Multifocalidade e Estereopsia

Documentos relacionados
com ACTIVEFOCUS Muito mais do que uma simples visão para longe 1,2

Avaliação da sensibilidade ao contraste e da estereopsia em pacientes com lente intra-ocular multifocal

Lente intra-ocular multifocal difrativa apodizada: resultados

A previsibilidade biométrica nas lentes intra-oculares multifocais

Qualidade de vida de pacientes pseudofácicos submetidos à cirurgia de catarata com implante de lente intra-ocular acomodativa

Lente intraocular multifocal refrativa: a performance visual e qualidade de vida em implantes bilaterais versus unilaterais

Desempenho visual dos pacientes pseudofácicos com diferentes lentes intraoculares

Desempenho visual após implante de uma lente intraocular asférica multifocal difrativa

Exotropia Intermitente: Do sucesso cirúrgico à necessidade de reintervenção a longo prazo

Função visual e envelhecimento: Reflexões a propósito de um estudo exploratório em idosos do Concelho de Loures

Acuidade visual em implantes bilaterais de lentes intra-oculares monofocais e multifocais

Avaliação da qualidade de vida em pacientes submetidos à cirurgia de catarata, com implantes de lentes monofocais bifocais e multifocais

Função visual de crianças pseudofácicas por catarata infantil

Formação para Agentes de Desporto Novembro de Ilda Maria Poças

Currículo Profissional

Altura, Espaço Confinado e Máquinas Pesadas. Dr. Ricardo Z. Leyendecker

envelhecimento envelhecimento cirurgia cirurgia

Efeitos secundários da utilização de lentes oftálmicas e problemas de adaptação

Oftalmologia Vol. 41: pp RESUMO

Comparison between OPD-Scan results and visual outcomes of Tecnis ZM900 and ReSTOR SN60D3 diffractive multifocal intraocular lenses

Wavefront analysis and contrast sensitivity comparison between spheric and aspheric intraocular lenses RESUMO

Avaliação da Função Visual após Implante de Lentes Intraoculares Multifocais 15 a 30 Meses de Follow-Up

ARTIGO ORIGINAL / ORIGINAL ARTICLE

TEMA: Cirurgia de catarata em paciente de dois anos com catarata congênita

Avaliação do desempenho visual da lente intraocular difrativa multifocal - Zeiss AT Lisa 809 M TM

FOTOGRAMETRIA. Universidade do Minho/ Escola de Engenharia/ Departamento de Engenharia Civil/Topografia/Elisabete Freitas 1

Caracterização visual numa amostra infantil em idade pré-escolar e escolar - o estado da arte num rastreio

Resultados do implante bilateral de lente intra-ocular multifocal SA-40N no Hospital de Olhos de Minas Gerais

A neutralização do astigmatismo corneano durante a cirurgia da catarata por meio de lente intraocular tórica: resultados

Disciplina: Aerofotogrametria e Tratamento de imagem

RELATO DO CASO HMPA, feminino, 49 anos, feminino, leucoderma, profissão do lar, natural e procedente de Uberlândia. Paciente submetida a EECC em olho

Perto Intermediário Longe

Igor Renato Soares da Costa. (Versão Após Defesa) Dissertação para obtenção do Grau de Mestre em Medicina (ciclo de estudos integrado)

Óptica. Aula 6 - Lentes e Instrumentos Ópticos.

RELATOS DE CASOS RESUMO INTRODUÇÃO

Faculdade de Ciências da Universidade de Lisboa Departamento de Física. Electromagnetismo e Óptica. Objectivo

Prefácio Boa leitura!

