7º Capítulo - Ramo Mateus 1 - Caetano de Oliveira, nasceu cerca de 1760 nas Brotas e casou com Cecília Maria, natural de Santo António do Couço. Tiveram: 2 - José Caetano, nasceu cerca de 1787 na freguesia do Couço, Coruche e casou com Ana Maria Nunes, natural do Couço, Coruche, filha de João Nunes e de Cipriana Maria (ou Sipriana Maria) natural do Peso (Nota 1). 3 - Mateus Nunes, nasceu a 4 de março de 1817 na freguesia do Couço, Coruche. Foram padrinhos de batismo Matheus Nunes, morador na freguesia de Santa Anna do Matto e Anna Maria, lavradora desta freguesia. Casou com Maria de Jesus, nascida a 5 de outubro de 1822 na hoje extinta freguesia de S. Lourenço, Montemor-o-Novo, filha de Manuel da Silva, de Montemor-o-Novo, lavrador da herdade da Lobeira de Cima (neto de João da Silva e de Maria Joaquina) e de Sebastiana Maria, natural da freguesia de S. Geraldo, Montemor-o-Novo (neta de Francisco Lourenço e de Teodora Maria). O casal teve dois filhos: Arquivo Distrital de Santarém, registo de batismo: Matheus, baptizado a 16 de março de 1817 em Santo António do Couço, nasceu a 4 de março de 1817, 1.º nome e 1.º matrimónio de José Caetano e Ana Maria, naturais desta freguesia, neto paterno de Caetano de Oliveira, natural das Brotas e de Cecília Maria, natural desta freguesia, neto materno de João Nunes, desta freguesia e de Cipriana Maria, natural do Peso. 4.1 - António Matheus, nasceu a 24 de setembro de 1849 na freguesia de S. Geraldo, que segue. 4.2 - Manuel Matheus, nasceu cerca de 1859 na freguesia do Peso, Brotas, Mora e casou com Antónia de Jesus, natural de S. Geraldo, filha de Gracia José e de Francisca Maria. Foram moradores no Monte do Peso e tiveram dois filhos (1) : (1) - aos 27 de fevereiro de 1897 na freguesia de S. Pedro da Gafanhoeira foi padrinho Manuel Matheus, viúvo, trabalhador, natural do Peso). 1
5.1 - José Mateus, batizado nas Brotas a 25 de fevereiro de 1889 nasceu no Monte do Peso a 4 de janeiro de 1889. Casou a 8 de novembro de 1909 nas Brotas com Maria Gertrudes de 22 anos de idade, de Coruche, filha de Mateus Nunes e de Gertrudes Maria. Arquivo Distrital de Évora, S. Pedro da Gafanhoeira, Arraiolos, registo de batismo: José, baptizado a 25 de fevereiro de 1889 na Igreja Paroquial das Brottas, Mora, nascido no Monte do Pezo, freguesia anexa do Pezo, a 4 de janeiro de 1889, filho de Manuel Matheus, Trabalhador, natural da freguesia de S. Giraldo e de Antónia de Jesus, também natural de S. Giraldo, recebidos nesta freguesia e paroquianos da freguesia anexa do Pezo, moradores no Monte do Pezo, neto paterno de Matheus Nunes e de Maria de Jesus, neto materno de Gracia José e de Francisca Maria. Foram seus padrinhos José Augusto, morador na freguesia do Pezo e António Matheus, morador nesta freguesia, tio paterno do baptizado, ambos casados, Trabalhadores. 5.2 - Joaquim Mateus, nasceu a 12 de fevereiro de 1894 no Monte e freguesia do Peso. Arquivo Distrital de Évora, S. Pedro da Gafanhoeira, Arraiolos, registo de batismo: Joaquim, baptizado a 29 de abril de 1894 na Igreja Paroquial de Nossa Senhora das Brotas, concelho de Mora, nasceu a 12 de fevereiro de 1894 no Monte e freguesia do Pezo, filho de Manoel Matheus, Seareiro, da freguesia do Pezo e de Antónia de Jesus, S. Geraldo, recebidos, paroquianos e moradores na dita freguesia do Pezo, neto paterno de Matheus Nunes e de Maria de Jesus, natural da freguesia de São Lourenço, neto materno de Garcia José, S. Geraldo e de Francisca de Jesus. Foram seus padrinhos Matheus Lopes, solteiro, Trabalhador, morador no Monte do Azinhal, Pezo e Manuel José Relvas, casado, Ganadeiro, morador no Monte e freguesia do Pezo. 4.1 - António Matheus, nasceu a 24 de setembro de 1849 na freguesia de S. Geraldo, Montemor-o-Novo e casou com Joaquina Maria Rosalino (Nota 2). 2
Joaquina Maria Rosalino nasceu a 29 de setembro de 1869 na freguesia do Peso, anexa a Brotas, concelho de Mora e era filha de Joaquim Francisco Rosalino, nascido a 15 de fevereiro de 1831 nas Brotas e de Ignácia Maria, nascida a 18 de fevereiro de 1833 no Monte do Peso. Viveram no Monte de Besteiros, a norte de S. Pedro da Gafanhoeira, concelho de Mora e tiveram cinco filhos: Registo de batismo, Arquivo Distrital de Évora, freguesia das Brotas: Aos vinte e quatro dias do mês de outubro do anno de mil oitocentos e sessenta e nove nesta Igreja Parochial de Nossa Senhora das Brottas concelho de Mora, Diocese de Évora, baptizei solenemente e pus os santos óleos a um indivíduo do sexo feminino a quem dei o nome de Joaquina que nasceo na freguesia do Peso aqui anexaa no dia 29 de setembro pelas duas horas da tarde, filha legítima de Joaquim Francisco e de Ignácia Maria, ambos naturais do Peso, recebidos nas Brottas, parochianos do Peso, moradores idem, neta paterna de Francisco Vidigal e Rosalina Maria, neta materna de Joaquim Manuel e Jerónima de São José. Foram padrinhos Constantino José, casado, Singeleiro e Joaquina Maria, solteira em criada dos seus pais. Registo casamento, Arq. Distrital de Évora, S. Pedro da Gafanhoeira, Arraiolos: Em 13 de novembro de 1883, S. Pedro da Gafanhoeira, Arraiolos, António Matheus e Joaquina Maria, ele, de trinta e quatro anos, solteiro, natural da freguesia de S. Lourenço, anexa a São Geraldo, morador na Aldeia do Sabugueiro, baptizado na extinta freguesia de S. Lourenço, filho de Matheus Nunes, natural da freguesia de Santo António do Cosso, concelho de Cruxe e Maria de Jesus, natural da extinta freguesia de São Lourenço; ela, de edade de quatorze annos, solteira, natural da extinta freguesia do Peso, anexa a Brotas, baptizada nesta mesma freguesia, filha legítima de Joaquim Francisco e de Ignácia Maria, ambos naturais da freguesia do Peso. Testemunhas Joaquim da Costa Calisto, solteiro, proprietário, morador na Aldeia das Brotas e José Augusto, seareiro, solteiro, morador na herdade do Azinhal, freguesia do Peso e Joaquina Rosa, casada, moradora na herdade do Monte de Sima, da freguesia das Brotas. 3
Resumo dos filhos: 5.1-1 - Mateus Nunes, nasceu em 1884 e casou com Maria Joaquina Relvas. 5.2-2 - Inácia Maria Mateus nasceu em 1886 e casou com Joaquim Aleixo Paes. 5.3-3 - Beatriz Mateus nasceu em 1889, casou com Joaquim Teles sem descendência. 5.4-4 - Manuel Mateus nasceu em 1891 e casou com Rosa Maria Relvas. 5.5-5 - Maria Joaquina Mateus nasceu em 1893, casada com dois filhos. Joaquina Maria Rosalino teve cinco filhos, enviuvou e casou em segundo matrimónio com Matheus Lopes. Este nasceu a 9 de fevereiro de 1860 na freguesia do Peso, Brotas, Mora, filho de Manuel Lopes e de Vicência Maria. Teve mais três filhos deste segundo casamento: 5.6-6 - Martinho Mateus nasceu em 1897 e casou com Maria Batista Salvaterra. 5.7-7 - Vitória Maria Mateus nasceu em 1903 e casou com Mário dos Santos. 5.8-8 - João Mateus nasceu em 1908 e casou com Cristina Antonito. 5.1-1 - Mateus Nunes, seareiro, depois rendeiro da herdade do Gudial em sociedade com o seu irmão Manuel Mateus, nasceu na aldeia do Sabugueiro a 4 de junho de 1884 e foi batizado a 27 de julho desse ano em S. Pedro da Gafanhoeira do concelho de Arraiolos. Faleceu a 19 de fevereiro de 1958 em Montemor-o-Novo. Casou a 10 de julho de 1923, em Montemor-o-Novo com Maria Joaquina Relvas, natural da freguesia do Peso, Coruche, falecida a 19 de fevereiro de 1958 em Montemor-o-Novo. Tiveram quatro filhos, António, Manuel, Joaquim e Joaquina Mateus: A sua descendência segue no 8.º Capítulo, ramo Mateus Nunes. 5.2-2 - Inácia Maria Mateus, nasceu a 10 de julho de 1886 e foi batizada a 15 de agosto desse ano na freguesia de S. Pedro da Gafanhoeira, Arraiolos. Faleceu a 17 de novembro de 1960 em Montemor-o-Novo. Casou com Joaquim Aleixo Paes, nascido a 30 de dezembro de 1879 no Couço e falecido a 19 de maio de 1938 em Vendas Novas. Tiveram uma filha: Arq. Distrital de Évora, S. Pedro da Gafanhoeira, Arraiolos, registo de batismo: Baptizado de Ignácia a 15 de agosto de 1886, em S. Pedro, nascida a 10 4
de julho de 1886, 1.ª de nome de António Matheus, seareiro, natural da freguesia de S. Gregório e de Joaquina Maria, natural da freguesia das Brotas, recebidos na mesma, etc. Foram padrinhos José Rodrigues, solteiro, Trabalhador, morador na aldeia do Sabugueiro e Ileidora de Jesus, casada, moradora no Monte de Valle Figueira, freguesia das Brotas. Casou a 1 de fevereiro de 1922 com Joaquim Aleixo Paes, de 42 anos, natural do Couço, filho de Francisco Aleixo Paes Júnior e de Augusta Aleixo, falecido em Vendas Novas a 9 de maio de 1938. 6.1-21 - Maria Augusta Aleixo Paes, proprietária da herdade da Lobeira de Baixo, nasceu a 5 de agosto de 1918 na freguesia de Lavre e faleceu a 19 de fevereiro de 1976 em Lisboa. Casou com António Vacas de Carvalho, licenciado em Direito e Lavrador que nasceu a 6 de julho de 1910 em S. Cristóvão e faleceu a 23 de maio de 1993 em Montemor-o-Novo. Foram testemunhas do casamento o Dr. Artur Aleixo Paes, Francisco Fragoso Carneiro, Elvira Carvalho da Costa, todos casados e Verdiana Reis Malta, solteira. António Vacas de Carvalho era filho de João Vicente Alves de Carvalho, nascido a 9 de janeiro de 1866 em S. Cristóvão e falecido a 13 de julho de 1956 e de Maria Deodata Vacas, nascida a 3 de julho de 1873 em S. Mateus, Montemor-o-Novo e falecida a 1 de março de 1953 em Vendas-Novas. O casal teve catorze filhos. A sua descendência segue no 8.º Capítulo do livro Lavradores de Montemor, ramo Aleixo Pais Vacas de Carvalho. 5.3-3 - Beatriz Maria Mateus, foi batizada a 31 de janeiro de 1889 na freguesia das Brotas, tendo nascido no Monte dos Besteiros a 27 de dezembro de 1888. Teve de Joaquim Gregório Raposo uma filha, Emília Beatriz, que nasceu a 9 de abril de 1909. Casou depois com Joaquim Teles e residiu na Calçada das Águias nas Brotas, Mora. Não teve descendência do seu casamento e faleceu com 28 anos de idade, a 14 de março de 1917 nas Brotas. 5
A sua descendência segue no 9.º Capítulo, ramo Beatriz Maria Mateus. 5.4-4 - Manuel Mateus, nasceu a 28 de março de 1891 no Monte dos Besteiros, freguesia das Brotas. Foi rendeiro da herdade do Godial em sociedade com o seu irmão Mateus Nunes. Casou com Rosa Maria Relvas, nascida cerca de 1891 no Monte do Peso, Coruche, filha de Manuel Fortunato Relvas e de Maria Luzia. Tiveram seis filhos. A sua descendência segue no 10.º Capítulo, ramo Manuel Mateus. 5.5-5 - Maria Joaquina Mateus, nasceu a 28 de agosto de 1893 no Monte do Peso da freguesia do Peso e casou com Silva Matos, padeiro em Lisboa. São ambos falecidos. Foram moradores na Rua do Passadiço em Lisboa. Tiveram dois filhos: Arquivo Distrital de Évora, freguesia das Brotas, Mora, registo de batismo: Maria, baptizada a 29 de outubro de 1893 na Igreja Paroquial de N. Sr.ª das Brotas, nascida a 28 de agosto de 1893 no Monte e freguesia do Pezo, Coruche, filha de António Matheus, Seareiro, da extinta freguesia de São Lourenço e de Joaquina Maria, natural desta freguesia, recebidos em São Pedro da Gafanhoeira, concelho de Arraiolos, paroquianos e moradores na freguesia do Pezo, neta paterna de Matheus Nunes e de Maria de Jesus, de São Lourenço, neta materna de Joaquim Francisco e de Ignácia Maria, naturais do Pezo. Foram padrinhos Joaquim Francisco, solteiro, Trabalhador, morador no Monte de Besteiros e Maria Luiza, casada, moradora no Pezo. 6.1-51 - Maria Rosa Nunes da Silva Matos, casou com Júlio. Faleceu sem deixar descendência. 6.2-52 - Mário Nunes da Silva Matos, proprietário de Oficina de Automóveis, M. R. Barão Sabrosa, Penha de França, Lisboa, casou com Edite. Tiveram dois filhos: 7.1-521 - João Manuel da Silva Matos. 7.2-522 - Cristina da Silva Matos (Tininha). 6
