de. Assim, podemos entender o ato de engordar como algo preciso e intencional;

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3 A mulher gorda, mais do que o homem, é segregada e anulada. Mas o peso que mais a incomoda não é aquele registrado na balança é o da consciência. Quase inevitavelmente, as explicações dadas para a gordura apontam para o fracasso da própria mulher em controlar seu peso, seu apetite e seus impulsos. As mulheres que sofrem do problema da compulsão de comer (que ataca quase todas as gordas) suportam uma dupla angústia: sentem-se desajustadas socialmente e acreditam ser as únicas culpadas por isso. Devido à ansiedade que isso acarreta e ao fato de que as diversas soluções oferecidas às mulheres no passado não as satisfizeram, tornou-se necessário o desenvolvimento de uma nova psicoterapia que lidasse com o problema da compulsão de comer, dentro do contexto do movimento de libertação da mulher. É que se torna cada dia mais claro que a gordura é uma questão feminista. Ela é um problema social, nada tem a ver com a falta de controle ou de força de vontade da mulher, mas pode se tornar uma curiosa forma de protesto. Este livro não diz o que a mulher deve fazer para emagrecer. Ele trata de ajudá-la a conviver com o seu corpo, a aceitá-lo sem culpa, a perder o peso da consciência. A melhor maneira de emagrecer, como fica claro nestas páginas, é sentir-se desobrigada de fazê-lo. Ao examinar os motivos que levam as mulheres a engordar, Susie Orbach acaba por analisar a própria situação da mulher na sociedade. "O fato de a compulsão de comer", explica ela, "ser um problema majoritariamente feminino indica que está relacionada à vivência de ser mulher na socieda-

4 de. Assim, podemos entender o ato de engordar como algo preciso e intencional; é um desafio dirigido, consciente ou inconscientemente, à estereotipagem de papéis sexuais e a vivências de feminilidade culturalmente definidas. A gordura", continua, "é uma resposta à desigualdade dos sexos. Representa sentimentos de mulheres que raramente são examinados, muito menos tratados." O enfoque terapêutico aqui, diferentemente de outros programas de emagrecimento, não reforça os papéis sociais opressores que, de saída, levam as mulheres a comer compulsivamente e, em seguida, à gordura. O que Susie Orbach faz neste seu revolucionário trabalho fruto de pesquisa entre mulheres de todas as classes, entre os dezessete e os 65 anos é um convite à libertação, ao fim da escravidão das mulheres, de sua submissão às dietas e às indústrias de moda que, primeiro, estabelecem imagens ideais e, em seguida, incitam-nas a se encaixar nessas imagens. Gordura é uma questão feminista, um livro surpreendente e extremamente consciente, escrito por uma psicoterapeuta praticante, ensina, na verdade, a mulher a perder peso sentindo prazer com a comida, com a vida e consigo mesma, livrando-a do círculo vicioso dieta/abuso. Co-fundadora do Women's Center Institute, em Nova York, e do Women's Therapy Center, em Londres, Susie Orbach é especialista no tratamento da compulsão de comer. Com este trabalho, ela torna obsoletos todos os livros de dieta para emagrecer.

5 Tradução de CINTHIA BARKI

6 Título original norte-americano FAT IS A FEMINIST ISSUE Copyright 1978 by Susie Orbach Direitos de publicação exclusiva em língua portuguesa em todo o mundo adquiridos pela DISTRIBUIDORA RECORD DE SERVIÇOS DE IMPRENSA S.A. Rua Argentina Rio de Janeiro, RJ Tel.: que se reserva a propriedade literária desta tradução Impresso no Brasil PEDIDOS PELO REEMBOLSO POSTAL Caixa Postal Rio de Janeiro, RJ Impresso por Gráfica Portinho Cavalcanti Ltda. Rua Santana, 136/138 (edifício próprio) Tel.: (PABX) Rio de Janeiro RJ

7 Para, Eleanor Anguti, Carol Bloom e Lela Zaphiropoulos

8 Sumário

9 Prefácio à edição brasileira Chovia e fazia frio em Londres. Já estava andando há algumas horas quando enfim encontrei a livraria que estava procurando. Sister Right, era o nome. Uma livraria feminista. Fui observando os títulos, selecionando livros que julgava serem interessantes. De repente, um me chamou atenção: Gordura é uma questão feminista. Juntei-o aos outros, mas a proposta do livro me intrigava. As chamadas diziam: "Emagreça sem fazer regime", um livro antidieta, e outras coisas do gênero. Como havia engordado demais durante o inverno londrino, dei-me conta do quanto é difícil pertencer ao mundo maravilhoso dos magros. Você cai no círculo vicioso terrível do engorda/sente culpa/come com culpa/engorda/se pesa/fica aflito/jejua/segue tudo quanto é regime que aparece pela frente e assim por diante. Gordura é uma questão feminista é um livro intrigante que questiona as causas da sua gordura e leva você a refletir sobre ela e sobre o fato de estar gordo. A autora parte do princípio de que existe um desejo interno e inconsciente de ser gordo, e que você faz uso da gordura por algum motivo. 9

10 Numa abordagem individual e social bastante profunda, o livro prende e provoca, e confesso que houve momentos em que eu o odiei. É claro, ele mexeu muito comigo, pois várias situações relatadas me serviram como uma luva. Através do livro, e com muita reflexão posterior, fui descobrindo e combatendo as causas da minha gordura, e hoje mantenho um peso considerado normal para a minha estatura e idade. Agradeço imensamente à Editora Record, pois foi quem acreditou no livro e resolveu editá-lo aqui no Brasil. Espero que a sua trajetória por estas páginas também seja esclarecedora e frutífera, como o foi para mim e para milhares de leitores nos Estados Unidos e na Europa. A autora fez a parte dela; eu, como agente e admiradora de suas idéias, fiz a minha de trazer o livro até você. O resto está em suas mãos. Boa leitura! Sílvia Rocha setembro de

11 Prefácio Em março de 1970, fui ao Alternate U, na Sexta Avenida, na altura da rua 14, na cidade de Nova York, inscrever-me em um curso sobre compulsão de comer e auto-imagem, somente para mulheres. Entrei numa sala abarrotada com quarenta mulheres, gordas e magras, que falavam sobre seus corpos e hábitos alimentares. Carol Munter, a organizadora do grupo, visivelmente encantada com a afluência de pessoas, sugeriu que nos dividíssemos em quatro grupos. Era a primeira vez, desde o começo do movimento de libertação da mulher, que mulheres ousavam aparecer em grupos de debates que tratavam especificamente de imagem corporal. O tema do curso dava a impressão de ser algo burlesco: feministas preocupadas com a aparência! Naquela época costumávamos rejeitar os ideais masculinos veiculados pela propaganda e pelo cinema e que ditavam nossa aparência. Éramos aparentemente felizes vestindo nossos jeans e camisetas. Não tínhamos o hábito de conversar com nossas amigas sobre roupas ou forma física; na verdade, havia uma sensação de alívio generalizada, podíamos ficar à vontade com nossas roupas e corpos e não precisávamos preocupar-nos com o que era especialmente ligado à moda, provocante, ou atraente. Vestíamos as roupas da rebelião e não ligávamos para o que os outros pudessem pensar. Ou será que ligávamos? 11

12 Antes que formássemos os grupos, Carol Munter mencionou duas coisas: a primeira, que conhecia uma pessoa que havia perdido muito peso sem fazer dieta; a segunda, que havia montado um espelho de quatro lados num closet ali perto. Quem quisesse podia ir lá, sozinha, olhar-se pelos quatro lados o tempo que fosse preciso. Carol achava que duas coisas podiam ser a solução para a perda de peso: não fazer dieta e aceitar a si mesma. Mal prestei atenção. Pensava: O que estou fazendo aqui? Sempre me olho no espelho, não tenho medo de fazer isso... Sou mais magra do que algumas delas, será que as outras mulheres vão me aceitar? Nosso grupo marcou um novo encontro para a semana seguinte e nos separamos. Estava confusa, havia esperado por um debate sobre padrões de nutrição nos Estados Unidos e no Terceiro Mundo, ou talvez um exame das indústrias da moda e de alimentos, ou algo sobre a incidência da obesidade nos "países ricos". Vacilava em examinar o assunto da compulsão de comer fora do contexto de uma linguagem política, linguagem que colocava a família como o ponto de articulação entre o patriarcado e a sociedade ocidental. Estava perturbada, mas agarrei-me ao slogan de que o individual é político. Não teria voltado, salvo por um motivo. Apesar do malestar e da necessidade de comparar-me às outras mulheres, sentia também um alívio extremo em fazer parte de um grupo de mulheres, gordas e magras, onde todas eram comedoras compulsivas. O problema estava identificado e talvez não me devesse sentir tão envergonhada. Há um ano, aproximadamente, vinha falando bastante sobre assuntos muito pessoais em grupos de conscientização e de repente fiquei muito animada quando Carol propôs que tratássemos do mesmo modo uma questão que havia permanecido tão oculta e íntima. Deixei o grupo seis meses depois. Não me considerava mais uma comedora compulsiva e consegui estabilizar-me em um peso que achei aceitável. Ele ultrapassou um pouco aquele das minhas antigas fantasias do gênero Twiggy. A 12

13 comida não me apavorava mais e podia viver em paz com meu corpo. Isso ainda me deixa surpresa, diante daqueles dez anos tão sofridos de dietas, abusos e ódio de mim mesma. O que aconteceu então, no grupo, que causou essa transformação? Na verdade, muita coisa. Formamos um grupo convencional de mulheres e, uma a uma, fomos compartilhando nossos sentimentos a respeito de nossos corpos, atratividade, comida, modo de comer, magreza, gordura e roupas. Relatamos minuciosamente casos de dietas anteriores e contamos histórias horripilantes de médicos, psiquiatras, clubes de dieta, hotéis de emagrecimento e jejuns. Conhecíamos o suficiente para saber que todas as nossas tentativas anteriores de chegar ao peso e à forma certos haviam fracassado. Perguntávamos a nós mesmas por que queríamos nossos corpos tão em forma e o que havia de tão poderoso naquele tipo específico de aparência para que tivéssemos todas tentado e conseguido perder peso dezenas de vezes. Não entendíamos por que não conseguíamos nos livrar "dele", por que, toda vez que quase atingíamos nosso objetivo, "ele" voltava furtivamente, ou por que sempre saíamos do regime. Por que vivíamos tão atormentadas com nossas proporções e formas? Começamos a formular novas perguntas e a nos deparar com novas respostas. Formávamos um grupo de ajuda mútua quando a força do movimento de libertação da mulher nos estimulou a repensar muitos conceitos pre-estabelecidos. O poder criativo do movimento preparou um solo fértil onde as idéias feministas, alimentadas e desenvolvidas em inúmeros grupos de conscientização, em passeatas e manifestações e em campanhas políticas organizadas, encontraram novas aplicações e utilidades. A compulsão de comer era um dos campos onde essas idéias podiam ser aplicadas. A compulsão de comer é uma atividade muito penosa e, aparentemente, autodestrutiva. Mas o feminismo ensinounos a desconfiar de rotulações deste gênero. Ensinou-nos que certas atividades que parecem ser autodestrutivas são, invariavelmente, adaptações, tentativas de enfrentar o mundo. Em nosso grupo, viramos às avessas nossas idéias for- 13

14 temente arraigadas sobre dietas e magreza. Carol lembrounos de sua amiga que perdera peso sem fazer dieta. Aos poucos e com insegurança, paramos com nossas dietas. Nada horrível aconteceu. Meu mundo não desabou. Carol levantou a questão principal: talvez não quiséssemos ser magras. É claro que eu queria ser magra, eu seria... As reticências ficaram com a resposta. Eu magra seria diferente de quem eu era. Decidi que não queria ser magra, não havia nada de mais nisso. Os homens ficam mexendo com a gente, viramos objetos sexuais. Não, decididamente não queria ser magra... Desenvolvi um novo raciocínio político para não ser magra não me tornaria aquilo que as revistas de moda queriam que eu fosse. Era uma beatnik judia e seria zaftig* Relaxei, comi o que quis e vesti as roupas que tinham a ver comigo. Sentime até mesmo um pouco prosa. Ignorava as colunas de dieta dos jornais, apreciava as diferentes fases gastronômicas pelas quais passava e andava pelas ruas sentindo-me cada vez mais confiante. No entanto, aquelas reticências continuavam a me perturbar. Por que tinha medo de ser magra? Comecei a visualizar as coisas que me apavoravam. Ao mesmo tempo que as confrontava, perguntava a mim mesma como o fato de ser gorda poderia me ajudar naquelas situações? O fato de ser magra me causaria mais dificuldades em quê? Quando a imagem da minha personalidade gorda e magra se fundiu, comecei a perder peso. Fiquei extremamente satisfeita em ter um corpo no qual me sentia bem e em não estar mais obcecada com relação à comida. Prometi a mim mesma que não seria eu a responsável por me privar das comidas de que gostava. Aprendera uma lição decisiva: era a mesma pessoa, gorda ou magra. Satisfeita, deixei o grupo. Juntas havíamos desenvolvido uma teoria e uma prática que faziam sentido. Eu e Carol continuamos a ajudar outras mulheres a resolver esse problema. Orientamos grupos. Tornamo-nos terapeutas e trabalhamos com mulheres em grupos e individualmente durante cinco anos. 'Pessoa gorda em ídiche. (N. do T.) 14

15 Este livro é uma tentativa de compartilhar esse trabalho. É minha visão do que aprendemos no primeiro grupo, com os grupos subseqüentes e no tratamento de mulheres individualmente, que dividiram seu problema da compulsão de comer conosco. Como tal é necessariamente limitado; seu alcance não é suficiente para fornecer um quadro abrangente sobre a compulsão de comer, mas aponta para aspectos que não foram notados por aqueles que trabalham nesse campo. As observações e insights foram colhidos junto a mulheres dos Estados Unidos, Canadá e Inglaterra. Todas brancas e na faixa etária dos dezessete aos sessenta e cinco anos. Estão incluídas avós e mulheres solteiras. Pertencem à classe operária, classe média e classe média alta. Desejaria imensamente que este livro tivesse alguma utilidade para um público mais amplo, principalmente para mulheres negras e latinas, mas reconheço que suas vivências culturais são diferentes daquelas de onde essas idéias se desenvolveram, e talvez não tenham muito a acrescentar-lhes. Muitos já se ocuparam do estudo da compulsão de comer, como psiquiatras, psicanalistas, psicólogos, médicos, nutricionistas e endocrinologistas 1. De modo geral, lidam com o problema ou tentando eliminar a obesidade ou tratando das causas subjacentes à ansiedade que gera a compulsão de comer. Esta nunca foi definida com precisão, mas para mim e para as mulheres com as quais trabalhei ela significa o seguinte: Comer quando a fome não é fisiológica. Sentir-se descontrolada com relação à comida, entrando para valer na dieta ou na comilança. Despender muito tempo com pensamentos e preocupações relacionados à comida e à gordura. Procurar ansiosamente, na dieta da moda, informações essenciais. 15

16 Sentir-se péssima por não ter controle. Sentir-se péssima em relação a seu corpo. Nosso enfoque tem sido o de ver a compulsão de comer tanto como sintoma quanto como um problema em si mesmo. É sintoma no sentido em que aquele que come por compulsão não sabe como lidar com aquilo que está por trás deste comportamento e apela para a comida. Por outro lado, a síndrome da compulsão de comer se propagou de tal maneira e é tão dolorosamente absorvente que deve também ser abordada diretamente como um problema. Conseqüentemente, tratamos de ambos os aspectos. Examinamos e desmistificamos o sintoma para descobrir o que está sendo manifestado no desejo de ser gorda, no medo da magreza e na vontade de se fartar e de passar fome. Ao mesmo tempo, tentamos intervir diretamente para que os sentimentos e o comportamento com relação à comida possa modificar-se. Os problemas subjacentes devem ser revelados e distinguidos, mas não necessariamente trabalhados. A perspectiva é sempre a de perceber as dimensões sociais que levam as mulheres a optar pela compulsão de comer como uma adequação à pressão sexista da sociedade contemporânea. Estamos cientes de que a preocupação contemporânea com a magreza é nova e restringe-se aos países ocidentais que aparentemente não sofrem de escassez de alimentos. A produção de alimentos desses países está quase toda nas mãos de empresas multinacionais 2. Dominam totalmente o mercado, desde comidas com "alto teor de proteínas", "vitaminadas" e "integrais", a doces dietéticos, geléias, sorvetes, leites e refrigerantes. Às mulheres, as compradoras mais importantes de alimentos, é oferecida uma escolha aparentemente ampla. Elas têm de fazer escolhas inteligentes para a saúde e o bem-estar de suas famílias. Ao mesmo tempo, toda mulher se defronta incessantemente com imagens de magreza e de boa forma e com recomendações para comer sensatamente, perder peso e ter uma vida feliz. Esta 16

17 preocupação geral com a magreza atinge tanto mulheres, como homens, e as pessoas são, muitas vezes, induzidas a emagrecer quando não estavam anteriormente com excesso de peso. Deste modo tem início um ciclo de privação de comida e de compulsão de comer. As mulheres são especialmente suscetíveis a esses apelos em favor da perda de peso porque são educadas para adaptar-se a uma imagem de feminilidade que confere importância ao peso e à forma. Somos ensinadas a nos enquadrar e a nos destacar ao mesmo tempo mensagem realmente contraditória. Os homens estão sendo cada vez mais atingidos por esse tipo de pressão e, apesar de ter trabalhado com muitos homens, não tentei formular uma teoria que descreva como o sexismo afeta o peso masculino. Este livro foi escrito como um manual de auto-ajuda. No entanto, alguns terapeutas talvez queiram incorporar este método a seus trabalhos com comedores compulsivos 3. Espero que a experiência aqui relatada e vivida pelas mulheres tenha algo a dizer a todas aquelas que sofrem do problema da compulsão de comer. Susie Orbach Londres,

18 Introdução A obesidade e o comer em excesso juntaram-se ao sexo como questões fundamentais nas vidas de muitas mulheres hoje em dia. Estima-se que nos Estados Unidos 50% das mulheres têm excesso de peso. Todas as revistas femininas publicam uma coluna de dieta. Médicos e clínicas de emagrecimento prosperam. Nomes de comidas dietéticas fazem agora parte de nosso vocabulário comum. A boa forma física e a beleza são, hoje em dia, o objetivo de todas as mulheres. Ao mesmo tempo que essa preocupação com a gordura e com a comida tornou-se tão comum que passamos a aceitá-la sem questionamentos, ser gorda, sentir-se gorda e a compulsão de comer em excesso são, na verdade, experiências sérias e dolorosas para as mulheres que as vivem. A mulher gorda é segregada e anulada. Quase inevitavelmente, as explicações dadas para a gordura apontam para o fracasso da própria mulher em controlar seu peso, seu apetite e seus impulsos. As mulheres que sofrem do problema da compulsão de comer suportam uma dupla angústia: sentem-se desajustadas socialmente e acreditam-se as únicas culpadas. O número de mulheres que têm problemas com peso e que comem por compulsão é grande e vem aumentando. 19

