1 Como definir a Maçonaria? A Maçonaria define-se a si própria como uma «sociedade iniciática» e uma «organização filantrópica e de procura filosófica» cujos membros são recrutados por cooptação. Afirma-se universal, ainda que as vicissitudes da sua história, as rivalidades e os cismas internos a tenham dividido em múltiplas obediências. É difícil identificar o cerne da ideologia maçónica, desde logo porque a Maçonaria cultiva o segredo, mas também devido à sua ramificação em diversas correntes. Tem como objetivo «trabalhar para o progresso material e moral, bem como para o aperfeiçoamento intelectual e moral da humanidade». A Maçonaria nasceu em Inglaterra no início do século XVIII. Através do seu ritual iniciático, pretendia ligar-se a uma tradição secreta que remontaria à construção do Templo de Salomão e a Hirão, que a Bíblia refere como o arquiteto desse templo. Existe um parentesco inegável entre os ritos simbólicos da Maçonaria e os das sociedades iniciáticas do passado (mistérios antigos da 7
Grécia ou do Império Romano). A proposta consiste em conduzir o aderente à «iluminação interior», introduzir «a ordem e a unidade no ser humano», harmonizá-lo com as «leis universais». Em termos operacionais, o ideal do maçon traduz-se em construir «o templo interior» (a sua própria personalidade) e o «templo exterior» (humanizar a sociedade). A Maçonaria anglo-saxónica confessa a sua fé em Deus, «Grande Arquiteto do Universo». No entanto, as constituições de Anderson, de 1723, texto de referência para todos os maçons, não contêm a mais pequena referência a Deus em Jesus Cristo, nunca mencionam a Santíssima Trindade, o pecado, a salvação, a ressurreição, a vinda do Espírito Santo No continente europeu, e especialmente nos países católicos, as lojas acolheram deístas, agnósticos e ateus. Em França, a Maçonaria surge em 1725, com Montesquieu. Os seus membros são nobres, grandes burgueses e até mesmo eclesiásticos galicanos, ou seja, opositores ao primado do bispo de Roma. No espírito das «Luzes» do século XIX, as lojas maçónicas foram o cadinho da laicidade. 8
2 A posição da Igreja Católica Aqui e ali ouve-se dizer que a Maçonaria terá como essencial, precisamente, o facto de não impor nenhum «princípio», no sentido de uma posição filosófica ou religiosa que vincule todos os seus membros, pretendendo antes reunir, para lá das fronteiras das diversas religiões e visões do mundo, homens de boa vontade, na base de valores humanistas compreensíveis e aceitáveis por todos. A Maçonaria constituirá, assim, um elemento de coesão para todos os que acreditam no «Arquiteto do Universo» e se sentem empenhados quanto às orientações morais fundamentais que são definidas, por exemplo, no Decálogo. Não afastará ninguém da sua religião, podendo mesmo constituir, para alguns, um estímulo para uma maior adesão a ela. O prólogo do Evangelho de São João não figura entre as referências iniciáticas? Para alguns, a Maçonaria não se apresenta como uma religião nem como um sistema filosófico, mas como uma ascese particular, compatível com outras crenças. 9
No entanto, a declaração da Congregação para a Doutrina da Fé não contém nenhuma ambiguidade quanto a este ponto. Datada de 26 de novembro de 1983, foi assinada pelo cardeal Ratzinger, prefeito daquela congregação, e aprovada pelo Papa João Paulo II, e reza assim NT : «No novo Código de Direito Canónico permanece portanto imutável o parecer negativo da Igreja a respeito das associações maçónicas, pois os seus princípios foram sempre considerados inconciliáveis com a doutrina da Igreja e por isso permanece proibida a inscrição nelas». Esta condenação não é de agora. A primeira condenação da Maçonaria emanada da Igreja Católica data de 1738, do pontificado de Clemente XII, e a constituição promulgada por este Papa foi renovada e confirmada por Bento XIV no documento Providas, de 18 de maio de 1751; por Pio VII, a 13 de setembro de 1821, no documento Ecclesiam a Jesu Christo; por Leão XII, no documento Quo Graviora, a 13 de março de 1825; por Pio VIII, com a encíclica Traditi, a 21 de maio de 1829; por Gregório XVI, com a encíclica Mirari Vos, a 18 de agosto de 1832; por Pio IX, com a encíclica Qui Pluribus, a 9 de novembro de 1846. Na encíclica Humanum Genus, de Leão XIII (20 de abril de 1884), o Magistério da Igreja denuncia ideias filosóficas e conceções morais opostas à doutrina católica na Maçonaria. Na sua carta ao povo italiano Custodi di Quella Fede (8 de dezembro de 1892), Leão XIII escrevia: «Lembremo-nos de que o cristianismo e a Maçonaria são essencialmente inconciliáveis, de forma que a inscrição numa implica a separação do outro». Apesar da diversidade que NT Vd., no Anexo I, a versão integral da declaração sobre a Maçonaria tal como consta da página oficial do Vaticano na Internet, consultada a 31 de Dezembro de 2011 (http://www.vatican.va/roman_curia/congregations/cfaith/documents/rc_con_cfaith_doc_19831126_declaration-masonic_po.html). 10
pode subsistir entre as diversas obediências maçónicas, em particular quanto à sua atitude declarada em relação à Igreja, a Santa Sé sempre sublinhou o caráter inconciliável dos princípios da Maçonaria com a fé católica. A posição da Igreja é, pois, constante desde o nascimento da Maçonaria. Não se pode ser simultaneamente católico e maçon. 11