Os muitos The Walking Dead

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- SEPesq Gilberto Fonseca Mestre Uniritter gilfonseca@gmail.com Os muitos The Walking Dead Resumo: O presente trabalho tem por objetivo analisar, à luz das teorias que envolvem a cultura da convergência, de Henry Jenkins, o fenômeno transmídia em The Walking Dead, seus pontos de aproximação e de distanciamento narrativo nas mais variadas plataformas em que se manifesta (história em quadrinhos, série de TV, jogos de videogame e literatura). The Walking Dead surgiu como HQ em 2003, nos Estados Unidos, e rapidamente se tornou uma série de sucesso, recebendo, inclusive, a maior premiação da indústria de quadrinhos, o Eisner Awards. A seguir, a franquia migrou, com estrondoso sucesso, para a televisão, tornando-se uma das séries de maior audiência de todos os tempos. A partir de 2011, teve histórias de seu universo ficcional contadas através de uma série de livros, além de, em 2012, ser escolhido o game do ano. O ponto de partida do trabalho é a hipótese de que cada um dos elementos da franquia tanto pode servir como porta de acesso à história sobre o apocalipse zumbi, criado pelo escritor Robert Kirkman e pelo ilustrador Charles Adlard, como atuar como uma narrativa independente. Palavras-chave: The Walking Dead. Fenômeno Cultural. Cultura da Convergência. 1. Primeiros zumbidos Os muitos The walking dead A primeira aparição na literatura do termo zumbi é atribuída a uma referência a uma divindade do meio oeste africano publicada no livro History of Brasil, de 1810 e, muito provavelmente, tenha sua origem ligada aos termos nzambi ou nzumbi que, em alguns idiomas africanos, significam divindade ou espírito ancestral. Na ficção, o debut dos mortos-vivos se deu no filme Zumbi branco, de 1932, dirigido por Victor Halperin, e pouco tinha a ver com a imagem do ser decrépito, presente no imaginário popular. Tratava-se, na ocasião, do personagem de uma mulher morta e ressuscitada através de um ritual vodu haitiano, incapaz de demonstrar qualquer sentimento. Sem sombra de dúvida, o merecedor do título de pai do zumbi moderno é o cineasta norte-americano George Romero. Os zumbis só se tornaram um fenômeno cultural a partir

- SEPesq de 1968, quando o diretor reinventou a maneira de explorar esses personagens no cinema, através do filme independente e de baixo orçamento, mas sucesso de público e crítica, A noite dos mortos-vivos. Romero, construiu o enredo do filme tendo como base aquilo que hoje se denomina apocalipse zumbi: uma infestação de mortos-vivos em escala catastrófica, que leva a sociedade ao colapso, e que rapidamente transforma esta criatura no ser dominante sobre a Terra. Hostil à vida humana, os zumbis atacam a civilização numa proporção impossível de ser controlada por forças militares. A película, causadora de grande impacto na cultura norte-americana, era carregada de críticas a uma sociedade do final dos anos 1960, imersa na Guerra do Vietnã. Após A noite dos mortos-vivos, não faltaram maneiras de se explorar o personagem dentro e fora das telas. Muitos outros filmes sucederam o primeiro de Romero, assim como outras mídias trataram de incorporar os mortos-vivos a sua programação. Uma delas, as histórias em quadrinhos, através de suas duas maiores editoras, DC e Marvel, explorou, dentro do seu panteão de personagens, dois que dialogavam com a visão que Romero: Na DC, Salomon Grundy, apesar de ter sido criado ainda nos anos 1940, voltou a aparecer no final dos anos 1960 com considerável destaque nas história do herói Lanterna Verde. Posteriormente, em 1973, a editora Marvel Comics lançou uma série de revistas em preto e branco intitulada Tales of the zombie apresentando as aventuras de Simon Garth William, também conhecido como pelo sugestivo codinome de Zumbi. Apesar dessas e de algumas outras empreitadas com lampejos de popularidade, o zumbi nunca havia sido um campeão de vendas, ou emplacado uma série própria durante um tempo considerável, ao menos, não antes de The walking dead. 2. Igual, mas diferente A HQ The walking dead foi criada por Robert Kirkman em 2003. Publicada originalmente pela Image Comics, a série estreou com baixa vendagem, ocupando apenas a 233ª posição do ranking, comercializando somente 7.666 edições, segundo o ICV2 1. 1 O ICv2 é tido como a maior referência sobre o mercado de produtos relacionados à cultura pop nos Estados Unidos (animes, mangás, jogos eletrônicos e de mesa, quadrinhos e brinquedos), (Nota minha).

