Acórdãos STA Processo: 0573/13 Data do Acordão: 30-04-2013 Tribunal: 2 SECÇÃO Relator: VALENTE TORRÃO Descritores: Sumário: COMPENSAÇÃO DE CRÉDITOS CPPT PEDIDO PRESTAÇÃO DE GARANTIA Nº Convencional: JSTA000P15671 Nº do Documento: SA2201304300573 Data de Entrada: 15-04-2013 Recorrente: FAZENDA PÚBLICA Recorrido 1: A..., SGPS, SA Votação: UNANIMIDADE Aditamento: Acórdão do Supremo Tribunal Administrativo É legalmente inadmissível a compensação de créditos ao abrigo do disposto no artº 89º do CPPT, se, anulado judicialmente o despacho que indeferiu a prestação de garantia, se procedeu a tal compensação sem apreciar novamente a idoneidade da garantia de acordo com o decidido pelo tribunal tributário. Texto Integral Texto Integral: Acordam na Secção de Contencioso Tributário do Supremo Tribunal Administrativo: I. A Fazenda Pública veio recorrer da decisão do Mmº Juiz do TAF do Porto que julgou procedente a reclamação contra decisão do órgão da execução fiscal, deduzida por A.., SGPS, SA, que havia indeferido o seu pedido de prestação de garantia por fiança no processo de execução fiscal nº 1821121101004964, apresentando, para o efeito, alegações nas quais conclui: A). A douta sentença recorrida anulou a compensação de créditos operada pela AT, por concluir, em síntese, que: Na RAOEF n 1396/11.4BEPRT, "foi tomada posição sobre a concreta fiança prestada, e não, meramente, sobre a idoneidade, em abstrato, de uma garantia prestada por fiança" e, se ainda não foi proferida decisão quanto à garantia oferecida, nem suspenso o PEF, a AT encontra-se a "ofender o caso julgado que decorre da prolação daquela sentença", pelo que, "na sequência da douta sentença, a Administração Fiscal só podia ter um entendimento e que devia sê-lo no sentido único de que, a garantia prestada era determinante de que, por um lado, a divida exequenda se mostrava garantida, nos termos do artº. 169 do CPPT, e por outro lado, que não podia empreender qualquer compensação de créditos" e "tendo-o feito, essa compensação é ilegal". B). A aqui impetrante reclamou de ato da AT que recusou a aceitação de fiança para garantia do PEF, junto do TAF Porto, nos termos do disposto no art 276 e seguintes do CPPT, processo que correu termos sob o n 1396/11.4BEPRT, onde foi proferida sentença transitada em julgado, da qual foi intentada ação de Execução de Julgado, que corre termos sob o n 1396/11.4BEPRT-A, por a AT não
ter proferido decisão quanto à fiança oferecida, em substituição da que foi anulada pela sentença transitada em julgado. C). O ato de compensação por iniciativa da AT (n 2012 00009426821, de 31.08.2012), no valor de 23.367.097,01, efetuada naquele processo executivo, foi reclamado, nestes autos, por alegada violação de decisão transitada em julgado na RAOEF n 1396/11.4BEPRT, intentada no mesmo PEF, estando a AT impedida de proferir novos e sucessivos despachos sobre a mesma garantia, atendendo ao transito em julgado de decisão que anulou o ato que não considerou idónea a garantia oferecida. D). Ressalvado o devido respeito, a Fazenda Pública não se conforma com a sentença exarada, entendendo que foi cometido erro de julgamento ao determinar a anulação do despacho reclamado, interpretando a sentença na RAOEF 1396/11.4BEPRT como pronunciando-se, em concreto, pela admissão daquela fiança como garantia para suspender o processo executivo, o que implica a vinculação plena da AT à aceitação da referida fiança, pelo que a compensação efetuada viola o caso julgado e que, além do mais, a AT se encontra a ofender o caso julgado, desde logo, por ainda não ter proferido decisão quanto à fiança oferecida. E). A FP apenas admite como resultante da sentença transitada em julgado que o ato foi anulado atenta a não atribuição de idoneidade à fiança, em abstrato, ou seja, enquanto tipo garantístico, atento o disposto no n 1 do art. 199 do CPPT, designadamente, face