3. Filtragem e Distorção de Sinal

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Transcrição:

3. Filtragem e Distorção de Sinal Este capítulo pretende dar exemplos de distorções de sinal provocadas por sistemas lineares. Vão ser vistos exemplos de distorções de amplitude e de fase, para se ter uma percepção melhor dos efeitos que eles têm nas formas de onda do sinal. Este capítulo deve ser lido depois de se ter estudado o capítulo 3 do livro recomendado Filtering and Signal Distortion. 3.1. Condições para transmissão sem distorção Já foram estudadas as condições que os sistemas devem ter para permitir uma transmissão sem distorção. O espectro desses sistemas deve ser do género mostrado na figura 3.1. H(f) K β(f) f f declive = -2πt 0 (a) (b) Figura 3.1. Resposta em frequência para uma transmissão sem distorção. (a) resposta de amplitude (b) resposta de fase. Uma dúvida que fica é saber qual a razão porque é que a resposta de fase deve ser uma recta que passa pela origem e tem um certo declive, e não uma translação de fase constante? Foi estudado que o efeito da fase no sinal era provocar um atraso constante, e portanto, o espectro deveria, à primeira vista, ser uma recta constante (como a do espectro de amplitude). Isto é, qual a diferença entre um atraso constante, e uma translação constante de fase? A figura 3.2. mostra os espectros de fase de um atraso constante (igual à da figura 3.1.) e de uma translação constante de fase. Para responder a esta dúvida vamos ver exemplos concretos de um efeito e de outro. Antes, porém, não nos devemos esquecer que a derivada da fase é a frequência, e a derivada da recta da parte (b) da figura 3.1. é uma constante (uma recta horizontal, portanto). Pode ser que as condições estudadas para uma transmissão sem distorção até possam estar certas β(f) β(f) f declive = -2πt 0 -L f (a) Figura 3.2. Resposta de fase para (a) um atraso constante, t 0 (b) resposta de fase. (b) A forma de onda que vai servir de exemplo é um trem de pulsos, que vai ser aproximado pelas primeiras vinte e seis primeiras harmónicas. Assim, vai-se admitir que o sistema, qualquer que seja o Introdução às Telecomunicações 1 Paulo da Fonseca Pinto

efeito que faça até à vigésima sexta harmónica, corta todas as harmónicas a partir daí. Como vimos no capítulo 2, Análise de Fourier, as vinte e seis harmónicas já dão uma forma de onda muito parecida com o sinal original, pelo que não vamos ter problemas. A figura 3.3. volta a mostrar o sinal original e a sua aproximação com vinte e seis harmónicas. Figura 3.3. harmónica. 3.2. Atraso Constante Vamos, então, ver nesta Secção o efeito de um atraso constante. O espectro de fase do filtro por onde vamos passar o nosso sinal vai ter um espectro de fase como o da parte (b) da figura 3.1. No que respeita ao espectro de amplitude, o ganho é unitário até à vigésima sexta harmónica. A figura 3.4. mostra o efeito. É importante realçar que este efeito é considerado como sendo sem distorção. Na vida real existem sempre atrasos nos sistemas. Uma estação de rádio emite o seu sinal, por exemplo a indicação das horas antes dos noticiários, e o sinal demora um certo tempo entre a antena e os nossos receptores no carro ou em casa. É um facto da vida e nada se pode fazer contra isso. Uma transmissão televisiva em directo demora um certo tempo também. Uma corrida de fórmula 1 na Austrália que comece às 13 horas é vista na Europa alguns momentos depois (centésimas de segundo, ou mesmo segundos). O receptor nunca vê a forma de onda dos pulsos, mas só a outra forma de onda atrasada, mas isso não tem qualquer importância. Ele vai-se sincronizar com ela e para o receptor é como se não existisse atraso. Só vimos que existe mesmo atraso no estudo teórico em que temos uma visão omnipotente da realidade vendo as coisas no emissor e no receptor ao mesmo tempo. Figura 3.4. harmónica sofrendo um atraso constante. Introdução às Telecomunicações 2 Paulo da Fonseca Pinto

