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A PINTORA Era madrugada, fumaça e pincéis estampavam a paisagem interna de um loft. Lá fora uma grande lua pintava as ruas semi-iluminadas com um fantasmagórico prateado. Uma mão delicada retocava a gravata azul de um marinheiro. Uma colorida paleta repousa levemente do lado esquerdo da tela, num tamborete de madeira, contrastando com o escuro dos móveis clássicos. Ao seu lado, uma bituca de cigarro era apagada, ao mesmo tempo que um cálice de vinho flutuava, voltando rapidamente ao seu lugar de origem. Passos são ouvidos no andar de baixo. Um ruído fino, um chiado constante, uma velha música francesa ecoa, baixa e fria. Essa era a rotina de Maria. Na liberdade das madrugadas ela era uma prisioneira. Refém do cotidiano. Refém de sua solidão. Solidão esta que ela 197

mesma desconhecia e negava a todo custo. Considerava-se uma pessoa feliz. Dizia que ser solitário não era a mesma coisa de solidão. A verdade é que sentia-se só. Até mesmo quando estava acompanhada. Seja pela família, pelos poucos amigos. Ainda menos, pelos raros amantes. Maria teve uma infância boa. Seus pais (um médico e uma instrumentista) tinham uma condição financeira privilegiada. Eram muito ligados a arte e suas diferentes formas. Seja a música ou o design de móveis que o pai desenvolvia nas poucas horas vagas. Aos quinze anos de idade a filha única do casal foi estudar na França. Nos três anos que lá passou cultivou o gosto pela solidão. Enquanto aprimorava a sua habilidade com a pintura, afundava-se mais em introspecção. Como nunca precisara trabalhar levou a vida as custas dos pais que deram a ela um apartamento quando completou vinte e cinco anos. O 198

desligamento da família não foi conturbado, pois não eram do tipo afetuoso. Maria tinha mais admiração do que amor. Ao som de música francesa, triste e melancólica, sentou-se novamente no banco alto de madeira. Retocava mais uma vez a gravata do marinheiro. Tal gravata estava torta. Na verdade não estava, era. A própria Maria era. E assim finalizava mais um de seus companheiros. Escondidos num baú pesado e velho estavam outros sete quadros. Todos com a figura de um marinheiro. O mar vasto e verde de fundo. Não sabia explicar sua fixação por pintá-los, do mesmo jeito que não conseguia dar forma e nome as suas figuras abstratas. Ela própria era uma abstração. Confusa, estéril, misteriosa. Ao contrário do mar, mistério oco, insalubre. Não sabia quem ela era, tentava não pensar nisso. Enchia o copo de vinho, secava a 199

segunda garrafa. Como a garrafa, a noite estava chegando ao seu fim. Mas algo no ar previa o diferente. O ventou uivou e um copo estilhaçou-se no chão. Som seco, vibrante. No silêncio cortado um soluço propagou-se sendo levado pela brisa fria da madrugada. Maria chorava, sem motivo aparente. Não que isso fosse novidade. Mas o vazio de sua solidão gritou dentro do seu corpo, de modo a causar dor física. Olhou para as suas mãos, estavam começando a enrugar, sentiu-se velha. Planta morta, num jarro pequeno e feio. Deitou-se no chão, numa posição fetal. Observava seu quadro recém terminado. O frio do chão queimava suas costas, a solidão o seu coração. Lembrou-se de quando era criança e de quando acordava no chão. Procurou os olhos de alguém, olhou para o seu quadro. O marinheiro de volta a olhou. Mas seus 200

olhos eram frios, duros, imóveis. Como a sua não vida. Frio era também o chão, dura era a sua vida. Maria agora sabia quem era, pois sabia que não era. Raiva e tristeza invadiram sua mente. Num reflexo instintivo, chutou o tripé que segurava a tela. Apesar de torto, o quadro tombou reto, escorregando para perto dela. Com um caco de vidro nas mãos riscava o marinheiro com traços aleatórios. Com a paleta nas mãos esfregou-a na tela. Uma massa disforme, acinzentada, tirava a vida do marinheiro. Com um dedo cortado, escreveu na tinta agora opaca a palavra "liberdade". Maria limpou as mãos nas roupas. Já as lágrimas deixou-as sujas. Saiu deixando a porta de casa aberta. No apartamento de baixo, alguém olhava pela varanda. Uma mulher suja de tinta encaminhavase para a praia. Atravessou a rua vazia cortando o ar frio da madrugada. O dia começava a dar os seus primeiros passos. A mulher sentada na beira da 201

praia, encolhida, observava as ondas e o sol que começava a sair de dentro do mar verde escuro. Maria saia das profundezas das águas. Como companheiro o sol. Dourado, quente. E o seu corpo era quente, luminoso e livre. 202