Como acima referido, Joaquina Maria Rosalino enviuvou e casou 2.ª vez com Mateus Lopes, trabalhador agrícola, nascido em 1860 no Monte do Azinhal da freguesia do Peso e ai residente. Tiveram os seguintes três filhos: Conservatória de Registo Civil de Mora, registo de Batismo: Matheus, baptizado a 6 de março de 1860 na Igreja Paroquial de N. Sr.ª das Brotas, nasceu a 9 de fevereiro desse ano, filho de Manuel Lopes, maioral de gado, natural de Sam Pedro da Gafanhoeira e de Vicência Maria, desta freguesia, cazados, moradores na herdade do Azinhal da freguesia do Peso, aí recebidos, neto paterno de José Lopes, do Peso e Mariana Antónia, de Sam Giraldo; neto materno de Jeronymos Vidigal e de Felippa Maria, ambos desta freguesia ( ) Conservatória de Registo Civil de Mora, registo de Óbito: Às vinte e uma horas do dia onze do mês de agosto do ano de mil novecentos e treze faleceu de hepatite crónica no Hospital desta vila e concelho de Mora um indivíduo do sexo masculino de nome Mateus Lopes de cinquenta e três anos de idade, casado, ganadeiro, natural da freguesia das Brotas deste concelho e domiciliado e residente no Monte da Aldeinha, freguesia do Peso, concelho de Coruche; filho legítimo de Manuel Lopes e de Vicência Lopes, já falecidos e cujas naturalidades se ignoram. O falecido era casado com Joaquina Maria de idade e naturalidade ignoradas, residente no citado Monte da Aldeinha. O falecido não deixou bens e o seu cadáver vai ser sepultado no cemitério público desta vila ( ). 5.6-6 - Martinho Mateus, nasceu a 20 de julho de 1897 no Monte do Peso. Casou com Maria Baptista Salvaterra, nascida a 7 de março de 1903 nas Brotas, filha de Francisco Salvaterra e Joaquina Marques. Tiveram cinco filhos: A sua descendência segue no 11.º Capítulo, ramo Martinho Mateus. 5.7-7 - Vitória Maria Mateus, foi batizada em Brotas a 1 de novembro de 1903. Nasceu a 22 de setembro desse ano no Monte de Besteiros e faleceu na freguesia de Nossa Senhora da Vila de Montemor-o-Novo a 22 de fevereiro de 1976. 7
Casou a 13 de outubro de 1926 com Mário dos Santos, falecido em Lisboa a 21 de abril de 1967. Não tiveram descendência. Conservatória de Registo Civil de Mora, registo de batismo: Ao primeiro dia do mês de novembro de mil novecentos e três nesta Egreja paroquial de Nossa Senhora de Brotas, conselho de Mora, archidiocese de Évora, baptizei solenemente a um indivíduo de sexo feminino a quem dei o nome de Victória e que nasceu em uma das casas do monte de Besteiros, pertencente a esta freguesia de Brotas, à uma hora da tarde do dia vinte e dois de setembro do corrente anno; filha legítima de Matheus Lopes e de Joaquina Maria, ambos jornaleiros, naturais e parochianos desta freguesia de Brotas, em cuja Egreja parochial se receberam, e moradores no dito monte; neta paterna de Manuel Lopes e de Vicência de Jesus, falecidos; materna de Joaquim Rosalino e de Ignácia Maria, fallecidos. Foi padrinho Constantino Martins, solteiro, ferreiro; e tocou com a prenda de Nossa Senhora de Brotas Manoel de Jesus, casado, jornaleiro, os quaes todos sei serem os próprios. E para constar lavrei em duplicado este assento que depois de lido e conferido perante os ditos padrinhos que não sabem assinar. Conservatória de Registo Civil de Montemor-o-Novo, registo de casamento: Aos 13 de outubro de 1926 em Montemor-o-Novo, casou Mário dos Santos, de 26 anos, solteiro, Trabalhador, natural de S. Mateus, morador no Monte da Comenda, filho de Gertrudes Maria?, com Vitória Maria, de 23 anos, solteira, natural das Brotas, Mora, moradora no Monte dos Alfeirões, filha de Mateus Lopes e de Joaquina Maria. 5.8-8 - João Mateus, nasceu a 15 de abril de 1908 no monte da Fanica(?), freguesia do Peso, concelho de Coruche. Casou no dia 6 de outubro de 1936 com Cristina Maria Antonito, nascida a 13 de setembro de 1914 natural da freguesia de Santo Aleixo de Montemoro-Novo, filha de Lourenço Martins Antonito e de Mariana de Jesus Bernardina. João Mateus faleceu a 26 de dezembro de 1970 no Ciborro. Cristina Antonito também faleceu no Ciborro a 23 de janeiro de 1987. Tiveram sete filhos. A sua descendência segue no 12.º Capítulo, ramo João Mateus. 8
1º Quadro (1) - Segue no 8º cap. do livro Lavradores de Montemor 9
Nota 1 - Ascendentes de Ana Maria Nunes 1 - António dos Santos, nasceu cerca de 1710 em Porto de Mós, Leiria e casou com Caetana Maria, nascida cerca de 1715 em Lavre. Tiveram um filho: 2 - João Nunes, nasceu cerca de 1745 em Santo António do Couço e casou com Cipriana Maria, nascida cerca de 1750 no Peso, Mora, filha de João Teles e de Josefa Maria, ambos do Peso. Tiveram quatro filhos todos batizados em Santo António do Couço: 3.1 - Josefa Nunes, batizada a 17 de novembro de 1776. 3.2 - Agostinha Nunes, batizada a 16 de dezembro de 1778. 3.3 - José Nunes, batizado a 4 de março de 1781. 3.4 - Ana Maria Nunes, nasceu cerca de 1785 e casou com José Caetano nascido cerca de 1787 em Santo António do Couço. 2º Quadro Nota 2 - Ascendentes de Joaquina Maria Rosalino 1 - Ludovino Vidigal, nasceu cerca de 1770 nas Brotas e casou com Anna Maria, natural de Mont-Argil (sic no registo), Patriarcado de Lisboa. Tiveram um filho: 10
2 - Francisco Vidigal, nasceu cerca de 1800 nas Brotas e casou na freguesia de Nossa Senhora do Peso com Rozalina Maria também natural das Brotas. Tiveram: 3 - Joaquim Francisco Rosalino, batizado a 25 de fevereiro de 1831 nas Brotas, termo das Águias, casou com Ignácia Maria que foi batizada a 28 de fevereiro de 1833 no Peso. Esta nasceu a 18 de fevereiro desse ano e era filha de Joaquim Manuel, da freguesia das Brotas e de Jerónima de São José da freguesia de S. Geraldo Os avós paternos de Ignácia Maria foram Thomé Lourenço, das Brotas e Josefa de Jesus, do Peso e os seus avós maternos José Machado e Anna Maria, ambos de S. Geraldo. O casal morou no Monte da Fanica, da freguesia do Peso e depois no Monte de Besteiros, freguesia de Brotas. Tiveram dois filhos: Registo de batismo, Arquivo Distrital de Évora, freguesia das Brotas: Aos 25 de fevereiro de 1831, nas Brottas, termo da Águias, foi batizado Joaquim, filho de Francisco Vidigal e Rozalina Maria, naturais desta e recebidos na freguesia de N. Sr.ª do Peso, termo de Coruche. Nasceu a 15 de fevereiro de 1831. Era neto paterno de Ludovino Vidigal, natural das Brotas e Anna Maria, natural de Mont-Argil, Patriarcado de Lisboa; neto materno de José Lourenço, natural do Peso e Anna Vidigal, natural de Pavia. Registo de batismo, Arquivo Distrital de Évora, freguesia das Brotas: A 28 de fevereiro de 1833, nas Brottas, foi batizada Ignácia, filha de Joaquim Manuel, da freguesia das Brotas e de Jerónima de São José, da freguesia de São Geraldo e moradores no monte da Fanica. Nasceu a 18 de fevereiro de 1833. Era neta paterna de Thomé Lourenço, natural das Brotas e Josefa de Jesus, natural do Peso; neto materno de José Machado, natural de São Geraldo e Anna Vidigal, também natural de São Geraldo. 4.1 - Joaquina Maria Rosalino, batizada a 24 de outubro de 1869, nasceu 11
no dia 29 de setembro na freguesia do Peso e casou 1.ª vez a 13 de novembro de 1883 com António Mateus em S. Pedro da Gafanhoeira. Tiveram cinco filhos. Casou 2.ª vez com Mateus Lopes, nascido em 1860 na freguesia do Peso e teve mais três filhos. 4.2 - Narciso José Rosalino, Seareiro, foi batizado a 8 de outubro de 1871 nas Brotas tendo nascido no Monte dos Besteiros a 23 de setembro de 1871. Casou com Vitória Russo, de S. Geraldo, nascida em 1882, filha de Francisco José e Joaquina Maria. Narciso José Rosalino morou na Aldeinha e também no Monte dos Besteirinhos e faleceu cerca de 1949. O casal teve sete filhas e um filho já falecidos, Maria, Mariana, Joaquina, Joaquim, Inácia, Rosalina, Florência e Felicidade (Nota 3). Registo de batismo, Arquivo Distrital de Évora, freguesia das Brotas: Aos oito de outubro do anno de mil oitocentos e setenta e um, nesta Igreja Parochial de Nossa Senhora das Brottas concelho de Mora Diocese de Évora baptizei solenemente e pus os santos óleos a um indivíduo do sexo masculino a quem dei o nome de Narciso que nasceo no Monte dos Besteiros a vinte e três de setembro do mesmo anno, filho legítimo de Joaquim Francisco e de Ignácia Maria, ambos naturais do Peso, recebidos nas Brottas, parochianos do Peso, moradores idem, neto paterno de Francisco Vidigal e Rosalina Maria, neto materno de Joaquim Manuel e Jerónima de São José. Foram padrinhos Narciso dos Santos, casado, proprietário e madrinha Leonor Maria, solteira, ambos residentes na freguesia do Peso. Registo de casamento, Arquivo Distrital de Évora, freguesia das Brotas: Aos vinte e três de outubro do anno de mil oitocentos e noventa e oito, nesta Igreja Parochial de Nossa Senhora das Brottas, concelho de Mora, Diocese de Évora casaram Narciso José e Victória Maria, elle solteiro de vinte e sete annos de idade, jornaleiro, filho de ( ), ella, solteira, de dezasseis annos de idade, filha de Francisco José e Joaquina Maria. 12
3º Quadro Nota 3 - Descendentes de Narciso José Rosalino (irmão de Joaquina Maria Rosalino) e de Victória Maria Russo. 5.1 - Maria Rosalino, batizada a 13 de maio de 1900 na Igreja de Brotas nasceu no Monte de Besteiros a 31 de março desse ano. Faleceu com seis anos de idade, a 25 de novembro de 1906 no logar da Aldeinha. 5.2 - Mariana de Jesus Rosalino, nasceu a 23 de novembro de 1901 no Monte de Besteiros e casou com João Teles, filho de Manuel João Teles (de alcunha Patacos). Tiveram cinco filhos, Narciso (1920), Joaquina Maria Vitória Teles (25 de outubro de 1929), Manuel António de Jesus Teles (3 de janeiro de 1939), Jacinto (1941) e Aurora. Conservatória de Registo Civil de Mora, registo de batismo: Aos vinte e três dias do mês de abril do anno de mil novecentos e dois nesta egreja parochial de Nossa Senhora de Brotas, do concelho de Mora 13
