RECOMENDAÇÃO MINISTERIAL Nº 002/2015



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Transcrição:

Procedimento administrativo nº 201400036940 RECOMENDAÇÃO MINISTERIAL Nº 002/2015 Objeto: Dispõe sobre o dever de atuação de diversas autoridades públicas, durante a Romaria Nossa Senhora d'abadia do Muquém 2015, no que concerne à fiscalização da proibição de venda e entrega de bebidas alcoólicas e outras substâncias que causam dependência química a crianças e adolescentes. O MINISTÉRIO PÚBLICO DO ESTADO DE GOIÁS, por meio do Promotor de Justiça que esta subscreve, no uso de suas atribuições legais e institucionais, com fulcro nos arts. 127, caput, e 129, inc. II, da Constituição Federal; art. 201, incs. VI e VIII, da Lei nº 8.069/90 (Estatuto da Criança e do Adolescente); art. 26, inc. VII, da Lei nº 8.625/93 (Lei Orgânica Nacional do MP); art. 47, inc. VII, da LCE nº 25/98 (Lei Orgânica Estadual do MP); art. 53 da Resolução do Colégio de Procuradores de Justiça/CPJ nº 11/2014 e CONSIDERANDO que chegou ao conhecimento deste órgão ministerial, por meio de denúncias registradas no Portal Disque 100, da Secretaria de Direitos Humanos da Presidência da República, bem como de relatórios oriundos do Conselho Tutelar e diversos termos de declarações colhidos nesta Promotoria de Justiça, que crianças e adolescentes fazem uso indevido e indiscriminado de bebidas alcoólicas nas ruas, praças, bares e festas nas cidades de Niquelândia/GO e Colinas do Sul/GO, sem qualquer ação dos órgãos públicos de fiscalização; CONSIDERANDO que compete ao Ministério Público instaurar sindicâncias, requisitar diligências investigatórias e determinar a instauração de inquérito policial, para apuração de ilícitos ou infrações às normas de proteção à 1

infância e à juventude, nos termos do art. 201, inc. VII, do Estatuto da Criança e do Adolescente; CONSIDERANDO que também compete ao Ministério Público zelar pelo efetivo respeito aos direitos e garantias legais assegurados às crianças e adolescentes, promovendo as medidas judiciais e extrajudiciais cabíveis, nos termos do art. 201, inc. VIII, do Estatuto da Criança e do Adolescente; CONSIDERANDO que a Constituição Federa, em seu art. 227, caput, e os arts. 4º e 5º da Lei nº 8.069/90 determinam ser dever da família, da comunidade, da sociedade em geral e do poder público assegurar o direito à dignidade e ao respeito de toda criança e adolescente, colocando-os a salvo de qualquer forma de negligência, discriminação, exploração, violência, crueldade e opressão; CONSIDERANDO que é proibida a venda de bebidas alcoólicas a crianças e adolescentes, nos termos do art. 81, inciso II, do Estatuto da Criança e do Adolescente, sendo que a inobservância de tal proibição constitui infração administrativa prevista no art. 258-C do mesmo diploma legal, sujeitando o infrator à multa e interdição do estabelecimento comercial; CONSIDERANDO que a conduta de vender, fornecer, servir, ministrar ou entregar, ainda que gratuitamente, de qualquer forma, a criança ou a adolescente, bebida alcoólica constitui o crime previsto no art. 243 do Estatuto da Criança e do Adolescente, punido com detenção de 02 (dois) a 04 (quatro) anos e multa; CONSIDERANDO a proximidade da Romaria Nossa Senhora d'abadia do Muquém 2015, evento de grande mobilização popular a realizarse nesta cidade entre os dias 05 e 15 de agosto, sendo de conhecimento público e notório que, durante esse período, ocorre significativa elevação do consumo indevido de bebidas alcoólicas e outras substâncias que causam dependência química por crianças e adolescentes; RECOMENDA: 2

