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Transcrição:

FORMAÇÃO CONTINUADA EM LÍNGUA PORTUGUESA ROTEIRO DE ATIVIDADES 9º ANO 4º BIMESTRE AUTORIA GISELLA DA COSTA SANTANNA Rio de Janeiro 2012

TEXTO GERADOR I MEMÓRIAS PÓSTUMAS DE BRÁS CUBAS Algum tempo hesitei se devia abrir estas memórias pelo princípio ou pelo fim, isto é, se poria em primeiro lugar o meu nascimento ou a minha morte. Suposto o uso vulgar seja começar pelo nascimento, duas considerações me levaram a adotar diferente método: a primeira é que eu não sou propriamente um autor defunto, mas um defunto autor, para quem a campa foi outro berço; a segunda é que o escrito ficaria assim mais galante e mais novo. Moisés, que também contou a sua morte, não a pôs no introito, mas no cabo: diferença radical entre este livro e o Pentateuco. Dito isto, expirei às duas horas da tarde de uma sexta-feira do mês de agosto de 1869, na minha bela chácara de Catumbi. Tinha uns sessenta e quatro anos, rijos e prósperos, era solteiro, possuía cerca de trezentos contos e fui acompanhado ao cemitério por onze amigos. Onze amigos! Verdade é que não houve cartas nem anúncios. Acresce que chovia peneirava uma chuvinha miúda, triste e constante e tão triste, que levou um daqueles fiéis da última hora a intercalar esta engenhosa ideia no discurso que proferiu à beira de minha cova: - Vós, que conhecestes, meus senhores, vós podeis dizer comigo que a natureza parece estar chorando a perda irreparável de um dos mais belos caracteres que têm honrado a humanidade. Este ar sombrio, estas gotas do céu, aquelas nuvens escuras que cobrem o azul como um crepe funéreo, tudo isso é a dor crua e má que lhe rói à natureza as mais íntimas entranhas; tudo isso é um sublime louvor ao nosso ilustre finado. Bom e fiel amigo! Não, não me arrependo das vinte apólices que lhe deixei. E foi assim que cheguei à cláusula dos meus dias; foi assim que me encaminhei para o undiscovered country de Hamlet, sem as ânsias nem as dúvidas do moço príncipe, mas pausado e trôpego como quem se retira da tarde do espetáculo. Tarde e aborrecido. Viram-me ir umas nove ou dez pessoas, entre elas três senhoras, minha irmã Sabina, casada com o Cotrim, a filha, - um lírio do vale, - e...tenham paciência! Daqui a pouco lhes direi quem era essa terceira senhora. Contentem-se de saber que essa anônima, ainda que não parenta, padeceu mais do que as parentas. É verdade, padeceu mais. Não digo que se carpisse, 2

não digo que se deixasse rolar pelo chão, convulsa. Nem meu óbito era coisa altamente dramática... Um solteirão que expira aos sessenta e quatro anos, não parece que reúna em si todos os elementos de uma tragédia. E dado que sim, o que menos convinha a essa anônima era aparentá-lo. De pé, à cabeceira da cama, com os olhos estúpidos, a boca entreaberta, a triste senhora mal podia crer na minha extinção. Morto! Morto! dizia consigo. E a imaginação dela, como as cegonhas que um ilustre viajante viu desferirem o vôo desde o Ilísso às ribas africanas, sem embargo das ruínas e dos tempos, - a imaginação dessa senhora também voou por sobre os destroços presentes até às ribas de uma África juvenil... Deixá-la ir; lá iremos mais tarde; lá iremos quando eu me restituir aos primeiros anos. Agora, quero morrer tranquilamente, metodicamente, ouvindo os soluços das damas, as falas baixas dos homens, a chuva que tamborila nas folhas de tinhorão da chácara, e o som estrídulo de uma navalha que um amolador está afiando lá fora, à porta de um correeiro. Juro-lhes que essa orquestra da morte foi muito menos triste do que podia parecer. De certo ponto em diante chegou a ser deliciosa. A vida estrebuchava-me no peito, com uns ímpetos de vaga marinha, esvaía-se-me a consciência, eu descia à imobilidade física e moral, e o corpo fazia-se-me planta, e pedra, e lodo, e coisa nenhuma. Morri de uma pneumonia, mas se lhe disser que foi menos a pneumonia, do que uma ideia grandiosa e útil, a causa da minha morte, é possível que o leitor me não creia, e todavia é verdade. Vou expor-lhe sumariamente o caso. Julgue-o por si mesmo. ATIVIDADES DE LEITURA QUESTÃO 1 A partir da leitura do trecho destacado, determine o significado da palavra sublinhada, que pode ser entendido pelo contexto em que ela aparece. Moisés, que também contou a sua morte, não a pôs no introito, mas no cabo: diferença radical entre este livro e o Pentateuco. 3

usadas. Inferir o significado de palavras desconhecidas a partir do contexto em que são começo. O aluno deverá entender e determinar, através do contexto, que a palavra significa ATIVIDADE DE USO DA LÍNGUA QUESTÃO 2 Os sinais de pontuação são utilizados na escrita para representar pausa, entonação, destaque etc. Uma outra função importante desses sinais é ligar informações no texto. Em qualquer um desses usos, a pontuação serve para direcionar a interpretação do leitor conforme a intenção do autor. Então, pensando na importância dos sinais de pontuação no encadeamento das informações do texto, observe o quadro em seguida: Tarde e aborrecido. Viram-me ir umas nove ou dez pessoas, entre elas três senhoras, minha irmã Sabina, casada com o Cotrim, a filha, - um lírio do vale, - e...tenham paciência! Com qual objetivo o autor fez uso dos travessões neste trecho? Reconhecer a importância dos conectivos e da pontuação no encadeamento das orações. 4

