PsicoDom, v.2, n.2, jun. 2008



Documentos relacionados
Desdobramentos: A mulher para além da mãe

ISSO NÃO ME FALA MAIS NADA! (SOBRE A POSIÇÃO DO ANALISTA NA DIREÇÃO DA CURA) 1

DO DESENVOLVIMENTO DA TEORIA PULSIONAL FREUDIANA PARA UMA REFLEXÃO SOBRE A RELAÇÃO ENTRE AMOR E ÓDIO. Ligia Maria Durski

AMOR, TRANSFERÊNCIA E DESEJO

Clínica Psicanalítica e Ambulatório de Saúde Mental

A sua revista eletrônica CONTEMPORANEIDADE E PSICANÁLISE 1

A fala freada Bernard Seynhaeve

Considerações acerca da transferência em Lacan

A DOENÇA O REAL PARA O SUJEITO

Rousseau e educação: fundamentos educacionais infantil.

UMA TOPOLOGIA POSSÍVEL DA ENTRADA EM ANÁLISE 1

Os encontros de Jesus. sede de Deus

FUNÇÃO MATERNA. Luiza Bradley Araújo 1

GRUPO DE ESTUDOS: TRANSFERÊNCIA:- HISTÓRIAS DE (DES)AMOR SUELI SOUZA DOS SANTOS. 3º Encontro - 31 de agosto No começo era o amor (Cap.

O desenho e sua interpretação: quem sabe ler?

Oração. u m a c o n v e r s a d a a l m a

AGOSTINHO, TEMPO E MEMÓRIA

Músicos, Ministros de Cura e Libertação

ADOLESCÊNCIA SEXUALIDADE

UMA CRIANÇA E EX-PANCADA: RELAÇÃO DO MASOQUISMO INFANTIL AO SADISMO ADULTO

Márcio Peter de Souza Leite 4 de abril de 1997 PUC

Quem te fala mal de. 10º Plano de aula. 1-Citação as semana: Quem te fala mal de outra pessoa, falará mal de ti também." 2-Meditação da semana:

Devastação: um nome para dor de amor Gabriella Dupim e Vera Lopes Besset

2015 O ANO DE COLHER ABRIL - 1 A RUA E O CAMINHO

Correlação e Regressão Linear

TIPOS DE BRINCADEIRAS E COMO AJUDAR A CRIANÇA BRINCAR

A LIBERDADE COMO POSSÍVEL CAMINHO PARA A FELICIDADE

ESPIRITUALIDADE E EDUCAÇÃO

Os nós e o amor. Silvia Emilia Espósito* Palavras - chave: nós, real, amor, três registros

Por uma pedagogia da juventude

FILHOS UMA NECESSIDADE? PROTESTO!

MOURA, Marisa Decat de (ORG). Psicanálise e hospital 3 Tempo e morte: da urgência ao ato analítico. Revinter: Rio de Janeiro, 2003.

satisfeita em parte insatisfeita em parte insatisfeita totalmente

Dra. Nadia A. Bossa. O Olhar Psicopedagógico nas Dificuldades de Aprendizagem

Violência Simbólica: possíveis lugares subjetivos para uma criança diante da escolha materna

FREUD: IMPASSE E INVENÇÃO

Opção Lacaniana online nova série Ano 3 Número 8 julho 2012 ISSN Há um(a) só. Analícea Calmon

FILOSOFIA SEM FILÓSOFOS: ANÁLISE DE CONCEITOS COMO MÉTODO E CONTEÚDO PARA O ENSINO MÉDIO 1. Introdução. Daniel+Durante+Pereira+Alves+

A RESPONSABILIDADE DO SUJEITO, A RESPONSABILIDADE DO ANALISTA E A ÉTICA DA PSICANÁLISE

A origem dos filósofos e suas filosofias

IV Congresso Internacional de Psicopatologia Fundamental X Congresso Brasileiro de Psicopatologia Fundamental. Curitiba, de 04 a 07 de Julho de 2010.

Introdução. instituição. 1 Dados publicados no livro Lugar de Palavra (2003) e registro posterior no banco de dados da

Para a grande maioria das. fazer o que desejo fazer, ou o que eu tenho vontade, sem sentir nenhum tipo de peso ou condenação por aquilo.

