CONSUMO DE LEITE NO BRASIL



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Transcrição:

CONSUMO DE LEITE NO BRASIL Sebastião Teixeira Gomes 1 A análise do abastecimento de leite deve contemplar os três agentes econômicos diretamente ligados ao setor leiteiro: consumidor, produtor e governo. A visão global do abastecimento viabiliza conclusões e sugestões compatíveis com a realidade do país. Neste artigo o foco da análise será o consumidor. Serão considerados os seguintes aspectos: a) poder de compra; b) consumo per capita e c) variação do dispêndio com leite e derivados em decorrência da variação da renda do consumidor. No que se refere ao poder de compra, os dados da Tabela 1 mostram significativa queda nas últimas décadas. Em média, nos anos 70, com um salário mínimo mensal podiase comprar 258 litros de leite, nos anos 80, 198 litros e nos dois primeiros anos da década de 90, apenas 186 litros. Em julho de 1991 com um salário mínimo (incluindo abono e variação da cesta básica) podia-se comprar 173 litros, sendo esse valor 46% do que se podia comprar em 1972. A taxa de crescimento negativa, de 2,82% ao ano, sintetiza o comportamento do poder de compra do consumidor nos últimos vinte e um anos. Se por um lado a queda do poder de compra penaliza o consumidor, por outro beneficia o produtor; porque o salário de seu empregado fica, relativamente, mais baixo. Em outras palavras, o produtor tem que vender menor quantidade de leite para pagar o salário de seus empregados; e isso se traduz em redução nos custos de produção. De acordo com esse raciocínio que, aparentemente, tem lógica, o produtor de leite estaria em melhor situação agora do que esteve na década de 70. Entretanto, a análise dos fatos mostra exatamente o contrário; isto é, o produtor de leite estava em melhor condição econômica na década de 70 do que está agora. Afinal, onde está a contradição? Ela está na perda do poder de compra do produtor em relação aos insumos industriais. A cada mês que passa, o produtor tem que vender maiores quantidades de leite para comprar as mesmas quantidades de medicamentos, rações, fertilizantes e outros fatores de produção. O que o produtor 1 Professor da Universidade Federal de Viçosa e consultor da EMBRAPA-CNPGL. Escrito em 27-08-91. 1

"ganhou" no custo da mão-de-obra perdeu, e perdeu muito, nos custos de insumos industriais. Apenas um exemplo: no período de 1980-90 a relação entre o preço do concentrado para vaca leiteira e o preço do leite, cresceu à taxa de 2% ao ano, isto é, 24% no período. Voltando à questão do consumidor, o segundo aspeto que merece destaque diz respeito ao consumo per capita de leite e derivados. Além de baixo, o consumo per capita manteve estagnado nos últimos dez anos. A análise dos dados da Tabela 2 revela que a produção brasileira de leite é suficiente apenas para o consumo médio de 250 ml/habitante/dia. Essa quantidade é, praticamente, a metade do que recomendam as instituições internacionais de nutrição humana. Com certeza, a análise desagregada por faixa de renda do consumidor conduz a conclusões mais dramáticas em relação ao consumo de leite e derivados; visto que 250 ml é o consumo médio de uma realidade com enormes variações. A Tabela 2 mostra, ainda, que, durante os anos 80, a produção per capita não cresceu. Em outras palavras, a produção total de leite cresceu com a mesma taxa que cresceu a população. Tal tendência não se traduziu em crise de abastecimento, em decorrência da recessão econômica que caracterizou a última década. Bastou um aumento de renda real do consumidor em 1986, proveniente do plano cruzado, para mostrar as deficiências da produção de leite do país. Vale registrar que a taxa de crescimento da produção per capita, não diferente de zero, corresponde ao comportamento de toda a década. Isto é, análises segmentadas podem levar à conclusões de que a produção per capita vem aumentando ou diminuindo, dependendo do subperíodo considerado. Entretanto, o que se recomenda em análise de tendência é considerar períodos maiores, evitando variações ocasionais. Finalmente, o aspecto que trata da variação do dispêndio com leite e derivados em decorrência da variação da renda do consumidor: diversos estudos já concluíram que, com o aumento da renda, os consumidores alteram seus hábitos alimentares. Isto é, passam a consumir mais frutas e alimentos protéicos e menos alimentos energéticos. Existem evidências de que o aumento da renda do consumidor provoca aumento, significativos, nos dispêndios com alimentos, tais como frutas, leite e derivados e carnes, bem como reduções nos dispêndios com feijão, milho e mandioca. No caso específico do leite e derivados, 2

aumentos de 10% da renda do consumidor provocam, em média, aumentos nos dispêndios de 11%. Isto significa que o aumento no consumo de leite e derivados cresce mais do que proporcional que o crescimento da renda do consumidor. A combinação dos argumentos: queda do poder de compra do consumidor, baixo consumo per capita e alta propensão ao consumo de leite e derivados, com a elevação da renda, conduz, naturalmente, à conclusão de que a demanda de leite e derivados tende a elevar-se, significativamente, com a retomada do processo de desenvolvimento econômico e a conseqüente elevação do poder de compra do consumidor. Essa conclusão é muito importante porque potencializa maior dependência do país ao mercado internacional, na medida em que o setor, descapitalizado como está, não terá forças para reagir, com a velocidade necessária, às demandas do mercado interno, quando chegar a tão esperada recuperação econômica. 3

Tabela 1 - Poder de compra do salário mínimo em relação ao leite tipo C, nos estados que não cobram ICMS Anos Litros/Mês 1970 329 1971 340 1972 373 1973 341 1974 267 1975 256 1976 298 1977 288 1978 302 1979 306 1980 244 1981 244 1982 287 1983 263 1984 249 1985 217 1986 298 1987 172 1988 180 1989 221 1990 164 1991(a) 194 Taxa anual de crescimento -2,82% (a) De janeiro a julho 1991. 4

Tabela 2 - Produção total e per capita de leite no Brasil Ano Produção (1.000 litros) Prod. per capita (l/hab./ano) 1980 11.162.254 90.73 1981 11.323.967 91.31 1982 11.461.215 91.97 1983 11.463.017 88.85 1984 11.932.908 90.33 1985 12.078.399 89.10 1986 12.491.809 90.20 1987 12.996.497 91.88 1988 13.521.881 93.59 1989 13.686.839 92.75 Taxa anual de crescimento 2.44 0 5