Sujeito do desejo, sujeito do gozo e falasser



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Transcrição:

Sujeito do desejo, sujeito do gozo e falasser Luis Francisco Espíndola Camargo 1 lfe.camargo@gmail.com Resumo: A noção de sujeito do desejo não inclui a substância gozante. Na clínica, tal característica encontra um limite: não permite pensar a inclusão da substância gozante no conceito de sujeito. Ao pensar a possibilidade de uma relação entre saber e gozo, Lacan introduz a noção de falasser, termo que condensa o sujeito do significante com a substância gozante, e inclui na noção de sujeito o corpo. Palavras chave: Sujeito; significante; desejo; gozo; falasser. Abstract: The notion of the subject of desire doesn t include the jouissance substance. In the clinic this characteristic is limited: it doesn t allow the person think about the inclusion of this substance in the concept of the subject. Wondering about the possibility of a relation between knowing and jouissance, Lacan introduces the notion of parlêtre, this term joins the subject of significant with the jouissance substance, and includes in this notion of subject the body. Keywords: Subject; significant; desire; jouissance; parlêtre. Esse trabalho tem como objetivo apontar uma relação entre as noções de sujeito do desejo, sujeito do gozo e falasser 2. A disjunção exclusiva entre a noção de sujeito do gozo e a de sujeito do desejo é inclusiva no conceito de falasser. A noção de sujeito do desejo não é equivalente a de sujeito do significante. O sujeito do desejo implica uma pequena mudança em relação à de sujeito do significante, apesar da primeira incluir a segunda. O sujeito do significante aparece como efeito de sentido, se inclui na própria definição de significante e se caracteriza por representar um sujeito para outro significante. Por conseguinte, pode-se afirmar que o sujeito é efeito da relação significante. Em 1973, no Seminário, livro 20: mais, ainda, Lacan retoma o sujeito como uma hipótese, que se confirma na relação entre os significantes: O sujeito não é jamais senão Opção Lacaniana OnLine 1 Sujeito do desejo...

pontual e evanescente, pois ele só é sujeito por um significante, e para outro significante 3. Essa é a uma noção básica de sujeito do significante, da qual podemos introduzir a noção de sujeito do desejo. É provável que um dos problemas de Lacan ao longo do Seminário 20 consiste em introduzir, na noção de significante, a substância gozante. No início do ensino de Lacan, especificamente em O desejo e sua interpretação (1958-1959), o sujeito do desejo enfrenta o objeto e coloca profundamente a questão sobre sua relação com o objeto. A questão do sujeito constitui a especificidade da relação do sujeito do significante com o desejo do Outro. Em outras palavras, o sujeito do desejo é aquele que questiona os efeitos do significante, localiza-se como sujeito barrado de gozo, e sujeito diante da impossibilidade de uma última significação. Nesse ponto do ensino de Lacan, o sujeito do desejo se encontra numa posição radical ao nível da privação do objeto, já que há uma confluência entre o objeto a e o falo. Por conseguinte, o sujeito é um objeto negativo (-φ), é falta-a-ser. A noção de sujeito do desejo irá caracterizar-se por oposição à noção de sujeito do gozo. Por um lado, há o sujeito do desejo, aquele que se localiza diante do objeto como faltaa-ser, ou seja, por relação ao objeto a como objeto perdido. Por outro, tem-se o sujeito do gozo totalmente alienado na sua relação com o objeto a. Isto é, na noção de sujeito do gozo é o objeto quem comanda a relação. A diferença irremediável entre esses dois sujeitos é retomada por Lacan, em O Seminário 16: de um Outro ao outro (1968-1969), em um ponto de inscrição original: a relação do sujeito com o objeto a 4. Essa relação é caracterizada como modo de gozo. A clínica das perversões é um exemplo preciso para entendermos o conceito de modo de gozo, já que o perverso é aquele que exige, necessariamente, uma condição para gozar. Na perversão há uma justa medida que regula a relação com o Opção Lacaniana OnLine 2 Sujeito do desejo...