A constituição do sujeito em Michel Foucault: práticas de sujeição e práticas de subjetivação

Lev Semenovich Vygotsky, nasce em 17 de novembro de 1896, na cidade de Orsha, em Bielarus. Morre em 11 de junho de 1934.

A PRÁTICA DO PRECEITO: AMAR O PRÓXIMO COMO A SI MESMO

O Planejamento Participativo

escrita como condicionante do sucesso escolar num enfoque psicanalítico

Nº 8 - Mar/15. PRESTA atenção RELIGIÃO BÍBLIA SAGRADA

"como servos de Cristo, fazendo de coração a vontade de Deus" VIDA RELACIONAL COM DEUS: SERVO-SENHOR

Não é o outro que nos

Reconhecida como uma das maiores autoridades no campo da análise infantil na

Por muito tempo na história as pessoas acreditaram existir em nós uma capacidade transcendental que nos emanciparia da natureza e nos faria

Transferência e desejo do analista: os nomes do amor na experiência analítica ou Amar é dar o que não se tem

1-PORTO SEGURO-BAHIA-BRASIL

Os impasses na vida amorosa e as novas configurações da tendência masculina à depreciação

Como fazer contato com pessoas importantes para sua carreira?

A bela Junie 1 : uma conversa sobre o amor Ângela Batista 2

Relacionamentos felizes num mundo sem fronteiras

2015 O ANO DE COLHER JANEIRO - 1 COLHER ONDE PLANTEI

Relacionamento Amoroso

Estudo de Caso. Cliente: Rafael Marques. Coach: Rodrigo Santiago. Duração do processo: 12 meses

A teoria da Matriz de Identidade e a Teoria dos Papéis. Cybele Ramalho (PROFINT)

LEIS DA JUSTIÇA, AMOR e CARIDADE 1. O obje6vo deste tema, será o de possibilitar o entendimento das leis de jus6ça, amor e caridade.

5 Equacionando os problemas

PLANO DE AULA OBJETIVOS: Refletir sobre a filosofia existencialista e dar ênfase aos conceitos do filósofo francês Jean Paul Sartre.

QUANDO AMAR É DAR AQUILO QUE SE TEM...

Processo Seletivo Filosofia

Módulo 2 Custos de Oportunidade e Curva de Possibilidades de Produção

Família. Escola. Trabalho e vida econômica. Vida Comunitária e Religião

GRUPOS. são como indivíduos, cada um deles, tem sua maneira específica de funcionar.

O BRINCAR E A CLÍNICA

APO TAME TOS SOBRE A A GÚSTIA EM LACA 1

Hoje estou elétrico!

MECANISMOS DE DEFESA

LIÇÃO 2 AMOR: DECIDIR AMAR UNS AOS OUTROS

Homens. Inteligentes. Manifesto

5 Dicas Testadas para Você Produzir Mais na Era da Internet

O céu. Aquela semana tinha sido uma trabalheira!

Considerações sobre a elaboração de projeto de pesquisa em psicanálise

O TEMPO DA HISTERIA: CONSIDERAÇÕES SOBRE O COLETIVO E O SUJEITO DO INCONSCIENTE Ana Costa

O SUPEREU NA DEMANDA DE AMOR INSACIÁVEL DAS MULHERES

Adolescência Márcio Peter de Souza Leite (Apresentação feita no Simpósio sobre Adolescência- Rave, EBP, abril de 1999, na Faculdade de Educação da

Palestra Virtual. Promovida pelo IRC-Espiritismo

Megalomania: amor a si mesmo Raquel Coelho Briggs de Albuquerque 1

FEUSP- SEMINÁRIOS DE ENSINO DE MATEMÁTICA-1º semestre/2008 CÁLCULO DIFERENCIAL E INTEGRAL NA ESCOLA BÁSICA: POSSÍVEL E NECESSÁRIO

CONTEMPORANEIDADE. Palavras-chave: pai, interdição do incesto, Lei, complexo de Édipo, contemporaneidade, psicanálise.