- SEPesq Curiosamente, para que a história fosse aprovada e recebesse o sinal verde para publicação, Kirkman enganou seu editor, apresentando a proposta de uma narrativa que utilizava o apocalipse zumbi como pano de fundo para uma invasão alienígena. Tudo porque seu superior, Jim Valentino, não apostava no potencial dos mortos-vivos, que até então, dentro do universo das HQs, nunca foram unanimidade, nem chegaram perto do sucesso obtido no cinema. Aliás, The walking dead era para ter se chamado A noite dos mortos-vivos, propositadamente o mesmo título do filme de George Romero, dos anos 60. Passados quase três anos do lançamento e com a primeira tiragem da edição nº 33 esgotando em apenas 24 horas, Valentino pediu que Kirkman esquecesse a história da invasão alienígena e apostasse todas as fichas nos zumbis. Consolidava-se aí um dos maiores fenômenos da cultura pop deste século. Contando a trajetória de Rick Grimes, um oficial de polícia da pequena cidade de Cynthiana, no estado do Kentucky, sua família e um grupo de outras pessoas que se unem para tentar sobreviver em um mundo infestado por uma praga zumbi de origem desconhecida, os quadrinhos de The walking dead, desenhados inicialmente por Tony Moore e, posteriormente, por Charlie Adlard, são apresentados através de uma série mensal de 24 páginas em preto, branco e tons de cinza. A cada seis meses as edições são compiladas e vendidas em encadernados, denominados de arcos. Embora as vendas da revista mensal sejam muito significativas, é com a oferta dos encadernados que a obra de Kirkman consegue maior destaque. Na lista dos dez mais vendidos de 2014, por exemplo, TWD ocupa quatro posições e duas na de 2015. Curiosamente, o primeiro encadernado da série, Dias passados, há anos figura entre os líderes de vendas, sendo constantemente reimpresso. Utilizando o apocalipse zumbi para falar sobre a condição ser humano frente às situações-limite, Kirkman não poupa seus personagens e desafia seus leitores a olharem-se no espelho a partir da obra ficcional. Não raro a série provoca reações apaixonadas dos fãs

- SEPesq através dos sites especializados ou nas redes sociais que apresentam fan pages sobre The walking dead. Violenta, ousada em sua proposta, a série em quadrinhos mantém o fôlego mesmo após mais de uma década de publicação. O interesse dos fãs e as ótimas críticas recebidas proporcionaram a migração da série para outras franquias, replicando e até aumentando o sucesso conquistado em sua plataforma original. 3. A(s) série(s) de TV Sem dúvida alguma, o produto de maior sucesso, derivado da série original é a série de TV produzida pelo canal norte-americano AMC (apresentada no Brasil pelo canal por assinatura FOX e em TV aberta pela Rede Bandeirantes), que, atualmente, concluiu a 6ª temporada, e teve, em média, quase 16 milhões de espectadores 2. Com significativas diferenças na narrativa, nas características dos personagens e na sequência dos acontecimentos, se comparados à HQ, a série televisiva foi lançada em 2010, sob produção do cineasta francês radicado nos Estados Unidos, Frank Darabont (um especialista em adaptações dos livros de Stephen King para outras mídias), e, rapidamente, se tornou um dos programas mais assistidos e debatidos da TV mundial. Por culpa do sucesso da série de TV, muitos telespectadores buscaram nas HQs spoilers sobre o futuro da franquia. Fóruns de discussão foram criados às centenas, milhares de leitores interagiram, falando sobre TWD nas mais variadas redes sociais. Atores relativamente desconhecidos, como Andrew Lincoln, que interpreta Rick Grimes, alcançaram status de estrelas. O seriado recebeu grande número de indicações à prêmios consagrados, como o Globo de Ouro de melhor série de televisão em 2011 e aos Emmy de melhor maquiagem, melhor edição de som e melhores efeitos especiais em 2011 e 2012. O sucesso de The walking dead na TV foi tamanho, que um spin off estreou em agosto de 2015, com intenção de abordar personagens e fatos, dias antes da hecatombe que originou a história principal. Fear the walking dead foi desenvolvida para a televisão por Robert Kirkman, Dave Erickson, Gale Anne Hurd, Gregory Nicotero e David Alpert. A trama 2 Segundo o site adorocinema.com