objeto. Já na neurose, a orientação se constitui por meio do que não pode: pela lógica da lei do desejo que se estrutura na castração. A lei não regula o todo, ela interdita apenas uma parte. Por outro lado, a lógica modal, a do perverso, implica a justa medida. Ela é determinante do modo como única condição. Se a lei determina o que não pode, o modo determina o que só pode como condição de gozo. Nesse sentido, Lacan caracteriza o perverso como um defensor de uma lei intransigente, obstinada e inflexível. Na perversão, o desejo se dá como aquilo que serve de lei, isto é, como uma subversão da lei, como suporte de uma lei. A vontade de gozo no perverso é uma vontade fracassada ao se deparar com seu próprio limite. Não é por acaso que o ensino sobre as perversões também atravessa O Seminário, livro 10: a angústia (1962-1963). O perverso é aquele que insiste na tentativa frustrada de fazer existir o sujeito do gozo, e a angústia é um sinal da busca desse gozo. No Seminário 10, Lacan localiza a angústia como um sinal do real, como sinal representativo de um x do sujeito primitivo que segue em direção ao seu advento como sujeito. Esse sujeito primitivo só é possível denominá-lo nesse nível mítico, anterior à divisão subjetiva, como sujeito do gozo. No entanto, nos alerta Lacan 5, não podemos de modo algum isolá-lo como sujeito a não ser miticamente. Para entendermos melhor a diferença entre essas noções, podemos relacionar a noção de sujeito do significante com a de sujeito do desejo e sujeito do gozo. O sujeito do desejo se apresenta quando o sujeito do significante passa a se relacionar com uma falta de saber. Em outras palavras, com um pequeno furo na sua regularidade. Já em relação ao sujeito do gozo a relação é com uma significação a mais. O sujeito do desejo se encontra na relação com a uma falta de sentido, enquanto o sujeito do gozo se encontra na relação com o sentido, que não deixa nada de fora, com o um a mais. Opção Lacaniana OnLine 3 Sujeito do desejo...

Poderíamos tomar a psicose como paradigma do sujeito do gozo? Parece não ser tão simples. Apesar de, na psicose, o delírio comportar a busca de um sentido a mais, ainda assim se pode colher um índice sobre a impossibilidade de atingir um sentido integral. Um índice dessa impossibilidade é representado, nos casos de psicose, por uma radical proliferação de significantes. O delírio se caracteriza pelo deslizamento de sentido a um ponto em que a proliferação resulta na desamarração do código. É justamente esse um dos dramas do psicótico: a busca pelo um a mais de sentido faz o significante não ter a mínima relação com o significado. A tese de Lacan de que o conhecimento científico se estrutura como a paranóia pode ser entendida como a relação da ciência mantida com o a mais de sentido. No entanto, ter o psicótico como paradigma do sujeito do gozo implica, necessariamente, a impossibilidade de pensar a existência do sujeito na psicose. Isso se apresenta como um problema não resolvido no par de opostos sujeito do desejo e sujeito do gozo. A meu ver, o problema da disjunção exclusiva, que consiste na proposição de negação entre sujeito e gozo, é formulado no Seminário 20 com a introdução da substância gozante na noção de significante, e resolvido com o advento do termo falasser. A disjunção entre sujeito do desejo e sujeito do gozo é representada pela polaridade na fórmula da fantasia. A fantasia supõe a distinção radical entre a ordem do significante e a ordem do gozo. Deste modo, a fantasia tem uma função de mediação entre essas duas ordens. A fantasia é o numa certa relação de oposição com a, cuja polivalência é suficientemente definida pelo caráter composto do losango, que tanto é disjunção,, quanto conjunção, 6. a (conjunção sujeito do gozo) a (disjunção sujeito do desejo) No Seminário 20, Lacan exprime claramente a insuficiência na noção de sujeito para dar conta dessa dupla relação Opção Lacaniana OnLine 4 Sujeito do desejo...

disjuntiva e conjuntiva entre saber e gozo. Lacan afirma que não se pode definir o significante sem o gozo, e que não se pode definir o gozo sem o significante. Portanto, traz uma nova definição de significante que se refere ao corpo. Essa referência se faz sob a modalidade do sintoma. O sintoma inclui o desejo e o gozo. Trata-se de restabelecer, a partir do Seminário 20, uma noção que não separe o sujeito da substância gozante. Há um real no sintoma que deve ser incluído no seu conceito. A noção de sujeito do desejo não comportaria o gozo irredutível a essa noção de sujeito do significante. Segundo Miller 7, trata-se de outra concepção de significante, não apenas como aquilo que mortifica o corpo, que libera do corpo o mais-de-gozar, mas que determina o regime de gozo do ser falante. O gozo já não é apenas gozo do corpo, mas também gozo da linguagem, na medida em que o sujeito tem um corpo. Essa perspectiva comporta colocar em questão o próprio termo sujeito, porque o sujeito é sempre um elemento mortificado; aliás, Lacan o definiu como faltaa-ser, e é por isso que ele faz entrar o corpo vivo na psicanálise. Ele substitui o termo sujeito por falasser, que é o contrário de falta-a-ser, é o sujeito mais o corpo, é o sujeito mais a substância gozante 8. Essa nova noção de significante é exaustivamente explorada por Lacan no Seminário 20. No entanto, a noção falasser só aparecerá posteriormente, em RSI, nos anos de 1974 e 1975. Ao realizar-se uma leitura passo-a-passo do Seminário 20, pode-se perceber na aula inaugural a apresentação do problema relativo ao gozo, ao gozo fálico, e sua relação com o ser. O que diz respeito ao ser, ao ser que se colocaria como absoluto, não é jamais senão a fratura, a rachadura, a interrupção da fórmula ser sexuado, no que o ser sexuado está interessado no gozo 9. Opção Lacaniana OnLine 5 Sujeito do desejo...

