PNV 339 Profecia em defesa da Vida Círculos Bíblicos sobre o Livro de Miqueias Lema: Amar o amor e caminhar humildemente com Deus (Mq 6,8) Mercedes Lopes São Leopoldo/RS 2016
Centro de Estudos Bíblicos Rua João Batista de Freitas, 558 B. Scharlau Caixa Postal 1051 93121-970 São Leopoldo/RS Fone: (51) 3568-2560 Fax: (51) 3568-1113 vendas@cebi.org.br www.cebi.org.br Série: A Palavra na Vida Nº 339 2016 Título: Profecia em defesa da Vida: Círculos Bíblicos sobre o Livro de Miqueias Lema: Amar o amor e caminhar humildemente com Deus (Mq 6,8) Autora: Mercedes Lopes Revisão ortográfica: Isaque Gomes Correa Capa: Artur Nunes Editoração: Rafael Tarcísio Forneck ISBN: 978-85-7733-253-3 Mercedes Lopes é brasileira e participa do CEBI desde 1980. É licenciada em Teologia e Bíblia pela UBL da Costa Rica, diplomada em Espiritualidade pela PUC de Madri, mestra e doutora em Ciências da Religião pela UMESP, na área de literatura e religião no mundo bíblico. É assessora do CEBI e da CRB (RJ). Acompanha comunidades de base, grupos de mulheres e de fé e política. Assessora grupos de leigos e da VRC no Brasil e em demais países da América Latina.
Sumário Introdução... 5 Uma visão geral do livro de Miqueias... 7 1. Quem é Miqueias?... 7 2. Época em que viveu... 8 3. Lenta formação do livro de Miqueias... 8 4. Organização do livro... 9 5. Temas principais de Miqueias... 9 6. Denúncias e anúncios intercalados... 10 1º Círculo Bíblico Deus caminha sobre o dorso da terra (Mq 1,3)... 12 2º Círculo Bíblico Acabou-se a paciência do Senhor? (Mq 2,7b)... 17 3º Círculo Bíblico Estou cheio da força do espírito de Javé, do direito e da fortaleza (Mq 3,8)... 23 4º Círculo Bíblico Reunirei as ovelhas estropiadas, ajuntarei as dispersas (Mq 4,6). 28 5º Círculo Bíblico Vocês serão como a chuva sobre a grama verde (Mq 5,6b)... 33
6º Círculo Bíblico Praticar o direito, amar o amor, caminhar com Deus (Mq 6,8)... 38 7º Círculo Bíblico Com tua vara de pastor guia o teu povo! (Mq 7,14)... 43
Introdução Diante do contexto do mundo atual, com massacres e guerras que obrigam milhares de pessoas a deixarem seus territórios de origem e migrarem para outros países em busca de vida, fica evidente a atualidade da profecia de Miqueias, que diz: Eles forjarão de suas espadas arados, e de suas lanças podadeiras. Uma nação não levantará a espada contra outra nação e não se prepararão mais para a guerra (Mq 4,3b). As ferramentas agrícolas (arados e podadeiras) expressam a experiência camponesa, simples e harmoniosa que está por trás da profecia desse livro. O texto carrega um sonho de relações laboriosas e serenas: Cada qual se sentará debaixo de sua vinha e de sua figueira e ninguém o inquietará (Mq 4,4). Algum tempo depois de Miqueias, o profeta Zacarias acrescenta que este sonho é também relacional, quer dizer, o bem-viver não é individualista. Por isso, acrescenta que o sonho de um tempo novo de paz e harmonia supõe a abertura para outras pessoas; necessita-se criar espaços para comida conjunta, sem pressa, nem medo: Naquele dia, uns convidarão os outros debaixo da parreira e da figueira (Zc 3,10). Mas este não é somente um sonho de paz. É também proposta de uma postura nova diante da vida. Essa postura nova é que vai transformar a realidade a partir de pequenas ações praticadas em conjunto, no dia a dia da vida. Miqueias deixa isso bem claro quando anuncia o que realmente nos fará felizes: Praticar o direito; amar a misericórdia e caminhar humildemente com Deus (Mq 6,8). É isso que Deus espera de nós, seus filhos e filhas. Esta frase de Miqueias é uma proposta incrivelmente atual, importante, necessária para a vida da humanidade, para a humanização da socie- PNV 339 5