19 Devido à ansiedade que isso acarreta e ao fato de que as diversas soluções oferecidas às mulheres no passado não funcionaram, tornou-se necessário o desenvolvimento de uma nova psicoterapia que lidasse com o problema da compulsão de comer, dentro do contexto do movimento de libertação da mulher. Esta nova psicoterapia representa um reexame feminista da psicanálise tradicional. Um enfoque psicanalítico tem muito a oferecer para. uma solução dos problemas da compulsão de comer. Este enfoque nos fornece meios de investigar as raízes do problema em nossas primeiras vivências. Mostra-nos como formamos nossa personalidade adulta, principalmente nossa identidade sexual como uma menina recém-nascida tornase moça e depois mulher e como um menino recém-nascido torna-se rapaz e depois homem. O insight psicanalítico nos ajuda a compreender o que significa ser gorda e comer em excesso para cada mulher individualmente, através da explicação de seus atos conscientes ou inconscientes. No entanto, um enfoque baseado exclusivamente na psicanálise clássica, sem a perspectiva feminista, é insuficiente. Desde a Segunda Guerra Mundial, a psiquiatria, de modo geral, tem dito às mulheres infelizes que sua insatisfação representa uma incapacidade em resolver o "complexo de Édipo". A gordura feminina tem sido diagnosticada como um sintoma obsessivo-compulsivo relacionado à separação-individuação, narcisismo e desenvolvimento de ego insuficiente 1. Ser gorda é encarado como um desvio e uma maneira de afastar os homens. O comer em excesso e a obesidade foram reduzidos a falhas de caráter, em vez de serem entendidos como a expressão de vivências dolorosas e conflituosas. Além disso, em vez de tentar descobrir e enfrentar os sentimentos desagradáveis das mulheres com relação a seus corpos ou com relação à comida, os profissionais se preocuparam com o problema de como torná-las magras. Assim, depois que psiquiatras, analistas e psicólogos fracassaram, cientistas começaram a procurar respostas biológicas e até mesmo genéticas para explicar a obesidade. Nenhum destes enfoques têm tido resultados con- 20

20 vincentes e duradouros. Nenhum deles chegou aos pontos fundamentais do problema da compulsão de comer que estão enraizados na desigualdade social da mulher. Uma visão feminista do problema da compulsão de comer da mulher é essencial se quisermos superar o enfoque ineficaz do tipo que diz que a culpa é da vítima 2 e o insatisfatório modelo de tratamento de adaptação. Enquanto a psicanálise fornece meios valiosos de descobrir as origens mais profundas da ansiedade, o feminismo faz questão de dizer que essas dolorosas vivências pessoais advêm do contexto social onde as meninas nascem e dentro do qual crescem e se tornam mulheres. O fato da compulsão de comer ser um problema majoritariamente feminino indica que está relacionada à vivência de ser mulher em nossa sociedade. O feminismo demonstra que ser gorda representa uma tentativa de romper com os estereótipos sexuais da sociedade. Assim, podemos entender o ato de engordar como algo preciso e intencional; é um desafio dirigido, consciente ou inconscientemente, à estereotipagem de papéis sexuais e a vivências de feminilidade culturalmente definidas. A gordura é um mal social; a gordura é uma questão feminista. A gordura não tem a ver com falta de controle ou falta de força de vontade. A gordura tem a ver com proteção, sexo, criação, força, limites, maternidade, estabilidade, afirmação e raiva. É uma resposta à desigualdade dos sexos. A gordura hoje representa sentimentos de mulheres que raramente são examinados, muito menos tratados. Embora tornar-se gorda não altere as raízes da opressão sexual, um estudo das causas subjacentes ou da motivação inconsciente que leva as mulheres a comer compulsivamente pode indicar novas possibilidades de tratamento. Nosso enfoque terapêutico, diferentemente de outros programas de emagrecimento, não reforça os papéis sociais opressores que levam as mulheres, de saída, à compulsão de comer. O que acontece com a posição social da mulher, que a leva a reagir engordando? A justificativa ideológica atual para a desigualdade dos sexos formou-se baseada no conceito das diferenças inatas 21

21 entre homens e mulheres. Somente as mulheres podem dar à luz e amamentar seus bebês e, dessa forma, forma-se uma relação de dependência primária entre mãe e filho. Embora esta capacidade biológica seja a única diferença genética conhecida entre o homem e a mulher 3, ela serve de base para uma divisão desigual do trabalho, do poder, dos papéis e das expectativas entre os sexos. A divisão do trabalho está institucionalizada. A capacidade da mulher de reproduzir e alimentar relegou-a ao cuidado e à socialização das crianças. A relegação da mulher aos papéis sociais de esposa e mãe tem muitas conseqüências significativas que são, em parte, responsáveis pelo problema de gordura. Em primeiro lugar, para se tornar esposa e mãe ela tem de ter um homem. Conseguir um homem é visto como um objetivo quase inatingível, porém essencial. Para conseguir um homem, a mulher deve aprender a se ver como um artigo, uma mercadoria, um objeto sexual. Grande parte daquilo que ela sente e da sua identidade depende de como ela se vê e é vista pelos outros. Como diz John Berger em Ways of Seeing: "Os homens agem, as mulheres aparecem. Os homens olham as mulheres. As mulheres se vêem sendo olhadas. Isto determina não somente quase todas as relações entre homens e mulheres, como também a relação das mulheres consigo mesmas 4." Essa ênfase à aparência como aspecto principal da existência da mulher torna-a extremamente autocrítica. Exige que ela se ocupe com uma imagem de si mesma que os outros achem agradável e atraente imagem que transmita imediatamente que tipo de mulher ela é. Ela tem de se observar e avaliar, examinando cada detalhe de si mesma como se estivesse sendo julgada de fora. Tenta encaixar-se na imagem de feminilidade exibida em cartazes, jornais, revistas e na televisão. Os meios de comunicação apresentam a mulher ou dentro de um contexto sexual, ou dentro da família, refletindo os dois papéis estabelecidos para ela: o 22

22 primeiro, como objeto sexual, o segundo, como mãe. Ela é criada para "agarrar" um homem com sua boa aparência e boas maneiras. Para fazer isso ela deve parecer atraente, natural, sensual, sexy, virginal, inocente, confiável, ousada, misteriosa, coquete e magra. Em outras palavras, ela oferece sua auto-imagem ao mercado do casamento. Como mulher casada, sua sexualidade será sancionada e alguém se responsabilizará por suas necessidades econômicas. Terá alcançado o primeiro degrau da feminilidade. A partir do momento que se ensinou às mulheres ter uma visão exterior de si mesmas enquanto pretendentes aos homens, elas se tornaram escravas das imensas indústrias de moda e dieta que, primeiro, estabelecem imagens ideais e, em seguida, incitam-nas a se encaixar nessas imagens. A mensagem é clara e enfática: o corpo da mulher não lhe pertence. O corpo da mulher, do jeito que é, não satisfaz. Tem de ser magro, sem pêlos supérfluos, desodorizado, perfumado e vestido. Deve adequar-se a um tipo físico ideal. A família e a socialização escolar ensinam as meninas a se enfeitar do modo certo. Além disso, o trabalho não tem fim, pois essa imagem muda a cada ano. No início dos anos sessenta, a única maneira de sentir-se aceita era ser magérrima, ter o busto achatado e cabelos longos e lisos. A primeira exigência era conseguida quase passando fome, a segunda enfaixando o busto com uma bandagem, e a terceira, passando-se os cabelos a ferro. Em seguida, no início dos anos 70, a aparência ideal era ter cabelos encacheados e seios volumosos. Altas e magras num ano, pequeninas e discretas no seguinte, as mulheres são continuamente manipuladas por imagens de uma feminilidade exemplar extremamente fortes porque são apresentadas como a única realidade. Aquelas que não levam em conta essas imagens, correm o risco de serem rejeitadas. As mulheres são estimuladas a amoldar-se, a ajudar a economia através do consumo incessante de bens e roupas rapidamente inutilizados pela moda da estação seguinte. Atrás de tudo isso, uma indústria de dez bilhões de dólares aguarda para remodelar os corpos de acordo com a última moda. Deste modo, espera-se 23

23 que as mulheres moldem-se a um padrão externamente definido e sempre em mutação. Mas tais modelos de feminilidade são sentidos como irreais, assustadores e inatingíveis. Formam um quadro que está muito longe da realidade do dia-a-dia das mulheres. O que persiste nessas imagens é que a mulher tem que ser magra. Para muitas mulheres, comer compulsivamente e ser gorda tornou-se um meio de evitar ser vista como mercadoria ou como a mulher ideal: "Minha gordura diz 'dane-se' para todos aqueles que me querem como mãe perfeita, namorada, empregada e prostituta. Veja-me como eu sou, não como deveria ser. Se você está realmente interessado em mim, pode fazer um esforço para passar através das camadas de gordura e descobrir quem eu sou." Assim, a gordura expressa uma revolta contra a falta de poder da mulher, contra a pressão de ter de parecer e agir de uma determinada forma, e contra o fato de ser julgada por sua capacidade ou não de criar uma imagem de si mesma. Tornar-se gorda é, portanto, uma resposta da mulher à primeira etapa do processo de desempenhar um papel social estabelecido, que exige que ela se amolde a uma imagem imposta externamente para conseguir um homem. Mas um segundo estágio acontece depois que ela alcança este objetivo, após tornar-se esposa e mãe. Para uma mãe, as necessidades de todos os outros vêm em primeiro lugar. As mães são gerentes não remuneradas de pequenas organizações, fundamentais, complexas e exigentes. Podem não ter controle sobre os acordos financeiros desta minicorporação ou sobre as principais decisões a respeito de sua localização ou gestos de capital, mas geralmente controlam as operações do dia-a-dia. Para garantir sua sobrevivência, estima-se que a mãe trabalha dez horas por dia (dezoito, se trabalhar fora), garantindo a compra e o preparo da comida, a arrumação das roupas, brinquedos e livros das crianças e que as coisas do pai estejam sempre em ordem. Ela torna a casa habitável, limpa e confortável; faz o trabalho de relações públicas organizando o horário em que a família vai dedicar-se a parentes e ami- 24

24 gos; fornece os serviços de baby-sitter e de motorista para seus filhos. Enquanto somos bebês e crianças, cuidam de nós. No entanto, quando adultas, espera-se das mulheres que alimentem e limpem não somente seus bebês, como também seus maridos, e somente depois, elas mesmas. Neste papel as mulheres se sentem especialmente coagidas a apelar para a comida. Após o nascimento de cada bebê, o peito e as mamadeiras tornam-se questões centrais. Geralmente a mãe é levada a sentir-se insegura com relação à sua competência no desempenho de seu trabalho básico. No hospital, o bebê é pesado depois de cada mamada para se checar se o peito da mãe tem leite suficiente. Pediatras e livros que ensinam a cuidar de bebês bombardeiam a nova mãe com conselhos autoritários mas divergentes sobre, por exemplo, horário fixo de alimentação ou determinado pela necessidade do bebê, receitas de mamadeiras, ou sobre o início da alimentação sólida. À medida que as crianças crescem, continua-se a chamar a atenção da mulher sobre sua incapacidade de proporcionar uma alimentação satisfatória. A indústria de alimentos, ao preço de bilhões de dólares por ano, aconselha-a como, quando e o que dar àqueles que estão entregues a seus cuidados. A propaganda a induz a oferecer cafés da manhã nutritivos, salgadinhos para beliscar e jantares saudáveis. A obsessão dos meios de comunicação com o bom cuidado da casa e, especialmente, com uma boa comida e alimentação, serve de termômetro para aferir o desempenho sempre sofrível da mulher. Essa obsessão estabelece as regras para a preparação da comida, de modo que a dona-de-casa é exposta a uma lista tão contraditória de permissões e proibições, que é um verdadeiro milagre conseguir fazer algo, seja o que for, na cozinha. Não é de surpreender que uma mulher aprenda rapidamente a não confiar mais em sua intuição, seja para alimentar sua família, seja para sentir quais são suas próprias necessidades quando se alimenta. Durante o período da vida dedicado à criação dos filhos a mulher está constantemente assegurando que a vida dos outros decorra tranqüilamente. Faz isso sem pensar se- 25

25 riamente que está trabalhando num emprego de tempo integral. Sua própria vivência do dia-a-dia é como parteira das atividades dos outros. Enquanto prepara os filhos para se tornarem futuros trabalhadores e possibilita a seu marido ser um produtor "eficiente", seu papel é o de produzir e reproduzir trabalhadores. Nesta posição, ela está constantemente dando, sem receber, o crédito que confirmaria seu valor social. Em uma sociedade capitalista todos são definidos pe o trabalho. Homens de negócio, de carreira universitária ou profissionais têm mais status do que pessoas que trabalham na produção ou em serviços gerais. O trabalho feito em casa pela mulher entra nesta última categoria. Apesar de ser geralmente descrito como subalterno, de ser considerado criativo, de ser menosprezado por ser fácil, ou de ser venerado como algo divino, o trabalho da mulher é visto como se existisse fora do processo de produção e é, por isso, desvalorizado. As mulheres, como grupo, têm menos liberdade de expressão do que os homens de sua mesma classe social. Por mais oprimidos que possam ser por uma classe social, os homens detêm mais poder que as mulheres. Todo homem tem de ser cauteloso com o patrão. Toda mulher tem de ser cautelosa temendo a reprovação de seu homem. As normas e pontos de vista atuais são masculinos. As mulheres são vistas como sendo diferentes das pessoas normais (que são os homens), são vistas como o "outro" 5. Não são aceitas em termos de igualdade com os homens. Sua plena identidade não tem a aprovação da sociedade onde crescem. Isto acarretará uma confusão para as mulheres. Estão presas ao papel de estranhas e, no entanto, lhes é delegada a responsabilidade de garantir a produtividade das vidas dos outros. Visto que as mulheres não são aceitas como seres humanos em termos igualitários e, no entanto, espera-se que assim mesmo dediquem enorme energia às vidas dos outros, as distinções entre suas próprias vidas e as dos que estão próximos podem tornar-se pouco claras. Confundir-se com os outros, alimentar os outros, não saber como formar um 26

26 espaço para si mesmas, são assuntos freqüentes das mulheres. As mães estão constantemente dando de si e alimentando o mundo; as necessidades dos outros vêm em primeiro lugar. Não é de surpreender que elas se sintam confusas com relação a suas próprias necessidades físicas e que tenham poucas maneiras de perceber seus interesses próprios. Uma forma de dar para si e de se preencher é através da comida. "Como muito porque estou sempre me abastecendo para a luta do dia-a-dia. Cuido de minha família, de minha mãe e de quem faça parte do meu dia. Sinto-me vazia em dar tanto de mim, por isso como para preencher os espaços e sentir-me forte para continuar a dar de mim para o mundo." A gordura resultante tem a função de formar o espaço que as mulheres anseiam. É uma tentativa de responder à pergunta: "Se estou sempre me dando para todos, onde é que começo e termino?" Queremos ser e parecer sólidas. Queremos ser maiores do que o permitido pela sociedade. Queremos ocupar tanto espaço quanto o outro sexo. "Se me tornar tão grande quanto um homem, talvez seja levada a sério como um homem." O que acontece com a mulher que não se encaixa nesse papel social? Apesar da imagem de objeto sexual ideal e de mãe supercompetente ser difundida socialmente, ela não só é limitadora e inatingível, como também incapaz de corresponder, hoje em dia, à realidade da vida de inúmeras mulheres. A verdade é que atualmente a maioria das mulheres ainda se casa e tem filhos. Mas muitas também continuam a trabalhar fora depois do casamento, quer para satisfazer necessidades econômicas, quer para tentar romper com os limites de seu papel social. As mulheres estão sempre fazendo malabarismos com os inúmeros aspectos de suas personalidades, que são desenvolvidos e expressados, com muito custo, diante desse cenário hostil. Nesse contexto, assim como muitas mulheres engordam em primeiro lugar como uma tentativa de evitar sua transformação em objetos sexuais no começo de sua vida adulta, muitas outras permanecem gordas como um meio de neutralizar sua identidade sexual aos olhos de outros que são importantes 27

27 para elas na medida em que suas vidas evoluem. Deste modo podem esperar serem levadas a sério em sua vida profissional fora do lar. Não é comum, para as mulheres, serem aceitas por sua competência nesse terreno. Quando emagrecem, isto é, quando começam a se parecer com mulheres autênticas, percebem, de repente, que estão sendo tratadas frivolamente por seus colegas do sexo masculino. Quando as mulheres são magras, são tratadas com frivolidade: uma profissional magra, sexy e incompetente. Mas, se uma mulher emagrece, ela própria talvez ainda não consiga separar essa magreza da sexualidade que já vem estabelecida, e que a define como incompetente. É difícil adaptar-se a uma imagem idealizada pela sociedade (a de pessoa magra), sem também transformar-se na outra imagem (a de mulher sexy). "Quando estou gorda sinto firmeza. Sempre que emagreço sinto que estou sendo tratada como uma bonequinha que não sabe nada de nada." Vimos como a gordura é uma rejeição simbólica das limitações do papel da mulher, uma adaptação que muitas mulheres fazem na penosa tentativa de levar adiante suas próprias vidas em meio às limitações impostas por sua função social. Mas para entendermos um pouco mais sobre o modo como o excesso de peso e, em especial, o comer em excesso atuam nas vidas das mulheres, temos de examinar o processo através do qual lhes é ensinado inicialmente seu papel social. É um processo complexo e irônico, pois as mulheres são preparadas para essa vida de desigualdade por outras mulheres que, elas próprias, sofrem as limitações dessa vida: suas mães. A perspectiva feminista mostra que a compulsão de comer é, na verdade, uma manifestação das complexas relações entre mães e filhas. Se o papel social da mulher é o de tornar-se mãe, a criação a alimentação da família no sentido mais amplo do termo é seu trabalho fundamental. De modo geral, é somente dentro da família que uma mulher possui algum poder social. Sua competência como mãe e sua capacidade de ser um apoio afetivo para a família define-a e fornece-lhe. um contexto reconhecido onde existir. Para a mãe, uma par- 28