Feminilidade e Angústia 1

1. Você escolhe a pessoa errada porque você espera que ela mude após o casamento.

COMO PARTICIPAR EM UMA RODADA DE NEGÓCIOS: Sugestões para as comunidades e associações

A tópica lacaniana - simbólico, imaginário, real - e sua relação. com a função paterna

CURA ESPIRITUAL DA DEPRESSÃO

5. Autoconsciência e conhecimento humano de Jesus

Marcelo Ferrari. 1 f i c i n a. 1ª edição - 1 de agosto de w w w. 1 f i c i n a. c o m. b r

O PAPEL DA CONTAÇÃO DE HISTÓRIA NA EDUCAÇÃO INFANTIL

ESTUDO SOBRE VIVÊNCIA DO LUTO EM ADOLESCENTES E SUA MANIFESTAÇÃO EM DECORRÊNCIA DO TÉRMINO DE UM RELACIONAMENTO AMOROSO

Palestra tudo O QUE VOCE. precisa entender. Abundância & Poder Pessoal. sobre EXERCICIOS: DESCUBRA SEUS BLOQUEIOS

Transcrição:

1 PsicoDom, v.2, n.2, jun. 2008 A Clínica do Amor Jorge Sesarino 1... um egoísmo forte constitui uma proteção contra o adoecer, mas num último recurso devemos começar a amar afim de não adoecermos, e estamos destinados a cair doentes se, em conseqüência da frustração, formos incapazes de amar. (FREUD, 1914) Uma pequena minoria de pessoas acha-se capacitada, por sua constituição, a encontrar felicidade no caminho do amor. (FREUD, 1914) O amor é o tema central da existência humana. Falar do amor é falar da essência da vida, e isso nos torna vulneráveis porque falar do amor é falar de uma experiência singular. O amor é antes de tudo uma experiência de linguagem. Da filosofia à religião, da literatura à poesia e à música, o amor está sempre presente sob as mais diversas formas de discursos e de pensamentos. O amor é o laço social, é a base de toda forma de relação social, da família, do namoro, da amizade etc. Do amor se fala, se conta, se canta e se encanta. Em todos os tempos, em todos os lugares, em todos os povos, o amor está presente. É o mistério humano. O amor fascina e faz sina. Quem não se deslumbra ao falar da preciosidade do amor e do seu poder de transformação? Mas o que causa o amor e o que causa o ódio? Existe amor sem ódio? Qual a relação entre amor e ódio? Qual a relação entre o amor e a pulsão? Como se articulam amor e desejo? O que é pior: amar sem ser amado ou ser amado e não poder amar? Qual a relação entre o amor e a felicidade? Seríamos capazes de amar se não existisse a palavra amor? O que a psicanálise tem a dizer sobre o amor? Na filosofia, o amor resulta da tensão que o bem causa no humano. Assim, para Platão, o amor é o entusiasmo através do qual a alma, sensível à atração da beleza perfeita, tende à imortalidade. O amor não é beleza nem bondade, nem perfeição ou 1 Psicólogo, psicanalista, mestre em Antropologia pela UFPR, doutor em psicologia pela Universidade de Liège, Bélgica; professor da Faculdade Dom Bosco e da UTP.

2 acabamento; é por essência um élan, não somente em direção à depuração do ser, mas em direção à depuração do Bem. Na religião, o amor se apresenta em duas categorias, o amor humano, sensual, carnal, voltado aos objetos; e o amor divino, espiritual, que visa à doação e à adoração. Santo Agostinho (1989) afirmou que o amor é um dom de Deus, e que é o amor de Deus que nos conduz a amar. É porque Deus nos ama que podemos amar a nós mesmos e aos outros. O amor é um dom divino, sendo todo o amor divino. Por isso propõe a ética do amor como a ética da liberdade, que pode ser resumida numa frase: ama e faz o que quiser. Santo Agostinho concilia amor e desejo, como propõe Freud ao falar de cura em análise e, como aponta Lacan, ao afirmar que somente o amor faz suplência à falta. Freud, como Empédocles, entende o amor e o ódio como forças constitutivas do movimento universal. Para Freud, o amor é a matéria-prima da análise. O que torna o analisando capaz de entender as palavras que o analista lhe diz, é o amor na transferência. É com esse material que se faz análise. Foi a partir dos fenômenos pessoais do tratamento que ele passou a usar o termo transferência. O amor na psicanálise se manifesta como amor de transferência e na transferência, como condição para a invenção de um novo amor. A psicanálise desloca o amor do campo da pulsão para o campo do discurso, situando o amor como conseqüência da incompletude e, portanto, articulado ao desejo. Lacan (1992), no Seminário VIII, sugere que a psicanálise teve seu surgimento a partir do encontro de um homem com uma mulher, Breuer e Ana O.: no começo da experiência analítica, vamos lembrar, foi o amor (LACAN, 1992, p. 8). Ele faz referência à difícil relação dos dois. À difícil experiência, ela batizou de talk-cure, cura pela fala, ou ainda, limpeza de chaminé (FREUD, 1980). Breuer não suportou a transferência amorosa da paciente, abandonou-a e partiu, com sua esposa, em viagem à Veneza, cujo resultado foi o nascimento de uma filha. O amor é um modo de sustentação do desejo e da relação do sujeito com o inconsciente, isso quer dizer que amamos com nosso inconsciente. O amor na

