UMA TEOLOGIA BÍBLICA DE REIS
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- Júlio Afonso Regueira Bardini
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1 UMA TEOLOGIA BÍBLICA DE REIS INTRODUÇÃO Os dois livros de Reis compreendem, na verdade, uma única obra literária, que a tradição judaica preservou como uma unidade chamada reis". Esta obra foi dividida em duas partes pelos tradutores da Septuaginta, uma tradição continuada pela Vulgata e outras traduções. Uma edição judaica de 1448 foi a primeira Bíblia hebraica a apresentar a divisão de Reis. As antigas versões relacionavam Samuel e Reis por título numa tentativa de refletir o tema básico comum, a história da monarquia em Israel. A Septuaginta os chama de Primeiro a Quarto dos Reinos, enquanto a Vulgata usa a palavra "Reis" e mantém a divisão em quatro partes. A presente divisão de Reis é bastante arbitrária, pois divide ao meio o reinado de Acazias, o ministério de Elias, e o período de aliança entre os reinos de Judá e Israel. Reis é uma obra anônima e não há certeza quanto à sua autoria. O livro dá evidências de uma origem profética por suas freqüentes referências a profetas, nomeados ou anônimos, tanto em Israel quanto em Judá. Outra razão para afirmarmos uma origem profética é a ênfase em profecia e cumprimento (1Re 8.20 cf. 2Sm 7.13; 2Re cf. 1Re , e outras passagens). Uma tradição judaica, preservada no Talmude, 1 atribui a obra ao profeta Jeremias, uma possibilidade lógica, já que ele foi o profeta mais destacado da parte final do período préexílico. 2 As várias ocorrências da expressão "até o dia de hoje" sugerem que o autor foi uma pessoa que vivia em Judá durante os anos cruciais da deterioração daquele reino. Não é historicamente impossível que Jeremias e/ou Baruque, seu colega e secretário, tenha(m) escrito até mesmo o epílogo sobre a reabilitação política de Joaquim estabelece. As semelhanças entre o epílogo de Jeremias (cap. 52) e os capítulos finais de Reis sugerem que têm uma fonte comum. Uma vez que Jeremias contém um cólofon que diz Aqui terminam as palavras de Jeremias, e o capítulo 52 se tornou parte do livro, há uma boa probabilidade que Baruque, "editor associado" de parte do livro (cf. Jr 36.18, 36), tenha sido responsável pela inclusão do último capítulo e pela edição final do livro de Reis. Quem quer que tenha sido o autor de Reis, certamente fez uso de fontes. Três são mencionadas com freqüência. o livro das crônicas de Salomão, o livro das crônicas dos reis de Israel, e o livro das crônicas dos reis de Judá. Não é certo se tais fontes eram registros oficiais das cortes, que teriam de alguma forma sobrevividas à invasão e exílio, ou se eram registros proféticos, mantidos por uma sucessão aparentemente ininterrupta de profetas de Yahweh em Israel e Judá. Um argumento a favor desta última posição é a presença de observações desairosas e negativas aos governantes, algo notável por sua ausência em "diários oficiais". Além disso, o livro de Crônicas contém evidências de que os profetas de Judá mantinham um registro de acontecimentos históricos (cf. 2 Cr 20.34; 26.22). A data final de compilação deve ser colocada por volta de 550 a.c., à luz do epílogo, que 1 Talmud, Baba Bathra. p.15a. 2 John Gray afirma que a maior parte dos livros de Reis é de origem pré-exílica, com alguma atividade editorial durante o exílio (I & II Kings, OTL, 7).
