RECURSO ESPECIAL Nº 1.289.998 - AL (2011/0171785-0) RELATORA RECORRENTE RECORRIDO : MINISTRA NANCY ANDRIGHI : UNIMED PALMEIRA DOS ÍNDIOS - COOPERATIVA DE TRABALHO MÉDICO : JOSÉ ESPEDITO ALVES E OUTRO(S) : ALLAN MARTINS CAVALCANTE : MIGUEL BARROS PASSOS E OUTRO(S) EMENTA CIVIL E PROCESSUAL CIVIL. RECURSO ESPECIAL. AÇÃO DE COMPENSAÇÃO POR DANOS MORAIS. PLANO DE SAÚDE. RECUSA COBERTURA. DANO MORAL. 1. Embora geralmente o mero inadimplemento contratual não seja causa para ocorrência de danos morais, é reconhecido o direito à compensação dos danos morais advindos da injusta recusa de cobertura de seguro saúde, pois tal fato agrava a situação de aflição psicológica e de angústia no espírito do segurado, uma vez que, ao pedir a autorização da seguradora, já se encontra em condição de dor, de abalo psicológico e com a saúde debilitada. 2. O arbitramento da indenização em valor correspondente ao décuplo do valor dos materiais utilizados na cirurgia, entretanto, não guarda relação de razoabilidade ou proporcionalidade, devendo ser reduzido. 3. Recurso especial parcialmente provido. ACÓRDÃO Vistos, relatados e discutidos estes autos, acordam os Ministros da TERCEIRA Turma do Superior Tribunal de Justiça, na conformidade dos votos e das notas taquigráficas constantes dos autos, por unanimidade, dar parcial provimento ao recurso especial, nos termos do voto da Senhora Ministra Relatora. Os Srs. Ministros Sidnei Beneti, Paulo de Tarso Sanseverino e Ricardo Villas Bôas Cueva votaram com a Sra. Ministra Relatora. Ausente, justificadamente, o Sr. Ministro João Otávio de Noronha. Brasília (DF), 23 de abril de 2013(Data do Julgamento) MINISTRA NANCY ANDRIGHI Relatora Documento: 1229559 - Inteiro Teor do Acórdão - Site certificado - DJe: 02/05/2013 Página 1 de 6
RECURSO ESPECIAL Nº 1.289.998 - AL (2011/0171785-0) RECORRENTE : UNIMED PALMEIRA DOS ÍNDIOS - COOPERATIVA DE TRABALHO MÉDICO : JOSÉ ESPEDITO ALVES E OUTRO(S) RECORRIDO : ALLAN MARTINS CAVALCANTE : MIGUEL BARROS PASSOS E OUTRO(S) Relatora: MINISTRA NANCY ANDRIGHI RELATÓRIO Cuida-se de recurso especial interposto por UNIMED PALMEIRA DOS ÍNDIOS - COOPERATIVA DE TRABALHO MÉDICO, com fundamento na alínea "c" do permissivo constitucional. Ação: de compensação por danos morais, ajuizada por ALLAN MARTINS CAVALCANTE, em face da recorrente, em virtude da resistência em autorizar a realização de cirurgia, sob a alegação de que o valor de material solicitado pelo médico era excessivo. Sentença: julgou procedente o pedido, para condenar a recorrente a pagar R$ 46.000,00 (quarenta e seis mil) reais a título de compensação por danos morais, valor correspondente ao décuplo do valor dos materiais cirúrgicos. Acórdão: negou provimento à apelação interposta pelo recorrente para manter o valor da indenização fixado em primeiro grau. Recurso especial: alega dissídio jurisprudencial quanto à aplicação do art. 944, parágrafo único, do CC/02. Assevera que não configura dano moral o descumprimento de contrato decorrente de falha de interpretação. Aduz que o valor fixado a título de compensação por danos morais é exagerado em cotejo à gravidade da conduta em si. É o relatório. Documento: 1229559 - Inteiro Teor do Acórdão - Site certificado - DJe: 02/05/2013 Página 2 de 6
RECURSO ESPECIAL Nº 1.289.998 - AL (2011/0171785-0) RELATORA : MINISTRA NANCY ANDRIGHI RECORRENTE : UNIMED PALMEIRA DOS ÍNDIOS - COOPERATIVA DE TRABALHO MÉDICO : JOSÉ ESPEDITO ALVES E OUTRO(S) RECORRIDO : ALLAN MARTINS CAVALCANTE : MIGUEL BARROS PASSOS E OUTRO(S) Relatora: MINISTRA NANCY ANDRIGHI VOTO Cinge-se a controvérsia a verificar a ocorrência de dano moral indenizável, bem como a proporcionalidade do quantum indenizatório fixado pelo Tribunal de origem para fins de compensação por danos morais, por injusta recusa de cobertura do seguro de saúde. I. Da existência de dano moral indenizável A jurisprudência do STJ é uníssona quanto ao reconhecimento de dano moral in re ipsa nas hipóteses de atraso injustificado ou injusta recursa de cobertura por planos de saúde. Desse modo, comprovada a injusta resistência à cobertura de procedimento cirúrgico, como consignado pelo TJ/AL na hipótese dos autos. devida será a indenização. Nesse sentido: AgRg no AREsp 161.056/SP, de minha relatoria, 3ª Turma, DJe 14/02/2013; e AgRg no AREsp 154.802/CE, Rel. Min. Antonio Carlos Ferreira, 4ª Turma, DJe 11/12/2012. Logo, não merece reforma o acórdão de origem quanto ao ponto, porquanto se encontre em consonância com o entendimento jurisprudencial do STJ. II. Da quantum indenizável Documento: 1229559 - Inteiro Teor do Acórdão - Site certificado - DJe: 02/05/2013 Página 3 de 6