28 te fundamental do papel materno consiste em ajudar a filha, assim como sua mãe fez com ela, a fazer uma suave transição para o papel social feminino. Com a mãe a menina aprende quem ela própria é e pode ser. A mãe fornece um modelo de comportamento feminino e dirige o comportamento da filha de um modo específico. Mas o mundo que a mãe deve apresentar à filha é um mundo de relações de desigualdade, entre pais e filhos, autoridade e falta de poder, homem e mulher. A criança é exposta ao mundo das relações de poder através de uma unidade que, ela própria, produz e reproduz talvez como a mais fundamental dessas desigualdades. Dentro da família incute-se um sentimento de inferioridade nas meninas 6. Embora seja óbvio que o processo de crescimento de meninos e meninas é imensamente diferente, pode estar menos claro que, para preparar a filha para uma vida de desigualdade, a mãe tente conter os desejos desta de ser um ser humano forte, autônomo, auto-suficiente, enérgico e produtivo. Desde muito cedo a menina é encorajada a aceitar essa ruptura em seu desenvolvimento e é orientada a lidar com essa perda através do desvio de sua energia para o cuidado dos outros. Suas próprias necessidades de apoio afetivo e de crescimento serão satisfeitas se ela puder convertê-las em dar de si aos outros. Enquanto isso, ensina-se os meninos a receber apoio afetivo mas não a saber devolver esse tipo de cuidado e amor. Portanto, quando uma jovem finalmente obtém a recompensa social do casamento, descobre que ele raramente lhe fornece os cuidados de que ainda precisa, nem tampouco uma oportunidade para a sua independência e o autodesenvolvimento. Ser mulher é viver na tensão de dar de si e não receber; e mães e filhas envolvidas neste processo que leva a isto estão, inevitavelmente, fadadas à ambivalência, dificuldade e conflito. Se a questão for abordada sob o ponto de vista da mãe, o processo de conduzir a filha para a feminilidade adulta é ambivalente por diversas razões. A primeira é a questão da independência. A mãe, que foi preparada para uma vi- 29

29 da de doação, julga que sua função de alimentar, criar e educar os filhos está cumprida função esta que faz parte integrante do êxito de seu papel social. Ela precisa que precisem dela e realmente se realiza como uma "boa mãe" alimentando cuidadosamente sua filha. Deste modo, as mães querem e não querem que suas filhas as deixem. Querem, porque o papel materno também exige que preparem as filhas para a independência final: fracassar nessa área é fracassar na sua condição de mãe. Por outro lado, o êxito nessa área assinala o fim da maternidade. Vimos que, dos limitados papéis acessíveis às mulheres neste século, a maternidade é o único onde elas têm poder legítimo. Portanto, seu êxito pessoal em ser mães resulta na perda de poder. Seu êxito pessoal é um beco sem saída; não resulta na criação de um novo papel, igualmente poderoso. A ambivalência das mães é, no entanto, mais dolorosa ainda porque querem e não querem que suas filhas sejam como elas. A filha que é igual à mãe está, de certo modo, dando validade à vida dessa mãe. Mas a vida da mãe continua a ser uma vida sem validade e, o fato da filha reproduzir o modo de vida da mãe não pode ser nada além da perpetuação da falta de poder. Em seu amor pela filha, a mãe deve querer, inevitavelmente, uma vida diferente para ela. Apesar disso, elas podem ter sentimentos ambivalentes com relação às novas oportunidades acessíveis a suas filhas, e que elas próprias não tiveram. Podem ter inveja dessas oportunidades e medo do bem-estar de suas filhas num mundo que elas consideram hostil às mulheres, ao mesmo tempo que sentem uma satisfação indireta com a ambição e o sucesso de suas filhas. Enquanto a mãe deve ser mãe, a filha pode ser ambiciosa e participante no mundo. Examinemos agora tais conflitos sob o ponto de vista da filha. As filhas querem e não querem deixar as mães. A filha que vai embora é aquela que se torna independente, faz parte do mundo, "acontece" como mulher adulta. No entanto, essa mesma autonomia causa problemas. Como vimos, a independência no mundo ainda não é uma op- 30

30 ção para as mulheres adultas. As filhas têm sentimentos ambivalentes com relação a suas oportunidades no mundo; são mal preparadas para assumi-las, como aprenderam, tanto da cultura em geral, quanto de suas próprias mães. As filhas se identificam com a falta de poder das mães enquanto mulheres em uma sociedade patriarcal. Foram criadas para serem como suas mães. Mas querem, ao mesmo tempo, ser e não ser iguais às mães. Embora se identifiquem com suas mães enquanto mulheres, como aquelas que dão de si e que cuidam dos outros, é provável que desejem, apesar disso, ter uma outra vivência da condição de mulher. Ao partir, ao sair fora do papel feminino estabelecido, é possível que a filha sinta que está traindo a mãe, ou se destacando com relação a ela, fazendo "melhor" do que ela. Pode também ficar apreensiva por estar pisando em um terreno movediço e não explorado. Além disso, se a filha se identifica com a falta de poder da mãe, é possível que ache que seu papel é o de cuidar dela dar-lhe o amor, o cuidado e o interesse que ela nunca recebeu. Torna-se a mãe de sua mãe? Partir será uma dupla traição. Como chegarão a se expressar na gordura, na comida e na alimentação tais ambivalências e conflitos? Como cada mulher adulta que sofre da compulsão de comer expressa o que aconteceu consigo em relação à sua mãe? É óbvio que a alimentação desempenha um papel elementar na relação entre a mãe e a criança, não importando seu sexo. Dentro de toda a gama de funções relativas à criação que se espera das mães, a alimentação física é a mais fundamental na verdade, instintiva. O peito da mãe fornece alimento para as crianças praticamente sem qualquer ato consciente desta, enquanto que todas as outras funções relativas à criação, como a doação vital de apoio afetivo, têm de ser aprendidas. Em virtude da ambivalência sentida em relação à filha, a disposição da mãe em lhe dar uma criação sensível, física e emocionalmente, pode ser abalada. Os bebês do sexo masculino e feminino vivenciam suas primeiras relações de amor com a mãe, mas muito cedo esta nega um certo 31

31 grau de apoio e sustentação à filha, a fim de ensinar-lhe os caminhos da condição de mulher. Isso traz conseqüências específicas. Em Little Girls 7, Elena Gianini Belotti refere-se a um estudo sobre posturas e procedimentos maternos na alimentação de bebês. Em uma amostragem de bebês de ambos os sexos, havia 99% de meninos amamentados para 66% de meninas. As meninas eram desmamadas significativamente mais cedo que os meninos e passavam 50% de tempo a menos sendo alimentadas (no caso da alimentação através do peito e de mamadeiras, isto significava que eram menos alimentadas do que os meninos). Deste modo, as filhas são, geralmente, mais mal alimentadas e recebem menos atenção e sensibilidade do que precisam. A alimentação física insensível e inadequada é mais tarde associada inconscientemente a uma alimentação afetiva insatisfatória. Embora inconscientemente a mãe possa não estar criando adequadamente sua filha, é com muita relutância que abre mão de alimentá-la. Na ausência de um papel alternativo, pode tornar-se pouco nítida a diferença entre ela e a criança, agora fora do útero. É possível que veja a criança como um produto, uma posse ou uma extensão sua. Assim, a mãe tem interesse em manter o controle sobre quanto, o quê e quando a criança come. Precisa encorajar essa dependência inicial para garantir sua própria sobrevivência social. Pode existir muita ambivalência com relação à alimentação e à criação. Uma mãe deve certificar-se de que a filha não está sendo alimentada em excesso, para que não se torne gulosa e gorda horrível destino para uma garota. Deve garantir-lhe uma aparência saudável normalmente associada à forma arredondada e precisa que a criança dependa dela; pois quem mais será se não for vista como mãe? Contudo, pode também não gostar dessa dependência que a prende, a suga e impede de canalizar suas energias em outra direção. Por último, deve preparar a filha para criar e alimentar outra pessoa um futuro filho, amante, marido ou os pais. Deve ensiná-la a preocupar-se 32

32 em alimentar e criar outros, pagando por isso o preço de não se desenvolver plenamente. Enquanto isso, pelo lado da filha, na medida em que passa de criança a mulher, sua própria alimentação pode tornar-se uma resposta simbólica à privação, tanto física quanto simbólica, que ela sofreu na infância, uma manifestação da falsa intimidade com a mãe. Na medida em que se torna mais desenvolvida, a criança começa a alimentar-se sozinha e a escolher seus próprios alimentos, criando e desenvolvendo um sentimento de independência com relação à mãe. Mas essa ruptura causa conflitos para a filha. Por um lado, ela quer ir embora e aprender a cuidar de si mesma; por outro, essa capacidade de cuidar de si mesma lhe parece uma rejeição à mãe. Esta rejeição assume um significado profundo em virtude da limitação social do papel da mulher na sociedade patriarcal. Se a mãe não é necessária como mãe, quem será ela? A filha sente-se culpada por destruir o único papel da mãe. Enquanto procura por apoio afetivo em outras relações sociais, é possível que continue a sofrer privações, já que seu parceiro geralmente não aprendeu a dar de si. Começa a comer à procura de amor, consolo, calor humano e apoio em busca daquela coisa indefinível que parece sempre faltar. A compulsão de comer torna-se um meio de manifestar os dois lados do conflito. Ao comer em excesso, a filha pode estar tentando rejeitar o papel da mãe e ao mesmo tempo estar lhe censurando pela criação deficiente que recebeu; ou pode estar tentando manter um sentimento de identidade com a mãe. A cultura popular está repleta de testemunhos sobre o valor simbólico que a comida e a gordura assumem entre mães e filhas. Em Lady Oracle, por exemplo, Margaret Atwood mostra como a gordura da filha torna-se uma arma na luta contra a mãe. Quando a mãe dá a Joan uma mesada para que compre roupas, como um meio de incentivá-la a emagrecer, esta compra propositalmente aquelas que mais destacam sua forma e, finalmente, com a compra de um casaco verde-limão, consegue levar sua mãe às lágrimas: 33

33 Minha mãe nunca havia chorado na minha frente e eu estava assustada, mas ao mesmo tempo radiante com essa prova do meu poder, meu próprio poder. Tinha-a derrotado; nunca deixaria que ela me transformasse em sua imagem, magra e bela. De modo semelhante, no filme, Lembranças, quando a mãe critica a forma da filha, esta lhe responde irada que a gordura é sua, que é a única responsável por ela e que isso é uma coisa que a mãe também não lhe pode tirar. As mulheres empenhadas no exame da relação entre a compulsão de comer e suas mães conseguiram perceber o seguinte: Minha gordura diz à minha mãe: "Sou forte. Posso me proteger. Posso sair para o mundo." Minha gordura diz à minha mãe: "Olhe para mim. Sou uma atrapalhada; não sei cuidar de mim. Você ainda pode ser minha mãe." Minha gordura diz à minha mãe: "Vou sair para o mundo. Não posso levar você comigo, mas posso levar uma parte sua, que está ligada a mim. Meu corpo vem do seu. Minha gordura está ligada a você. Deste modo posso ainda ter você comigo." Minha gordura diz à minha mãe: "Estou lhe deixando mas ainda preciso de você. Minha gordura lhe mostra que não sou realmente capaz de tomar conta de mim." Para a comedora compulsiva a gordura tem um significado muito simbólico, que faz sentido dentro de um contexto feminista. A gordura é uma resposta às inúmeras demonstrações de opressão de uma cultura sexista. A gordura é um meio de dizer "não" à falta de poder e à autonegação, a uma expressão sexual limitadora que exige que as mulheres tenham uma determinada aparência e ajam de um modo determinado, e a uma imagem de feminilidade que define um papel social específico. A gordura ofende os ideais ocidentais de beleza feminina e toda mulher "com excesso de peso", enquanto tal, abala o poder da cultura popular em nos tornar meros produtos. A gordura também 34

34 revela a tensão da relação mãe/filha, relação que ficou incumbida da feminização da mulher. É inevitável que esta relação seja difícil dentro de uma sociedade patriarcal, porque exige que as mães, já oprimidas, tornem-se as mestras, aquelas que preparam e reforçam a opressão que a sociedade infligirá sobre suas filhas. Embora a gordura desempenhe a função simbólica de rejeitar o modo como a sociedade desfigura a mulher e suas relações com os outros, especialmente na relação crucial entre mães e filhas, engordar continua sendo uma tentativa insatisfatória e infeliz de solucionar esses conflitos. É um preço muito penoso a se pagar, esteja a mulher tentando amoldar-se às expectativas da sociedade, ou tentando formar uma nova identidade. Quando algo está "errado" deste modo, pode-se esperar por um desequilíbrio psicológico e uma reação. Poucas coisas poderiam estar mais "erradas" do que a tentativa que uma cultura patriarcal faz de inibir os desejos de uma jovem de ser criativa e de se expressar, de pressioná-la quase exclusivamente em direção a atividades, pensamentos e sentimentos limitados, relacionados ao gênero feminino. O desenvolvimento psicológico da mulher é estruturado de modo a prepará-la para uma vida de desigualdade, mas essa camisa-de-força não é aceita com facilidade e, invariavelmente, provoca uma "reação". Os distúrbios psicológicos, em geral, alteram as funções fisiológicas de uma pessoa: a capacidade de comer, de dormir, de falar e de ter vida sexual. Sou de opinião que uma das razões pelas quais encontramos tantas mulheres sofrendo de distúrbios ligados ao modo de comer dá-se porque a relação social entre o alimentador e o alimentado, entre mãe e filha, impregnada como está de ambivalência e hostilidade, torna-se um mecanismo apropriado para causar distorção e revolta. O exame dos significados simbólicos da gordura nos dá um insight das vivências das mulheres em uma cultura patriarcal. A gordura é uma adaptação à opressão das mulheres e como tal pode ser uma solução pessoal insatisfatória e um ataque político ineficaz. Nossa terapia da compulsão 35

35 de comer diz respeito a esse problema, e é dentro de um contexto feminista que será desenvolvido nos capítulos que se seguem. O que significa a gordura para a comedora compulsiva? Muitos comedores compulsivos subestimam a relação que existe entre modo de comer e forma física. A comedora compulsiva geralmente sente seu modo de comer como caótico, descontrolado, autodestrutivo e como um exemplo de falta de força de vontade. No entanto, afirma ao mesmo tempo que, na verdade, simplesmente gosta de comer muito e, se é gulosa demais é para seu próprio bem, e que se não fosse pelos quilos e centímetros que esse comer lhe acrescenta, estaria muito satisfeita. Algumas mulheres dizem que, se ao menos existisse uma pílula mágica que as deixasse comer e comer sem parar e, ao mesmo tempo, continuar com a forma ideal, seriam bastante felizes. Na verdade, algumas têm feito o bypass* para conseguir isso. Está claro, portanto, que as pessoas realmente percebem que existe uma relação entre comer em excesso e a obesidade e tentam, por meio de vários esquemas de privação, controlar-se ao máximo para não engordar demais. - No entanto, o fundamental nessa relação, do ponto de vista do rompimento do círculo de se comer compulsivamente e fazer dieta, é algo muitas vezes negligenciado ou mal compreendido, tanto pelas próprias comedoras compulsivas, como por aqueles que tentam ajudá-las. Trata-se da idéia de que a compulsão de comer está ligada ao desejo de ser gorda. Ora, essa questão não é muito óbvia e pode ser difícil de ser entendida. Entretanto, é imprescindível que *Um desvio para diminuir a superfície de contato entre o alimento e a mucosa jejunal, diminuindo a absorção. (N. do T.) 36

36 nos reportemos a ela para tentarmos entender a imutabilidade da relação aparentemente bizarra que as comedoras compulsivas mantêm com a comida. Comer por compulsão é uma atividade extremamente penosa. Por trás das piadas autodepreciativas encontra-se uma pessoa que sofre imensamente. Grande parte de sua vida está centrada na comida, o que pode e não pode comer, o que vai ou não vai comer, o que comeu ou não comeu, e o que comerá ou não comerá mais tarde. É típico que não deixe nada no prato e se flagre comendo, tanto na hora das refeições, como durante o dia inteiro, tarde ou noite. Quase sempre come às escondidas, ou com amigas que também comem, ao passo que em público é uma profissional da dieta e muito admirada por sua abstinência. Se sente vontade de comer uma torta, vai à padaria e finge que a torta de queijo que está comprando é para sua filha ou para uma amiga, manda embrulhar e só ousa comê-la abertamente quando sente que não pode ser vista por ninguém. Ou então, compra um doce, esconde-o no bolso, e o coloca furtivamente na boca, enquanto dirige ou anda pela rua. A obsessão pela comida traz consigo uma carga enorme de auto-aversão, ódio e vergonha. Tais sentimentos surgem da sensação de não se ter controle com relação à comida, e as comedoras compulsivas ensaiam inúmeras maneiras de se disciplinar. Muitas pensam que se não tiverem acesso à comida estarão bem. Por esse motivo, quando uma comedora compulsiva mora sozinha, os armários da cozinha e a geladeira provavelmente contêm somente o gênero mais frugal de comida. A cozinha parece quase medicinal com leite desnatado, ricota, refrigerantes dietéticos e gelatinas para "enganar" o estômago. Alison, uma zoóloga de vinte e nove anos, explicou quais as ciladas contidas em seu sistema de proibir a presença de comidas gostosas em seu apartamento. Acordou no meio da noite e sentiu uma forte vontade de comer. Havia se empanturrado a noite inteira, portanto não havia sobrado praticamente nada em seu apartamento, exceto um pouco de cereal. Nas duas últimas semanas não tirara do 37

37 pensamento uns biscoitos com pedacinhos de chocolate que havia feito para Greg, seu vizinho do andar de cima. Ele saíra de férias e Alison sabia que haviam sobrado alguns biscoitos, porque ao regar suas plantas reparou na lata pousada na bancada da cozinha. Levantou-se, pegou as chaves do apartamento dele, encontrou os biscoitos e ficou lá até comê-los todos. Achava que não podia comer só um ou dois porque não seria o bastante e se comesse um número considerável Greg iria perceber que estavam faltando alguns, quando retornasse. A solução de Alison foi ficar no apartamento gelado de Greg, e comer todos os biscoitos na esperança de que, ao retornar, Greg não se lembrasse deles. Se a comedora compulsiva mora com outras pessoas é bem provável que a cozinha esteja repleta de comidas apetitosas que nega a si mesma ou sente que deveria negar. Helen, 50 anos e mãe de dois filhos, vem vigiando seu peso nos últimos 30 anos e fica tão apavorada com a comida de sua casa que combinou com o marido que ele trancasse a porta da cozinha à noite. Possui uma máquina de fazer café perto da cama, aipo com cenouras no gelo e é expulsa da cozinha em todas as ocasiões, salvo quando prepara as refeições da família, ou quando come sua versão dietética destas. Sua situação é somente um exemplo extremo do que passam muitos comedores compulsivos em suas tentativas de ficar longe da comida. Helen levou o problema para o marido, mas para Alison era extremamente importante que ninguém soubesse que ela comia daquela maneira. Muitas mulheres que sofrem do problema da compulsão de comer acham humilhante que outros pensem que são gordas em virtude da quantidade daquilo que comem. Não suportam que os outros estabeleçam uma relação entre ingestão de comida e forma física. Isto explica, em parte, o lado público do comedor compulsivo, parcimonioso ao comer. Outras mulheres sentem isso de outro modo. Um método novo e muito divulgado para controlar o peso é o de costurar os maxilares. As mulheres que empreenderam esse tratamento são extremamente gordas bem acima de 110 quilos. Enquanto seus dentes es- 38