1) ao COMANDANTE DO 14º BATALHÃO DA POLÍCIA MILITAR que, no período acima indicado, intensifique o policiamento ostensivo, promovendo diligências no âmbito deste município para coibir a venda ou entrega gratuita de bebidas alcoólicas a crianças e adolescentes, bem como de outros produtos que possam causar dependências químicas, tomando as providências necessárias no âmbito de suas atribuições, dentre elas: a) orientar os policiais militares em serviço a efetuarem a prisão em flagrante do(s) comerciante(s) e/ou da(s) pessoa(s) que venderem ou promoverem a entrega de bebida alcoólica a crianças e adolescentes, lavrando o correspondente boletim de ocorrência e encaminhando-o(s) para a Delegacia de Polícia para formalização do flagrante; b) ao constatarem a presença de criança ou adolescente ingerindo bebida alcoólica, deverão os policiais militares encaminhá-los, diretamente ou por intermédio do Conselho Tutelar, aos pais ou responsáveis, mediante termo de responsabilidade, advertindo-os das consequências da conduta ilegal; 2) aos DELEGADOS DE POLÍCIA CIVIL, na hipótese de ser o comerciante ou pessoa imputável flagrado vendendo ou entregando a qualquer título bebida alcoólica a criança ou adolescente, autuar a prisão em flagrante e instaurar inquérito policial, arbitrando desde já a fiança, se for o caso, e encaminhando os autos ao Poder Judiciário tal como estabelecido pelo Código de Processo Penal, remetendo cópias do boletim de ocorrência militar e do correspondente inquérito policial ao Conselho Tutelar e à Prefeitura, para que tomem as medidas cabíveis no que tange às sanções administrativas; 3) aos MEMBROS DO CONSELHO TUTELAR DE NIQUELÂNDIA que acompanhem as diligências, aplicando as medidas necessárias à salvaguarda dos direitos das crianças e adolescentes envolvidos, devendo, dentre outras incumbências: a) oferecer todo o suporte necessário aos agentes responsáveis pela fiscalização dos locais, especialmente quanto à eventual necessidade de encaminhamentos de crianças e adolescentes aos pais e responsáveis, bem como atentem aos casos existentes em seus procedimentos de acompanhamento que 3

indiquem essa situação, aplicando, nos casos em que se fizer necessária, a medida protetiva prevista no art. 101, inc. VI, do ECA; b) representar o(s) comerciante(s) e/ou da(s) pessoa(s) que venderem ou promoverem a entrega de bebida alcoólica a crianças e adolescentes, nos casos que tiver conhecimento, promovendo a deflagração de procedimento para imposição de penalidade pela prática da infração administrativa prevista no art. 258-C do ECA, nos termos do art. 194 e seguintes do referido estatuto; 4) ao PREFEITO MUNICIPAL DE NIQUELÂNDIA, que, no uso do poder de polícia municipal, incremente a fiscalização, pelos órgãos públicos competentes, para coibir a venda de bebidas alcoólicas e outras substâncias que causem dependência química a crianças e adolescentes, promovendo as seguintes medidas: a) divulgação, no prazo de 05 (cinco) dias, de campanha de conscientização, com apoio do Conselho Municipal dos Direitos da Criança e do Adolescente CMDCA, por intermédio de cartazes, faixas e panfletos, acerca da proibição de venda, entrega ou fornecimento de bebidas alcoólicas a crianças e adolescentes, advertindo a população das consequências da não observância da referida vedação legal, bem como promovendo a afixação, em todos os estabelecimentos comerciais e em diversos locais de grande concentração de pessoas, de cartaz contendo a advertência de que a venda e o fornecimento de bebida alcoólica e qualquer outra substância que cause dependência química constitui crime, sujeitando o infrator à pena de detenção de 02 (dois) a 04 (quatro) anos e multa (art. 243 do ECA), além de constituir infração administrativa (art. 258-C, do ECA); b) na hipótese de constatação de venda de bebidas alcoólicas e outras substâncias que causem dependência química a crianças e adolescentes, efetue a lavratura dos respectivos autos de infração, determinando as providências necessárias à remoção e fechamento dos estabelecimentos; c) fiscalizar e adotar todas as medidas necessárias para assegurar, nos espaços públicos e privados, a capacidade máxima de lotação. 4

Cientifiquem-se pessoalmente as autoridades mencionadas nos itens 1, 2, 3 e 4, encaminhando-lhes cópia da presente recomendação, solicitando-lhes, ainda, a remessa a esta Promotoria de Justiça, até o último dia útil do mês em curso, de relatório circunstanciado contendo o resultado das diligências empreendidas em razão da presente recomendação. O Ministério Público de Goiás, por intermédio da 1ª Promotoria de Justiça de Niquelândia/GO, acompanhará o cumprimento das disposições acima estipuladas e adotará as medidas cabíveis em caso de violação ao objeto da presente Recomendação, ressaltando que a omissão injustificada quanto às providências acima consignadas poderá ensejar responsabilização nas searas administrativa, cível e criminal. Encaminhe-se cópia da presente recomendação ao Centro de Apoio Operacional da Criança e do Adolescente CAOINFÂNCIA, para conhecimento de sua Coordenadora. Niquelândia, 04 de agosto de 2015. AUGUSTO CÉSAR BORGES SOUZA 5