25 - Eijkman, o detetive do Beribéri



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Transcrição:

25 - Eijkman, o detetive do Beribéri Joffre Marcondes de Rezende SciELO Books / SciELO Livros / SciELO Libros REZENDE, JM. À sombra do plátano: crônicas de história da medicina [online]. São Paulo: Editora Unifesp, 2009. Eijkman, o detetive do Beribéri. pp. 237-240. ISBN 978-85-61673-63-5. Available from SciELO Books <http://books.scielo.org>. All the contents of this work, except where otherwise noted, is licensed under a Creative Commons Attribution-Non Commercial-ShareAlike 3.0 Unported. Todo o conteúdo deste trabalho, exceto quando houver ressalva, é publicado sob a licença Creative Commons Atribuição - Uso Não Comercial - Partilha nos Mesmos Termos 3.0 Não adaptada. Todo el contenido de esta obra, excepto donde se indique lo contrario, está bajo licencia de la licencia Creative Commons Reconocimento-NoComercial-CompartirIgual 3.0 Unported.

25 Eijkman, o Detetive do Beribéri A Christiaan Eijkman (1858-1930). descoberta da etiologia do beribéri por Eijkman, em 1889, encerra lances próprios de um enredo policial. O beribéri era conhecido, desde antes de Cristo, na China e países do Oriente. O primeiro relato científico no Ocidente se deve a Bontius (1592-1631), quem descreveu casos por ele observados no Sudeste asiático. Em seu trabalho, escrito em latim e publicado onze anos após sua morte, usou a denominação de beri-beri (Major, 1954, p. 537). O nome beribéri, adotado na terminologia médica, provém do cingalês (sinhalese), língua originária da Índia e atualmente uma das línguas oficiais do Ceilão (Sri Lanka), onde é falada por cerca de onze milhões de pessoas. Nessa língua, o superlativo é formado pela repetição da palavra. Beri quer dizer fraco e beri-beri, extremamente fraco (Katzner, 1986, p. 201). No Japão a doença era chamada kakke e acometia principalmente os marinheiros. O barão de Takaki, entre 1882 e 1884, conseguiu reduzir sua incidência na marinha japonesa melhorando a alimentação nas embarcações com a introdução de outros pratos além do arroz polido. 237

No século xix, a Indonésia era possessão holandesa e o governo holandês, preocupado com as doenças que grassavam em suas colônias, especialmente o beribéri, decidiu enviar uma comissão para estudar in loco o beribéri. Pensava-se que se tratasse de uma doença infecciosa e por isso os membros dessa comissão foram antes realizar um estágio em Berlim, no laboratório de Koch, para dominar as técnicas bacteriológicas em uso. Vivia-se uma época de novas e sucessivas descobertas de bactérias patogênicas, responsáveis por doenças há muito conhecidas e de causa ignorada. Lá encontraram-se com Christiaan Eijkman, que estivera anteriormente em Java e que se mostrou igualmente interessado no estudo do beribéri. Eijkman foi incorporado à comissão e voltou à antiga colônia holandesa em missão oficial. Em 1886 os membros da comissão desembarcaram na ilha de Java, em Batávia (hoje Jacarta, capital da Indonésia), onde desenvolveram suas pesquisas. Descreveram o curso clínico da doença, especialmente em relação às suas manifestações neurológicas, e isolaram um micrococo que acreditaram fosse o agente infeccioso causador do beribéri. Eles retornaram à Holanda, deixando Eijkman em Batávia para continuação das pesquisas (Carpenter, 2000, pp. 32-34). Eijkman foi indicado para diretor da Escola Médica de Java e prosseguiu suas observações sobre o beribéri. Logo percebeu que o micrococo isolado não poderia ser o agente causal do beribéri, pois não preenchia os postulados de Koch, ou seja, o isolamento do germe, a reprodução experimental da doença por ele causada e o seu reisolamento. Nesse ínterim, observou o aparecimento de uma doença no biotério do laboratório, onde os frangos apresentavam sinais de uma polineuropatia grave, caracterizada por fraqueza muscular, incapacidade de manter-se de pé ou de abrir as asas, inapetência e finalmente morte. Chamou a essa doença polyneuritis gallinarum e considerou-a equivalente ao beribéri. Inesperadamente, as aves acometidas da doença e que ainda estavam vivas começaram a melhorar e os sintomas desapareceram completamente. Eijkman, qual um detetive, começou a procurar uma explicação para essa recuperação espontânea das aves e teve sua atenção despertada para a alimentação. No período de manifestação da doença os frangos estavam sendo tratados com sobras da cozinha dos oficiais do hospital militar, onde se usava arroz polido da melhor qualidade. A melhora e recuperação dos frangos 238