2 relata a reabilitação de Joaquim por Evil-Merodaque em 561 a.c. 3 CONTEXTO HISTÓRICO Primeiro e segundo Reis traçam a história da monarquia de Israel durante quatro séculos tumultuados, desde o reinado de Salomão (971 a.c) até a prisão de Joaquim na Babilônia (562 a.c.). Eles retratam o reinado de Salomão, incluindo a construção do templo (1Rs 1-11), a era do reino dividido até a queda de Samaria (1Rs 12-2Rs 17) e os últimos anos de Judá até o exílio babilônico (2Rs 18-15). Deste modo, durante esse período de aproximadamente 410 anos, o foco de poder no Oriente Médio se deslocou várias vezes. No início do livro Israel era esse foco, que eventualmente passou à Assíria e, finalmente a Babilônia. Ocasionalmente Egito e Síria se tornavam focos temporários de atenção internacional devido ao seu freqüente relacionamento com Israel (cuja história era sempre a lente pela qual os acontecimentos no Oriente Médio eram observados e analisados). O quadro seguinte retrata os períodos de dominação de cada império e os representantes principais durante os períodos de hegemonia. Os Reinos do Oriente Médio Antigo entre 971 e 561 a.c. Israel Assíria Babilônia Egito Síria Salomão ( ) Acabe ( ) Jeroboão II ( ) Azarias ( ) Adad-Nirari II ( ) Assurnasirpal II ( ) Salmaneser III ( ) Ben-Hadade I Peca ( ) Tiglate-Pileser III ( ) Rezim Salmaneser V ( ) Ezequias ( ) Josias ( ) Jeoaquim ( ) Joaquim ( ) Zedequias ( ) Senaqueribe ( ) Merodaque-Baladã Nabopolassar ( ) Nabucodonosor ( ) Tiraca Neco II ( ) A história de 1e 2Reis não é só uma história política da monarquia. É uma interpretação 3 PINTO, Carlos Osvaldo. Teologia bíblica do Antigo Testamento. Atibaia: Seminário Bíblico Palavra da Vida, p. 97.
3 profética de como cada rei afetou o declínio espiritual de Israel e Judá. Os reis que tiveram maior impacto religioso recebem mais atenção. Por exemplo, Onri foi um dos reis mais importantes na história do Antigo Oriente Próximo, mas seu reinado é mencionado em poucos versículos apenas (1Rs ). Os reinos gêmeos de Judá e Israel surgiram como resultado da infidelidade de Salomão à aliança deuteronômica, que ao longo do livro serve como um termômetro espiritual para a nação e seus governantes. As dez tribos do reino do Norte mantiveram o nome Israel. O reino Sul recebeu o nome da tribo dominante, Judá. Os livro de Reis explicam, por meio dos reinos divididos, como a história é regida pela lei moral de Deus. Todos os reis do reino do Norte foram condenados por causa do culto idólatra. Nisso, seguiram os caminhos do primeiro rei de Israel, Jeroboão, que introduziu o culto a bezerros em Dã e Betel (por exemplo, 15 1Rs , 33-34). Os reis do sul, Judá, foram aprovados quando seguiram o pai deles, Davi (por exemplo, 15.13). Só Ezequias e Josias encontraram plena aprovação porque eliminaram os lugares altos e reformaram o culto corrompido do templo (2Rs ; ). 4 As causas "humanas" para a divisão foram a excessiva taxação imposta a todas as tribos por Salomão para sustentar seu mega-estado. Como a união já vinha enfraquecida desde os dias das revoltas de Absalão e Seba ben-bicri, o benjamita (cf. 2Sm 20), a exploração econômica e social (trabalho forçado) durante o reinado de Salomão precipitaram a crise no início do reinado de Reoboão. O que fora um grito de revolta no caso de Seba (2Sm 20.2) acabou por se tornar o refrão popular do movimento secessionista de Jeroboão (Que parte temos nós com Davi? Não há para nós herança no filho de Jessé! Às vossas tendas, ó Israel; 1Re 12.16). Como indicou Homer Heater, 5 sempre houve duas forças em operação em Israel. A força centrífuga era a tendência das tribos buscarem sua existência independente como nos períodos da conquista e dos juízes, e essa força se manifestou quando, desiludidos