3.3. Translação Constante de Fase Vamos agora ver qual seria o efeito de uma translação constante de fase. Isto é, o espectro de fase seria do género da parte (b) da figura 3.2. A figura 3.5. mostra três situações, a primeira com um valor muito pequeno para a recta, a segunda com um valor um pouco maior e a terceira com um valor ainda superior. Como se vê, uma translação constante de fase provoca mesmo muita distorção. Figura 3.5. harmónica sofrendo uma translação constante de fase. 3.4. A Maratona das Frequências O último conjunto de distorções aborda o que acontece em duas situações: Introdução às Telecomunicações 3 Paulo da Fonseca Pinto

na primeira a resposta em amplitude do filtro não é sempre uma recta. Nas frequências da segunda à sexta harmónicas (inclusive) o filtro tem um ganho de 0,9. Portanto, a amplitude dessas frequências é atenuada de 10%. Nas outras o ganho é unitário. O espectro de fase é sempre zero; na segunda, existe um atraso de fase constante também nas frequências da segunda à sexta harmónica, e o espectro de amplitude é sempre constante com ganho unitário. Escolheram-se as frequências da segunda à sexta pois elas ainda têm energia suficiente para se poder ver bem os efeitos da distorção. Em frequências mais elevadas o efeito seria menos visível. Este tipo de distorções é muito difícil de prever, ou descrever, no tempo, mas bastante fácil de descrever na frequência. Para isso imagine-se uma corrida de fundo de atletismo a maratona das frequências. Na primeira maratona vão correr vinte e seis corredores com os números nas camisolas de 1 a 26 (as nossas harmónicas). Os corredores começam a correr mas no meio da corrida existe alguém com um martelo que bate nas cabeças dos corredores com os números 2 a 6 fazendo com que eles fiquem mais pequenos 10%. Todos chegam à meta ao mesmo tempo (a fase é zero), mas os coitados dos cinco corredores que levaram a pancada chegaram mais pequenos. A figura 3.6. mostra duas situações. Na primeira houve uma atenuação de 10% e na segunda uma atenuação de 40%. Como se vê, é fácil descrever o efeito na frequência, mas muito difícil de inferir os efeitos no tempo. Figura 3.6. harmónica sofrendo uma atenuação de amplitude da 2ª à 6ª harmónica. A atenuação foi de 10% no primeiro caso e de 40% no segundo caso. Na segunda corrida a organização é mais complicada. Imagine que se está a correr por equipas vinte e seis equipas. No tempo t 0 saem os primeiros vinte e seis corredores. No tempo t 1, logo a seguir, saem outros vinte e seis corredores. Em t 2 saem outros vinte e seis, e assim por diante. O que acontece agora na corrida é que os corredores que saíram na primeira partida com os números 2 a 6 chegam ao mesmo tempo que os outros com os números 1 e 7 a 26 que saíram muito mais tarde. O efeito repete- Introdução às Telecomunicações 4 Paulo da Fonseca Pinto

se para os corredores 2 a 6 que saíram na segunda partida, na terceira, etc. A figura 3.7. mostra o efeito de dois atrasos de fase nas harmónicas 2 a 6. O primeiro mais ligeiro e o segundo mais pronunciado. Figura 3.7. harmónica sofrendo um atraso de fase da 2ª à 6ª harmónica. No próximo conjunto de figuras, em vez de um atraso da segunda à sexta harmónica houve uma translação constante de fase. Este efeito já é mais difícil de descrever na nossa analogia da maratona de frequências. A figura 3.8. mostra três valores de translação, o primeiro menor e o último maior. É muito difícil tirar conclusões sobre os efeitos destes tipos de distorções num sinal no tempo. A conclusão que fica é que sempre que possível se devem evitar usando as técnicas de equalização estudadas, e que efeitos na fase são tão, ou mais, importantes do que os efeitos na amplitude. Introdução às Telecomunicações 5 Paulo da Fonseca Pinto

