DO TEMPO DA ANGÚSTIA 1
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- Renato Danilo Machado Rico
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1 DO TEMPO DA ANGÚSTIA 1 Jacques Laberge 2 Poucos temas devem ter sido, para Freud, tão angustiantes quanto a angústia. Ele precisou de uns trinta anos para reconhecer que se havia equivocado em querer manter a noção de angústia neurótica, efeito do recalque para compor uma dupla com a angústia do Real. Chama a atenção tanto a presença maciça do tema da angústia logo nos primeiros anos das pesquisas de Freud (pois em 1895, ele já havia escrito o rascunho E a Fliess e dois textos Neurastenia e angústia e Para uma crítica da neurose de angústia), quanto a insistência sobre a angústia neurótica, recalcada. Esta abordagem da angústia, efeito do recalque, vai esbarrar na afirmação de O inconsciente, escrito de 1915: o afeto nunca é inconsciente, somente sua representação é submetida ao recalque (GW X, 276). Mas, por causa do peso de suas posições iniciais, é laborioso para Freud aplicar esta afirmação ao chamado afeto da angústia. Alguma dúvida sobre a noção de angústia neurótica aparece na lição 25 das Novas Conferências de (GW XI, ), se transforma em questionamento em O eu e o isso de 1923 (GW XIII, 287). Este questionamento se radicaliza em 1926 no capítulo IV de Inibição, Sintoma e Angústia (GW, XIV, 137). Enfim, em 1932, uma longa retomada de toda esta polêmica, que deixa o leitor em suspenso, mostra o mérito de Freud em reconhecer seu equívoco assim como sua dificuldade de assumir uma conclusão, porém inevitável: A angústia neurótica se transformou, em nossas mãos em angústia do Real. O recalque não cria angústia, mas a angústia está ali mais cedo (früher), a angústia faz o recalque (GW XV, 99,93). Este mais cedo (früher) da angústia acaba se impondo, sublinhando como central nesta polêmica a questão do tempo. Em seu Seminário 10, A Angústia, Lacan aproveita das trabalhosas conclusões de Freud sobre o afeto da angústia e o qualifica de o afeto. Nisso, deve se inspirar 1 A primeira versão deste texto foi apresentada na JORNADA FREUD-LACANIANA do Recife, em fins de outubro de A segunda versão, aqui publicada, foi apresentada na CONVERGENCIA-Activity da Instituição Après-Coup de New-York, em março de PsicanalisTa, membro de Intersecção Psicanalítica do Brasil/PE. [email protected]. 1
2 do início da lição 32 das Novas Conferências de 1932 que sublinha que a representação é recalcada, mas que sua quantia de afeto é regularmente transformada em angústia (...) seja este afeto de agressão ou de amor (GW XV, 90). Mas teríamos que debater aqui com Freud o problema da anterioridade da angustia em relação aos outros afetos. O amor ou a agressão suporia relação com o desejo cujo afeto anunciador, anterior, é a angústia. Começando seu Seminário 10, Lacan diz: o afeto não é recalcado e isso Freud o diz como eu (...). Vai à deriva. Encontra-se deslocado, louco (...). O que é recalcado são os significantes que o amarram (...) Trata-se do desejo e o afeto por onde somos solicitados, talvez, a fazer surgir tudo o que comporta como consequência universal (... ) é a angústia ( ). Louco e à deriva, esses qualificativos colocam o afeto no registro do real, afeto insuportável quando associado ao trauma, o real eminente em Freud, enquanto energia livre que irrompe repentinamente e que por isso não pode ficar ligada à representação. Frente à insustentável angústia neurótica, aliás composta de um substantivo e de um adjetivo, o uso por Freud de dois substantivos angústia do real pode abrir para uma realidade outra do que a simbólica que engana ou a imaginária que, também, não deixa de enganar. A angústia do real corresponde em todo caso à perspectiva lacaniana da angústia como real, real cuja definição nos primeiros Seminários se vê aqui sublinhada: o real, aquilo que não engana. TEMPO ANTECIPADO Na lição 25 das Conferências introdutórias de , Freud define a angústia do real como reação à percepção de um perigo externo, isto é, de algum dano esperado, previsto (erwarteten, vorgesehenen Schädigung). Ele acrescenta a respeito da situação de angústia (Angstsituation) que primeiro nela é a disposição, especificando-a como disposição de espera (expectativa) (Erwartungsbereitschaft). A chamada impressão prematura (frühzeitig) é associada ao ato de nascimento. Além do vorsehen, Freud usa também o vorausssehen e vorhersehen para prever ou antever. Esperar e prever sublinham, a respeito da angústia do real, algo da ordem da antecipação, antecipação do desejo. Em O eu e isso de 1923, Freud fala que o eu é o lugar próprio da angústia (... ) reação primitiva (primitive Reaktion) substituída posteriormente pela efetivação de investimentos protetores, referindo-se ali ao mecanismo das fobias (GW XIII,287). É 2