havia coincidido com a mudança na ração. Houve troca de cozinheiro e o novo cozinheiro entendeu que era um desperdício destinar alimentos da cozinha dos oficiais para galináceos, que passaram, então, a receber alimentos de pior qualidade, inclusive arroz despolido. Como contraprova de sua hipótese, Eijkman realizou o experimento decisivo: alimentou um grupo de frangos com arroz polido e outro grupo com arroz despolido. Somente as aves alimentadas com arroz polido desenvolveram polineurite. Na etapa seguinte, Eijkman isolou da cutícula do arroz uma substância solúvel na água e no álcool, a que chamou de princípio antineurítico. Com ela não só prevenia, como curava a polineurite dos frangos. Restava demonstrar que a causa do beribéri humano era a mesma da polineurite das aves. Eijkman foi informado de que em algumas prisões da colônia usava-se arroz polido e em outras arroz despolido. Os dados obtidos em 101 prisões que albergavam cerca de trezentos mil presos permitiram a Eijkman concluir que a prevalência do beribéri era trezentas vezes maior nas prisões que usavam o arroz polido em relação às que não o usavam (Minkoff, 1991, pp. 297-302). Eijkman admitiu a existência de uma toxina no arroz polido, a qual seria neutralizada pelo princípio antineurítico por ele isolado e este foi o seu único equívoco. Coube a Grijns, que sucedeu Eijkman na direção do laboratório em Batávia, a formular a teoria de que o beribéri seria causado, não por uma toxina, mas pela carência de uma substância existente na cutícula do arroz. A natureza química desta substância foi determinada em 1911 por Casimir Funk, quem cunhou a palavra vitamina, formada do latim vita, vida + amina, por ser um fator acessório da alimentação, essencial à vida. A vitamina contida na cutícula do arroz foi isolada por Jansen e Donath em 1926, que lhe deram o nome de aneurina, e finalmente sintetizada em 1936, simultânea e independentemente por Williams e Cline, nos Estados Unidos, e Andersag e Westphal, na Alemanha. Recebeu o nome de tiamina por conter enxofre em sua molécula (do grego thio, enxofre) (Villela, Bacila e Tastaldi, 1966, pp. 200-201). Christiaan Eijkman recebeu o prêmio Nobel em 1929 por seus trabalhos sobre o beribéri, juntamente com Frederick Hopkins, este último por suas pesquisas sobre os fatores acessórios da alimentação, que correspondiam às vitaminas. 239

No Brasil, as primeiras referências a uma doença identificada ao beribéri datam do final do século xviii e se devem a Alexandre Rodrigues Ferreira, naturalista baiano cognominado Humboldt brasileiro. Ferreira, em viagem pela região amazônica, registrou o encontro de enfermos acometidos de intensa fraqueza, perturbações circulatórias, edemas e polineurite (Santos Filho, 1991, p. 263). Silva Lima (1866, 1868 e 1869), um dos integrantes da chamada escola tropicalista baiana, estudou detalhadamente o beribéri na Bahia. Entre os anos de 1866 e 1869 publicou uma série de artigos na Gazeta Médica da Bahia, todos com o mesmo título: Contribuição para a História de uma Moléstia que Reina Atualmente na Bahia sob a Forma Epidêmica e Caracterizada por Paralisia, Edema e Fraqueza Geral. Descreveu o quadro clínico com grande riqueza de observações, estabeleceu o diagnóstico diferencial com a pelagra e registrou dados anatomopatológicos de necrópsia. Classificou o beribéri em três formas clínicas: forma polineurítica, forma edematosa e forma mista. Em 1872, Silva Lima reuniu todos os seus trabalhos sobre beribéri em um volume sob o título Ensaio sobre o Beribéri no Brasil, que se tornou um clássico da literatura médica brasileira. Após os estudos de Silva Lima, seguiram-se muitas outras publicações de autores brasileiros sobre o beribéri. Referências Bibliográficas Carpenter, K. J. Beriberi, White Rice and Vitamin B. Berkeley, University Press, 2000. Katzner, K. The Languages of the World. London, Routledge & Kegan Paul, 1986. Major, R. H. A History of Medicine. Oxford, Blackwell Scientific Publications, 1954. Minkoff, E. C. Christiaan Eijkman-1929. In Magill, F. N. The Nobel Prize Winners. Physiology or Medicine. Pasadena, Salem Press, 1991. Santos Filho, L. História Geral da Medicina Brasileira. São Paulo, Hucitec/Edusp, 1991. Silva Lima, J. F. Contribuição para a História de uma Moléstia que Reina Atualmente na Bahia sob a Forma Epidêmica e Caracterizada por Paralisia, Edema e Fraqueza Geral. Gazeta Médica da Bahia, 1, 1866, pp. 110-113, 125-128, 138-139; 3, 1868, pp.55-56, 85-87, 109-111; 3, 1869, pp. 133-135, 145-147. Villela, G.; Bacila, M. & Tastaldi, H. Bioquímica. Rio de Janeiro, Guanabara Koogan, 1966. 240