- SEPesq da série foca no começo do apocalipse zumbi mostrado em The walking dead, e é contada através dos olhos de uma família disfuncional. Merecedora de tanta audiência quanto a sua predecessora, a série está em sua segunda temporada e já teve sua renovação garantida para 2017. 4. Os livros A partir de 2011, TWD passou a fazer parte também de uma série de livros escritos por Kirkman em parceria com Jay Bonansinga, apresentando materiais inéditos aos quadrinhos. Incialmente retomando e aprofundando a história de um dos maiores vilões que as HQs conheceram, Philip Blake, o Governador. O primeiro livro revela, justamente, as situações que moldaram a conduta desse personagem, mostrando sua trajetória desde o início do apocalipse zumbi até sua chegada a Woodbury, cidade que tomou para si, estabelecendo uma espécie de governo ditatorial. The Walking Dead: A Ascensão do Governador, foi sucedido por The Walking Dead: O Caminho para Woodbury, em 2012, tendo como protagonista, dessa vez, a personagem de Lilly Caul, uma jovem frágil e dependente, que tem seu crescimento apresentado conforme a história se desenvolve. A primeira aparição desse personagem, que viria a protagonizar todos os outros livros lançados até então, se deu nas HQs, mais precisamente na edição de número 43, de 2007. Lilly assumiu a liderança da cidade de Woodbury, logo após os eventos relacionados à guerra com o grupo de Rick Grimes. A jovem havia perdido um bebê e vingou-se de Rick, a quem julgava culpado pelo fato, atirando na família Grimes enquanto tentavam escapar de um cerco. Lilly conseguiu atirar na esposa de Rick, matando-a instantaneamente e, consequentemente, também matou a pequena Judith, filha do casal, que estava no colo da mãe. Esses eventos, de certa forma, são apresentados em The Walking Dead: A Queda do Governador - Parte 1, de 2013, e The Walking Dead: A Queda do Governador - Parte 2, de 2014, livros que encerram a quadrilogia, Há, principalmente, na parte 2, uma intersecção interessante com as HQs, retomando fatos já mostrados nos quadrinhos por outro ângulo.