38 tão apertados com anéis e atados com arame, elas se mantêm com uma dieta líquida. Uma vez por semana os anéis são afrouxados para que possam escovar os dentes. Tais maneiras de enfrentar a situação, apesar de particularmente exageradas, captam bem o desespero que sentem muitos comedores compulsivos e ilustram como a compulsão de comer é um hábito penoso e imensamente difícil de ser abandonado. Quando as pessoas repetem atos que lhes causam muito sofrimento, procuramos descobrir os motivos. Rotular, por exemplo, tal comportamento simplesmente de autodesírutivo não aumenta a compreensão das forças que estão por trás da compulsão de comer. Pelo contrário, o hábito será julgado negativamente e isso fornecerá ainda mais uma razão para que o comedor compulsivo assuma uma postura autodepreciativa que é aliviada somente com outro abuso ou com mais um esquema para perder peso. Sabemos por experiência própria que, antes que um hábito, no caso, comer por compulsão, possa ser abandonado, seus motivos têm de ser investigados. Como afirmei anteriormente, engordar é um ato preciso e intencional relacionado com a posição social da mulher. Antes que a compulsão de comer possa ser abandonada, deve-se investigar os significados da gordura para a própria mulher. A compulsão de comer, ao ser abandonada, certamente fará com que ela se estabilize num peso menor. Para poder sentirse à vontade com este novo peso estável e, o que é mais importante, com sua forma física reduzida, a comedora compulsiva precisa entender qual era o interesse prévio em ter excesso de peso e em ficar obcecada com o que comia. Se puder compreender como a gordura lhe era conveniente poderá começar a abandoná-la. Neste capítulo descreverei seis importantes etapas pelas quais os grupos passam: 1 Demonstrar que a comedora compulsiva tem interesse em ser gorda. 2 Mostrar que esse interesse é, em grande parte, inconsciente. 39

39 3 Exercícios específicos são feitos para trazer o assunto à consciência da mulher. 4 Uma vez reconhecido o interesse em ser gorda, podem ser investigados os significados para cada mulher, individualmente. 5 Em seguida, perguntamos se a gordura faz o que se espera que faça. 6 Ajudamos cada mulher a reincorporar aspectos de si mesma, e que ela atribuía anteriormente somente à gordura. A gordura possui conotações tão negativas em nossa cultura que é difícil imaginar que alguém possa ter interesse em engordar. Ser gorda significa entrar no metrô e ficar preocupada se você caberá no espaço que lhe é destinado. Ser gorda é comparar-se a todas as outras mulheres e procurar por aquelas cuja própria gordura faça com que você se sinta à vontade. Ser gorda é ser expansiva e jovial para compensar aquilo que você acha que são suas deficiências. Ser gorda é recusar convites para ir à praia ou dançar. Ser gorda significa ser excluída da cultura de massa contemporânea, da moda, esportes e da vida ao ar livre. Ser gorda significa ser um constante constrangimento para você mesma e para seus amigos. Ser gorda significa preocupar-se cada vez que há uma câmera fotográfica à vista. Ser gorda significa ter vergonha de existir. Ser gorda significa ter de esperar ser magra para poder viver. 40 Ser gorda significa não ter necessidades.

40 Ser gorda significa estar constantemente tentando perder peso. Ser gorda significa cuidar das necessidades dos outros. Ser gorda significa nunca dizer "não". Ser gorda significa ter uma desculpa para o fracasso. Ser gorda significa ser um pouco diferente. Ser gorda significa esperar pelo homem que a amará apesar da gordura o homem que abrirá caminho através das camadas de gordura. Ser gorda, hoje em dia, significa ouvir as amigas dizerem que "os homens estão por fora" antes mesmo de você ter tido a chance de averiguar. Acima de tudo, a mulher gorda quer se esconder. Paradoxalmente, seu destino na vida é ser eternamente notada. Tais concepções populares sobre a gordura, apesar de corretas, mostram um quadro incompleto do que sente a comedora compulsiva. Existe também um saldo positivo que devemos investigar no fato de ser gorda. Não estou querendo dizer que o desejo de ser gorda é consciente. Na verdade, poderia afirmar que as pessoas não têm quase consciência dele, e não é nada fácil discutir o assunto em teoria. Nos grupos fazemos o seguinte exercício para obtermos insights de algumas das maneiras como a gordura nos pode ser conveniente. Proponho que você feche os olhos por dez minutos e peça para que alguém leia o seguinte exercício de imaginação: Imagine-se numa situação social... pode ser no trabalho, em casa, numa festa, ou qualquer outro lugar... repare no que você está vestindo... se está sentada ou de pé... com quem você está falando ou tem alguma afinidade... Agora, imagine-se engordando nessa mesma situação social... 41

41 você agora está bem gorda... Qual a sensação?... Repare no que você está vestindo... se está sentada ou de pé... Repare em todos os detalhes desta situação... como se dá com as pessoas ao seu redor?... Está participando ativamente ou sente-se excluída?... Tem de fazer mais ou menos esforço?... Veja agora se você consegue detectar alguma mensagem que essa pessoa muito gorda que é você tem a dizer para o mundo... Você consegue ver alguma maneira de como isso lhe pode ser conveniente?... Você consegue ver alguma vantagem em ser gorda assim nesta situação?... Quando damos este exercício para os grupos, obtemos uma variedade de respostas, muitas das quais já se podem esperar. Como por exemplo, a sensação de ser um monstro, uma intrusa ou uma figura disforme, ou achar que todo aquele que se aproxima o faz por pena ou porque é também um monstro. Porém, o mais significativo é que as pessoas conseguem descobrir um novo significado para a gordura. Para algumas a fantasia desperta sentimentos de confiança e firmeza, como se a gordura representasse uma força concreta. Outras se sentem muito seguras em ser gordas, como se isso fosse uma desculpa para o fracasso, e que ao se preocupar com a forma física não têm de pensar em outros possíveis problemas em suas vidas. Algumas mulheres sentem que ser gorda as protege, na medida em que lhes permite conter seus sentimentos; outras afirmam sentir-se à vontade com sua forma avantajada e calor humano, e que têm muito amor para dar aos outros. Entretanto, as maiores vantagens que as mulheres vêem em ser gordas estão ligadas à proteção sexual. Ao se vir gorda, geralmente uma mulher é capaz de se assexualizar; a gordura a impede de se considerar uma pessoa que tem sexualidade. Depois do exercício, muitas afirmam sentir-se à vontade numa festa, sem achar que estão em exibição, ou que têm de competir, mas que podem conversar tranqüilamente com as amigas. Outras sentem que a gordura as distingue do tipo de mulher pela qual possuem sentimentos ambivalentes aquela que vêem como egocêntrica, superficial e fútil. Outras 42

42 sentem que podem manter-se firmes e manter acuados os intrusos indesejados. Muitas mulheres sentem alívio em não ter que se conceber como pessoas que têm sexualidade. A gordura as retira da categoria de mulher e as coloca no estado andrógino de "amigonas". Na medida em que as pessoas nos grupos vão, pouco a pouco, sendo capazes de incorporar tais vantagens e aspectos positivos em sua concepção de gordura, começam a desenvolver uma auto-imagem diferente. A imagem da gordura, então, não fica mais sendo unilateralmente negativa, implacavelmente ligada a uma concepção feia. Em vez de se considerarem incorrigíveis, incapazes ou intencionalmente destrutivas, conseguem ver que a compulsão de comer tem um propósito, uma função. Na medida em que essa função se torna mais clara, é possível serem mais generosas consigo mesmas, considerar a compulsão de comer e o esforço de engordar como um modo de lidar com situações particularmente difíceis. A compulsão de comer pode então ser considerada como uma tentativa de se adaptar a um conjunto de circunstâncias, em vez de ser um comportamento irracional e "louco". Gostaria de examinar agora o motivo pelo qual essas imagens de formas avantajadas são tranqüilizadoras. Por que as mulheres afirmam sentir-se mais capazes quando são gordas? Muitas mulheres sentem que as expectativas sociais que se têm delas são inatingíveis, irreais, indesejáveis, difíceis de suportar e opressivas. Uma das principais expectativas está ligada à crença de que a mulher deve ser, por um lado, harmoniosa, atraente e uma espécie de ornamentação ambiental e, por outro, deve fazer todo o árduo trabalho concreto de criar os filhos, administrar o lar e, ao mesmo tempo, manter um emprego fora de casa. Para muitas mulheres, o tipo físico da musa tímida e recatada, que sorri pudicamente por trás de pálpebras abaixadas, é muito frágil e delicado para realizar as tarefas diárias do dia-a-dia, que são de sua responsabilidade. Assim, para essas mulheres, a gordura representa estabilidade e força. Harriet, 35 anos, que 43

43 trabalha para a comunidade e mora com o marido e dois filhos, contou o seguinte: "Tinha a sensação de que a gordura me dava força e presença física no mundo. Permitia-me fazer tudo o que tinha de fazer. No exercício de imaginação, me vi em meu escritório, sentada à minha mesa, ocupando um espaço enorme. Sentia-me capaz de fazer tudo que precisava desafiar meu patrão e lutar com mais eficácia pela comunidade para a qual trabalho. Senti minha força ao exagerar meu tamanho. Então, na minha fantasia, fui para casa e, tendo plena consciência do meu corpanzil, ocorreu-me que estava entrando numa situação hostil e que usava minha gordura como couraça. Ao entrar em casa lembrei-me das coisas que tinham de ser feitas lá, e que executo pessoalmente ou designo a outras pessoas. Isso tudo me dá muita raiva, por me sentir muito mandona, e certamente também porque o terreno do lar me pertence e não por escolha. Então, vejo a gordura nessa situação fazendo com que me sinta como um sargento grande e autoritário. Quando faço esse exercício de imaginação e me vejo magra, o que me ocorre imediatamente é como me sinto frágil e pequena, quase como se fosse desaparecer ou ser levada pelo vento." Barbara, 27 anos, desenhista de capas de livros, falou sobre as maçantes expectativas de muitos de seus colegas de trabalho do sexo masculino. Sentia que seu volume e solidez representavam uma necessidade de ser vista como um ser humano produtivo, e não como um complemento decorativo para o ambiente. Sempre que sua aparência estava ligeiramente sexy isto é, quando estava magra sentia que seus colegas reagiam somente a seu aspecto sexual. Sentia isso, tanto como um apelo assustador, como também um desvio de seu trabalho. Assim como acontece com muitas mulheres, levar o trabalho a sério era uma luta muito difícil para Barbara. Tinha crescido com a idéia de que trabalharia por alguns anos após os estudos e depois se casaria e teria filhos. Mas as idéias mudaram e por volta da época em que saiu da faculdade, quis trabalhar para fazer carreira e não como tapa-buraco. Não era uma decisão simples; 44

44 sentia-se muito apoiada em sua mudança de opinião, porque todas as suas amigas também estavam investindo no trabalho como parte fundamental de suas vidas. Mas Barbara estava em conflito com relação a sua capacidade de ser uma boa profissional, não porque seu trabalho artístico fosse irregular, de segunda linha ou insatisfatório, mas porque estava lutando contra a idéia inconsciente de que se levar a sério na vida profissional não era uma coisa certa. No grupo, conseguimos mostrar esse conflito e Barbara viu como era difícil ser magra e com sexualidade no trabalho, porque ela própria e seus colegas contribuíam para torná-la fútil. Sentia que a única maneira de se apegar àquele aspecto seu relacionado a uma carreira, era através da posse de uma camada extra que cobrisse sua feminilidade. Como disse: "A gordura fazia com que me sentisse como um dos rapazes." No grupo, trabalhamos também para mostrar o conflito que Barbara sentia em relação aos diferentes modelos de comportamento feminino adulto; aquele com o qual ela cresceu, calcado não só na vida de sua mãe, como também numa concepção popular de feminilidade corrente nos anos 50 e início dos 60; e num modelo que ela e suas contemporâneas lutavam para sistematizar, uma visão da condição da mulher menos limitante e que atacava as próprias raízes da opressão da mulher dentro da família. Este conflito é, por experiência própria, difícil e penoso para muitas mulheres e não é do tipo que será solucionado pela súbita luz de um insight. Nos grupos é importante compreender que o objetivo não é, necessariamente, solucionar este ou qualquer outro conflito que possa estar nas raízes da compulsão de comer. Entretanto, é importante que venha à luz, que a mulher entenda que ele existe e que comer compulsivamente não fará com que desapareça poderá talvez encobri-lo. A gordura é um substituto menos ameaçador com o qual se preocupar. Mas a questão decisiva é fazer com que a mulher reconheça o conflito, para que ele não precise ser manifestado indiretamente e se esconda daquela que o vive. Este reconhecimento torna-se então uma poderosa 45

45 arma na luta contra a compulsão de comer. É muito tranqüilizador descobrir que existem fortes razões para explicar por que se come de um modo aparentemente inexplicável. Isso nos fornece ferramentas; deste modo, quando Barbara, por exemplo, reparava que estava cometendo um abuso, podia perguntar-se o que a estava realmente perturbando. Se não conseguisse obter nenhuma resposta imediata, faria uma recapitulação de seu dia, ou dos acontecimentos que a levaram a cometer o abuso, para ver se havia ocorrido qualquer incidente que resumisse seu conflito a respeito de sua identidade como mulher no mundo. Deste modo, podia decodificar seu próprio comportamento. Isto lhe deu a oportunidade de agir em benefício próprio, e pôde passar para uma etapa seguinte e se perguntar se o fato de ser gorda naquela circunstância particular iria realmente ajudá-la. Assim, um dos significados da gordura é o da necessidade que a mulher tem de ser reconhecida no contexto do trabalho. Mas existe uma outra questão que surge com freqüência e que é quase diametralmente oposta a essa. Acontece que as fantasias das pessoas com relação à gordura são muito diferentes e que até para uma mesma pessoa a gordura pode assumir uma variedade de significados. Barbara, por exemplo, podia ver como fazia uso da gordura no seu empenho de ser levada a sério no trabalho, mas descobrimos, ao mesmo tempo, que sua gordura simbolizava o medo de ser bem-sucedida, tanto no trabalho, como nos namoros. Seu medo do sucesso, é claro, provinha em grande parte da posição social da mulher jovem atual, que cresceu recebendo mensagens contraditórias a respeito daquilo que pode realizar. Sair fora do que foi planejado é assustador. Um mecanismo útil e de proteção é antever o fracasso; na opinião de Barbara, o peso em excesso servia de justificativa caso não fosse bem-sucedida no amor e no trabalho. Descobriu que não suportava a idéia de que sua vida profissional e afetiva pudesse não ser satisfatória, já que se havia empenhado a possuir ambas. Tinha certeza de que, se ocorresse um fracasso em algum desses terrenos, ele seria 46

46 atribuído a uma fraqueza do seu caráter. Esta idéia, por sua vez, gerava tanto sofrimento que ela então se concentrava em seu peso como desculpa para um aventual fracasso. Enquanto estivesse com excesso de peso e o amor e a carreira não estivessem indo como esperava, podia ficar imaginando que se fosse magra tudo estaria dando certo. Assim, esta fantasia lhe permitia exercer algum controle sobre sua situação por imaginar que com uma estimulante perda de peso ela pudesse ser capaz de se afinar socialmente com as mulheres no trabalho e com os homens nas relações afetivas. No caso de Barbara, a gordura estava a serviço de dois objetivos distintos, se bem que um tanto contraditórios. Em primeiro lugar, a gordura lhe fornecia um modo de mostrar competência no trabalho; em segundo lugar, se não fosse bem-sucedida em sua vida profissional ou amorosa podia culpar o excesso de peso. Quando essas duas questões vieram à tona durante a terapia, Barbara pôde ver que engordar fora uma adaptação pessoal que fizera ao tentar enfrentar uma situação muito difícil. Além de poder revelar o conflito, conseguiu ver o dilema de uma atual jovem mulher de carreira e percebeu que tinha de negar ou resolver as dificuldades encarando-se sem intermediários. Outras mulheres no grupo se identificaram com o que Barbara estava vivendo e, na medida em que começaram a compartilhar suas dificuldades, romperam com seu isolamento individual e com sentimentos de impotência que, em parte, as tinham levado a engordar. O fracasso e o sucesso são conceitos poderosos em nosso mundo. Muito cedo assimilamos a idéia de que foram estabelecidos limites para as coisas acessíveis e aprendemos a competir pelo que está por perto. Se formos bem-sucedidas seremos recompensadas; caso contrário, nosso destino será sofrer. Quando somos muito jovens fica difícil ver como o jogo é marcado ou a favor de quem ele está, e a competição parece justa sendo o fracasso ou o sucesso atribuídos à culpa ou ao mérito do indivíduo. Na medida em que nos tornamos mais velhos, podemos questionar os 47

47 pressupostos fundamentais dessa luta desordenada, ou mesmo como o bolo está dividido, seja através do número de notas 10 numa classe, ou através da própria divisão do trabalho. Mas as idéias assimiladas e estruturadas na personalidade custam a morrer e parecem estar encerradas em lugares inacessíveis. Embora possamos rejeitar a noção de competição em virtude dos efeitos devastadores que ela produz nas relações entre as pessoas, assim como na política mundial, podemos, não obstante, descobrir que estamos sendo competitivos involuntariamente. Os sentimentos de competição são desencadeados em situações de escassez onde não há o bastante para todos, ou onde somente um determinado número de pessoas pode ser recompensado. O receio de uma possível exclusão ou recusa pode fomentar, quer um desejo de competir individualmente por um pouco da escassa matéria, quer a descoberta em conjunto de um meio de se lidar com a escassez. Outra alternativa é a opção de abandonar a competição. De modo geral, enquanto crescemos, somos encorajados a competir com os outros. No colégio isto se manifesta através das notas, ou pelo time que torcemos, ou por nossa classificação na turma. Mas as meninas e os meninos, as mulheres e os homens são treinados para enfrentar a escassez e a competição de maneiras diferentes. O clichê "deixe o rapaz ganhar o jogo" representa um aspecto da competição entre mulheres e homens. Aprendemos que, se existe um jogo entre os sexos no qual uma das partes tem de perder, podemos ter certeza de que seremos essa parte. Em geral, os homens são ensinados a competir com outros homens por empregos e por status. Obtêm prestígio no mundo do trabalho sendo melhores do que outros homens, e avaliam seu sucesso comparando-o com o dos outros. Apesar de também existirem mulheres no mundo do trabalho, os homens raramente são encorajados a competir com elas, porque têm a tendência de não levar muito a sério a presença da mulher em territórios masculinos tradicionais. Do mesmo modo, as mulheres são fortemente desencorajadas a competir com os homens, ou umas com as outras, no trabalho. Elas são forçadas a competir entre si 48