3 sempre primeira (Freud repete muito este primäre ) a angústia do eu que é propulsão para o recalque (GW XIV, 137). Lacan caracteriza a angústia como sinal do eu ao sujeito. O Seminário 10, A Angústia dá um destaque ao texto de Freud O estranho de Por quê? Porque ao mesmo tempo em que afirma a angústia diante da falta, da perda, da ausência, do fracasso, isto é da castração, Freud, ali, questiona o que pareceria um monismo equivocado da angústia, pois mostra a angústia frente à falta da falta, frente à presença. Com efeito, a multiplicação de personagens nos contos de Hoffmann sublinha a questão do duplo, não se sabendo se o eu é próprio ou do outro, do estranho, ilustrando algo decisivo, o desejo como desejo do Outro. E é comentando este texto de Freud sobre o Unheimlich na lição de que Lacan define a angústia como o estranho da presença do desejo do Outro : ali onde se espera falta, se estranha porque há o imprevisto, há falta da falta. O estranho da presença do desejo do Outro é ilustrado pelos casos clínicos de Freud. Lacan termina esta lição falando da presença do desejo materno para o pequeno Hans e do desejo do analista para o analisante. A angústia como expectativa, antecipação, se situa em relação à incerteza do que sou como causa do desejo do Outro. Partindo d O Elixir do diabo de Hoffmann e da presença maciça de duplas de personagens, observa Lacan a : o desejo se revela como desejo do Outro, aqui desejo no Outro, mas direi que meu desejo entra no outro onde está sendo esperado desde toda a eternidade sob a forma do objeto que sou, enquanto me exila de minha subjetividade.(... ) O sujeito não chega, não acede a seu desejo senão substituindo-se sempre a um de seus próprios duplos. O tempo toma sua forma radical, ex-temporal de eternidade em associação ao sempre do recurso ao duplo, Hoffmann servindo a sublinhar que se a angústia é antecipação do desejo do sujeito, ela é sempre, estruturalmente, posterior ao desejo do Outro. ANGÚSTIA, ANTERIOR À CESSÃO DO OBJETO A definição da angústia como sinal de perigo, Lacan vai questioná-la a partir do tempo. Ele afirma que este perigo em Freud é ligado ao caráter de cessão do momento constitutivo do objeto a (há perda, então há angústia) aqui articularemos de outro modo do que Freud, este momento da função da angústia é anterior a esta cessão do objeto, 3
4 algo mais primitivo do que a articulação da situação de perigo(... ) A angústia, eu disse, está ali ligada a isto que não sei qual objeto a sou para o desejo do Outro (... ) O que resta do não sei angustiante é fundamentalmente desconhecimento (3-7-63). Por exemplo, a respeito do objeto anal associado ao desejo de reter : ele está ali, já dado, já produzido, e produzido primitivamente, colocado à disposição desta função determinada pela introdução da demanda por algo que é anterior que estava ali, já como produto da angústia (3-7-63). Primitivamente, esta causa é a angústia que literalmente a produz ( ). De fato, Lacan questiona o Freud das conferências e de Inibição, sintoma e angústia a partir do Freud dos escritos clínicos e do texto O estranho. É este segundo que permite entender que os termos de Freud a respeito da angústia disposição, previsão, expectativa, primitiva, tomam seu verdadeiro sentido na incerteza do não sei que objeto a sou para o desejo do Outro. Podemos dizer: esta incerteza da angustia que objeto sou? estranha a certeza de sua ligação ao desejo. Real da angustia enquanto o não nomeado da incerteza. Real da angústia enquanto certeza indizível da antecipação do desejo. No momento em que um analisante, paralisado em sua vida pela angústia, consegue, por exemplo, nomear-se com objeto do desejo de morte da mãe, posição revivida na relação com o analista, esta nomeação permite ao analisante ir além do gozo do sofrimento, e, reduzindo o nível da angústia insuportável, abrir-se ao atravessamento do desejo. Lacan coloca o estranho como denominador comum de toda angústia, da qual reconhece dois tipos. No primeiro nível, ao qual ele dá o destaque, no nível do objeto a como equivalente do falo enquanto falta, do menos phi, ali onde se espera nada, se vê: não se deve ver que é ele, o falo, que está em causa. Se se vê, angústia. E Lacan sublinha aqui tanto a presença angustiante do desejo do Outro quanto a angústia que não é de fracasso, de ausência, mas de sucesso, de presença. Em outro nível do que do objeto a, no nível fálico mesmo, o estranho é que se espera ver o falo e não se vê. É propriamente a angústia de castração. Trata-se no nível da angústia de castração daquilo que funciona no fim de uma análise ( ). Precisamos sublinhar que este fim é anunciado já na primeira sessão de análise, é antecipado, e depois elaborado, antes de ser concluído, isto é, tem os três momentos de seu tempo lógico. Há efeitos de castração no início, no meio, e não somente no fim de uma análise. 4
