PERSPECTIVA BÍBLICA SOBRE O DIVÓRCIO

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Transcrição:

PERSPECTIVA BÍBLICA SOBRE O DIVÓRCIO (Texto original de Julio Severo rearanjos de Paulo Aleixo) O estudo presente foi preparado para enriquecer nosso conhecimento sobre o assunto com uma visão breve da bíblia sobre o assunto. O que se pretende é chegar a uma perspectiva da Palavra de Deus que seja útil para os casais evangélicos, e não só antes que eles pensem em seguir a tendência da época que é o DIVÓRCIO. O que a Bíblia diz? O que a Bíblia diz no Novo Testamento sobre o divórcio? É comum hoje entender que em Mateus 19:9 Jesus permite o divórcio em situações de infidelidade conjugal. Mas por que ele também não incluiu os casos de violência doméstica e abandono? Essa passagem na verdade trata de um problema relativamente comum entre os judeus daquela época: divórcio e recasamento. Geralmente, o judeu queria o divórcio a fim de poder se casar novamente. O Antigo Testamento (AT) permitia essa possibilidade por razões mais amplas do que a infidelidade conjugal. É por isso que os apóstolos pareceram decepcionados com a posição restritiva de Jesus. Contudo, Jesus tinha um jeito especial de lidar com situações complicadas. Quando os líderes religiosos judeus trouxeram uma mulher apanhada no ato de adultério diante de Jesus, ele foi extremamente inteligente. Em vez de se mostrar contra ou a favor, ele lhes deu uma resposta que os conduziu a uma profunda reflexão do estado de vida de cada um deles: Quem estiver sem pecado, jogue a primeira pedra. (João 8:2-11) Na passagem sobre o divórcio, Jesus agiu da mesma forma, numa situação igualmente complicada. Ele respondeu aos líderes religiosos judeus de um modo que pudesse levá-los a reflectir mais no que é o casamento diante de Deus. Ele disse: Eu lhes digo que todo aquele que se divorciar de sua mulher, excepto por imoralidade sexual, e se casar com outra mulher, estará cometendo adultério. (Mateus 19:9) Os outros Evangelhos também citam a mesma passagem, mas

não fazem nenhuma referência ao trecho em que Jesus menciona excepto por imoralidade sexual: Em Marcos, Jesus diz: Todo aquele que se divorciar de sua mulher e se casar com outra mulher, estará cometendo adultério contra ela. (Marcos 10:11) Em Lucas, Jesus diz: Quem se divorciar de sua mulher e se casar com outra mulher estará cometendo adultério, e o homem que se casar com uma mulher divorciada estará cometendo adultério. (Lucas 16:18) Por que parece haver tal contradição nas declarações de Jesus nos Evangelhos? Por que Mateus resolveu tratar do assunto de modo diferente? Enquanto em Marcos e Lucas Jesus parece ser categoricamente contra o recasamento, em Mateus ele mostra que há uma situação específica em que um homem ou mulher pode se divorciar e casar novamente. Em outras palavras, somente a imoralidade sexual permite essa possibilidade. Como explicar essa diferença de ensino? Entendendo o objectivo de cada livro da Bíblia Embora tenhamos a Bíblia como uma colecção completa de livros hoje, originalmente cada livro (no caso, cada Evangelho) foi escrito como uma carta dirigida a pessoas especificas. Os livros de Marcos, Lucas e João foram escritos de modo geral para cristãos que não eram judeus. No primeiro século da era cristã, nenhuma igreja possuía sozinha todos os livros do Novo Testamento. Só séculos mais tarde é que as igrejas passaram a desfrutar das bênçãos de possuir a colecção completa das cartas reunidas dos apóstolos. Assim, tratando-se dos Evangelhos na época em que foram escritos há dois mil anos, uma igreja em determinado lugar recebeu o Evangelho de João, outra recebeu o Evangelho de Marcos e um homem importante chamado Teófilo recebeu o Evangelho de Lucas. Essas cartas foram preparadas para cristãos sem muito conhecimento nos costumes judaicos. Mas para quem foi escrita e dirigida a carta de Mateus? Um fato importante é que o Novo Testamento foi escrito em grego, a língua mais usada pelo mundo na época dos apóstolos. No entanto, especialistas acreditam que o único livro do NT que originalmente não foi escrito em grego é Mateus, que se presume ter sido escrito primeiro em

