OS SERTÕES SEGUNDO ROSA E GRACILIANO

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Transcrição:

547 OS SERTÕES SEGUNDO ROSA E GRACILIANO Flávia Maria Ferreira Branco (CES-JF) O ambiente sertanejo retratado por João Guimarães Rosa e Graciliano Ramos em obras literárias é marcado por influências otimista e pessimista, respectivamente, frente as experiências de cada um deles. Em uma leitura comparativa entre as suas obras, constatam-se as diferentes visões desses dois autores, a respeito do sertão e do homem sertanejo. O que implica dizer que será dada uma atenção especial às relações culturais de cada um dos autores citados, assim como suas dependências culturais, como forma de repensar a identidade que permeia suas obras. Nesse contexto, cria-se um intercâmbio de idéias com base nas diferenças contextuais, caracterizando o lugar do discurso autoral. Ambos os autores escreveram obras, tendo como cenário o sertão, porém percebe-se claramente que as abordagens dadas por eles a este espaço é diferente. De forma introdutória, vale dizer que Guimarães Rosa vê no sertão um ambiente ideal para o homem, já que, segundo ele, o primitivismo e o regionalismo fazem com que o ser humano viva sua essência. A exemplo, o trecho a seguir: A gente se encostava no frio, escutava o orvalho, o mato cheio de cheiroso, estalinho de estrelas, o deduzir dos grilos e a cavalhada a peso. Dava o raiar, entreluz da aurora, quando o céu branquece. Ao o ar indo ficando cinzento, o formar daqueles cavaleiros, escorrido, se divisava. E o senhor me desculpe, de estar retrasando em tantas minudências. Mas até hoje eu represento em meus olhos aquela hora, tudo tão bom; e, o que é, é saudade. (ROSA, 2001; p. 134) Mas Graciliano Ramos, ao escrever, utilizando o sertão como cenário, sugere a seus leitores um ambiente extremamente austero, que faz daqueles aí vivem pessoas sofridas e esmagadas pela seca, e que seca a água, eliminando a possibilidade de trabalho e alimento para os sertanejos, como se observa no seguinte trecho: O pirralho não se mexeu, e Fabiano desejou matá-lo. Tinha o coração grosso, queria responsabilizar alguém pela desgraça. A seca aparecia-lhe como um fato necessário e a obstinação da criança irritava-o. Certamente esse obstáculo miúdo não era culpado, mas dificultava a marcha, e o vaqueiro precisava chegar, não sabia onde. Tinham deixado os caminhos, cheios de espinho e seixos, fazia horas que pisavam a margem do rio, a lama seca e rachada que escaldava os pés. (RAMOS, 2003; p. 10) A partir das obras Grande Sertão Veredas e Vidas Secas, de Guimarães Rosa e Graciliano Ramos respectivamente, é possível exemplificar as maneiras desses autores entenderem o sertão, tentando relacionar suas abordagens com suas identidades culturais. Entende-se por tematologia o estudo de um determinado tema em obras artísticas. A Literatura Comparada nomeia assim uma análise literária, na qual a escolha de um tema é pesquisado à luz da comparação entre autores, época, obras de um mesmo autor, etc. (estabelecendo um intercâmbio literário).

548 Para que o leitor compreenda melhor uma obra, é importante que este saiba delinear alguns aspectos da linguagem do autor, e possa, ainda que superficialmente, compreender o desenvolvimento deste. A forma como os temas são abordados é um fator que pode determinar o diálogo entre escritor e leitor. Cada escritor traz consigo certas convicções, as quais tornam-se evidentes em suas obras literárias, como acontece, nos livros citados acima. Para tanto, quanto mais o leitor souber sobre um escritor, maior será sua capacidade de compreendê-lo, mergulhando, assim, no seu universo textual. Isso, porque tais reflexos se fazem sentir na estrutura da obra, no estilo e na temática. João Guimarães Rosa (1908-1967) nasceu em Cordisburgo, centro-norte de Minas. Fez o curso secundário em Belo Horizonte. Formou-se em Medicina e clinicou pelo interior de seu estado, recolhendo matérias para suas obras. Por essa época, foi autodidata em alemão e russo (foi um apaixonado pelo estudo de línguas, falando o francês, inglês, italiano, alemão; além de alguns conhecimentos em húngaro, russo, persa, hindu, árabe, servo-croata, malaio, sueco, dinamarquês, latim e grego clássico e moderno). Rosa se consagrou como escritor a partir de 1956, quando foi publicado Corpo de Baile e sua obra-prima, intitulada Grande Sertão: Veredas. O autor, com seus experimentos lingüísticos, sua técnica, seu mundo ficcional, renovou o romance brasileiro, concedendo-lhe caminhos até então inéditos. Sua obra se impôs não apenas no Brasil, mas alcançou o mundo. Na obra de Guimarães Rosa, o sertão não vai se limitar ao espaço geográfico, mas simbolizar o próprio universo. O sertão é uma realidade geográfica, social, política, psicológica e metafísica. Partindo do primitivo espaço do sertão, o autor de Grande Sertão: Veredas começa a delinear o seu aprendizado do mundo, seguindo o curso do rio, metáfora da vida. Realizou uma viagem de três meses, com vaqueiros mineiros, o que foi fundamental para que compreendesse o homem, a linguagem e o sertão e, dessa essência primitiva, extraísse o seu material poético. Na verdade, em Guimarães o sertão é um espaço externo que contém o interno. Guimarães Rosa nasceu numa região com isolamento à modernidade (rusticidade). Isso fez com que o autor escrevesse suas histórias com traços regionais marcantes e característicos. Apesar de ser no século XX, o valor da cultura era transmitido através da oralidade (histórias causos ), contação de histórias, que formavam uma rede de tradição cultural da região. Ele ouvia histórias desde menino viveu em um mundo mágico e as reproduzia. As histórias roseanas trazem algo dessa tradição oral, porém apresentam recursos literários sofisticados da língua literária do século XX. Grande Sertão: Veredas conta a travessia de Riobaldo, narrador-personagem, desfiando as suas memórias a fim de narrar suas vivências a um forasteiro, durante três dias. Travessia que Guimarães Rosa faz através do caráter insólito e ambíguo do homem, tornando uma experiência individual (Riobaldo) em caráter universal

