Clima e mudanças climáticas na Amazônia



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Transcrição:

Diligência Pública ASSEMBLÉIA LEGISLATIVA DO ESTADO DO AMAZONAS Manaus-AM, 18 de maio de 2009 Comissão Mista de Mudanças Climáticas Clima e mudanças climáticas na Amazônia Antonio Ocimar Manzi manzi@inpa.gov.br Gerente Executivo do Programa LBA Instituto Nacional de Pesquisas da Amazônia INPA

Precipitação total anual (cm, GCCP) Por que a Amazônia é importante para o clima da Terra? É porque a Amazônia é a maior fonte continental de energia para o sistema climático da Terra. ( na formação das nuvens de chuva há condensação de vapor de água com liberação de energia - calor latente)

2 1.8 1.6 1.4 1.2 1 0.8 0.6 0.4 0.2 0 Biomass carbon increment (t C/ha/yr) Old oxisols Spodosol/psamment Ultisols Younger oxisols Crystalline shield Holocene alluvium Older alluvium inceptisols/andisols Fertilidade crescente do solo Qual é a importância da Amazônia no contexto das mudanças climáticas globais? > 500 MSc. e Drs. SAF em área degradada Floresta formando nuvem/chuva Campanha intensiva LBA

Biomass carbon increment (t C/ha/yr) 2 1.8 1.6 1.4 1.2 1 0.8 0.6 0.4 0.2 0 Old oxisols Spodosol/psamment Ultisols Younger oxisols Crystalline shield Holocene alluvium Older alluvium Fertilidade crescente do solo inceptisols/andisols As ávores da Amazônia armazenam uma grande quantidade de carbono, em torno de 10 vezes a emissão anual global de gases de efeito estufa (em CO 2 equivalente). Somando-se o carbono dos solos superficiais da Amazônia, o estoque de carbono duplica e chega a aproximadamente 200 bilhões de toneladas. > 500 MSc. e Drs. SAF em área degradada Floresta formando nuvem/chuva Campanha intensiva LBA

Ainda, Biomass carbon increment (t C/ha/yr) 2 1.8 1.6 1.4 1.2 1 0.8 0.6 0.4 0.2 0 Old oxisols Spodosol/psamment Ultisols Younger oxisols Crystalline shield Holocene alluvium Older alluvium Fertilidade crescente do solo inceptisols/andisols medidas recentes do LBA confirmam que a floresta amazônica de terra firme está crescendo e absorvendo parte do excesso de CO 2 da atmosfera, em uma taxa anual (de 0,5 a 1,0 t C ha-1) maior do que as emissões devidas aos desflorestamentos prestando serviço ambiental = sequestro de carbono da atmosfera > 500 MSc. e Drs. SAF em área degradada Floresta formando nuvem/chuva Campanha intensiva LBA

Balanço de Carbono das florestas da Amazônia (estimativas) Estoque: aproximadamente 80-120 bilhões de toneladas de C Seqüestro pela fotossíntese : de 300 a 600 milhões de toneladas de C por ano Emissões por desflorestamento: de 200 a 300 milhões de toneladas de C por ano

EMISSÕES GLOBAIS DE GASES DE EFEITO ESTUFA Emissões de gás carbônico equivalente de origem fóssil (principalmente de carvão mineral e petróleo): taxa média anual de 7,2 [6,9 to 7,5] GtC em 2000 2005 ( ~ 81,8 % DAS EMISSÕES ANUAIS TOTAIS ) Emissões de gás carbônico equivalente de mudanças de usos da terra (principalmente de desflorestamentos): taxa média anual de 1,6 [0,5 to 2,7] GtC nos anos 90 ( ~ 18,2 % DAS EMISSÕES ANUAIS TOTAIS ) Fonte: Relatório AR4 WGI do IPCC, 2007.

BALANÇO GLOBAL DE GÁS CARBÔNICO

Mudanças Climáticas Globais A temperatura da Terra vem aumentando, assim como a temperatura da Amazônia. Projeções de modelos climáticos indicam a continuidade do aquecimento. De uma maneira geral, os modelos projetam aumento de chuvas em regiões bem supridas de água e redução de chuvas em regiões áridas e semi-áridas daterra. Os modelos climáticos projetam também aumento de eventos climáticos extremos (secas, inundações, furacões e tempestades severas) Entretanto, não há concordância entre os modelos sobre modificações nos regimes de chuva na Amazônia. Alguns modelos projetam diminuição de chuvas anuais, enquanto outros projetam aumento ou pouca variação.

