Fortaleza de Fortaleza de São José da Ponta Grossa 52 ANO IX / Nº 16
PAULO ROBERTO RODRIGUES TEIXEIRA / ACERVO WWW.FORTALEZASMULTIMIDIA.COM.BR ANO IX / Nº 16 53
A construção austera e imponente, foi feita de alvenaria de pedra com argamassa e revestimento à base de cal. Apresentação N o século XVIII, a Ilha de Santa Catarina, situada no meio do caminho entre o extremo sul, sob o domínio espanhol, e o Rio de Janeiro, sede do Vice-Reino português, era uma área estratégica de grande importância, pois servia como base de apoio militar e logístico para as Coroas portuguesa e espanhola. Portugal, prevendo as intenções da Espanha, determinou a construção de diversas fortificações para barrar o acesso ao norte e ao sul da baía, na ilha e no continente. A Fortaleza de Ponta Grossa era uma delas. Juntamente com as Fortalezas de Anhatomirim e Ratones, formava o triângulo de segurança que barrava o acesso norte da baía, juntando-se a elas a Fortaleza de Araçatuba que fechava a entrada do sul da ilha. Com todo o sistema de defesa implantado, por mais eficientes que fossem, os espanhóis tomaram posse de todas essas fortalezas, sem entrar em combate. Um ano mais tarde, pelo Tratado de Santo Ildefonso, a Espanha devolvia a Portugal todas as fortalezas conquistadas. Apresentaremos em nossa reportagem as características da Fortaleza de Ponta Grossa, mos- 54 ANO IX / Nº 16
trando a riqueza arquitetônica renascentista do patrimônio histórico, como também os fatos históricos que se destacaram ao longo de todos esses anos. Veremos, também, o esforço do IPHAN e da UFSC para sua manutenção, contribuindo para que os visitantes guardem a beleza dessa grandiosa obra construída pelos portugueses. A Fortaleza Está localizada ao norte da Ilha de Santa Catarina, entre as Praias do Forte e de Jurerê, em Florianópolis, no Estado de Santa Catarina. A cons- trução austera e imponente caracteriza-se pela riqueza da sua arquitetura, apresentando traços de influência renascentista. É protegida por longas e robustas muralhas que abrigam, em seus vértices, estratégicas guaritas de vigilância que permitiam a observação dos navios inimigos a longa distância. Os seus edifícios são distribuídos por três terraplenos em cotas distintas, contidos pelas espessas muralhas, formando polígonos irregulares protegidos à retaguarda pela encosta do morro, com as baterias voltadas para o mar, interligadas por rampas de pedra apoiadas sobre Planta da Fortaleza de Ponta Grossa, de outoria do engenheiro militar José Custódio de Sá e Faria. ANO IX / Nº 16 55
A entrada da fortaleza e o primeiro terrapleno. No alto, vista geral. Em primeiro plano, rampa de pedra com acesso à Casa do Comandante. branco. Apenas as guaritas circulares, por serem postos de vigia, para que não se ressaltassem, mantinham-se sem a pintura. Entre os edifícios, o mais significativo é sem dúvida a casa do comandante, que era geminada com o paiol de pólvora, formando o único conjunto com dois pavimentos da fortaleza, o que se tornava uma fragilidade no sistema de defesa pelo risco de explosão, caso fosse atingido pelas granadas dos canhões inimigos. A portada de acesso possuía originalmente uma ponte levadiça e um frontão triangular, e o corredor de acesso era coberto por uma abóboda em alvenaria de tijolos. Ao longo desse corredor, localizavam-se o calabouço com porta e janela que, na época, eram gradeadas, e a casa da guarda, iluminada naturalmente por abertura em forma de seteiras. Essas construções apresentam o teto em forma de abóboda. Ainda no corredor de acesso estão os nichos nas paredes laterais, por onde corria uma segunda porta gradeada, utilizada para dificulo terreno. A sua construção foi feita em alvenaria de pedra com argamassa e revestimento à base de cal. As pedras foram extraídas da própria região de Ponta Grossa, com exceção do elemento de cantaria, encontrado no pórtico principal e na casa da guarda, e pedra de lioz, também conhecida como mármore português, existente nas soleiras da casa do comandante, no paiol de pólvora e em algumas bases para canhões. Originalmente, todas as alvenarias, incluindo as muralhas, eram rebocadas e pintadas de 56 ANO IX / Nº 16