48 pelo homem que ajudará a vencedora a garantir sua posição social. O sucesso de uma mulher no mundo continua a ser visto amplamente como um reflexo do status do marido. Nessa luta pela sobrevivência social, as mulheres competem essencialmente baseadas na atração sexual, enquanto que outros aspectos de sua personalidade são vistos como atributos a serem exibidos no empenho de conseguir um homem. O movimento de libertação da mulher desafia esse sistema de valores, tanto para as mulheres, quanto para os homens. No entanto, nós que estamos na casa dos vinte anos. ou mais, crescemos com esses valores e idéias e, apesar de estarem eles sendo abalados, continuam, não obstante, a desempenhar um papel significativo em nossas personalidades. Geralmente não nos damos conta do quanto fazem parte de nós. Ao percebermos tais sentimentos competitivos nós os achamos repugnantes e inadequados em um mundo em transformação e tentamos suprimir, esconder ou ignorá-los. Admitir toda uma série de sentimentos competitivos é difícil para muitas mulheres e, em geral, tentamos encobri-los tornando-nos gordas. A gordura desempenha várias funções relacionadas a esse fato. 1 Fornece espaço e proteção para os sentimentos. Sem a gordura é provável que uma mulher tenha a preocupação inconsciente de que seus sentimentos ficarão à mostra. Não haveria dificuldade em emagrecer se os sentimentos competitivos, não achando um lugar onde se esconder, simplesmente desaparecessem. Mas problemas como esse nunca desaparecem simplesmente; são ou fortemente reprimidos e voltam sob outra forma; ou são intensificados e ficam totalmente à mostra; ou são reconhecidos com o potencial de serem elaborados. 2 A sensação de ser imensamente gorda, do "tamanho de um bonde", acaba com a possibilidade de competir, já que todos sabem que "as gordas não podem vencer e, na verdade, nem estão no mesmo jogo". 49

49 3 No próprio ato da compulsão de comer o caminho mais comum de se engordar pode-se estar tentanto encobrir sentimentos competitivos que foram instigados. Além do que, vemos a dupla função da compulsão de comer embotar um sentimento difícil de se enfrentar, e fornecer um meio para que a energia que se encontra por trás da preocupação (no caso, sentir-se competitiva) seja utilizada no problema mais conhecido, que é a forma física. A compulsão de comer também pode ser útil em outras circunstâncias, como, por exemplo, quando as mulheres têm medo de demonstrar certas emoções. Elas têm medo de demonstrar sentimentos tais como a raiva, porque são considerados inadequados para mulheres, sendo que muitas delas já foram agredidas ao expressá-los. A preparação para uma vida de desigualdade leva inevitavelmente muitas mulheres a nutrir tais tipos de sentimentos turbulentos que são, por isso mesmo, inaceitáveis socialmente. Além das dificuldades relativas à competição, onde se espera que as mulheres percam em todos os terrenos, exceto o sexual, onde têm de conseguir um homem para poder passar à condição de adultas, outros sentimentos engendrados por situações sociais podem ser absorvidos pela gordura. A raiva é uma emoção especialmente difícil de ser aceita pelas mulheres dentro de si mesmas. Jennifer tem 48 anos e é professora em Londres. É casada e tem dois filhos de 18 e 20 anos, respectivamente. Competente profissionalmente e bastante reconhecida por seu trabalho em educação de grupos urbanos minoritários, seu problema de compulsão de comer começou quando se casou. Jennifer é órfã e foi criada por muitos pais adotivos diferentes. Nunca se sentiu segura ou amada em nenhum dos lares onde esteve e, aos dezoito anos, ganhou uma bolsa de estudos para a universidade, abandonando assim, para sempre, seus últimos pais adotivos. Nessa época, estava realmente responsável por si e não precisava fingir que havia alguém para cuidar dela. Sentia-se bastante forte, capaz de lutar, e lembra-se de ter 50

50 sentido alívio, principalmente por não ter que fingir gratidão por cada grama de atenção recebida. Morava com outras moças e sentia bastante inveja de suas vidas familiares. Aos 25 anos casou-se com Doug, um desenhista, e pela primeira vez encontrou-se num ambiente familiar estável. Jennifer decidiu trabalhar por cerca de dois anos para que os dois se pudessem sentir mais seguros financeiramente. Foi nessa época que reparou estar se preocupando em demasia com o que comia, e seu peso começou a variar descontroladamente. Ela sabia que, em geral, alguns problemas psicológicos se manifestam através do ganho ou da perda de peso, mas simplesmente não conseguia entender o que estava acontecendo, porque pela primeira vez sentia que sua vida fazia algum sentido, e sentia uma segurança que nunca imaginou poder sentir algum dia. Suas duas gestações processaram-se com relativa tranqüilidade. Jennifer tirou quatro anos de licença do trabalho de professora e depois passou por um treinamento adicional antes de retomar um emprego de período integral. Sua família permaneceu na mesma vizinhança por vinte anos e ela conseguiu fazer algumas sólidas amizades e desenvolver, como ela mesma disse, "um verdadeiro sentimento comunitário". Mas continuou a comer de um modo que achava muito desagradável, beliscando e se empanturrando alternadamente. Só conseguia interpretar este comportamento como a expressão de seu sentimento de insatisfação com relação à sua criação. Percebeu que estava continuando o modelo anterior de cuidar de si de um modo irregular. Este insight deu-lhe algum alívio, mas seu problema de comer continuou mesmo assim. No decorrer da terapia fizemos um exercício de imaginação, colocando Jennifer, gorda e magra, com seus pais adotivos, em um mesmo lugar. Ao responder a uma pergunta sobre o que a sua gordura tinha a dizer aos inúmeros pais adotivos, Jennifer foi subitamente tomada por intensos sentimentos de raiva. Percebeu que a gordura representava todos os sentimentos venenosos e peçonhentos que acumulara através de todos aqueles anos de mudanças de um lugar para outro. Sentiu que, se a gordura pudesse 51

51 falar, soltaria frases odientas e raivosas para todos aqueles que pensaram haver cuidado dela. Sua gordura era um meio de manter-se calada sobre tais sentimentos, mas também a sentia como uma acusação aos cuidados insatisfatórios dados por esses pais que tivera. Na medida em que o assunto foi sendo mais discutido, disse que sem a gordura ninguém saberia que havia sofrido, e as pessoas acreditariam que ela podia simplesmente viver a vida despreocupadamente, como se fosse uma pessoa qualquer. Uma vez admitidos esses sentimentos de raiva, grande parte da compulsão de comer fez sentido. Ela começou a notar que, sempre que sentia raiva das crianças, do trabalho, ou de Doug, ia correndo comer para engolir seus sentimentos. Sentir raiva era correr um risco toda vez que sentia raiva, ouvia uma espécie de gravação interior que repetia: "Meninas boazinhas não sentem raiva. Seja grata ou será jogada fora." Na verdade, foram essas as frases que lhe foram ensinadas muito cedo. Manifestar raiva ou contrariedade num lar adotivo era inaceitável e implicava não só a exclusão do sexo feminino, como também o medo do abandono e a rejeição. Se sentisse raiva de seus pais adotivos, seria mandada embora. A descoberta das raízes da compulsão de comer atenuou a situação para Jennifer. Começou a permitir-se sentir raiva abertamente e arcar com as conseqüências, em vez de engoli-las. Tomou consciência também da ansiedade ligada ao grau de insegurança sentida dentro da própria família, como se o fato de manifestar desprazer por algo pudesse fazer com que fosse jogada fora. Sentia-se segura com Doug em quase todos os níveis, e foi, na verdade, esta segurança que permitiu que aquela raiva e ódio antigos não tardassem a se manifestar se bem que indiretamente. Jennifer foi pega em uma nova situação. Quando menina tinha de agüentar e calar a boca. Não podia demonstrar raiva ou revolta. Quando conseguiu deixar esses lares insatisfatórios e formar sua própria família, sentiu-se mais segura e com controle da situação, mas compreensivelmente trouxe as inseguranças do passado consigo. A parte que ela sentia segura com Doug, com a carreira e com as crianças lhe dava 52

52 condições suficientes para rejeitar o passado terrível que tivera, mas ela não era capaz de fazer isso abertamente, e expressava aquele sentimento de rejeição comendo compulsivamente. No caso de Jennifer, a gordura era uma resposta tardia a uma série de situações familiares extremamente precárias onde sofreu privações. Somente quando estabeleceu sua própria família, foi que percebeu que estava comendo irregularmente e começou a ver a balança oscilar como um ioiô. Este modelo envolver-se obsessivamente com comida depois de acontecimentos perturbadores do passado é muito conhecido. Parece existir um mecanismo psicológico que funciona do seguinte modo para algumas pessoas: uma menina cresce num ambiente difícil, mas precisa sobreviver a isso conservando-se intacta o máximo possível para conseguir sair fora. Qualquer manifestação de esgotamento ou fraqueza só prolongará o confinamento e tornará a fuga mais difícil. Todas as suas forças são utilizadas para poder agüentar as terríveis circunstâncias e preparar a saída. Finalmente, ela deixa esse ambiente e se coloca num lugar mais seguro. Quando começa a relaxar nessa segurança recém-encontrada e deixa suas defesas afrouxarem, todos os sentimentos deploráveis do passado terão a oportunidade de aparecer. Ela abandonou uma situação, mas isso não significa que seus sentimentos tenham sido deixados para trás. A proteção e a segurança da nova situação provocam um processo de desintoxicação. Mas tais sentimentos são muito fortes e, em geral, extremamente dolorosos, e é provável que o organismo humano reaja através da tentativa de continuar a afastá-los. No caso de alguém que comece a comer compulsivamente nesse estágio; dá-se que os sentimentos estão surgindo mas são sentidos como perigosos demais para serem confrontados. A mulher começa a comer compulsivamente para anestesiar esses sentimentos e cobri-los com uma camada de gordura. Tais sentimentos não chegam a ser manifestados e resolvidos, em vez disso transformam-se num sintoma, que depois tem de ser desmistificado, antes que se consiga expulsá-lo. 53

53 Gostaria de discutir agora por que é tão difícil para as mulheres manifestar raiva. No caso de Jennifer havia uma ameaça de expulsão explícita, caso ela manifestasse raiva por aquilo que lhe proporcionavam, mas em geral as mulheres são energicamente desencorajadas a manifestar raiva, ódio, ressentimento e hostilidade. Somos criadas para sermos recatadas e aceitar, sem queixas, o que nos dão. Nós todas aprendemos que as meninas são feitas de açúcar, melado e tudo que é delicado. Assim, tentamos com todas as forças não demonstrar raiva, ou mesmo senti-la em nós mesmas. Quando nos revoltamos e demonstramos descontentamento, aprendemos que somos más e gananciosas. Quer percebamos ou não, ensinam-nos a aceitar uma cidadania de segunda classe. O status secundário completa-se quando nossa raiva nos é negada. A raiva é um meio que as pessoas têm de contestar as injustiças, em qualquer nível seja a raiva da criança como reação a um pai punidor, seja a raiva coletiva de mulheres que brigam para terem suas creches reformadas. Mas existem poucos modelos a serem seguidos, de mulheres que se sentem no direito de sentir raiva. Na verdade, acho que a maioria de nós fica bastante atemorizada diante de uma mulher irada cena bastante incomum. A raiva, enquanto emoção legítima para muitas mulheres, não tem validade cultural. As meninas são encorajadas a chorar se não obtêm o que querem, em vez de protestar com raiva; "Calma, calma, querida". Na peça de Edward Albee, Quem Tem Medo de Virgínia Woolf, Martha, a esposa irada que protesta contra a vida de casada, é retratada como prostituta e megera. Grande parte da cultura popular dá mostras do valor negativo colocado na raiva feminina. Portanto, não é surpresa alguma descobrir que para muitas mulheres a motivação inconsciente que está por trás do fato de engordar é a fuga da raiva. Neste caso, o significado simbólico da gordura é um "dane-se". Por trás da repressão da raiva encontra-se uma das questões atuais mais importantes para as mulheres. Engordar para manifestar raiva, para poder dizer "dane-se", é 54

54 somente parte de um problema mais amplo. Manifestar raiva é um ato de afirmação. A afirmação para as mulheres é difícil. Pense nestas típicas situações: Ann está extremamente cansada após um longo dia de trabalho. Pretende passar a noite sozinha, e somente descansar, ver televisão e ler. Seu vizinho, Jack, telefona e lhe pergunta se poderia tomar conta das crianças por uma hora, enquanto ele e a esposa vão até o supermercado. Ann acha que deve ajudar, mas sabe, de experiências passadas, que dificilmente será pelo tempo combinado e que perderá a noite inteira. Vai com relutância até o vizinho. Jack e Penny voltam às 23:30. Foram ao supermercado e ao cinema. A essa altura Ann está com raiva, mas culpa a si mesma por ter aceitado cuidar das crianças sem antes ter estabelecido as condições. Vai para casa resmungando e come. Bill e Roz haviam combinado ir ao cinema. Bill telefona do trabalho para Roz para verificar se pode trazer alguns amigos para o jantar. Roz, que já havia começado a cozinhar, aceita sua decisão como um fato consumado e relutantemente concorda, achando que não tem o direito de recusar. Entra na cozinha, bate com as coisas enquanto prepara o jantar, sentindo-se mal-humorada. Pensa que Bill esqueceu do encontro para o cinema e se sente rejeitada. Sente-se usada por ele enquanto cozinha, mas ao mesmo tempo culpada por ser tão mesquinha e pouco espontânea. Enquanto cozinha não pára de beliscar e, quando Bill e os amigos se sentam para o jantar, ela começa a comer com sofreguidão, a essa altura com raiva por causa de sua incapacidade de, antes de mais nada, poder se colocar em primeiro lugar. Ern ambas as situações, Ann e Roz sentem que não têm o direito de pedir o que realmente querem. Ann tem medo de estabelecer os limites de seu próprio altruísmo e Roz não luta por si mesma e pelo cinema combinado. Ambas se cul- 55

55 pam por não se terem afirmado e também por não terem um mínimo de egoísmo, até mesmo para saber quais as necessidades que vêm em primeiro lugar. As duas comem seus sentimentos desagradáveis em vez de voltar-se para a difícil questão da afirmação. Sentem-se mais seguras usando suas bocas para alimentar-se do que para falar e se afirmar. Pensam que a gordura está falando por elas, embora o sofrimento impeça que as palavras saiam. Nada disso é consciente, as sementes deste comportamento foram plantadas na relação mãe-filha, na qual a mãe encoraja a criança a adotar modos gentis. A mãe prepara a filha para uma vida onde as decisões mais importantes serão feitas para ela, em vez de por ela. Ensinam a menina a aceitar que suas necessidades vêm em segundo lugar, e que calar é mais seguro do que se afirmar. Conseqüentemente as mulheres ficam confusas e temerosas em agir em seu próprio interesse. A pessoa que o faz, em geral, parece agressiva, e isso tem conotações tão negativas para a mulher, que assumir uma postura de aquiescência dá a impressão de ser menos perigoso. Desse modo, as mulheres fazem uma grande confusão entre comportamento não-assertivo, comportamento assertivo e comportamento agressivo. O súbito aumento de cursos e livros de auto-ajuda para treinar a afirmação dá provas da amplitude deste problema. Houve também, no passado, conseqüências lamentáveis para as mulheres que se arriscaram a sair da linha. Foram acusadas de castradoras ou dominadoras quando tentaram afirmar seus direitos. Há, além do mais, outras conseqüências do comportamento não-assertivo que aumentam o problema. Se a pessoa não é treinada para afirmar-se, fica muito difícil definir quanto dar ou não aos outros. De modo geral, ensinam-se às mulheres nutrir o mundo. Como diz a psicanalista Mercy Heatley, as mulheres fazem o papel de "plantas usadas para o tratamento de esgotos" para a família e, como tais, estão sempre dando de si emocionalmente aos outros. Ao discutir o que a gordura e a comida simbolizavam para si, muitas mulheres descreveram-nas como uma espécie de "combustível para a caldeira", um depósito particular ao 56

56 qual podem recorrer quando precisam ser abastecidas, para que continuem a alimentar os outros. Para algumas, no entanto, a gordura aí representa uma rejeição exatamente desse tipo de assistência dada aos outros. Na mente da mulher, o excesso de peso é um aviso aos outros para que se mantenham afastados e não peçam nada, quase algo assim como "será que você não percebe que já carrego demais nas minhas costas para ter que me preocupar com qualquer outra pessoa?". Para outras, ela é uma declaração que engloba esses dois sentimentos a gordura é a manifestação de um potencial amorfo, tanto para absorver, quanto para repelir apelos vindos de fora. Assim, a gordura expressa a tentativa de separar-se dos outros, embora, ao mesmo tempo, simplesmente por seu tamanho, a mulher abarque tudo ao seu redor. É como se ela pudesse se encarregar das necessidades de todos sem deixar que isso a atinja de verdade o peso atua como um amortecedor para os outros e como uma almofada para que não se abale muito. Como disse ao discutir as respostas às fantasias com relação à gordura, a vantagem que as mulheres viam, com maior freqüência, em serem gordas, estava ligada à proteção sexual. É quase como se, através dos aspectos protetores da gordura, as mulheres estivessem dizendo que têm de negar a própria sexualidade para que possam ser vistas como pessoas. Expor sua sexualidade significa que os outros lhes negarão sua condição de pessoa. Na adolescência espera-se que as meninas transfiram seu interesse de amizade com rapazes para interesses sexuais aprendem um ritual chamado encontro. Esta súbita mudança pode ser terrível e difícil de se enfrentar. Como relatou Mary, uma médica de vinte e sete anos: "Quando tinha seis ou sete anos, as meninas e os meninos brincavam juntos. Depois nos separaram e até os onze anos o contato com eles foi bastante limitado, principalmente porque fui para uma escola só de meninas durante aquele período. Então, com doze anos, entrei para uma escola mista aguardando com prazer a hora de brincar novamente com eles. Suas brincadeiras pareciam ser mais animadas e eu realmente sentia falta das artes que 57