ao excerto transposto para o ponto D) dos "III. FACTOS PROVADOS", na sentença sob análise, que permite concluir que no ato da AT ali reclamado, esta baseou a recusa da aceitação da garantia, por efetuar um juízo acerca da aceitabilidade da garantia enquanto tipo garantístico, por referência a outros tipos garantísticos que no seu entender deveriam prevalecer, ou seja, não foi efetuada uma análise concreta à idoneidade da garantia oferecida. F). Apenas se admite interpretar a sentença exarada, tendo por referência o ato sindicado, no sentido em que não tendo aquele avaliado a idoneidade em concreto da garantia oferecida, o Tribunal apenas tinha como base decisória a sindicar o juízo de aceitabilidade da garantia por referência a outras garantias, enquanto tipo garantístico. G). Não incumbe ao Tribunal a análise, em primeira linha, da idoneidade da garantia oferecida, mas apenas a sindicância da legalidade do ato administrativo e, se o ato administrativo não analisou, em concreto, a idoneidade da garantia, não se mostra a interpretação mais razoável interpretar a sentença exarada como indo além do que deveria conhecer, considerando que nesta "foi tomada posição sobre a concreta fiança prestada, e não, meramente, sobre a idoneidade, em abstrato, de uma garantia prestada por fiança". H). Além do mais, não se aceita, como decorrência interpretativa do
excerto citado na sentença de que ora se recorre (ponto 9 da "III - MATÉRIA DE FACTO ASSENTE") o efeito vinculativo pleno da aceitação em concreto da garantia em causa, porquanto não sustentado na restante fundamentação da sentença, porquanto quase toda a fundamentação da mesma se debruça sobre a idoneidade das garantias em abstrato. I). Por outro prisma, o sentenciamento judicial não onerou o órgão de execução fiscal na obrigação de decidir que a fiadora é economicamente idónea para garantir, em concreto, o montante em execução e acrescido, ou seja, não lhe colocou um "efeito vinculante pleno" (em caso de vinculação legal) quanto a esta matéria, com base nas considerações, não aferidas em concreto, de que a A. SGPS, detém capacidade financeira para solver a obrigação que assumiu através de fiança apenas por ser uma "empresa com cotação em bolsa" e "uma das maiores de Portugal", "factos que são do conhecimento de qualquer homem médio". J). Em conformidade com o disposto nos art s 100 da Lei Geral Tributária (LGT) e 173, n 1 do Código de Processo nos Tribunais Administrativos (CPTA) - este, aplicável ex vi art 2º, al. c) do CPPT -, perante aquela decisão judicial anulatória, o órgão de execução fiscal estava obrigado a praticar os atos jurídicos e materiais necessários à reintegração da ordem jurídica violada, encontrando-se pendente ação judicial com este objeto, pelo que não caberia ao Tribunal, em sede desta RAOEF pronunciar-se acerca da (in)execução da mesma sentença. K). Assim, a compensação não pode ser julgada ilegal, como o foi na sentença recorrida, com base na consideração de que perante a decisão judicial transitada a AT "só poderia ter um entendimento, no sentido único de que a garantia prestada era determinante de que (...) a dívida exequenda se mostrava garantida, nos termos do artº. 169 do CPPT", uma vez que, por força do efeito preclusivo do caso julgado e tendo em atenção os seus limites objetivos, a AT apenas se encontra impedida de renovar o ato reincidindo no mesmo vício, isto é, voltando a fundamentá-lo tendo por base, a não aceitação da fiança (em abstrato, enquanto tipo de garantia, por referência a outras que se mostram preferíveis). Termos em que, deve ser dado provimento ao recurso, anulando a sentença proferido. II. Em contra-alegações veio a recorrida apresentar as conclusões de fls. 493/498, das quais resulta, no seu entendimento que independentemente de a AT se achar no direito de indeferir, de novo, a garantia prestada, o certo é que, antes da compensação, a AT não voltou a indeferir a garantia em causa, nem notificou a recorrida para prestar outra garantia, pelo que na pendência do prazo para prestar garantia cuja fixação foi solicitada para suspender a execução, esta devia ter permanecido suspensa, sem que no seu âmbito pudessem ser praticados atos ofensivos do património do contribuinte como o