- SEPesq Seguiram a esses, tendo somente Bonansinga como autor, sem a parceria com Kirkman, The Walking Dead: Declínio, também de 2014, e The Walking Dead: Invasão, de 2015, que apresentam a cidade de Woodbury sem a presença do Governador e sob comando de Lilly. Ainda está previsto o lançamento de The Walking Dead: Procurar e Destruir (Tradução Livre), para o fim de 2016. 5. Os Games Mantendo a boa repercussão das outras mídias, TWD também se fez presente nos videogames. Lançado pela Telltale, em 2012, The walking dead: The Game é um jogo em episódios que acontece dentro do universo das histórias criadas por Kirkman. Lançado em cinco partes para diversas plataformas, incluindo consoles, computadores e smartphones, o jogo tem como protagonista Lee Everett, um presidiário que sofre um acidente quando estava sendo transferido pela polícia. O cenário encontrado por Everett é o mesmo de Rick: caos, destruição e zumbis. Mas muito mais do que lutar pela sua sobrevivência, o personagem também precisa proteger Clementine, uma menina encontrada por ele encontra no decorrer da história e que é responsável pelos momentos de maior tensão dentro do game. Apesar dos personagens principais não estarem nem nos quadrinhos nem na série de televisão, a narrativa do game propicia encontros com personagens conhecidos das HQs e da série de TV, como Glenn e o fazendeiro Hershel. O game segue o estilo point n click, tipo de jogabilidade que o jogador interage com personagens e ambientes do cenário, dando um tom mais cinematográfico à ação. The Walking Dead: A Telltale Games Series foi considerado pelo Video Game Awards de 2012, Oscar dos games, como o jogo do ano. Seguiram a esse, The Walking Dead: Season 2, utilizando-se dos mesmos mecanismos que resultaram no sucesso da primeira temporada, mas dessa vez tendo como protagonista a jovem Clementine; The Walking Dead: Survival Instinct, jogo de tiro em primeira pessoa, desenvolvido pela Terminal Reality e publicado pela Activision, em 2013, baseou seu enredo na série de TV de The Walking Dead, apresentando a jornada dos irmãos Daryl e Merle Dixon antes de se encontrarem com o grupo de sobreviventes de Rick

- SEPesq Grimes em Atlanta. O game, embora rodeado de muita expectativa na época de seu lançamento, sofreu com uma série de bugs, incluindo uma jogabilidade bastante confusa, ficando distante de qualquer sucesso dos seus antecessores. Em 2015, a Telltale lançou um game em três partes que tem como protagonista um dos personagens mais queridos das séries em quadrinhos e de TV: Michonne, procurando, através do seu roteiro, explicar o que aconteceu com a personagem durante o período em que ela se separou do grupo liderado por Rick Grimes, entre os capítulos 126 e 139 da HQ. Outros dois jogos da franquia estão disponíveis para celulares e tablets: The Walking Dead Pinball e The Walking Dead: Assault, games menores, mas que permitem ao jogador experiências dentro do universo de Kirkman. 6. Transmídia Henry Jenkins entende que no mundo da convergência das mídias, toda história importante é contada, toda marca é vendida e todo consumidor é cortejado por múltiplas plataformas de mídia (2009, p. 29). The walking dead jamais seria o fenômeno que é se não se tratasse de um produto da cultura da convergência. Seu sucesso, obtido nas mais diversas plataformas, muito provavelmente não seria repetido somente na sua mídia original, as HQs. Muitas são as histórias que formam o todo em The walking dead, tomemos como exemplo dois personagens citados anteriormente e que têm suas trajetórias ligadas, Lilly Caul e Philip Blake. O leitor da HQ, que foi apresentado a esses personagens na forma de coadjuvantes durante o volume 5, A melhor defesa (2006), edições 25 a 30, jamais soube das suas reais motivações. O governador foi visto, nas HQs, como um psicótico e Lilly como alguém movido por vingança. Apesar disso, suas aparições servem bem à história, a narrativa nem de longe soa incompleta ou prejudicada por culpa disso, os personagens alcançam seus propósitos e são interessantes. Agora, o leitor que combinou a leitura da HQ com a quadrilogia inicial da franquia de livros, teve acesso à trajetória desses personagens, a fatos anteriores aos eventos mostrados nas histórias em quadrinhos, e pode conhecer um lado humano por trás da figura