3 psicanálise se manifesta como amor de transferência, porque a transferência põe em causa o amor. Somente o amor de transferência permite a construção de um saber sobre a singularidade de uma história. A psicanálise é um discurso sobre o amor, pois nasceu de um discurso amoroso, o discurso de Ana O. Para Freud, é a ordem do amor que instaura o pai. No capítulo VII da Psicologia das massas e análise do ego, Freud (1980) chama de amor ao pai a primeira forma de identificação, também chamada de identificação primária. Em seu estudo Sobre o narcisismo: uma introdução, ele demonstra como o amor e o ódio resultam da relação de prazer e desprazer entre o eu e seus objetos. Freud (1980, p. 229) afirma que o protótipo de toda relação de amor é a experiência de uma criança que suga o seio da mãe. A partir daí, cada encontro com um objeto é, na realidade, um reencontro dele. Podendo-se entender com isso que todo objeto de amor é uma substituição de um objeto primordial, anterior à barreira do incesto, sendo o amor, uma substituição de um objeto recalcado, um amor de repetição. É de um primeiro amor que resulta o recalque e o inconsciente; logo, o amor traumatiza porque é impossível dar a ele o que lhe falta. Todavia, o amor resulta de um aprendizado que obedece a diversas etapas como o auto-erotismo, o narcisismo primário e o narcisismo secundário. Assim diz Freud (1980, p. 229): As crianças amam em primeiro lugar a si próprias, e apenas mais tarde é que aprendem a amar os outros e a sacrificar algo de seu eu aos outros. As próprias pessoas a quem uma criança parece amar desde o início, no começo são amadas pela criança porque esta necessita delas e não pode dispensá-las por motivos egoístas, mais uma vez. Somente mais tarde o impulso de amar se torna independente do egoísmo. É literalmente verdadeiro que seu egoísmo ensinou a amar. Freud considera que as paixões são, na verdade, ecos das lembranças do amor infantil. É o amor vivido na tenra infância que rege a vida de cada um. Dessa vivência resulta o que cada um será no futuro e o Complexo de Édipo seria a modulação da forma de cada um amar.

4 Freud afirma que todo objeto de amor é uma substituição de um objeto recalcado; assim, o amor seria uma forma de repetição. Uma clivagem do objeto do amor seria a causa de duas correntes amorosas, uma afetiva e outra sensual. A corrente sensual resultaria numa separação entre amor e desejo, onde o objeto seria ou superestimado ou degradado, levando a amar sem desejar e a desejar sem poder amar. Segundo Freud, uma pessoa somente poderia amar em conformidade com o tipo narcisista dela própria; isto é, em conformidade com ela mesma: o que ela própria foi, o que ela própria gostaria de ser, ou ainda, alguém que foi uma vez parte dela mesma. Ou então, poderia amar em conformidade com o tipo anaclítico; ou seja, com o tipo de ligação objetal, a mulher que a alimenta, o homem que a protege e a sucessão de substitutos que tomam o seu lugar. Freud descreve dois tipos de narcisismo, o primário e o secundário. O narcisismo primário está relacionado à função do eu ideal, matriz das identificações imaginárias. Ele toma a imagem do corpo como objeto de investimento libidinal e como primeiro objeto de amor, objeto sexual auto-erótico que inscreve o prazer no corpo. Esse é o tempo de uma vivência puramente narcísica, onde o desprazer não participa. O narcisismo secundário é marcado por uma relação de prazer e de desprazer entre o eu e seus objetos. Diferente do primeiro, ele é relacionado ao ideal do eu, matriz simbólica das identificações. Consiste em tomar o objeto como ideal e deslocar parte da libido do eu para o objeto amado, investindo-o simbolicamente. Essa relação inclui o outro. Uma vez que o corpo já está marcado pelo prazer, tornase instrumento de prazer e pode ser socializado no prazer partilhado com o outro. Esse prazer partilhado é o que Lacan chama de gozo fálico. Essa é a erótica freudlacaniana. Eros é um amor ao significante unário. Esse amor à imagem (Ürbild) permite que na ausência de um objeto, outros venham substituir.