da archidiocese d Évora, baptizei solenemente a um indivíduo do sexo feminino a quem dei o nome de Marianna e que nasceu às nove horas da manhã do dia vinte e três de novembro do anno próximo passado no Monte dos Besteiros pertencente a esta aldeia e freguesia de Brotas; filha legítima de Narciso José e de Victória Maria, ambos de ocupação jornaleiros, naturais e parochianos d esta freguesia de Brotas em cuja egreja parochial se receberão; neta paterna de Joaquim Rosalino e de Ignácia Maria, fallecidos; materna de Francisco José (Russo) e de Joaquina Maria, fallecidos. Foi padrinho Manoel do Rosário Franco, casado, seareiro; e madrinha Victória Maria, casada, d ocupação doméstica, os quais todos sei serem os próprios ( ) Casou com João Balhé Teles de 22 anos, filho de Manoel João e de Joaquina Lúcia no dia 11 de dezembro de 1920. 5.3 - Joaquina Maria Rosalino, nasceu a 12 de junho de 1903 no Monte de Besteiros e faleceu com 83 anos. Casou com Félix Inácio Mira (primo de João Inácio Freixo) natural de S. Pedro da Gafanhoeira. Tiveram uma filha: Conservatória de Registo Civil de Mora, registo de batismo: Aos vinte e três dias do mês de setembro do anno de mil novecentos e tres nesta Egreja parochial de Nossa Senhora de Brotas, do concelho de Mora da archidiocese d Évora, baptizei solenemente a um indivíduo do sexo feminino a quem dei o nome de Joaquina e que nasceu no Monte dos Besteiros pertencente a freguesia de Brotas, às duas horas da tarde do dia doze de junho próximo passado ( ). Foi padrinho Matheo Nunes, solteiro, jornaleiro, parochiano de Brotas ( ). 6.1 - Custódia Maria Mira, nasceu a 18 de fevereiro de 1934 registada nas Brotas mas batizada em Montemor-o-Novo com onze anos. Casou aos 25 anos com João Maria de Carvalho e moraram em Montemor-o-Novo. Tiveram: 7.1 - João Maria Mira de Carvalho, funcionário bancário no BES. 14
5.4 - Joaquim Rosalino, batizado a 10 de setembro de 1905 na Igreja de Brotas, nasceu numa casa do Monte da Aldeinha a 9 de agosto desse ano. 5.5 - Ignácia Rosalino, nasceu a 15 de dezembro de 1907 no Monte da Aldeinha e casou com Jacinto Teles (de alcunha Jacinto Pataco). Tiveram um filho, Narciso Teles. Conservatória de Registo Civil de Mora, registo de batismo: Aos dezasseis dias do mês de fevereiro do anno de mil novecentos e oito nesta Egreja parochial de Nossa Senhora de Brotas, do concelho de Mora da archidiocese d Évora, baptizei solenemente a um indivíduo do sexo feminino a quem dei o nome de Ignácia e que nasceu numa das casas do Monte da Aldeinha pertencente à freguesia anexa do Peso, concelho de Coruche, no dia quinze de dezembro do anno de mil novecentos e sete ( ). 5.6 - Rosalina Maria, nasceu no Monte da Aldeinha, Peso a 17 de dezembro de 1909 e faleceu no Sabugueiro em 18 de janeiro de 1997. Casou nas Brotas a 17 de outubro de 1931 com António Manuel Romicha, Trabalhador Agrícola natural de S. Gregório, concelho de Arraiolos. Tiveram duas filhas: Conservatória de Registo Civil de Mora, registo de batismo: Aos trinta dias do mês de janeiro do anno de mil novecentos e dez nesta Egreja parochial de Nossa Senhora de Brotas, do concelho de Móra da Archidiocese d Évora, baptizei solenemente a um indivíduo do sexo feminino a quem dei o nome de Rosalina e que nasceu em uma das casas do Monte da Aldeinha pertencente à freguesia anexa do Peso, concelho de Coruche, às nove horas da noite do dia dezassete do mês de dezembro do anno de mil novecentos e nove ( ). 6.1 - Mariana Clementina Maria Romicha, nasceu a 25 de janeiro de 1932. 6.2 - Rosalina Vitória Romicha, nasceu a 6 de maio de 1934 e casou com Joaquim Florêncio dos Santos. Tiveram um filho, Júlio, casado, com descendência. 15
5.7 - Florência Maria Rosalino, nasceu dia 16 de dezembro de 1914 no Monte de Besteirinhos e casou nas Brotas a 30 de novembro de 1944 com Joaquim Francisco José (da herdade de Linhares). Faleceu a 25 de dezembro de 2008 em Lisboa. 5.8 - Felicidade Maria Rosalino, nasceu no Monte de Besteirinhos a 6 de julho de 1917. Viveu em Montemor-o-Novo. 4º Quadro 16
4.2 Narciso José Rosalino 1 Mateus Nunes 1 Mateus Nunes e sua mulher, Maria Joaquina Relvas 17
2 Inácia Maria Mateus 2 Inácia Maria Mateus e sua filha Maria Augusta Aleixo Paes 18 2 Inácia Maria Mateus e seis netos
5 Maria Joaquina Mateus 52 Mário Nunes da Silva Matos 6 Martinho Mateus 19
7 Vitória Mateus 7 Vitória Maria Mateus e Mário dos Santos 20 8 João Mateus
Joana Lúcia de Oliveira Banha e alunos Rancho da Vindima José Gafo (manageiro), Maria Beatriz Ceroula, Maria Beatriz Teles, Maria Inácia Mateus e Maria Antónia Teles. À frente: Genoveva Matias 21
Desfile em Montemor - Da esq. para a dir.: Maria Antónia Teles, Maria Rosa Maneta, Judite Marques, Genoveva Matias, Custódia Silva, Maria Antónia Ceroula e Maria Beatriz Antonito Mateus 22 133 Maria Albertina Mestrinho Mateus e seu marido, Lidório Manuel Pinto
José Francisco Mestrinho Homem, Deodata Aleixo Canelas, António e Manuel Falcão Trigoso Vacas de Carvalho 23
Festa de casamento do autor, Lobeira 1966 24
António Vacas de Carvalho, Bina Martins de Sousa e rancho de Montemoro-Novo 25
À esquerda: Custódio Gafo À direita: José Gafo, Custódio Rouco, Francisco Maneta e António Artur Matias António Vacas de Carvalho (guitarra), Abílio Delca (viola) e Nuno Vacas de Carvalho (fadista), com sete anos 26
Rosalina Victória Romicha Narciso Teles de Jesus Jacinto de Jesus Teles, sua mulher, Maria Augusta Monteiro e filho Víctor Manuel 27
Forcados do GFA de Montemor, 2.ª geração Aleixo Pais Vacas de Carvalho Em pé: João Vacas de Carvalho Martins de Sousa; Pedro Vacas de Carvalho Gião Freixo; Paulo Aleixo Pais Vacas de Carvalho (cabo 1984-1997); Rodrigo Vacas de Carvalho Corrêa de Sá (cabo 1997-2007); João Inácio Vacas de Carvalho Gião Freixo; António Vacas de Carvalho Ponce Dentinho; Rui Telles Boudry Vacas de Carvalho. Em baixo: Miguel Torres dos Santos Vacas de Carvalho; António Vacas de Carvalho Corrêa de Sá; António Falcão Trigoso Vacas de Carvalho. E ao lado: Filipe Vacas de Carvalho Corrêa de Sá (falecido); Manuel Falcão Trigoso Vacas de Carvalho; Manuel Vacas de Carvalho Ponce Dentinho 28
7º Capítulo - Ramo Mateus Olaia e glicínia do Monte da Lobeira 2.º Acantonamento na Lobeira: Páscoa de 2012, sobrinhos Aleixo Pais Vacas de Carvalho, dos 5 aos 10 anos. Foto dos vinte sobrinhos e duas monitoras, também sobrinhas: Mª Vacas de Carvalho Silva Pereira (monitora, 19 anos, Santarém); Mafalda Vacas de Carvalho Castelo Pombas (monitora, 14 anos, Santarém) 29
Páscoa de 2012 grupo 1 - Teresa Martins de Sousa Vaz Marques; Marta Vacas de Carvalho Moncada Cordeiro; Maria Messias Nunes Vacas de Carvalho; Mafalda Vacas de Carvalho Castelo Pombas (monitora, 14 anos, Santarém); Rodrigo Garcia Corrêa de Sá; Filipe Garcia Corrêa de Sá Páscoa de 2012 grupo 2 - Manuel Messias Nunes Vacas de Carvalho; José Miguel Vacas de Carvalho Silva Pereira; Teresa Mª Vacas de Carvalho da Fonseca Fialho; João Vacas de Carvalho Nicholson Lavrador; Luísa Mª Vacas de Carvalho da Fonseca Fialho; Pedro Luís Melo (monitor, 20 anos, Santarém) 30
Páscoa de 2012 grupo 3 - Carlota Vacas de Carvalho Lopes Valério; Diogo Martins de Sousa Patrão; Vasco Maria Sousa Montenegro Lobo; Matilde Vacas de Carvalho Silva Pereira; Francisca Vacas de Carvalho Moncada Cordeiro; Vasco Maria Pinto Coelho de Magalhães Ramalho (monitor, 19 anos, Estoril) Páscoa de 2012 - grupo 1 - João Mª Vacas de Carvalho Lopes Valério; Mª Eduarda Vacas de Carvalho Nicholson Lavrador; Rodrigo Vacas de Carvalho Ventura de Andrade; Joana Sousa das Neves Couceiro (monitora, 17 anos, Lisboa); António Vacas de Carvalho Ventura de Andrade 31
História A família Mateus António Mateus tinha 34 anos de idade quando, a 3 de novembro de 1883, casou com Joaquina Maria Rosalino, de 14 anos de idade. Ele era um Seareiro natural da extinta freguesia de S. Lourenço, na área de S. Geraldo no concelho de Montemor-o-Novo e habitava no Sabugueiro, aldeia vizinha de S. Pedro da Gafanhoeira, freguesia onde casou. Joaquina Maria nascera em 1869 no Monte de Besteiros, a norte da aldeia do Sabugueiro. Dois anos mais tarde, em 1871, também aí nasceu o seu único irmão, Narciso José Rosalino. Houve uma pequena e engraçada história desse casamento que chegou até aos nossos dias: conta-se que Joaquina Maria depois da cerimónia não queria dormir com o marido, o que não admira muito atendendo à sua idade! Os primeiros dois filhos do casal Mateus nasceram na aldeia do Sabugueiro. O casal habitou no Monte de Besteiros onde nasceram mais dois dos seus cinco filhos. O Monte de Besteiros, hoje em ruínas, situa-se num local muito isolado entre Brotas e Arraiolos, mas pertence já à freguesia de Brotas do concelho de Mora. Perto fica o Monte de Besteirinhos e a Aldeinha, locais onde a família também residiu. Esclareço desde já que a divisão administrativa desta área causa bastante confusão, porque fica no limite de várias freguesias, de concelhos e até dos dois distritos, Évora e Santarém. Por vezes, habitações separadas apenas por um ribeiro pertencem a diferentes freguesias, o que acontece com os Montes da Aldeinha e de Besteiros. A antiga freguesia do Peso, do concelho de Coruche e distrito de Santarém, prolonga-se no distrito de Évora numa faixa que chega a ter a largura de escassos três quilómetros, separando o concelho de Montemor-o-Novo a 32
sul, do concelho de Mora a norte. Essa faixa estende-se até encontrar o concelho de Arraiolos a nascente. Num determinado local desta área existe mesmo um marco que tem do nome de marco dos três concelhos, onde se encontram os concelhos de Coruche, Mora e Arraiolos. Assim se explica porque os registos paroquiais de nascimentos de membros desta família indiquem diferentes freguesias e concelhos, dando uma ideia de afastamento, enquanto na realidade se referem a locais muito próximos. Os locais de residência situavam-se sobretudo nessa faixa da antiga freguesia do Peso do concelho de Coruche (hoje freguesia do Couço), onde se encontram os Montes do Azinhal, a norte da atual aldeia do Ciborro, e da Aldeinha, este com duas moradas de habitação. Avistando-se da Aldeinha, do outro lado do ribeiro que corre para a Ribeira da Fanica, ficavam os três Montes de Besteiros, com duas moradas de habitação em cada Monte, e, dois quilómetros mais à frente, os dois Montes de Besteirinhos com quatro moradas, todos estes Montes pertencendo à freguesia de Brotas do concelho de Mora. A sul encontra-se a aldeia do Sabugueiro pertence à freguesia de S. Pedro da Gafanhoeira, concelho de Arraiolos, mas a escassos 15 quilómetros para poente fica a aldeia de S. Geraldo, a antiga freguesia que pertence ao concelho de Montemor-o-Novo; alguns dez quilómetros mais a norte, foi construída a partir de 1900 a atual aldeia, hoje freguesia do Ciborro. Afastados, a poente, mas na mesma faixa da antiga freguesia do Peso, fica a herdade do Peso com o grande Monte do Peso, o Monte do Ribatejo e o Monte da Fanica com o moinho de água da Ribeira da Fanica. Esta herdade pertencia a Francisco Manuel de Brito Malta, que é nomeado no 26.º Capítulo, ramo complementar Brito Malta do livro Lavradores de Montemor. A quinta com o moinho de água da Fanica pertencia a uma família de apelido Baptista e alcunha Salvaterra que se ligou posteriormente à família Mateus, no ramo de Martinho Mateus. Foi mais tarde vendido ao proprietário da herdade do Peso. O casal António Mateus/Maria Joaquina Rosalino teve cinco filhos de 33