57 eles aprontavam. No entanto, algo estranho parecia acontecer; em vez de nos divertirmos juntos, éramos obrigadas a nos arrumar bem bonitas e a colecionar encontros. Essa era a maneira que tínhamos de continuar a estar com os meninos. Mas junto a isso recebíamos uma série de regras a respeito de como beijar e tocar tinha a impressão de que para poder brincar com os colegas eu tinha de fazer um esforço fora do comum. Isso era muito desconcertante, não porque não gostasse de beijar, na verdade eu gostava, mas porque de repente parecia que meninas e meninos eram realmente diferentes e tinham de se relacionar dentro de regras rígidas. Era realmente muito perturbador para todos nós e desde então tudo pareceu piorar. Os esportes foram divididos, e ficamos com o maravilhoso trabalho de animar os rapazes. Fiquei achando que, se a vida de adulta era isso, conservaria minha gordura de bebê e tentaria evitar toda essa história de encontros." Dessa forma, Mary passou os quinze anos seguintes, como disse, "com um ligeiro excesso de peso". Notou no decorrer da terapia que seus abusos de comida ocorriam quase invariavelmente quando se encontrava em situações onde havia possibilidades ligadas ao terreno sexual. Empanturrava-se, por exemplo, antes de ir a uma festa e convencia-se de que era muito gorda para ser considerada como uma pessoa que tinha sexualidade. Isso lhe dava uma espécie de conforto para poder se relacionar com as pessoas na festa mulheres e homens à sua maneira, em vez de baseada no valor de troca de seu corpo. O exemplo de Mary mostra claramente que a gordura é vista como se pudesse fornecer, para as mulheres, um meio de afastar os aspectos sexualizantes e, por conseguinte, competitivos, que existem nos relacionamentos. Essa divisão sexual tem conseqüências de longo alcance. Muitas mulheres compartilham o sentimento de que ser gorda é um meio de destacar-se na multidão, de ser notada, de ser diferente, sem ter de se arrumar tanto quanto acham que as mulheres magras e atraentes o fazem. Muitas mulheres mencionaram que ser do sexo femi- 58

58 nino era uma decepção para seus pais. Rita se lembra de se ter empenhado muito em comer com a finalidade de ficar de um tamanho avantajado e assim poder provar sua existência. Surpreendentemente, parou de cometer abusos pela primeira vez quando engravidou. Quando carregou uma vida dentro de si, sentiu que tinha uma grande prova do seu direito de existir. Se podia reproduzir, tinha um papel verdadeiro como mãe, mesmo que como criança não se tivesse sentido querida. Essas várias explicações a respeito dos significados que se encontram por trás da gordura, que vão desde comer como proteção a comer como expressão da raiva, não vão necessariamente resolver a questão para todos aqueles que acham que possuem esse problema. A síndrome da compulsão de comer, da compulsão de fazer regime, de ganhar e perder peso, está tão propagada e, num certo sentido, é uma preocupação tão absorvente em si mesma, que pode ficar difícil sair dela um mínimo que seja para perceber exatamente o que está causando em você. De certo modo, a compulsão de comer cria um belo mundo isolado: ficar pensando obsessivamente em como se é horrível por comer em excesso leva a sentimentos de auto-aversão; tais sentimentos não têm por onde sair e são rapidamente encobertos ou entorpecidos através da ingestão de comida, ou expulsos pela fantasia da reencarnação depois que o projeto para uma nova dieta tiver sido feito. Todos os sentimentos negativos são utilizados para fazer queixas e sentir ódio de si mesma por causa da forma física e dos hábitos alimentares, e a gordura proporciona um assunto menos ameaçador com o qual se preocupar do que outros possíveis problemas. Embora a gordura tenha um significado para você hoje, é possível que ela tenha tido um outro bem diferente quando apareceu pela primeira vez. Em outras palavras, os primeiros motivos e a força motora que estão por trás do impulso de engordar podem ter adquirido um significado bastante diferente daquele que tem no presente, portanto é geralmente muito proveitoso olhar para o passado e ver como o fato de engordar ajudou as pessoas 59

59 numa determinada época de suas vidas. Para introduzir essa informação nos grupos nós realmente ponderamos os relatos para podermos descobrir quando o "problema" teve início pela primeira vez. Gostaria de ilustrar essa questão esboçando alguns casos de mulheres com as quais trabalhei. Algumas dessas primeiras causas que delinearei terão um conteúdo nitidamente feminista, em outras ele estará menos explícito, embora em cada exemplo ficará óbvio o que significou o desenvolvimento da personalidade feminina para cada uma das mulheres cujas vidas descreverei. Rea era filha única. Seus pais tinham grandes expectativas a seu respeito, tais como uma formação universitária de destaque, sociabilidade e beleza. Sentia-se pressionada por apelos para ser a criança feliz e perfeita, e pensava que não tinha muito espaço para desenvolver sua própria independência. Engordou bastante na adolescência e foi a este período que nos reportamos quando ela veio para a terapia, quando estava por volta dos trinta anos. Sua gordura começou a fazer sentido quando foi colocada ao lado da intensa preocupação dos pais com seu êxito. Rea não se via cornos mesmos olhos que seus pais a viam. Sentia-se incompetente. Achava que era uma pessoa egoísta. Sentia que não podia dar conta das exigências feitas por seus pais, e que se tornaria cada vez mais incompetente. Sua gordura expressava tanto o ressentimento por ter de ser perfeitíssima, como a necessidade de esconder e conter a pessoa má que sentia ser internamente. Temia ser magra porque sentia que seria então tudo o que seus pais queriam; teria de se encaixar na imagem criada por eles, não teria um eu próprio. Jane, uma secretária jurídica de 55 anos, engordou após a morte de sua mãe. Até os 25 anos tinha sido bastante magra e razoavelmente despreocupada com sua imagem corporal. Era filha única, seu pai morrera quando ela era adolescente, e tinha muito apego à mãe. Casou-se aos 22 anos, mas logo depois Tom, seu marido, foi mandado para o exterior, lutar na Segunda Guerra Mundial. Quando 60

60 sua filha, Carol, tinha 18 meses, Tom voltou da guerra. Aproximadamente um ano depois, a mãe de Jane morreu de câncer. Durante o ano e meio que precedeu sua morte ela perdeu muito peso exibindo uma aparência doentia e magra. Quando Jane terminou o luto oficial começou a engordar. Por volta dos 27 anos pesava de 11 a 13 quilos a mais do que jamais pesara antes, exceto durante a gravidez. Ficou bastante espantada com o aumento de peso, mas logo o atribuiu à falta de exercício após o nascimento de Carol. Os amigos achavam que talvez tivesse gostado tando da gravidez que seu excesso de peso era um desejo de querer ter a aparência de estar sempre grávida. Mas essa explicação não fazia sentido para ela, porque sua gravidez não tinha sido fácil. Naquela época, um psiquiatra amigo explicou que Jane desejava aparentar uma gravidez para poder obter a atenção e os elogios de Tom, que ela não tivera na época em que realmente tinha estado grávida. O peso persistiu e finalmente, como os padrões da moda e da saúde exigiam magreza, Jane começou a ronda das dietas e médicos de regime. Aparentemente tinha uma vida familiar razoavelmente satisfatória ela e Tom se gostavam de verdade e Carol, sua filha única, continuou a manter contato com eles depois que cresceu e saiu de casa. Entretanto, Tom contou que quase toda noite Jane chamava, em seu sono, por sua mãe. Durante a terapia essa informação dada por Tom foi detalhadamente discutida. Jane conseguiu entender que seu excesso de peso tinha muita relação com a perda de sua mãe, como disse: "Minha mãe morreu tragicamente de câncer. Estava muito magra antes de morrer. Desde então, tive necessidade de ter um tamanho grande, acho que tinha medo que se ficasse magra iria desaparecer ou morrer como ela." O confronto com a morte da mãe e com seus próprios medos, que associavam a magreza à morte, permitiu que Jane definisse uma forma física na qual se sentisse bem física e psicologicamente. O que aconteceu mais tarde foi que ela não sentiu mais vontade de ser tão esbelta quanto queria, e conseguiu estabilizar seu peso em 7 quilos a menos do que pesara antes. 61

61 A morte tem sido um fator determinante da gordura para outras mulheres com que trabalhei. Sheila, 28, anos estudante de pós-graduação, perdeu o irmão mais velho, Ivan, quando ele tinha 12 anos e ela 10. A partir dessa data começou a engordar e, no grupo, descobrimos que para ela a origem do fato de engordar tinha dois significados diferentes. Sheila sentia que se tivesse um corpo grande seria possível carregar o irmão consigo. Lembrou-se de que realmente gostava de ficar com ele e que brincavam muito juntos. Ivan era o orgulho e a alegria da família, primogênito e homem, e esperava-se que satisfizesse as aspirações dos pais. Cerca de dois anos após sua morte, nasceu mais uma filha, Maureen. Sheila sentiu muita responsabilidade pelo fato de ser tanto uma pequena mãe para Maureen, como um filho para seus pais. Para ela, um filho representava algo muito diferente do que ser uma filha. Era preciso ser muito boa nos esportes, sair-se bem nos estudos universitários e planejar uma carreira bem-sucedida da qual seus pais pudessem orgulhar-se. Por ser uma filha, esperava-se que tivesse uma educação escolar razoável, mas uma carreira não deveria vir antes de uma vida amorosa bem-sucedida. Na adolescência era levada a jogos de futebol pelo pai. Ela gostava de ter uma boa relação com o pai, coisa que não tivera antes da adolescência. Na terapia, o que veio à tona foi um sentimento de culpa por sentir-se bem, por poder receber tanto do pai. Imaginava que se seu irmão estivesse vivo nada disso aconteceria. Simbolicamente achava que o segundo significado de sua gordura era o de apagar suas curvas torná-la menos feminina, para que pudesse ficar mais parecida com seu lado filho. Quando emagreceu, nos anos que se seguiram, carregou consigo esse mesmo desejo de ter a aparência de um garoto, estava sempre chateada porque ainda tinha quadris e seios e não alcançava a forma andrógina desejada. Sheila estava tentando lidar com o problema de como ser o filho adolescente e a mãezinha. Esta última característica aparece em muitas meninas de idade ainda menor que a de Sheila. Geralmente espera-se que uma filha de sete anos 62

62 seja a pequena ajudante ou substituta da mãe, para tomar conta dos bebês que nascem depois dela. Melinda, filha mais velha de uma família de sete irmãos, lembra-se de que os primeiros anos de sua infância tinham sido felizes, tempos em que brincava com seu irmão mais velho. Quando tinha sete anos, sua mãe teve mais um filho. Para Melinda foi como se fosse o fim da infância; além de ter de dividir a mãe com mais uma criança, esperava-se que desempenhasse tarefas de adulto, o que, de fato, fez. Na medida em que mais e mais bebês iam chegando, Melinda tornou-se uma segunda mãe para eles, de modo que, quando saiu de casa, aos dezoito anos, se sentia bastante treinada para formar sua própria família. No entanto, em vez disso, engordou muito e explicou que se assumisse um jeito de mãe dedicada, pessoas perceberiam que ela não estava disponível de jeito nenhum. Por ora já tinha o seu quinhão! As mulheres que têm de desempenhar o papel de mãe muito cedo ensinarão suas filhas a se privar e a se negar. Tanto Florence como sua filha Laura tinham problemas relacionados à compulsão de comer. Segundo a ideologia de Florence, comer guloseimas era um prazer na verdade, um prazer repugnante. Achava indecente abandonar-se a qualquer forma de prazer, especialmente os corporais. Comida e sexo eram coisas sedutoras e excitantes, mas deviam ser mantidas a distância. Florence comia frugalmente durante o ano inteiro. Quando abusava, nas férias, sentia-se culpada e, ao voltar, internava-se imediatamente na Clínica de Dieta Mayo para perder o que engordara. Tinha uma força de vontade férrea e muito autocontrole, mas morria de medo de comida. O marido escondia doces no porta-luvas do carro, e ela julgava que a vontade que ele tinha de comer sobremesas era sinal de fraqueza de caráter. Laura revoltou-se contra esse código de autonegação. Desprezava a mesquinhez que a mãe tinha para consigo mesma e a definia como magra por compulsão. Achava que nunca se per- 63

63 mitira ter prazer com comida ou sexo. Laura escolheu o caminho oposto e tentou obter prazer com ambas as atividades. No entanto, já que a comida e o sexo eram vividos no seu íntimo com um ouvido aberto às intromissões da mãe, Laura não conseguia controlar as coisas como gostaria, e seu modo de comer expressava essas tensões. No grupo aprendeu a comer somente para si mesma e para seu próprio prazer, sem precisar ficar enorme para provar que sua mãe tinha razão. Não precisava ser marginalizada por sua própria forma física para poder dar prazer a si mesma. Em virtude da posição que, em geral, a mulher assume dentro da família, as mães também se negam em situações onde não há o bastante para todos. Numa situação de escassez fazem o possível para que o marido e os filhos tenham de tudo. Se uma mãe não consegue colocar na mesa comida suficiente sente-se um fracasso. Quando os preços disparam, a mãe que tenha uma renda fixa terá cada vez menos para gastar com as compras da família e, apesar de compartilhar essa situação com todas as outras donas-de-casa ela será a única a enfrentar a família, as queixas e decepções se a comida não estiver à altura. Durante os anos da depressão, na década de 1930, essa situação era bastante crítica: o dinheiro era pouco e nunca havia comida suficiente na mesa. As mães que contam sobre essa época dizem que tinham de se privar, para que o resto da família pudesse ter o suficiente podiam sempre dar um jeito, elas não estavam na escola usando seus cérebros ou pelas ruas todos os dias procurando trabalho, por isso achavam absolutamente certo que se sacrificassem. Carolyn, uma das filhas dessa época, que mais tarde engordou, disse: "Na época da depressão eu era jovem. Minha mãe passava fome e fazia o possível para arranjar alguma comida para nós, crianças, o que era muito difícil. Quando me casei, pela primeira vez na vida não faltou comida, e acho que hoje em dia como para me proteger daqueles horríveis sentimentos de fome que tive quando criança." 64

64 Rose, filha de Carolyn, nascida no final da Segunda Guerra Mundial, lembra-se das brigas que tinha com a mãe, caso não comesse o bastante recorda-se de todas as colheradas que comeu pelas crianças pobres da Europa, sem nunca entender como poderia ajudá-las comendo mais. Rose foi bem magra até os 17 anos, época em que saiu de casa para viajar pela Europa. Quando retornou, seus pais saudaram-na com satisfação por ter ela engordado. Ela, entretanto, estava muito infeliz com todo aquele tamanho sentia que isso a deixava parecida demais com eles. Ficou presa à síndrome dieta/abuso pelos 12 anos subseqüentes. Durante sua terapia foram examinadas as seguintes questões. Quando morava em casa, ser magra era uma maneira de se revoltar contra os pais. Ambos tinham não só excesso de peso, como também a estimulavam constantemente a comer. Quando saiu de casa engordou para expressar seu conflito por ter abandonado os pais. A gordura era um modo de carregar consigo uma parte da vida familiar - os pais. Um dos momentos mais decisivos de sua terapia foi o processo de finalização. A essa altura, Rose havia perdido aproximadamente 11 quilos e se estabilizado em um peso que se ajustava à sua estrutura óssea. A expectativa de sua separação do analista e da gordura trouxe à tona questões relacionadas a brigas que tivera na infância para separar-se de sua mãe. Para Rose, essas brigas com relação à comida simbolizavam suas tentativas de se virar sozinha, de definir-se e de ficar mais independente com relação à mãe. Quando o conflito veio à luz, isto é, tanto seu interesse em formar uma identidade própria quanto seu medo de fazê-lo em virtude dos perigos sociais e psicológicos que percebia caso se separasse da mãe pôde sentir firmeza pela primeira vez em determinar sua própria alimentação. Seu corpo então pôde expressar para si mesma uma sensação mais forte de independência; era definido, auto-suficiente e não "pura gordura, grudado à mãe como uma coisa pegajosa". A forma física pode assumir significados diferentes para cada mulher. No caso de Rose, ser gorda era ficar empacada, capitular, significava aceitar todas as colheradas a mais 65

65 de comida que não quis; no caso de Barbara, era uma tentativa de assexualizar-se diante dos colegas de trabalho; para Harriet, representava força e solidez; para Jane, raiva, e assim por diante. A gordura pode assumir não só significados diferentes para cada mulher, como também esses significados terão maior ou menor importância de acordo com o momento. No início de um grupo de comedores compulsivos é provável que uma mulher veja a gordura somente enquanto símbolo visual de tudo aquilo que não gosta em si mesma. Irá descrevê-la como a medonha manifestação de tudo aquilo que sente internamente como feio e horrível. A gordura, ao mesmo tempo, esconde e expõe aquilo que ela sente como terrível. Na medida em que o grupo adquire continuidade e outras mulheres compartilham suas histórias, essa mesma mulher poderá perfeitamente ser capaz de separar essa gordura de uma descrição da feiúra, e proceder ao exame de alguns dos meios através dos quais a gordura lhe foi conveniente no passado. Poderá ver que a gordura era uma tentativa de se proteger em meio a um difícil conjunto de circunstâncias. Quando passar a aceitar conscientemente esse aspecto da gordura, poderá utilizar o impulso de autoproteção de um modo diferente. Quando puder entender que engordou como reação à mãe, à sociedade, a várias situações, poderá começar a eliminar o julgamento de que isto tenha sido bom ou ruim. Simplesmente foi. É extremamente penoso e difícil, se não impossível, mudar, se temos uma auto-imagem negativa. Uma compreensão da dinâmica que está por trás do ato de engordar pode ajudar a eliminar esse julgamento. Quando ele é abandonado e você está pronta para aceitar que a gordura simplesmente foi, pode passar a formular a seguinte pergunta: "Isso tem alguma utilidade para mim agora?" É necessário, para aqueles que trabalham com a área do inconsciente, explicar a existência de uma vida inconsciente que possui sua própria força e símbolos. Esses símbolos, em seguida, devem ser traduzidos para a linguagem do cotidiano para poderem ser examinados. Então, como 66

66 pessoas conscientes, devemos intervir para questionar os medos e fantasias racionais e aparentemente irracionais que emergem dos sonhos e motivos. Coloquei-me numa situação onde pedi ao leitor que considerasse o fato de que a compulsão de comer está ligada a um desejo inconsciente de engordar. Demonstrei também que para se abandonar a gordura essa motivação devia ser exposta. No entanto, pretendo mostrar agora que a função protetora supostamente desempenhada pela gordura está longe de ser verdadeira. Na verdade, a gordura em si mesma não realiza o trabalho a que se propõe. Ao atribuir à gordura um poderoso papel protetor, uma mulher se coloca numa posição onde ter uma vida sem a gordura equivale a ter uma vida sem defesas. Isso é, de fato, um pensamento assustador. Nosso objetivo é o de fornecer uma outra opção à comedora compulsiva: a de ver que os atributos que ela supõe estarem presentes em seu peso, são, ao invés, características que ela própria possui, mas que atribui à gordura. Ao analisar vários aspectos das histórias das mulheres com as quais trabalhei, afirmei que a descoberta do significado da gordura leva, subseqüentemente, a uma reconsideração do fato de saber se realmente a gordura em si mesma é aquilo que afasta as pessoas, as torna assexuadas, ajuda a conter os sentimentos de raiva (mágoa, decepção), ou é algo que proporciona segurança. Se, na verdade, não é a própria gordura que faz tudo isso, mas, pelo contrário, o próprio indivíduo, duas perguntas se colocam: 1 Como e por que a mulher se absteve desse seu poder e o atribuiu exclusivamente à gordura? 2 Como pode ela reaver esse poder para senti-lo como parte integrante de seu eu essencial quem ela é? Isto é, para quando abandonar o peso, não abandonar os principais meios que utiliza de lidar com o mundo. A primeira pergunta diz respeito a uma questão de importância crucial que surge com a socialização das mulheres. As mulheres são sistematicamente desencorajadas a 67