com os rumos da monarquia, os israelitas reivindicaram um alívio da centralização e do que viam como uma exploração das demais tribos pela tribo de Judá. Por outro lado, a força centrípeta era de natureza religiosa, pois o povo estava fortemente ligado ao santuário central e ao sacerdócio levítico, que se achavam centralizados em Jerusalém desde o tempo de Davi. Esse laço se tornara ainda mais forte com a construção do magnífico templo de Salomão. Tirando proveito da força centrífuga latente desde o tempo dos juízes, Jeroboão percebeu que seria necessário anular o efeito aglutinador da religião, e por isso, junto com a nova (e supostamente menos estatizada) monarquia, criou um novo culto sincrético, 6 com sacerdócio próprio, calendário diferente e dois santuários, 4 MALKOMES, Robinson, SAYÃO, Luiz A., YOSHIMOTO, Daniel A. Manual bíblico Vida Nova. São Paulo: Vida Nova, p HEATER, Homer. A Theology of Samuel and Kings, em Biblical Theology of the Old Testament, editado por 6 Zuck, p.117. William S. LaSor et al. sugerem que o culto de Jeroboão era originalmente a Yahweh, mas que os bezerros de ouro, concebidos como o trono da divindade (como a Arca o era no Tabernáculo, cf. Sl 99:1) logo foram associados com os
4 Betel ao sul e Dã ao norte. Essa estrutura de dois poderes e duas religiões dentro de uma mesma etnia gerou conflitos político-econômicos e religiosos que contribuíram para agravar o problema espiritual de desobediência à aliança e apressar o desaparecimento da monarquia como agente da teocracia na história. CRONOLOGIA DE REIS Para os intérpretes, é difícil entender como os cronistas calculavam as datas dos reinados. Os reinados são datados pela comparação da data em que um governante começou a reinar com o número de anos que seu par, no outro reino, havia reinado. O tempo do reinado é fornecido para cada rei. Mas há dificuldades para conciliar as várias datas. Para completar, Judá e Israel podem ter seguido calendários com o início do ano em diferentes épocas. Por fim, pode ter havido diferenças em como governantes contavam o início de seus reinados. Alguns começavam a contar pela coroação, enquanto outros começavam a contra só após o primeiro ano do reinado. Assim, os estudiosos procuram fazer reconstruções, até mesmo sobrepondo reinados de país e filhos, para ajudar a explicar as datas. Não há consenso entre os estudiosos sobre todas as datas dos reis. As diferenças não são tão extraordinárias que impeçam nosso entendimento do cenário histórico do período. A cronologia sugerida abaixo deriva a maior parte de seus dados da obra de Edwin Thiele: 7 Uma cronologia do livro de Reis ISRAEL JUDÁ Jeroboão Nadabe Baasa Elá Zinri Onri Acabe Acazias Jorão Jeú Jeoacaz Jeoás Jeroboão II Zacaria Salum Menaém Pecaías Peca Oséias Abias Roboão Asa Josafá Jeorão Acazias Atalia Joás Amazias Azarias Jotão Acaz Ezequias Manassés deuses de Canaã, principalmente Baal, que tinha por um de seus símbolos um touro (Old Testament Survey, 259). Edwin Thiele: The Mysterious Numbers of the Hebrew Kings e de sua atualização por Leslie McFall. Embora não seja a última palavra no assunto e padeça de algumas pressuposições inaceitáveis, o sistema proposto por Thiele (a prática de co-regências, diferentes métodos de datar os reis em Israel e Judá,a existência de reinos rivais no Norte e considerações relativas aos calendários civil e religioso) reduziu significativamente os problemas e produziu uma certa medida de consenso entre estudiosos evangélicos. Leslie McFall retrabalhou o sistema de Thiele com pressuposições mais bíblicas e propôs um modelo ainda mais próximo do que os autores bíblicos tinham em mente ("Has the Chronology of the Hebrew kings been finally settled?", Themelios 17:1 (out.-nov. 1991): 6-11.