549 - o sertão é o mundo. A narrativa se insere em um mundo sertanejo, com valores próprios do homem do sertão: Aquele boiadeiro era homem sério, com palavra merecida e vontade de estar bem com todos. (ROSA, 2001; p. 338). O autor se mostra grande conhecedor do ambiente por ele descrito e valorizado: O senhor tolere, isto é o sertão.(rosa, 2001; p. 23). Nessa obra de Guimarães Rosa, nota-se grande interação entre os personagens e o sertão, o que evidencia a visão extremamente positiva desse espaço, por parte do autor. Citações do tipo: O sertão é do tamanho do mundo e O jagunço é o sertão são idéias do autor diante de sua experiência e admiração pelo sertão. Riobaldo, o protagonista, é um homem que busca, no vaivém de suas memórias e reflexões, negar a existência real do demônio com quem fez um pacto quando se propôs vencer o jagunço Hermógenes. A contemplação e a descida às margens naturais da comunidade sertaneja dão à história veracidade e sugere ao leitor que se entregue amorosamente à paisagem sertaneja. Como na passagem em que se refere ao rio São Francisco: O São Francisco partiu minha vida em duas partes. (ROSA, 2001; p. 326). Dentro da narrativa, Guimarães Rosa insere algumas reflexões humanistas, as quais se relacionam facilmente com qualquer contexto social em qualquer tempo ( regional universal): Viver é muito perigoso... Querer o bem com demais força, de incerto jeito, pode já estar sendo se querendo o mal, por principiar. Esses homens. Todos puxam o mundo para si, para o concertar consertado. Mas cada um só vê e entende as coisas do seu mundo [...] o mais importante e bonito do mundo é isto: que as pessoas não estão sempre iguais, ainda não foram terminadas [...] (ROSA, 2001; p. 32-3,39). Vidas Secas, de Graciliano Ramos, conta a história de uma família de retirantes que foge da seca, impiedosa, a castigar sua região árida do sertão. Fabiano (marido), Sinhá Vitória (sua esposa) e os filhos: Menino mais velho e Menino mais novo são os personagens da história, além da cachorra Baleia, que os acompanha durante a longa caminhada em busca de trabalho, moradia e alimento. Na planície avermelhada os juazeiros alargavam duas manchas verdes. Os infelizes tinham caminhado o dia inteiro, estavam cansados e famintos. Ordinariamente andavam pouco, mas como haviam repousado bastante na areia do rio seco, a viagem progredira bem três léguas.(ramos, 2003; p. 9) Diante da dificuldade da caminhada (faltava alimento e água), eles acabam comendo um papagaio que haviam levado com eles por ser da família. As crianças sofrem com a fome e com o cansaço. A cachorra caçava preás, para que todos comessem, mas não era o suficiente; a fome estava sempre presente. Juntamente com o medo de que todo aquele sacrifício fosse em vão e acabassem não encontrando melhores condições para viverem.