Esta questão visa levar o aluno a ter mais atenção em relação aos sinais de pontuação, tanto no momento em que analisa um texto quanto no momento em que elabora um texto. No exemplo dado, espera-se que o aluno perceba que a informação central é a estima que Brás Cubas tem pela sobrinha. Este é o dado relevante e imprescindível no trecho. As informações intercaladas entre travessões apresentam opiniões do narrador sobre a informação central que descreve Brás Cubas. O uso dos travessões dá destaque aos pontos de vista do narrador e permite que seja mantida a coesão textual, mesmo com um certo rompimento da linearidade da frase. É interessante que a turma seja levada a observar que, se houvesse troca dos sinais de pontuação, haveria mudança no papel das orações que estão intercaladas. TEXTO GERADOR II GENEALOGIA Mas, já que falei nos meus dous tios, deixem-me fazer aqui um curto esboço genealógico. O fundador da minha família foi um certo Damião Cubas, que floresceu na primeira metade do século XVIII. Era tanoeiro de ofício, natural do Rio de Janeiro, onde teria morrido na penúria e na obscuridade, se somente exercesse a tanoaria. Mas não; fez-se lavrador, plantou, colheu, permutou o seu produto por boas e honradas patacas, até que morreu, deixando grosso cabedal a um filho, o licenciado Luís Cubas. Neste rapaz é que verdadeiramente começa a série de meus avós dos avós que a minha família sempre confessou, - porque Damião Cubas era afinal de contas um tanoeiro, e talvez mau tanoeiro, ao passo que Luís Cubas estudou em Coimbra, primou no Estado, e foi um dos amigos particulares do vice-rei Conde da Cunha. Como este apelido de Cubas lhe cheirasse excessivamente a tanoaria, alegava meu pai, bisneto de Damião que o dito apelido fora dado a um cavaleiro, herói nas jornadas da 5

África, em prêmio da façanha que praticou, arrebatando trezentas cubas aos mouros. Meu pai era homem de imaginação: escapou à tanoaria nas asas de um calembour. Era um bom caráter, meu pai, varão digno e leal como poucos. Tinha, é verdade, uns fumos de pacholice; mas quem não é um pouco pachola nesse mundo? Revela notar que ele não recorreu à inventiva senão depois de experimentar a falsificação; primeiramente, entroncou-se na família daquele meu famoso homônimo, o Capitão-mor, Brás Cubas, que fundou a vila de S. Vicente, onde morreu em 1592, e por esse motivo é que me deu o nome de Brás. Opôs-selhe, porém, a família do capitão-mor, e foi então que ele imaginou as trezentas cubas mouriscas. Vivem ainda alguns membros de minha família, minha família, minha sobrinha Venância, por exemplo, o lírio do vale, que é a flor das damas do seu tempo; vive o pai, o Cotrim, um sujeito que... Mas não antecipemos os sucessos; acabemos de uma vez com o nosso emplasto. ATIVIDADES DE LEITURA QUESTÃO 3 Observe a palavra marcada no trecho destacado abaixo, e com a ajuda do dicionário, determine o significado da palavra. Era um bom caráter, meu pai, varão digno e leal como poucos. Tinha, é verdade, uns fumos de pacholice; mas quem não é um pouco pachola nesse mundo? Usar adequadamente o dicionário. 6

O aluno deverá encontrar o significado da palavra, com a ajuda do dicionário, que se encaixe no contexto do trecho destacado. Significado esse que seria o de indivíduo bom, simples, ingênuo para quem está tudo bem; bonachão. ATIVIDADE DE USO DA LÍNGUA QUESTÃO 4 Observe a palavra destacada no trecho abaixo e faça a distinção se há erro ortográfico na referida palavra. Justifique sua resposta. Mas, já que falei nos meus dous tios, deixem-me fazer aqui um curto esboço genealógico. Identificar e corrigir dificuldades ortográficas recorrentes. O aluno deverá ter conhecimento que o texto de Machado de Assis lido foi escrito em uma época antiga por isso a grafia das palavras era diferente, segundo a atual norma da Língua Portuguesa a palavra se escreve assim: dois. É um numeral na classificação sintática. PRODUÇÃO TEXTUAL QUESTÃO 5 Após a leitura do livro Memórias Póstumas de Brás Cubas e após a turma ter assistido ao filme, o resumo da história deverá ser produzido e entregue ao professor. 7

Produzir resumos de romances lidos. Os alunos deverão ter o conhecimento da história lida e assistida, por meios de ferramentas fornecidas pelo professor, e assim produzir o texto do resumo do romance. 8