1 PsicoDom, v.2, n.2, jun. 2008 A Clínica do Amor Jorge Sesarino 1... um egoísmo forte constitui uma proteção contra o adoecer, mas num último recurso devemos começar a amar afim de não adoecermos, e estamos destinados a cair doentes se, em conseqüência da frustração, formos incapazes de amar. (FREUD, 1914) Uma pequena minoria de pessoas acha-se capacitada, por sua constituição, a encontrar felicidade no caminho do amor. (FREUD, 1914) O amor é o tema central da existência humana. Falar do amor é falar da essência da vida, e isso nos torna vulneráveis porque falar do amor é falar de uma experiência singular. O amor é antes de tudo uma experiência de linguagem. Da filosofia à religião, da literatura à poesia e à música, o amor está sempre presente sob as mais diversas formas de discursos e de pensamentos. O amor é o laço social, é a base de toda forma de relação social, da família, do namoro, da amizade etc. Do amor se fala, se conta, se canta e se encanta. Em todos os tempos, em todos os lugares, em todos os povos, o amor está presente. É o mistério humano. O amor fascina e faz sina. Quem não se deslumbra ao falar da preciosidade do amor e do seu poder de transformação? Mas o que causa o amor e o que causa o ódio? Existe amor sem ódio? Qual a relação entre amor e ódio? Qual a relação entre o amor e a pulsão? Como se articulam amor e desejo? O que é pior: amar sem ser amado ou ser amado e não poder amar? Qual a relação entre o amor e a felicidade? Seríamos capazes de amar se não existisse a palavra amor? O que a psicanálise tem a dizer sobre o amor? Na filosofia, o amor resulta da tensão que o bem causa no humano. Assim, para Platão, o amor é o entusiasmo através do qual a alma, sensível à atração da beleza perfeita, tende à imortalidade. O amor não é beleza nem bondade, nem perfeição ou 1 Psicólogo, psicanalista, mestre em Antropologia pela UFPR, doutor em psicologia pela Universidade de Liège, Bélgica; professor da Faculdade Dom Bosco e da UTP.
2 acabamento; é por essência um élan, não somente em direção à depuração do ser, mas em direção à depuração do Bem. Na religião, o amor se apresenta em duas categorias, o amor humano, sensual, carnal, voltado aos objetos; e o amor divino, espiritual, que visa à doação e à adoração. Santo Agostinho (1989) afirmou que o amor é um dom de Deus, e que é o amor de Deus que nos conduz a amar. É porque Deus nos ama que podemos amar a nós mesmos e aos outros. O amor é um dom divino, sendo todo o amor divino. Por isso propõe a ética do amor como a ética da liberdade, que pode ser resumida numa frase: ama e faz o que quiser. Santo Agostinho concilia amor e desejo, como propõe Freud ao falar de cura em análise e, como aponta Lacan, ao afirmar que somente o amor faz suplência à falta. Freud, como Empédocles, entende o amor e o ódio como forças constitutivas do movimento universal. Para Freud, o amor é a matéria-prima da análise. O que torna o analisando capaz de entender as palavras que o analista lhe diz, é o amor na transferência. É com esse material que se faz análise. Foi a partir dos fenômenos pessoais do tratamento que ele passou a usar o termo transferência. O amor na psicanálise se manifesta como amor de transferência e na transferência, como condição para a invenção de um novo amor. A psicanálise desloca o amor do campo da pulsão para o campo do discurso, situando o amor como conseqüência da incompletude e, portanto, articulado ao desejo. Lacan (1992), no Seminário VIII, sugere que a psicanálise teve seu surgimento a partir do encontro de um homem com uma mulher, Breuer e Ana O.: no começo da experiência analítica, vamos lembrar, foi o amor (LACAN, 1992, p. 8). Ele faz referência à difícil relação dos dois. À difícil experiência, ela batizou de talk-cure, cura pela fala, ou ainda, limpeza de chaminé (FREUD, 1980). Breuer não suportou a transferência amorosa da paciente, abandonou-a e partiu, com sua esposa, em viagem à Veneza, cujo resultado foi o nascimento de uma filha. O amor é um modo de sustentação do desejo e da relação do sujeito com o inconsciente, isso quer dizer que amamos com nosso inconsciente. O amor na