Fonte: J. Marengo CPTEC/INPE Mudanças de temperatura para 2080-99 em relação a 1980-99, cenário A1B, AR4-IPCC MÉDIA 20 MODELOS Mudanças de precipitação para 2080-99 em relação a 1980-99, cenário A1B, AR4-IPCC MÉDIA 20 MODELOS

Variabilidade interanual e interdecadal Marengo, 2004

SÃO GABRIEL DA CACHOEIRA AM (FONTE DOS DADOS: CRU)

El Niño

La niña

Considerações finais -As mudanças climáticas globais, além de elevar a temperatura do planeta próximo à superfície, afetarão os regimes de chuva. A Amazônia será afetada por aumento de temperatura e poderá ser afetada por redução de chuvas e intensificação de eventos extremos. - A atenuação do aquecimento global se fará pela drástica redução das emissões de gases de efeito estufa, não há outra alternativa viável. - O que implica na mudança da matriz energética. É preciso substituir o petróleo e o carvão mineral por fontes mais limpas de geração de energia. Mas também é preciso reduzir os desflorestamentos. - As emissões brasileiras de gases de efeito estufa (GEE) contribuem com 3 a 5% das emissões globais. A maior parte em consequência dos desflorestamentos, especialmente na Amazônia. - Do ponto de vista das mudanças climáticas globais, a redução dos desflorestamentos na Amazônia representará uma contribuição importante à atenuação do aquecimento global somente na condição de um esforço global de redução de emissões de GEE. - A seca de 2005 e a cheia de 2009 são oriundas das oscilações naturais do sistema climático, porém podem ter sido intensificadas ou mesmo atenuadas pelas mudanças climáticas globais.

Muito obrigado pela atenção! Antonio Ocimar Manzi <manzi@inpa.gov.br> Gerente Executivo do Programa LBA Instituto Nacional de Pesquisas da Amazônia - INPA

ESTIMATIVA DAS EMISSÕES ATUAIS DE CARBONO POR DESFLORESTAMENTO NA AMAZÔNIA E DE METANO PELA PECUÁRIA BRASILEIRA ANO BASE 2006 Considerando : a quantidade de carbono da floresta no arco de desmatamento em torno de 150 toneladas por hectare, desflorestamento anual em torno de 12 mil km 2 Emissão aproximada = 150 toneladas * 1.200.000 hectares = 180 MtC (~2% EG) o rebanho de 200 milhões de animais emissão média de 55 kg de metano por animal Emissão aproximada = 200 milhões * 0,055 toneladas = 11 MtCH 4 ou, convertendo em carbono de gás carbônico equivalente ( x 25 / 3,664) = 75 MtC (0,85% das emissões globais)

ESTIMATIVA DE EMISSÕES POR CONVERSÃO DE FLORESTA EM PASTAGEM NA AMAZÔNIA Considerando : a quantidade de carbono da floresta no arco de desmatamento em torno de 150 toneladas por hectare, a taxa média anual de desflorestamento na década 1997-2006 em torno de 19 mil quilômetros quadrados (1,9 milhão de hectares por ano), e a percentagem de conversão dos desflorestamentos em pastagens em torno de 80% A emissão total no período foi de 150 toneladas * 1.900.000 hectares * 0,8 * 10 anos = 2,28 bilhões de toneladas de carbono ou seja, aproximadamente 2,5% das emissões anuais globais.

ESTIMATIVA DE EMISSÕES DE METANO PELA PECUÁRIA NA AMAZÔNIA NO MESMO PERÍODO Considerando : o rebanho de 56,5 milhões de animais em média no período 1997-2006, a emissão de 55 kg de metano por ano por animal, e o potencial de aquecimento global do metano equivalente a 25 vezes o do gás carbônico em uma base de 100 anos A emissão total de carbono (em gás carbônico equivalente) no período foi de 56,5 milhões de animais* 0,055 toneladas * 10 anos * 25 vezes / 3,66 = 0,21 bilhão de toneladas de carbono ou seja, aproximadamente 10% das emissões por desflorestamento ( 1 mol de CO2 = 44g; 1 mol de C = 12 g; fator de conversão de CO2 em C: 44g/12g=3,66 )