Na segunda aula, A Jakobson, Lacan apontará justamente uma nova noção de significante que inclui a substância gozante. Para tanto, Lacan necessitará falar de seus antecedentes, Jakobson e Saussure. Afirma que no fato de o inconsciente ser estruturado como uma linguagem já não se trata do campo da lingüística. Isso implica uma ruptura de Lacan com a noção de significante da lingüística estrutural, haja vista que nesse campo o significante exclui o real. É a crítica de Lacan a Saussure do Curso de Lingüística Geral, pois o mesmo funda a lingüística no campo da ciência excluindo, necessariamente, o real. Para introduzir o real no significante Lacan remonta uma tradição estóica que reflete Santo Agostinho, em que o significante deve ser estruturado em termos topológicos: [...] o significante é primeiro aquilo que tem efeito de significado, e importa não elidir que, entre dois, há algo de barrado a atravessar 10. Mas o que se trata de atravessar? Trata-se de um atravessamento para fora da linguagem. Lacan nos traz uma noção sobre o real que se encontra já no início do seu ensino, mais precisamente em O Seminário sobre A carta roubada (1955): o real é o serial. Trata-se de um atravessamento, uma extração do real que só se obtém depois de um longo tempo de extração para fora da linguagem. Em seguida, introduz uma noção de substância em psicanálise oriunda da noção de significante como aquilo que inaugura a dimensão do simbólico. A frase gozar de um corpo articula-se ao corpo que o Outro simboliza, e que põe em função outra forma de substância, a substância gozante. Como sublinha Sade, só se pode gozar de uma parte do corpo do Outro, pelo fato de que nunca se viu um corpo enrolar-se completamente, incluí-lo e fagocitá-lo em torno do corpo do Outro. Por isso essa relação é estreita, goza-se de um pé, de um cabelo, de um pênis, de uma boca, de uma parte do corpo. Portanto, eis a nova noção de significante no Seminário 20: Opção Lacaniana OnLine 6 Sujeito do desejo...

Direi que o significante se situa no nível da sustância gozante. [...] O significante é causa do gozo. Sem o significante, como mesmo abordar aquela parte do corpo. [...] Irei agora direto à causa final, final em todos os sentidos do termo. Nisso que ele é termo, o significante é aquilo que faz alto ao gozo 11. Ao final desse seminário, na aula intitulada por Miller como Rodinhas de barbante, Lacan retoma o problema do ser e do gozo. Afirmará que o osso do seu ensino é que ele fala sem saber, porque não fala somente com o seu ser, mas também com o seu corpo, e, portanto, diz sempre mais do que sabe. Essa discordância do saber e do ser, é isto que constitui nosso tema. O que impede que também possamos dizer que ela não há, a discordância, quanto ao que conduz o jogo, segundo meu título deste ano, mais, ainda 12. Minha hipótese é que no Seminário 20 Lacan apresenta o problema da disjunção exclusiva entre as noções abandonadas de sujeito do desejo (do lado do saber) e de sujeito do gozo (do lado do real). Trata-se de criar uma disjunção inclusiva entre os esses dois termos, saber e gozo. Portanto, o falasser será a noção que condensará o sujeito do significante com a substância gozante. O falasser é o termo que inclui, na noção de sujeito, o corpo, suporte do ser, suporte por um saber que se encontra no real e que está ao lado do S 1, para fora da linguagem. 1 Luis Francisco Espíndola Camargo é Correspondente da Seção Santa Catarina da Escola Brasileira de Psicanálise (EBP). Este trabalho foi apresentado em dez. 2007, durante a II Jornadas de Cartéis da Seção Santa Catarina da Escola Brasileira de Psicanálise (em formação). 2 Laia, S. (2007, agosto). Notas suplementares à tradução brasileira do Seminário 23 de Lacan (O Sinthoma). In Opção Lacaniana - Revista Brasileira Internacional de Psicanálise, (49). São Paulo: Editora Eolia, pp. 92-113. 3 Lacan, J. (1985[1972-1973]). O Seminário, livro 20: mais, ainda. Rio de Janeiro: Jorge Zahar, p. 195. 4 Idem. (2006[1968-1969]). Le Séminaire, livre XVI : d un Autre à l autre. Paris: Éditions du Seuil, p. 141. 5 Idem. (2005[1962-1963]). O Seminário, livro 10: a angústia. Rio de Janeiro: Jorge Zahar, p. 192. 6 Idem. Ibidem. Opção Lacaniana OnLine 7 Sujeito do desejo...

7 Miller, J-A. (1998). O osso de uma análise. In Agente Revista de Psicanálise. Bahia: Publicação da Escola Brasileira de Psicanálise, p.101. 8 Idem. Ibidem. 9 Lacan, J. (1985[1972-1973]). O Seminário, livro 20: mais, ainda. Op. cit., p. 20. 10 Idem. Ibidem, p. 29. 11 Idem. Ibidem. 12 Idem. Ibidem, p. 63. Opção Lacaniana OnLine 8 Sujeito do desejo...