dade. Os desastres naturais demonstram que o planeta Terra já não suporta mais a relação exploradora, ambiciosa, inconsciente e destruidora da sociedade atual, consumista e globalizada. Para a sobrevivência da Terra e de todos os seres vivos, é necessária uma grande mudança no estilo de vida de cada pessoa e da humanidade. Uma nova cultura que já está em andamento é vivenciada por pequenos grupos que buscam um estilo de vida simples, com relação cuidadosa e harmoniosa entre as pessoas e com a natureza. Nesse sentido, o livro de Miqueias oferece uma espiritualidade que possibilita o despojamento necessário para superar o consumismo e o individualismo da cultura do mercado global. Ele apresenta uma visão de Deus presente na sua criação, caminhando com seu povo em busca de terra, pão e moradia. 6 PNV 339
Uma visão geral do livro de Miqueias 1. Quem é Miqueias? Miqueias nasceu em Morasti-Gat, uma aldeia que ficava a cerca de 40 quilômetros de Jerusalém. Em seu tempo, a Assíria cresceu e tornou-se um grande império que ameaçava não somente o reino de Israel, mas a todos os pequenos reinos da região. Sob o domínio de Teglat-Falasar III, que reinou de 745 a 727 a.c., o reino do Norte foi invadido pelo império assírio e teve que lhe pagar tributos que, por sua vez, eram cobrados dos camponeses. Miqueias deve ter presenciado muitas injustiças praticadas pelos governantes e também viu ou ouviu falar sobre guerras e massacres das tropas assírias contra Israel (1,8-9). Conheceu de perto as consequências de massacres e destruições realizadas pelos assírios em Jerusalém (4,9-14). Vivendo no meio do povo do campo, via como os trabalhadores e trabalhadoras rurais sofriam as consequências da opressão e exploração não somente estrangeira, mas dos próprios governantes de Israel e de Judá. Miqueias abraçou a causa camponesa. Denunciou as terríveis injustiças impostas aos pobres da terra pelos governantes, apoiados por falsos profetas. Falando em nome de Javé, Miqueias anima a esperança do pessoal da roça e denuncia a exploração das cidades sobre o campo, a falta de percepção da realidade, a indiferença dos responsáveis pela administração civil e religiosa e as falsas esperanças estimuladas pelos profetas da elite exploradora e preconceituosa. PNV 339 7
2. Época em que viveu Já no início do livro de Miqueias (Mq 1,1), encontramos a menção de três épocas diferentes: Palavra de Javé dirigida a Miqueias de Morasti, no tempo em que Joatão (740-736 a.c.), Acaz (736-716 a.c.) e Ezequias (716-687 a.c.) eram reis de Judá (Mq 1,1). Esta deve ser a época em que viveu o profeta Miqueias. Se somamos o tempo de cada rei, temos como resultado 53 anos de uma história muito dolorosa e tensa. São mencionadas ainda neste único versículo (1,1) duas capitais de dois reinos diferentes: Samaria, capital do reino do Norte = Israel; e Jerusalém, capital do reino do Sul = Judá. As duas cidades sofriam a opressão do império assírio e, por sua vez, oprimiam o seu próprio povo, sobretudo os camponeses, que eram os pobres da terra (Mq 3,9-12). Arrancavam deles os tributos exigidos pelo império assírio. Miqueias (1,2-7) descreve a destruição de Samaria pelo exército assírio, em 722 a.c., fazendo ecoar o grito de dor do povo chacinado (1,8-16). Uns vinte anos mais tarde, parece que uma segunda mão trabalhou o texto, acrescentando detalhes e expressões de terror (4,9-14) sobre a invasão de Judá por Senaqueribe, em 701 a.c. Mas há também a possibilidade de que o próprio Miqueias tenha escrito este segundo texto, pois existem autores que afirmam ter ele atuado justamente entre 725 e 701 a.c., durante o reinado de Ezequias. 3. Lenta formação do livro de Miqueias No entanto, descobrimos que o processo de formação do livro de Miqueias foi ainda mais demorado do que sua missão de profeta. Ele contém palavras do profeta Miqueias e acréscimos posteriores, redigidos por seus seguidores ou por discípulos e discípulas de Isaías, pois há muita relação entre Miqueias e Isaías. Para perceber um pouco melhor essa ligação, podemos ler e comparar os seguintes textos: Mq 1,8 e Is 20,24; Mq 2,2 e Is 5,8. 8 PNV 339
