Igrejas paulistas: barroco e rococó Vanessa Proença Título da obra: Igrejas paulistas: barroco e rococó. Autor: Percival Tirapeli 1 Um grande catálogo: é essa a impressão que o livro nos passa. A proposta do autor é justamente mostrar um panorama das igrejas paulistas construídas durante o período colonial no estado de São Paulo. E "Caminhando" pelo livro, sentimo-nos caminhando por uma exposição, onde as obras de arte, neste caso as igrejas, estão distribuídas de acordo com a região onde estão localizadas. Aliás, o modelo "catálogo" tem sido adotado pelo autor em alguns de seus trabalhos, como nos livros lançados pela Metalivros: As Mais Belas Igrejas do Brasil, 1999; Patrimônios da Humanidade no Brasil, 2000; e Conhecendo os Patrimônio da Humanidade no Brasil, 2002. A obra é composta por três partes. Na primeira, o autor traça um panorama do estado de São Paulo destacando o processo de povoamento, o urbanismo e a arte sacra, passando pelos retábulos 2, esculturas e pinturas. Na segunda parte encontramos o grande catálogo das igrejas paulistas, com destaque para a mais antiga, a Igreja Matriz de Nossa Senhora da Conceição em São Vicente, cuja edificação primitiva foi destruída por um maremoto em 1542 e que hoje está em sua terceira construção 3, e para a mais recente, a nova Catedral da Sé em São Paulo, 1 Pesquisador e professor em cursos de graduação e de pós-graduação no Instituto de Artes da Universidade Estadual Paulista (UNESP). Livre-docente em Estética e História da Arte. 2 Segundo definição do próprio autor: estrutura ornamental de pedra ou talha de madeira que se eleva na parte posterior do altar; genericamente obedece à seguinte classificação: jesuítico ou maneirista (início do século XVII); nacional português (1680-1720); joanino (1720-1760); rococó (1760-1816); e neoclássico (século XIX). Percival Tirapeli. Igrejas Paulistas: Barroco e Rococó. p361. 3 Idem. p88.
inaugurada em 1954. E por fim a terceira parte guarda as considerações finais. Segundo Tirapeli, a estrutura de sua exposição segue a sugestão de Mário de Andrade 4, estando as obras divididas nas seguintes regiões, onde destaco as seguintes igrejas: O Litoral Paulista - Igreja de Nossa Senhora da Conceição, em São Vicente; O caminho do ouro - Basílica do Bom Jesus de Iguape, em Iguape; Caminhos da catequese - Capela de São Miguel, em São Paulo; Igrejas de São Paulo - Catedral da Sé; Caminhos dos Jesuítas - Igreja de Nossa Senhora do Rosário, em Embu; Caminhos do Vale do Tietê - Igreja de Nossa Senhoa do Carmo, em Mogi das Cruzes; Caminhos do Vale do Paraíba - Basílica (antiga) de Nossa Senhora da Conceição Aparecida, em Aparecida; Caminhos para o Sul - Matriz de Nossa Senhora da Candelária, em Itu; e Caminhos para as minas - Catedral Metropolitana de Nossa Senhora da Conceição, em Campinas. O autor ilustra o catálogo com fotografias coloridas e em preto e branco. As coloridas foram produzidas entre 1999 e 2003, em sua maioria por Manuel Nunes da Silva, fotógrafo do Estúdio Degrade S/C Ltda. As fotografias em preto e branco datam do período de 1937 a 1945 e foram produzidas, em sua maioria, por Germano Graeser, fotógrafo que acompanhou Mário de Andrade pelo interior de São Paulo na missão de catalogar os edifícios antigos do estado, para o SPHAN, hoje IPHAN. Este catálogo, conforme dito anteriormente, apresenta parte das igrejas construídas no período colonial no estado de São Paulo e, segundo o título, estas seguem os estilos Barroco e Rococó. Porém, a maioria das igrejas apresentadas sofreram alterações ao longo dos anos, sendo 4 Idem. p14. 5 Idem. p294. 6 Idem. p175. 7 Idem. p342. 8 Idem. p344. 9 Idem. p340. 10 Ana Maria Reis de Góes Monteiro. Ramos de Azevedo. Presença e Atuação Profissional. Campinas: 1879-1886. p87 e 88. 11 Idem. p87.