5 Amom Zedequias Jeoacaz Jeoaquim Joaquim Josias FORMA LITERÁRIA Reis não possui a complexa estrutura literária de Samuel. Seu plano é mais simples e consiste basicamente de estabelecer contrastes e comparações ao que o autor/editor percebia como os padrões máximos de fidelidade e infidelidade a Yahweh e Sua aliança, Davi e Jeroboão. Isso não significa que não haja arte ou teologia na maneira em que as narrativas e avaliações foram ordenadas no livro. Reis possui um propósito didático, que cumpre sem recorrer às distorções ou exageros típicos das crônicas reais de outras nações do Oriente Médio Antigo, 8 pois os reis de Israel e Judá são retratados como indivíduos sujeitos a fracassos morais, políticos e militares. O propósito mais amplo do livro era oferecer às gerações exílica e pós-exílica uma explicação coerente para o fato do povo escolhido por Yahweh ter-se reduzido a um punhado de escravos em Babilônia, bem como uma esperança diante de tal fracasso. Para atingir este propósito, o autor/editor dá atenção mais detalhada a certos eventos e personagens, particularmente aqueles que demonstram mais claramente que o fracasso temporal da monarquia teocrática não se deveu a alguma falta de poder ou falha de caráter de Yahweh, mas pela falta de conformidade do povo à aliança assumida no Sinai e renovada nas campinas de Moabe. Um dos fatores que demonstram essa proposta é a proporção. Levando-se em conta que o livro cobre um período de 410 anos em 47 capítulos, vemos que a descrição dos 40 anos do reinado de Salomão cobre 11 capítulos, dos quais nada menos que 4 são dedicados à construção e dedicação do Templo. Basicamente 3 capítulos são dedicados à ascensão e ao reinado de Jeroboão, que tomaram 22 anos. Os ministérios de Elias e Eliseu, que juntos duraram cerca de 40 anos, merecem nada menos que 19 capítulos, em que muitas vezes a narrativa é extremamente detalhada. Em contraste, Onri, que fundou a terceira dinastia de Israel e edificou Samaria, e foi tão importante aos olhos de seus contemporâneos que Israel era frequentemente mencionado em inscrições do OMA como "a casa de Onri", merece apenas um parágrafo. Outro fator literário que orienta o leitor a essa dupla percepção de fracasso e esperança com relação ao tema fundamental que é a monarquia teocrática, é o uso de um recurso chamado inclusio, que consiste em utilizar o mesmo tema como uma espécie de parênteses para indicar que o todo está tratando do mesmo assunto ou deve ser olhado da mesma perspectiva teológica. Este parece ser o alvo da inclusão da luta fratricida no início do livro (que mostra que divisão interna e intriga palaciana não puderam anular a aliança davídica) e da inclusão da reabilitação de Joaquim como epílogo do livro (que mostra que 8 WALTON, John, Ancient Israelite Literature in Its Cultural Context, p. 119.