5 Lacan aponta o lado cômico do amor: pensar que algum dia poderá ter um outro para si, a fazer um com o outro. O amor tende à união e o ódio tende à destruição. Mas não existe amor puro, a não ser o amor de Deus. O amor sempre comporta o seu oposto, o ódio. Por exemplo: na vida amorosa, no namoro, o outro é chamado a ocupar a posição de ideal, na medida em que não satisfaz, produz ódio. O amor envolve o eu na sua capacidade de estabelecer relação imaginária via narcisismo. Toda relação ao semelhante é marcada pela incidência do ideal narcisista e suas oscilações. Por um lado o amor é erotismo fundado na relação especular; por outro, é um dom simbólico na cadeia significante. O amor na sua vertente imaginária é narcísico, espelhamento da imagem de si mesmo no outro. No amor narcísico, a libido não reflui para os objetos, ela se encontra fixada na própria imagem idealizada, chamada de eu ideal. A ameaça de perda põe em risco a própria vida, porque o efeito do investimento libidinal no outro é maciço. O mortífero é desconhecer que ama a si mesmo no outro, que se crê ser seu objeto de amor, sua própria imagem. Segundo Freud, o amor supõe três posições: O amor não admite apenas um, mas três opostos. Além da antítese amar/odiar, existe a outra de amar/ser amado ; além destas, o amar e o odiar considerados em conjunto são o oposto da condição de desinteresse ou indiferença. A segunda dessas três antíteses, amar/ser amado, corresponde exatamente à transformação da atividade em passividade e pode remontar a uma situação subjacente, da mesma forma que no caso do instinto escopofílico. Essa situação é a de amar-se a si próprio, que consideramos como sendo o traço característico do narcisismo. Então, conforme o objeto ou o sujeito seja substituído por um estranho, o que resulta é a finalidade ativa de amar ou a passiva de ser amado ficando a segunda perto do narcisismo. Freud propõe que talvez cheguemos a uma melhor compreensão dos vários opostos do amar se refletirmos que nossa vida é como um todo que se rege por três polaridades, as antíteses sujeito/objeto, prazer/desprazer, e ativo/passivo. A função do sujeito nos mostra que amamos ao outro por nossa libido. Ama-se com a libido, por isso não amamos mais que nosso corpo, inclusive quando transferimos esse amor ao corpo do outro. Do ponto de vista do desejo, o corpo do outro, por

