INFORME TÉCNICO 01/2013 Assunto Análise da minuta de Instrução Normativa Interministerial (INI) que visa estabelecer medidas de conservação para as espécies de tubarões capturadas com espinhel horizontal de superfície. Escopo da minuta Proibir a retenção a bordo, transbordo, desembarque, armazenamento e venda das seguintes espécies de tubarão: tubarão-raposa (Alopias superciliosus), tubarão galhabranca-oceânico (Carcharhinus longimanus), tubarão lombo-preto (Carcharhinus falciformis) e tubarões martelo (família Sphyrnidae); a todas as embarcações autorizadas para a modalidade de espinhel horizontal (superfície) para operação na ZEE brasileira e Águas internacionais. Antecedentes A minuta foi enviada ao CONEPE no dia 4.01.2013 pela Secretaria Executiva do CPG- Atuns conforme Encaminhamento 04 da 2ª Reunião Ordinária realizada nos dias 19 e 20 de dezembro: [CPG atuns 02 - ENC 04] Disponibilizar aos membros do CPG Atuns as minutas referentes ao instrumento legal para conservação dos tubarões pelágicos e para conservação de aves marinhas. O mesmo encaminhamento já havia sido deliberado na 1ª Reunião Ordinária do CPG-Atuns, realizada em abril de 2012 após apresentação por parte do MPA das recomendações da ICCAT, como segue: [ENC 01-11] Apresentar minutas para a internalização das recomendações ICCAT (REC 10-07, REC 10-08, REC 11-08 e REC 11-09). A REC 11-09 trata da conservação de aves marinhas e será abordada em outro Informe. Segundo a Secretaria Executiva do CPG-Atuns, a minuta da INI foi elaborada inicialmente pela Coordenação Geral de Planejamento e Ordenamento da Pesca Industrial Oceânica (SEPOP-MPA) e então submetida à análise do Subcomitê-Científico desse CPG. A versão disponibilizada já inclui as adequações recomendadas pelo Subcomitê-Científico. No caso do tubarão-raposa (Alopias superciliosus), a ICCAT adotou a recomendação com medidas para sua conservação em 2009 (REC 09-07). No Brasil, a captura e comercialização dessa espécie já se encontram proibidas através da Instrução Normativa nº 5, de 15 de abril de 2011, para todas as modalidades de pesca e não somente para a modalidade de espinhel de superfície. A Minuta em tela prevê a revogação da INI 5/2011, o que restringiria a sua abrangência somente ao espinhel de superfície.
Recomendações da ICCAT As recomendações da ICCAT são aprovadas nas reuniões anuais da Convenção e devem ser adotadas por todos os países signatários (partes contratantes, denominadas de CPC), incluindo o Brasil. As recomendações da ICCAT apresentadas na 1ª Reunião Ordinária do CPG-Atuns sobre medidas de conservação de tubarões a serem internalizadas pelo governo brasileiro foram as seguintes (na íntegra em anexo): REC 10-07 - Recomendação sobre a conservação dos tubarões galha-branca-oceânico capturados em associação às pescarias na zona da convenção da ICCAT. 1. As CPC proibirão a retenção a bordo, transbordo; desembarque, armazenamento, venda ou oferecer para venda qualquer parte ou a carcaça interia dos tubarões da espécie Carcharhinus longimanus. 2. As CPC registrarão, através de seus programas de observadores de bordo, o número de descartes e liberações desses tubarões, com indicação de seu estado (vivo ou morto) e comunicarão à ICCAT. REC 10-8: Recomendação sobre tubarões-martelo capturados em associação às pescarias geridas pela ICCAT. 1. As CPC proibirão a retenção a bordo, transbordo; desembarque, armazenamento, venda ou oferecer para venda qualquer parte ou a carcaça interia de tubarões-martelo da Família Sphyrnidae (exceto a espécie Sphyrna tiburo). 2. As CPC requererão aos barcos de sua bandeira que liberem com rapidez e ilesos, na medida do possível, os exemplares quando levados ao costado do barco. 3. Os tubarões-martelo que sejam capturados por CPC costeiras em desenvolvimento para consumo local estão isentos das medidas estabelecidas nos itens 1 e 2, desde que essas CPC enviem dados da Tarefa I e, se possível, da Tarefa II em conformidade com os procedimentos de comunicação estabelecidos pelo SCRS (Comitê Científico).... As CPC costeiras em desenvolvimento conforme este parágrafo, deveriam esforçarse em não aumentar suas capturas de tubarões-martelo. Estas CPC adotarão as medidas necessárias para garantir que os tubarões-martelo da Família Sphyrnidae (exceto a espécie Sphyrna tiburo) não sejam comercializados internacionalmente e notificarão à Comissão tais medidas. 4. As CPC exigirão que o número de descartes e liberações de tubarõesmartelo seja registrado indicando seu estado (morto ou vivo) e que seja comunicado à ICCAT de acordo com os requisitos de comunicação de dados da ICCAT. 5. As CPC implementarão, quando possível, pesquisas sobre os tubarõesmartelo para identificar potenciais áreas de criação...