aramaico, a língua utilizada pelos judeus da época. Mais tarde, o Evangelho de Mateus foi traduzido para o grego. Então, sabe-se que três Evangelhos foram escritos para quem não era judeu, e apenas um trata das necessidades especificas dos judeus. Portanto, na passagem de Jesus sobre o divórcio, Marcos e Lucas não mencionaram o trecho excepto por imoralidade sexual por um nobre motivo: eles queriam poupar a mente dos cristãos não judeus das questões particulares dos judeus. Da mesma forma, Paulo, que era judeu e tinha um ministério voltado para alcançar quem não era judeu, jamais tocou no assunto da excepção de Jesus, a fim de não confundir os não judeus. Marcos, Lucas e Paulo sabiam o que Jesus havia dito, mas sabiam também que a declaração completa só era relevante para os judeus. Assim sendo, o que um judeu era levado a pensar quando ouvia: Quem se divorciar de sua esposa e se casar com outra mulher comete adultério, a não ser no caso de adultério? Adultério como crime social Os judeus viviam de acordo com as leis do Antigo Testamento. Para eles, só havia uma lei para o pecado do adultério. Se um homem cometer adultério com a mulher de outro, ele e a mulher deverão ser mortos. (Levítico 20:10) A pena de morte, aplicada no cônjuge culpado, liberaria o cônjuge inocente para se casar com outra pessoa. Há outras evidências bíblicas que mostram que só a morte de um cônjuge libera o outro, se assim ele o desejar, para um novo casamento. Em Romanos Paulo diz: Por exemplo, pela lei a mulher casada está ligada a seu marido enquanto ele estiver vivo; mas, se o marido morrer, ela estará livre da lei do casamento. Por isso, se ela se casar com outro homem enquanto seu marido ainda estiver vivo, será considerada adúltera. Mas se o marido morrer, ela estará livre daquela lei, e mesmo que venha a se casar com outro homem, não será adúltera. (Romanos 7:2-3). Qualquer judeu, como o próprio Paulo, podia compreender que a única base para o recasamento é a morte do outro cônjuge. No entanto, se alguém que não pertencia ao povo de Israel lesse Mateus 19:9, ele entenderia que só pode haver divórcio em caso de adultério. Ele entenderia dessa forma justamente porque sua mente não teria condições de ver o texto como um judeu, que conhecia o Antigo Testamento. Assim, ele não

saberia que há uma penalidade máxima para o pecado do adultério. Embora o Antigo Testamento desse liberdade para os judeus se divorciarem por vários motivos para poderem se casar novamente, Jesus limitou essa liberdade a um único motivo, mas com uma resposta que tinha como objectivo levar os judeus a reflectir profundamente no significado e projecto de Deus para a união familiar. Além disso, ele mostrou que a lei de divórcio do Antigo Testamento foi estabelecida por causa da dureza de coração do próprio povo de Deus. Como todo bom judeu, os discípulos de Jesus apreciavam a lei de divórcio do Antigo Testamento. É por isso que eles expressaram certo descontentamento e desapontamento com o posicionamento de Jesus permitindo divórcio e recasamento somente no caso de imoralidade sexual. Eles disseram: Se o relacionamento de um homem com sua esposa é assim, não vale a pena casar! (Mateus 19:10). O que os deixou assim desanimados, e o que também deixaria qualquer outro judeu no mesmo estado de insatisfação, é que ao aceitar o posicionamento de Jesus, o judeu que pretendia se divorciar e casar novamente teria de aceitar a lei divina que trata da pena para o pecado do adultério. Espaço para a graça da restauração Entretanto, onde fica o espaço para a graça de Deus em toda essa situação em que fica aberta a possibilidade de recasamento somente com a morte do cônjuge culpado? O judeu que lesse o Evangelho de Mateus teria, inevitavelmente, de ler a passagem logo antes da declaração de Jesus sobre o divórcio (Mateus 18:23-35). Quando Mateus escreveu aos judeus, sua carta não tinha capítulos nem versículos. Assim, a passagem sobre o perdão (Mateus 18:23-35) estava unida à passagem sobre o divórcio (Mateus 19:1-12). Então, antes de pensar em divórcio o judeu já precisaria pensar em perdão. Com a dilecção do Espírito Santo, o judeu obediente a Jesus poderia liberar o perdão e deixar a graça de Deus vencer e prevalecer onde o pecado queria destruir. Portanto, é possível entender que a graça do perdão está disponível para curar e restaurar casamentos. A graça de Jesus veio para restaurar, não destruir. Contudo, um cristão não judeu interpretaria a passagem de Mateus como se o Novo Testamento permitisse divórcio