Sistema Óptico do Olho

Óptica aplicada à melhoria da qualidade de visão em cirurgia refrativa

Troca do cristalino com finalidade refrativa (TCR)

Comparação de acuidade visual final: cirurgias de catarata com intercorrências versus sem intercorrências

Faculdade de Ciências e Tecnologias da Universidade de Coimbra. Departamento de Física. Estudo de Lentes. Mestrado Integrado em Engenharia Física

UNIVERSIDADE ESTADUAL PAULISTA JÚLIO DE MESQUITA FILHO FACULDADE DE MEDICINA

Percepção do espaço. S. Mogo 2017 / 18. Departamento de Física Universidade da Beira Interior. Percepção visual. S. Mogo FTM FSC

psicologia da percepção visual 1º Ano, Design de Comunicação 1º Ano, Imagem Animada

Fatores modificadores da qualidade de vida em pacientes submetidos à cirurgia de catarata no sistema público de saúde

Atrabeculoplastia laser é uma forma terapêutica. A Repetição da Trabeculoplastia Laser Selectiva 1 ano de follow-up. Introdução

Óptica Geométrica. S. Mogo 2018 / 19

psicologia da percepção visual

Principais ametropias. Miopia. Anomalia: olho mais alongado forma imagem antes da retina. embaçada. divergentes

Precisão ecobiométrica da fórmula SRK/T na facoemulsificação

Abordagem da Catarata Congênita: análise de série de casos

Elementos de Óptica ÓPTICA GEOMÉTRICA. Um feixe luminoso como um conjunto de raios perpendiculares à frente de onda.

Trabalho Prático nº 5

Cálculo nos olhos extremos Filomena Ribeiro. Apart from! the very short! and long eyes,! I have no! biometry problems!

Reliability of predictable postoperative visual acuity of cataracts as measured by Heine Lambda 100 retinometer preoperatively

Óptica Visual Séries de Exercícios 2018/2019

Excelentes imagens estéreo e de cor corrigida, iluminação brilhante e eficiências operacionais superiores para as sofisticadas cirurgias atuais.

A Saúde da Visão no idoso institucionalizado: Identificação de necessidades em saúde pública

LENTES SABINO. Prof. Sabino

Lentes asféricas: avaliação da indicação clínica e das opções de lentes

Comissão de Ensino Conselho Brasileiro de Oftalmologia. Currículo Mínimo de Catarata e Implantes Intraoculares

Aberrometria na cirurgia de catarata

O Traçado de Raios. Filomena Ribeiro

APRESENTAÇÃO. A Clínica de Olhos Dr. Paulo Ferrara foi fundada no ano de 2006 no Complexo Médico

19/Dez/2012 Aula Sistemas ópticos e formação de imagens 23.1 Combinação de lentes 23.2 Correcção ocular 23.3 Microscópio 23.

Estudo comparativo das complicações maculares, após facoemulsificação com implante de lente intraocular, entre doentes normais e diabéticos

KAROLINNE MAIA ROCHA ABERRAÇÕES ÓPTICAS EM OLHOS PSEUDOFÁCICOS E COM CATARATA

Sistema Óptico do Olho

Tabelas para medir acuidade visual com escala logarítmica: porque usar e como construir

MAURO CORRÊA DE ALBUQUERQUE 1,4 ; FRANASSIS BARBOSA DE OLIVEIRA 2,4 ; ALANA PARREIRA COSTA 3,4. GOIÂNIA, UEG.

LENTES ESFÉRICAS. Chama-se lente esférica a associação de dois dioptros: um necessariamente esférico e outro plano ou esférico.

Técnica de crushing na remoção de material cortico-nuclear com vitréctomo 23 G. A nossa experiência

Desenho de Elementos Ópticos Guia dos trabalhos práticos 2010/2011. Docente responsável: Sandra Mogo

DR. RENAN FERREIRA OLIVEIRA CRM RQE 15524

Biomicroscopia ultra-sônica na avaliação da posição das lentes intra-oculares em uma técnica de fixação escleral

Assinale a alternativa que preenche corretamente as lacunas dos enunciados a seguir, na ordem em que aparecem.