3 psicanálise se manifesta como amor de transferência, porque a transferência põe em causa o amor. Somente o amor de transferência permite a construção de um saber sobre a singularidade de uma história. A psicanálise é um discurso sobre o amor, pois nasceu de um discurso amoroso, o discurso de Ana O. Para Freud, é a ordem do amor que instaura o pai. No capítulo VII da Psicologia das massas e análise do ego, Freud (1980) chama de amor ao pai a primeira forma de identificação, também chamada de identificação primária. Em seu estudo Sobre o narcisismo: uma introdução, ele demonstra como o amor e o ódio resultam da relação de prazer e desprazer entre o eu e seus objetos. Freud (1980, p. 229) afirma que o protótipo de toda relação de amor é a experiência de uma criança que suga o seio da mãe. A partir daí, cada encontro com um objeto é, na realidade, um reencontro dele. Podendo-se entender com isso que todo objeto de amor é uma substituição de um objeto primordial, anterior à barreira do incesto, sendo o amor, uma substituição de um objeto recalcado, um amor de repetição. É de um primeiro amor que resulta o recalque e o inconsciente; logo, o amor traumatiza porque é impossível dar a ele o que lhe falta. Todavia, o amor resulta de um aprendizado que obedece a diversas etapas como o auto-erotismo, o narcisismo primário e o narcisismo secundário. Assim diz Freud (1980, p. 229): As crianças amam em primeiro lugar a si próprias, e apenas mais tarde é que aprendem a amar os outros e a sacrificar algo de seu eu aos outros. As próprias pessoas a quem uma criança parece amar desde o início, no começo são amadas pela criança porque esta necessita delas e não pode dispensá-las por motivos egoístas, mais uma vez. Somente mais tarde o impulso de amar se torna independente do egoísmo. É literalmente verdadeiro que seu egoísmo ensinou a amar. Freud considera que as paixões são, na verdade, ecos das lembranças do amor infantil. É o amor vivido na tenra infância que rege a vida de cada um. Dessa vivência resulta o que cada um será no futuro e o Complexo de Édipo seria a modulação da forma de cada um amar.
4 Freud afirma que todo objeto de amor é uma substituição de um objeto recalcado; assim, o amor seria uma forma de repetição. Uma clivagem do objeto do amor seria a causa de duas correntes amorosas, uma afetiva e outra sensual. A corrente sensual resultaria numa separação entre amor e desejo, onde o objeto seria ou superestimado ou degradado, levando a amar sem desejar e a desejar sem poder amar. Segundo Freud, uma pessoa somente poderia amar em conformidade com o tipo narcisista dela própria; isto é, em conformidade com ela mesma: o que ela própria foi, o que ela própria gostaria de ser, ou ainda, alguém que foi uma vez parte dela mesma. Ou então, poderia amar em conformidade com o tipo anaclítico; ou seja, com o tipo de ligação objetal, a mulher que a alimenta, o homem que a protege e a sucessão de substitutos que tomam o seu lugar. Freud descreve dois tipos de narcisismo, o primário e o secundário. O narcisismo primário está relacionado à função do eu ideal, matriz das identificações imaginárias. Ele toma a imagem do corpo como objeto de investimento libidinal e como primeiro objeto de amor, objeto sexual auto-erótico que inscreve o prazer no corpo. Esse é o tempo de uma vivência puramente narcísica, onde o desprazer não participa. O narcisismo secundário é marcado por uma relação de prazer e de desprazer entre o eu e seus objetos. Diferente do primeiro, ele é relacionado ao ideal do eu, matriz simbólica das identificações. Consiste em tomar o objeto como ideal e deslocar parte da libido do eu para o objeto amado, investindo-o simbolicamente. Essa relação inclui o outro. Uma vez que o corpo já está marcado pelo prazer, tornase instrumento de prazer e pode ser socializado no prazer partilhado com o outro. Esse prazer partilhado é o que Lacan chama de gozo fálico. Essa é a erótica freudlacaniana. Eros é um amor ao significante unário. Esse amor à imagem (Ürbild) permite que na ausência de um objeto, outros venham substituir.
