Luto Foi da plumagem dum ventre feminino que mais que uma nota musical bem afinada e tocada, meu mundo desceu e levou tudo de mim, as memorias, o passado, as cicatrizes as fendas que os abutres tinham feito em mim. Foi dum sonho bem sonhado, duma utopia bem idealizada que começou tudo, começou dum pequeno oásis e nasceu um pântano de esperanças no meu deserto. Todas cartas que havia queimado na nostalgia se reavivaram, tornaram ao meu mundo como uma população de anjos e arcanjos, dos mais senis sentimentos até aos mais jovens sentires nasceram flores de oiro, lagos de prata e oásis de diamante. Meu céu tomou a água benta, e a sagrada gota dos deuses
africanos, reconstruíram-se mitos e verdades, lendas e virtudes, amores e coragem, dor e vontade de sofrer. Depois de tantos dias datados na data, no passado, depois de tanto sofrimento sofrido no anterior passado, visto neste de agora um novo presente, bem-humorado e cheio de todos os vazios prestáveis. Assim escreveu aos seus entes não queridos e queridos o madala Tsembissa antes da sua morte, todos os vestígios apontam que foi no seu último minuto de respiração, e esses ditos parecem-me que lhe tenham servido de consolação, pois mais do que ele próprio, já sabia o que ninguém mais sabia, sabia da sua hora de partida, da sua hora de esquecer a vida como Jesus sentiu-se sobre a cruz na mão dos judeus, e estava feliz por isso, não seria um Jesus que salvaria a humanidade dos pecados, mas salvaria a sua alma dos demónios da vida. Parecia tardia no seu olhar agastado a sua ida, havia cansado os minutos e
depois as horas por tanto esperar aquele dia, data da sua ida aos últimos lugares da sua doentia respiração. Vislumbrava-se nas suas rugas o cansaço pela vida, a sua respiração era como de um anfíbio no deserto, forçava-se a respirar, pois a idade lhe negava a livre respiração. Não só era a idade que estava em conta, estavam lá denteadas no interior do coração cicatrizes da sua maior desilusão. Quando o tambor rachou e perdeu o ritmo das vozes do amor, sentiu-se humilhado por não se sentir capaz de sernatar, fazer serenatas a sua sonhada Isabel. Mesmo por baixo das tumbas o seu pobre coração pulsava ao ritmo cadenciado da respiração terrena da Isabel. Esse amor seu pela Isabel preexistia alem da vida e da própria morte. Mas, a nenhum deus teve ousadia de ir reclamar este amor impossível, que se tornou impossível desde o primeiro minuto que cruzou os olhos elegantes da Isabel. Ele amou aquela mulher dos fios do cabelo ate as
unhas, mas ele negou-se a ser amado, negou que soubessem que se apaixonara como um homem incomum. Não queria que alguém soubesse da sua fragilidade, queria ser a maior pedra humana que já existiu, sem sentimentos, sem paixões e ilusões cá para cá. As notícias correram muito rápido, outras chegavam de avionetas, de helicópteros, rádios comunitários, dos vizinhos e de todas partes do mundo que o mais dos nobres seres havia despenhado na cova de areia, e as formigas já estavam prontas para assistir o seu funeral. Vovó Tsembissa morreu, esta era a polémica notícia das mídias e fofocas da praça, até os gatos miaculavam em volta da notícia, os pássaros, as hienas, os lobos e todas as espécies animais davam o seu parecer acerca da morte do madala Tsembissa. Tudo indicou que a profecia se consumara, só com a vinda de uma nova guerra que o madala perderia a respiração e logo no primeiro
tiro dado, caiu sobre o seu estômago a bala dos matadores e acabou com tudo. Acabou com as esperanças dos mais novos que ansiavam ver o luar branco descendo os capinzais da Mozacasa, Moçambique.