nome Mateus Nunes, Inácia Maria, Beatriz Maria, Manuel e Maria Joaquina, nascidos entre 1884 e 1893. As crianças eram muito bonitas e chamaram -lhe os bonitos de Besteirinhos, ou diziam que era uma família de gente bonita. A vida de seareiro depende da terra que tem disponível e isso justifica a mudança frequente de residência das famílias. Mas o Monte de Besteiros foi um ponto de referência porque aí residiam os pais de Joaquina Maria, cujos nomes eram Joaquim Francisco Rosalino e Ignácia Maria. Em várias ocasiões a família também habitou nos Montes da herdade do Peso, já perto da aldeia de Brotas, talvez porque ainda aí residissem os avós de Joaquina Maria, ou porque o Peso, freguesia nessa altura, oferecia maior facilidade de habitação. Só o Monte da Fanica, hoje em ruína, além da habitação do moinho de água tinha mais duas moradas. O Monte do Ribatejo ficou mais tarde dentro da barragem construída na Ribeira da Fanica. A última filha deste casal Mateus teve o nome de Maria Joaquina e, segundo consta no seu registo de batismo, nasceu em 1893 no Monte e Freguesia do Peso. Aos 24 anos de idade Joaquina Maria Rosalino já tinha cinco filhos, mas o seu marido, António Mateus, faleceu cedo de doença, cerca de 1895, não tendo completado 45 anos de idade. Joaquina Maria A figura de Joaquina Maria Rosalino, cujo apelido não usava, surge com muita importância na história desta família Mateus, com uma vida acidentada e de certa forma dramática como alguns testemunhos e a cronologia dos acontecimentos registados o revelam. Como referido, com cerca de 26 anos de idade ficou viúva, tendo a seu cargo cinco crianças com idade inferior a 12 anos. Casou em segundas núpcias com Mateus Lopes, trabalhador agrícola, que nascera em 1860, filho de Manuel Lopes e de Vicência Maria. 34
Mateus Lopes era pois nove anos mais velho que Joaquina Maria e já tinha ligações com a família Mateus. Em fevereiro de 1894 era solteiro e foi padrinho dum sobrinho de António Mateus e como consta nesse registo de batismo, residia no Monte do Azinhal. Deste segundo casamento nasceram mais três filhos: logo em 1897 nasceu Martinho no Monte do Peso, de quem foi padrinho de batismo Manuel Mateus, o irmão do falecido primeiro marido de Joaquina Maria. Mais tarde, em 1903, nasceu Vitória no Monte de Besteiros e em 1908 nasceu João na Aldeia do Peso, provavelmente no Monte da Fanica. Não ficaram com o apelido Lopes mas com o apelido Mateus, apelido pelo qual foram estes três irmãos conhecidos. Tentei saber onde residiu mais frequentemente o novo casal Mateus Lopes/Joaquina Maria mas a dispersão dos locais de nascimento dos filhos suscita alguma confusão. Os anos a seguir a 1900 trouxeram grandes modificações nesta região. A mais importante foi o nascimento duma nova aldeia, o Ciborro. Na altura existia apenas um Monte, o Monte do Ciborro. A área é acidentada, a terra estava coberta de árvores e estevas e segundo testemunhos, matavam-se coelhos a tiro da porta do monte. Cerca de 1900, eram três os grandes grupos de herdades na região, com uma área semelhante: existia o denominado condado de Valenças, da família Jardim, o grupo das herdades de São Tiago, da família Aleixo Paes e, mais perto de S. Geraldo, as Comendas, da família Moura Amaral. Como descreve Anastásia Mestrinho Salgado no seu artigo Ciborro uma aldeia diferente no Alentejo publicado na Revista Almansor n.º 6 da Câmara Municipal de Montemor-o-Novo, do condado de Valenças faziam parte várias herdades: Paço de Aragão, Valenças, Pinheiro, Cavaleiro e São Lourenço. Em 1887 o 1.º Conde de Valenças, Luís Pereira Leite Jardim planeou edificar uma aldeia que se situaria numa das suas herdades, inicialmente junto ao Monte dos Castelos, à qual gostaria de chamar a Aldeia Nova de Valenças. Mas os primeiros aforamentos realizados cerca de 1897 foram à volta do monte do Ciborro e o nome assim permaneceu. Os aforamentos e 35
construções das casas continuaram até cerca de 1910 dando origem à atual aldeia do Ciborro que passou a ser freguesia em 1985. Refere-se este facto porque o Ciborro passou a atrair muitas das famílias que viviam em Montes, ou famílias recém-formadas que não encontravam residência nos Montes existentes e tal assim sucedeu com a família Mateus. Havia uma diferença de vinte e quatro anos entre o irmão mais velho Mateus Nunes e o seu meio-irmão mais novo João Mateus, e os irmãos mais velhos tiveram de trabalhar no campo e ajudar a família. E também eles iniciaram as suas próprias famílias. Mateus Nunes cedo se ligou a Maria Joaquina Relvas e em 1908 teve o primeiro filho, seguido de dois gémeos em 1910 e a última filha cerca de 1916. Foram residir para o Monte do Azinhal mas construíram posteriormente casa no Ciborro. Também o seu irmão Manuel Mateus casou com Rosa Maria Relvas e teve a sua primeira filha por volta de 1913. Residiu inicialmente na Fanica (Peso) após o que morou no Ciborro, primeiro em casa dos sogros tendo depois construindo casa própria. No atrás citado artigo de Anastásia Mestrinho Salgado existe uma lista dos primeiros foreiros no Ciborro e constam os nomes de Mateus Nunes e de Manuel Mateus, e também de Manuel Relvas que era sogro deste último. Anastásia Mestrinho escreve as regiões de origem dos foreiros mas não explicou que Peso-Coruche ou Brotas-Mora ou outras, eram origens praticamente locais, de Montes vizinhos, pela singularidade da organização administrativa da zona como atrás descrito. Como irei contar na história A Emília da Casa à frente, Beatriz Mateus teve uma filha em 1909 duma ligação com Joaquim Gregório Raposo, que a deixou para casar com outra. Em agosto do ano de 1913 Mateus Lopes adoeceu e faleceu no Hospital de Mora, com hepatite crónica. Tinha 53 anos de idade. Segundo o seu registo de óbito residia com a sua família no Monte da Aldeinha. 36
Joaquina Maria ficou de novo viúva, agora com 44 anos de idade e com três filhos menores: Martinho com quinze anos, Vitória com onze anos e João com cinco anos. Os seus filhos mais velhos ajudaram-na e foi morar para o Ciborro, onde viveu poucos mais anos. O registo de óbito da sua filha Beatriz, que faleceu em março de 1917, informa que Joaquina Maria já tinha falecido nessa data. Terá falecido em casa do seu filho Manuel Mateus, no Ciborro, mas ainda não encontrei o registo do seu óbito. O tio Narciso de Besteiros Contrariamente à sua irmã, Narciso José Rosalino casou mais tarde, com vinte e sete anos de idade, com Vitória Maria Russo de dezasseis anos, que pertencia a uma família de S. Geraldo. Consta na família Rosalino que era muito bonita e que Narciso José teve de esperar por ela. Habitou no monte dos Besteiros tal que ficou conhecido por tio Narciso de Besteiros, mas mais tarde morou na Aldeinha e em Besteirinhos. VER FOTO. Teve uma numerosa família de sete filhas e um filho e faleceu com 78 anos de idade. A sua primeira filha de nome Maria nasceu em 1900, seguindo-se outra de nome Mariana em 1901 e Joaquina em 1903, todas nascidas no Monte de Besteiros. Note-se que nesse mesmo ano de 1903 nascia precisamente em Besteiros a sua prima direita Vitória Mateus, o que significa a grande proximidade das famílias Mateus e Rosalino. Foi-me difícil inicialmente neste ramo familiar compreender a lógica dos apelidos. O pai destes dois irmãos, Joaquina Maria e Narciso José foram Joaquim Francisco e Ignácia Maria como foi referido e os avós paternos foram Francisco Vidigal e Rosalina Maria. Como se vê, o apelido da família deveria ter sido Vidigal, mas tomaram o apelido Rosalino, ou seja os descendentes da Rosalina! O apelido Vidigal não mais apareceu. Outros filhos de Narciso José Rosalino nasveram no monte da Aldeinha: Joaquim em 1905, Inácia em 1907 e Rosalina em 1909; nasceram depois no 37
Monte dos Besteirinhos a Florência em 1914 e a Felicidade em 1915. Tal como os jovens Mateus, também as jovens Rosalino cedo iniciaram as suas famílias. Nas Brotas havia uma família de apelido Teles, pedreiros por tradição, e com uma alcunha que já vinha dos pais, de Patacos. Constava que a origem desta alcunha, que ainda hoje se encontra nos descendentes, era devida a um dito que estes pedreiros trabalhavam tão barato que uma casa custava poucos patacos. A família Teles era tão numerosa nas Brotas que se dizia que Brotas era a terra dos Teles e todos sportinguistas! Assim Mariana Rosalino casou com dezoito anos de idade com um destes Teles ou Patacos, João Balhé Teles de vinte e dois anos, filho de Manoel João Teles e de Joaquina Lúcia. Tiveram o primeiro filho, Narciso Balhé Teles em 1920, a que se seguiu Joaquina Maria, nascida em 1929, Manuel António (1939), Jacinto (1941) e Aurora (c.1943). A sua irmã Inácia casou com um irmão de João Teles, de nome Jacinto Teles e tiveram um filho também com o nome de Narciso. Ambas foram residir para a aldeia de Brotas. A segunda irmã mais velha, Joaquina, assegurou alguna anos a gestão da casa de seu pai, já viúvo, uma vez que a sua mãe Vitória falecera por problemas dum último filho. No dia 29 de dezembro de 2011 procurei no Sabugueiro uma senhora de idade de nome Rosalina que não conhecia. O seu nome completo é Rosalina Vitória Romicha e nasceu a 6 de maio de 1934 no Monte dos Besteiros, sendo Romicha o apelido do seu pai. É uma das filhas de Rosalina Maria e neta de Narciso José Rosalino. É interessante que ficou com o apelido de Vitória do nome próprio da sua avó. Rosalina Vitória Romicha contou-me nesse dia uma história curiosa de quando era criança e morava no Monte dos Besteirinhos. Fora com a mãe visitar um familiar que morava no Monte do Pedrógão, na herdade que faz extrema com a Lobeira do lado da vila de Lavre. Estando no Pedrógão, a sua mãe decidiu ir á Lobeira visitar a sua prima direita e minha avó Inácia Maria Mateus. 38
Devido à hora adiantada Inácia Maria Mateus não as deixou regressar ao Pedrógão e insistiu para que ficassem nessa noite na Lobeira. Rosalina Vitória conta que a minha mãe, Maria Augusta, estava num estado de gravidez avançado do seu primeiro filho e diziam que talvez o nascimento pudesse ser nessa noite, o que de facto veio a acontecer. De manhã o meu pai foi a Montemor para assegurar a vinda do médico Dr. Vicente Silva, tendo nascido o primeiro filho a que foi dado o nome de Joaquim. As datas e idades neste episódio são fáceis de determinar: o meu irmão Joaquim nasceu a 11 de agosto de 1939. A minha mãe nascida em 5 de agosto de 1918 tinha completado os vinte e um anos de idade e a minha avó Inácia Maria, nascida a 10 de julho de 1886, tinha a idade cinquenta e três anos. Claro que estava felicíssima com o nascimento do primeiro neto. A sua prima direita Rosalina, nascida a 6 de dezembro de 1909, tinha vinte e nove anos e Rosalina Vitória, nascida a 6 de maio de 1934 tinha apenas cinco anos! Foi a circunstância da visita acontecer logo no nascimento duma criança que permitiu a Rosalina Vitória conservar esse dia tão vivo na sua memória de criança de cinco anos e contar-me setenta e dois anos depois! Rosalina Vitória terminou a história dizendo A sua avó era muito bondosa, frase que melhor define Inácia Maria Mateus, a avó Inácia ou a tia Inácia, como o mostram alguns dos factos conhecidos da sua vida e que a seguir conto. Inácia Maria Mateus Os primeiros anos de 1900 devem ter sido muito difíceis para a família Mateus: eram muitos filhos a sustentar e muito novos. Em 1903 nascia o sétimo filho, Vitória e em 1908 o último, oitavo filho, João. Os jovens e as jovens tiveram de trabalhar desde a sua juventude como jornaleiros. Inácia Maria aprendeu não só os trabalhos do campo mas também as dificuldades e as necessidades das famílias numerosas e com escassos recursos, experiência que lhe veio a servir no futuro. Em 1908 nasceu João Mateus, ano em que Mateus Nunes saiu de casa 39