6. Quando apropriado, a Comissão e suas CPC deveriam empreender esforços de criação e outras atividades de colaboração para respaldar a implementação efetiva desta recomendação, que inclui chegar a acordos de colaboração com outros organismos internacionais pertinentes. REC 11-8: Recomendação sobre a conservação do tubarão lombo-preto capturado em associação às pescarias geridas pela ICCAT. 1. As CPC exigirão aos barcos pesqueiros que arvorem sua bandeira e que participem de pescarias geridas pela ICCAT, que liberem todos os exemplares de tubarão lombo-preto (Carcharhinus falciformis) independentemente se estejam vivos ou mortos, e proibirão a retenção a bordo, transbordo; desembarque, armazenamento, venda ou oferecer para venda qualquer parte ou a carcaça interia de exemplares desta espécie. 2. As CPC exigirão aos barcos pesqueiros que arvorem sua bandeira que liberem com rapidez os tubarões ilesos, o mais tardar antes de colocar sua captura no porão de pescado... 3. As CPC registrarão através de seus programas de observadores o número de descartes e liberações de tubarões lombo-preto indicando seu estado (morto ou vivo) e o comunicarão à ICCAT. 4. Os exemplares de tubarão lombo-preto que sejam capturados por CPC costeiras em desenvolvimento para fins de consumo local estão isentos das medidas estabelecidas pelos parágrafos 1 e 2, sempre que essas CPC enviem dados da Tarefa I e, se possível, da Tarefa II em conformidade com os procedimentos de comunicação estabelecidos pelo SCRS. As CPC que não relataram dados de tubarões especificados por espécie, até 1º de julho de 2012, submeterão um plano para a melhora de sua compilação de dados sobre tubarões em nível de espécie a ser avaliado pelo SCRS e pela Comissão. As CPC costeiras em desenvolvimento conforme este parágrafo não incrementarão suas capturas de tubarão lombo-preto e adotarão as medidas necessárias para garantir que exemplares dessa espécie não sejam comercializados internacionalmente e notificarão à Comissão tais medidas. 5. Qualquer CPC que não comunique dados da Tarefa I para o tubarão lombopreto, em conformidade com os requisitos de comunicação de dados do SCRS, estará sujeita a disposições do parágrafo 1, até o momento que comunique tais dados. 6. A proibição de retenção prevista no parágrafo 1 não se aplica às CPC cujas leis internas requerem que se desembarquem todos os exemplares mortos, que os pescadores não obtenham nenhum benefício comercial da sua pesca e que incluam uma proibição para a pescaria de tubarão lombo-preto. 7. Em seus informes anuais, as CPC informarão à Comissão as ações empreendidas para implementar esta Recomendação através de sua legislação ou regulamentações internas, que incluam as medidas de acompanhamento, controle e vigilância que respaldem a implementação desta recomendação.
