguinte: O reconhecimento do bloco de constitucionalidade no ordenamento jurídico brasileiro importa em estender o conceito atribuído à Constituição, por meio do qual o parâmetro seria constituído não apenas pela Constituição escrita e posta, como pelas leis com valor constitucional formal(emendas à Constituição e, nos termos do art. 5º, 3º (EC 45/2004), os tratados e convenções internacionais sobre direitos humanos que forem aprovados, em cada Casa do Congresso Nacional, em dois turnos, por três quintos dos votos dos respectivos membros); pelo conjunto de preceitos e princípios decorrentes da Constituição, inclusive implícitos (não-escritos) e, ainda, ampliativamente, segundo alguns, pelos princípios integrantes daquilo que a doutrina vem a denominar como de ordem constitucional global. 9 Piovesan relaciona, neste sentido, quatro importantes dimensões assumidas pelos Tratados internacionais de direitos humanos, quais sejam: 8 SILVA, José Afonso da. Curso de direito constitucional positivo. 25ª ed. São Paulo: Malheiros, 2005, p. 40, LENZA, Pedro. Direito Constitucional esquematizado. 11ª ed. São Paulo: Editora Método, 2007, p. 155.

9 1) a celebração de um consenso internacional sobre a necessidade de adotar parâmetros mínimos de proteção dos direitos humanos; 2) a relação entre a gramática de direitos e a gramática de deveres;ou seja, os direitos internacionais impõem deveres jurídicos aos Estados (prestações positivas e/ou negativas); 3) a criação de órgãos de proteção (ex: Comitês, Comissões, Cortes internacionais); e 4) a criação de mecanismos de monitoramentos voltados à implementação dos direitos internacionalmente assegurados. 10 E, ainda, vale ter em vista os dizeres de Cançado Trindade no que diz respeito ao adensamento dos ditames do direito constitucional e do direito internacional, conforme suas palavras: Já não mais se justifica que o direito internacional e o direito constitucional continuem sendo abordados de forma estanque ou compartimentalizada, como o foram no passado. Já não pode haver dúvida de que as grandes transformações internas dos Estados repercutem no plano internacional, e a nova realidade neste assim formada provoca mudanças na evolução interna e no ordenamento constitucional dos Estados afetados. 11 Sendo assim, como o artigo 5º, LXVII, da Constituição Federal, que prevê a prisão civil por dívida do depositário infiel, é de 1988, e o Brasil se tornou signatário do Pacto de San Jose em 1992 declarando ilícita essa modalidade de prisão, adotando a regra lex posterior derogat legi priori, vemos que estamos diante de uma norma constante no corpo formal da Constituição mas que, mesmo assim, é materialmente inconstitucional. A inconstitucionalidade de normas constitucionais, assim, apesar de em princípio parecer paradoxal, é uma realidade que pode se dar em qualquer Estado de Direito, e que sobressai-se também com a tentativa dos Estados em se adaptarem à seara internacional do Tratados de direitos humanos. Tal situação, associada à evolução e mutação intrínseca à estrutura normativa constitucional, contribui ao surgimento de antinomias no próprio diploma jurídico material neste patamar, o qual é o ponto mais alto da pirâmide da ordem jurídico-institucional da maioria dos Estados do mundo. 10 PIOVESAN, Flávia. Temas de Direitos Humanos. 2ª ed. Max Limonad p TRINDADE, Antônio Augusto Cançado. A interação entre o direitos internacional e o direito interno na proteção dos direitos humanos. In A Incorporação das Normas Internacionais de Proteção dos Direitos Humanos no Direito Brasileiro. São José. CR: IIDH, ACNUR, CIVC, CUE. 1996, p.207.

10 Urge, assim, identificar as situações antinômicas a fim de garantir a harmonia e a segurança jurídica da estrutura normativa do Estado, o qual se encontra necessariamente vinculado a uma ordem legal em avançado panorama de internacionalização. As antinomias aparecem quando dois ou mais dispositivos normativos disciplinam a mesma matéria de forma contraditória. Estas ocorrem constitucionalmente especificamente na sua ordem material, onde dos enunciados prescritivos emanam normas que, aplicadas ao caso concreto, contradizem-se em seus ditames, obrigando o hermeneuta a produzir sistema interpretativo que dê condições de uma ser considerada válida e devidamente em vigor no ordenamento constitucional, enquanto a outra, ao menos no caso apresentado, modificada ou estirpada da Constituição material, mesmo que sem qualquer processo formal de redução do texto de dito diploma jurídico. Essa antinomia pode ocorrer pela via da contradição entre princípios ou entre normas jurídicas stricto sensu. No que diz respeito aos princípios, vale referirmo-nos aos dizeres de Canotilho: Os princípios não permitem opções livres aos órgãos ou agentes concretizadores da constituição (impredictibilidade dos princípios); permitem, sim, projecções ou irradiações normativas com um certo grau de discricionaridade (indeterminabilidade), mas sempre limitadas pela juridicidade objectiva dos princípios. 12 Insta dizer que a unicidade sindical, conforme já apresentado acima, e os demais preceitos que o contradizem enquanto na concretude dos dispositivos constitucionais, estão sempre limitados pela juridicidade objetiva, conforme salientou o autor suprarreferido. E, justamente neste viés é que se apresentam como absolutamente incompatíveis na ordem constitucional brasileira, tendo em conta que a conformação do primeiro não se coaduna, em quaisquer hipóteses, com a observância dos demais princípios já salientados acima. Já no caso do depositário infiel também acima apresentado, temos antinomia, contradição, entre ditames de normas retiradas de enunciados constitucionais, e não princípios. Nesse caso, porém, o fundamento é similar, valendo a lição de Norberto Bobbio, afirmando que a situação antinômica, ou seja, de normas incompatíveis entre si, é uma dificuldade tradicional 12 CANOTILHO, José Joaquim G. Direito Constitucional e Teoria da Constituição. 7ª ed. Coimbra: Almedina, 2003, p