GUIA ESSENCIAL PARA COMPREENDER A CATARATA

Transcrição:

Oftalmologia - Vol. 34: pp. 465-470 Multifocalidade e Estereopsia João Paulo Cunha 1, Joana Ferreira 2 1 Assistente Hospitalar Graduado 2 Interna do Internato Complementar Serviço de Oftalmologia do Centro Hospitalar de Lisboa Central joaopaulobrancocunha@gmail.com RESUMO Introdução: A visão binocular proporciona uma interpretação única e tridimensional do mundo. Objectivo: Comparar a estereopsia dos doentes com de lentes intra-oculares (LIO) multifocais implantadas. Métodos: Os autores realizaram um estudo transversal com 40 doentes, que tinham sido submetidos a facoemulsificação com implante de LIO multifocal bilateralmente (26 Restor, 6 Tecnis Multifocal e 8 Mix & Match ). Estudaram a estereopsia de longe com o Vectograph e utilizaram o Titmus Stereo Test para perto, nos 3 grupos. Resultados: No grupo 1 (Restor bilateral: idade média 63,38 anos; 4 doentes do sexo masculino e 22 do feminino) obtivemos 80 a 90% de boa estereopsia; no grupo 2 (Tecnis Multifocal bilateral: idade média 73,67 anos; 6 doentes do sexo feminino) registou-se 100% de boa estereopsia e no grupo 3 ( Mix & Match : idade média 74,25 anos; 2 doentes do sexo masculino e 6 do feminino) obteve-se 50 a 75% de boa estereopsia. Conclusões: Os doentes com lentes intra-oculares multifocais similares implantadas bilateralmente obtiveram melhor estereopsia para perto e para longe. Palavras chave: Lente intra-ocular, multifocal, facoemulsificação, estereopsia, Mix & Match. ABSTRACT Introduction: Binocular vision provides a unique and three-dimensional interpretation of the world. Purpose: To compare the stereopsis in patients with multifocal intraocular lens (IOL) implanted. Design: Transversal, nonrandomized, clinical trial. Methods: The authours made a transversal study with forty patients with previous phacoemulsification and bilateral implantation of a multifocal intraocular lens (IOL) in the Centre Hospitalar of Lisbon Central. This 40 patients were divided in three groups (26 ReSTOR +4; 6 Tecnis Multifocal e 8 Mix & Match ). Parameters analyzed included far and near uncorrected visual acuity, near stereopsis (Titmus test) and far stereopsis (Vectograph). Results: In group 1 (bilateral ReSTOR: mean age 63,38 years; 4 male and 22 female) we had 80 to 90% of good stereopsis; in group 2 (bilateral Multifocal Tecnis: mean age 73,67 years; 6 female patients) were registered 100% of good stereopsis and in group 3 (Mix & Match: mean age of 74,25 years; 2 male and 6 female) we had 50 to 75% of good stereopsis. Conclusions: Patients with similar multifocal intraocular lens implanted in both eyes have better stereopsis for near and far vision. Palavras-chave: Lente intra-ocular; Multifocal; Facoemulsificação; Estereopsia; «Mix Match». Key words: Intraocular lens; Mulfifocal; Phacoemulsification; Stereopsis; «Mix & Match». VOL. 34, JULHO - SETEMBRO, 2010 465