6 pouco que o ame vale pelo que lhe falta. Por isso a heterossexualidade é possível. A fronteira que separa o desejo do amor consiste no fato de que o desejo busca no outro mais o desejante que o desejável. Deseja-se o que falta. Desejo o outro como desejante e não como me desejando, pois sou eu o que deseja e desejando o desejo só me amo no outro, sou eu que amo. Lacan dedica o Seminário IV ao estudo das relações de objeto. Assim, retoma a tese de Freud de que não existe o objeto da necessidade, o que existe é a falta de objeto como condição para a existência humana. A necessidade, ao ser satisfeita, resulta insatisfeita, tornando-se demanda de amor de um objeto simbólico que é dom de amor, situando aí o nascimento do amor. A partir daí nada na vida é mais importante do que o amor. Lacan, no Seminário VIII, situa o amor como conseqüência da impossibilidade de completude. O amor seria uma suplência ao ser. No Seminário XX, afirma que a psicanálise só opera pela via do amor. A fórmula da transferência, SsS (sujeito suposto saber), não se distingue do amor àquele a quem suponho o saber, eu o amo (LACAN, 1985, p. 91). Lacan, no Seminário I, se refere à tríade amor ódio ignorância como as três paixões do ser, denominando-as de posições subjetivas primárias, figuras de transferência e vias de realização do ser. A via do amor, com seu ideal de fusão com o ser do outro, responde pelo eixo ambigüidade/condensação; a via do ódio, com seu apagamento do ser, responde pelo eixo da denegação/erro; e a via da ignorância, do indizível do ser, responde pelo eixo engano/recalque. Por exemplo, falamos sem saber o que dizemos. Não é algo que podemos aprender, é o que nos impede de cair no delírio do saber absoluto. Freud, cita um exemplo da paixão da ignorância, ao dizer que o neurótico demanda uma análise pelo sofrimento do sintoma, mas não quer pagar o preço do saber da castração. Em princípio, ele ama mais o seu sintoma do que a si mesmo, e por isso

7 não pode amar e sofre e adoece. Nada na vida é mais caro quanto a doença e a estupidez (Freud, 1913). Para Lacan, o amor é o encontro de dois saberes inconscientes. Amar é dar o que não se tem a quem não o é, isto é, ama-se um ser para além do que ele parece ser. O amor é dar o que não se tem, e só se pode amar fazendo-se como se não se tivesse, mesmo que se tenha. O amor como resposta implica o domínio do não ter. Dar o que se tem é a festa; não é o amor. O que se busca no amor é a parte para sempre perdida de si mesmo, constituída pelo fato de que ele não passa de um vivente sexual, mortal. Para Lacan, o amor é um acontecimento particular que ocorre a um sujeito frágil, falível e que é incitado à particularidade do seu ser na convivência com o outro. Trata-se de um objeto imaginarizado, que vem ocupar o lugar do vazio da falta. Supor que alguém tenha em si algo precioso que possa preencher o que lhe falta, leva o amante em direção ao amado. O amante espera do amado a possibilidade de recuperar a totalidade onde nada falta. Assim, amar é reconhecer e exaltar no outro o que ele próprio denega, olha e não pode ver. Um homem e uma mulher sentem-se atraídos e cumprem as alternativas de uma reciprocidade de amor sem saber qual é o conteúdo inconsciente que os move. A experiência do amor está sumamente ligada à experiência dos efeitos inconscientes. Os amantes no momento do amor, no tempo do amor, na situação de amor, na experiência ou prova de amor, não sabem o que lhes acontece, não sabem o que é isso que é como uma paixão. O que leva o amante em direção ao amado é supor que ele tenha dentro de si algo precioso que possa preencher o que lhe falta. Um parceiro causa algo no outro, toca de alguma forma o fantasma do outro, encarna-o na medida em que se apresenta como objeto que causa seu desejo. O amor necessita que esse objeto que falta seja encarnado numa pessoa, enquanto o desejo vai além da pessoa, visando sempre um objeto.

8 A experiência do amor está sumamente ligada à experiência dos efeitos inconscientes. A psicanálise é um discurso sobre o amor, porque a transferência põe em causa o amor que permite a construção de um saber sobre a singularidade de uma história. Lacan afirma que a análise só opera pela via do amor. A fórmula da transferência não se distingue do amor: àquele a quem suponho o saber, eu o amo (1985, p. 91). O amor necessita que esse objeto seja encarnado numa pessoa, enquanto que o que está em questão no desejo não é uma pessoa, mas o objeto. A psicanálise provoca uma mudança de posição diante do amor. Promove uma torção do desejo de reconhecimento ao reconhecimento do desejo para além do narcisismo com que o amor costuma se apresentar. Para Lacan, o amor é uma invenção que possibilita novos amores. O ato analítico é uma constante surpresa, pois o analista não tem certeza do que irá acontecer. Tem como meta o novo, o imprevisível, e caminha pela obscuridade. O amor, não mais como paixão, mas como dom ativo, visa sempre, para além da cativação imaginária, ao ser do sujeito amado, à sua particularidade. E por isso pode aceitar dele até muito longe as fraquezas e os rodeios, pode mesmo admitir os erros, mas há um ponto em que pára, situado a partir do ser quando o ser amado vai muito longe na traição de si mesmo e persevera na tapeação de si, o amor não segue mais. A demanda de análise é determinada pelo sofrimento presente no sintoma. Isso constitui um paradoxo porque o sujeito ao mesmo tempo quer e não quer se livrar de seu sintoma. É preciso esperar que ele esteja disposto a abrir mão da satisfação obtida pelo sintoma e se disponha a pagar o preço de seu saber. Para Lacan, a psicanálise situa o amor como conseqüência da impossibilidade de completude. O ser é a verdade que se abre entre as palavras [...] o ser não está em nenhum lugar, a não ser nos intervalos, ali onde ele é o menor significante dos significantes, a saber, o corte. [...] Se quisermos dar ao ser sua definição mínima, diremos que ele é o real, enquanto este se inscreve no simbólico (Lacan, 1988).

