AÇÃO DIRETA DE INCONSTITUCIONALIDADE Nº



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Transcrição:

AÇÃO DIRETA DE INCONSTITUCIONALIDADE Nº 3.112 Requerente: Partido Trabalhista Brasileiro PTB Requeridos: Presidente da República e Congresso Nacional Relator: Exmo. Sr. Ministro Ricardo Lewandowski Constitucional e Administrativo. Estatuto do Desarmamento. Referendo. Suposta ofensa formal e material à Constituição não caracterizada. Competência da União na matéria. Não violação aos princípios do devido processo legal, presunção de inocência, federalismo, liberdade de profissão, propriedade e direito adquirido. O Advogado-Geral da União vem, respeitosamente, nos autos da Ação Direta de Inconstitucionalidade em epígrafe, apresentar MEMORIAL, nos seguintes termos:

1. DO OBJETO DA AÇÃO Trata-se de ação direta proposta pelo Partido Trabalhista Brasileiro PTB, em face da Lei federal n.º 10.826, de 22 de dezembro de 2003 ( Estatuto do Desarmamento ), que dispõe sobre registro, posse e comercialização de armas de fogo e munição, sobre o Sistema Nacional de Armas SINARM, define crimes e dá outras providências. Opinando acerca do pedido, o Procurador-Geral da República manifestou-se pela sua procedência parcial, a fim de que seja declarada a inconstitucionalidade apenas dos parágrafos únicos dos arts. 14 e 15, da Lei nº 10.826 (fls. 394/410). 2. PRELIMINAR: Perda de objeto Segundo o Partido Trabalhista Brasileiro, o art. 35, 1º e 2º, da Lei n.º 10.826, de 2003, seria inconstitucional, porque (a) o Congresso Nacional não teria iniciativa para convocar referendo popular e (b) um projeto de lei não tem competência para autorizar a realização de referendo, em face do art. 2º, 2º, e art. 3º da Lei n.º 9.709, de 18 de novembro de 1998, a qual disciplina o regime jurídico do referendo e do plebiscito. Ocorre que, no dia 23 de outubro de 2005, conforme autorizado pelo Decreto Legislativo nº 780, de 7 de julho de 2005, do Senado Federal, realizou-se, com normalidade, a consulta popular acerca da entrada em vigor do art. 35, que tratava da proibição de venda de armas de fogo e munição em todo o território nacional, obtendo-se resultado negativo, retirando, portanto, toda e qualquer eficácia da norma. Nesse contexto, não

subsistem razões para a realização do controle concentrado no particular. 3. MÉRITO 3.1 - Da constitucionalidade formal do Estatuto do Desarmamento O requerente defende a inconstitucionalidade formal de toda a Lei n.º 10.826, de 2003, tendo em vista a iniciativa privativa do Presidente da República para o processo legislativo de leis que disponham sobre as matérias previstas no art. 61, 1, II, e, da Constituição. No caso dos autos, a lei em exame ao revogar a lei de criação do SINARM (Lei n.º 9.437, de 20 de fevereiro de 1997), manter sua estrutura e acrescer-lhe competências invadiu, a seu ver, a competência privativa do Presidente da República. Tais argumentos, contudo, revelam-se improcedentes na medida em que a lei ora impugnada resultou da consolidação de diversas proposições legislativas a respeito do tema (porte de arma de fogo), inclusive do Projeto de Lei nº 1.073, de 1999, de iniciativa do Poder Executivo. A inserção, no âmbito da Lei nº 10.826/2003, do Sistema Nacional de Armas - SINARM, decorreu exatamente do referido projeto de lei, o que torna evidente a ausência de inconstitucionalidade formal por vício de iniciativa, na forma pretendida pelo requerente. 3.2 - Da não extrapolação da competência legislativa da União Federal O Partido Trabalhista Brasileiro alegou que o art. 2º, X, e o art. 23, 1º e 2º, do estatuto, teriam violado o art. 24, V e 1º, da Constituição Federal, na medida em que a competência da União, em matéria afeta à legislação concorrente, limita-se à edição de normas gerais 1. 1 Art. 2º Ao Sinarm compete: (...)

Ocorre, porém, que o art. 21, VI, da Carta Magna, prevê que compete à União autorizar e fiscalizar a produção e o comércio de material bélico. Referida competência não vem dissociada da competência legislativa da União para regular a matéria, mormente considerando que a Administração somente pode atuar mediante a correspondente autorização legal (princípio da legalidade). Tal entendimento resta claro no magistério de IVES GANDRA DA SILVA MARTINS (op. cit., pg. 3), para quem: "A dificuldade, todavia, que se coloca é que, regido o país pelo princípio da legalidade, nenhuma entidade federativa pode agir, sem ter legislação anterior que a autorize, de tal forma que tanto o art. 21 quanto o art. 22 cuidam, em verdade, de competência para legislar sobre aquelas matérias. O mesmo se pode dizer no que concerne à competência comum e/ou concorrente, visto que a ação é sempre precedida de legislação..." A primeira conclusão que se extrai é que, sendo a competência do art. 21 exclusiva, somente a União poderá fiscalizar a produção e o comércio de material bélico. Sendo a competência para agir (competência administrativa) corolário lógico e necessário da competência para legislar (competência legislativa), conclui-se que somente a União poderá legislar sobre a produção e o comércio de material bélico. X cadastrar a identificação do cano da arma, as características das impressões de raiamento e de microestriamento de projétil disparado, conforme marcação e testes obrigatoriamente realizados pelo fabricante Art. 23. A classificação legal, técnica e geral, bem como a definição das armas de fogo e demais produtos controlados, de usos proibidos, restritos ou permitidos será disciplinada em ato do Chefe do Poder Executivo Federal, mediante proposta do Comando do Exército. 1º Todas as munições comercializadas no País deverão estar acondicionadas em embalagens com sistema de código de barras, gravado na caixa, visando possibilitar a identificação do fabricante e do adquirente, entre outras informações definidas pelo regulamento desta Lei. 2º Para os órgãos referidos no art. 6º, somente serão expedidas autorizações de compra de munição com identificação do lote e do adquirente no culote dos projéteis, na forma do regulamento desta Lei