João Paulo Cunha, Joana Ferreira Introdução As lentes intra-oculares (LIO) multifocais surgiram da necessidade de satisfazer de forma mais ampla as necessidades visuais dos doentes pseudofáquicos. Existem várias opções de lentes multifocais difractivas e refractivas com características diferentes, mas com um objectivo em comum a maior independência de óculos para a realização das tarefas visuais diárias de cada indivíduo. Inicialmente, as lentes difractivas caracterizavam-se pela boa função visual para perto e para longe e as lentes refractivas pela boa função visual para longe e para distância intermédia. Destes dados, resultaria, pelo menos teoricamente, que a implantação bilateral de lentes semelhantes não satisfaria a plena visão ( full vision ) para todas as distâncias (perto, intermédio e longe). Surgiu então a hipótese de misturar ( MIX ) os dois tipos de lente no mesmo doente, num olho uma lente refractiva e no outro uma lente difractiva, para alcançar as necessidades visuais individuais ( MATCH ). A satisfação subjectiva dos doentes nem sempre corresponde aos resultados objectivos, mas a estereopsia pode ser quantificada e assim fornecer informação objectiva sobre a qualidade da função visual binocular desses doentes. O nosso estudo pretende avaliar a estereopsia para perto e para longe em doentes com LIO multifocais implantadas e comparar os resultados entre Mix & Macth e a implantação bilateral de LIO semelhantes. População e Métodos Os autores realizaram um estudo transversal, em que avaliaram a visão estereoscópica para perto e para longe em 40 doentes com LIO multifocais implantadas, dividindo-os em 3 grupos: um grupo com lentes difractivas apodizadas (ReSTOR +4.0) implantadas bilateralmente, grupo 1; outro grupo com lentes difractivas (Tecnis Multifical ) implantadas bilateralmente, grupo 2; e um terceiro grupo com Mix & Match (um olho com uma LIO refractiva e o outro com uma LIO difractiva), grupo 3. Os critérios de inclusão foram: pós- -operatório superior a 1 ano, acuidade visual sem correcção para longe igual ou superior a 8/10, avaliada através da escala de Snellen, acuidade visual para perto maior ou igual que Jaeger (J) 2, diferença de acuidade visual entre os dois olhos inferior ou igual a 1/10, equivalente esférico inferior a 0,75 dioptrias (D) e ausência de descentramentos das LIOs. Para o estudo da estereopsia para perto utilizámos o Titmus Stereo Test (Stereo Optical Co.), composto por um livro de duas faces, com figuras projectadas em duplicidade e com uma disparidade horizontal entre si. Com o uso de óculos polarizados e o livro posicionado entre 30 e 40 cm dos olhos, cada doente indicou as figuras que observou em relevo. Essa percepção em relevo mede a disparidade das imagens em segundos de arco ( ). Os resultados deste teste podem variar entre 3000 e 40 e quanto menor for o valor numérico em segundos de arco, maior é a acuidade estereoscópica (Fig. 1). Para o estudo da estereopsia para longe utilizámos o projector vectográfico 9400 em que 2 imagens diferentes mas complementares são observadas através de óculos polarizados a 6 metros e em que o indivíduo observa uma imagem única, coerente e tridimensional se tiver estereoacuidade (Fig. 1). Ambos os testes foram realizados sem o emprego de qualquer tipo de correcção óptica dado que a implantação de LIOs multifocais tem como objectivo a independência de óculos para longe e para perto. Para a análise estatística foi utilizado o software GraphPad Prism e para comparação do grupo Mix & Match (grupo 3) com o grupo com implante de LIOs multifocais semelhantes (Grupo 1 e 2), foi utilizado um teste não paramétrico Mann Whitney test. Todos os dados foram relatados como média ± desvio padrão (SD) assim como de forma percentual. O valor de p <0,05 foi considerado estatisticamente significativo. 466 OFTALMOLOGIA

Multifocalidade e Estereopsia Fig. 1 Titmus Stereo Test (estereopsia de perto), slide para projector vectográfico 9400. Resultados O grupo 1 era composto por 26 doentes nos quais foi implantada bilateralmente LIO Restor +4. A idade média destes 26 doentes (4 doentes do sexo masculino e 22 do sexo feminino) foi de 63,38 ± 13,2 anos. Os resultados da estereopsia para perto foram de 40 em 14 doentes (54%), 100 em 8 doentes (31%) e nos restantes 4 de 400 (15%). Deste grupo apenas 2 doentes não tiveram percepção de relevo para longe (8%) (Fig. 2). em todos os 6 doentes (100%) e a estereopsia para longe foi positiva em 4 doentes (67%). Em relação ao grupo 3, composto por 8 doentes (2 do sexo masculino e 6 do sexo feminino) foi verificada estereopsia para perto de 40 em 4 doentes (50%), 100 em 2 doentes (25%) e 400 nos restantes 2 doentes. Quanto à estereopsia para longe neste grupo foi negativa em 2 dos doentes (25%). A média da estereopsia para perto no grupo com LIOs semelhantes (grupo 1 + 2) foi de 100, enquanto no grupo 3 ( Mix & Match ) foi de 145. Esta diferença não foi estatisticamente significativa (p > 0,05) (Fig. 2). Contudo, em relação à estereopsia para longe, a diferença verificada entre os 2 grupos de doentes (grupo com LIOs semelhantes versus grupo Mix & Match ) foi estatisticamente significativa (p < 0,05) (Fig. 3). Fig. 3 Estereopsia para longe nos 2 grupos de doentes (Mix & Match grupo 3 e LIOs bilateralmente semelhantes grupo 1 e 2). Estereopsia para longe positiva a 6 metros foi considerada pelo valor de 1, negativa pelo valor de 0 e positiva a 3 metros pelo valor de 0,5. Discussão Fig. 2 Estereopsia para perto nos 2 grupos de doentes (Mix & Match grupo 3 e LIOs bilateralmente semelhantes grupo 1 e 2). No grupo 2 que incluiu 6 doentes do sexo feminino, cuja idade média foi de 73,67 ± 8,5 anos, obtivemos 40 na estereopsia para perto A imagem que se projecta nas retinas é bidimensional, mas observamos um mundo tridimensional, uma sensação específica, única, inexplicável para os seres unioculares. Estereopsia define-se como a percepção directa do relevo, isto é, da profundidade relativa dos objectos entre eles, graças à diferença de estímulos recebidos pelos dois olhos. Para a atingirmos é necessária a disparidade geométrica entre as duas imagens retinianas obtidas pelo afastamento dos dois olhos. A menor dife- VOL. 34, JULHO - SETEMBRO, 2010 467