descaracterizadas e assumindo, na maioria das vezes, feições neoclássicas ou ecléticas. Algumas igrejas, como é o caso da Sé de São Paulo, foram demolidas e reconstruídas. Esta constatação nos leva a uma indagação: por que agrupar estas igrejas com o título Barroco e Rococó? O mais adequado seria classificá-las apenas como igrejas construídas no período colonial brasileiro. Partes das igrejas reformadas ou reconstruídas foram salvas da destruição, principalmente os retábulos. Estes, passaram a intergrar outros conjuntos arquitetônicos, como é o caso de um altar lateral da antiga Basílica de Aparecida que hoje se encontra na Igreja de São Gonçalo, em São Paulo 5. O autor os classifica como retábulos peregrinos 6. A Catedral de Campinas Quando aborda as igrejas do Caminho para as minas, Tirapeli dedica algumas páginas à Catedral Metropolitana de Nossa Senhora da Conceição, situada em Campinas. Cidade considerada importante centro regional desde o século XIX, foi grande produtora e exportadora de café. A construção desta igreja se estendeu de 1807, quando a cidade ainda era denominada Vila de São Carlos, até 1883. O projeto grandioso para a vila representava as aspirações dos campineiros, que fizeram da cidade importante centro na época do segundo reinado. Seu exterior é grandioso e magnífico, assim como seu interior. Nisto, esta igreja difere, por exemplo, das igrejas mineiras, de exterior simples e interior rico em ornatos. Se comparada a outras igrejas da região, como a Matriz de Nossa Senhora da Candelária em Itu, veremos que a fachada da Catedral campineira é mais densa em modenaturas e motivos decorativos. O interior da Matriz de Itu, segue a policromia das igrejas mineiras, ao contrário, o interior da igreja de Campinas, possui o "monumental retábulo- mor 7 e os retábulos da nave esculpidos em cedro e sem qualquer tipo de policromia.
O retábulo-mor é de autoria, como bem atesta o autor, do baiano Vitoriano dos Anjos, e os altares laterais e as capelas são de autoria de Bernardino de Sena Reis e Almeida, toreutas que "tiveram as medidas exatas entre a razão do neoclássico e a emoção de um barroco reinventado" 8. O magestoso interior da Catedral de Campinas apresenta elementos barrocos e neoclássicos. Assim, como podemos classificar o interior da Catedral Metropolitana de Nossa Senhora da Conceição dentro das concepções do Barroco Brasileiro? Ao tratar da fachada da igreja, Tirapeli incorre em um erro de atribuição. Este atribui o projeto do frontispício ao engenheiro Ramos de Azevedo. Segundo o autor, Ramos de Azevedo adotou as novas linhas do frontispício que passou a ostentar uma torre sineira central e grandes colunas sustentando um frontão triangular, bem como os anjos e profetas sobre as platibandas do edifício 9. Porém, esta teoria foi derrubada por Ana Maria Reis de Góes Monteiro em sua Dissertação de Mestrado intitulada Ramos de Azevedo. Presença e Atuação Profissional. Campinas: 1879-1886. Ana Góes contesta esta teoria afirmando que este projeto foi elaborado por Cristóvão Bonini e apresenta uma planta e um desenho do frontispício proposto por Bonini 10, que pertencem ao acervo da Faculdade de Aruitetura e Urbanismo da Universidade de São Paulo. Tal erro pode ser justificado pelo fato destes originais terem sido entregues por Bonini a Ramos de Azevedo e pertencerem ao arquivo do Escritório Técnico Ramos de Azevedo, Severo & Villares, do acervo acima citado. À exceção "feita à cúpula de coroamento da torre central e de alguns elementos decorativos" 11, a fachada que hoje se apresenta é de autoria de Bonini. Este detalhe, porém, não tira o mérito do Professor Tirapeli em reunir importantes obras da arquitetura sacra paulista neste catálogo.
Referências Bibliográficas GÓES MONTEIRO, Ana Maria Reis de. "Matriz Nova" in Ramos de Azevedo. Presença e Atuação Profissional. Campinas: 1879-1886. Campinas: s/nome, 2000; p78-101. TIRAPELI, Percival. Igrejas Paulistas: Barroco e Rococó. São Paulo: Editora UNESP e Imprensa Oficial do Estado, 2003. Vanessa Proença Mestranda do programa de pós-graduação do Instituto de Filosofia e Ciências Humanas - UNICAMP.