tar o acesso ao interior da fortaleza em caso de ataque. Esse corredor, em forma de rampa, conduz ao primeiro terrapleno, onde estão as posições de tiro dos canhões, os vestígios da antiga casa da palamenta, onde eram guardados os acessórios dos canhões, e duas guaritas circulares sobre suas respectivas bases, em vértices opostos da muralha. As pedras de cantaria da soleira das portas dos edifícios e as bases de algumas plataformas dos canhões são talhadas em pedra de lioz. O abastecimento de água potável era garantido por uma fonte situada na posição externa às muralhas da fortaleza. No terrapleno intermediário, localizam-se a segunda ordem de bateria e o quartel da tropa, com piso em alvenaria de tijolos, com a cozinha e a casa da farinha anexas. História A Fortaleza de São José de Ponta Grossa foi projetada pelo engenheiro militar Brigadeiro José da Silva Paes, primeiro governador da Capitania de Santa Catarina (1739-45). Anteriormente, em 1635, no mesmo local, existia um entrincheiramento muito vulnerável. A sua construção teve início em 1740, sendo concluída quatro anos depois. Ocupava área estratégica, situada no alto do morro de Ponta Grossa, e representava, no século XVIII, o terceiro vértice de um sistema triangular de defesa, formado pela Fortaleza de Santa Cruz de Anhatomirim e pela Fortaleza de Bateria em posição de tiro para enfrentar o inimigo. ANO IX / Nº 16 57
1 2 Entrada da Casa da Guarda. Na foto ao lado, Casa do Comandante 1) Vista do Quartel da tropa. 2) Espaço interior mostrando as características da construção. Santo Antônio de Ratones. A missão era a de impedir as investidas estrangeiras, principalmente da Espanha, na barra norte da Ilha de Santa Catarina. O sistema defensivo inicial se completou com a construção da Fortaleza de Araçatuba, na barra da Baía Sul. Dessa forma, consolidava-se a ocupação do sul do Brasil-Colônia, servindo de base estratégica para a manutenção do domínio português sobre a Colônia do Sacramento e do Rio Grande de São Pedro, nos limites meridionais do Brasil. Em 1760, por determinação do Marquês de Pombal (1750-77), o Governador do Rio de Janeiro, Capitão-General Gomes Freire de Andrade, enviou o Engenheiro Militar Tenente-Coronel José Custódio de Sá e Faria, do Real Corpo de 58 ANO IX / Nº 16
3 4 Engenheiros, para fazer um levantamento das defesas da Ilha de Santa Catarina. São dessa época as primeiras iconografias dessa fortificação. Como nas demais fortalezas, também foram executados pequenos trabalhos de restauração. Para completar a defesa do seu flanco leste, pela Praia de Jurerê, distante cerca de 200 metros da fortaleza, foi levantada a partir de 1765 a Bateria de São Caetano, artilhada com seis canhões. No século XVIII a artilharia da fortaleza compunha-se de 31 peças, sendo cinco de bronze e 26 de ferro. No dia 23 de fevereiro de 1777, os espanhóis invadiram a Colônia. Uma frota de 117 embarcações, aproximadamente 670 canhões e um contingente de tropas de cerca de 12 mil homens Acima, entrada da Casa do Comandante. Ao lado, abertura em forma de seteira, na Casa da Guarda. 3) A Capela. 4) Espaço interno destinado a confecção de artefatos manuais. ANO IX / Nº 16 59
No primeiro terrapleno, o canhão colonial em posição. Na página ao lado, aspecto das edificações e a entrada da fortaleza. ancorou na Baía Norte da Ilha de Santa Catarina. Uma força de assalto desembarcou na Praia de Canavieiras, conquistando a Bateria de São Caetano, e, no prosseguimento das operações, a Fortaleza de São José de Ponta Grossa. Esta e os outros fortes somente foram devolvidos em 1778, com o Tratado de Santo Ildefonso, assinado ainda em 1777, pelo qual a Espanha cedeu a Portugal a Ilha de Santa Catarina, recebendo em troca a Colônia do Sacramento (hoje Colônia, no Uruguai) e parte do atual Rio Grande do Sul. No fim desse século, ocorreu a apropriação indevida de pedras, tijolos e outros materiais da fortaleza para a construção de moradias pela população local. Após esse episódio, o sistema de defesa entrou em