Como definir a Maçonaria?

Documentos relacionados
Comentário da Mensagem nº 30, de 16/04/1988

Vivaldo Armelin Júnior

No Calendário Litúrgico há um Memorial da Realeza de Maria em 22 de Agosto. Maria é invocada como : * Rainha dos Anjos. * Rainha dos Patriarcas.

1º Ciclo. Educação Moral e Religiosa Católica 2016/ º Ano. 4º Ano. 1º Ano. 2º Ano

Pré Socráticos aos Medievais 1

1º Ciclo - Ano letivo 2017/2018

1º Ciclo - Ano letivo 2018 / 2019

!" #$! %&% '( CAUSAS: ! "# $ % & ' $ (% & ) * + *, -$. / ++.) */ 0.) 0 0 0*

Críticas à Igreja Católica

Luís Miguel Rocha. Curiosidades do. Vaticano

TEMA-PROBLEMA. A experiência religiosa como afirmação do espaço espiritual do mundo FENÓMENO UNIVERSAL

2º bimestre 1ª série 12 - Era Medieval Formação e consolidação da Igreja Caps. 3.2, 3.3 e 7. Roberson de Oliveira Roberson de Oliveira

Unidade 2: História da Filosofia. Filosofia Serviço Social Igor Assaf Mendes

REFORMA E CONTRA-REFORMA

CHAMADOS A VIVER EM COMUNHÃO MEMBROS DE UM SÓ CORPO EM CRISTO JESUS (1COR 12,12)

COPYRIGHT TODOS OS DIREITOS RESERVADOS - SABER E FÉ

Aula 08 Terceiro Colegial.

Teologia Sistemática

Hoje falaremos de A BÍBLIA OUTROS NOMES FATOS E PARTICULARIDADES DA BÍBLIA

Aula 09. Gente... Que saudade!!!! Filosofia Medieval Patrística Sto. Agostinho

Sua religião é uma escolha pessoal e deve ser respeitada

A finalidade pastoral do Código de Direito Canônico. Tiago Nascimento Nigro. Pe. Luiz Henrique Bugnolo

PREPARAÇÃO DA MISSA DE S. NUNO HISTÓRIA DO COLÉGIO ADVENTO E NATAL

As transformações de saberes, crenças e poderes na transição para a Idade Moderna. Profª Ms. Ariane Pereira

COPYRIGHT TODOS OS DIREITOS RESERVADOS - SABER E FÉ

MINICURSO. Re-buscando o sul da educação católica. A contribuição da ecologia integral para repensar o humanismo solidário Vitor Hugo Mendes

REFORMA E CONTRARREFORMA

Luzes dos Documentos Conciliares Para a Nova Evangelização

Palavras de respeito, homenagem e regozijo pela eleição do Cardeal argentino JORGE MARIO BERGOGLIO como o novo PAPA FRANCISCO.

LIÇÃO 7 O PERIGO DA FALSA RELIGIOSIDADE. Prof. Lucas Neto

FILOSOFIA MEDIEVAL: ESCOLÁSTICA 3ªSÉRIE DO ENSINO MÉDIO DRUMMOND 2017 PROF. DOUGLAS PHILIP

Curso de História. Prof. Fabio Pablo. efabiopablo.wordpress.com

Capacete de um chefe saxão

06. REFORMAS RELIGIOSAS

ORGANIZAÇÃO INDUSTRIAL. Prof. Carla Hammes

Solenidade da Imaculada Conceição da Virgem Maria 08 de dezembro de 2015

O MAGISTÉRIO DA IGREJA NA FORMAÇÃO

CATECISMO DA IGREJA CATÓLICA COMPÊNDIO

Crise da Igreja Católica

MARIA, MÃE DE DEUS E NOSSA MÃE

RENASCIMENTO CULTURAL

FILOSOFIA CRISTÃ. Jesus Cristo Pantocrator, Uma das mais antigas imagens de Jesus (séc. VI-VII). Monastério Sta. Catarina, Monte Sinai.

A Declaração de Jerusalém

O TEMPO OS FILHOS O DINHEIRO O TRABALHO

ÍNDICE GERAL. Apresentação... 5 Ordem cronológica dos documentos... 7 Siglas Tra le sollecitudini Mo t u Pr o p r i o d o Pa pa Pio X

DE BENTO XVI. Pelo Ing. Franco Adessa

REGULAMENTO DA ORDEM PRESBITERAL

DEPARTAMENTO DE CIÊNCIAS SOCIAIS E HUMANAS

AGRUPAMENTO DE ESCOLAS DE SÁTÃO CURRÍCULO DISCIPLINAR 9º ANO EDUCAÇÃO MORAL E RELIGIOSA CATÓLICA (EMRC) (SNEC)

Três eixos temáticos. I. A alegria do Evangelho II. Sinodalidade e Comunhão III. Testemunho e Profetismo

ESCOLA BÁSICA E SECUNDÁRIA DR. VIEIRA DE CARVALHO Planificação Educação Moral e Religiosa Católica. Ano Letivo 2016/17 3º Ciclo 7º Ano

Agrupamento de Escolas de Mira. Departamento de Ciências Sociais e Humanas

REFORMAS RELIGIOSAS SÉC XVI.