João Paulo Cunha, Joana Ferreira rença perceptível de disparidade define o limiar estereoscópico. A acuidade estereoscópica é definida como o inverso do limiar e é inversamente proporcional ao afastamento pupilar e à distância de fixação. Diminui também do centro para a periferia do campo visual e em ambientes com menor luminosidade 1. Se a disparidade no eixo horizontal não for superior a 2 graus (0,6 mm na retina) a estereopsia será possível, se a disparidade horizontal for superior a 2 graus ou tiver um componente vertical de vários minutos de arco será percebida como diplopia. Este resultado experimental constituiu o princípio da estereopsia, enunciado pela primeira vez, em 1838, por Sir Charles Wheatstone, o inventor do estereoscópio. Wheatstone explicou que Leonardo da Vinci só não conseguiu inventar o estereoscópio porque escolheu a esfera como objecto de estudo ironicamente o único cuja forma permanece igual em todas as direcções visuais 2. A estereopsia tem várias particularidades, entre elas: o imediatismo que emerge directamente dos estereogramas de pontos aleatórios de Julesz, em que se percebe a forma a partir do reconhecimento da profundidade; a globalidade do processo em que os pontos não são reconhecidos individualmente em relevo, mas sob a forma de um conjunto individual; a cooperatividade em que se regista equilíbrio entre a inibição e a facilitação e a independência da visão cromática (o sistema estereoscópico é acromata) 3. A visão binocular é muito mais do que uma simples simultaneidade, permite uma cooperação funcional entre os dois olhos originando um resultado bem mais vantajoso do que a simples adição dos estímulos monoculares e constitui uma percepção nova, original, cujo resultado mais notável é a visão estereoscópica. Vários estudos mostraram que a aniseiconia prejudicava a visão binocular e a estereopsia 4, 5. Outros autores concluíram que as lentes multifocais proporcionavam melhor qualidade de vida que as LIO monofocais sem perda de estereopsia 6-14. No entanto, cada uma destas publicações apenas se refere a um tipo de LIO multifocal e não avaliam os resultados da visão binocular nos casos de Mix & Match nem os comparam com casos de implantação semelhante bilateral. Em algumas situações de Mix & Match, os pontos retinianos correspondentes, possivelmente, não registam estímulos visuais absolutamente sobreponíveis, mas suficientemente semelhantes em tamanho, forma, luminosidade e cor, de forma a serem percebidos como um objecto visual único, enquanto noutras, a disparidade dos estímulos visuais de cada olho pode originar rivalidade binocular, em vez de correspondência ou fusão binocular. Os resultados obtidos podem encontrar justificação nos factos acima descritos e também na reduzida dimensão da amostra de Mix & Match da nossa série. Tal como Lisa B. Arbisser, cremos que os olhos procuram harmonia, razão pela qual não propomos Mix & Match como uma boa solução para os nossos doentes 15. No entanto, os resultados subjectivos dependem, não só, de uma boa visão binocular, como também, de factores de difícil avaliação como o comportamento e a atenção visual dos doentes com LIO implantadas e se existe ou não a chamada neuroadaptação ou plasticidade cerebral 16-17. Os resultados objectivos do nosso estudo mostraram que os doentes com lentes intra- -oculares multifocais semelhantes implantadas bilateralmente obtiveram melhor estereopsia para perto e para longe, esta última com significância estatística. Bibliografia 1. PATTERSON R, MARTIN WL: Human stereopsis, Hum Factors. 1992; 34(6):669-92 2. HUBEL D.: The corpus callosum and stereopsis in Eye, brain and vision. WH Freeman and Company, New York, 1998 3. JULESZ B.: Foundations of cyclopean perception. University of Chicago Press. Chicago, 1971 4. KATSUMI O, MIYAJIMA H, OGAWA T, HIROSE T.: Aniseikonia and stereoacuity in pseudophakic patients, Ophthalmology. 1992; 99:1270-7 468 OFTALMOLOGIA