para formar a sua própria família. Foi nessa altura que Beatriz Mateus ficou grávida da filha natural que nasceria em 1909, Emília Beatriz. Inácia Maria, a irmã mais velha tinha na altura vinte e três anos de idade. Consta na família que as três irmãs, Inácia Maria, Beatriz e Maria Joaquina estiveram algum tempo em casa do seu tio Narciso no Monte dos Besteirinhos, donde nasceu uma grande amizade de Inácia Maria com a sua prima Mariana Rosalino. Pode ter acontecido no período da doença de Mateus Lopes que veio a falecer a 11 de agosto de 1913. A família residia na Aldeinha; os irmãos mais velhos tinham saído de casa; tinham ficado na Aldeinha a mãe e as irmãs, a Beatriz com o seu bebé e o pequeno João Mateus com cinco anos de idade. O Monte de Besteirinhos era perto e o tio Narciso deve ter dado muito apoio à família da sua irmã. Mas é certo que Inácia Maria e a sua irmã Maria Joaquina trabalharam nessa altura na Herdade do Meio, na casa Aleixo Paes e foi nessa altura que o Joaquim Aleixo Paes, meu avô, conheceu aquela que viria a ser sua mulher. Não acreditando na seriedade do interesse do jovem lavrador, nessa altura já proprietário da herdade da Lobeira, Inácia Maria despediu-se e regressou a casa. Já nesse tempo Luís Relvas trabalhava na Lobeira e era de certa forma confidente do meu avô pois contava que, das duas irmãs, a Joaquina cantava melhor mas a Inácia era mais bonita. Joaquim Aleixo Paes falou com Joaquina Maria e pediu-lhe a filha Inácia em casamento. Conta-se na família que a resposta não foi favorável: Como é que o senhor sendo lavrador quer casar com uma rapariga pobre?, perguntou-lhe Joaquina Maria. Por seu lado, os amigos de Joaquim Aleixo Paes avisavam-no: Vais casar com uma rapariga que não tem bens, ao que ele respondia: É aquela de que eu gosto, é a que vou buscar. E acrescentava: Se não m a dão, vou roubá-la!. A sua meia-irmã mais nova, Vitória Mateus, que foi depois e quase toda a vida a governanta do Monte da Lobeira, contava que um dia em criança, 40
quando brincava à frente da sua casa, veio Joaquim Aleixo Paes montado num cavalo. A sua irmã Inácia montou atrás dele e partiram, enquanto a criança corria a chorar para casa dizendo: Mãe, um homem a cavalo veio roubar a nossa Inácia! A casa da família devia ser na altura na Aldeinha e é provável que tenha sido logo a seguir ao falecimento de Mateus Lopes, em 1913. O casal não foi viver para a herdade do Meio mas para uma casa no Monte do Paço de Aragão do Condado de Valenças, que fica bastante perto do Ciborro. Posteriormente Inácia Maria foi viver na Lobeira Velha, hoje chamada de Monte de Cima, enquanto se terminava a construção do monte da Lobeira de Baixo que tem uma data de final de obras em 1914, inscrita na chaminé. Quem segue do Ciborro para Lavre, encontra as três herdades de S. Tiago de Cima, do Meio e de Baixo, da antiga freguesia de S. Geraldo, hoje freguesia do Ciborro, seguindo-se a Lobeira de Baixo. Toda esta herdade, com cerca de 600 hectares, pertence já à freguesia de Lavre. Como referido, os irmãos mais velhos de Inácia Maria Mateus, Mateus Nunes e Manuel Mateus viveram no Ciborro e foram sócios e rendeiros da herdade do Gudial, que extrema a norte com a herdade de Baixo. Quanto à sua irmã Joaquina Maria, que não tivera a preferência do lavrador, foi trabalhar para Lisboa e aí casou e viveu. Mas, residindo no Monte da Lobeira talvez desde 1914, Inácia Maria Mateus acolheu vários dos seus familiares e a partir dessa altura não parou de ajudar irmãos e sobrinhos. A sua meia-irmã Vitória Maria Mateus foi viver para a Lobeira. Nascera em 1903 no Peso. Casou com um trabalhador rural, Mário Santos e não teve descendência. Quando casou esteve a viver algum tempo no Monte de Alfeirões, que pertencia à Represa, freguesia de Montemor-o-Novo, no entanto o casal passou a residir e trabalhar na Lobeira. Vitória Maria faleceu no hospital de Montemor-o-Novo a 22 de fevereiro de 1976. Três dias antes falecera num hospital de Lisboa a 19 de fevereiro desse ano a sua sobrinha, minha mãe, facto de que teve conhecimento porque familiares de luto a foram ver ao hospital. Foi no período em que a Lobeira esteve ocupada pela coletivização 41
comunista (de 14 de agosto de 1975 a 19 de fevereiro de 1977) e que Vitória Maria teve de sair da Lobeira para uma casa de família no Ciborro, depois para a nossa casa em Montemor-o-Novo. Martinho e João Mateus residiram após o falecimento da sua mãe no Ciborro em casa do seu irmão Manuel Mateus. Mas logo a seguir João Mateus foi muito jovem trabalhar para a Lobeira. Quando se via em apuros avisava: Tomem cuidado rapazes que eu sou cunhado do lavrador!. Fez tropa, casou já na Lobeira com Cristina Antonito, teve sete filhos e aí viveu e trabalhou, tal como os seus filhos. Faleceu no Ciborro em 1970. Durante algum tempo João Mateus e a sua família habitaram no Monte de Cima, onde nasceram alguns dos seus filhos, mas foi construída para eles uma nova moradia no Monte da Lobeira. O tio João Mateus era calmo e reservado mas tive dele provas de muita amizade. Já para não falar da dedicada tia Vitória com quem passávamos longos períodos na Lobeira. Num episódio seguinte conto a história de Beatriz Mateus, que faleceu de doença aos vinte e oito anos e da sua filha Emília Beatriz que foi para a Lobeira com oito anos e foi criada pela sua tia Inácia Maria Mateus, tendo aí casado e tido treze filhos. Mas não foram apenas estes que tiveram apoio da tia Inácia e não conseguirei listar todos. As filhas de Martinho Mateus tiveram muita ligação com a Lobeira. Joaquina Maria Mateus, que nasceu em 1922, conta que, quando tinha doze anos, teve uma crise muito violenta de paludismo. Os seus pais moravam nessa altura no Monte dos seus avós na Fanica na herdade do Peso onde os mosquitos da cultura de arroz propagavam a doença. Dos doze aos catorze anos morou na Lobeira para receber assistência em Vendas-Novas do médico Dr. Artur Aleixo Paes, irmão de Joaquim Aleixo Paes. Na mesma altura também a sua mãe, Maria Batista Salvaterra, aí trabalhava na costura e por uma boa razão: Inácia Maria Mateus comprava peças completas de tecido e a habilidosa costureira fazia a roupa para as crianças dos Montes. Houve outros relacionamentos entre as duas famílias, Aleixo Paes e Mateus. Ainda no tempo de Henrique Aleixo Paes, Joaquim Mateus, referido no ramo Mateus Nunes, 8.º Capítulo, referência 13 residiu e trabalhou na 42
Herdade de Baixo e aí nasceu a sua filha Maria Albertina em 15 de agosto de 1947. Diga-se que Joaquim Mateus foi um dos que receberam uma quantia em dinheiro na herança de Henrique Aleixo Paes. Anos mais tarde residiram e trabalharam na casa dos meus pais em Montemor-o-Novo o casal Joaquina Maria Mateus, conhecida por Joaquina Rosa, do ramo de Manuel Mateus, 10.º Capítulo, referência 41 e o seu marido José Francisco Mestrinho Homem, já falecidos. José Francisco Homem, já idoso, tinha a seu cargo um trabalho especial: ia de Montemor para a Lobeira com o meu pai e tratava da manutenção de tudo o que estivesse estragado: cercas, portões, telhas, fechaduras, etc. Progressivamente, por onde passava deixava reparado! Foi, até falecer em Évora, um amigo incondicional da minha família e o mais leal de todos os trabalhadores agrícolas na ocupação da Lobeira de 13 e 14 de agosto de 1975. Anos mais tarde também viveu na casa dos meus pais em Montemor-o- Novo, para poder estudar Júlia da Conceição Carapinha Nunes referida do 8.º Capitulo, ramo Mateus Nunes, referência 11.10 até ao seu casamento com Teotónio Joaquim Faria, um descendente da família Canelas. A Emília da casa Uma história comovente diz respeito a Beatriz Mateus, irmã de Inácia Maria, dois anos mais nova que a sua irmã. Teve uma filha, nascida em 1909, de Joaquim Gregório Raposo que vivia nas Brotas, a que foi dado o nome de Emília Beatriz, mas Joaquim Gregório Raposo deixou-a e casou com outra mulher. Joaquim Gregório Raposo foi o pai de Possidónio Raposo, que foi residir para o Ciborro e aí se tornou um acordeonista e ascendente duma geração de bons acordeonistas, tais como o seu filho Joaquim Raposo e netos com prémios internacionais. Beatriz Mateus casou alguns anos depois com Joaquim Teles, natural das Brotas e tio de João Teles (ou João Pataco atrás referido), mas adoeceu gravemente com uma doença na época incurável, a tuberculose. Fez uma 43
viagem de carroça de Brotas até à Lobeira com a filha e veio pedir à sua irmã Inácia que, caso falecesse da doença, esta tomasse conta da sua filha. Quando voltaram para as Brotas, a criança fez tombar desastradamente um lavatório de pedra que se partiu. A sua mãe disse-lhe: Emília: hoje não te bato nem te ralho. Estou muito doente e se morrer irás para a Lobeira onde a tua tia Inácia tomará conta de ti. Emília Beatriz contava esta história aos filhos e chorava sempre. Beatriz Mateus faleceu a 14 de março de 1917 nas Brotas com vinte e oito anos e a sua filha com oito anos foi para a Lobeira onde viveu. Era por todos conhecida pelo nome significativo de Emília da casa e ainda hoje é por esse nome que se lhe referem. Casou com um trabalhador rural, Custódio Ceroula e teve treze filhos, todos nascidos no Monte de Cima e no Monte da Fonte, na Lobeira. Todos viveram e trabalharam na Lobeira, casaram e são ainda hoje e felizmente onze estão vivos, residindo na região, no Ciborro, Lavre, Foros de Vale Figueira e Vendas-Novas. Um, de nome Mário, vive em Frankfurt, na Alemanha, para onde foi à procura de cura da doença de uma filha. O mais velho, António Joaquim Ceroula, morou com a sua mulher Laurinda Matias no Monte da Herdade de Baixo. Neste Capítulo uma fotografia mostra a Emília da casa jovem e bonita, ainda solteira, com cerca de dezassete anos. Tem um fio de ouro com medalha que lhe deu a tia Inácia. Anos depois e com o acordo desta vendeu o fio e a medalha para comprar três relógios para os filhos mais velhos. Outra fotografia mostra a Emília da casa já com três filhos e outras crianças da Lobeira, no Monte da Lobeira de Baixo junto a uma olaia e uma glicínia. Estas árvores ainda hoje existem mas muito maiores porque a fotografia tem cerca de oitenta anos. Cerca de trinta anos depois do falecimento de Beatriz Mateus houve necessidade de remover a sua sepultura para o novo cemitério das Brotas e o corpo estava incorrupto, o que para o povo costuma ser um sinal de santidade. João Teles e o seu filho Narciso, que tinham assistido, levaram a notícia para a Lobeira. Mais uma vez Emília Beatriz chorava e a sua tia Inácia dizia-lhe Pronto, agora a tua mãe já é santa e ela vela por ti e pelos teus filhos! Agora segue com a tua vida! 44