67 assumir responsabilidades por inúmeras atividades, ações, e mesmo pensamentos. Os homens, ao mesmo tempo, não só agem por elas, como também descrevem sua vivência. Embora a vivência da mulher seja extremamente rica, raramente é descrita ou se faz ouvir. Somente na literatura as mulheres conseguiram se expressar com firmeza e ter um público abrangente. Nas áreas onde as mulheres, quase sem exceção, assumiram enorme responsabilidade na criação dos filhos, na educação e na administração do lar suas ações continuam a ser vistas como indefinidas e imprecisas, porque são descritas como naturais e inevitáveis. Se é natural, tem de ser feito. Se é natural, não vale. Portanto, é desvalorizado. Ora, o paradoxo reside no fato de que na verdade muitas das mulheres descritas neste capítulo desafiaram esse estereótipo de feminilidade. Saíram deliberadamente para o mundo e assumiram responsabilidades que extrapolam a esfera das expectativas relacionadas a seu papel. Mas ficaram presas a um sentimento do eu que nega seu poder e essa autodesvalorização parece inexplicável a menos que seja considerada como uma conseqüência de se viver em uma cultura que recusou o poder social à mulher e o demonstra através da negação e da punição àquelas que transgridem os papéis sociais estabelecidos. Não é difícil ver como uma mulher pode assumir uma auto-imagem que esteja em sintonia com a idéia da falta de poder da mulher. Ao fazê-lo ela se acostuma à idéia de que não é ela quem tem diretamente o poder, mas sua gordura "sem dono". Se o poder de manter as pessoas afastadas depende dela e não simplesmente de sua gordura, ficará então mais responsável por si mesma. Se se torna mais responsável por si mesma e age mais para si mesma de uma determinada maneira, poderá alcançar o que deseja? Ou será punida e rejeitada pelos outros por ter ousado definir-se, em vez de satisfazer as expectativas que os outros têm em relação a ela? Há mais um paradoxo contido na comedora compulsiva que quando se imagina magra se vê como a mulher sensual, fortemente atraente. Na medida em que adere à imagem da mulher sensual magra que lhe é oferecida persistentemente 68

68 pelos meios de comunicação de massa ela se esforça para alcançar o poder ilusório que esta imagem promete mas não confere. É precisamente o não reconhecimento da pessoa, na imagem sensual magra, que faz com que ela rejeite, inconscientemente, essa magreza. Para muitas mulheres, "magra = sexy = poderosa" é um sentimento que não dura mais do que o fugaz momento da entrada triunfal, o impacto inicial. Depois disso, sua imagem é desapropriada, é traduzida para "magra = sexy = sem poder", e, ao mesmo tempo, ela não conseguirá dar conta de ser magra, sexy e responsável. É com a questão decisiva de como pode a mulher definir e lidar com sua própria sexualidade que se está geralmente lutando no dilema gordura/magreza, A falta de apoio para uma redefinição é aquilo que faz com que a mulher abra mão de seu próprio poder e o delegue à gordura. Isso então passa a ser uma explicação tanto para a ocorrência do sintoma, como para sua persistência. Abandonar um sintoma e tomarposse do poder atribuído a ele significa levar-se a sério. Levar-se a sério tem sido um negócio arriscado para as mulheres. Vale a pena lembrar aqui que tanto no esforço para se amoldar ao comportamento feminino adequado, quanto no de rejeitá-lo, a mulher paga um preço muito alto. A questão que se coloca diante de nós é a de saber se devemos nos arriscar a ser punidas por nos revoltarmos, ou aceitarmos ser punidas por seguir os papéis femininos. Como muitas mulheres disseram, as próprias palavras "mãe" e "esposa" evocam autonegação, enquanto que as imagens alternativas de mulheres mulheres que fazem carreira, mães solteiras, lésbicas provocam hostilidade e marginalização. Tendo descrito as convenções através das quais as mulheres têm sido forçadas a existir, acho que fica esclarecida a razão de nossa escolha de algo que aja por nós a gordura. A reapropriação do seu poder (temporariamente atribuído à gordura) exige uma reavaliação de você mesma. Essa mesma reavaliação produz uma mudança ao nível do consciente, e com o conhecimento do que foi deixado para trás podemos lentamente incorporar em nossa nova auto-ima- 69

69 gem aquilo que nos pertence. A partir do momento que nos apropriamos do poder da gordura, podemos abandoná-la. O que significa a magreza para a comedora compulsiva? Sabemos que toda mulher quer ser magra. Nossas imagens de feminilidade são quase sinônimo de magreza. Se formos magras seremos mais saudáveis, mais leves e menos limitadas. Nossa vida sexual será mais tranqüila e satisfatória. Teremos mais energia e vigor. Poderemos comprar belas roupas e enfeitar nossos corpos, ganhando a aprovação do namorado, da família e dos amigos. Seremos aquela mulher do anúncio que leva uma vida boa; poderemos projetar uma série de imagens atléticas, sensuais ou elegantes. Seremos um bom exemplo para nossos filhos. Nenhum médico jamais brigará conosco novamente para perdermos o peso excedente. Seremos admiradas. Seremos belas. Jamais sentiremos vergonha de nossos corpos, seja na praia, numa loja, ao comprarmos alguma roupa, ou em um carro lotado. Seremos magras o suficiente para poder sentar nos joelhos de alguém e graciosas o bastante para dançar. Se nos destacarmos na multidão isso acontecerá porque somos encantadoras e não "repulsivas". Poderemos nos sentar confortavelmente em qualquer posição, sem nos preocupar em esconder a flacidez. Suaremos menos e teremos um cheiro gostoso. Nos sentiremos muito bem quando formos a festas. Poderemos comer em público sem nos preocupar com a desaprovação dos outros. Não precisaremos arranjar desculpas por gostar de comida. Tais imagens e desejos bombardeiam diariamente nossa consciência. Todas nós, ao nos vermos magras, podemos achar algo de positivo com o qual nos identificar. Quando estamos gordas ansiamos pela magreza, assim como ansiamos pela comida procurando nela a solução de nossos inúmeros problemas. 70

70 Mas a verdade é que, embora muitas de nós desejem ser magras, milhares de mulheres continuam a ter excesso de peso, ou a ficar preocupadas com a forma física. Uma das teses que este livro defende não é uma coisa evidente. As mulheres têm medo de ser magras; a gordura tem suas finalidades e vantagens. Nossa experiência mostra que muitas mulheres têm um verdadeiro medo de ser magras. Conscientemente a mulher quer ser magra, mas sua forma física não corresponde a esta intenção e mostra que, se por um lado a gordura desempenha um papel ativo em nossas vidas, a magreza se encontra na outra face da moeda. A gordura desempenha uma função protetora para a comedora compulsiva; ser magra é uma condição temível a mulher fica exposta àquelas mesmas coisas das quais tentou escapar, inicialmente, quando engordou. Para assimilar essa idéia, proponho que você feche os olhos por dois minutos e pense numa situação social em que se encontrou hoje. Qualquer acontecimento no trabalho, nas compras ou em casa. Pense agora, com cuidado, no que aconteceu nessa situação específica... Repare no que você estava vestindo... se estava de pé ou sentada, e como estava se relacionando com as pessoas... Estava participando ativamente ou sentia-se excluída?... Perceba o máximo de detalhes possíveis... Imagine-se agora magra, exatamente na mesma situação... Repare especialmente naquilo que você está vestindo e como se sente com seu corpo. Está sentada ou de pé?... Como está se relacionando com as pessoas?... Repare em especial se existe alguma diferença no modo como você se relaciona com os outros agora... Sente-se mais ou menos incluída?... Está sendo muito solicitada?... Quando estiver familiarizada com os detalhes da situação, veja se você consegue perceber qualquer tipo de sentimento negativo que o fato de ser magra possa provocar em você. Há alguma coisa de temível com relação a ser magra nesse lugar? 71

71 Quando as mulheres dos grupos com os quais trabalho fazem esse exercício de imaginação ficam, em geral, muito surpresas com o tipo de coisas que descobrem a respeito de si mesmas. Após um alegre sentimento inicial por se verem magras, entram em contato com sentimentos e idéias associados à magreza, tais como: 1 Sentem-se frias e incapazes de dar de si. 2 Sentem-se ossudas, com as formas, definidas demais e voltadas para dentro. 3 Sentem-se admiradas a ponto de provocar expectativas nos outros. Sentem que não conseguirão manter as pessoas afastadas especialmente aquelas que despertam interesse sexual. 4 Não sabem lidar com seus próprios desejos sexuais; sentem-se livres para ter uma sexualidade, mas inseguras com relação ao que isso possa implicar. 5 Sentem que detêm muito poder. 6 Não sabem estabelecer limites à sua volta e sentem-se invadidas pela atenção dos outros, porque não saberão dar um fim a ela. Preocupam-se com o lugar que ocupam nessa nova admiração. 7 Não se sentem bem entre outras mulheres que lhes lançam olhares competitivos. 8 Preocupam-se com a necessidade de ter tudo resolvido de ter suas vidas arranjadas. Sentem que não existem mais desculpas para as dificuldades que têm de enfrentar em suas vidas. Sentem que terão de abandonar todo o sofrimento que a gordura representava. Ficam especialmente apreensivas em pensar que quando forem magras não haverá espaço para a tristeza e ninguém notará sua carência. É muito importante compreender que a preocupação com a forma física do modo como se expressa nesses itens é uma idéia fixa para as mulheres, porque essas imagens são os únicos modelos de comportamento feminino aceitos socialmente. 72

72 Gostaria de examinar esses itens, um a um, e explicar por que tais medos são tão comuns quando as mulheres fazem esse exercício de imaginação. 1 É muito comum o medo de que a magreza corresponda à frieza emocional. Sabemos que nossas identidades são profundamente formadas em torno do modelo da mulher que dá de si e que cuida dos outros. O sentimento de frieza e de não poder dar de si entra em conflito direto com essa noção fundamental que aprendemos quando meninas. Quantas de nós podem tranqüilamente aceitar que existem lados nossos que rejeitam essa mulher que dá de si e que nutre os outros? O medo de ser fria é muito grande porque raramente nos permitimos mostrar esse lado de nossas personalidades. Annie, uma professora e futura avó, de 58 anos, disse: "Toda minha vida empenhei-me para criar ao meu redor um ambiente acolhedor e afetuoso. Se me imagino magra agora, sinto-me fria e gelada, como uma versão definhada de mim mesma. Sinto que não me ajustaria à minha vida. Seria como parar de ser cheia de vida, acolhedora e generosa, que é como me vejo agora." Do mesmo modo como pensamos que se comermos uma bala acabaremos comendo o pacote inteiro, achamos que se demonstrarmos um pouco de frieza seremos pessoas frias. Cuidar dos outros e dar de si são coisas que se esperam de nós, e, além do mais, coisas que esperamos de nós mesmas. Muitas de nossas relações cotidianas giram em torno de nossa aptidão em nutrir os outros. Ser fria, mesmo que temporariamente, é praticamente negar nossa identidade sexual. 2 Ser ossuda e ter formas muito definidas causa problemas porque estamos por demais acostumadas a ter nossas personalidades definidas por nós. Quero dizer com isso que ajustamos nossas antenas às expectativas que os outros fazem de nós, porque nossa posição social nos desestimulou a que formássemos nossas próprias identidades. Somos definidas para nos ajustar aos estereótipos fe- 73

73 mininos tradicionais. Quando lutamos por uma autodefinição, deparamo-nos com curiosidade, falta de apoio e até hostilidade. Diane, uma psiquiatra canadense que estava fazendo terapia porque comia por compulsão, expressou um medo comum. Temia que se fosse magra as pessoas poderiam pensar que ela realmente só estava interessada em si mesma e em mais ninguém. Ficar magra e bonita (em sua mente as duas coisas vinham juntas) significava ser fútil e voltada para si mesma, já que a magreza era algo que dava muito trabalho de se conseguir. Diane sentia que a gordura encobria sua vaidade; se fosse magra isso ficaria à mostra. Já que o trabalho de Diane era ajudar os outros, a idéia de que pudesse ficar muito voltada para si mesma a apavorava. Seu mal-estar era de um tipo muito conhecido para muitas mulheres. Crescemos para nos preocupar com os outros e, em geral, sentimo-nos culpadas quando reparamos que temos nossas próprias necessidades, desejos e interesses que realmente vêm em primeiro lugar. Para Diane, o dilema era bastante grave e ela reparou que logo antes das sessões com seus pacientes entupia-se de biscoitos. Com este ato sentia estar realizando duas coisas: a certeza de que continuaria a ser gorda o que para ela significava ser estável e ser uma pessoa confiável e estaria evitando demonstrar estar voltada para si mesma quando estivesse com um paciente. Ao se entupir de biscoitos, abafava seus sentimentos. 3 Ser admirada também não deixa de ter suas dificuldades. Se somos admiradas quando estamos magras, em geral sentimos que nossos corpos é que estão sendo apreciados. O corpo da mulher é sua principal qualidade; a comparação de seu corpo com os corpos das outras mulheres é um fator muito importante para a determinação de seus sentimentos. Sua aparência determinará, em parte, a escolha de namorados e de um marido. É importante que cause boa impressão com sua aparência numa medida bem maior do que sua cara-metade masculina. Isso, é claro, é uma postura ridícula ser valorizada tendo como base a última moda em atração sexual. E o que dizer sobre nossa parte ativa 74

74 e pensante? Assim, ser magra traz consigo apreensões a respeito de se saber se seremos vistas como pessoas inteiras ou simplesmente por nossas características sexuais. 4 O desejo de ser uma pessoa que tem sexualidade é uma faca de dois gumes. Por um lado, muitas mulheres associam a magreza ao fato de serem desejadas sexualmente, e sentem ter mais domínio na escolha dos parceiros. Sendo magras acham legítimo selecionar as pessoas que lhes interessam; sendo gordas, acham que têm de esperar pelo homem ou mulher que se esforçará para atravessar as camadas de gordura e encontrar a pessoa que está atrás delas. Por outro lado, muitas mulheres temem a sexualidade recémdescoberta que a magreza promete. Muitas acham que terão atitudes diferentes das que têm normalmente em seu comportamento sexual. Uma das preocupações que volta e meia aparece nos grupos é a seguinte: "Se ficar magra e muito atraente talvez sinta atração por outros homens além de meu marido e não quero pôr nossa relação em risco." Temos tão pouco poder de decisão com relação à definição de nossa sexualidade que, conseqüentemente, fica muito difícil sentir, e mais ainda agir, sobre aquilo que queremos sexualmente. Uma mulher com a qual trabalhei explicou detalhadamente: "Se ficar menos volumosa, as pessoas me verão mais, ficarei exposta. O que ficará exposto será a minha sexualidade. A gordura, eu escondo por trás da alegria e finjo que não tenho sexualidade. Magra, revelo uma sexualidade amorfa e meio solta, porque fico magra tão raramente que não consigo me acostumar a me sentir bem com minha própria sexualidade." Imagens de sexualidade feminina são difundidas em cartazes, na televisão e no cinema. Anúncios de carros e tratores mostram mulheres expostas sobre as mercadorias. A sexualidade feminina transforma-se num produto aos olhos, tanto dos homens quanto das mulheres. O significado desta última questão traz mais uma dificuldade. Os objetos sexuais dos homens são as mulheres. 75

75 Entretanto, os objetos sexuais das mulheres são também as mulheres, pois a sexualidade é normalmente apresentada através de imagens femininas. Portanto, as mulheres ficam confusas se não se encaixarem na imagem que foi estabelecida para elas. Se uma mulher não se parece com aquela outra cheia de vitalidade sexual que está no anúncio, ou na página de moda, como pode ousar ter uma sexualidade? Mas por que a magreza se revela como um problema de sexualidade? Para muitas, a resposta se encontra no fato de que o peso tem sido vivenciado como um modo de se evitar a sexualidade. Embora o ato de evitar a sexualidade seja uma solução muito dolorosa, pode, no entanto, ser uma opção mais segura para as mulheres que temem que se forem magras serão desejáveis sexualmente. Como fazemos com todas as fantasias ligadas à magreza, trabalhamos, nos grupos, novas maneiras de dizer "não" e "sim" à sexualidade, para que possamos ter qualquer peso e, ao mesmo tempo, continuar a lutar para definir nossas necessidades sexuais. Desse modo, se a gordura tem sido uma maneira de dizer "não" ao sexo, devemos aprender a usar nossas bocas para falar e afirmar esse "não", em vez de esperar que o mundo magicamente entenda que a comida que acabamos de colocar em nossas bocas é uma tentativa de dizer "não". A boca tem duas funções importantes permitenos falar e comer. Por vezes, os comedores compulsivos afligem-se porque não a sabem usar com a primeira destas finalidades. 5 Há também níveis mais profundos de resistência para se ser magra. Um dos medos que muitas mulheres descobrem associar à magreza é o de sentir-se com muito poder. Em nossa cultura, desde muito cedo ensina-se às meninas que seu papel na vida é o de ser a companheira e auxiliar de um homem poderoso. Seu próprio senso de identidade desenvolver-se-á a partir da situação do marido; será a esposa e mãe carinhosa, e o poder por trás do homem. As meninas são persistentemente desencorajadas a ter um poder próprio, fora do papel materno. Ser magra, para mui- 76

76 tas mulheres, significa sair-se bem demais e ultrapassar sua posição social. O poder apresenta à mulher três problemas inter-relacionados: o primeiro tem origem em imagens culturais de mulheres poderosas; o segundo, no modo como as meninas são criadas; e, o terceiro, nas conseqüências reais ou imaginárias de se ter poder. Os poucos exemplos conhecidos que temos de mulheres poderosas têm sido ou equiparados à destruição, como é o caso de Helena de Tróia e Cleópatra, ou têm estado ligados a imagens de homens castrados, como Maggie, de Maggie and Jiggs.* A mãe toda-poderosa só detém poder enquanto mãe. No momento em que o pai volta para casa, reapropria-se da autoridade de sua esposa. Assim, uma menina aprende sobre o poder de um modo confuso; o poder de sua mãe, o poder feminino, é negado pelo do pai, mas o poder do pai, o poder masculino, em geral é equiparado à desumanidade e à competição. Ao crescer, a menina aprende a se conformar com uma cidadania de segunda classe. Sua mãe lhe ensina a ceder aos outros (como ela própria faz com seu marido), e a esperar que eles definam a forma de seu mundo. Os conceitos de feminilidade impedem que se pense em si mesma como poderosa e eficiente porque, para uma mulher, "poderosa" significa "egoísta" agir para si mesma significa tirar dos outros. As mulheres correm o risco de ficar socialmente isoladas caso se tornem muito poderosas. Se uma mulher é poderosa e pode cuidar de si mesma é provável que se aflija, achando que não precisará de mais ninguém, e que se tornará muito auto-suficiente e só. Este medo é fomentado pelas reações dos outros. Os homens geralmente reagem contra o esforço que uma mulher faz para ter seu próprio poder "O que ela precisa é de um homem." Freqüentemente as próprias mulheres são menos en- * Personagem dominadora que aparece em uma história em quadrinhos de jornais americanos. (N. do T.j 11