descrédito e a fortaleza foi abandonada progressivamente. No século XIX, dispunha de 29 peças de artilharia, encontrando-se em ruínas já em 1863. Foi usada, mais tarde, para fins pacíficos, sendo o mais importante deles os serviços de saúde prestados à comunidade local. Acolheu doentes mentais em suas masmorras e, em épocas de epidemias, serviu como porta de isolamento para conter o avanço das doenças. Foi tombada pelo Serviço do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional (SPHAN), depois transformado em Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional (IPHAN), em 1938, época em que se encontrava completamente abandonada. A partir de 1976, por iniciativa do IPHAN, começaram a ser executadas intervenções de limpeza da vegetação e consolidação das ruínas com 60 ANO IX / Nº 16
vistas a trabalhos de restauro. Em 1977, foram realizadas obras de consolidação de urgência em alguns trechos das muralhas, na casa do comandante, na portada e ainda restauração parcial da capela. Foi cadastrada como sítio arqueológico no ano de 1987, passando a ser protegido por lei federal. O IPHAN/Fundação Pró-Memória realizou os primeiros trabalhos de prospecção arqueológica, que tiveram sequência em 1989-1990 com a equipe do Museu Universitário da Universidade Federal de Santa Catarina (UFSC). No período de 1991 e 1992, a UFSC e o IPHAN concluíram a restauração da fortaleza, no âmbito do Projeto Fortalezas da Ilha de Santa Catarina 250 Anos na História Brasileira, com recursos da Fundação Banco do Brasil. Encerramento Finalizamos a nossa reportagem afirmando que a construção da Fortaleza de Ponta Grossa, juntamente com as Fortalezas de Anhatomirim e de Ratones, tinha como objetivo principal da Coroa portuguesa a defesa da Baía de Santa Catarina, contra a ameaça da Coroa espanhola. A Ilha de Santa Catarina apresentava excelentes condições para ser transformada em base naval militar e logística e, consequentemente, era preciso urgência na execução dos projetos para a edificação dessas fortalezas. A sua construção, chefiada pelo Brigadeiro José da Silva Paes, ocorreu simultaneamente com as demais fortalezas, pela premência do tempo para concluir o sistema defensivo da área. A invasão da Espanha, ocorrida em 1777, foi um fato histórico marcante. As guarnições das fortalezas abandonaram suas posições e a ANO IX / Nº 16 61
Longas e robustas muralhas protegiam a fortaleza. Ao lado, guaritas estratégicas de vigília, de onde se podia avistar os navios inimigos de longe. esquadra lusa deslocou-se para o Rio de Janeiro. O invasor tomou posse das fortalezas sem nenhuma reação. Em 1778, pelo Tratado de Santo Ildefonso, Portugal recebeu de volta tudo o que havia sido conquistado pelos espanhóis. Foi usada mais tarde para fins pacíficos, destacando-se os serviços de saúde prestados à comunidade local. Tombada pelo SPHAN em 1938, somente em 1976 deu-se início aos trabalhos de limpeza e restauro. A Universidade Federal de Santa Catarina (UFSC), juntamente com o IPHAN, participou de exaustivo trabalho de restauração das suas instalações, apoiada pelos recursos financeiros do Banco do Brasil. Atualmente é administrada pela UFSC, que desenvolve o Projeto Fortalezas Multimídias, conduzindo todas as atividades de manutenção e aproveitamento da fortaleza. As suas instalações são usadas para a realização de exposições temporárias dos mais variados temas 62 ANO IX / Nº 16
FOTO: VICENZOBERTI.COM.BR / AGÊNCIA DE COMUNICAÇÃO DA UFSC FOTO: ROBERTO TONERA / ACERVO WWW.FORTALEZASMULTIMIDIA.COM.BR culturais, que são apresentadas periodicamente aos visitantes. Possuidora de invejável cenário arquitetônico e paisagístico, hoje a fortaleza encontra-se aberta à visitação pública todos os dias, onde os turistas se encantam com a beleza do patrimônio histórico, precioso legado deixado pelos nossos antepassados. PAULO ROBERTO RODRIGUES TEIXEIRA Coronel de Infantaria e Estado-Maior, é natural do Rio de Janeiro. Tem o curso de Estado-Maior e da Escola Superior de Guerra. Atualmente é assessor da FUNCEB e redator-chefe da revista DaCultura. ANO IX / Nº 16 63