A memória da tia Inácia ainda hoje tem uma significação muito especial para os filhos da Emília da casa. A bondosa Inácia Maria Mateus faleceu a 17 de novembro de 1960 em Montemor-o-Novo. Emília saiu da Lobeira com o marido em 1965 passando a viver nos Foros de Vale Figueira, onde já moravam alguns dos seus filhos. As famílias da Lobeira Foram muitas as famílias que habitaram e trabalharam na Lobeira desde que o Monte ficou concluído em 1914 e para isso contribuiram as ligações familiares que já existiam. A família Aleixo Paes saira do Couço para viver na herdade do Meio em 1882 e com ela vieram vários casais jovens de trabalhadores agrícolas. Por seu lado, a minha avó Inácia Maria Mateus chamou para a Lobeira outros casais que eram da sua família Mateus. Segue-se uma lista das famílias que habitaram os três Montes: o Monte da Lobeira de Baixo, o Monte de Cima e o pequeno Monte perto deste, o Monte da Fonte: listam-se também as que habitavam no vizinho Monte da Herdade de Baixo. O proprietário e lavrador desta herdade era Henrique Aleixo Paes, que faleceu a 14 de julho de 1947 e a deixou em herança à sua sobrinha Maria Augusta Aleixo Paes, passando desde então a ser gerida em conjunto com a herdade da Lobeira. Como se pode ver pela lista das famílias, os Montes da Lobeira e da Herdade de Baixo desse tempo, foram habitados por jovens casais que tiveram muitos filhos e eram povoados como uma aldeia. Os descendentes desses casais ligaram-se por casamentos, na primeira e nas gerações seguintes, sendo muitos os que se podem encontrar na genealogia dos vários ramos Mateus, tornando fácil pelos apelidos a identificação da sua origem. Como referência cronológica das diversas famílias indico os anos de nascimento de alguns membros, em particular de alguns filhos (c. significa cerca do ano indicado). Família Ceroula antiga: 45
Mariana da Visitação Pirata (1.º casamento) e António Joaquim Ceroula. Tiveram três filhos, Custódio (1908), Teodósio António e Diolinda Isidora. Mariana da Visitação Pirata (2.º casamento) e José Matias moradores no Monte de Cima da Lobeira. Tiveram dois filhos, Adelino José (1922) e João. Família Ceroula (ver 9.º Cap.º), moradores no Monte de Cima, depois no Monte da Fonte: Custódio Joaquim Ceroula (c. 1908) e Emília Beatriz. Tiveram treze filhos, António (1929), Joaquim Maria (1930), José Custódio (1931), Maria Beatriz (1933), Mariana da Visitação (1934), Custódio Joaquim (1936), Maria Antónia (1938), Mário Custódio (1940), Diolinda Maria (1943), Joaquim Adelino (1944), João Manuel (1946), Maria Emília (1948) e Mateus Joaquim (1950). Família Mateus (ver 7.º Cap.º), moradores na Lobeira de Baixo: João Mateus (1908) e Cristina Antonito. Tiveram sete filhos, Maria Beatriz (1936), Maria Inácia (1938), Quitéria Vitória (1939), António Joaquim (1942), Joaquim Mário (1944), Maria Cristina (1947) e Maria Vitória (1950). Família Gafo, moradores no Monte da Fonte: José Inácio Gafo (1888) e Maria Quitéria Lopes. Tiveram cinco filhos, Joana (1916), Manuel (1918), Custódio (1920), Lubélia (1923), José Manuel (1928) e Maria Inácia. (1930). Família Teles Relvas, moradores na Lobeira de Baixo: Luís Joaquim Relvas (1889) e Antónia Teles (1897). Tiveram oito filhos, Maria Antónia (1918), Joaquim, Luís, Mateus, Maria Luísa (c. 1928), Maria Augusta (1931), Manuel (c. 1935) e António Luís. Família Maneta, moradores na Herdade de Baixo: Francisco Maneta (Ganhão na Herdade de Baixo) e Jesuína Cacilhas. Tiveram seis filhos, Generosa (1927), Júlia, Amélia, Manuel Francisco, Maria Rosa (1944) e António. 46
Família Lourenço, Boeiro, moradores no Monte de Cima: António Lourenço e Francisca Raquel Tiveram cinco filhos, Francisco, Diolinda (c. 1950), Maria Guilhermina, Martinho e Joaquim Manuel. Família Joaquim Inácio, moradores na Lobeira de Baixo: Joaquim Inácio Silva e Rosa Antonita. Tiveram cinco filhos, Manuel Joaquim (1927), Maria Rosa (1929), Mariana, Custódia e Custódio Lourenço (c. 1940). Família Matias, moradores na Herdade de Baixo: Artur António Matias (1902) e Maria Genoveva Martins (1900) Tiveram sete filhos, Margarida (1927), António Artur, Joaquim António (1930), Laurinda (1930), João, Genoveva e Alice. Família Giga, moradores na Herdade de Baixo: António Giga e Josefa Baixo. Tiveram cinco filhos, Inácio (c.1935), José, Manuel, Paulina e Maria Joaquina. Família Aldinhas, moradores no Monte da Herdade de Baixo: Noé Francisco Aldinhas e Alice Maria Prisco. Tiveram cinco filhos, Itelvina (1929), Custódio (1930), Joaquim (1931), Rosaria (1932) e Olaia Rosalina (1934). Família Anacleto da Cruz, moradores na Lobeira de Baixo: Joaquim Anacleto da Cruz (1913), Feitor e Mariana da Piedade Sezões (1917). Tiveram cinco filhos, António João (cerca de 1942), Miguel, Joaquina Esperança (1948), João e José Carlos. Família Mareco, moradores na Herdade de Baixo: Manuel Mareco (Ganhão na Herdade de Baixo) (1911) e Maria Custódia Lebre (1913). Tiveram três filhos, Francisco, Manuel (1946) e António, estes gémeos. 47
Família Machado, moradores no Monte de Cima: Joaquim Feliciano Machado e Narcisa Maria Tiveram cinco filhos, António Manuel, Manuel, José Joaquim, Joaquim Inácio (1947), Maria Florinda. Alguns dos filhos dos casais atrás referidos casaram e ficaram a morar nos montes da Lobeira e Herdade de Baixo, tais como: Família de Teodósio Ceroula, moradores na Lobeira de Baixo: Teodósio António Ceroula (1910), Carreiro e Maria Antónia Teles (1915). Tiveram seis filhos, Maria Antónia (1936), Beatriz Maria (c. 1939), António Manuel (c. 1941), Artur (1943), Joaquina Maria (1945) e Inácia Maria (1948). Família de António Joaquim Ceroula (ver 9.º Cap.º), moradores na Herdade de Baixo: António Joaquim Ceroula (1929) e Laurinda Maria Matias. Tiveram três filhos, Artur Custódio (1955), Luís Manuel (1957) e Joaquim António (1966). Família de Joaquim Maria Ceroula Raposo (ver 9.º Cap.º), moradores na Herdade de Baixo: Joaquim Ceroula (1930) e Amélia Maneta. Tiveram quatro filhos, Isabel Maria (c. 1965), Jorge Manuel, Francisco Joaquim e António Paulo. Família de Joaquim Teles, Moradores na Herdade de Baixo: Joaquim Teles (1920) e Maria Rosa Silva. Tiveram sete filhos, Fernando (c. 1950), Maria Joaquina, António Joaquim, Maria Antónia, Manuel, Rosaria e Duarte. Família de Mateus Teles, moradores na Herdade de Baixo: Mateus Teles (1927) e Itelvina Aldinhas. Tiveram duas filhas, Maria Margarida (c. 1953) e Beatriz. Família Gafo, moradores na Herdade de Baixo: 48
José Manuel Gafo e Maria Luísa Teles (1929) Tiveram uma filha, Antónia. Família de Adelino Matias, moradores no Monte de Cima: Adelino Matias (1922) e Maria Inácia Gafo (1930). Tiveram quatro filhos, José Adelino (1951), Conceição do Rosário (1954), Margarida Maria (1955), António Joaquim (1959). Família de Manuel Joaquim da Silva, moradores no Monte de Cima: Manuel Joaquim Silva e Leonor Maria Chinita. Tiveram sete filhos, Joaquina Maria (1957), Francisco Manuel, Maria Júlia, Joaquim Lourenço, Diolinda Maria, Custódio Joaquim e João Fernando. Família de Joaquim Machado, moradores no Monte de Cima: Joaquim Inácio Rosado Machado e Joaquina Maria da Silva. Tiveram duas filhas, Mara Florinda (1975) e Carlos Alberto (1976). Além destas famílias, outras, incluindo os filhos, trabalharam na Lobeira embora residindo no Ciborro, Foros da Caneira ou Foros de Vale Figueira: Família Grulha, moradores no Ciborro: Manuel Filipe Grulha e Perpétua Maria Moreira. Tiveram quatro filhos, Manuel Francisco (1920), António Manuel (1922), Marina (1928) e Maria (1937). Família Pinto, moradores no Ciborro: Arnaldo Pinto (c. 1905) e Maria José. Tiveram quatro filhos, Manuel Arnaldo, Leonardo, Ricardo e Carolina. Família Rouco, moradores nos Foros da Caneira. Custódio Rouco (c. 1910) e Joana Gafo. Tiveram três filhos, José Vicente (c. 1936), Custódio José e Inácia. José Iria, morador no Ciborro. O mestre João Pataco e os seus filhos Narciso, Manuel e Jacinto, em longos períodos como pedreiros. 49
Os irmãos António Joaquim Catarro (1928) e Adriano Brissos Catarro (1930) (ou Rola, apelido da sua mãe), tratoristas, moradores nos Foros de Vale Figueira. A Família Canelas No Arquivo Distrital de Évora, na freguesia de S. Geraldo encontramos nos registos paroquiais dos primeiros anos do século XX batismos de crianças nascidas nos Montes da família, na herdade do Meio e na herdade de Baixo. Entre esses registos encontrámos o seguinte: S. Geraldo, Registo de Batismo: Aos 12 de setembro de 1909 foi batizado em S. Geraldo JOSÉ, nascido na herdade do Meio a 9 de abril de 1909, filho de António Canelas, trabalhador, natural de Santa Justa (Couço) e de Maria José, natural de S. Matias, Niza, neto paterno de Manuel Canellas e de Adeodata Aleixo, neto materno de José Marques Tôco e de Emília da Graça. Foi padrinho Henrique Aleixo Paes, solteiro, lavrador e madrinha Augusta Aleixo Paes, casada, ambos residentes na Herdade do Meio. Casou com Rosária Maria Aldinhas a 4 de janeiro de 1945. Faleceu a 17 de setembro de 1990 em Montemor-o-Novo. José Canelas era o terceiro dos seis filhos de António Canelas e de Maria José, quase todos nascidos na herdade do Meio. Os seus nomes são: Arménio, Deodata, José, Emília, Francisco e Augusta. Existia uma ligação de parentesco entre a família Aleixo Paes e a família Canelas, uma vez que Adeodata Aleixo, referida no registo de batismo que se transcreveu, era irmã de Augusta Aleixo, ambas naturais do Couço e filhas de Custódio Silvestre e de Silvéria Aleixo. Augusta Aleixo adotou depois os apelidos do marido, Aleixo Paes. Não admira pois que os padrinhos do batismo fossem Augusta Aleixo Paes e Henrique Aleixo Paes, respetivamente tia e primo direito do pai, António Canelas. 50