9 Então o amor é uma forma de suplência à completude do ser. Isso o aproxima de Heidegger, para quem o ser só existe na linguagem. O fundamento do amor, como também de qualquer erotismo, está na relação especular, mas não se restringe à dimensão imaginária como aparece nas neuroses. O amor é também um dom constituído no plano simbólico e sustentado na cadeia significante. O neurótico ama aquilo que ele crê e sofre quando percebe que é um engano, um engodo, uma ilusão. Alguém que vem pedir uma análise possui um sintoma qualquer e crê nisso, por isso sofre e reclama seu amor. Assim, no espaço analítico, poderá aprender a amar. O amor e o ódio não são pulsões nem pertencem a esse registro. As pulsões pertencem à ordem do sexual e o amor e o ódio ao campo do narcisismo, ao campo do eu. Por isso o amor de transferência e o ódio de transferência não são reproduções falsas, mas verdadeiros sentimentos que entram em jogo na direção da cura. A transferência positiva é aquela que torna possível a elaboração, é a transferência de amor sublimado. Ao contrário, a transferência negativa é o ódio e o amor não sublimado. É entre o gozo e o saber que as paixões se articulam, logo, a revelação da fala é a realização do ser e o ser é gozo, que por um lado responde pelo real do trauma, e por outro, pelo saber. Há o gozo do ser, por isso o inconsciente não significa que o ser pense, e sim que o ser falando goze, pois o significante faz existir o gozo e o ser como um fato dito. O pensamento é gozo. Não é porque pensamos que falamos, ao contrário, é porque falamos que pensamos. A fala é sempre demanda de complemento à falta-a-ser na forma de amor, ódio e ignorância. Ao falar o sujeito diz mais do que sabe, diz também do que ignora. Assim, a ignorância do lado do analisante e a suposição do saber do lado do analista, constituem o pivô da transferência. Lacan (2003) situa a transferência no sujeito suposto saber, dizendo que um sujeito nada supõe, ele é suposto: S >sq S(S¹,S²,S³,...Sn).

10 A transferência é a condição para a invenção de um novo amor, que no tratamento psicanalítico se dá a partir do patológico do sintoma. O neurótico ama seu sintoma como a si mesmo, dizia Freud. A transferência possibilita o deslocamento do amor do campo da pulsão para o campo do discurso, e situa o amor como conseqüência da incompletude do ser, articulado ao desejo. A associação livre engendra a metáfora do amor que faz do amado um amante, do objeto, um sujeito. Exemplo: aquele que é amado, mas não ama, depois que perde seu amante, passa a dar valor (como Aquiles e Patroclo, no filme Tróia). O uso que o analista faz do amor é totalmente inédito: visa a produzir um efeito de ser, compensação da falta-a-ser do sujeito. O analista faz do amor um uso desinteressado, pois não espera seu ser da transferência, se já está curado de sua neurose. Lacan, no Seminário 8, chama de Erastes, ou o amante, o sujeito da falta: aquele que não tem e pode desejar; e de Erômeno, ou amado, o objeto de amor, aquele a quem se ama porque ele tem alguma coisa. Quem ama não sabe dizer o que ele tem, que também não sabe porque é amado, porque também não sabe o que ele tem. É com a falta que se ama. Quem não tem falta não ama. O amor gira em torno da falta imaginária, e é nesse ponto que se aloja o objeto de amor. Assim, falar de amor é contornar essa falta e reforçá-la. O que se tem a dar é um diálogo com a falta. Um sujeito é capaz de amar somente se tiver a inscrição do Nome-do-Pai na sua falta-a-ser. O amor, no sentido erótico, é balizado pela metáfora paterna, o que faz com que o amor também seja uma metáfora. O amor é dar aquilo que não se tem porque o outro do amor é demandado em relação àquilo que tem e àquilo que não tem, o que assegura o lugar do desejo. Já que não se pode por si ter todas as coisas, se ama visando a ter o que não se tem. O amante crê que o outro possui os dons que ele não tem, mas deseja possuí-los.