Figura 3.8. harmónica sofrendo translações constantes de fase da 2ª à 6ª harmónica. 3.5. Transmissão Binária por um Canal Quando se transmite informação em forma binária por um canal, enviam-se sequências de pulsos representativos dos símbolos 0 e 1. No caso de dados (um ficheiro) os símbolos representam a informação dos caracteres, ou figuras, constantes no conteúdo dos dados. No caso de voz, ou de imagem, representam a codificação dos intervalos, por exemplo. Assim, nunca se sabe, ao certo, qual a forma de onda que vai ser transmitida. Um modo de se estudar o fenómeno é considerar sempre o pior caso. Ora o pior caso é quando se transmite a sequência 01010101 etc., pois ela, normalmente, contém componentes de mais alta frequência do que uma sequência toda a zeros ou a uns (o outro caso extremo). A sequência de figuras seguinte mostra o efeito que um canal produz ao cortar as harmónicas de ordem elevada, até deixar passar simplesmente a frequência fundamental. Figura 3.9. harmónicas superiores à décima quinta. Introdução às Telecomunicações 6 Paulo da Fonseca Pinto

Figura 3.10. harmónicas superiores à décima. Figura 3.11. harmónicas superiores à quinta. Figura 3.12. harmónicas superiores à quarta. Introdução às Telecomunicações 7 Paulo da Fonseca Pinto

Figura 3.13. harmónicas superiores à terceira. Figura 3.14. harmónicas superiores à segunda. Figura 3.15. harmónicas superiores à primeira. Como se pode ver, neste caso se o canal deixar passar duas harmónicas, o receptor consegue ainda detectar se o que recebeu foi um pulso ou não. O caso de uma só harmónica parece também possível, mas temos de ter em consideração o caracter periódico desta onda em especial. Seria bom ver o que acontece com outro caracter binário (por exemplo, o b em ASCII que é 0110 0010). Nas aulas de laboratório far-se-ão experiências deste género. Introdução às Telecomunicações 8 Paulo da Fonseca Pinto

Num primeiro pensamento, nós seríamos levados a escolher canais que deixassem passar, por exemplo, 26 harmónicas, pois o sinal no receptor seria muito parecido com o do emissor. No entanto, pensemos em termos económicos. Por um lado, um cabo de telecomunicações tem uma capacidade de 0 até W Hz, custa um certo preço e tem de ser enterrado no chão. Custou X Euros a cavar a vala e a enterrá-lo. Por outro lado, basta ao receptor saber se o emissor transmitiu um pulso ou não. A forma do pulso de chegada, desde que dê para ver se é um pulso ou não, pouco importa. Ora se conseguirmos colocar N chamadas nesse cabo em que cada uma usa apenas a frequência necessária para o receptor poder receber sem erros (por exemplo até à segunda harmónica), colocamos muito mais chamadas no cabo do que se cada chamada usasse frequências até à 26ª harmónica. A operadora de telecomunicações ganhará muito mais dinheiro do investimento do cabo e de o enterrar no chão e para nós é igual pois conseguimos comunicar bem dos dois modos. Já que se está em considerações económicas poderá ficar uma pergunta no ar. O uso de pulsos rectangulares para o símbolo 1 e a ausência de pulsos para o símbolo zero usa uma certa quantidade de frequências e podemos colocar as tais N chamadas no cabo, até W Hz.... E se inventássemos outra forma de pulsos que, para cada pulso, usasse menos frequência do que o pulso rectangular? Se o novo pulso usasse metade da frequência, poderíamos colocar o dobro das chamadas naquele cabo. É um bom negócio para que uma operadora de telecomunicações desse um incentivo para pagar a quem perceba de Análise de Fourier para chegar a uma resposta... Introdução às Telecomunicações 9 Paulo da Fonseca Pinto