77 corajadoras ainda para aquelas que tentam agir em benefício próprio. Podem sentir-se ameaçadas, invejosas ou traídas. Deste modo, se ultrapassarmos nossa posição social, concebendo-nos, a princípio, como poderosas e, em seguida, agindo como tais, podemos nos sentir ameaçadas. Trabalhar esse problema faz parte integrante dos grupos. Investigamos a razão pela qual as mulheres foram ensinadas a aceitar esse papel secundário e examinamos a estrutura de poder de cada família individualmente, ou das redes de ensino. 6 Um medo muito complexo que as mulheres invariavelmente sentem está centrado na questão dos limites femininos. A literatura psicanalítica está repleta de referências ao problema das mulheres com a demarcação de limites. O que se quer dizer com limites é a quantidade de espaço que se ocupa no mundo onde se começa e onde se termina. A razão pela qual as questões relacionadas aos limites são tão difíceis para as mulheres tem suas raízes sociais no desenvolvimento de uma psicologia feminina. Sabemos que o papel feminino exige que a mulher seja aquela que nutre, que cuida dos outros e que dá apoio afetivo aos que lhe são próximos. Deve fundir seus interesses com os interesses dos outros e procurar sua realização adaptando suas necessidades e desejos aos outros em especial aos namorados e às crianças com quem têm uma relação mais íntima. É enfaticamente dissuadida a desenvolver sua autonomia econômica e emocional. Ser gorda representa tanto o esforço de fundir-se com os outros, como, paradoxalmente, de formar uma parede impenetrável em torno de si mesma. De modo análogo, muitas mulheres associam a magreza a questões de limite. Se a gordura tem sido um modo de representar sua condição de separada e seu espaço, sem ela a mulher sentir-se-á muito vulnerável e sem defesas. Maggie, uma balconista de 38 anos, relatou o seguinte: "Se não tiver todo esse peso sobre mim as pessoas chegarão perto demais e não terei nenhum controle ou proteção." Os desenhos abaixo talvez ilustrem como essas questões são vivenciadas. 78

78 Na figura A, a mulher é gorda e sente que seu eu verdadeiro existe em algum lugar por baixo da gordura. A gordura fornece uma proteção física contra a vulnerabilidade que ela pensa ter. Ela imagina que se perder peso estará perdendo uma camada de proteção contra o mundo. A perda dos limites fixos do eu produz mais um dos estados aterradores que as mulheres têm associado à perda de peso. Esse pavor que uma mulher pode sentir é o medo de ser invadida pelos outros. É provável que a gordura lhe tenha permitido manter uma certa distância das pessoas. Imagina que tudo isso está relacionado à gordura, que são as próprias pessoas que não se aproximam dela, e que ela não tem quase nenhum direito de se aproximar das pessoas. Assim, uma mulher se atormentará ao pensar que quando for magra as pessoas vão invadir os limites de seu espaço e penetrarão nela. Mais uma vez vemos que a condição física da gordura ou da magreza tem sido o modo através do qual as comedoras compulsivas lidam com as dificuldades em suas relações sociais. 7 Uma questão extremamente difícil para a mulher é a da competição. Elas têm sido forçadas a competir entre si para poder conseguir o homem que, presume-se, cuidará delas e, principalmente, legitimará sua sexualidade. Esta 79

79 competição entre as mulheres é extremamente feroz e penosa, mesmo que só tenha uma atuação em nivel inconsciente. Faz com que nos avaliemos umas às outras a fim de que nos possamos sentir mais ou menos tranqüilas quando formos nos relacionar com os outros. Ao chegarmos a uma festa, começamos inadvertidamente a nos classificar por nossa atratividade em relação às outras mulheres. Isso é parte tão integrante de nossa cultura que está até mesmo institucionalizado. Talvez a forma mais degenerada que isso assuma seja o Concurso de Miss Universo, no qual as mulheres competem baseadas em sua beleza e personalidade. Muitas mulheres engordam como tentativa de evitar esses penosos sentimentos competitivos. O vislumbre de uma volta à magreza desmascara os impulsos competitivos. Muitas não estão seguras de como lidarão, seja com seus próprios desejos competitivos, seja com a animosidade que imaginam irão despertar nas outras mulheres. 8 Finalmente, mais um dos medos expressados com freqüência associado à magreza fica bem delineado na declaração feita por Penny, uma professora de 24 anos. Ela sentia que havia muitas coisas em sua vida que não estavam indo muito bem, apesar de sentir prazer com seu trabalho, com suas amizades e com seus relacionamentos afetivos. Imaginava que se perdesse 5 quilos tudo em sua vida correria tranqüilamente. A razão de alguma coisa não dar certo, segundo ela, era o excesso de peso. Na medida em que nos aprofundamos na questão, descobrimos que a imagem que ela tinha da magreza expressava competência e confiança. Não deixava espaço para que nada desse errado em sua vida como poderia haver algum problema se fosse magra? Se fosse magra, caso sentisse dor e tristeza não saberia como expressá-las. Compreendeu que o peso em excesso era uma desculpa para explicar por que as coisas pareciam não estar indo bem. Sem esta desculpa temia não ser capaz de assumir o controle por sua vida do modo como as mensagens que havia assimilado dos meios de comunicação lhe prometiam. Como disse: "Se for magra como realmente pen- 80

80 so que quero ser terei que fazer tudo conforme manda o figurino!" Antes de começar a mostrar mais detalhadamente a vivência real das comedoras compulsivas quando emagrecem, é importante assinalar que tanto as imagens quanto as vivências da magreza contêm mensagens contraditórias. As mesmas mulheres podem atribuir angústias divergentes à gordura e à magreza. Uma mulher pode dizer: "Se ficar magra vou me sentir fraca como se fosse desaparecer." Seu eu gordo imagina que o peso lhe dá força e estabilidade. Entretanto, podemos também descobrir que para essa mesma mulher, a magreza tem também a conotação de um tipo de força rija, e que a gordura é seu extremo oposto, uma característica indefinível e flácida uma geléia mole. Imagens contraditórias são familiares a todos nós em nossas atividades diárias. O que em geral é menos compreendido é que as comedoras compulsivas tenham sentimentos contraditórios a respeito da forma física. Nutricionistas, psicólogos, médicos e as colunas de dieta e beleza das revistas femininas raramente levantam a questão que consideramos fundamental para se quebrar o círculo de engordar e emagrecer, abusar e fazer regime. Em geral, acontece que as experiências passadas de perda de peso e emagrecimento das comedoras compulsivas foram muito difíceis. Existem muitas razões para isso que serão examinadas mais adiante, mas em primeiro lugar faremos algumas observações preliminares que nos podem fornecer um contexto para a compreensão dessas várias razões. As imagens negativas associadas à magreza são, em sua maior parte, inconscientes. Isto significa que não são imediatamente acessíveis às pessoas no estado de vigília. Os exercícios de imaginação contidos neste livro ajudam a fornecer pistas para que possamos descobrir mais coisas sobre as idéias que temos e das quais geralmente não temos consciência. As idéias inconscientes têm tanta força na existência cotidiana das pessoas quanto os desejos conscientes, os pensamentos e as ações que colocamos em prática. O in- 81

81 consciente é uma parte ativa de todos nós e quando tentamos modificar nosso comportamento ou nossos sentimentos e não obtemos êxito, procuramos descobrir as razões que estão impedindo nosso caminho. Os fatores sociais são determinantes decisivos nisso e nunca devem ser subestimados, mas nossa intenção inconsciente formada pela repressão de desejos inaceitáveis socialmente é algo que se interpõe persuasivamente e da qual não se escapa a um ajuste de contas. Ao nos dirigirmos às questões da forma física e da auto-imagem nos grupos, nosso objetivo é o de ajudarmo-nos umas às outras a realizar o trabalho emocional necessário para que, desta vez, a magreza seja compreendida com todas as suas ramificações, e que os perigos imaginados sejam minimizados. Isto significa que estaremos trabalhando com as seguintes finalidades: (1) Investigar as idéias que as mulheres fazem em nível consciente e inconsciente sobre a magreza e a gordura. (2) Separar essas idéias dos estados corporais, para que as inúmeras propriedades que o indivíduo atribui a seu tamanho sejam conferidas diretamente a si mesmo e não a seu eu magro ou gordo. (3) Fornecer meios alternativos às mulheres, que não incluam o de comer, através dos quais possam se proteger, afirmar e definir. Os diversos medos da magreza sentidos pelas comedoras compulsivas baseados em suas experiências passadas de emagrecimento estão centrados num determinado número de itens. Mas um dos principais sentimentos, conpartilhado por praticamente todas, seja qual for sua psicologia individual, está focalizado no significado básico de se perder peso através de dietas. Geralmente, o único modo que a comedora compulsiva encontra para perder peso é através de uma severa restrição alimentar. Sua forma física é uma questão tão crucial que, ao apelar para uma dieta, atribui a ela o poder de fazer coisas fantásticas para si. Na verdade, muitas mulheres relatam que uma vez tomada a decisão de fa- 82

82 zer uma dieta, é tão grande a quantidade de energia psíquica exigida para realmente mobilizá-las e para regulá-las drasticamente, que se sentem maravilhosas, puras, perfeitas, quase como se estivessem embriagadas. Nada as perturba até que rompam a dieta e comecem as recriminações. Tendo deificado a dieta, seu rompimento assinala a volta ao estado tortuoso da compulsão de comer. Para uma mulher, a vivência da privação enquanto está de dieta opera em dois níveis. O que produz o estado de euforia, permite-lhe que continue a dieta sentindo-se virtuosa e que despreze seu modo de comer anterior. Mas em um outro nível, ter que comer baseada em regras e regulamentos é um aviso constante à comedora compulsiva de que não é uma pessoa confiável. Deste modo, quando emagrece, a sensação de ter um tamanho normal e de ser como todo mundo só é conseguida à custa de sua permanência na prisão da dieta compulsiva, e da vigilante luta para manter acuado o monstro da compulsão de comer. Essa batalha para eliminar os abusos de comida coloca a mulher num estado extremamente precário. Fica preocupada como nunca com aquilo que pode ou não entrar em sua boca, e faz com que raramente sinta confiança no fato de que essa dieta, em particular, terminará com seu problema de comer. Seus dias e suas noites não ficam menos repletos de angústias com relação à alimentação e à forma física. Se a vida para a comedora compulsiva é sentida como um processo de comer contínuo, então a dieta existe fora da vida e é sentida como irreal. O vício persiste junto com suas obsessões concomitantes: "Será que resistirei àquelas batatas fritas e sobremesas?" "Será que poderei comer aquilo que Joyce preparou para o jantar, ou será que engorda demais?" Essa tensão é acrescentada ao sentimento de falta de confiança com relação a sua capacidade de manter a dieta, uma vez perdido o peso. O espectro do corpo imenso está sempre rondando. A comedora compulsiva não desenvolve a confiança de que permanecerá magra. Torna-se uma pessoa magra, alguém que se parece e age diferentemente daquele eu gordo, mas é uma nova mulher, que não se co- 83

83 nhece muito bem. É alguém em quem não se sente segura em confiar ou realmente conhecer, porque se sente insegura com relação ao tempo em que permanecerá magra. Se habitualmente passa dois meses por ano magra, faz dieta durante um mês, e os outros nove permanece gorda, fatalmente sentirá mais familiaridade com seu eu gordo. Realmente não acredita que seu eu magro ficará por perto muito tempo, por isso desenvolverá uma relação de desconfiança com relação a ele. Assim, sua vida como pessoa magra tem uma característica de precariedade que não leva a um sentimento de autoconfiança. Há, além de tudo isso, um novo corpo a se carregar, uma versão menor de si mesma. (Tendemos a nos sentir tão pequenos com relação a nossa influência sobre o mundo, especialmente as mulheres, que a redução de nossa presença física é sentida quase como algo grotesco.) Ligada a essa falta de familiaridade com o corpo, vem uma mudança drástica na auto-imagem da mulher. Muitas mulheres contam que usaram roupas bastante diferentes das que costumavam usar, não simplesmente por causa do tamanho que vem escrito na etiqueta, mas também em virtude do estilo que escolheram. A perda de peso manteve a promessa de pôr em prática certas características da maneira de se vestir que elas negavam a si mesmas enquanto pessoas gordas. Como, por exemplo, vestir-se de modo atraente, idéia que é tabu para a maioria das mulheres com excesso de peso. "Se sou gorda, devo ser horrorosa e não mereço ter roupas bonitas." Já que se vestiam de uma maneira diferente quando magras, também agiam de um modo diferente com relação aos outros, mas descobriam que não estavam bem preparadas para lidar com as reações que provocavam. Kate, uma estudante universitária de antropologia, descobriu que certa vez, quando estava magra, foi a uma festa usando jeans apertados com uma blusa de algodão transparente (em lugar de suas costumeiras túnicas fechadas sobre calças), e suas amigas, embora a princípio lhe elogiassem e apoiassem, pareciam ficar apreensivas quando seus maridos e na- 84

84 morados se aproximavam dela. Kate ficou nervosa, temendo que elas pudessem ficar com ciúmes e parassem de gostar dela, mas não sabia como afastar seus maridos. No grupo, analisamos os diversos significados dessa nova maneira de se vestir. No final, Kate decidiu que quando perdesse peso novamente correria o risco de sentir-se bem e sensual em suas roupas sem ter de ameaçar as amigas. Resolveu partilhar a nova e frágil aceitação de seu corpo com elas, e garantiu-lhes que não estava interessada em seus namorados. Isto também a ajudou a esclarecer a confusão que fazia entre vestir-se sensualmente e vestir-se sexualmente. Imagem corporal e proteção são coisas muito importantes. Nos grupos tentamos tratar esses dois problemas do seguinte modo: os membros do grupo são encorajados a aceitar os aspectos físicos da gordura. A auto-aceitação é a tarefa-chave no grupo; sem isto, a perda de peso e a eliminação do vício não deixarão de ser temporários. Nosso objetivo é alcançar um estado em que as mulheres possam realmente sentir que têm a posse de sua gordura e entender os diversos significados atribuídos a ela. Quando emagrecerem poderão usar esses significados na medida em que precisarem. Não acharão que estão perdendo uma camada protetora, poderão crescer em seus próprios corpos e então sentirão que os possuem por inteiro tendo assim condições de reduzi-los. Os diagramas abaixo poderão ajudar a mostrar o processo que temos em vista nos grupos. 85

85 ficílima tarefa da auto-aceitação, da preparação para um novo corpo esbelto e de uma nova auto-imagem. Tenha em mente que, antes de perder alguma coisa você tem, primeiro, de possuí-la. Você deve, em primeiro lugar, aceitar seu corpo com toda a sua dimensão, antes que possa perdê-lo. O ponto de partida é um espelho que dê para se ver de corpo inteiro e que não distorça a imagem. Os membros do grupo reservam um tempo todos os dias no início, talvez alguns minutos para observar seus corpos. A maioria das comedoras compulsivas tem muita consciência do aspecto de seus rostos, mas não em relação ao resto de seus corpos. O que tentamos fazer neste exercício é observar nossos corpos. Usamos o espelho para nos olhar sem fazer julgamentos da imagem que vemos. Isso é um projeto amedrontador e difícil para muitas mulheres, porque costumamos fazer caras feias e julgamentos nas poucas ocasiões em que realmente vemos nossos corpos por inteiro. Estamos bastante familiarizadas em evitar visões que possivelmente não serão aceitas, como quando andamos com a cabeça baixa ao passar por vitrines de lojas para não olhar, sem querer, para nós mesmas e assim desencadear sentimentos negativos. Assim, ao fazer o exercício, pedimos à mulher que olhe inicialmente para sua imagem refletida como se estivesse olhando para uma obra de arte, uma escultura, por exemplo, para conhecer suas dimensões e textura. Deve olhar para descobrir onde começa e termina; onde estão suas curvas e saliências; as variações de cores que existem. A mulher deve experimentar fazer isso em várias posições, diferentes, começando em pé, em seguida sentada sem ter de esconder a metade de seu corpo e, finalmente, ficando em pé de perfil. Algumas pessoas têm mais facilidade em fazer esse exercício estando vestidas; outras acham mais prático fazê-lo nuas. Começamos então com o que é sentido como mais confortável e ficamos assim até que a mulher possa ter a experiência de se olhar no espelho sem ter de imediatamente desencadear sentimentos de repulsa. A segunda etapa no exercício do espelho visa ajudá-la a sentir que ela existe através de todo seu corpo. Muitas mu- 86

86 lheres sentem a gordura como algo que as circunda, dentro do que seu eu verdadeiro está contido ou, alternadamente, que sua gordura as persegue e ocupa muito mais espaço do que realmente o faz. Por isso, quando uma mulher está diante do espelho, deve-se enfatizar nessa parte do exercício, o fato de que se sinta através de todo seu corpo. Ela segue o percurso de sua respiração, que vai dos pulmões para todo o corpo. As coxas gordas que poderá querer rejeitar fazem parte de seu corpo tanto quanto seus pulsos, que parecem bem mais aceitáveis. Tenta ver todas as partes de seu corpo ligadas entre si. Começa com os dedos dos pés e se lembra de que os dedos dos pés estão ligados aos pés, e os pés aos tornozelos e os tornozelos às pernas, e assim por diante. Isso lhe fornecerá uma visão do corpo como um todo funcional. Começará a sentir que ela existe através da gordura. Esse novo enfoque tem mais uma função. Se você consegue sentir que existe através da gordura, então, quando emagrecer, não sentirá que perdeu uma camada protetora; sentirá que seu tamanho foi reduzido. Isto acontece porque, se você pode se sentir por inteiro através da gordura, então tudo aquilo que você é faz parte de você. Ao abrir mão do tamanho você está fazendo uma troca a gordura pelo seu próprio corpo, e isso é poder. Vale a pena repetir aqui os desenhos, porque ajudam na compreensão do que queremos obter ao reduzir a discrepância entre o eu gordo e o pequeno eu físico interno. Visamos a uma condição onde a seqüência eu-gorduramundo seja substituída por eu-mundo. 87

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