- SEPesq de Blake e sensibilizar-se até com o seu passado. Igualmente, Caul, a líder vingativa e violenta, tem seu caráter moldado em eventos anteriores aos mostrados em A melhor defesa, a jovem dos primeiros livros em nada lembra a mostrada nos quadrinhos, os eventos vivenciados em The Walking Dead: O Caminho para Woodbury, são determinantes para que ela atue daquela forma nas HQs. plataformas, Jenkins entende que uma história transmídia, que se desenrola através de múltiplas Apresenta um novo texto, contribuindo de maneira distinta e valiosa para o todo. Na forma ideal de narrativa transmídia, cada meio faz o que faz de melhor a fim de que uma história possa ser introduzida num filme, ser expandida pela televisão, romances e quadrinhos; seu universo possa ser explorado em games ou experimentado como atração de um parque de diversões. Cada acesso à franquia deve ser autônomo, para que não seja necessário ver o filme para gostar do game e vice-versa. Cada produto determinado é um ponto de acesso à franquia como um todo (2009, p. 138). Assim é a franquia de The walking dead, uma gama generosa de acessos à história principal. Não raro encontra-se nos fóruns de discussão sobre a série, pessoas que tiveram contato com a obra de Kirkman através da série de TV e que, a partir dela, resolveram expandir a experiência, consumindo os derivados e abastecendo-se de sensações próprias das outras plataformas. De fato, muito desse sucesso todo se deve ao uso que os fãs fizeram das mídias emergentes, no caso, e principalmente, das redes sociais. Foi através delas que o debate sobre TWD se aprofundou e, de olho nessas discussões, que novos produtos foram sendo agregados à franquia. A cada desdobramento, os fãs, ávidos por consumir detalhes dessa história, foram juntando as partes da história maior. Jenkins afirma que Para viver uma experiência plena num universo ficcional, os consumidores devem assumir o papel de caçadores e coletores, perseguindo pedaços da história pelos diferentes canais, comparando suas observações com as de outros fãs, em grupos de discussão on-line, e colaborando para assegurar que todos os que investiram tempo e energia tenham uma experiência de entretenimento mais rica (2009, p. 49). 7. Uma horda de fãs No Brasil, são várias as comunidades organizadas de fãs da franquia. Ao menos dois grandes sites que levam The walking dead em seu nome, são responsáveis por milhares de

- SEPesq acessos mês: walkingdeadbr.com e thewalkingdead.com.br. O primeiro, segundo sua chamada de capa, denomina-se um fã-site brasileiro criado com o intuito de divulgar o talentoso trabalho de Robert Kirkman na história em quadrinhos, adaptada para a série de TV, The walking dead. Nele, há postagem de informações diárias sobre a produção de HQs, sobre a série de TV e a vida dos atores que representam seus personagens, além de conteúdo sobre os livros e games da franquia, bem como espaço para debates (fóruns de discussão) e espaço para colunistas. Autointitulado o único fan site seguido e recomendado pelo elenco e produtores da série, está no ar desde novembro de 2010 e foi lançado alguns dias após a exibição do episódio de estreia da primeira temporada da série de TV. Atualmente, o WDBR, como os membros preferem chamar o site, conta com algo em torno de 800 mil acessos por mês enquanto a série está sendo transmitida, e em torno de 500/600 mil, enquanto ela está em pausa. Já em sua fan page, no Facebook, há mais de 1 milhão de fãs e, no Twitter, 70 mil seguidores. A maioria dos colunistas do site é de pessoas com nível de instrução universitária. São escritores, jornalistas e designers de games, que dedicam parte de seu tempo para oferecer e debater o conteúdo da franquia TWD com os fãs. Percebe-se que a base de pessoas que acessam o The walking dead Brasil têm preferências distintas. Alguns apreciam spoilers, já outros são mais reservados e preferem se guardar para a surpresa. Mas, a parte mais acessada e comentada do portal é, sem dúvida, a de opinião, na qual os colunistas avaliam os capítulos e suas expectativas sobre os próximos episódios. Já o portal thewalkingdead.com.br, segundo sua própria descrição é o maior, mais antigo e mais completo site não-oficial sobre a franquia de Robert Kirkman no Brasil e em toda a América Latina. No ar desde maio de 2010, conta com um número abrangente de matérias, que vai desde notícias, a entrevistas e guia de informações, abordando todas as mídias da franquia (série de TV, quadrinhos, videogames e livros). Ainda segundo informações do próprio porta, o número de acessos diários gira em torno de 70 mil visitas. Nas redes sociais, conta com mais de 1,3 milhão de seguidores em sua página do Facebook, crescendo a uma taxa média de quase mil novas inscrições por dia.