Aliás António Canelas e a sua mulher Maria José, que faleceu muito idosa e a quem chamávamos de comadre Maria José, viveram próximos dos seus parentes Aleixo Paes: Arménio e Diodata nasceram na herdade dos Castelos, de Valenças, mas os irmãos seguintes, José, Emília e Francisco nasceram na herdade do Meio. E a filha mais nova, Augusta, nasceu na Lobeira de Baixo cerca de 1916. Destes seis filhos, Francisco Canelas, com os seus noventa e sete anos de idade e com uma memória invejável, mudou-se contrariado da sua casa no Ciborro, que pertence quase a fundação dessa vila para um Lar de Idosos em Montemor-o-Novo. Trabalhou muitos anos com o seu irmão mais velho Arménio numa empresa de carvão vegetal, denominada nesta região de carvoeirias. Faleceu no dia 25 de abril de 2012. A sua irmã Deodata, a única dos irmãos que conservou o apelido Aleixo, casou e teve uma filha no Ciborro. Enviuvou cedo e foi trabalhar para a herdade do Meio, nessa época, a casa Paes d Almeida. Posteriormente foi a governanta da casa Aleixo Paes Vacas de Carvalho em Montemor-o-Novo, onde viveu quase toda a vida e onde faleceu idosa. VER FOTO. Genealogia da família Canelas 1 - Silvéria Aleixo, nasceu a 31 de abril de 1818 no Couço, Coruche e casou com Custódio Silvestre, nascido a 1 de maio de 1817 em Santa Justa, Coruche. Tiveram duas filhas, Augusta e Adeodata: 2.1-1 - Felicidade Aleixa, nasceu cerca de 1840 no Couço e casou a 16 de novembro de 1859 com Dimas Monteiro, viúvo de Anna Soares. 2.2-2 - Augusta Aleixo, nasceu a 10 de outubro de 1846 no Couço, Coruche e faleceu a 8 de novembro de 1930 na Herdade de Baixo. Casou na Sé de Évora a 14 de abril de 1885 com Francisco Aleixo Paes, nascido a 28 de setembro de 1845 em S. Mamede, Évora e falecido a 20 de agosto de 1913 na freguesia de S. Geraldo, ele com trinta e nove anos e ela com trinta e seis anos. Era filho de Francisco Aleixo Pais, nascido a 12 de junho de 1818 e fale- 51
cido a 11 de março de 1885 e de Maria Benjamim Rita da Fonseca e Lima, nascida a 22 de maio de 1823 e falecida a 4 de abril de 1895. Tiveram cinco filhos, referidos no 2.º Capítulo do livro Famílias de Évora, ramo Aleixo Paes. 2.3-3 - Adeodata Aleixo, nasceu em 1885 em Mont Argil e casou com vinte e seis anos no Couço a 4 de janeiro de 1881 com Manuel Canelas de quarenta e dois anos, nascido em 1839, viúvo de Maria do Rosário. Este era filho de Joaquim Canellas e de Antónia Ilhôa, ambos naturais de Cabeção. Tiveram três filhos, António Manuel, Custódio e Ana: 3.1-31 - António Manuel Canelas, nasceu cerca de 1881 na freguesia de Santa Justa, Coruche e foi morador na herdade do Meio, S. Geraldo onde trabalhou como carreiro. Casou com Maria José Semedo, nascida cerca de 1879 em São Matias, Nisa, filha de José Marques Tôco e de Emília da Graça. Viviam no Ciborro e tiveram seis filhos: 4.1-311 - Arménio Canelas, nasceu a 15 de abril de 1904 e casou com Jacinta Maria Frescata. Tiveram cinco filhos: Joaquim, Adélia (1931), Custódio, Maria José e António. 4.2-312 - Deodata Aleixo Canelas, nasceu a 20 de outubro de 1906 e casou com Alfredo Prisco. Tiveram uma filha, Joaquina Maria Prisco, falecida em fevereiro de 2012. 4.3-313 - José Canelas, nasceu a 12 de setembro de 1909 e casou 2.ª vez com Rosária Aldinhas. Tiveram um filho, Alfredo. 4.4-314 - Emília Canelas, nasceu cerca de 1912 e casou com N. Santos. Tiveram dois filhos, Bundâncio e António, este falecido. 4.5-315 - Francisco António Canelas, nasceu a 20 de junho de 1914 e casou com Custódia. Tiveram três filhos, Maria Augusta, José Francisco e António José, este falecido. 4.6-316 - Augusta Canelas, nasceu cerca de 1916 e casou com José Artur Arranja. Tiveram um filho, José Artur. 52
O Monte da Lobeira Como foi atrás referido, um grande amigo e confidente de Joaquim Aleixo Paes era Luís Relvas. Nascera na freguesia do Peso em 1889, filho de Joaquim Luís e de Joaquina Maria Relvas e passou a viver e trabalhar na Lobeira de Baixo. Era casado com Antónia Teles, nascida no Couço em 1897 e teve oito filhos todos nascidos na Lobeira. Desempenhou diversas profissões entre as quais a de pastor. Falava muito com o meu avô sobre espingardas, de fabrico inglês, de canos compridos, pombeiras, etc., que trocavam de vez em quando. Não o fiz mas deveria ter investigado a origem desta família Relvas, já que é muito numerosa na região e se ligou à família Mateus. Com efeito, uma das irmãs de Luís Relvas foi Maria Joaquina Relvas que casou com Mateus Nunes e também a mulher de outro irmão Manuel Mateus era da família Relvas. A sua filha mais velha do casal Luís Relvas/Antónia Teles foi Maria Antónia Teles que casou com Teodósio Ceroula, irmão de Custódio Ceroula, este o marido Emília da casa. Residiram na casa vizinha de seus pais e tiveram seis filhos. Só nesta frontaria do Monte da Lobeira cresceram catorze jovens! Luís Relvas que viveu até as 83 anos de idade, contava que o terreno escolhido para a construção do Monte da Lobeira era bravio, com árvores e um denso mato de estevas. Já existia a Lobeira Velha ou Monte de Cima no cabeço, a cerca de um quilómetro. Foi escolhido um terreno plano a cerca de 400 metros da Ribeira de Lavre, com uma boa fonte atrás, na encosta. A primeira e única filha do casal Joaquim Aleixo Paes/Inácia Maria Mateus nasceu a 5 de agosto de 1918 e foi-lhe dado o nome de Maria Augusta. Maria Augusta estudou em Évora, interna no Colégio das Doroteias. Foi sempre muito religiosa e criou uma capela no Monte da Lobeira. Esta era uma pequena sala ao lado da cozinha, com a porta de entrada para o pátio interior. Um dia, sendo adolescente, descobriu que na Lobeira e na herdade de Baixo os empregados não eram casados pela igreja. Decidida, passou a organizar progressivamente os casamentos de todos os casais. O Padre de Lavre ia à Lobeira e presidia a esses casamentos. 53
Houve um grupo de quatro que incluiu Custódio Ceroula, Artur Matias, Teodósio Ceroula e Francisco Maneta - ver a lista de famílias da Lobeira. Os casais da herdade de Baixo, de outra freguesia, iam casar a S. Geraldo. Henrique Aleixo Paes era muito amigo do seu irmão mais novo, Joaquim e vinha com frequência a pé da herdade de Baixo ao Monte da Lobeira. Sentava-se sempre na mesma cadeira de ferro perto da porta e criticava o irmão pela liberdade que os cães tinham de entrar na casa e deitarem-se à lareira. Também as andorinhas entravam pelo postigo sempre aberto de dia na porta chapeada e faziam os ninhos nas vigas de madeira do teto da sala. As andorinhas já sabiam que tinham de ocupar os seus ninhos e ficarem sossegadas antes que o postigo se fechasse para a noite. Joaquim Aleixo Paes adoeceu e faleceu a 19 de maio de 1938. Tinha cinquenta e nove anos de idade e deixou numa situação difícil a viúva e a sua filha, sem possibilidades de gerirem a lavoura da Lobeira. Isto apesar de contarem com o apoio do seu cunhado e tio, Henrique Aleixo Paes. Maria Augusta tinha tido muitos pretendentes mas escolhera para noivo António Vacas de Carvalho, recém-licenciado em Direito. Este residia em Vendas-Novas com os seus pais e deslocava-se à Lobeira a cavalo. Na Lobeira chamavam ao cavalo Tápisto porque, diziam, tapava ou escondia os dois namorados dos olhares indiscretos. O casamento foi realizado logo nesse ano, a 29 de outubro de 1938, na Igreja de S. Geraldo. António Vacas de Carvalho defendeu apenas uma causa em tribunal e logo a seguir teve de abandonar a advocacia e dedicar-se à lavoura. Sendo filho de João Vicente de Carvalho, o lavrador da herdade da Figueira em S. Cristóvão, onde vivera a sua juventude, adaptou-se com facilidade. E contou com o apoio e ensino de Henrique Aleixo Paes. O primeiro filho do novo casal nasceu na Lobeira em 11 de agosto de 1939, tendo-lhe sido dado o nome de Joaquim e foi o primeiro dos catorze irmãos da família. Mas os meus pais resolveram mudar-se para Montemor-o- Novo onde arrendaram uma casa no Largo das Palmeiras. Em Montemor teriam uma maior facilidade de assistência médica e escolar e assim os outros filhos já nasceram em Montemor. 54
O rés-do-chão arrendado pertencia à família Pascoal que residia no primeiro andar. Um dos filhos Pascoal foi um antigo avançado e extremo esquerdo do Benfica de nome Raúl Pascoal, que descia por vezes ao rés-dochão e não tinha problemas em dar uns toques de bola connosco, ainda crianças. Pode ver-se a sua fotografia com as irmãs no ramo complementar Reis, dos Lavradores de Montemor. Henrique Aleixo Paes faleceu como referido em 1947. Mas lembra-me de nos visitar em Montemor e de censurar levemente a minha mãe pelo número de filhos. Com efeito, em 1945 já tinham nascido cinco filhos e o sexto nasceria em 1947. Henrique Aleixo Paes era alto, de costas direitas e relativamente magro. Sério, não voltava a negociar com quem faltasse à sua palavra. Tinha muita força e contam os que foram seus empregados que levantava em cada mão um saco de trigo para os colocar em cima dum carro. Deu uma ajuda inestimável a meu pai no ensino da lavoura da Lobeira, uma agropecuária tradicional onde a herdade era dividida em nove folhas para a alternância das searas. Poucos anos antes de falecer semeou um sobreiral na herdade de Baixo, numa área a que chamamos o Mato da Roça, sobreiros que só dariam a cortiça cerca de vinte e cinco anos depois. Não me esqueci mais deste exemplo de altruísmo, pois tratou-se dum investimento que só poderia beneficiar as gerações seguintes. Quando Henrique Aleixo Paes faleceu deixou uma quantia em dinheiro a alguns dos seus empregados. Residindo em Montemor, eu e os meus irmãos estivemos sempre muito ligados à Lobeira, distante cerca de vinte quilómetros. Nas férias de Verão passávamos aí todo o mês de setembro. Fazia parte da política do meu pai criar atrativos que mais nos ligassem ao campo. Além de acompanharmos os trabalhos que se faziam na herdade, podíamos caçar e tínhamos sempre dois cavalos à manjedoura para montar. Aliás, em crianças não eram cavalos mas sim quatro pequenos burros malhados. Como as crianças do monte nos acompanhavam nos passeios, estes davam montada até oito crianças. 55
56 Inácia Maria Mateus, a minha avó, comprou para mim em segunda mão uma pequena concertina e contratou um empregado, Adelino José Matias, encarregado dos porcos, para vir ao Monte ensinar-me a tocar. Tinha cerca de sete anos de idade. Não compreendo como é que a minha avó, que seguramente pouco sabia de música, descobriu a minha vocação, porque é certo que, de todos os irmãos, era eu o que tinha mais habilidade para essa arte. Adelino José Matias, nascido em 1922 na Lobeira, era um músico natural tal que não precisou de professores e reside hoje, com noventa anos de idade, numa pequena casa em Lavre onde o podemos encontrar tendo ao seu lado uma concertina. É casado com Maria Inácia Lopes Gafo, também nascida na Lobeira em 1930, e esta é filha de José Gafo, um antigo trabalhador muito interessante, alto, forte e com uma cultura geral, que curava com as suas mãos as entorses contraídas no trabalho. Diga-se que o casal Adelino Matias/Maria Inácia Gafo fez parte dum grupo de quatro casais que foi da Lobeira casar na Igreja de S. Geraldo. Uma fotografia deste Capítulo mostra a madrinha Joana ou Dona Joana com o seu grupo de alunos na Lobeira. Já falei de Joana Lúcia de Oliveira Banha no 2.º Capítulo, página 9 dos Lavradores de Montemor, nascida em 1860 no Couço, a professora primária da antiga geração dos irmãos Aleixo Paes. Sendo órfã, a convite do meu avô, Joaquim Aleixo Paes, veio para a Lobeira onde viveu até ao seu falecimento em 1950. A fotografia mostra crianças que não são fáceis de identificar: são sobretudo os filhos dum seareiro de apelido Barroca que viveu no Monte de Cima da Lobeira, mas um deles à frente, é o filho mais velho da Emília da casa, António Joaquim Ceroula, nomeado no 9.º Capítulo. Devia ter cerca de cinco anos de idade. Tendo nascido em março de 1929, a fotografia é tirada cerca de 1934. António Ceroula lembra-se que apanhou um tabefe da Dona Joana porque saíu da aula e foi brincar, aproveitando a excitação do nascimento na Lobeira da primeira filha de João Mateus. Com efeito, Maria Beatriz Antonito Mateus nomeada no 12.º Capítulo nasceu a 11 de fevereiro de 1936. O ensino foi interrompido passados alguns anos porque a D. Joana partiu uma perna ao dar um passeio pela vinha e não pode dar mais aulas. Anos