550 A família de Fabiano acredita que um dia chegariam a um lugar civilizado e envelheceriam felizes. A história mostra a visão pessimista do autor em relação ao sertão, cujas dificuldades expulsam a família de sua região: Pouco a pouco uma vida nova, ainda confusa, se foi esboçando. Acomodar-se-iam num sítio pequeno, o que parecia difícil a Fabiano, criado solto no mato. [...] Mudar-se iam depois para uma cidade, e os meninos freqüentariam escolas, seriam diferentes deles. [...] E andavam para o sul, metidos naquele sonho. Uma cidade grande, cheia de pessoas fortes. [...] O sertão mandaria para a cidade homens fortes, brutos, como Fabiano, sinhá Vitória e os dois meninos. (RAMOS, 2003; p. 127 8). Nesse romance, Graciliano se mostra humano, preocupado com a situação sofrida do homem sertanejo. Aproveita-se da narração em terceira pessoa para marcar o plano literário e não deixar dúvidas quanto à sua presença, ao descrever a vida de uma família de sertanejos fugitivos da seca, sem destino e sem outras perspectivas para além da sobrevivência e do eterno retorno. Às vezes, ele aparece do lado de fora dos personagens comentando a vida de Fabiano, de Sinhá Vitória, dos meninos e da cachorra Baleia, às vezes aparece confundindo-se com os pensamentos de um ou de outro personagem e às vezes como a consciência coletiva do grupo. Nessa narrativa de Graciliano Ramos nota-se um certo sentimento de rejeição que viria do contato do homem com a natureza ou com ele mesmo, a partir de um realismo crítico apresentado pelo autor. Isso se explica quando tomamos conhecimento da experiência desse no sertão. Seus pais se casaram e mudaram para uma fazenda em Pernambuco. Mas, ainda criança, Graciliano Ramos viu o gado de sua família morrer de fome e sede em virtude da seca que assolava a região. Diante das dificuldades encontradas, a família abandonou a terra sertaneja e forma para uma vila próxima. Esse sofrimento, causado pela realidade do sertão, é mostrado em sua obra Vidas Secas. Fabiano, o herói, não aceita o mundo, nem os outros, nem a si mesmo, por isso ele nunca se mostra satisfeito com sua situação e coloca toda sua família para sair em busca de algo melhor, na visão do personagem. A natureza, ou seja, o sertão, interessa ao romancista só enquanto propõe o momento da realidade hostil a que a personagem responderá, retirante de Vidas Secas; família de retirantes que vive em pleno agreste os sofrimentos da estiagem. Vidas Secas abre ao leitor o universo mental pobre de um homem, uma mulher, uma cachorra e seus filhos marcados pela seca. Mostrando que o homem trava uma verdadeira luta contra a natureza. Leia-se: A cólera dele se voltava de novo contra as aves. Tornou a sentar-se na ribanceira, atirou muitas vezes nos ramos do mulungu, o chão ficou todo coberto de cadáveres. [...] Aqueles malditos bichos é que lhe faziam medo. (RAMOS, 2003; p. 113) Numa leitura atenta desses dois discursos ficcionais, pode-se observar, em Guimarães Rosa e Graciliano Ramos, diferentes concepções do sertão.para Rosa, o sertão é o lugar do aprendizado da arte de viver, local onde se aprende a ser homem, diante dos difíceis impasses da vida, no impasse caótico entre Deus e

551 o diabo, onde tudo é possível. Isso, porque, segundo o próprio autor, o primitivismo do ambiente regionalista faz do homem um ser essencialmente verdadeiro e o torna capaz de assimilar as múltiplas possibilidades que a vida pode lhe oferecer, em tudo, aprendendo uma nova lição. Vale lembrar que Guimarães Rosa foi vaqueiro na sua cidade, Cordisburgo, Minas Gerais. Essa convivência com o sertão e o sertanejo contribuiu para a elaboração de um conceito múltiplo do sertão. Para Graciliano Ramos, como podemos observar em Vidas Secas, o sertão oferece uma vida desgraçada aos que nele vivem. Um ambiente hostil e de difícil adaptação para o homem. A história de Fabiano e de sua família é um retrato da realidade das pessoas que vivem, ou sobrevivem, no sertão. Para o autor, o sertão se resume na seca e em todos os malefícios que esta proporciona aos sertanejos. Todo o sofrimento causado pela fome, sede e dificuldade de prosperar são evidências que o autor apresenta para mostrar sua visão sobre a realidade do sertão. Em Vidas Secas, nota-se que Fabiano não conseguia expor seus pensamentos, caracterizando a falta de discurso claro, uma vez que o ambiente austero e agreste do sertão o impede de viver dignamente, de se expressar. Já em Grande Sertão: Veredas, Guimarães Rosa mostra, no discurso do fluxo de consciência de Riobaldo, um sertão sem tamanho, onde tudo é possível, marcado pelas profundas reflexões do personagem principal da narrativa, sobre a perigosa arte de viver. Mais do que um espaço físico, o sertão roseano faz-se o próprio espaço existencial, onde sempre viver é perigoso. REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS BOSI, Alfredo. História Concisa da Literatura Brasileira. 36. ed. São Paulo: Cultrix, 1994. CÂNDIDO, Antônio. Graciliano Ramos. 4. ed. Rio de Janeiro: Agir, 1996. (Nossos Clássicos; n53). LITERATURA COMPARADA NA AMÉRICA LATINA: do etnocentrismo ao diálogo de culturas. Revista Brasileira de Literatura Comparada, 1996. p. 67 74. (v. 3; n. 3). NICOLA, José de. Literatura Brasileira: das origens aos nossos dias. 15. ed. São Paulo: Scipione, 1998. RAMOS, Graciliano. Vidas secas. 89. ed. Rio de Janeiro, São Paulo: Record, 2003. ROSA, João Guimarães. Grande Sertão: Veredas. 19. ed. Rio de Janeiro: Nova Fronteira, 2001.