- SEPesq 8. Considerações Finais Quando dois ou mais textos partilham elementos, tais como personagens, locações imaginárias, ou universos ficcionais, acontece o fenômeno transmídia. Curiosamente, desde a virada do século, esse fenômeno vem arrebatando a cultura popular. Não raro encontramos exemplos como o da trilogia Matrix, Uma narrativa tão ampla, que não é abarcável por uma única mídia (Jenkins, 2009). A narrativa transmídia aparece em dois gêneros principais. O primeiro é o que podemos denominar como efeito bola de neve: no qual uma determinada narrativa goza de tanta popularidade, ou destaca-se tanto em uma cultura, que espontaneamente gera uma variedade de produtos derivados e/ou sequências, fan fictions e adaptações, seja no mesmo tipo de mídia da original ou entre mídias. Assim, há um primeiro texto que funciona como um campo comum de referência a todos os outros (Harry Potter é um bom exemplo do efeito bola de neve: começa na mídia impressa, criado por uma única autoria e depois se expande para filmes e jogos de computador graças à demanda popular). Já o segundo tipo, é um fenômeno muito mais recente. Ele é representado por um sistema em que uma determinada história é concebida desde o início como um projeto que se desenvolve sobre diferentes plataformas de mídia, como em Matrix, projeto planejado pelos seus criadores para apresentar universos expandidos nas mais diversas plataformas: games, livros, HQs e cinema. The walking dead encontra-se no primeiro exemplo de narrativa transmídia. Era para ser apenas uma HQ, mas tornou-se um fenômeno que já ultrapassa uma década de sucesso, ampliando, em escala geométrica, a sua legião de fãs a cada nova HQ, episódio de suas séries de TV, novo jogo de videogame, bonecos articulados, e outras tantas possibilidades, que só dependem, agora, da mente criativa de seu criador, Robert Kirkman. REFERÊNCIAS CODESPOTI, Sérgio. The walking dead celebra dez anos com uma venda de mais de 350 mil exemplares. Disponível em http://www.universohq.com/noticias/the-walking-deadcelebra-dez-anos-venda-350-mil-exemplares/. Acesso em 23 mai. 2014. JENKINS, Henry. Cultura da convergência. São Paulo: Aleph, 2009.

- SEPesq. Robert Kirkman: Eu posso fazer mil edições de The walking dead. Entrevistador: David Peisner. Revista concedida a revista Rolling Stone, 2013. Disponível em: http://rollingstone.uol.com.br/noticia/robert-kirkman-eu-posso-fazer-1000-edicoes-dewalking-dead/. Acesso em: 05 set. 2015. NALIATO, Samir. Os quadrinhos mais vendidos de 2014 nos Estados Unidos. Disponível em: http://www.universohq.com/noticias/os-quadrinhos-mais-vendidos-de-2014- nos-estados-unidos/. Acesso em: 06 out. 2015. Dxfffeeeeeeeeeeeeeeeeeeeeeeeeeeeeeklor jogo do ano em premiação, 2012. Disponível em: http://www.thewalkingdead.com.br/games/ http://www.thewalkingdead.com.br/fear-the-walking-dead/ http://g1.globo.com/tecnologia/noticia/2012/12/walking-dead-e-eleito-o-melhor-jogo-do-anoem-premiacao.html. Acesso em: 01 out. 2015. WALKING dead: HQ Vs TV, n. 363, 2013. Nerdcast. Duração: 87 min. Disponível em: http://jovemnerd.com.br/nerdcast/nerdcast-364-walking-dead-hq-vs-tv/. Acesso em: 01 out. 2015. http://walkingdeadbr.com/livros/