depois as crianças passaram a ir à escola no Monte do Barrocal das Freiras. A escola das crianças da Lobeira foi sempre um grande problema e houve um intervalo em que não existiu mesmo, tal que alguns dos que lá viveram não sabem infelizmente ler e escrever. Quando era criança, na década de quarenta, lembro-me bem de um grupo de rapazes e raparigas que partia a pé para a escola, num longo percurso, subindo a estrada que ia passar ao Monte de Cima, à Lobeira de Cima e depois, por uma vereda pelas rochas que atravessava a ribeira da Freixeirinha chegava ao Barrocal das Freiras. Iam a cantar Eu fui ao mar às laranjas/ coisa que lá não havia/ voltei de lá admirado/ com as ondas que o mar fazia e o seu canto ia-se perdendo à distância, no ar límpido da manhã, quando passavam para lá do cabeço. Claro que não me deixavam ir com eles o que me causava um grande desgosto. Anos mais tarde foi aproveitada uma sala para servir de escola no Monte da Herdade de Baixo e vinha dar aulas uma professora primária do Ciborro. Os últimos ranchos Dos meus irmãos, também fui o que mais tempo passava no campo (1) e, principalmente nas férias de Verão, juntava-me aos ranchos e recebia jorna como os outros trabalhadores. Aprendi alguns trabalhos, um deles a ceifar: os homens ceifavam em três margens e as mulheres em dois e o atraso na linha de ceifeiros representava um desprestígio. Ceifavam-se pois as searas com foice; charruava-se com charruas puxadas pelos bois de trabalho; debulhava-se com as máquinas fixas, alimentadas à mão de cima do frascal; podava-se ou esgalhava-se com machado, tal como se tira ainda hoje a cortiça, etc O ambiente era alegre. A Lobeira estava cheia de jovens, rapazes e raparigas - vejam-se as fotografias dos irmãos Ceroula e dos filhos do tio João (1) Neste site, em outros livros do autor, publico o livro O Fracasso de um Processo A Reforma Agrária no Alentejo, que é quase um diário da tentativa de coletivização comunista no Alentejo de 1975 a 1977. 57
Mateus e do mesmo tipo eram os muitos filhos dos casais que atrás se listaram. A seguir à concertina, toquei acordeão e por vezes tocava com outros colegas acordeonistas, até porque a aldeia do Ciborro era considerada a terra dos acordeonistas, e em muitos fins-de-semana organizavam-se bailes. Nesses anos nunca se falou de política. O Monte da Lobeira fica a meio caminho entre Ciborro e Lavre, cerca de oito quilómetros de distância de cada uma dessas localidades. O Prémio Nobel José Saramago esteve algum tempo em Lavre em 1977 e escreveu o romance Levantado do Chão, com alguns episódios que se passam na região de Lavre e nesse tempo em que o trabalho agrícola era todo manual e que eu acompanhei. Não tenho dúvidas que José Saramago escreve de forma genial mas quando li o seu livro pensei que Saramago via a vida rural através de óculos completamente escuros. O seu sonho de escrever o romance Isto é o Alentejo não cumpriu o objetivo e ficou-se por um livro político. Não conseguiu ver para além de o latifúndio, a causa de todos os males e principalmente não reconheceu o valor da cultura rural que existia nesse tempo. Na realidade, esse tempo já estava perto da altura em que surgiram as máquinas no campo e se procedeu a uma mecanização dos trabalhos agrícolas. Na época ainda não havia outra possibilidade que fazer o trabalho manualmente. Saramago condena a debulha e põe na boca dum dos seus personagens a frase: isto não é trabalhar, é morrer. De facto a debulha, onde eu também trabalhei porque era feita no verão, era realizada com máquinas fixas accionadas por motor e correias, havia moinha e poeira no ar que, com o suor, se colava ao nosso corpo. Mas sempre pensei que a palha é o material mais inerte e mais inócuo que existe, pelo menos na Lobeira, no fim do dia de trabalho, íamos os mais novos, em grupo, alegremente tomar banho na ribeira de Lavre ou por vezes no açude do Espargal da vizinha herdade do Pedrógão. E permitam-me a pergunta: como diabo queria Saramago comer pão se não se debulhasse o trigo? José Saramago não referiu pois que na época não havia ainda alternativa ao trabalho manual; não escreveu que estas famílias eram sãs, que os jovens eram educados para isso bastando o exemplo dos pais; não referiu que a 58
lavoura duma herdade tinha de sustentar as famílias e todos os que viviam nos Montes dessa herdade; as mulheres e filhos dos empregados tinham aí trabalho porque era assim a regra, numa época onde a produtividade do trabalho manual era muitíssimo baixa, para o que basta imaginar a lavoura feita a passo de boi; que a vida dum trabalhador rural era muito difícil, sendo o trabalho no campo árduo e sujeito ao tempo, mas que os ranchos também eram alegres, muito se falava e muito se convivia. Saramago listou com precisão todos os trabalhos do campo mas omitiu até que ponto cada trabalhador agrícola tinha de desenvolver competências desde a sua juventude para realizar esses diferentes trabalhos. Possuíam verdadeiros cursos práticos e eram invejavelmente destros no seu desempenho: Cada trabalho tem o seu preceito, diziam eles. Por exemplo, um jovem não podia tirar cortiça antes de saber trabalhar bem com o machado, competência que desenvolvia em dois anos de esgalha; e teria de tirar dois anos cortiça, sendo aprendiz na sua casa agrícola, até ser considerado um tirador. Um bom trabalhador agrícola tinha todas essas competências, dominava todas essas artes, tinha uma calma confiança nas suas capacidades, era prestigiado entre os companheiros e cobiçado pelas raparigas para formar família! O romance de Saramago muito peca porque, como atrás referido, omite a cultura rural desse tempo, de tal forma que retira o justo valor ao trabalhador agrícola da época! (2) (2) O romance de José Saramago Levantado do Chão foi escrito tardiamente, depois de 1977, quando as condições de trabalho no campo que descreve já não existiam. Recentemente, em 2010, a Fundação José Saramago publicou a autobiografia de João Domingos Serra com o título Uma Família do Alentejo. O prefácio é de José Saramago e ele revela que, para escrever o seu romance Levantado do Chão, se baseou em conversas com alguns trabalhadores rurais de Lavre e sobretudo nos episódios do manuscrito de João Domingos Serra. Este que escreveu não um romance mas as suas memórias, teve uma infância muito infeliz porque o seu pai, que não era trabalhador rural mas sapateiro de Lavre e com o vício de alcoolismo, andava de terra em terra na região, causando privações à sua mulher e filhos. O romance de Saramago nada tem a ver portanto com uma tradicional família rural alentejana. 59
Com a modernização da agricultura e as melhores condições de vida dos trabalhadores agrícolas tudo se alterou. Cerca de 1955 o meu irmão mais velho, que estudava em Agronomia, convenceu o meu pai a comprar um trator e dispensar os bois de trabalho - hoje parece-nos longe esta realidade! O meu pai argumentava que os bois davam o trabalho e ainda valiam na venda, enquanto os tratores se avariavam ainda muito, interrompendo o serviço. Tratores, ceifeiras móveis, motosserras, enfardadeiras, gadanheiras, etc., impuseram-se; herbicidas dispensaram os ranchos da monda e mais tarde, o advento das cercas reduziu substancialmente os maiorais de gado. As mulas e os carros de parelha desapareceram, tal como os bois de trabalho. As competências e artes da época deixaram de ser necessárias; tal como desnecessários os ranchos da monda, da ceifa, da debulha, etc. Depois disso praticamente só existem os pequenos ranchos de tiradores de cortiça, trabalho que não conseguiu ser mecanizado. Em grande parte nessa altura as famílias deixaram de viver nos Montes e deslocaram-se para as localidades vizinhas. A época que descrevi desapareceu definitivamente e não voltará mais. Os campos estão quase desertos e são poucas as pessoas que aí trabalham; hoje até das aldeias desapareceram os jovens: muitas estão transformadas em grandes lares de idosos, esses sentados no largo público. Quanto aos campos povoados, os caminhos, os grupos de jovens, os risos, os cantares e a concertina, a estreita convivência com as gerações mais idosas, acabei por descobrir que ainda hoje existem: mas apenas na memória dos que viveram esse tempo, que na sua maior parte ainda estão felizmente vivos, com filhos, netos e alguns bisnetos, os quais tenho encontrado. A 26 de fevereiro de 1966 foi o meu casamento e preparei uma segunda festa na Lobeira para todos aqueles meus amigos. Contratei o rancho folclórico de Montemor e os acordeonistas do Ciborro. Houve almoço e foram tiradas muitas fotografias que depois se distribuíram, das quais mostro algumas. A 13 e 14 de agosto de 1975 foi a ocupação da Lobeira. Mas em 1975 já a vida do campo se tinha modificado e a população agrícola tinha passado a 60
viver nas localidades. Foi uma ironia que o estandarte da coletivização comunista tenha sido as duras condições do trabalho manual no campo, quando este praticamente já não existia porque fora alterado pela mecanização! Nesse período em que a Lobeira esteve ocupada, a 19 de fevereiro de 1976 faleceu por doença em Lisboa, com a idade de 57 anos, a minha mãe Maria Augusta Aleixo Paes. Não se pode fazer a relação entre a ocupação da Lobeira e o seu falecimento. É certo que este período foi muito difícil para a família, principalmente para o meu pai que ficou sem atividade e sem meios de subsistência para a casa onde ainda estavam cinco irmãos menores, estudantes. Mas a minha mãe era muito religiosa e desligada de bens materiais. E acho que não foi por um simples acaso que precisamente a 19 de fevereiro do ano seguinte, em 1977, a Lobeira nos foi entregue. O meu pai viveu até 1993 e organizou a Lobeira como sociedade agrícola por quotas de quinze sócios, pai e catorze filhos. Passou a gestão para um deles, Pedro, engenheiro agrónomo (3). Hoje, em 2012, faleceram infelizmente dois irmãos deixando filhos e, para facilidade de organização, a Lobeira foi transformada em sociedade anónima, ainda com o mesmo gestor. A Lobeira, além da produção agrícola agora com regadio e pecuária, dá um apoio a irmãos, filhos e netos para todos os eventos e férias que lá queiram realizar, o que temos esperança que assim se mantenha! (3) O 8.º Capítulo dos Lavradores de Montemor-o-Novo e Alcácer do Sal contém a genealogia da minha família Aleixo Pais Vacas de Carvalho, e inclui a biografia de três irmãos, um que foi fuzileiro na Guiné e outros dois que foram comandos em Moçambique e Angola. 61