é manifestamente a compensação por iniciativa da administração tributária (artº 89º, nº 1 do CPPT), na medida que o priva de um crédito a que tem direito sem para tal ter de consentir. III. O MºPº emitiu o parecer que consta de fls. 512/514, no qual defende a improcedência do recurso. IV. Com interesse para a decisão foram dados como provados em 1ª instância os seguintes factos: 1º) A reclamante foi notificada da liquidação nº 20122510428187 onde foi apurado um reembolso de IRC, relativo ao exercício de 2011, no montante de 23.367.097,01 euros - cfr. fls. 290 dos autos: 2º) A reclamante foi notificada de que a Administração Fiscal procedeu à compensação nº 201200009426832, em 31 de agosto de 2012, no mesmo valor de 23.367.097,01 euros, ao abrigo do disposto no artº 89º do CPPT - cfr. fls. 288 dos autos;. 3º) Em 12 de janeiro de 20112, a reclamante foi citada no presente processo de execução fiscal nº 1821201101004964, para a cobrança coerciva do referido valor de 39.907.697,04 cfr. fls. 294 dos autos; 4º) Em 01 de março de 2011, a Reclamante prestou uma garantia no montante de 50.580.073,00, na modalidade de fiança, para suspensão do presente processo executivo cfr. fls. 296 dos autos; 5º) Em 25 de março de 2011, a Reclamante apresentou impugnação judicial contra a liquidação exequenda cfr. fls. 298 dos autos; 6º) A garantia prestada pela Reclamante foi indeferida pela Administração Fiscal - facto não controvertido; 7º) Contra esse indeferimento, a ora Reclamante apresentou reclamação judicial contra atos e decisões do órgão de execução fiscal, a qual [reclamação] correu termos na 4ª Unidade Orgânica deste Tribunal Administrativo e Fiscal do Porto, sob o nº 1396/11.4BEPRT - Facto não controvertido; 8º) Por sentença com data de prolação de 24 de julho de 2011, transitada em julgado em 07 de agosto de 2011, aquela Reclamação foi julgada procedente cfr. fls. 302 a 316 dos autos; 9º) Com interesse para a decisão a proferir nos presentes autos, para aqui se extrai parte dessa douta sentença [fls. 12], como segue: «[...] No caso que nos detém, a A.., SGPS, S.A., constitui-se fiador [a] da executada pelo valor da garantia fixada pelo órgão de execução fiscal, e nela renuncia ao benefício da excussão prévia previsto no artigo 638 do Código Civil (cfr. fls. 15 dos autos), pelo que não se entende tal afirmação da Administração Tributária ao referir que a fiança apresentada não garante com eficiência e
celeridade a cobrança do devido e acrescido, considerando no fundo inidónea para efeitos do disposto no artº 199, n 1 do CPPT. " 10º) Em 14 de maio de 2012, a Reclamante apresentou execução de julgados da douta sentença proferida cfr. fls. 319 dos autos; 11º) Em 14 de maio de 2012, a Reclamante foi notificada pela Administração fiscal, em suma, de que na sequência da fiança apresentada, se encontrava a analisar os elementos das demonstrações financeiras da sociedade fiadora A.. SGPS SA cfr. fls. 322 e 323 dos autos; 12º) A essa notificação respondeu a Reclamante, por escrito cfr. fls. 324 a 326 dos autos; 13º) Após esta resposta da Reclamante, não mais a AF promoveu qualquer ato no presente processo de execução fiscal ou notificou a Reclamante para qualquer efeito, excetuada a compensação referida em 2 supra - Facto não controvertido; 14º) A Petição inicial que motiva os presentes autos foi remetida ao Serviço de... V. A única questão a conhecer no presente recurso é a de saber se a compensação efetuada pela Administração Tributária está ou