5 Lacan aponta o lado cômico do amor: pensar que algum dia poderá ter um outro para si, a fazer um com o outro. O amor tende à união e o ódio tende à destruição. Mas não existe amor puro, a não ser o amor de Deus. O amor sempre comporta o seu oposto, o ódio. Por exemplo: na vida amorosa, no namoro, o outro é chamado a ocupar a posição de ideal, na medida em que não satisfaz, produz ódio. O amor envolve o eu na sua capacidade de estabelecer relação imaginária via narcisismo. Toda relação ao semelhante é marcada pela incidência do ideal narcisista e suas oscilações. Por um lado o amor é erotismo fundado na relação especular; por outro, é um dom simbólico na cadeia significante. O amor na sua vertente imaginária é narcísico, espelhamento da imagem de si mesmo no outro. No amor narcísico, a libido não reflui para os objetos, ela se encontra fixada na própria imagem idealizada, chamada de eu ideal. A ameaça de perda põe em risco a própria vida, porque o efeito do investimento libidinal no outro é maciço. O mortífero é desconhecer que ama a si mesmo no outro, que se crê ser seu objeto de amor, sua própria imagem. Segundo Freud, o amor supõe três posições: O amor não admite apenas um, mas três opostos. Além da antítese amar/odiar, existe a outra de amar/ser amado ; além destas, o amar e o odiar considerados em conjunto são o oposto da condição de desinteresse ou indiferença. A segunda dessas três antíteses, amar/ser amado, corresponde exatamente à transformação da atividade em passividade e pode remontar a uma situação subjacente, da mesma forma que no caso do instinto escopofílico. Essa situação é a de amar-se a si próprio, que consideramos como sendo o traço característico do narcisismo. Então, conforme o objeto ou o sujeito seja substituído por um estranho, o que resulta é a finalidade ativa de amar ou a passiva de ser amado ficando a segunda perto do narcisismo. Freud propõe que talvez cheguemos a uma melhor compreensão dos vários opostos do amar se refletirmos que nossa vida é como um todo que se rege por três polaridades, as antíteses sujeito/objeto, prazer/desprazer, e ativo/passivo. A função do sujeito nos mostra que amamos ao outro por nossa libido. Ama-se com a libido, por isso não amamos mais que nosso corpo, inclusive quando transferimos esse amor ao corpo do outro. Do ponto de vista do desejo, o corpo do outro, por
6 pouco que o ame vale pelo que lhe falta. Por isso a heterossexualidade é possível. A fronteira que separa o desejo do amor consiste no fato de que o desejo busca no outro mais o desejante que o desejável. Deseja-se o que falta. Desejo o outro como desejante e não como me desejando, pois sou eu o que deseja e desejando o desejo só me amo no outro, sou eu que amo. Lacan dedica o Seminário IV ao estudo das relações de objeto. Assim, retoma a tese de Freud de que não existe o objeto da necessidade, o que existe é a falta de objeto como condição para a existência humana. A necessidade, ao ser satisfeita, resulta insatisfeita, tornando-se demanda de amor de um objeto simbólico que é dom de amor, situando aí o nascimento do amor. A partir daí nada na vida é mais importante do que o amor. Lacan, no Seminário VIII, situa o amor como conseqüência da impossibilidade de completude. O amor seria uma suplência ao ser. No Seminário XX, afirma que a psicanálise só opera pela via do amor. A fórmula da transferência, SsS (sujeito suposto saber), não se distingue do amor àquele a quem suponho o saber, eu o amo (LACAN, 1985, p. 91). Lacan, no Seminário I, se refere à tríade amor ódio ignorância como as três paixões do ser, denominando-as de posições subjetivas primárias, figuras de transferência e vias de realização do ser. A via do amor, com seu ideal de fusão com o ser do outro, responde pelo eixo ambigüidade/condensação; a via do ódio, com seu apagamento do ser, responde pelo eixo da denegação/erro; e a via da ignorância, do indizível do ser, responde pelo eixo engano/recalque. Por exemplo, falamos sem saber o que dizemos. Não é algo que podemos aprender, é o que nos impede de cair no delírio do saber absoluto. Freud, cita um exemplo da paixão da ignorância, ao dizer que o neurótico demanda uma análise pelo sofrimento do sintoma, mas não quer pagar o preço do saber da castração. Em princípio, ele ama mais o seu sintoma do que a si mesmo, e por isso