apenas no caso de adultério. Tal interpretação deixaria sem resposta algumas importantes questões: Como, por exemplo, ficaria a situação de esposas casadas com homens beberrões, violentos ou até criminosos? Como Paulo tratou a questão Paulo, que pregava a graça de Deus e era hostilizado pelos judeus legalistas, abordou o assunto da separação. Ele ensinou: Aos casados dou este mandamento, não eu, mas o Senhor: Que a esposa não se separe do seu marido. Mas, se o fizer, que permaneça sem se casar ou, então, reconcilie-se com o seu marido. E o marido não se divorcie da sua mulher Por causa dos problemas actuais, penso que é melhor o homem permanecer como está. Você está casado? Não procure separar-se. (1 Corintios 7:10-11, 26-27). Em situações em que um cônjuge descrente resolve se separar, Paulo via na separação liberdade para o cônjuge crente: Todavia, se o descrente separar-se, que se separe. Em tais casos, o irmão ou a irmã não fica debaixo de servidão; Deus nos chamou para vivermos em paz. (1 Corintios 7:15) É claro que na opinião de Paulo o estado ideal para os solteiros era não se casarem, a fim de estarem livres para servir ao Senhor. Então, no caso de um cristão casado se separando, a ideia não é outra: sua liberdade é oportunidade de servir ao Senhor sem nenhum impedimento. Paulo via um homem ou mulher fora do casamento como um cristão inteiramente livre para trabalhar para Deus, sem as preocupações e ocupações que tomam o tempo quando alguém é casado e é obrigado a pensar em suprir as necessidades do cônjuge. Ele diz: Por causa dos problemas actuais, penso que é melhor o homem permanecer como está. Você está solteiro? Não procure esposa Gostaria de vê-los livres de preocupações. O homem que não é casado preocupase com as coisas do Senhor, em como agradar ao Senhor. Mas o homem casado preocupa-se com as coisas deste mundo, em como agradar sua mulher, e está dividido. Tanto a mulher não casada como a virgem preocupam-se com as coisas do Senhor, para serem santas no corpo e no espírito. Mas a casada preocupa-se com as coisas deste mundo, em como agradar seu marido. (1 Coríntios 7: 26-27, 32-34) Ainda que nunca tenha tratado directamente do problema do divórcio, Paulo compreendia que a única razão para o recasamento é a morte de um dos cônjuges. Ele diz: A mulher

