Prof. Francisco Mariotti

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Transcrição:

1. Emenda Constitucional 95/2016 O novo Regime Fiscal da União A EC 95/2016 instituiu o chamado novo regime fiscal, segundo o qual as despesas públicas primárias poderão ter seu valor elevado no limite da variação da inflação oficial ocorrida no país, representada pelo Índice de Preços ao Consumidor Amplo IPCA. Segundo dispõe a norma constitucional, o cálculo de variação do índice se dará considerando o período de doze meses encerrado em junho do exercício anterior a que se refere a lei orçamentária. Apenas para considerar, é importante lembrar que que o envio do projeto da lei orçamentária anual PLOA é sempre realizado no segundo semestre de cada ano, com limite de 31 de agosto, ou seja, o prazo limite é sempre posterior ao período de apuração da inflação. NOVO REGIME FISCAL Limite de Variação positiva das Despesas Primárias ÍNDICE DE VARIAÇÃO Índice de Preços do Consumidor Amplo (IPCA), apurado para o período de doze meses encerrado em junho do exercício anterior a que se refere a lei orçamentária.

Vamos a um exemplo: Imaginemos que o total de despesas primárias do ano de 2016 tenha sido de R$ 1 trilhão de reais; Imaginemos ainda que o índice de inflação (IPCA) ocorrido no país nos últimos doze meses, para o período encerrado em junho do mesmo ano (2016) tenha sido de 5%. Neste caso o limite de gastos afetos às despesas primárias deverá ser R$ 1 trilhão + 5%, ou seja, R$ 1,05 trilhão, ou um trilhão e cinquenta bilhões de reais. O Novo Regime Fiscal no âmbito dos Orçamentos Fiscal e da Seguridade Social da União, que vigorará por vinte exercícios financeiros, ou seja, entre os anos de 2017 e 2036. Perceba que o novo regime é adstrito aos orçamentos Fiscal e da Seguridade Social, excluindo-se o orçamento de investimento em empresas estatais. Sendo assim, muito cuidado, viu?! O Novo Regime Fiscal exclui o orçamento de investimento das empresas em que a União, direta ou indiretamente, detenha a maioria do capital social com direito a voto.

1.1 Os limites individualizados De acordo com a norma constitucional ficam estabelecidos limites individualizados para as despesas primárias, assim divididos: i - do Poder Executivo; ii - do Senado Federal, da Câmara dos Deputados e do Tribunal de Contas da União, no âmbito do Poder Legislativo; iii - do Supremo Tribunal Federal, do Superior Tribunal de Justiça, do Conselho Nacional de Justiça, da Justiça do Trabalho, da Justiça Federal, da Justiça Militar da União, da Justiça Eleitoral e da Justiça do Distrito Federal e Territórios, no âmbito do Poder Judiciário; Público; e iv - do Ministério Público da União e do Conselho Nacional do Ministério v - da Defensoria Pública da União. Aqui deve ser feita mais uma chamada de atenção, ok? Enquanto na LRF existem limites individualizados de despesas para gastos com pessoal em percentual da Receita Corrente Líquida (RCL), não se incluindo (ainda) a Defensoria Pública da União, na Constituição passa a constar limites individualizados para as despesas primárias também da própria Defensoria Pública. Mas aí já vem uma dúvida que não quer calar?! Afinal, porque será que a Defensoria Pública entrou na EC 95/16? Ele entrou como decorrência da série de alterações promovidas pela Constituição Federal desde a EC 45/2004. O parágrafo 2º do art. 134 da Carta Magna destaca o seguinte:

Às Defensorias Públicas Estaduais são asseguradas autonomia funcional e administrativa e a iniciativa de sua proposta orçamentária dentro dos limites estabelecidos na lei de diretrizes orçamentárias e subordinação ao disposto no art. 99, 2º. (negrito nosso) Como resultado também da EC 95/16 alerto você quanto ao que vem por aí...logo logo devem ocorrer alterações na LRF, estipulando limite individualizado para as despesas de pessoal da Defensoria Pública da União (e dos demais entes estatais) frente à receita corrente líquida. Sendo assim, cuidado, ok? A EC 95/16 reforça que é vedada a abertura de crédito suplementar ou especial que amplie o montante total autorizado de despesa primária, destacando ainda que, dentre outras, estão excluídos da base de cálculo e nos limites individuais estabelecidos: I - as despesas decorrentes das transferências obrigatórias para os Fundos de Participação de Estados (FPE) e de Municípios (FPM); II - créditos extraordinários a que se refere o 3º do art. 167 da Constituição Federal; III - despesas não recorrentes da Justiça Eleitoral com a realização de eleições; e IV - despesas com aumento de capital de empresas estatais não dependentes. Perceba que o item IV reforça, em parte, o que tínhamos comentado antes, em que as despesas presentes no orçamento de investimentos em empresas estatais não entram na regra do limite de despesas primárias. Ainda como detalhes relevantes temos que para fins de verificação do cumprimento dos limites de despesa primária, serão consideradas aquelas pagas, incluídos os restos a pagar pagos e demais operações que afetam o resultado primário no exercício, ressaltando que o pagamento de restos a pagar inscritos até 31 de dezembro de 2015 poderá (e não deverá, ok?) ser excluído