7 não pode amar e sofre e adoece. Nada na vida é mais caro quanto a doença e a estupidez (Freud, 1913). Para Lacan, o amor é o encontro de dois saberes inconscientes. Amar é dar o que não se tem a quem não o é, isto é, ama-se um ser para além do que ele parece ser. O amor é dar o que não se tem, e só se pode amar fazendo-se como se não se tivesse, mesmo que se tenha. O amor como resposta implica o domínio do não ter. Dar o que se tem é a festa; não é o amor. O que se busca no amor é a parte para sempre perdida de si mesmo, constituída pelo fato de que ele não passa de um vivente sexual, mortal. Para Lacan, o amor é um acontecimento particular que ocorre a um sujeito frágil, falível e que é incitado à particularidade do seu ser na convivência com o outro. Trata-se de um objeto imaginarizado, que vem ocupar o lugar do vazio da falta. Supor que alguém tenha em si algo precioso que possa preencher o que lhe falta, leva o amante em direção ao amado. O amante espera do amado a possibilidade de recuperar a totalidade onde nada falta. Assim, amar é reconhecer e exaltar no outro o que ele próprio denega, olha e não pode ver. Um homem e uma mulher sentem-se atraídos e cumprem as alternativas de uma reciprocidade de amor sem saber qual é o conteúdo inconsciente que os move. A experiência do amor está sumamente ligada à experiência dos efeitos inconscientes. Os amantes no momento do amor, no tempo do amor, na situação de amor, na experiência ou prova de amor, não sabem o que lhes acontece, não sabem o que é isso que é como uma paixão. O que leva o amante em direção ao amado é supor que ele tenha dentro de si algo precioso que possa preencher o que lhe falta. Um parceiro causa algo no outro, toca de alguma forma o fantasma do outro, encarna-o na medida em que se apresenta como objeto que causa seu desejo. O amor necessita que esse objeto que falta seja encarnado numa pessoa, enquanto o desejo vai além da pessoa, visando sempre um objeto.
8 A experiência do amor está sumamente ligada à experiência dos efeitos inconscientes. A psicanálise é um discurso sobre o amor, porque a transferência põe em causa o amor que permite a construção de um saber sobre a singularidade de uma história. Lacan afirma que a análise só opera pela via do amor. A fórmula da transferência não se distingue do amor: àquele a quem suponho o saber, eu o amo (1985, p. 91). O amor necessita que esse objeto seja encarnado numa pessoa, enquanto que o que está em questão no desejo não é uma pessoa, mas o objeto. A psicanálise provoca uma mudança de posição diante do amor. Promove uma torção do desejo de reconhecimento ao reconhecimento do desejo para além do narcisismo com que o amor costuma se apresentar. Para Lacan, o amor é uma invenção que possibilita novos amores. O ato analítico é uma constante surpresa, pois o analista não tem certeza do que irá acontecer. Tem como meta o novo, o imprevisível, e caminha pela obscuridade. O amor, não mais como paixão, mas como dom ativo, visa sempre, para além da cativação imaginária, ao ser do sujeito amado, à sua particularidade. E por isso pode aceitar dele até muito longe as fraquezas e os rodeios, pode mesmo admitir os erros, mas há um ponto em que pára, situado a partir do ser quando o ser amado vai muito longe na traição de si mesmo e persevera na tapeação de si, o amor não segue mais. A demanda de análise é determinada pelo sofrimento presente no sintoma. Isso constitui um paradoxo porque o sujeito ao mesmo tempo quer e não quer se livrar de seu sintoma. É preciso esperar que ele esteja disposto a abrir mão da satisfação obtida pelo sintoma e se disponha a pagar o preço de seu saber. Para Lacan, a psicanálise situa o amor como conseqüência da impossibilidade de completude. O ser é a verdade que se abre entre as palavras [...] o ser não está em nenhum lugar, a não ser nos intervalos, ali onde ele é o menor significante dos significantes, a saber, o corte. [...] Se quisermos dar ao ser sua definição mínima, diremos que ele é o real, enquanto este se inscreve no simbólico (Lacan, 1988).