Além disso, no livro de Miqueias podemos encontrar alguns textos que lembram claramente o período do pós-exílio (2,12-13; 7,8-20). Isso faz pensar na possibilidade de que muitas pessoas tenham se identificado com a profecia de Miqueias. Ao sentirem também em seus corpos a agonia do povo pobre a partir das situações dolorosas em que viviam, foram completando o texto de Miqueias, denunciando as injustiças e anunciado um novo tempo de justiça, solidariedade e paz. 4. Organização do livro Capítulos 1-3 Capítulos 4-5 Capítulos 6-7 Estes três capítulos seriam de Miqueias, o profeta de Morasti, exceto Is 2,12-13 que é claramente um texto do pós-exílio. O tema destes dois capítulos é estranho ao pensamento de Miqueias. Descreve a vinda a Sião de pagãos convertidos, acontecimentos que datam do pós-exílio. (Cf. Is 45,14) Nesta parte final, Miqueias continua as ameaças, voltando ao tema do processo que Javé vai abrir contra o seu povo. Quer arrancar do seu meio os falsos apoios humanos e o poderio bélico que sustentam a corrupção. No capítulo 7, ele ajuda a perceber que a injustiça é universal e termina falando de esperança (Is 7,8-26). 5. Temas principais de Miqueias Miqueias é um livro vibrante, pois traz a visão de um camponês que compartilhou profundas experiências de Deus e que viveu muito atento à realidade da sua época. É um trabalhador da roça, um sábio, um homem de Deus que profetiza no campo e na cidade. O livro de Miqueias tem semelhanças com o de Amós, que era também um profeta do campo e foi profetizar no reino do Norte, um pouco PNV 339 9
antes de Miqueias (786-746 a.c.). Usando com muita criatividade símbolos e metáforas, ele fala sobre suas experiências de Deus e da sua visão da realidade, denunciando aos governantes e aos falsos profetas pelos crimes realizados tanto na Samaria como em Jerusalém. Com audácia e clareza, Miqueias mostra as consequências desses delitos na vida do povo. 6. Denúncias e anúncios intercalados Miqueias alterna denúncias de idolatria, corrupção, violência e roubo com anúncios de salvação, libertação e mudanças. Dessa forma, faz críticas muito fortes sem levar o povo à desesperança. Segue um pequeno exemplo desta interessante e sábia didática do livro de Miqueias: Ameaça: Escutem povos todos! Prestem atenção ó terra e tudo o que a povoa! Do seu templo santo o Senhor Javé seja testemunha contra vocês (1,2). Anúncio: Eu reunirei você todo, ó Jacó; recolherei o que sobrou de você, ó Israel! (2,12-13). Denúncia: Escutem bem, chefes de Jacó, governantes de Israel! Por acaso, não é obrigação de vocês apreciar e realizar o direito? (3,1). Vocês constroem Sião com sangue e Jerusalém com perversidade (3,10). Anúncio: Mas, você, Belém de Éfrata, tão pequena entre as principais cidades de Judá! É de você que sairá para mim aquele que há de ser o chefe de Israel! (5,2). Denúncia irônica: Será que milhares de carneiros ou a oferta de rios de azeite agradarão a Javé? Ou devo sacrificar o meu filho mais velho para pagar pelos meus erros, sacrificar o fruto das minhas entranhas para cobrir o meu pecado? (6,7). 10 PNV 339