No julgamento da ADI 2.035-MC, a Corte firmou esse entendimento de que a competência da União para autorizar e fiscalizar a produção e comércio de material bélico (art. 21, VI) afastaria a possibilidade de os estados-membros se imiscuírem nessa matéria como pretendia, naquele momento, o estado do Rio de Janeiro, ao promulgar lei vedando a comercialização de armas de fogo no estado sob o fundamento da competência concorrente para legislar sobre produção e consumo (art. 24, V). Alinhou-se a Corte, também naquela oportunidade, à corrente que interpreta a expressão material bélico da forma mais abrangente, para abarcar não só materiais de uso das Forças Armadas, mas também armas e munições cujo uso seja autorizado, nos termos da legislação aplicável, à população. Como se sabe, esse tema é da maior relevância, pois a segurança pública é item permanente da pauta política, como se pode observar em diversos julgados desta Corte que examinaram tentativas locais e até mesmo da União (ADI 2.290-MC, rel. min. Moreira Alves, Pleno, DJ 23.02.2001) de restringir a disseminação das armas de fogo. princípio federativo. Pelas mesmas razões também não há que se falar em violação ao 3.4 - Da conformidade com o Princípio da Presunção de Inocência O requerente invoca, ainda, a incompatibilidade do art. 14, parágrafo único, do art. 15, parágrafo único, e do art. 21 da Lei n. 10.826, de 2003, com o art. 5, LIV e LVII, da Constituição Federal, bem como com o princípio da intervenção mínima do Direito Penal e da proporção entre as penas 2. 2 Art. 14. (...)

Inicialmente, é preciso lembrar, segundo o magistério de FRANCISCO DE ASSIS TOLEDO 3, que a característica do ordenamento jurídico penal que primeiro salta aos olhos é a sua finalidade preventiva: antes de punir, ou com o punir, quer evitar o crime. (...). Com efeito, por meio da elaboração de tipos penais revela o legislador penal, de modo muito nítido e visível, aos que estejam submetidos às leis do País aquilo que lhes é vigorosamente vedado fazer ou deixar de fazer. E mais adiante destaca: Por outro lado, por meio da cominação de penas, para o comportamento tipificado como ilícito penal, visa o legislador atingir o sentimento de temor (intimidação) ou o sentimento ético das pessoas, a fim de que seja evitada a conduta proibida (prevenção geral). Ora, se a intimidação do Direito Penal está intrinsecamente ligada à política criminal adotada na sociedade e ao grau de repulsa que ela mesma demonstra em relação a certa conduta, é evidente que a cominação legal da pena e o respectivo procedimento penal em que se insere as figuras da fiança e da liberdade provisória, será mera conseqüência desses fatores. Logo, não há qualquer afronta ao princípio da razoabilidade quando a legislação apenas retrata o grau de reprovação de certas condutas pela sociedade. Diante desse contexto, fica evidenciado que se trata de questão de Parágrafo único. O crime previsto neste artigo é inafiançável, salvo quando a arma de fogo estiver registrada em nome do agente. Art. 15. (...) Parágrafo único. O crime previsto neste artigo é inafiançável. Art. 21. Os crimes previstos nos arts. 16, 17 e 18 são insuscetíveis de liberdade provisória. 3 TOLEDO, Francisco de Assis. Princípio básicos do direito penal. 5. ed. São Paulo: Saraiva, 2000, p. 3.

natureza não científica ou jurídica, mas eminentemente política. Do contrário, equivaleria impor restrição indevida à liberdade política e soberana do Parlamento, em situação na qual nosso sistema nada propugna. Daí, ser juridicamente plausível estabelecer a impossibilidade de liberdade provisória ou a inafiançabilidade de alguns dos tipos penais pelo estatuto previstos. Não se trata de violação ao princípio da presunção de inocência, por meio do qual ninguém será considerado culpado até o trânsito em julgado de sentença penal condenatória (art. 5º, LVII). 4. CONCLUSÃO Por todo o exposto, o presente MEMORIAL reitera a manifestação anterior e requer, preliminarmente, o não conhecimento da ação quanto ao art. 35, e, no mérito, a total improcedência do pedido formulado, declarando-se a constitucionalidade Lei federal n.º 10.826, de 22 de dezembro de 2003 ( Estatuto do Desarmamento ).

Brasília, de abril de 2007. JOSÉ ANTONIO DIAS TOFFOLI Advogado-Geral da União