6 nem mesmo destruição e exílio puderam extinguir a esperança de que a linhagem davídica viesse a produzir o Filho de Davi, cujo trono seria eterno). Dois discursos contidos no livro focalizam o tema da observância à aliança e as conseqüências de sua desobediência. O primeiro que focaliza o Templo como meio de expressão da lealdade mútua exigida pelo pacto deuteronômico, está contido na bênção e oração de Salomão (1Re ). Esse discurso era importante porque a inauguração do Templo marcou, de maneira efetiva aos olhos do povo, a total integração da vida de Israel como monarquia teocrática. O segundo discurso vem do próprio autor/editor (2Re ), ao explicar a causa do cativeiro das dez tribos do Norte, creditado à falta de lealdade pactual (17.15). Prolepticamente, o autor/editor avança até o cativeiro babilônico ao comentar sobre Judá e seu exílio ( ). Por outro lado, a oração do rei na dedicação do Templo, calcada em Deuteronômio 4 e 28, já acenava com a possibilidade do cativeiro sim, mas também da restauração, que o autor/editor deixa em germe na reabilitação de Joaquim ( ). MENSAGEM À luz destas observações, a seguinte mensagem é proposta para o livro de 1 e 2 Reis: 9 A infidelidade nacional às alianças deuteronômica e davídica trouxe o inevitável colapso da monarquia depois de repetidas manifestações de misericórdia divina, que adiaram o castigo em Judá e preservaram um remanescente em Israel. TEOLOGIA DE REIS Yahweh é apresentado no livro de Reis primariamente como o Deus das alianças. Ele é o mesmo Deus que Se revelou a Israel no Sinai (cf. 1Re 19), e que agora Se mostra fiel das demonstrações de misericórdia e na execução da justiça de acordo com as promessas da aliança. A. Yahweh é santo. Este atributo é visto mais frequentemente no julgamento contra os que violam os preceitos da aliança mosaica do que em declarações formais encontradas no texto. Reis é, ao lado de Juízes, o exemplo principal da justiça de Yahweh, isto é, de Sua santidade em ação. Assim, o juízo contra Salomão vem porque a santidade e a singularidade de Yahweh são ofendidas pela sua tolerância com a idolatria e posterior adesão a ela (1Re 11). De igual modo, Jeroboão perde a bênção de Yahweh e traz maldição sobre sua dinastia por causa de suas perversões idólatras, que se tornaram o padrão pelo qual Israel media o mal. 10 Talvez o exemplo mais dramático do zelo de Yahweh por Sua santidade é o do homem de Deus que foi morto por um leão por não obedecer estritamente à ordem que havia 9 PINTO, Carlos Osvaldo. Teologia bíblica do Antigo Testamento. Atibaia: Seminário Bíblico Palavra da Vida, p A promessa feita a Jeroboão é marcadamente distinta daquela que foi feita a Davi. Seu caráter era eminentemente condicional (1 Re 11:38), em contraste com a aliança de doação real feita a Davi (2 Sm 7:8-16, especialmente os versículos 15-16).
7 recebido (1Re ). O exemplo mais conhecido, é claro, é a confrontação entre Elias e os profetas de Baal ( ), onde a santidade e a singularidade de Yahweh foram magnificamente vindicadas. 2. Yahweh é gracioso. Ele demonstra Seu amor leal a Seus servos (1Re 8.22), derrama copiosamente riqueza e sabedoria (1Re ), restringe o julgamento à vista do arrependimento do mais vil pecador (1Re ), cura estrangeiros e lhes revela o Seu caráter (2Re a), e não abre mão de Seus propósitos graciosos mesmo quando Seu próprio profeta sugere que um Israel crivado de pecados chegou "ao fim da picada" pactual (1Re ). As profundezas da graça de Yahweh se encontram, todavia, na Sua preservação da linhagem davídica mesmo em face da mais grosseira idolatria e infidelidade moral. Salomão (1Re 11.35), Abias (1Re 15.4), e até mesmo o piedoso Ezequias (2Re ) são exemplos de tal graça preservadora expressa nos termos das promessas incondicionais das alianças abraâmica e davídica. 