NOÇÕES DE DIREITO CONSTITUCIONAL E ADMINISTRATIVO I. Constituição Federal... 002 II. Dos Direitos e Garantias Fundamentais... 009 III. Da Organização Político-Administrativa... 053 IV. Organização dos Poderes... 063 1. Poder Legislativo... 063 2. Poder Executivo... 083 3. Poder Judiciário... 085 4. Funções Essenciais à Justiça... 103 V. Agentes Públicos... 107 VI. Poderes Administrativos... 119 VII. Licitação... 127 VIII. Controle e Responsabilização da Administração... 136 1
NOÇÕES DE DIREITO CONSTITUCIONAL E ADMINISTRATIVO (...) PODER JUDICIÁRIO E FUNÇÕES ESSENCIAIS À JUSTIÇA O Poder Judiciário, organizado pela Constituição nos arts. 92 a 126, é aquele que tem como função precípua a jurisdicional, que se consubstancia na aplicação da lei (normal geral e abstrata) a um caso concreto, resultando na composição de um conflito de interesses. É possível afirmar, pois, que o Poder Judiciário tem como função principal impor a validade do ordenamento jurídico, de forma coativa, quando houver necessidade. Atualmente, vê-se crescer a importância do Judiciário no Estado de Direito. Isso porque a doutrina verificou que este poder não somente aplica a lei previamente elaborada pelo Legislativo, mas vai além, constituindo, na verdade, conforme Alexandre de Moraes, o verdadeiro guardião da Constituição, com a finalidade de preservar basicamente os princípios da legalidade e da igualdade. Nas palavras do constitucionalista referido:...é preciso um órgão independente e imparcial para zelar pela observância da Constituição e garantidor da ordem na estrutura governamental, mantendo em seus papéis tanto o Poder Federal como as autoridades dos Estados Federados, além de consagrar a regra de que a Constituição limita os poderes dos órgãos da soberania. A função jurisdicional e, por consequência, o próprio Poder Judiciário apresentam características peculiares. A primeira delas é que a jurisdição somente é prestada quando provocada, ou seja, o Poder Judiciário, na sua função precípua de julgar, fica inerte até que seja provocado pelo exercício do direito de ação. Outra característica é que a jurisdição deve ser prestada com total observâncias dos preceitos constitucionais que asseguram o devido processo legal (que garanta, entre outros aspectos, a igualdade, o contraditório, a ampla defesa, etc.). Por fim, vale destacar que a decisão judicial produz, via de regra, efeitos somente para aqueles que participaram da relação processual, não fazendo coisa julgada a terceiros. 2
1. GARANTIAS CONSTITUCIONAIS DO PODER JUDICIÁRIO A posição do Poder Judiciário, como guardião das liberdades e direitos individuais, somente pode ser preservada através de sua independência e imparcialidade. Essas garantias, indispensáveis ao correto funcionamento desse importante Poder do Estado, podem ser divididas em garantias institucionais, que protegem o Judiciário como um todo, e em garantias funcionais, as quais promovem a independência e a imparcialidade dos magistrados. Garantias Institucionais - no que se refere à independência do Poder e de seus órgãos, a principal garantia que a Constituição assegura é a de autogoverno, que se realiza através do exercício de atividades normativas e administrativas de auto-organização e autoregulamentação. As competências organizacionais do art. 96 representam a consolidação da garantia de autogoverno do Judiciário, permitindo que a sua organização interna seja determinada sem a interferência de outro Poder, órgão ou autoridade. Assim, compete aos tribunais: A garantia de autogoverno foi ampliada pela Constituição de 1988, passando a compreender, também, a autonomia financeira consistente na prerrogativa de elaboração da proposta orçamentária, nos termos do art. 99 do texto constitucional. 3
