MÍDIA E DISCURSIVIDADE: DILMA E RADICAIS DO PT

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Transcrição:

97 de 664 MÍDIA E DISCURSIVIDADE: DILMA E RADICAIS DO PT Leandro Chagas Barbosa 23 (UESB) Adilson Ventura da Silva 24 (UESB) Maria da Conceição Fonseca-Silva 25 (UESB) RESUMO Neste trabalho, discutimos a relação que se estabelece discursivamente entre Dilma enquanto pré-candidata/candidata a presidente do Brasil e os chamados radicais do PT. Mostramos como se dá a relação de conflito no jogo discursivo entre Dilma e radicais do PT, a qual irá legitimá-los em posições discursivas distintas. O recorte do corpus selecionado é constituído de edições da revista Veja que circularam em 2010. PALAVRAS-CHAVE: Análise do Discurso, mídia, política 23 Mestre em Linguística. chagasbarbosa@gmail.com 24 Docente do Departamento de Estudos Linguísticos e Literários/UESB. Orientador. 25 Docente do Departamento de Estudos Linguísticos e Literários/UESB. Bolsista produtividade do CNPq. Co-orientador.

98 de 664 INTRODUÇÃO A necessidade de verificar na mídia a discursivização da espetacularização das relações políticas e de escândalos de corrupção nos levou a discutir o modo como foi discursivizado no periódico Veja a relação entre o sujeito político Dilma Rousseff e o sujeito político Lula; assim como a relação discursiva entre o sujeito político Dilma Rousseff e o Partido dos Trabalhadores (PT), a partir de temas que envolvem radicalismo no PT e corrupção ligada ao Governo PT. Este trabalho representa um recorte em que discutimos a relação que se estabelece discursivamente entre Dilma Rousseff e os chamados radicais do Partido dos Trabalhadores. Mostramos como se dá a relação de conflito no jogo discursivo que irá legitimá-los em posições discursivas distintas. Para tanto, organizamos alguns excertos nos quais abordamos um momento em que Dilma Rousseff ocupa o lugar social de pré-candidata/candidata à presidência da República. MATERIAL E MÉTODOS Para a realização das análises, mobilizamos alguns postulados do quadro teórico da Análise de Discurso (AD).

99 de 664 Tomamos como ponto de partida a definição de M. Pêcheux (1983a) acerca da relação estrutura e acontecimento, cujo pressuposto é de que um acontecimento discursivo se dá no encontro de uma atualidade e de uma memória (PÊCHEUX, 1983a) e que todo gesto de leitura/interpretação está sujeita à equivocidade da língua. Considerando, pois, o que defende Pêcheux (1983a), buscamos analisar como, apesar de aparecer como uma forma transparente, há uma opacidade no acontecimento. Ou seja, há sentidos diversos funcionando no acontecimento, com suas memórias, imaginários, silenciamentos, etc. Deste modo, verificamos, nos recortes, a tensão da relação entre estrutura e acontecimento, entre a descrição e a interpretação, como pensada por Pêcheux (1983a). Ainda segundo Pêcheux (1983b), tanto as materialidades verbais quanto as não verbais não são legíveis na sua transparência porque são atravessadas por um discurso. Nesse sentido, Fonseca-Silva (2007a) mostra que a descrição das materialidades discursivas não se instala somente no real da língua, pois acabaria reduzindo a significação apenas ao linguístico. Para a autora, assim como o discurso é uma das formas de materializar a ideologia, a língua é apenas uma das formas de materializar o discurso e não a única (FONSECA-SILVA,

100 de 664 2007a, p. 111). Isto não quer dizer que se negue a importância do real da língua e, muito menos, que determinadas inscrições só podem se instalar nesse real (FONSECA-SILVA, 2007a, p. 111), mas que, sendo a Análise de Discurso uma disciplina de interpretação, pode construir procedimentos para expor o olharleitor à opacidade tanto da língua quanto de outros domínios semióticos. Para este trabalho, analisamos uma capa de Veja, veiculada em 2010, que traz uma materialidade significante do tema tratado. RESULTADOS E DISCUSSÃO O conjunto de excertos selecionado para análise refere-se ao lugar social de Dilma enquanto pré-candidata/candidata às eleições presidenciais de 2010.

101 de 664 Figura 1 - Veja, Edição n. 2153, 24 de fevereiro de 2010. A capa apresenta uma imagem em preto e branco de Dilma, cuja expressão é de serenidade. Há tonalidades vermelhas, presentes nas estrelinhas e no contorno da capa, que trazem uma memória da cor do Partido dos Trabalhadores. A parte superior direita apresenta os tópicos: (1) A candidata e os radicais do PT ; (2) Entre a ideologia e o pragmatismo ; (3) O

102 de 664 estado e o capitalismo no mundo pós-crise. Na parte inferior direita, a transcrição de uma fala atribuída à Dilma: (4) A realidade mudou, e nós com ela. Em (1), há um funcionamento discursivo em torno da relação entre Dilma e radicais do PT, no qual, devido à materialidade opaca desse enunciado, identificamos duas posições de sujeito distintas: o lugar do radical e o lugar do não radical. Em (2), há um jogo discursivo que possibilita efeitos de sentido quanto à relação ideologia e pragmatismo. Inicialmente, ideologia e pragmatismo apresentam uma relação de oposição. Entretanto, identificamos também um funcionamento em que pragmatismo e ideologia possam coexistir no PT conforme o objetivo ou necessidade criada em sua relação com o poder, enquanto partido de situação. Em (3), o jogo discursivo que envolve a relação Estado e Capitalismo apresenta inicialmente um efeito de conflito. Entretanto, esta concepção é ressignificada quando estado e capitalismo podem dialogar quando tomados em condições de um mundo pós-crise. Nisso, a candidata Dilma Rousseff aparece como a figura que terá de saber lidar com esta condição. O enunciado (4), em conjunto com os enunciados (1), (2) e (3), presentifica o discurso de que é preciso se adequar à atual

103 de 664 conjuntura da realidade política do país, e isto faz com que se crie uma relação conflitante com determinadas posições defendidas pelo PT. Nesse sentido, identificamos que, na discursividade de Veja, há um PT adequado ao que se caracteriza como nova realidade e um PT apegado a determinados valores ideológicos que presentifica um choque de realidade com a atual realidade política do país. CONCLUSÕES Neste trabalho, identificamos a existência de um jogo discursivo no qual é estabelecido um conflito no interior do PT. E, em meio a esse jogo, encontra-se a candidata Dilma. Além disso, podemos identificar também uma relação de tensão entre Dilma e os radicais do PT. Assim, os efeitos de sentido produzidos por estes enunciados são efeitos da relação entre memória e acontecimento que formam uma memória discursiva em torno de Dilma Rousseff. REFERÊNCIAS FONSECA-SILVA, M. da C. Poder-saber-ética nos discursos do cuidado de si e da sexualidade. Vit. da Conquista: ed. UESB, 2007a.

104 de 664 PÊCHEUX, M. O discurso: estrutura ou acontecimento. Trad. Eni P. Orlandi. 6ª edição. Campinas: Pontes, 2012. Edição Original: 1983a. PÊCHEUX, M. Papel da memória. In: ACHARD, P. et al. Papel da memória. 3ª edição. Campinas: Pontes, 2010. p. 49-57. Edição original: 1983b. Site www.veja.abril.com.br