3. Yahweh é fiel. A fidelidade divina já é reconhecida por Salomão como o elemento chave em sua subida ao trono e na construção do templo (1Re 8.20). Falhas humanas subseqüentes não invalidam as promessas de Deus assim como a presença de nuvens escuras não invalida a realidade do sol. De fato, como Gerhard von Rad sugeriu, "a crítica parcialmente destrutiva dos reis de Judá e Israel teve assim o seu aspecto positivo e o Deuteronomista serviu-se dela para preservar de qualquer alteração ou usurpação o que, na sua opinião, era o verdadeiro sentido da profecia de Natã". 11 O epílogo sobre a reabilitação de Joaquim é uma indicação clara da fidelidade pactual de Yahweh. Além disso, o Deus que chama para Si a responsabilidade de cumprir Suas alianças é também fiel em preservar um remanescente para o qual tais promessas venham, eventualmente, a se tornar realidades (cf. 1Re 19.18). Uma nota de solene advertência é que esta fidelidade às promessas inclui as promessas de juízo. Mesmo a profunda conversão e devoção de um Josias é incapaz de deter a maré da ira pactual de Yahweh contra o entulho idólatra e imoral acumulado por um Manassés (2Re 23.26), cuja influência acompanhou Judá até 586 a.c., quando Nabucodonosor destruiu Jerusalém. 12 A ADMINISTRAÇÃO DOS PROPÓSITOS DE DEUS A. O decreto da permissão do mal. No livro de Reis o mal aparece na luta espiritual pelo coração dos reis, primariamente os da linhagem de Davi, que são confrontados com a escolha de seguir os passos de seu ilustre antepassado ou os caminhos tortuosos da idolatria, quer em sua versão jeroboâmica, quer na versão baalística. Outras forças do mal são a guerra entre os reinos (Norte-Sul) e, no plano político da teocracia, a subserviência a potências estrangeiras com vistas à segurança e à sobrevivência da nação, muitas vezes às custas dos tesouros sagrados de Israel. Tal prática foi condenada veementemente pelos 11 Teologia do Antigo Testamento, 1: Este elemento corporativo que não se manifestou nos Juízes e esteve tão presente em Samuel e Reis é fonte de inquietação para von Rad, Teologia 2:333. A diferença entre os períodos está ligada à escolha do povo e ao fato de que uma vez assumida a autoridade real, a misteriosa identidade corporativa entrava em ação. Além disso, Israel de fato assumira o estilo de vida cananeu e trouxera, com isso, sobre si a ira santa do Deus que pronunciara um (herem, "edito de aniquilamento") contra Canaã.
8 profetas como adultério pactual. B. A ação divina em julgar o mal. Esta atividade assumiu formas diversas em Reis. O mal em Israel e Judá foi muitas vezes purgado por meio de invasão e opressão estrangeira (Yahweh usou egípcios, siros, moabitas, filisteus, assírios e babilônios para isso). No plano interno o juízo foi mediado por profetas (Elias e Eliseu) e reis (Jeú, que desmantelou o aparato estatal baalista montado por Acabe e Jezabel; [2Re 9-10] e Jeoás, que puniu o idólatra e arrogante Amazias; cf. 2 Cr 25.14). C. A promessa de libertar do mal. É esta promessa que garante a subsistência de Judá ao tempo do cisma de Jeroboão (1Re ), no tempo da apostasia de Abias (1Re ), no tempo da trama diabólica de Atalia para eliminar a linhagem de Davi (2Re 11.1), e no quase aniquilamento de Judá durante a invasão de Senaqueribe (2Re 19.24; 20.6). D. O decreto de abençoar os eleitos. Esta linha de ação divina está presa à aliança davídica, que é mais notável no livro pelo fracasso de seus representantes; isso mantém acesa na mente do leitor a questão de quando viria o Filho de Davi, tão esperado. O propósito divino de restabelecer Seu governo por intermédio de um rei davídico exigia o surgimento de alguém maior que Davi. Mesmo seus descendentes mais piedosos, Ezequias e Josias, fracassaram na tarefa de conquistar o mal (cf. Gn 4.7). A linhagem davídica é preservada no cativeiro, e os leitores chegam ao fim do relato insatisfeitos com o resultado, mas esperançosos quanto ao futuro, aguardando a eventual aparição do Filho de Davi e do pleno