da verificação do cumprimento dos limites definidos, até o excesso de resultado primário dos Orçamentos Fiscal e da Seguridade Social do exercício em relação à meta fixada na lei de diretrizes orçamentárias. 1.2 A revisão da Regra Segundo previsão disposta, agora, no art. 108 do Ato das Disposições Constitucionais Transitórias, o Presidente da República poderá propor, a partir do décimo exercício da vigência do Novo Regime Fiscal, projeto de lei complementar para alteração do método de correção dos limites, de modo que a restrição imposta ao crescimento das despesas primárias à inflação medida pelo IPCA possa sofrer alteração. A norma ainda restringe a alteração (após o prazo) a apenas uma vez durante o mandato do governante presidencial. Em resumo, pode-se dizer que criou-se assim uma flexibilização à regra, a qual não poderá ser aplicada a qualquer tempo, mas tão somente depois de decorrido um bom prazo de vigência da nova regra fiscal, e ainda com limite de alteração durante o mandato presidencial. 1.3 O descumprimento do limite estabelecido No caso de descumprimento do que passa a prever a Constituição implicará numa série de medidas, as quais reproduzimos do texto constitucional no box a seguir: I - concessão, a qualquer título, de vantagem, aumento, reajuste ou adequação de remuneração de membros de Poder ou de órgão, de servidores e empregados públicos e militares, exceto dos derivados de sentença judicial transitada em julgado ou de determinação legal decorrente de atos anteriores à entrada em vigor desta Emenda Constitucional; II - criação de cargo, emprego ou função que implique aumento de despesa; III - alteração de estrutura de carreira que implique aumento de despesa;

IV - admissão ou contratação de pessoal, a qualquer título, ressalvadas as reposições de cargos de chefia e de direção que não acarretem aumento de despesa e aquelas decorrentes de vacâncias de cargos efetivos ou vitalícios; V - realização de concurso público, exceto para as reposições de vacâncias previstas no inciso IV; VI - criação ou majoração de auxílios, vantagens, bônus, abonos, verbas de representação ou benefícios de qualquer natureza em favor de membros de Poder, do Ministério Público ou da Defensoria Pública e de servidores e empregados públicos e militares; VII - criação de despesa obrigatória; e VIII - adoção de medida que implique reajuste de despesa obrigatória acima da variação da inflação, observada a preservação do poder aquisitivo referida no inciso IV do caput do art. 7º da Constituição Federal. 1º As vedações previstas nos incisos I, III e VI do caput, quando descumprido qualquer dos limites individualizados dos órgãos elencados nos incisos II, III e IV do caput do art. 107 deste Ato das Disposições Constitucionais Transitórias, aplicam-se ao conjunto dos órgãos referidos em cada inciso. 2º Adicionalmente ao disposto no caput, no caso de descumprimento do limite de que trata o inciso I do caput do art. 107 deste Ato das Disposições Constitucionais Transitórias, ficam vedadas: I - a criação ou expansão de programas e linhas de financiamento, bem como a remissão, renegociação ou refinanciamento de dívidas que impliquem ampliação das despesas com subsídios e subvenções; e II - a concessão ou a ampliação de incentivo ou benefício de natureza tributária. 3º No caso de descumprimento de qualquer dos limites individualizados de que trata o caput do art. 107 deste Ato das Disposições Constitucionais Transitórias, fica vedada a concessão da revisão geral prevista no inciso X do caput do art. 37 da Constituição Federal. 4º As vedações previstas neste artigo aplicam-se também a proposições legislativas."

1.4 Gastos com Saúde e Educação A emenda constitucional 95/16 reforçou a definição dos montantes destinados à saúde e educação, em acordo com o previsto na Carta Magna. Assim sendo, na vigência do Novo Regime Fiscal, as aplicações mínimas em ações e serviços públicos de saúde e em manutenção e desenvolvimento do ensino equivalerão ao seguinte: i- no exercício de 2017, às aplicações mínimas calculadas nos termos do inciso I do 2º do art. 198 e do caput do art. 212, da Constituição Federal; artigos que tratam, especificamente, dos montantes de recursos, enquadrados como despesas primárias, destinados à saúde e educação; e II - nos exercícios posteriores, aos valores calculados para as aplicações mínimas do exercício imediatamente anterior, corrigidos pela inflação medida pelo IPCA, para doze meses, encerrado em junho do exercício anterior. 1.5 O Orçamento Impositivo e o Novo Regime Fiscal No sentido de salvaguardar seus interesses, mesmo com a aprovação do novo regime fiscal, deputados e senadores fizeram valer sua força, incluindo na EC 95/16 o disposto no art. 111 dos Atos Constitucionais Transitórios. Neste sentido, os valores relativos às aplicações obrigatórias a serem realizadas pela União, em respeito às emendas individuais dos congressistas, serão também reajustadas pelo IPCA ocorrido nos últimos doze meses, encerrado em junho do exercício anterior. Estas são as alterações trazidas pelo novo modelo de gestão fiscal no país, o qual promete ser um verdadeiro freio às gastanças além da capacidade de obtenção de recursos públicos junto a uma sociedade já bastante cansada da ineficiência governamental. Que seja esta medida o condão para mudança na forma de gestão dos recursos públicos!

Um grande abraço, Mariotti