está ligada a seu marido enquanto ele viver. Mas, se o seu marido morrer, ela estará livre para se casar com quem quiser, contanto que ele pertença ao Senhor. Em meu parecer, ela será mais feliz se permanecer como está. (1 Corintios 7:39-40) Os apóstolos vieram a compreender bem essa verdade, porém por um tempo acharam muito difícil aceitar a perspectiva de casamento que Jesus havia colocado diante deles. É por isso que eles disseram aborrecidos: Se a situação de um homem com sua esposa é assim, não é vantajoso nem aconselhável casar. (Mateus 19:10). Isto é, se o único motivo para o recasamento é a morte de um cônjuge, eles achavam que o melhor era não casar! Afinal, qual o judeu que se divorciaria se soubesse que não poderia casar de novo? Para eles, era muito difícil aceitar o casamento como uma aliança para a vida inteira, até que a morte os separe. Então Jesus lhes respondeu: Nem todos podem aceitar esta verdade sobre o casamento. Mas Deus capacitou alguns para aceitá-la. Há motivos diferentes por que alguns homens não podem se casar. Alguns homens nasceram sem a capacidade de se tornar pais. Outros foram incapacitados assim mais tarde na vida por outras pessoas. E outros homens renunciaram ao casamento por causa do reino do céu. Mas a pessoa que está em condições de se casar tem de aceitar esse ensino sobre o casamento. (Mateus 19:11-12). Nem todos, no meio do próprio povo de Deus, conseguem aceitar o projecto de casamento de Deus, mas somente os que foram capacitados. É óbvio que o ser humano tem a capacidade de desunir onde há corações endurecidos, porém Jesus declarou: Portanto, não deixem ninguém separar o que Deus uniu. (Mateus 19:6) Não é que ele não estivesse consciente dos problemas que um casamento enfrenta. É que ele sabia que Deus tem o poder de capacitar para união, fortalecimento, perdão e restauração onde há corações abertos. Nenhum casal é perfeito, mas quando se abre espaço para Deus capacitar, as situações mais difíceis podem se tornar oportunidades para experimentar grandes vitórias (Tiago 1:2-4,12). Modelos são indispensáveis O Bispo pode casar-se? Examinamos um pouco o que a Palavra de Deus diz. Agora, o que se pode fazer para que menos casais evangélicos sigam a tendência de divórcios e recasamentos no mundo? A resposta são os líderes cristãos. Eles têm um chamado especial para

serem exemplos para o rebanho seguir. (1 Pedro 5:3) O que então qualifica um homem para liderar e servir de modelo? É necessário, pois, que o bispo seja irrepreensível, marido de uma só mulher, moderado, sensato, respeitável, hospitaleiro e apto para ensinar. (1 Timóteo 3:2). É possível também traduzir essa passagem assim: Portanto, é necessário que o pastor tenha um carácter que ninguém possa culpar de nada, tenha tido só uma esposa ou tenha se casado uma vez só Outros líderes da igreja também devem ter a mesma qualificação (1 Timóteo 3:12). Por que Deus estabelece que a liderança deve ter um padrão de vida familiar? Vivemos num mundo cheio de influências erradas. Por isso, Deus quer que pelo menos na igreja as famílias tenham a oportunidade de ver exemplos diferentes dos que existem no mundo e se modelar através desses bons exemplos. A Bíblia mostra que pastores e outros líderes, casados só uma vez, são o exemplo e o modelo ideal para a congregação. Por que? Porque o ser humano tem uma fraqueza: imitar quem está em posição de autoridade ou destaque. Embora muitas pessoas não imitem aqueles que elas adoram, a realidade mostra que a vida errada de muitos artistas de TV agora é vivida por um grande número de seus admiradores. Paulo colocou ordem na liderança porque certamente as congregações não judias tinham vários casos de divórcio e recasamento. Assim, era preciso estabelecer bons modelos, para que os exemplos do mundo não fizessem parte da vida da igreja. O divórcio é um problema que afecta toda a sociedade, porém deve haver um padrão melhor na liderança para que o que é comum no mundo não seja normal na igreja. Deus odeia o divórcio, mas os cristãos de hoje estão sendo de tal forma afectados por imagens, exemplos e modelos de divórcios e recasamentos da sociedade que eles estão começando a agir como se Deus amasse esses problemas! O modo ideal de neutralizar a influência negativa do mundo nos casamentos da igreja é fazer o que Paulo orienta: colocar na liderança homens que tenham um exemplo excelente. Esses líderes serão uma influência positiva na vida das famílias da igreja. Quando virem seu pastor e outros líderes amando a esposa, sendo fiel a ela e preservando a união familiar, muitos vão seguir seu exemplo.