5 TRES TEMPOS : GOZO, ANGUSTIA, DESEJO A questão do tempo articulada ao desejo do Outro aparece claramente em 27 de fevereiro de 63 : O desejo do Outro (... )me interroga à própria raiz de meu desejo a mim como a (à moi comme a), como causa deste desejo e não como objeto; é porque é ali que visa, em uma relação de antecedência, em uma relação temporal(... ). É porque o desejo do analista suscita em mim esta dimensão da expectativa (attente) que sou tomado em algo que é a eficácia da análise. Eu bem queria que ele me visse como tal ou qual, que fizesse de mim um objeto. E em , falando do objeto a, o objeto perdido, é com isso que temos a ver, de um lado no desejo, do outro na angústia. Temos a ver com isso na angústia, se se pode dizer, logicamente, anteriormente ao momento em que temos a ver com isso no desejo. Estes dois tempos anunciam a reformulação em três tempos. A , Lacan afirma que antes de chegar ao resultado da operação que é o sujeito barrado, castrado, há um nível mítico, anterior (préalable) a todo este jogo da operação (... ) não se pode, de nenhuma maneira, isolá-lo como sujeito, e, miticamente, o chamaremos, hoje, sujeito do gozo. E Lacan se refere aos três níveis aos quais respondem os três tempos desta operação, são respectivamente o gozo, a angústia e o desejo. Ele especifica que se trata de uma função, não mediadora, mas mediana, da angústia, entre o gozo e o desejo. (... ) esta hiância do desejo ao gozo; é ali que se situa a angústia. E é tão seguro que o tempo da angústia não é ausente, como o marca este modo de ordenar os termos na constituição do desejo, mesmo que este tempo seja elidido, não situável no concreto, ele é essencial. E Lacan cita Uma criança é espancada, texto em que Freud fala de um segundo tempo sempre elidido em sua constituição, tão elidido que somente a análise pode reconstruí-lo. Na parte três deste texto de 1919, Freud fala de três tempos : o primeiro, O pai bate na criança, o segundo, a fantasia com alto grau de prazer, eu estou sendo espancado por meu pai (... ) sem dúvida à caráter masoquista. E o terceiro quando a fantasia se liga agora a uma forte e inequívoca excitação sexual. Freud comenta que o segundo tempo é o mais importante (... ) em certo sentido nunca teve existência real (... )é uma construção da análise (GW XII,204).A partir disto, Lacan afirma : Falei da angústia enquanto tempo intermediário 5
6 entre o gozo e o desejo, enquanto, uma vez atravessada a angustia, é fundado sobre o tempo da angústia que o desejo se constitui. Questionada se não estava alimentado o gozo incestuoso do filho com quem dormia, uma mãe responde: gosto de dormir com ele. Você não se preocupa com aquilo que é bom para ele?, pergunta-lhe a tia da criança. Questão que pode permitir o surgimento da angústia enquanto distância do gozo e anúncio do desejo. Este miticamente chamado sujeito do gozo não se pode, de nenhuma maneira, isolá-lo como sujeito enquanto submetido ao gozo do Outro, o gozo real. O outro quer necessariamente minha angústia (... ) isto é gozar de mim ( ), seja este Outro representado pelos lobos do gozo visual da árvore do sonho ou pelos ratos do gozo anal. Gozo de um sujeito mítico, anterior, gozo outro do que fálico, gozo do Outro, expressões do real do gozo. A angústia, esta estranheza de não saber que objeto a sou para o desejo do Outro marca a passagem do gozo ao desejo. Indica que o sujeito não está preso no gozo e dele se distancia. Gozo, angústia, desejo, três momentos do tempo lógico. Gozo do sujeito impessoal do instante de ver, angústia associada aos sujeitos recíprocos do tempo de compreender, desejo do sujeito da enunciação do momento de concluir. REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS: G.W. : Freud. S., Gesammelte Werke, Frankfurt am Main, Fisher Verlag. Lacan, J., Le Séminaire (10), L angoisse, inédito. 6
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