Garantias funcionais as garantias políticas do Poder Judiciário são complementadas por garantias próprias dos magistrados, as quais asseguram sua independência, inclusive perante outros órgãos, e sua imparcialidade. As garantias de independência são a vitaliciedade, a inamovibilidade e a irredutibilidade de vencimentos, de acordo com o art. 95 da CRFB/88: Art. 95 Os juízes gozam das seguintes garantias: O termo juízes está empregado em sentido amplo, abrangendo juízes de 1º grau (monocráticos), bem como os membros de Tribunais de 2º grau (desembargadores) e de Tribunais Superiores. I vitaliciedade, que, no primeiro grau, só será adquirida após dois anos de exercício, dependendo, a perda do cargo, nesse período, de deliberação do tribunal a que o juiz estiver vinculado, e, nos demais casos, de sentença judicial transitada em julgado; A vitaliciedade consiste em não poder o magistrado perder o cargo, senão por sentença judicial transitada em julgado. A vitaliciedade dos magistrados difere, pois, da estabilidade dos demais servidores públicos, visto que estes podem perder o cargo por sentença judicial ou por procedimento administrativo. No primeiro grau os juízes adquirem vitaliciedade após dois anos de efetivo exercício da magistratura, ou seja, após o estágio probatório. Durante esse período, poderão perder o cargo antes de adquirir a vitaliciedade inclusive por decisão administrativa do Tribunal a que o juiz estiver vinculado. Uma vez adquirida a vitaliciedade (após os dois anos do estágio probatório), a perda do cargo depende de sentença judicial. Nos Tribunais os juízes adquirem a vitaliciedade no ato da posse, mesmo que advindos da advocacia pelo quinto constitucional. II inamovibilidade, salvo por motivo de interesse público, na forma do art. 93, VIII; A garantia da inamovibilidade veda a remoção de um juiz de um lugar para outro, sem o seu consentimento. Abrange o grau, a sede, a comarca, a seção judiciária, o cargo, o tribunal e a câmara. Por isso, o magistrado não poderá sequer ser promovido contra a sua vontade, podendo dispensá-la. 4
Excepciona-se a regra da inamovibilidade em caso de interesse público, hipótese que depende de dois terços do Tribunal a que estiver vinculado o magistrado, assegurada a ampla defesa (art. 93, VIII). III irredutibilidade de subsídio, ressalvado o disposto nos arts. 37, X e XI, 39 4º, 150, II, 153, III, e 153, 2º, I. Os subsídios dos juízes são irredutíveis, o que não impede a incidência de tributos e do teto constitucional de remuneração. Impede-se a redução como forma de evitar uma possível forma de pressão, garantindo-se aos magistrados o livre exercício de suas atribuições. Tais garantias não podem ser confundidas com privilégios dos magistrados, já que constituem meio de assegurar o livre desempenho da magistratura, revelando a autonomia e a independência do Poder Judiciário. Ao contrário de privilégios, são na verdade prerrogativas imprescindíveis ao exercício da democracia, à perpetuidade da separação e poderes e ao respeito aos direitos fundamentais. Além das garantias de independência, a Constituição Federal previu uma série de impedimentos aos juízes, no intuito de assegurar a imparcialidade. As garantias de imparcialidade são essenciais ao exercício da jurisdição, e estão dispostas no parágrafo único do art. 95: Art. 95, parágrafo único da CF/88 Aos juízes é vedado: I exercer, ainda que em disponibilidade, outro cargo ou função, salvo uma de magistério; II receber, a qualquer título ou pretexto, custas ou participação em processo; III dedicar-se à atividade político-partidária; IV receber, a qualquer título ou pretexto, auxílios ou contribuições de pessoas físicas, entidades públicas ou privadas, ressalvadas a s exceções previstas em lei; (Acrescentado pela EC nº 45/2004) V exercer a advocacia no juízo ou tribunal do qual se afastou, antes de decorridos três anos do afastamento do cargo por aposentadoria ou exoneração (Acrescentado pela EC nº 45/2004). Como afirma Alexandre de Moraes, o texto constitucional, ao proibir o exercício de atividade político-partidária aos magistrados, pretende assegurar a necessária isenção de ânimos ao Poder Judiciário para decidir as relevantes questões envolvendo os negócios políticos do Estado, evitando favorecimentos ou perseguições em razão de coloração partidária. 5