11 A psicanálise permitiria a vocês, seguramente, esperar se pôr em claro o inconsciente. Mas todos sabem que eu não encorajo ninguém a isso, ninguém cujo desejo não seja decidido (Lacan, 1981). Referências AGOSTINHO, S. As Confissões. São Paulo: Quadrante, 1989. FREUD, Sigmund. Os três ensaios sobre a sexualidade (1905). In: Edição Standard Brasileira das Obras Psicológicas Completas de Sigmund Freud. Rio de Janeiro: Imago, 1972. FREUD, Sigmund. Delírios e sonhos na Gradiva de Jensen (1907). In: Edição Standard Brasileira das Obras Psicológicas Completas de Sigmund Freud. Rio de Janeiro: Imago, 1980. FREUD, Sigmund. Observações sobre o amor transferencial. In: Edição Standard Brasileira das Obras Psicológicas Completas de Sigmund Freud. Rio de Janeiro: Imago, 1980. FREUD, Sigmund. Três ensaios sobre uma teoria da sexualidade (1905). In: Edição Standard Brasileira das Obras Psicológicas Completas de Sigmund Freud. Rio de Janeiro: Imago, 1980. FREUD, Sigmund. Contribuições à psicologia do amor I, II e III (1910). In: Edição Standard Brasileira das Obras Psicológicas Completas de Sigmund Freud. Rio de Janeiro: Imago, 1980. FREUD, Sigmund. Sobre o início do tratamento (1913). in: Edição Standard Brasileira das Obras Psicológicas Completas de Sigmund Freud. Rio de Janeiro: Imago, 1969. FREUD, Sigmund. Psicologia de grupo e análise do ego (1921). In: Edição Standard Brasileira das Obras Psicológicas Completas de Sigmund Freud. Rio de Janeiro: Imago, 1980. FREUD, Sigmund. O mal-estar na civilização (1930). In: Edição Standard Brasileira das Obras Psicológicas Completas de Sigmund Freud. Rio de Janeiro: Imago, 1980. FREUD, Sigmund. Sobre o narcisismo: uma introdução (1914). In: Edição Standard Brasileira das Obras Psicológicas Completas de Sigmund Freud. Rio de Janeiro: Imago, 1980. LACAN, Jaques. Outros Escritos. Rio de Janeiro: Jorge Zahar Editor. LACAN, Jaques. O Seminário Livro 1. Os Escritos Técnicos de Freud. Rio de Janeiro: Jorge Zahar Editor, 1983.

12 LACAN, Jaques. O Seminário Livro 3. As Psicoses. Rio de Janeiro: Jorge Zahar Editor, 1985. LACAN, Jaques. O Seminário Livro 8. A Transferência. Rio de Janeiro: Jorge Zahar Editor, 1992. LACAN, Jaques. O Seminário Livro 11. Os quatro conceitos fundamentais da psicanálise. Rio de Janeiro: Jorge Zahar Editor, 1983. LACAN, Jaques. O Seminário Livro 20. Mais Ainda. Rio de Janeiro: Jorge Zahar Editor, 1985. LACAN, Jaques. RSI. Seminário inédito. Rio de Janeiro: Jorge Zahar Editor,1973. LACAN, Jaques. Televisão. Rio de Janeiro: Jorge Zahar Editor, 1981. 1 Psicólogo, psicanalista, mestre em Antropologia pela UFPR, doutor em psicologia pela Universidade de Liège, Bélgica; professor da Faculdade Dom Bosco e da UTP.