Ao fixar o valor devido a título de indenização para fins de compensação de danos morais, o TJ/AL utilizou-se do valor dos materiais cirúrgicos para determinação o pagamento do décuplo deste valor. Isso porque a injusta resistência em prestar cobertura do procedimento médico necessário pelo plano de saúde teria decorrido do alegado excesso do valor cobrado a título de materiais cirúgicos. De fato, indene de dúvida a necessidade de se arbitrar valor proporcional e estritamente adequado à compensação do prejuízo extrapatrimonial sofrido e ao desestímulo de práticas lesivas. Por outro prisma, a compensação financeira arbitrada não pode representar enriquecimento sem causa, ou seja, a quantia deve também ser moderada em virtude da capacidade econômica da vítima. Na hipótese dos autos, tem-se, de um lado, uma instituição prestadora de plano de saúde; de outro, pessoa natural em estado de extrema fragilidade diante, no aguardo para realização de cirurgia em virtude de discussão em relação ao valor dos materiais necessários que somavam R$ 4.600,00 (quatro mil e seiscentos reais). Em rápida pesquisa jurisprudencial, verifica-se que o STJ vem ratificando indenizações para compensação por danos morais decorrentes de de descumprimento de contratos de plano de saúde que variam de R$ 10.000,00 a R$ 32.000,00 (AgRg no AREsp 154.802/CE, Rel. Min. Antonio Carlos Ferreira, 4ª Turma, DJe 11/12/2012; AgRg no AREsp 200.984/SP, Rel. Min. Raul Araújo, 4ª Turma, DJe 13/11/2012; AgRg no Ag 1.215.680/MA, Rel. Min. Maria Isabel Gallotti, 4ª Turma, DJe 03/10/2012; AgRg no REsp 1.229.448/MA, Rel. Min. Paulo de Tarso Sanseverino, 3ª Turma, DJe 16/10/2012; AgRg no AREsp 235.269/RJ, Rel. Min. Raul Araújo, 4ª Turma, DJe 25/10/2012; entre outros). Deve-se ainda tomar em consideração que o ato ilícito torna-se mais grave e reprovável quando a discussão acerca da liberação para realização de Documento: 1229559 - Inteiro Teor do Acórdão - Site certificado - DJe: 02/05/2013 Página 4 de 6
procedimento tem por fundamento o valor dos materiais que sequer alcançam soma absurda primo ictu oculi. Ademais, apesar do longo período de vinculação e contribuição do recorrido para com o plano de saúde, o procedimento somente foi realizado após a determinação judicial para tanto. Diante da gravidade do ato ilícito praticado, o valor da indenização arbitrada deve refletir as peculiaridades da hipótese, garantindo-se que a sanção civil alcance também seu caráter pedagógico, razões pela qual arbitro o valor de R$ 20.000,00 (vinte mil reais) a título de compensação de danos morais. Forte nessas razões, CONHEÇO do recurso especial e DOU-LHE PARCIAL PROVIMENTO, para reduzir o valor da indenização, por considerar suficiente e necessário o valor de R$ 20.000,00 (vinte mil reais) para fins de compensação de danos morais. Este valor deverá ser acrescido de correção monetária, a partir dessa data, e juros moratórios de 0,5% (meio por cento) na vigência do CC/16 e 1% (um por cento) ao mês na vigência do CC/02, incidentes desde o evento danoso (Súmula 54/STJ). Documento: 1229559 - Inteiro Teor do Acórdão - Site certificado - DJe: 02/05/2013 Página 5 de 6
CERTIDÃO DE JULGAMENTO TERCEIRA TURMA Número Registro: 2011/0171785-0 PROCESSO ELETRÔNICO REsp 1.289.998 / AL Números Origem: 20080014986 20080014986000100 46075021620 PAUTA: 23/04/2013 JULGADO: 23/04/2013 Relatora Exma. Sra. Ministra NANCY ANDRIGHI Presidente da Sessão Exmo. Sr. Ministro PAULO DE TARSO SANSEVERINO Subprocurador-Geral da República Exmo. Sr. Dr. JOSÉ BONIFÁCIO BORGES DE ANDRADA Secretária Bela. MARIA AUXILIADORA RAMALHO DA ROCHA RECORRENTE RECORRIDO AUTUAÇÃO : UNIMED PALMEIRA DOS ÍNDIOS - COOPERATIVA DE TRABALHO MÉDICO : JOSÉ ESPEDITO ALVES E OUTRO(S) : ALLAN MARTINS CAVALCANTE : MIGUEL BARROS PASSOS E OUTRO(S) ASSUNTO: DIREITO DO CONSUMIDOR - Contratos de Consumo - Planos de Saúde CERTIDÃO Certifico que a egrégia TERCEIRA TURMA, ao apreciar o processo em epígrafe na sessão realizada nesta data, proferiu a seguinte decisão: A Terceira Turma, por unanimidade, deu parcial provimento ao recurso especial, nos termos do voto da Senhora Ministra Relatora. Os Srs. Ministros Sidnei Beneti, Paulo de Tarso Sanseverino e Ricardo Villas Bôas Cueva votaram com a Sra. Ministra Relatora. Ausente, justificadamente, o Sr. Ministro João Otávio de Noronha. Documento: 1229559 - Inteiro Teor do Acórdão - Site certificado - DJe: 02/05/2013 Página 6 de 6