Análise A minuta de Instrução Normativa Interministerial (INI) para a adoção de medidas de conservação para os tubarões-martelo, tubarão-galha-branca e tubarão-lombo-preto segue compromissos internacionais assumidos no âmbito da Convenção Internacional para a Conservação de Atuns do Atlântico ICCAT. Essas espécies foram consideradas pela ICCAT em situação de risco devido ao impacto das pescarias realizadas na área da Convenção. As recomendações REC 10-07 e REC 10-08 foram adotadas pela ICCAT na 17ª Reunião Extraordinária da Comissão, realizada em 2010, enquanto que a recomendação REC 11-08 foi adotada na 22ª Reunião Ordinária da Comissão, realizada em 2011. De acordo com o Artigo VIII da Convenção, as recomendações passam a vigorar após 6 meses após a notificação aos países contratantes, o que ocorrem geralmente no final do respectivo ano da adoção de recomendações. Portanto, o Brasil está atrasado no que tange à internalização dessas medidas de conservação de tubarões, no âmbito da ICCAT. No caso das medidas de conservação recomendadas pela ICCAT para tubarõesmartelo (REC 10-08), existe possibilidade de estados costeiros em desenvolvimento permitirem a captura direcionada ao consumo local. Contudo, esta exceção fica condicionada ao envio à ICCAT de dados detalhados sobre captura das espécies de tubarão-martelo. A Tarefa I (Task I) consiste no relatório de dados por viagem das frotas que operam nas pescarias gerenciadas pela ICCAT incluindo a captura por espécie desembarcada e descartada, enquanto que a Tarefa II (Task II) consiste no relatório de amostragens de tamanho/comprimento de cada espécie de interesse da ICCAT. A inexistência de informações por parte das CPC sobre o efetivo cumprimento das recomendações que proíbem a retenção de tubarões, após três anos em vigor, resultou em uma nova recomendação adotada na 18ª Reunião Extraordinária, realizada em novembro de 2012 no Marrocos. A recomendação REC 12-05 determina a todas as CPC que submetam à ICCAT antes da reunião anual de 2013, detalhes sobre a respectiva implantação e cumprimento das medidas de conservação e de manejo de tubarões. Em Santa Catarina, o impacto dessas proibições sobre a pescaria de espinhel de superfície, direcionada tanto ao espadarte como aos atuns, não parece ser significante. Considerando dados de desembarque disponibilizados pela UNVALI (www.univali.br/gep) no período de 2001 a 2012, os tubarões-martelo representaram em média 2,55% do peso desembarcado, enquanto que o tubarão lombo-preto representou a média inferior a 0,5% ao ano. Não há registros de desembarques de tubarão-galha-branca no período analisado. Se forem considerados os valores de venda, é provável que a participação desses tubarões na renda da produção seja ainda menos expressiva. Por outro lado, essas espécies de tubarão tem recebido crescente atenção por parte do movimento ambientalista e do governo brasileiro. Apesar de não serem reconhecidos como peixes ameaçados de extinção pela IN MMA 5/2004, o ICMBio avaliou o estado de conservação dos elasmobrânquios em 2011, indicando preliminarmente que as espécies de tubarão-martelo (Sphyrna lewini e Sphyrna zyganena) estariam criticamente ameaçados,
enquanto que o e tubarão-galha-branca estaria em estado vulnerável. Nessa avaliação não há referência ao tubarão-lombo-preto, porém todas as espécies do gênero Carcharhinus aparecem com algum grau de risco, sendo assim consideradas aptas a integrar a Lista Nacional Oficial das Espécies da Fauna Brasileira Ameaçadas de Extinção, juntamente com os tubarões-martelo. Assim, todas essas espécies teriam sua captura e comercialização proibida, independente da modalidade de pesca empregada. Outro indicativo da intenção do governo brasileiro em restringir a captura de tubarões-martelo e do tubarão-galha-branca é a proposta apresentada pelo País para inclusão no Apêndice II da CITES (Convenção Internacional sobre Comércio de Espécies Ameaçadas da Fauna e Flora Selvagem), o que será votado em plenária da Convenção em março de 2013 (http://www.cites.org/eng/cop/16/). O Apêndice II relaciona espécies cujo comércio internacional deve ser estritamente controlado, através de autorização da CITES para serem exportadas por países que comprovem que na há risco para a sobrevivência dessas espécies na natureza. Conclusão O Brasil, na condição de país membro da ICCAT, deve cumprir as recomendações aprovadas no âmbito da Comissão, não cabendo ao setor questionar as medidas de conservação recomendadas para o tubarão-galha-branca e o tubarão-lombo-preto. No caso dos tubarões-martelo, se há interesse em evitar que sua pesca seja proibida alegando a exceção prevista na Recomendação 10-08, caberia em primeira instância questionar ao Ministério da Pesca sobre a situação de envio das Tarefas I e II referentes às capturas de tubarão-martelo nos anos de 2011 e 2012. Por outro lado, o Brasil já tomou medidas efetivas para redução do esforço de pesca sobre o tubarãomartelo, ao proibir a pesca com redes de emalhar de superfície, atendendo em parte as exigências da ICCAT para países em desenvolvimento continuarem a pescar tubarõesmartelo. É importante alertar para a possibilidade de existir pressões por parte do Ministério do Meio Ambiente no sentido de ampliar a abrangência das medidas de conservação para os tubarões martelo, galha-barca e lombo-preto a todas as pescarias brasileiras, não somente ao espinhel de superfície, a exemplo do que ocorreu com o tubarão-raposa. O caso em tela demonstra a necessidade de o setor produtivo participar de forma efetiva da representação brasileira na ICCAT, participando das discussões sobre os posicionamentos do Brasil de forma antecipada às reuniões da Comissão e tendo representantes inseridos na delegação nacional. O Comitê Permanente de Gestão de Atuns e Afins (CPG Atuns) se coloca como o fórum mais adequado para essa participação, que em sua 2ª Reunião Ordinária, realizada em dezembro de 2012, deliberou os seguintes encaminhamentos:
[CPG atuns 02 - ENC 06] Disponibilizar as informações e dados enviados à ICCAT em 2012 através de link no site do MPA. Responsável: MPA. Prazo: 28 de fevereiro de 2013. [CPG atuns 02 - ENC 07] Promover a participação do setor produtivo nas reuniões da ICCAT como membros da delegação brasileira. Responsável: MPA. Prazo: 30 dias antes de cada reunião da ICCAT.