11 frente à qual se encontraram os juristas de todos os tempos 13, e, tomando o Direito como um sistema ordenado de normas, deve ser dotado de unidade e coerência, se em um ordenamento vêm a existir normas incompatíveis, uma das duas ou ambas devem ser eliminadas 14, já que o Direito não tolera antinomias 15. CONCLUSÃO Assim sendo, compartilhamos, afinal, da lição de Bachof e dos demais juristas aqui apresentados da possibilidade de existência de normas constitucionais inconstitucionais, mormente na contemporaneidade onde nos deparamos com situações de complementariedade entre as normas exaradas dos diplomas jurídicos internacionais e o direito positivo posto na Constituição Federal. Ambos, por fim, especialmente no que diz respeito às normas de direitos humanos, se complementam para a conformação da denominada Constituição material. Além disso, encontra-se também a possibilidade de existência de normas constitucionais inconstitucionais dentro do próprio texto legal da Constituição, como no caso a unicidade sindical acima exposta. Nesta situação, visualizamos claramente a existência da antinomia entre dispositivos constitucionais, o que se dá, e é até compreensível no âmbito do direito positivo, tendo em vista o jogo de poderes e de fatores políticos que determinam a criação pelo Poder Constituinte do Diploma Maior, sendo impossível uma total harmonia dos interesses então expostos, o que acaba refletindo na necessidade de adequação prática, na aplicação do direito, da compatibilização da tentativa de harmonia sistêmica constitucional com a revelação da norma no caso concreto, especialmente diante das mutações sociais, políticas, econômicas e culturais, que refletem e diretamente são refletidos do âmbito jurídico, pela qual atravessamos desde o ano da promulgação da Constituição (1988). Deve-se, neste sentido, mesmo que não haja uma antinomia num primeiro momento, buscar adequar o Direito às novas dimensões das esferas de convivência intersubjetivas, trazendo para a realidade um arcabouço coerente com os ditames inclusive estabelecidos nos tratados internacionais, em especial os de direitos humanos incluída aí a unicidade sindical, pois diretamente relacionada com os direitos de primeira dimensão, que caminham no sentido de evolução do conceito e dos pressupostos da dignidade da pessoa humana. 13 BOBBIO, Norberto. Teoria do Ordenamento Jurídico. 10ª. ed. Brasília: Editora Universidade de Brasília, 1999, p BOBBIO, Norberto. Teoria do Ordenamento Jurídico. 10ª. ed. Brasília: Editora Universidade de Brasília, 1999, p BOBBIO, Norberto. Teoria do Ordenamento Jurídico. 10ª. ed. Brasília: Editora Universidade de Brasília, 1999, p. 81.

12 REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS BACHOF, Otto. Normas Constitucionais Inconstitucionais. Coimbra: Almedina, BOBBIO, Norberto. Teoria do Ordenamento Jurídico. 10ª. ed. Brasília: Editora Universidade de Brasília, CANOTILHO, José Joaquim G. Direito Constitucional e Teoria da Constituição. 7ª ed. Coimbra: Almedina, 2003 LENZA, Pedro. Direito Constitucional esquematizado. 11ª ed. São Paulo: Editora Método, NASCIMENTO, Amauri M. Curso de Direito do Trabalho. 26ª ed. São Paulo: Saraiva, PIOVESAN, Flávia. Temas de Direitos Humanos. 2ª ed. Max Limonad SILVA, José Afonso da. Curso de direito constitucional positivo. 25ª ed. São Paulo: Malheiros, TRINDADE, Antônio Augusto Cançado. A interação entre o direitos internacional e o direito interno na proteção dos direitos humanos. In A Incorporação das Normas Internacionais de Proteção dos Direitos Humanos no Direito Brasileiro. São José. CR: IIDH, ACNUR, CIVC, CUE

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