9 Então o amor é uma forma de suplência à completude do ser. Isso o aproxima de Heidegger, para quem o ser só existe na linguagem. O fundamento do amor, como também de qualquer erotismo, está na relação especular, mas não se restringe à dimensão imaginária como aparece nas neuroses. O amor é também um dom constituído no plano simbólico e sustentado na cadeia significante. O neurótico ama aquilo que ele crê e sofre quando percebe que é um engano, um engodo, uma ilusão. Alguém que vem pedir uma análise possui um sintoma qualquer e crê nisso, por isso sofre e reclama seu amor. Assim, no espaço analítico, poderá aprender a amar. O amor e o ódio não são pulsões nem pertencem a esse registro. As pulsões pertencem à ordem do sexual e o amor e o ódio ao campo do narcisismo, ao campo do eu. Por isso o amor de transferência e o ódio de transferência não são reproduções falsas, mas verdadeiros sentimentos que entram em jogo na direção da cura. A transferência positiva é aquela que torna possível a elaboração, é a transferência de amor sublimado. Ao contrário, a transferência negativa é o ódio e o amor não sublimado. É entre o gozo e o saber que as paixões se articulam, logo, a revelação da fala é a realização do ser e o ser é gozo, que por um lado responde pelo real do trauma, e por outro, pelo saber. Há o gozo do ser, por isso o inconsciente não significa que o ser pense, e sim que o ser falando goze, pois o significante faz existir o gozo e o ser como um fato dito. O pensamento é gozo. Não é porque pensamos que falamos, ao contrário, é porque falamos que pensamos. A fala é sempre demanda de complemento à falta-a-ser na forma de amor, ódio e ignorância. Ao falar o sujeito diz mais do que sabe, diz também do que ignora. Assim, a ignorância do lado do analisante e a suposição do saber do lado do analista, constituem o pivô da transferência. Lacan (2003) situa a transferência no sujeito suposto saber, dizendo que um sujeito nada supõe, ele é suposto: S >sq S(S¹,S²,S³,...Sn).
10 A transferência é a condição para a invenção de um novo amor, que no tratamento psicanalítico se dá a partir do patológico do sintoma. O neurótico ama seu sintoma como a si mesmo, dizia Freud. A transferência possibilita o deslocamento do amor do campo da pulsão para o campo do discurso, e situa o amor como conseqüência da incompletude do ser, articulado ao desejo. A associação livre engendra a metáfora do amor que faz do amado um amante, do objeto, um sujeito. Exemplo: aquele que é amado, mas não ama, depois que perde seu amante, passa a dar valor (como Aquiles e Patroclo, no filme Tróia). O uso que o analista faz do amor é totalmente inédito: visa a produzir um efeito de ser, compensação da falta-a-ser do sujeito. O analista faz do amor um uso desinteressado, pois não espera seu ser da transferência, se já está curado de sua neurose. Lacan, no Seminário 8, chama de Erastes, ou o amante, o sujeito da falta: aquele que não tem e pode desejar; e de Erômeno, ou amado, o objeto de amor, aquele a quem se ama porque ele tem alguma coisa. Quem ama não sabe dizer o que ele tem, que também não sabe porque é amado, porque também não sabe o que ele tem. É com a falta que se ama. Quem não tem falta não ama. O amor gira em torno da falta imaginária, e é nesse ponto que se aloja o objeto de amor. Assim, falar de amor é contornar essa falta e reforçá-la. O que se tem a dar é um diálogo com a falta. Um sujeito é capaz de amar somente se tiver a inscrição do Nome-do-Pai na sua falta-a-ser. O amor, no sentido erótico, é balizado pela metáfora paterna, o que faz com que o amor também seja uma metáfora. O amor é dar aquilo que não se tem porque o outro do amor é demandado em relação àquilo que tem e àquilo que não tem, o que assegura o lugar do desejo. Já que não se pode por si ter todas as coisas, se ama visando a ter o que não se tem. O amante crê que o outro possui os dons que ele não tem, mas deseja possuí-los.