Multifocalidade e Estereopsia 15. HÄRING G, GRONEMEYER A, HEDDERICH J, DECKER W.: Stereoacuity and aniseikonia after unilateral and bilateral implantation of the Array refractive multifocal intraocular lens, J Cataract Refract Surg. 1999;25:1151-6 16. JAVITT J, BRAUWEILER H-P, JACOBI KW, et al.: Cataract extraction with multifocal intraocular lens implantation: clinical, functional, and quality of- life outcomes; multicenter clinical trial in Germany and Austria, J Cataract Refract Surg. 2000; 26:1356-1366 17. CHIAM PJT, CHAN JH, AGGARWAL RK, KASABY S.: ReSTOR intraocular lens implantation in cataract surgery: Quality of vision, J Cataract Refract Surg. 2006; 32: 1459-1463 18. SHOJI N, SHIMIZU K.: Binocular function of the patient with the refractive multifocal intraocular lens, J Cataract Refract Surg. 2002; 28:1012-1017 19. HAYASHI K, HAYASHI H.: Stereopsis in bilaterally pseudophakic patients, JCataract Refract Surg. 2004; 30(7):1466-70 10. OLIVEIRA F, SILVA LMP, MUCCIOLI C, SORIANO ES, FREITAS LL, BELFORT JR R.: Qualidade de vida de pacientes pseudofácicos submetidos à cirurgia de catarata com implante de lente intra-ocular acomodativa, Arq Bras Oftalmol. 2004; 67(3): 469-74 11. OLIVEIRA F, MUCCIOLI C, SILVA LM, SORIANO ES, SOUZA CE, BELFORT R JR.: Contrast sensitivity and stereopsis in pseudophakic patients with multifocal intraocular lens, Arq Bras Oftalmol. 2005; 68(4): 439-443 12. SOUZA CE, MUCCIOLI C, SORIANO ES, CHALITA MR, OLIVEIRA F, FREITAS LL, MEIRE LP, TAMAKI C, BELFORT R JR: Visual performance of acrysof ReSTOR apodized diffractive IOL: a prospective comparative trial, Am J Ophthalmol. 2006 May; 141 (5): 827-832 13. SCHMIDINGER G, GEITZENAUER W, HAHSLE B, KLEMEN UM, SKORPIK C, PIEH C.: Depth of focus in eyes with diffractive bifocal and refractive multifocal intraocular lenses, J Cataract Refract Surg. 2006; 32: 1650-1656 14. BLAYLOCK JF, SI Z, VICKERS C.: Visual and refractive status at different focal distances after implantation of the ReSTOR multifocal intraocular lens, J Cataract Refract Surg. 2006; 32: 1464-1473 15. ARBISSER LB.: October Consultation #2. J Cataract Refract Surg. 2006; 32: 1595-1596 16. KERSHNER RM.: NeuroAdaptation in Transitioning to Refractive IOLs-The Art and Science, David Chang, editor. Slack, Incorporated, Thorofare, NJ, 2008 17. CARRASCO M, ECKSTEIN M, VERGHESE P, BOYNTON G.: Treue S. Visual attention: Neurophysiology, psychophysics and cognitive neuroscience. Vision Research 2009; 49: 1033-1036 VOL. 34, JULHO - SETEMBRO, 2010 469