GIOVANNI BOCCACIO O SONHO DE TALANO VERSÃO EM PORTUGUÊS DE PAULO SORIANO FREE BOOKS EDITORA CLÁSSICOS ESTRANGEIROS TERROR-HORROR-FANTASIA
Título: O SONHO DE TALANO Autor: Giovanni Boccaccio (1313 1375) Versão em português: Paulo Soriano Imagem da capa: Sandro Botticelli (1445 1510) Leiaute da capa: Canva Série: Clássicos Estrangeiros vol. 6 Editor: Free Books Editora Virtual. Site: www.freebookseditora.com Direitos da versão em português: Paulo Soriano. Todos os direitos reservados. Proibida a reprodução sem autorização prévia e expressa do editor. Ano: 2017 Sites recomendados: www.triumviratus.net, www.contosdeterror.com.br.
Sumário O SONHO DE TALANO SOBRE O AUTOR
O SONHO DE TALANO Não sei se vós, senhoras, conhecestes Talano de Molese, homem muito digno. Ele se casou com uma jovem chamada Margherita, a mais bela entre todas, mas, acima de tudo, tão caprichosa, incômoda e irascível que jamais fazia algo que agradasse a quem quer que seja, e ninguém conseguia fazer alguma coisa que lhe agradasse. Não tendo outra opção, Talano suportava este estado de coisas com grande dificuldade e com isto sofria. Ora, certa noite, estava Talano com Margherita numa propriedade rural de sua pertença. Tendo adormecido, teve a impressão de ver a sua mulher seguir por um belíssimo bosque que possuíam não muito longe de sua casa. E, enquanto a via a andar, julgou que, de um certo ponto do bosque, surgia um lobo grande e feroz, que avançava para a garganta de Margherita e a arrojava ao chão. Ela, gritando por socorro, tentava desvencilhar-se do lobo. E quando, finalmente, ela conseguiu escapar da goela da fera, Talano percebeu que a mulher tinha o rosto e a garganta dilacerados. Assim que acordou, Talano disse à mulher: Mulher, embora a tua índole irascível não permita que eu passe um único dia em paz contigo, muitíssimo sentiria se mal algum te acontecesse. Por isto, se dás algum crédito a meus conselhos: digo-te que não saias hoje de casa.tendo ela perguntado o motivo daquela advertência, ele contou à esposa detalhadamente o sonho que tivera. Quem nos quer mal, sonha más coisas conosco. Tu finges que te compadeces de mim, mas sonhas com o que gostarias que me acontecesse. Não há dúvida de que, hoje e sempre, estarei prevenida para que não me aconteça o que sonhaste, nem qualquer outro mal que me possa suceder. Disse então Talano: Eu estava certo de que tu assim me responderias, porque esta é a gratidão com a qual se compensa quem afaga gente geniosa. Mas, creias no que quiser, o que eu te digo é para o teu bem. Assim, eu te aconselho, novamente, a que permaneças em casa hoje, ou, ao menos, a que te guardes de ir ao nosso bosque. A mulher disse:
Está bem. Vistes como ele é malicioso, acreditando que me incutiu o medo de ir hoje ao bosque? Tenho a certeza de que marcou, lá, um encontro com alguma sirigaita e não quer que eu o veja lá. Oh, ele acha que sou cega, e parva eu seria se não o conhecesse e ainda acreditasse nele! Mas, com certeza, ele não conseguirá. Nem que eu tenha que passar o dia todo no bosque, hei de ver que tipo de negócio ele estará a ajustar hoje. Assim que disse isto, saiu o marido por um lado da casa e ela, furtiva, pelo outro, e, sem perda de tempo, seguiu para o bosque. E lá, na parte mais densa da vegetação, escondeu-se, prestando atenção e espreitando de um lado para o outro, para ver se aparecia alguém. E assim permanecia, sem preocupação alguma com os lobos, quando, de uma moita espessa, perto de onde estava, saiu um lobo enorme e terrível. Quando ela o viu, não pôde, sequer, dizer Senhor, ajuda-me!, pois o lobo já se lhe lançara à garganta e, agarrando-a com força, pusera-se a arrastá-la como se ela fosse um cordeirinho. Ela não conseguia gritar tão constrita que estava a sua garganta, nem se defender de qualquer maneira. O lobo, assim, a arrastava, e sem dúvida a teria estrangulado se a mulher não se deparasse com pastores que, gritando, obrigaram a fera a saltá-la. Ela, pobre coitada, reconhecida pelos pastores, foi levada para casa. Com grande esforço, foi tratada pelos médicos, mas toda a sua garganta e boa parte do rosto ficaram mutilados de tal maneira que ela, antes bela, tornou-se para sempre horrenda, desfigurada. Por isto, envergonhando-se de aparecer onde pudesse ser vista, muitas vezes miseravelmente lamentou-se da sua índole geniosa, e chorou, também, por não ter dado fé à veracidade do sonho do marido, algo que lhe não teria custado nada.
SOBRE O AUTOR Giovanni Boccaccio (1312 1373) é, juntamente com Dante e Petrarca, um dos pais da literatura em língua italiana. Apesar de poeta, a sua obra-prima foi escrita em prosa: o Decamerão. O conto que apresentamos ao leitor é um dos cem que compõem a obra (sétima novela da nona jornada).