não conforme o disposto no artº 89º do CPPT. V.1. Entende a recorrente que a compensação foi legal uma vez que, anulado o despacho que havia negado a prestação da garantia por fiança, não existia garantia prestada, pelo que nada impedia a compensação. V.2. A recorrida, por sua vez, entende que a compensação foi ilegal pois que esta só pode ser efetuada relativamente a dívidas sobre as quais não haja controvérsia, sendo certo que, no caso dos autos, existe essa controvérsia uma vez que existe impugnação a correr. Por outro lado, após a revogação do despacho do órgão da execução fiscal pelo tribunal tributário, não foi proferida qualquer decisão pela Administração Tributária. V.3. O MºPº pronunciou-se também no sentido da ilegalidade da compensação, na medida em que a norma constante do artº 89º, nº 1, alínea b) do CPPT, deve ser interpretada extensivamente com o sentido de que a exceção à compensação abrange igualmente as situações em que está pendente requerimento para prestação de garantia ainda não apreciado. Vejamos então se a compensação era ou não legalmente admissível. VI. O artº 89º do CPPT dispõe o seguinte: 1-Os créditos do executado resultantes de reembolso, revisão
oficiosa, reclamação ou impugnação judicial de qualquer ato tributário são aplicados na compensação das suas dívidas cobradas pela administração tributária, exceto nos casos seguintes: a) Estar a correr prazo para interposição de reclamação graciosa, recurso hierárquico, impugnação judicial, recurso judicial ou oposição à execução; b) Estar pendente qualquer dos meios graciosos ou judiciais referidos na alínea anterior ou estar a dívida a ser paga em prestações, desde que a dívida exequenda se mostre garantida nos termos do artigo 169.º. Ora, daqui resulta, como bem refere a recorrida, que a compensação só pode ter lugar quando não restarem dúvidas sobre a legalidade das dívidas, o que pressupõe que, existindo divergência entre a Administração Tributária e o contribuinte que esteja a ser resolvida pela via judicial ou pela via graciosa, a compensação não pode ter lugar. Isto mesmo resulta da jurisprudência pacífica e uniforme deste STA, segundo a qual não pode haver compensação de dívida tributária, se houver pendência de recurso judicial ou oposição à execução da dívida exequenda ou esta estiver a ser paga em prestações, nem a mesma é admissível se ainda não tiver decorrido o prazo para o contribuinte reclamar, impugnar, recorrer ou opor-se à execução (neste sentido, entre muitos outros, v. os acórdãos de 16.12.2009- Processo nº 01183/09 e de 28.10.2009-Processo nº 0694/2008). No caso dos autos, estando em litígio a dívida exequenda e tendo o tribunal anulado o despacho que não aceitou a prestação de fiança como forma de garantia da mesma dívida, estava ainda a correr o respetivo procedimento. Assim, até ser proferida nova decisão transitada em julgado pela Administração Tributária, não podia ter lugar a compensação. E, aliás, repare-se que, segundo informação constante dos autos, a Administração Tributária até veio a aceitar agora a prestação da garantia oferecida pela recorrida. Em face do que ficou dito, carece de apoio legal a compensação efetuada à recorrida, não podendo invocar-se, como faz a recorrente, que não existia garantia prestada, pois que estando esta a apreciar a garantia, estava pendente o meio gracioso determinante da verificação da exceção da parte final do nº 1 do artº 89º do CPPT (como bem refere o MºPº, a apreciação da garantia oferecida equipara-se às situações da alínea b) do nº 1 transcrito). VII. Nestes e pelo exposto, nega-se provimento ao recurso e confirma-se a decisão recorrida, com a consequente procedência da reclamação e anulação do ato de compensação efetuado pela Administração Tributária. Custas pela recorrente. Lisboa, 30 de abril de 2013. Valente Torrão (relator) Ascensão Lopes Pedro Delgado.