cumprimento da aliança. CULTO E PROFECIA COMO INSTRUMENTOS DA TEOCRACIA A. O Culto. Uma grande parte da teologia do Antigo Testamento gira em torno do culto mosaico e do lugar onde era realizado. A própria nação só ganhou tal status quando o Tabernáculo foi inaugurado e a presença de Yahweh se tornou visível ao povo. Com a entrada em Canaã tornou-se necessário definir claramente o que era um culto aceitável, principalmente pelas semelhanças conceituais e verbais entre o yahwismo e as religiões cananitas. Uma aparente tensão que existiu desde o começo da habitação em Canaã foi a centralização do culto exigida em Deuteronômio 12, 14 e 16 e a existência dos famosos (bamôt, "altos"), onde todo Israel, dos camponeses aos monarcas, adorou. A ala liberal da erudição fez dessa aparente tensão uma tensão real e a base de sua datação recente para Deuteronômio e outras partes do AT. Talvez seja mais apropriado aceitar a idéia proposta por M. H. Segal de que Deuteronômio não insistia num lugar único, mas em que o lugar fosse divinamente aprovado (i.e., não fosse um local de culto sincrético). 13 Isso explicaria a nota crítica com respeito a alguns reis."os altos, todavia, não foram removidos" (1Re 15.14; 22.44). Quando o Templo foi construído, Israel partiu de uma premissa básica, a de que o Templo não poderia conter ou limitar a Yahweh, que era universal e onipresente (cf. 1Re 8.27). O templo era o local de Sua manifestação em glória, beleza, santidade e justiça, onde o desfavorecido e explorado podia buscar ajuda (8.21). A universalidade de Yahweh era vista no fato do estrangeiro poder orar a Ele, caso tivesse se identificado com Seu povo ( ), 13 The Book of Deuteronomy, Jewish Quarterly Review 48 (1957-8):
9 e no fato de que a oração de Israel no Exílio seria ouvida se dirigida ao Templo ( ). Certamente esta passagem é a base da ação de Daniel quando confrontado com o edito de Dario (Dn 6) e com o fato dos setenta anos de cativeiro preditos por Jeremias estarem se cumprindo (Dn 9). Essa prática permanece na mentalidade islâmica. Infelizmente, com o passar dos séculos, a confiança foi desviada daquele que habitava no Templo para o Templo em si, o mesmo erro que Israel praticou em relação à Arca (1 Sm 4). Jeremias foi o profeta que mais veementemente atacou tal hierolatria (cf. Jr 7). B. A Profecia. O movimento profético teve em Samuel o seu "fundador" oficial. A "escola de profetas" ainda incipiente e "carismática" em 1 Samuel 10 aparece mais organizada e "teológica" nas narrativas de Elias e Eliseu. Os profetas aparentemente gozavam de uma condição implicitamente aceita pela nação, que os colocava acima dos reis. Isso pode ser creditado ao fato de que Moisés era visto como o profeta por excelência, e que servira de intermediário entre Yahweh e Israel. A etimologia da palavra hebraica profeta (aybin") é incerta, mas o certo é que em Reis, profetas ungem e repreendem reis, dão conselho baseado em revelação divina, 14 e acompanham os exércitos à guerra (Odebe e Eliseu são dois exemplos) como porta-vozes de Deus. Elias e Eliseu são dois casos únicos no movimento profético em Reis, pois cumprem uma função sócio-político-religiosa singular, a de ministrar a graça pactual de Yahweh na resistência ao Baalismo e no desmantelamento do aparato religioso criado para sustentar essa falsa religião. Enquanto o ministério de Elias foi primariamente de julgamento, o de Eliseu foi de misericórdia, o que fornece um paralelo marcante aos ministérios de João Batista e de Jesus É verdade que Natã dá precedente para vermos que o profeta era, ocasionalmente, o amigo do rei que dava conselhos baseados em opinião pessoal e bom senso. Sem dúvida Isaías exerceu tal papel em relação a Ezequias, e Jeremias. 15 PINTO, Carlos Osvaldo. Teologia bíblica do Antigo Testamento. Atibaia: Seminário Bíblico Palavra da Vida, pp
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