DATA XX / XX / 2012 PÁGINA: XXXX Ministério da Pesca e Aquicultura INSTRUÇÃO NORMATIVA INTERMINISTERIAL N. X,DE X DE X DE 2012. O MINISTRO DE ESTADO DA PESCA E AQUICULTURA e a MINISTRA DE ESTADO DO MEIO AMBIENTE no uso de suas atribuições, e tendo em vista o disposto na Lei n 10.683, de 28 de maio de 2003, alterada pela Lei no 11.959, de 29 de junho de 2009, no Decreto no 6.981, de 13 de outubro de 2009 e na Portaria Interministerial MPA/MMA no 2, de 13 de novembro de 2009, e o que consta no Processo no XXXXX.XXXXXX/XXXX-XX, resolvem: Art. 1º Estabelecer medidas de conservação para as espécies de tubarões capturadas com espinhel horizontal de superfície nas pescarias brasileiras. Esta norma é válida para as embarcações com a seguinte Permissão de Pesca Principal: I. MODALIDADE: espinhel horizontal (superfície); ESPÉCIE ALVO: atuns; ÁREA DE OPERAÇÃO: Mar territorial, ZEE, e Águas internacionais. II. MODALIDADE: espinhel horizontal (superfície); ESPÉCIE ALVO: espadarte; ÁREA DE OPERAÇÃO: Mar territorial, ZEE, e Águas internacionais. III. MODALIDADE: espinhel horizontal (superfície) - com isca-viva; Espécie Alvo: dourado; ÁREA DE OPERAÇÃO: Mar territorial S/SE, ZEE S/SE, e Águas internacionais. IV. MODALIDADE: Espinhel horizontal (superfície); ESPÉCIE ALVO: dourado; ÁREA DE OPERAÇÃO: Mar territorial N/NE, ZEE N/NE, e Águas internacionais. Art. 2º É proibido para as pescarias que trata o art. 1º, a manutenção a bordo, transbordo, desembarque, armazenamento, venda, ou oferecer para a venda qualquer parte da carcaça ou a carcaça inteira das seguintes espécies de tubarão: a) tubarão-raposa (Alopias superciliosus), b) tubarão galha-branca-oceânico (Carcharhinus longimanus), c) tubarões martelo (família Sphyrnidae), e d) tubarão lombo-preto (Carcharhinus falciformis).
DATA XX / XX / 2012 PÁGINA: XXXX Ministério da Pesca e Aquicultura Art. 3º todas as capturas de tubarões deverão ser reportadas nos Mapas de Bordo oficiais na forma do disposto na Instrução Normativa Interministerial no 26, de 19 de julho de 2005. Art. 4º Os proprietários, armadores ou arrendatários das embarcações de que trata o art. 1º terão um prazo de 90 (noventa) dias, contados a partir da data da publicação desta Instrução Normativa, para adequação a disposto nesta norma. Art. 5º As operações de pesca, realizadas pelas embarcações que trata o Art. 1º, em desacordo com as disposições contidas nesta Instrução Normativa é considerada Pesca Ilegal e os infratores ficam sujeitos às sanções previstas na Lei nº 9.605, de 12 de fevereiro de 1998 e no Decreto nº 6.514, de 22 de julho de 2008, sem prejuízo de outras cominações legais. Art. 6º Esta Instrução Normativa entra em vigor na data de publicação, revoga-se a Instrução Normativa Interministerial (MPA/MMA) nº 5, de 15 de abril de 2011. MARCELO CRIVELLA Ministro da Pesca e Aquicultura IZABELA TEIXEIRA Ministra de Estado do Meio Ambiente