TRABALHO DESTINADO AO GRAU I MAÇONARIA E RELIGIÃO

Religiões Proféticas

REFORMA PROTESTANTE. 1- CONTEXTO HISTÓRICO: 1.1- Início do século XVI no Norte da Europa.

vos suplico de cumprir, AGORA, este passo com a confiança de uma criança porque Jesus e Maria estão com Vós.

O homem é composto de substância corporal e de substância espiritual, sendo esta por via da sua subsistência, incorruptível.

FÍSICA FILOSOFIA. Resumex JáEntendi 1. A FILOSOFIA NA IDADE MÉDIA. Características Fundamentais da Idade Média

SUMÁRIO INTRODUÇÃO. A revelação A. A revelação em geral B. A revelação geral C. A revelação especial... 30

CURRÍCULO DO ENSINO RELIGIOSO NA EDUCAÇÃO BÁSICA. Prof. Elcio Cecchetti

PROFESSOR: GILDEMAR SILVA DISCIPLINA: ENSINO RELIGIOSO CONTEÚDO: ATIVIDADES AULA 01

1. Concílio de Niceia I 2. Concílio de Constantinopla I 3. Conhecendo a Igreja e suas ações.

ESCOLA CATEQUÉTICA 2018 PROFISSÃO DE FÉ

O apocalipse de João. Roteiro 21

APÓCRIFOS LIVROS APÓCRIFOS. Aula 1 Introdução. Guilherme A. Wood. Guilherme Wood

Às filhas da Terra. Ela conhece as lágrimas penosas E recebe a oração da alma insegura, Inundando de amor e de ternura As feridas cruéis e dolorosas.

COPYRIGHT TODOS OS DIREITOS RESERVADOS - SABER E FÉ

Alegres cantemos Músicas para cantar a liturgia

Condições Gerais. Políticas: Crise do Feudalismo Crescimento da Burguesia Rei não aceita interferência da Igreja Supranacionalismo Papal

Fatores religiosos: Corrupção do clero religioso : Venda de relíquias sagradas; venda de indulgencias; lotes celestiais; Ignorância do clero a maior

HISTÓRIA 1 ANO PROF. AMAURY PIO PROF. EDUARDO GOMES ENSINO MÉDIO

A MAÇONARIA E A IGREJA SEGUNDO PALESTRA DE DOM LELIS LARA NA LOJA MAÇONICA UNIÃO IPATINGA.

A REFORMA PROTESTANTE- MOVIMENTO INICIADO POR MARTINHO LUTERO NO SÉCULO XVI.

O Cristianismo no Império Romano

IDADE DAS TREVAS? Problemas da Filosofia Medieval: a realidade, a alma, a verdade, os direitos humanos, a essência do Estado etc.

Fala-se muito hoje daqueles que preferem

Propriedades essenciais da Igreja: a unidade, a catolicidade, a santidade e a apostolicidade

EJA 4ª FASE PROF. LUIS CLAÚDIO

Igreja medieval Cruzadas Renascimento: Comercial e Urbano

Teologia Sistemática. Fernando Catarino

Sua Santidade, o Papa Bento XVI CARTA APOSTÓLICA EM FORMA DE MOTU PROPRIO SUMMORUM PONTIFICUM SOBRE A LITURGIA ROMANA ANTERIOR À REFORMA DE 1970

O Cristianismo É uma religião abraâmica monoteísta centrada na vida e nos ensinamentos de Jesus, tais como são apresentados no Novo Testamento; A Fé

A TRANSMISSÃO DA REVELAÇÃO DIVINA Catequese com adultos Chave de Bronze

Sua identidade. Apocalipse 13:1-2. Sua atividade. Apocalipse 13:3-10. A besta da terra. Apocalipse 13: Sua identidade. Apocalipse 13:11.

Contrarreforma. Autores: Maria Eduarda Cordeiro Maria Luísa Relosi Lara Bianchi Marina De Carli Pedro Pérez Pedro Henrique Thomé

COPYRIGHT TODOS OS DIREITOS RESERVADOS - SABER E FÉ

Linha do Tempo. Linha do Tempo

DIREITOS HUMANOS. Sistema Global de Proteção dos Direitos Humanos: Instrumentos Normativos. Declaração Universal dos Direitos Humanos Parte 2

Isidro Pereira Lamelas SIM, CREMOS. O Credo explicado pelos Padres da Igreja. antologia comentada

Transcrição:

1 Como definir a Maçonaria? A Maçonaria define-se a si própria como uma «sociedade iniciática» e uma «organização filantrópica e de procura filosófica» cujos membros são recrutados por cooptação. Afirma-se universal, ainda que as vicissitudes da sua história, as rivalidades e os cismas internos a tenham dividido em múltiplas obediências. É difícil identificar o cerne da ideologia maçónica, desde logo porque a Maçonaria cultiva o segredo, mas também devido à sua ramificação em diversas correntes. Tem como objetivo «trabalhar para o progresso material e moral, bem como para o aperfeiçoamento intelectual e moral da humanidade». A Maçonaria nasceu em Inglaterra no início do século XVIII. Através do seu ritual iniciático, pretendia ligar-se a uma tradição secreta que remontaria à construção do Templo de Salomão e a Hirão, que a Bíblia refere como o arquiteto desse templo. Existe um parentesco inegável entre os ritos simbólicos da Maçonaria e os das sociedades iniciáticas do passado (mistérios antigos da 7

Grécia ou do Império Romano). A proposta consiste em conduzir o aderente à «iluminação interior», introduzir «a ordem e a unidade no ser humano», harmonizá-lo com as «leis universais». Em termos operacionais, o ideal do maçon traduz-se em construir «o templo interior» (a sua própria personalidade) e o «templo exterior» (humanizar a sociedade). A Maçonaria anglo-saxónica confessa a sua fé em Deus, «Grande Arquiteto do Universo». No entanto, as constituições de Anderson, de 1723, texto de referência para todos os maçons, não contêm a mais pequena referência a Deus em Jesus Cristo, nunca mencionam a Santíssima Trindade, o pecado, a salvação, a ressurreição, a vinda do Espírito Santo No continente europeu, e especialmente nos países católicos, as lojas acolheram deístas, agnósticos e ateus. Em França, a Maçonaria surge em 1725, com Montesquieu. Os seus membros são nobres, grandes burgueses e até mesmo eclesiásticos galicanos, ou seja, opositores ao primado do bispo de Roma. No espírito das «Luzes» do século XIX, as lojas maçónicas foram o cadinho da laicidade. 8

2 A posição da Igreja Católica Aqui e ali ouve-se dizer que a Maçonaria terá como essencial, precisamente, o facto de não impor nenhum «princípio», no sentido de uma posição filosófica ou religiosa que vincule todos os seus membros, pretendendo antes reunir, para lá das fronteiras das diversas religiões e visões do mundo, homens de boa vontade, na base de valores humanistas compreensíveis e aceitáveis por todos. A Maçonaria constituirá, assim, um elemento de coesão para todos os que acreditam no «Arquiteto do Universo» e se sentem empenhados quanto às orientações morais fundamentais que são definidas, por exemplo, no Decálogo. Não afastará ninguém da sua religião, podendo mesmo constituir, para alguns, um estímulo para uma maior adesão a ela. O prólogo do Evangelho de São João não figura entre as referências iniciáticas? Para alguns, a Maçonaria não se apresenta como uma religião nem como um sistema filosófico, mas como uma ascese particular, compatível com outras crenças. 9

No entanto, a declaração da Congregação para a Doutrina da Fé não contém nenhuma ambiguidade quanto a este ponto. Datada de 26 de novembro de 1983, foi assinada pelo cardeal Ratzinger, prefeito daquela congregação, e aprovada pelo Papa João Paulo II, e reza assim NT : «No novo Código de Direito Canónico permanece portanto imutável o parecer negativo da Igreja a respeito das associações maçónicas, pois os seus princípios foram sempre considerados inconciliáveis com a doutrina da Igreja e por isso permanece proibida a inscrição nelas». Esta condenação não é de agora. A primeira condenação da Maçonaria emanada da Igreja Católica data de 1738, do pontificado de Clemente XII, e a constituição promulgada por este Papa foi renovada e confirmada por Bento XIV no documento Providas, de 18 de maio de 1751; por Pio VII, a 13 de setembro de 1821, no documento Ecclesiam a Jesu Christo; por Leão XII, no documento Quo Graviora, a 13 de março de 1825; por Pio VIII, com a encíclica Traditi, a 21 de maio de 1829; por Gregório XVI, com a encíclica Mirari Vos, a 18 de agosto de 1832; por Pio IX, com a encíclica Qui Pluribus, a 9 de novembro de 1846. Na encíclica Humanum Genus, de Leão XIII (20 de abril de 1884), o Magistério da Igreja denuncia ideias filosóficas e conceções morais opostas à doutrina católica na Maçonaria. Na sua carta ao povo italiano Custodi di Quella Fede (8 de dezembro de 1892), Leão XIII escrevia: «Lembremo-nos de que o cristianismo e a Maçonaria são essencialmente inconciliáveis, de forma que a inscrição numa implica a separação do outro». Apesar da diversidade que NT Vd., no Anexo I, a versão integral da declaração sobre a Maçonaria tal como consta da página oficial do Vaticano na Internet, consultada a 31 de Dezembro de 2011 (http://www.vatican.va/roman_curia/congregations/cfaith/documents/rc_con_cfaith_doc_19831126_declaration-masonic_po.html). 10

pode subsistir entre as diversas obediências maçónicas, em particular quanto à sua atitude declarada em relação à Igreja, a Santa Sé sempre sublinhou o caráter inconciliável dos princípios da Maçonaria com a fé católica. A posição da Igreja é, pois, constante desde o nascimento da Maçonaria. Não se pode ser simultaneamente católico e maçon. 11