11 A psicanálise permitiria a vocês, seguramente, esperar se pôr em claro o inconsciente. Mas todos sabem que eu não encorajo ninguém a isso, ninguém cujo desejo não seja decidido (Lacan, 1981). Referências AGOSTINHO, S. As Confissões. São Paulo: Quadrante, 1989. FREUD, Sigmund. Os três ensaios sobre a sexualidade (1905). In: Edição Standard Brasileira das Obras Psicológicas Completas de Sigmund Freud. Rio de Janeiro: Imago, 1972. FREUD, Sigmund. Delírios e sonhos na Gradiva de Jensen (1907). In: Edição Standard Brasileira das Obras Psicológicas Completas de Sigmund Freud. Rio de Janeiro: Imago, 1980. FREUD, Sigmund. Observações sobre o amor transferencial. In: Edição Standard Brasileira das Obras Psicológicas Completas de Sigmund Freud. Rio de Janeiro: Imago, 1980. FREUD, Sigmund. Três ensaios sobre uma teoria da sexualidade (1905). In: Edição Standard Brasileira das Obras Psicológicas Completas de Sigmund Freud. Rio de Janeiro: Imago, 1980. FREUD, Sigmund. Contribuições à psicologia do amor I, II e III (1910). In: Edição Standard Brasileira das Obras Psicológicas Completas de Sigmund Freud. Rio de Janeiro: Imago, 1980. FREUD, Sigmund. Sobre o início do tratamento (1913). in: Edição Standard Brasileira das Obras Psicológicas Completas de Sigmund Freud. Rio de Janeiro: Imago, 1969. FREUD, Sigmund. Psicologia de grupo e análise do ego (1921). In: Edição Standard Brasileira das Obras Psicológicas Completas de Sigmund Freud. Rio de Janeiro: Imago, 1980. FREUD, Sigmund. O mal-estar na civilização (1930). In: Edição Standard Brasileira das Obras Psicológicas Completas de Sigmund Freud. Rio de Janeiro: Imago, 1980. FREUD, Sigmund. Sobre o narcisismo: uma introdução (1914). In: Edição Standard Brasileira das Obras Psicológicas Completas de Sigmund Freud. Rio de Janeiro: Imago, 1980. LACAN, Jaques. Outros Escritos. Rio de Janeiro: Jorge Zahar Editor. LACAN, Jaques. O Seminário Livro 1. Os Escritos Técnicos de Freud. Rio de Janeiro: Jorge Zahar Editor, 1983.
12 LACAN, Jaques. O Seminário Livro 3. As Psicoses. Rio de Janeiro: Jorge Zahar Editor, 1985. LACAN, Jaques. O Seminário Livro 8. A Transferência. Rio de Janeiro: Jorge Zahar Editor, 1992. LACAN, Jaques. O Seminário Livro 11. Os quatro conceitos fundamentais da psicanálise. Rio de Janeiro: Jorge Zahar Editor, 1983. LACAN, Jaques. O Seminário Livro 20. Mais Ainda. Rio de Janeiro: Jorge Zahar Editor, 1985. LACAN, Jaques. RSI. Seminário inédito. Rio de Janeiro: Jorge Zahar Editor,1973. LACAN, Jaques. Televisão. Rio de Janeiro: Jorge Zahar Editor, 1981. 1 Psicólogo, psicanalista, mestre em Antropologia pela UFPR, doutor em psicologia pela Universidade de Liège, Bélgica; professor da Faculdade Dom Bosco e da UTP.